31 de mar de 2019

EUA se arrependeram de dar o Golpe de 64

São os documentos que mostraram que Geisel mandava matar


De José Marques, na Fel-lha:

Documentos indicam que EUA previam eleição após golpe de 1964

Documentos da CIA e do Departamento de Estado do Estados Unidos, tornados públicos nos últimos anos, apontam que o governo americano acreditava que os militares brasileiros manteriam o calendário eleitoral após o golpe de 1964.

No entanto, com o avanço da repressão nos anos seguintes e as edições de atos institucionais, a gestão Lyndon Johnson se arrependeu de não ter se afastado do regime iniciado pelo ex-presidente Castello Branco (1964-1967).

A divulgação dos documentos foi feita em rede social pelo professor de relações internacionais da FGV (Fundação Getulio Vargas) Matias Spektor, colunista da Folha, e pelo pesquisador da instituição Vitor Sion, doutorando pela Unesp.

Pouco após o golpe de 31 de março, em 22 de abril de 1964, documento assinado pela chefia da CIA diz que "em boa medida pelo nosso respeito às habilidades dele [Castello], nós estimamos que o regime interino provavelmente conseguirá sobreviver e manter eleições livres em outubro [de 1965]".

A ficha começou a cair em 1965, especialmente após a edição do Ato Institucional nº 2, que determinava em definitivo eleições indiretas para presidente, dissolvia os partidos que atuavam na época e aumentava o número de ministros do Supremo Tribunal Federal, entre outras medidas.

Em telegrama do então embaixador americano Lincoln Gordon que descrevia ao Departamento de Estado uma conversa que teve com Castello Branco, ele afirma que o impacto do AI 2 nele foi de "choque e tristeza".

"Eu fiquei chocado com a extensão dos poderes arbitrários tomados por meio do ato e entristecido com o fato de que isso simbolizava um grande revés no esforço dele [Castello Branco], que as autoridades americanas acompanhavam com grande simpatia, em trazer a total normalidade constitucional sem comprometer os princípios básicos da revolução", diz o texto.

Nos anos seguintes, já no governo Costa e Silva (1967-1969), os EUA voltam a relatar que o aparelho repressivo vinha engrossando. Em 1968, no apagar das luzes do governo Johnson e com o republicano Richard Nixon já eleito, os americanos resolveram suspender a transferência de ajuda financeira ao Brasil.

"Mas, depois disso, chega o governo Nixon e redobra a aposta na ditadura", afirma Matias Spektor. Segundo ele, a principal revelação desses documentos é a percepção do governo norte-americano de que "cometeu um erro de avaliação que ao apoiar o marechal Castello Branco".

Em um documento de 25 de dezembro de 1968, dias após o AI 5, o secretário de Estado Dean Rusk faz uma autocrítica sobre a relação que teve com o regime brasileiro.

"Em retrospectiva, acreditamos que erramos após o ato de outubro de 1965 em não nos afastarmos da nossa associação e identificação pública com o governo de Castello", afirmou.

Segundo ele, o Brasil foi incapaz de obter sucesso com a tentativa de "democracia meio que aberta" entre 1945 e 1964 e "agora perdeu a chance — ao menos no presente — de seguir adiante mesmo debaixo de uma democracia semiautoritária".

No ano passado, Spektor já havia publicado outros documentos liberados pelo governo americano sobre a ditadura. Neles, a CIA diz que o ex-presidente Ernesto Geisel (1974-1979) aprovou a continuidade de uma política de "execuções sumárias" de adversários.
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A Revolução dos Milicos e a Ditadura do País Real

“Caminhando e cantando e seguindo a canção

Somos todos iguais braços dados ou não

Nas escolas, nas ruas, campos, construções

Caminhando e cantando e seguindo a canção

Vem, vamos embora, que esperar não é saber,

Quem sabe faz a hora, não espera acontecer

(..) Pelos campos há fome em grandes plantações

Pelas ruas marchando indecisos cordões

Ainda fazem da flor seu mais forte refrão

E acreditam nas flores vencendo o canhão

(…) Há soldados armados, amados ou não

Quase todos perdidos de armas na mão

Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição

De morrer pela pátria e viver sem razão”.

Geraldo Vandré
Não podia deixar passar 31 de Março de 1964 – embora o golpe tenha vindo de fato no Dia da Mentira, 1º de abril – especialmente neste momento em que as vivandeiras alvoroçadas, para usar uma expressão do ditador marechal Humberto Castello Branco, querem voltar  a comemorar a data. Que é mais ou menos como fazer um batizado no Dia dos Mortos. E o Dia dos Fiéis Defuntos virou o Dia de Todos os Santos. Hoje visto preto, mas poderia vestir uma alegre camisa havaiana. O escracho seria o mesmo. Por que não havia nada mais previsível que o presidente que nega os 21 anos de ditadura, que pisa sobre os corpos dos mortos e desaparecidos políticos, que acende velas para torturadores – carrascos do choque elétrico, pau-de-arara e afogamento -, tentasse transformar   o 31 de Março no novo 7 de Setembro. É o raciocínio de um lunático. E a estratégia de um homem que, num looping histórico, saltou de um mandato vazio para o cargo mais importante da República e agora cava com palavras e ações seu próprio desterro, numa cova da história – o que tardará menos do que esperam os salteadores dos sonhos do povo.

Jair Bolsonaro nem está no Brasil, com sua camisa verde e amarela – como cada vez em menor número são os bolsominions de raiz, raça em extinção atingida por uma epidemia coletiva de vergonha. Já que autocrítica é vacina em falta. Está em Israel namorando Benjamin Netanyahu, tripudiando sobre o sangue palestino e árabe, numa verdadeira violação da lei internacional, como tripudia sobre o dos brasileiros que lutaram contra a ditadura. A Palestina é o novo Araguaia. Tanques israelenses atacaram bases militares do Hamas na noite deste sábado. Sirenes dispararem no sul de Israel. Que simbologia para esse 31 de março, do Congresso sitiado por tanques, dos políticos cassados, dos artistas exilados, dos livros queimados, jogando fumaça negra para os porões que se abririam, as torturas que viriam com o patrocínio do Estado, as Operações Condor, multinacionais do crime político, as perseguições que tornariam rotina o medo, até que passou.

Na Justiça, uma triste disputa vencida pela Advocacia-Geral da União, que a essa altura tem o peso de nada, suspendeu a determinação da Vara Federal do Distrito Federal para que a União se abstivesse de promover uma mensagem oficial em alusão ao dia 31 de março de 1964. Uma comenda militar urgente para a liminar da desembargadora de plantão, Maria do Carmo Cardoso. Ela provavelmente também aprovaria o oficio de fevereiro de 1971, enviado a prefeitos em plena ditadura, detalhando ordem do general Garrastazu Médici para que celebrassem o 31 de Março, nem que fosse inaugurando obras – como revelou o Correio Braziliense. Que Maria do Carmo nunca viva em um país que executa a tortura ou desapareça com militantes políticos. Comemorem, ignorantes! Soltem fogos, covardes! A maioria, o povo, os tem sob a mira telescópica da verdade.

Ao recomendar a comemoração, ou “rememoração”, do golpe militar de 1º de abril e a revisão histórica do que um grupo de milicos muito doentes chama de “revolução democrática de 31 de Março” – incluindo, tristemente, a nata dos generais da ativa que cercam o Planalto, escravos de sua própria doutrinação -, um autêntico ensaio sobre a cegueira, Bolsonaro coloca o País, como o fez durante a campanha, em um confronto político. Mas não são mais os antipetistas versus os petistas. São os democratas contra os defensores da ditadura. Foi esse nível de exumação histórica que Bolsonaro percorreu, desautorizando as memórias póstumas de seu povo e soterrando os conceitos democráticos mais elementares.

Mais que atiçar brasileiros contra brasileiros, ele tenta recontar a história, criar uma narrativa surreal que não frequenta a lógica, milhares de depoimentos de sobreviventes, ou os livros de história, transformando ditaduras sanguinárias, como do Brasil, do Chile e do Paraguai, em passeios por cemitérios, relativizando o conceito de violência e tortura e enforcando a democracia em uma sala pequena com pé direito baixo. Como já disse Bolsonaro sobre a morte de Vladimir Herzog, barbaramente torturado até a morte, em poder de autoridades militares do DOI/Codi, em São Paulo, “suicídios acontecem”. Mal sabe Bolsonaro que quem se suicida diariamente é ele, figura tosca que um dia será reconhecida como merece, no rodapé onde confabulam os medíocres enquanto os verdadeiros heróis fazem história.

Volto meus olhos agora para outro domingo, dia 7, quando Lula completará um ano preso num espaço de 15 m² no quarto andar da Superintendência da PF em Curitiba – mas com antena parabólica para o coração de milhões e milhões de brasileiros. Mesmo preso e impedido de dar entrevista por decisões judiciais, Lula não abandonou a política, nem a política o abandona. Como narrou a Folha de S.Paulo, em reportagem hoje, informa-se sobre cada passo do governo Bolsonaro e avalia como real o risco de o presidente ter o tapete puxado pelos próprios militares do governo. O mundo dá muitas voltas mesmo. Bolsonaro está preso no subsolo de 31 de Março de 1964 e Lula nunca este mais livre, há 365 dias passeando todos os dias em nossa memória e em nossos desejos de um país novo, diferente, melhor, democrático.

Ricardo Miranda
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31 de março de 2019

Xavier: o passado é hoje


O Conversa Afiada publica sereno (sempre!) artigo de seu colUnista exclusivo Joaquim Xavier:

Sei que estou na contramão de muita gente que, comigo, enfrentou e sofreu as consequências do golpe militar de 1964. Só quem experimentou aqueles tempos, perdeu familiares, sacrificou anos de vida, estudo e juventude, foi vítima de atrocidades indescritíveis, pode ter ideia da brutalidade que é viver sob o tacão de um regime como o que regeu o Brasil de 1964 a 1985.

Não reivindico o chamado “lugar de fala”, expressão tão em moda nos dias atuais para interditar “narrativas” (argh!) contraditórias. Considero que mesmo quem não passou por aqueles tempos trevosos é capaz de entender o martírio daquela geração. Fosse diferente, a história de nada valeria. São mais do que justificados os protestos contra as iniciativas do governo de um militar desmiolado de celebrar uma data que envergonha a civilização.

Só que não se vive do passado. A ditadura de 1964 foi vencida graças à resistência popular. Se causa náusea a tentativa de vender a quartelada como “libertadora”, preocupa também a ênfase com que este assunto ocupa a mídia alternativa (com a oficial) num momento em que o país enfrenta problemas tão graves e urgentes.

Estou mais preocupado com o golpe de 2016, confirmado com a fraude escandalosa de 2018.

O Brasil hoje é o paraíso do Uber, a esconder nos números uma quantidade muito maior do que os 46 milhões de desempregados, desocupados, desalentados – chame-se do que quiser - estampados em estatísticas oficiais.

Viramos o país dos motoristas de bacanas endinheirados à base do suor do povo trabalhador.

Estou pouco preocupado com as bolsonarices de comemorar nos quarteis um golpe derrotado pela força popular. Alguém esperava o contrário?

Mas, estou bastante preocupado com o destino das milhões de famílias hoje encaminhadas ao matadouro de um país sem emprego ou perspectivas.

Os oposicionistas de plantão, mesmo os bem-intencionados, parecem pensar diferente. Gritam histericamente contra a apologia da ditadura morta, porém é sonolenta quando se trata da ditadura de fato em curso. A olhos vistos, está em marcha um movimento de liquidação do Brasil para transformá-lo em BraZil.

Mas não se vislumbra uma mobilização à altura deste risco. Mais cômodo falar do passado. O PT tem a maior bancada da Câmara. Com aliados, reúne uma bancada invejável de governadores. Uma musculatura com força para emparedar este governo reacionário com iniciativas capazes de frustrar golpes contra a democracia e a soberania nacional, seja de 1964, de 2016 ou de 2018.

Esse é o ponto. O resto é dormir na cama que é lugar quente.

Joaquim Xavier
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Mídia brasileira se deixa humilhar na era Bolsonaro


Estávamos em 2016. A dois anos, portanto, das eleições regulamentares, previstas em lei. Estimulado por uma articulação urdida no seio do PSDB – que já vislumbrava a sua total incapacidade de fazer o próximo presidente – e de um vice do PMDB, ressentido e ambicioso, (com certeza de olhos no fórum privilegiado do cargo) o Congresso atropelou a Constituição e aprovou um impeachment sem crime configurado, sem provas concretas para justificá-lo.

O país trocou os pés pelas mãos. Tal como em "Alice no país das Maravilhas" – (Lewis Carrol), encantou-se com o exotismo de um coelho que falava e usava relógio. Entrou em sua toca sem refletir que descer seria fácil. Difícil mesmo era encontrar a saída.

O que faltava na conta da presidenta Dilma, para levá-la ao impeachment, sobrava na do vice: fortes indícios das suas falcatruas. E o que importava isto, naquele momento, se havia o perigo do retorno de Lula? Tudo, menos a volta de Lula, pareciam concordar a elite, a classe média intolerante e até a corte suprema, que se omitiu em fazer valer a letra da lei em momentos cruciais. Nada disto contou. Havia um plano de reformas a ser levado adiante, de interesse do mundo empresarial. Porém, o papel decisivo foi o da mídia, orquestrando manifestações e levando para a rua o discurso do ódio ao governo legalmente eleito.

Eis que, Dilma deposta, vieram à tona os malfeitos do vice. Os índices de aprovação da presidenta - um dos argumentos para o seu impeachment -, ainda na casa dos dois dígitos, nunca foram alcançados pelo seu sucessor, que desde que pisou no palácio ouviu o coro de "fora Temer". O que fez a mídia? Não fez. Não apurou verdadeiramente, ignorou denúncias e manobras, movidas a farta distribuição de emendas para impedir que o presidente ilegítimo – nunca é demais lembrar – virasse réu.

Michel não foi incomodado. Entregou o que esperavam dele. O pré-sal, a reforma trabalhista, e quase fez o gol de placa, a tão sonhada reforma da Previdência. Por conta disto, foi deixado em paz, não foi devidamente investigado, não houve apuração, de fato, dos seus malfeitos. Saiu do Planalto pela rampa principal.

Na descida, deu posse ao candidato que se não foi o escolhido dos meios de Comunicação, foi o acolhido. Valia qualquer um, desde que o PT fosse escorraçado de Brasília. E a mídia lá, omissa. Não cobraram do candidato da ultradireita participações em debates, não respeitaram o tempo de TV estipulado para a campanha, na cobertura do atentado sofrido pelo candidato; não se debruçaram, de fato, sobre a vida pregressa do candidato e suas "ramificações"; não cobraram dele projetos, plataforma de governo, nada.

Eis que agora, no vazio que se evidencia o seu governo (?), com três meses no posto, esta mesma mídia se dá conta de que é barrada em coletivas, é acusada de persegui-lo e é tratada a pão e água. Perplexa, entra em um processo de esquizofrenia. Nos editoriais, cobra a ausência de ações efetivas, acusam-no de jogar o país num "deserto de ideias", e de não ter aptidão para o cargo. Na linha editorial, em suas coberturas, continua passando a mão sobre a sua cabeça, para não atrapalhar o desenrolar da reforma da Previdência, o samba de uma nota só em que se transformou o discurso dos meios tradicionais. Todo apoio ao mercado financeiro!

Nunca antes na história deste país os jornalões e os principais canais de TV foram banidos dos salões do poder. Assim mesmo, humilhados e escorraçados, seguem com o rabinho entre as pernas, dando uma no prego outra na ferradura, à espera da manchete dos sonhos: "Aprovada a reforma da Previdência". Enquanto isto, escrevem editoriais raivosos, mas não contribuem no trabalho de apuração para esclarecer as muitas perguntas que deveriam ajudar a responder.

Quem mandou matar Marielle? Onde está Queiroz? Para onde foram tantos depósitos feitos pelo chefe de gabinete do filho do presidente? E outras tantas, que gostaríamos de ver respondidas. Por onde anda Adriano, o miliciano? Por exemplo...

Denise Assis, Jornalista há 43 anos, vencedora dos prêmios Esso e Ayrton Senna de Jornalismo, pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade, autora dos livros "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" e "Imaculada", e membro do Jornalistas pela Democracia
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Ministro supremo da Globo é a favor da capitalização!

Em lugar da Escola sem Partido, o Dino prefere o Judiciário sem partido!


O Barroso Ministro operário padrão da Globo deu trepidante entrevista ao Estadão, em estado comatoso (os dois?).

É um exercício em hipocrisia.

Para demonstrar que o Brasil da Lava Jato será diferente da Itália da Mãos Limpas, que botou no poder o patife do Berlusconi:

"Temos uma sociedade muito organizada, que deixou de aceitar o inaceitável"

Sim: organizada!

As milícias do Estado dele, o Rio, que o digam...


Ou não foi o Ministro da Justissa que disse que vivemos sob o comando do PCC?

"Temos uma imprensa livre!", disse o padrão global.

Quá, quá, quá!

A Globo, por exemplo, é tão independente dos bancos quanto o Banco Central e o Estadão...

"E hoje tem as redes sociais".

Que os bolsonários manipularam da forma mais despudorada e sobre o que o Judiciário se calará convenientemente.

"Temos um Judiciário extremamente independente!", garantiu o barrosal global.

Extremamente!

O Ministrário Gilmar Mendes, por exemplo, sem falar no Luiz Moradia Fux e o inigualável Dias Gaspari Toffoli!

Independentes!


"Eles querem Escola Sem Partido. Eu quero Judiciário sem partido!"

Ou "assim como existe a mão invisível do mercado, existe a mão visível do Judiciário!".

Ou, ainda Dino: "O Judiciário e o Ministério Público compactuaram com o Golpe - sem apoio constitucional - e a prisão do Lula - sem provas!"

De volta ao operário global padrão:

"A reforma da Previdência é urgente porque, senão, o País vai quebrar!"

Senão, ministro, quem quebra são os bancos!

Portanto, o ministro padrão é favor da capitalização!

Já, já, vai dar conferencias nas agencias do Itaúúú pelo país inteiro, sem falar na sala que fica na porta do mictório da Universidade de Harvard, e que simula ser de Harvard...

E imaginar que esse padrão operário entrou no Supremo por decisão do zé da Justiça, no lugar do Eugênio Aragão!

É a soma da hipocrisia com a incompetência!

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Meninas, preparem-se para sofrer mais do que os meninos na nova onda de colégios militares

Stéfani (centro) na "formatura de boina" do CTBM-PF, em 2013. 
Foto: arquivo pessoal
“Os fracos não entram. Os indecisos desistem. Só os fortes permanecem.”
Essa era a frase que ficava exposta no CTBM-PF, no Rio Grande do Sul, para receber seus novos alunos. Um dos muitos bordões falados no colégio, que havia sido inaugurado em 2009. Eu fui uma dessas novas alunas, em 2013. Entrei com a expectativa de que a disciplina levasse a um ensino melhor. Ilusão.

Saída de um colégio particular, com muitos sonhos, resolvi que faria a prova para o militar. Escolhi ir, não foi algo imposto, como pode vir a ser para muitas crianças e adolescentes se as escolas começarem a trocar sua administração regular por administrações militares. Fiz até cursinho para passar na prova.

Comparada à antiga escola onde eu estudava, a infraestrutura deixava a desejar. Mas o colégio era novo. Fomos a quinta turma a entrar. Deixei passar, um pouco desapontada. A minha grande decepção foi a biblioteca. No ano em que entrei, a biblioteca ficava em uma espécie de casinha no meio do pátio, que foi destruída para fazerem uma quadra de esportes. Os livros ganharam um canto apertado em uma sala de convivência, bagunçados e desorganizados. A pouca importância que a escola dava aos livros sempre me chocou.

Para entender o colégio, é importante entender o seu funcionamento. No meu ano, eram 60 vagas para entrar, 40 para a comunidade civil, 20 para filhos de militares – sim, havia cotas para filhos de militares. Todos os que pretendem entrar para o CTBM têm que fazer as três fases da prova: teórica, médica e física. A parte teórica possui 50 questões: 25 de português e 25 de matemática. Se tiver um bom número de acertos, passa para segunda fase: a médica, em que tem que se fazer uma série de exames – porque “aluno Tiradentes” tem que ter o corpo saudável. A terceira fase é a física, em que se deve correr 1.600 metros em 12 minutos, fazer 25 abdominais em 1 minuto e 8 apoios em tempo livre.

Passado a prova, entram os 60 alunos, e agora a história começa de verdade. Primeiro, os pais assinam um termo de compromisso, dizendo que vamos seguir as regras e que aceitamos nos basear no regulamento do Tiradentes. Os alunos do 1º ano têm que chegar uma semana antes, para participar da “Semana Zero”. Nela, aprendemos o que é e como “entrar em forma”, que é ficar parado um do lado do outro, cuidando a “cobertura e o alinhamento” (se os alunos estão em uma fila reta) e os comandos, como sentido, descansar, como virar para a direita e para a esquerda em forma. E é “em forma” que se faz a revista dos uniformes: é preciso estar sempre com a saia passada e o sapato lustrado. Até para a trança existem regras: não podem ter fios soltos. A unha deve ser curta e limpa, e só pode ser pintada com tons pastéis, como rosa e nude – uma vez fui com um azulzinho e fui “alterada”. Ah, sim, se você não está com o uniforme e aparência corretos, recebe uma “alteração”, fica de FT (Força Tarefa) e é obrigado a ir para o colégio no sábado de manhã. Quem avalia se os alunos estão “certos ou errados” são os alunos do terceiro ano, os veteranos. Se o aluno do terceiro ano não gosta de você, as alterações tendem a ser frequentes. Eles comandam a formação. E essa formação se divide em duas companhias, uma feminina e uma masculina, que se dividem em pelotões.

Também nos ensinam a marchar e a cantar diariamente o hino. Temos de aprender os lemas das companhias. O da masculina diz “Brigada acima de tudo e Deus acima de todos” – qualquer semelhança com o slogan de Jair Bolsonaro não é mera coincidência.

Além de todo esse controle diário, existia o CAL, (Corpo de Alunos), comandado por um tenente, que cuidava da disciplina dos estudantes. Porque em colégios militares, além de se preocupar com as notas das matérias, é preciso tomar cuidado com a nota disciplinar. Todos começam com a mesma nota, que podem aumentar se você faz coisas pelo colégio, ou diminuir, caso você cometa alguma infração – como ir à aula de unhas vermelhas.

Alguns comportamentos eram ainda mais combatidos, como pensamentos feministas. Apesar das “zero um” – primeiras colocadas na classificação – serem todas mulheres, o machismo estava entranhado naquele lugar. Tínhamos que nos provar mais capazes. Não acreditavam em nós. Lembro até hoje de uma das formaturas de sexta-feira em que um dos responsáveis pelo comando estava muito bravo.
Ou você puxava o saco dos militares, seguia todas as regras, ou seria uma espécie de pária, escanteado, criticado.
Ele destilou quase uma hora de xingamentos ininterruptos. Críticas a governos “populistas”, ao Bolsa Família. Lá pelas tantas, disse algo mais ou menos assim: “Mas vocês, meninas Tiradentes, não são meninas comuns, vocês são fortes, meninas comuns são fracas, vocês são fortes, porque, se não, não estariam aqui”. Lembram do lema de que só os fortes permanecem?

“Quem não puxa saco, puxa carroça”, outro famoso bordão dito pelo comandante. E, lá, isso era real. Ou você puxava o saco dos militares, seguia todas as regras, ou virava uma espécie de pária, escanteado, criticado. Eu estava nessa segunda posição. Eu incomodava muita gente. Muitos colegas. Muitos professores. Muitos militares. Quando descobri que as minhas posições e opiniões tinham esse poder de incomodar, passei a usufruir dele, apesar das represálias.

Muito do que acontecia no colégio ficava lá dentro. Não podíamos postar nas redes sociais e precisávamos nos comportar como “alunos Tiradentes” em todos os lugares. Não podíamos fazer comentários políticos em redes sociais. Não podíamos andar de mãos dadas com namorados. Não podíamos sentar na grama na praça perto do colégio. Não podíamos fazer piadas ou brincadeiras nas redes sociais com assuntos do colégio, porque manchava a imagem da instituição.

Em 2014, ano das eleições, eu e meus amigos apoiamos o petista Tarso Genro para o governo do estado e postamos uma foto nas redes sociais com a bandeira de um partido dito de esquerda. A legenda da foto era uma antiga música portuguesa, que dizia: “quem tem medo do comunismo, são os latifundiários, são os monopolistas, são os colonialistas, enfim, os parasitas”. Não acho que soubéssemos exatamente o que era o comunismo, ou se concordávamos com o partido, mas concordávamos com a parte dos parasitas. E essa foto rendeu. O comandante comentou que devíamos crescer e trabalhar antes de pensar em comunismo. Respondemos que o capitalismo não fazia bem para todos. Fomos elogiados, fomos criticados. Mas souberam quem nós éramos. E não esqueceram mais. Porque comentários políticos não eram comportamento de um “aluno Tiradentes”.

Encontrei outros métodos de provocar, inclusive nos trabalhos obrigatórios para todos os alunos. No segundo ano, os alunos têm que fazer um curta-metragem baseado em obras de autores nacionais. No meu ano, o escolhido foi Erico Verissimo. O meu grupo fez o curta baseado em Incidente em Antares, que é a história de sete mortos que, em dezembro de 1963, por não poderem ser enterrados devido a uma greve dos coveiros na cidade, voltam à vida e expõem todos os podres dos habitantes locais. O livro foi lançado em 1971, sendo uma forte crítica à ditadura militar. Como os militares da época (e os do meu colégio) não entenderam? Até hoje não sei. Mas as represálias pelo curta vieram. O colégio inscreveu todos os curtas para o CinEst, o Festival Nacional de Cinema Estudantil, e Incidente em Antares foi o único premiado. Melhor direção de arte. Estava com o meu nome. Eu não pude ir. Quando o prêmio chegou ao Tiradentes, não fui chamada para receber.

“Nem melhor, nem pior: diferente”. Um terceiro lema do Tiradentes. Não éramos melhores do que as outras escolas, só tínhamos o militarismo que nos diferenciava. Mas ninguém acreditava realmente nisso. A ideia de superioridade, de pertencer a uma elite, convencia muito bem. Os alunos tinham muito orgulho de estar ali – o que eu entendo, devido à dificuldade de entrar e de permanecer –, e concordavam e perpetuavam os ideais do colégio.
Assim que o sargento saiu, fui obrigada a revidar: “a buceta é de vocês, vocês dão pra quem vocês quiserem”.
Quando estava no terceiro ano, fui chamada para fazer parte dos alunos que ensinam os que ingressavam no primeiro. Viver a semana zero mais uma vez. E, um dia, eu e meus colegas estávamos na sala, conversando com os primeiro-anistas, quando um sargento entrou na sala e resolveu contar uma história: “era uma vez, uma chave e uma fechadura. Essa chave abre várias fechaduras, e era considerada uma chave-mestra. Agora, a fechadura que abre com muitas chaves é uma fechadura vagabunda. A fechadura que vale, é a que se abre com só uma chave”.

“Assim é a vida, meninas”, ele finalizou. Eu estava estarrecida e pulei da mesa que estava sentada. Assim que o sargento saiu, no exato momento que a porta fechou, fui obrigada a revidar. A única coisa que saiu da minha boca naquele dia foi impensada, mas significativa: “a buceta é de vocês, vocês dão pra quem vocês quiserem”. Algumas meninas me olharam indignadas. Outras concordaram comigo.

Também eram comuns comentários sobre nossas roupas nas festas – o controle e o militarismo iam além das portas do colégio. Qualquer mínima exposição de liberdade, de não seguir os padrões, de supostamente “não se respeitar”, virava assunto no colégio. As meninas tinham medo de “ficarem faladas”. E todos falavam! No dia seguinte às festas jovens promovidas pelo colégio, o assunto era quem ficou com quem. Os meninos eram vangloriados; as meninas, criticadas.

Lembro de uma vez que o julgamento partiu dos militares, e não dos colegas. Estava abraçando e brincando com uns amigos, não lembro direito o que estávamos fazendo, mas ríamos bastante. E fui chamada no CAL. Não chamaram meus amigos. Só eu.

Finalmente, depois de muito estresse, chegou o dia da formatura. Era dezembro de 2015. Uma nova liberdade desconhecida. Entrei com a música Survivor, da Destiny Child, na versão de Clarice Falcão, que casava perfeitamente com o que eu senti e queria expressar – bom, menos a parte de que eu não falaria na internet, pois é o que estou fazendo agora. Quando recebi o diploma, olhei diversas vezes para o comandante que tentou tornar minha vida um pequeno inferno por três anos. Ele não olhou para mim. Ficou com a cabeça baixa olhando para o celular. Incomodei até o último minuto.

Stéfani Fontanive
No The Intercept
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Por que o Regime de Capitalização não resolve o desafio colocado pelo envelhecimento da população?


1) Primeira observação: a população envelhecer é algo, obviamente, positivo, por isso, diferente dos economistas convencionais, nos referimos, logo no título, ao envelhecimento da população como um desafio e não um problema. Um desafio desejável.

2) Os indivíduos, após a aposentadoria, tem duas formas de obterem o seu sustento:

a) A primeira forma seria o indivíduo, durante a vida laboral, armazenar grãos, carne, água, remédios e afins no porão de casa para consumi-los na velhice.

b) A segunda, se daria via transferência intergeracional: o idoso recebe a transferência de bens e serviços produzidos pelos trabalhadores ativos.

3) Obviamente, a primeira forma de sobrevivência na velhice não parece muito viável, portanto, a segunda opção prevalece: há, independente de regime previdenciário, uma transferência dos bens e serviços produzidos pelos trabalhadores para os idosos que não podem mais trabalhar.

4) Assumida que a segunda forma é a única viável, a transferência entre gerações pode se dar de várias formas:

a) os indivíduos podem adquirir direitos monetários durante a vida a partir de aplicações financeiras, sejam elas administradas pelo Estado ou pelo setor privado. O indivíduo também pode acumular imóveis e coisas do tipo, mas a lógica continua a mesma. Este modelo é, basicamente, o regime de capitalização, que pode ser público ou privado. Com os direitos monetários acumulados durante a vida, na velhice, o indivíduo será capaz de adquirir os bens e serviços produzidos pelos trabalhadores. Ou seja, desculpem a obviedade, mas mesmo em um regime de capitalização a transferência intergeracional é a regra.

b) A segunda forma é via transferência Estatal. O Estado paga os benefícios previdenciários para os idosos e, com esses benefícios, os idosos adquirem os bens e serviços necessários para a sua subsistência. Tais pagamentos são realizados da mesma forma que todos os outros gastos da economia: com a criação de dinheiro novo. As contribuições sociais, apesar da abstração contábil e legal, não financiam os gastos com previdência ou seguridade social, servindo apenas para reduzir a renda disponível dos trabalhadores ativos (e dos inativos que, porventura, paguem contribuição). Ou seja, tributos (dentre outras funções) são uma forma de controlar o nível de renda privada da economia — e, no caso de uma boa política fiscal, servem para adequar a renda do setor privado à capacidade produtiva da economia de forma a garantir o pleno emprego com estabilidade de preços. Este é o atual regime de repartição que funciona no Brasil.

5) Mesmo em um modelo de capitalização puro e com a total eliminação do regime de repartição, continuará havendo, necessariamente, a transferência, ou melhor, a repartição dos bens e serviços produzidos pelos trabalhadores ativos para os idosos.

6) Visto que a transferência intergeracional está presente em todo e qualquer modelo previdenciário, o verdadeiro debate sobre o desafio que é o envelhecimento da população gira em torno de um núcleo fundamental: no futuro, como teremos menos gente para trabalhar e mais gente para repartir a riqueza produzida pelo trabalho, teremos que construir uma economia mais eficiente, ou seja, produzir cada vez mais bens e serviços com cada vez menos trabalhadores. Portanto, a palavra chave no debate sobre previdência é: sofisticação produtiva.

7) Esquematicamente, as formas de lidar com os desafios distributivos gerados pelo envelhecimento da população são:

a) aumentando a produtividade da economia, o que equivale à busca por uma economia mais sofisticada.

b) buscando o máximo de emprego possível para que não seja desperdiçado o potencial produtivo da força de trabalho disponível.

c) reduzindo a transferência de renda intergeracional para os idosos, ou seja, buscando o empobrecimento relativo dos aposentados.

8) Do ponto acima, fica claro que há diferentes possibilidades de ajustes. A introdução do regime de capitalização é uma tentativa de resolver o desafio colocado via empobrecimento relativo da população idosa no futuro. Sendo assim, quem defende o regime de capitalização como uma solução para o desafio imposto, parte da premissa que com a introdução de um modelo do tipo os idosos do futuro, em média, serão mais pobres. Trata-se, portanto, de uma “não-solução”. Reformas no regime de repartição também podem afetar o ponto “c” ao recalcular regras de cálculo para o recebimento do benefício. Alterações em regras de idade para aposentadoria também buscam aumentar a população economicamente ativa, efeito que é similar, por exemplo, à busca pelo pleno emprego ou por uma maior inserção da mulher no mercado de trabalho.

9) Também há todo um debate macroeconômico que envolve a opção por um ou outro regime. Trata-se de um tema muito longo para tratarmos aqui, mas, basicamente, quem defende o regime de repartição costuma partir do princípio da demanda efetiva, onde os investimentos determinam a renda da economia, sendo a poupança mera função desta última. Já os defensores mais sofisticados do regime de capitalização defende a hipótese de que a poupança determina o nível de investimento, sendo o sistema de capitalização um forte indutor da taxa de poupança (este raciocínio guarda relações com a hipótese da neutralidade da moeda). Em outro texto, desenvolveremos este debate.

10) Conclusão: o envelhecimento da população é um desafio que envolve a busca por uma economia mais sofisticada e isso independe de regime previdenciário adotado, já que em todo e qualquer modelo a transferência de renda intergeracional está dada. Sendo assim, é nonsense a proposição de algum modelo de previdência que vise combater o envelhecimento da população ou a transferência/repartição intergeracional (a não ser que o economista proponha que os idosos armazenem enlatados e outros mantimentos em um freezer ou no porão de casa). Por fim, a escolha de um ou outro regime envolve um amplo debate macroeconômico que está para muito além do debate demográfico vulgar que está colocado.

*hoje, no Brasil, apesar da suposta preocupação generalizada com a questão demográfica, mais de 25% da força de trabalho está subutilizada.

** A previdência social, além de ser uma forma de redistribuição de riqueza entre gerações, no modelo de repartição, trata-se, também, de um mecanismo de redistribuição de renda entre ricos e pobres via gasto estatal (claro, isso pode se dar de forma mais ou menos progressiva: ao passo que o pagamento de altas aposentadorias é algo altamente regressivo, o gasto com aposentadoria rural é bastante progressivo).

David Deccache
No Economia à Esquerda
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Programa Pensamento Crítico - Luta de Classes e Movimentos Identitários


No Programa Pensamento Crítico, edição 71, apresentado pela jornalista Elaine Tavares, professora Angélica Lovatto (Unesp) e o presidente do Iela, Nildo Ouriques debatem sobre o identitarismo e a luta de classes.

Equipe: Pedro Cruz e Maicon Cláudio da Silva.

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Um pequeno grupo impulsiona a rede de simpatizantes de Bolsonaro no Twitter

Em três casos de repercussão recente, 9% do total de usuários que se engajaram fizeram quatro de cada dez postagens

Atuação do perfil @gomes28774783 se restringe quase exclusivamente à defesa de assuntos de interesse do governo. Foto: Reprodução
Atuação do perfil @gomes28774783 se restringe quase exclusivamente à defesa de assuntos de
interesse do governo.
Foto: Reprodução
Entre os 4 milhões de seguidores do presidente Jair Bolsonaro no Twitter, o perfil @gomes28774783 chama a atenção. Sua atuação na rede social se restringe quase exclusivamente à defesa de assuntos de interesse do governo. Ele já chegou a fazer 16 tuítes em um minuto. Do dia 9 ao 27 deste mês, foi responsável por 3.170 publicações, o que dá uma média de uma a cada dez minutos.

O perfil @gomes28774783 faz parte de um grupo de apoiadores de Bolsonaro no Twitter com participação ativa, no último mês, em três casos: ataque ao jornal “O Estado de S. Paulo” com base em uma declaração falsa atribuída a uma repórter, na ofensiva contra a nomeação da cientista política Ilona Szabó para um conselho do Ministério da Justiça, e na defesa da atuação de Bolsonaro na viagem aos Estados Unidos.

A artilharia virtual


Realizado com auxílio do Laboratório de Estudos e Imagem de Cibercultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), o levantamento do Globo constatou que um grupo de 5.843 perfis fez publicações em todos os três episódios. Apesar de representarem 9% do total de usuários que se engajaram nesses temas, foram responsáveis por quatro em cada dez postagens. @gomes28774783 foi o campeão, com 1.033 publicações.

— Os dados revelam que perfis atuam deliberadamente tentando impor uma narrativa em relação aos fatos. Como essa rede parece não ser 100% orgânica, ou seja, não é uma rede plenamente espontânea, isso leva a crer que há um mecanismo forte agindo por trás dessa máquina — afirma Sergio Denicoli, diretor de Big Data da AP/Exata, empresa especializada em análise de redes sociais.

Contas suspensas

Após O Globo enviar ao Twitter uma lista de 20 perfis que seriam citados nesta reportagem, três foram suspensos temporariamente na noite de sexta-feira porque a empresa constatou comportamento suspeito. Pelas regras da plataforma, são passíveis de restrição contas que apresentam indícios de publicações automatizadas para turbinar um assunto. Nesses casos, são solicitadas informações, como um número de telefone, para provar que há um usuário real por trás do perfil.

O Twitter não comentou o bloqueio das contas, mas informou que “trabalha globalmente e em escala para detectar e combater proativamente spam e agentes mal-intencionados que têm como objetivo manipular as conversas na plataforma”.

Para Pedro Bruzzi, da startup Arquimedes, que faz análise do comportamento de usuários da internet, o núcleo de apoiadores pode ter o auxílio de robôs.

— Quando esse grupo trabalha unido, ele tem capacidade para transformar qualquer pauta em assunto mais comentado. É possível que haja robôs, mas a gente não tem como afirmar isso.

Os apoiadores de Bolsonaro também costumam atuar em outras redes sociais, mas, na avaliação de especialistas, o Twitter tem um peso diferente.

— Os estudos demonstraram que o Twitter é o local onde nascem temas que serão discutidos — diz Bruzzi.

Apesar de serem ativos nas redes sociais, o presidente, seus filhos Eduardo e Carlos, e aliados, como o ideólogo de direita Olavo de Carvalho, não aparecem no mapeamento porque nenhum deles usou todas as hashtags analisadas.

A avaliação do comportamento dos 5.843 perfis bolsonaristas mais ativos nos três casos leva à constatação de que há dois grupos distintos atuando. O primeiro é formado pelos chamados influenciadores, que fazem poucas postagens, na maioria das vezes de autoria própria, e chegam a um grande número de usuários porque são muitos retuitados. O segundo é composto pelos propagadores, que quase não fazem postagens próprias, mas retuítam os influenciadores e são os campeões gerais de postagens.

@gomes28774783 faz parte dos propagadores. Das suas 1.033 publicações, 99,13% foram retuítes. Criado em novembro de 2018, o perfil não tem foto e segue apenas seis pessoas — Bolsonaro, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), três ministros e a conta oficial do Palácio do Planalto. Sua forma de agir ficou evidente no caso em que o jornal “O Estado de S. Paulo” foi atacado. Na ocasião, fez 573 postagens e ajudou a alavancar a hashtag “estadaomentiu” aos assuntos mais comentados do Twitter. O perfil não aceita mensagens, por isso O GLOBO não conseguiu contatar o responsável.

O principal entre os influenciadores é Allan dos Santos, sócio do Terça Livre, site que iniciou os ataques à repórter Constança Rezende, do “Estado de S. Paulo”, com a publicação de uma declaração falsa.

— Minha resposta é peremptória. Não tem nada organizado. Não tem nenhum tipo de coordenação — disse Allan.

Ele chegou a usar postagens de um perfil falso no Twitter para atacar a repórter. Depois, publicou uma errata dizendo que o perfil não era o de Constança. No dia 23, xingou o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

— Pago impostos e pago o salário do Rodrigo Maia. Ele tem que me tratar como patrão e eu devo tratá-lo como funcionário — disse Allan sobre o caso.

Um perfil do site de Allan já foi bloqueado pelo Twitter. Ele atribui o fato a um bug e a ataques de pessoas que são contrárias ao seu pensamento.

Entre os dez maiores influenciadores, há perfis como @TheGodFather_75 (Dom Corleone), que no dia 10 de março, quando Constança foi alvo de ataques, fez 121 postagens. A conta começou a postar às 0h01 daquele domingo e só parou às 2h07 da segunda-feira (11). Após um intervalo de cinco horas, Godfather voltou a postar a partir das 7h26 e seguiu mais uma maratona. até as 4h35 do dia 12. Nesse período, foram 238 tuítes. O autor da conta se descreve como de perfil conservador, “cidadão de bem” e “pai de família”. Procurado, o governo não se manifestou.

Gustavo Schmitt e Sérgio Roxo
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Olavo de Carvalho toma enquadrada na Justiça


A Justiça cansou. A boçalidade perdeu sua vez.

É isso o que se depreende dos autos do processo 1000250-02.2019.8.26.0050, que corre na 2ª Vara Criminal – Foro Central da Barra Funda -, em São Paulo.

Nele, o escritor Olavo de Carvalho processa o filósofo e professor da da Universidade Federal da Bahia Daniel Tourinho Peres.

Na ação penal, o escritor e guru do governo Jair Bolsonaro acusa o filósofo da UFBA de calúnia e difamação.

Ocorre que, no processo, é o próprio Olavo – por meio de seu advogado – quem ofende, com palavras chulas e agressivas, o professor Tourinho Peres.

É de tal maneira descabida a peça processual apresentada por Olavo à Justiça de São Paulo que a magistrada Daniela Martins de Castro Mariani Cavallanti, responsável pelo julgamento, se viu obrigada a tomar uma medida que raramente se vê nos tribunais: ela ordenou que Olavo de Carvalho se comportasse direito perante à Justiça.

Mandou ele começar o processo todo de novo, dessa vez sem usar ofensas e termos indevidos.

Disse, por fim, que deixa disponível ao professor da UFBA todas as ofensas que sofreu de Olavo neste processo, caso queira ele próprio processar o guru de Bolsonaro.

Veja o que escreveu a magistrada:

“Verifica-se a existência na peça inicial de palavras que afrontam às regras processuais relacionadas à linguagem cortês, civilizada e urbana. Intime-se o advogado constituído pelo querelante, o Dr.Francisco Carlos Cabrera de Oliveira, a excluir ou substituir expressões ofensivas da queixa-crime ofertada, tais como:

(i) “delinquente travestido”;

(ii) “caso de possível esquizofrenia”;

(iii) “cabeça incauta ou doente”;

(iv) “narrado pelo idiota”;

(v) “apenas discorre o bestial”;

(vi) “jargão que alguns nojentos  

(vii) “por canalhice própria”;

(viii) “este desqualificado”;

(ix) “canalhas, canalhas e canalhas”.

Sim, é difícil de acreditar, mas, sabe-se lá por que, Olavo decidiu processar alguém por injúria fazendo ele mesmo uso de inúmeras injúrias para tanto.

Veja, abaixo, alguns dos trechos da peça processual de Olavo, considerada incivilizada pela Justiça. Há muitos erros de português.

Todos constam no documento original e são aqui apenas transcritos.

“Assim, qualquer cidadão com um intelecto mediano, percebe de forma límpida que este desqualificado, militante, ou incauta, em tese, que assinou a matéria supracitada, terá que provar os fatos, ou seja, que o QUERELADO disse as palavras descritas nas mesmas disposições e que suas interpretações estão equivocadas.

Atingindo ainda, por via transversa, a Honra de Autoridades constituídas pelo Nobre Povo Brasileiro, vide inteligência de todo o contido na matéria. Como aceitar isso de um Professor Universitário, pois, em tese, mais parece coisa de aluno que não tem apreço ao verdadeiro estudo.

Muito nos preocupa o nível de alunos que estaremos formando, tomando como base este tipo de Professor, que com todo respeito: não sabe interpretar um texto de baixa complexidade. Por isso que estamos nos últimos lugares nos quadros mundiais da educação.”

(…) “O Mestre Olavo quando interpretou certos aspectos de Kant, não menosprezou o QUERELADO, se quer citou seu nome, pois nem o conhece. Agora o QUERELADO por sua vez, exara pelo inteiro teor da matéria, palavras não ditas por Olavo,após faz criticas depreciativa ao seu trabalho, tudo isso, por canalhice própria, ou, a mando de terceiros, em tese.” (…)

“O delinqüente travestido de Colunista, em tese, escuta aulas inteiras na internet, algumas duram mais de uma hora, a respeito de diversos temas e, ao seu bel prazer: interpreta da forma que lhe aprouver. Ora, ora, a que ponto chegamos isso não é liberdade de expressão, isso além de velhacaria, é crime, em tese, pois ao inserir e retirar frases e palavras do contexto, apenas desenforma a população.” (…)

“Nada mais surreal que: inventar que fulano disse uma coisa, que todos sabemos que não disse para depois interpretar a sua maneira fatos inexistentes. Sem duvida é um caso de possível esquizofrenia, ou mercancia, em tese.”

Estes são apenas alguns exemplos. Chega a ser chocante.

De qualquer forma, a juíza ordenou que Olavo atente para a civilidade no último dia 18.

No dia 20, seu advogado respondeu à Justiça, pedindo desculpas pela impostura, dizendo que agiu “no calor do momento”, e que jamais quis ofender ninguém, já que tanto ele quanto Olavo de Carvalho são “cristãos”.

É ler para crer:

“Em atenção ao r. despacho proferido por Vossa Excelência, este patrono, tendo conversado com o AUTOR (Olavo), data vênia, após o calor das injustas agressões perpetradas pelo RÉU, em tese, onde já se passaram o calor do momento, resolve emendar a exordial, em especial no sentido de atender os requerimentos perpetrados pelo M. M. Juízo, pois tanto este Patrono, como o AUTOR são Cristãos e nunca tiveram a intenção de ofender terceiros, pois as palavras foram colocadas no contexto genérico, as vezes, fazendo alusões a condenados judicialmente como: Lula e outros, bem como produzidas no momento em que o AUTOR estava sendo agredido de forma injusta, ou seja, no calor do momento, vide nexo causal, numa tentativa de repelir a supracitada injusta agressão nas matérias e vídeos veiculadas diversas vezes.”

Olavo de Carvalho pede ainda dez dias extras para enviar uma nova queixa crime, dessa vez – espera-se – feita aos moldes do que exigem as leis do Direito e do bom senso.

Vinívius Segalla
No DCM
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Olavo de Carvalho diz que Stalin planejou o nazismo e a 2ª Guerra Mundial


O escrito e guru do governo de Jair Bolsonaro, Olavo de Carvalho, disse neste sábado (30.mar.2019), em uma publicação em seu perfil no Facebook, que Stalin planejou com “grande antecedência” a ascensão do nazismo e a 2ª Guerra Mundial.

De acordo com Olavo de Carvalho, Stalin queria a “ocupação de metade da Europa pela ditadura soviética”. Afirmou que a liderança comunista foi “ainda mais sangrenta” que o nazismo. Stalin liderou a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviética) por quase 3 décadas.

O escritor ainda disse que Stalin foi o “maior estrategista de todos os tempos”. Defendeu sua opinião citando o livro “Stalins Krieg“, do sociólogo austríaco Ernst Topitsch. Segundo Olavo, Topitsch não se baseou em nenhum documento para chegar às suas conclusões – usou “apenas de análise sociológica”. Segundo o guru, no entanto, “mais tarde a abertura dos arquivos soviéticos deu avassaladora comprovação documental à sua tese”.


Chanceler: nazismo é de esquerda

Na manhã deste sábado (30.mar), o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, publicou um texto em seu blog pessoal no qual defendeu, mais uma vez, que o nazismo e o fascismo eram movimentos de esquerda e não de direita.

“A esquerda fica apavorada cada vez que ressurge o debate sobre a possibilidade de classificar o nazismo como movimento de esquerda. Dá a impressão de que existe aí um perigoso segredo de família, cuidadosamente guardado”, escreveu o chanceler no artigo “Pela aliança liberal-conservadora”, que tem como foco a defesa da união entre as pessoas com essa linha ideológica.

O ministro já havia feito afirmações na mesma linha antes. A mais recente foi em entrevista no canal “Brasil Paralelo, divulgado na 5ª feira (28.mar) no YouTube.

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1964: a infâmia, a cicatriz e o bufão

Entre as muitas coisas que o presidente-miliciano não sabe está quanto seu ato de reconhecimento colocou os militares em uma situação altamente constrangedora, incômoda e na contramão de toda a estratégia tão eficaz construída para ocultar o golpe nas brumas do esquecimento. Na tentativa de se manter no poder, ele pode ter assinado seu passaporte para fora do governo em breve

Cicatrizes são como folhas secas:
já foram verdes
já foram vivas
já foram cortejá
foram dor
Cicatrizes são coisas passadas
Que não se foram
O Golpe de 1964 é uma cicatriz histórica marcada na carne de nosso país e na alma de nosso povo. Uma marca histórica que nos mantem viva a memória necessária para que jamais se esqueça e jamais se repita a infâmia cometida.

A tentativa de ressignificação em curso é mais do que uma desinformação e uma manipulação grosseira de um fato histórico, é a tentativa de cobrir a infâmia com uma grossa camada ideológica que tenta acobertar crimes apresentando-os como atos redentores e encobrindo seu verdadeiro significado, os interesses de classe envolvidos e os sujeitos que perpetraram a infâmia.

Mas, afinal, por que seria necessário tal encobrimento? No final da Ditadura implantada em 1964, o General Golbery operou uma ação que apontava em um sentido diverso do encobrimento. Dizia à época que era necessário colocar os cadáveres da Ditadura para fora do armário e operar a chamada transição lenta, gradual e segura que colocasse um ponto final no evento – daí a concepção da anistia ampla e irrestrita para quem lutou contra a ditadura, mas também para os carrascos e torturadores. Tratava-se de colocar à luz do dia para ser vivida e superada a dor do ato brutal contra um país, para então esquecê-lo.

A catarse do espetáculo acabou por favorecer os interesses das classes dominantes uma vez que o horror dos porões revelados escondia os reais sujeitos do terror. Os militares foram fieis executores, mas não passaram de serviçais dedicados de seus mestres. Os mandantes da infâmia não estavam nos quarteis, nem mesmo no alto comando das Forças Armadas, estavam em luxuosos escritórios das grandes empresas monopolistas, no Brasil e nos EUA. O Golpe de 1964 foi um golpe das classes dominantes, do grande capital monopolista e seus aliados latifundiários e do imperialismo norte-americano. Tratou-se de um ato terrorista tramado com auxílio direto da Embaixada estadunidense, do Departamento de Estado dos EUA e da CIA, executado pelos títeres militares brasileiros.

As denominações “golpe militar” ou “ditadura militar” ideologicamente cumprem a missão de encobrir o caráter de classe do golpe e os verdadeiros interesses por trás dele. Para que tal encobrimento fosse eficaz, fazia-se necessário à cortina ideológica o pretexto para tão brutal interrupção da institucionalidade democrática que vigorava. Para isso serviu o caldo de cultura da Guerra Fria, a luta contra o comunismo, a alardeada ameaça de uma ditadura comunista. Como sabemos, o golpe foi antecedido por dois movimentos complementares: por um lado um intenso processo de estrangulamento econômico, por outro um processo de manipulação política operado por instituições como o IPES e IBAD, numa verdadeira guerra de contrainformação e propaganda anticomunista, fartamente financiado por empresários e pelo imperialismo.

Na verdade, o golpe foi desferido por dois motivos principais: impedir as reformas de base do governo Goulart que se chocavam com os interesses da burguesia brasileira e dos latifúndios, assim como as pretensões do imperialismo estadunidense de se servir do Brasil como uma área de influencia privilegiada de exportação de capitais e controle geopolítico; mas também barrar as lutas sociais, operárias, camponesas que tomavam forma e apontavam para um potencial risco à ordem burguesa. Aqui é preciso frisar este aspecto: tal risco não passava de um potencial que podia se desenvolver, longe de ser uma ameaça imediata à ordem capitalista e uma alternativa remotamente socialista, seja no campo das lutas sindicais e sociais, seja no escopo das reformas de base. Portanto, como define Florestan Fernandes, o golpe foi uma “contrarrevolução preventiva”.

Apresentar essa contrarrevolução preventiva como um desvio, como resultado de uma truculência militar, uma quartelada, servia aos propósitos de quem queria se livrar dos operadores para resguardar seus mandantes. Em parte, o processo de democratização e a anistia lograram este objetivo. O preço exigido pelos militares em troca de assumir a pecha da infâmia foi que se colocasse um ponto final, uma pedra, sobre o horror. Isto é, uma transição que fosse realizada sem abrir arquivos, sem julgamentos e sem grandes acertos de contas, permitindo à corporação militar passar à ordem democrática sem ter que responder por sua reponsabilidade diante do terror.

Por um tempo, o acordo funcionou. Mesmo os honrados esforços da Comissão da Verdade, com as reparações às vitimas e seus familiares, foram sempre tutelados e vigiados para que não extrapolassem os limites da catarse aceitável, mantendo nas sombras as pistas que levariam aos verdadeiros protagonistas e mandantes, assim como aqueles que fartamente se beneficiaram do crime. Mas, e agora? Com explicar essa retomada da iniciativa de se “comemorar” a data da infâmia?

Não é possível entender esse fenômeno se não o inserirmos no quadro geral da bizarrice do atual governo e do bufão miliciano que o comanda. Aquilo que era apenas uma cortina de fumaça ideológica, que todos (inclusive os sujeitos da infâmia) sabem ser mentira, ou seja, a cruzada redentora contra o comunismo e a corrupção, serviu agora de cobertura para que um desqualificado expulso das Forças Armadas construísse sua carreira política e para o discurso de ódio que o levou à presidência. Esse personagem burlesco nunca foi levado a sério pelos próprios militares (ver, por exemplo, o juízo pouco elogioso que o ditador Geisel tinha do personagem). Ele servia apenas a um proposito secundário: ser a versão explícita da extrema-direita que despertaria o ódio irracional contra o PT para apeá-lo do poder ou constrange-lo afim de aceitar os duros ajustes contra a classe trabalhadora. No entanto, ocorre que a criatura fugiu da coleira e chegou à Presidência.

Precisamos constatar, antes de tudo, que ele é um incômodo. Sua total incapacidade de governar, sua inoperância na condução dos acordos e articulações que de fato o levaram à Presidência, sua atitude tosca e irresponsável… todos esses elementos têm marcado com crises quase diárias o andamento do governo, gerando uma instabilidade crônica. Diante da total incompetência, o bufão resolveu manter a campanha e o tom da farsa que o elegeu, como denuncia o conservador jornal O Estado de S. Paulo (apoiador declarado do golpe de 1964 e do golpe de 2016). Diante da vergonhosa viagem aos EUA e a catastrófica passagem pelo Chile (quase um “caminho de Santiago” de peregrinação para extremistas de direita), envolto por atrapalhadas diárias da ala psiquiátrica do governo (Damares, Vélez, Araújo) e pelo desespero do guru econômico Guedes ao ver a reforma da previdência ameaçada pelo bufão de chinelos e arma na cintura, eis que o presidente resolve reafirmar o perfil que ele crê que o liga diretamente com as massas conservadoras por cima e por fora das instituições do Estado, conclamando os quarteis a fazerem as “comemorações devidas” do golpe de 1964.

Esta é uma ilusão renitente na política brasileira. Collor, pouco antes de ser impedido, conclamou as massas a apoiá-lo, mas o exemplo mais próximo se encontra em outro presidente: Jânio Quadros. Como se sabe, Jânio foi uma invenção da UDN para chegar à Presidência, na vã ilusão que poderia usar a seu favor o populismo tresloucado da figura para ganhar a eleição e depois tutela-lo no governo mantendo-o como figura decorativa. No entanto, como acontece no carnaval, quem vestia-se de rei acostumou com a fantasia. Jânio tenta um golpe contra a UDN conclamando o místico apoio do povo que o abandona miseravelmente.

Isolado, atrapalhado e afogado em sua própria mediocridade, o nosso bufão tenta acenar com um agrado aos militares, ternamente afirmando que reconhece o que ninguém admite, que eles foram heróis salvadores da pátria ameaçada, que implantaram uma ditadura para salvar o Brasil de uma ditadura (como disse o imbecil de plantão alojado no Ministério das Relações Exteriores), que os torturadores que laceravam a carne de mulheres e crianças, estupravam, empalavam, passavam corrente elétrica por testículos e introduziam ratos em vaginas, são heróis incompreendidos que estavam purgando a carne para nos redimir de nossos pecados.

Entre as muitas coisas que o miliciano não sabe, está quanto seu ato de reconhecimento colocou os militares em uma situação altamente constrangedora, incômoda e na contramão de toda a estratégia tão eficaz construída para ocultar o golpe nas brumas do esquecimento. Na tentativa de se manter no poder, ele pode ter assinado seu passaporte para fora do governo em breve. Expor o golpe como espetáculo catártico tinha um sentido no final dos anos 1970, mas tratava-se de expor para ocultar. Agora, a exposição tem o mesmo efeito que arrancar a casca da ferida que estava quase cicatrizando.

A direita brasileira (não o fantoche da extrema-direita histérica e burra) já se prepara para fazer o que fez com os militares depois da Ditadura: descartar o instrumento que não mais lhe serve para preservar seus verdadeiros interesses e de seus patrões imperialistas. Começou a contagem regressiva para a queda do clã Bolsonaro e de seu circo de horrores.

Quem o substituir se empenhará em executar os interesses de seus patrões e tirará da gaveta o discurso de como as instituições são fortes o suficiente para corrigir seus próprios enganos. Ninguém pedirá desculpas ou será julgado. Órfãos e viúvas chorarão copiosamente, Janaína Pascoal vai gritar a Deus que a ilumine enquanto sacode no ar uma esfarrapada bandeira brasileira do lado de fora da faculdade de Direito. Alguns desavisados podem até comemorar enquanto um enorme curativo será colocado sobre uma ferida que insiste em não cicatrizar.

Mauro Iasi
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O pior chanceler do mundo

O poder da crença e o narcisismo na vida de Ernesto Araújo, o pior chanceler do mundo

Eles
Ecoando o youtuber Olavo de Carvalho, o chanceler Ernesto Araújo insiste que o nazismo era de esquerda, uma variação do regime socialista ou comunista.

Se ele assistir ao filme “Hitler – Uma Carreira”, de Joachim C. Fest e Christian Herrendoerfer, considerado o mais completo sobre a ascensão do líder do nazismo, verá que Hitler chegou ao poder com seus seguidores matando e encarcerando, primeiramente, os comunistas, depois os social-democratas e, por fim, os judeus, pessoas que ele odiava.

A referência ao ódio de Hitler à esquerda está aos 38 minutos e 24 segundos do documentário.

A questão estaria resolvida se o chanceler visse o vídeo ou lesse textos sobre a origem do nazismo.

O problema é que Ernesto Araújo não busca a razão. Ele se mostra não como um homem da ciência, mas da crença.

Em tempos de internet, está alinhado ao comportamento do público em geral: a razão não é nem um critério secundário.

Simplesmente, ela não é levada em conta.

O que importa é se a ideia expressa tem seguidores, compartilhamentos.

Dizer que o nazismo era de esquerda seria o mesmo que afirmar que a Terra é plana ou que a vacina não tem efeito. Não tem lógica, mas o que importa?

Milhões de pessoas se conectam através do YouTube ou do Facebook em torno dessas ideias. E um indivíduo reforça o outro, e juntos tendem a rejeitar qualquer argumento que lhes contrarie.

Afinal, partem do pressuposto de que há uma mão invisível que conspira para enganar a todos. Em que acreditar?

E geral, acreditam apenas naquele ou naquilo que confirma suas crenças.

Opiniões contrárias são de inimigos que precisam ser combatidos e até exterminados, a menos que passem a concordar eles.

Dizer que o nazismo e o fascismo são fenômenos de esquerda é fraude, apontam os especialistas do mundo todo.

Mas, para o chanceler não é, e daí?

Ele dá sinais de que não se incomoda, não se constrange. E reafirma o que disse em seu blog, que ele considera depositário da verdade absoluta.

Para ele, é como se historiadores não tivessem o mesmo peso que suas crenças.

O sociólogo Josep Lobera, em entrevista concedida ao El País sobre os “fenômenos pseudocientíficos”, teorizou sobre esse comportamento.

Ele disse que defender que a Terra é plana (e o nazismo é de esquerda) decorre de  um certo narcisismo.

Afinal, esta é a era da incerteza, e o que vale é a defesa da opinião própria acima de tudo e o desprezo pelos argumentos contrários.

Não bagunce a ordem que dei as coisas incertas, imaginam pessoas como Ernesto Araújo.

A ciência, que é o conhecimento provado, está à disposição dele, informações objetivas como as do documentário “Hitler – Uma Carreira” podem ser acessadas.

Mas Ernesto Araújo vai rejeitá-las.

Se fosse um colegial em busca de um lugar seguro no mundo incerto, não faria mal a ninguém mais do que a ele próprio. Mas, quando se trata de um chanceler, o caso é grave, e é um problema de Estado.

Ernesto Araújo não fala apenas por ele próprio, mas pelo Brasil. E orienta a equipe que tem sob sua responsabilidade negócios de Estado.

Se encara os complexos assuntos do mundo como um fanático, o Brasil terá grandes dificuldades pela frente.

Por isso, sem ressalvas, não é exagero considerá-lo o pior chanceler do mundo.

Joaquim de Carvalho
No DCM



Chanceler pateta Ernesto Araújo escorrega no Português


O chanceler de Bolsonaro, Ernesto Araújo, também seguidor do astrólogo autoproclamado filósofo, Olavo de Carvalho, durante a semana tentou explicar em entrevista a um canal simpático à extrema direita, no YouTube, que o nazismo é de esquerda e foi refutado pelo periódico alemão DW. Não satisfeito e apegado o título do partido nazista, Nacional Socialista, piorou ainda mais a estupidez acadêmica, em texto publicado. Por essas alucinações, Ernesto Araújo já é considerado pela revista americana Jacobin, como o pior chanceler do mundo.

Já a “batatada” no português, ficou por conta de uma frase no texto intitulado “Pela Aliança Liberal-conservadora”, Araújo escreveu que o nazismo colocou em “cheque” e quase derrotou os EUA. Neste caso, trata-se de um situação do xadrez, em que a pessoa fica com o rei em perigo mas, ainda há saída. Nesse caso, se diz que o jogador está em “xeque”. O “cheque” com ch é o cheque de banco para pagamentos.

O olavete continuou dizendo no texto:

“O nazismo, tanto em sua ascensão quanto em sua derrocada, praticamente esfacelou as potências liberais da Europa Ocidental e seus impérios, abrindo caminho para o totalitarismo comandado pela URSS (aliada de primeira hora da Alemanha Nazista) e sua expansão mundial, que colocou em cheque (sic) e quase derrotou a única potência não-comunista restante, os Estados Unidos”, diz o chanceler brasileiro, que já foi classificado como o “pior diplmata do mundo” pela revista americana Jacobin.

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O “policial bonzinho”


O general Mourão, quem diria, acabou no Wilson Center. No dia 8 de abril, ele é convidado do instituto, em Washington. Diz o convite: “Junte-se a nós naquela tarde para uma conversa sobre as perspectivas políticas para o Brasil no próximo ano e além“.

O texto do convite dá o tom da participação e dos objetivos do convescote neo-golpista. 

“Os primeiros 100 dias do governo Bolsonaro foram marcados por paralisia política, em grande parte devido às crises sucessivas geradas pelo círculo interno do próprio presidente, se não por si próprio. Em meio ao barulho político, o vice-presidente Hamilton Mourão emergiu como uma voz de razão e moderação, capaz de orientar tanto em assuntos internos quanto externos. O vice-presidente Mourão assumiu a gestão da crise na Venezuela e tem sido cada vez mais procurado por autoridades da China, Europa e Oriente Médio, bem como pela comunidade empresarial, para atuar como interlocutor do governo”.

Para quem ainda não sabe, “desde 2015, juízes do STF, além de Sergio Moro, não saem do Instituto Wilson, conhecido think tank da CIA, e uma das instituições que, através desses seminários, dentre outras atividades, deu importante apoio ao golpe no Brasil”, escreveu Miguel do Rosário, em seu blog O Cafezinho.

O que Mourão vai fazer nos EUA, nas pegadas da visita do capitão-presidente? Vai disputar a “amizade” do imperialismo, na condição de “policial bonzinho”? Tentar tomar para si o comando da operação golpista, que passou pelo PSDB, Temer e, agora, Bolsonaro? Vai defender sua tese de “ditadura constitucional”?

Resta saber o que o capitão-presidente pensa sobre isso? Ah, e também seu filho predileto, desafeto do general? Desta vez, ao que parece, por ironia, a rebelião parte dos seus superiores.

A única certeza disso tudo é que capitão e generais (no plural) desmoralizam as Forças Armadas, como jamais ocorreu na história do Brasil.

E que a fatura vai ser alta na hora do ajuste de contas.

Desta vez, a cobrança será na mesma proporção.

E com juros.

Fernando Rosa
No Senhor X
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Relembre: Vídeo “Ossadas da Vala Clandestina de Perus, de 1970 a 2015”

Esse importante capítulo de correção histórica e de marco na antropologia forense mundial foi acompanhado pela equipe GGN, resultando na produção do documentário “Ossadas da Vala Clandestina de Perus, de 1970 a 2015”


Depois de mais vinte anos e uma articulação em todos os níveis, prefeitura, governo federal, universidade, MPF e profissionais estrangeiros tentam dar respostas a desaparecidos políticos; o GGN acompanhou esse processo e produziu um documentário


Vinte e cinco anos se passaram desde que as ossadas de desaparecidos políticos da ditadura brasileira (1964-1985) foram encontradas na vala clandestina de Perus, no cemitério Dom Bosco, na zona norte de São Paulo. No ano passado, os resquícios dos mortos pela ditadura começaram a receber a devida investigação, após períodos de negligência. Esse importante capítulo de correção histórica e de marco na antropologia forense mundial foi acompanhado pela equipe GGN, resultando na produção do documentário “Ossadas da Vala Clandestina de Perus, de 1970 a 2015”, lançado neste sábado (30), no Espaço Itaú de Cinema Frei Caneca, em São Paulo.

A partir de agora, o GGN disponibiliza o documentário, na íntegra. Acompanhe:



Formado por diversos especialistas, o Grupo de Trabalho Perus é fruto da iniciativa do então secretário Municipal de Direitos Humanos e Cidadania Rogério Sottili, em articulação com a então ministra de Direitos Humanos Ideli Salvatti, apoio do Ministério Público Federal e a estrutura da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Com experiências internacionais, profissionais da Cruz Vermelha, peruanos e argentinos também foram trazidos para compor a equipe que trabalha incessantemente, sob o rigor da técnica e do calendário, com o objetivo comum de trazer respostas.

O processo de identificação de, ao todo, 1.049 ossadas tem por fim buscar nomes: de quem eram os resquícios encontrados. Entretanto, o longo processo de negligência a que foram submetidos os ossos prejudicam a investigação. Ainda que não seja possível definir todas ou alguma das identidades, o Grupo conseguirá fazer um balanço de informações: como aquela pessoa foi ferida, como morreu, se era homem ou mulher, criança ou adulto.

“Eu acho que o Brasil está vivendo um novo momento que quer dizer o seguinte: chegou a hora de virar essa página da história! Não é mais possível a gente viver com fantasmas de generais de reserva, se pronunciando a cada semana sobre uma barbaridade e amedrontando o Estado. Isso não é mais possível! Até porque, se a gente não contar essa história e não enfrentar essa verdade vamos ficar sobre fantasmas de pessoas que estão a beira de desaparecerem”, disseRogério Sottili, em entrevista ao GGN.

“A ciência chega até a um certo lugar, depois não há nada a fazer. Creio que o mais importante para as famílias é que, finalmente, está se fazendo algo sistemático. Ou seja, a intenção existe!”, afirmou o antropólogo peruano da equipe José Pablo Baraybar. “Perus é um pretexto, tem que ser um pretexto, para entender como é que um país moderno, o maior da América Latina, uma potência como é o Brasil, poderá terminar um jogo de mais de mil pessoas que não têm identidade”, refletiu.

“Vai chegar um momento que nós teremos que dar condições dignas, um sepultamento digno pra essas ossadas, mas não teremos identificação”, manifestou a reitora da Unifesp Soraya Smaili. “Nós temos que trazer isso à tona! Perus nos ajuda a enxergar isso. O papel da universidade vai além, tem a função de se abrir e de ir para a sociedade colocar suas contradições”, apontou.

“Se eu não tivesse feito nada como prefeita de São Paulo, teria valido para tomar essa iniciativa, ter coragem de enfrentar as consequências, as ameaças, a possibilidade de fracasso, poderia não ter dado certo”, contou Luiza Erundina, que à época da abertura de Perus era prefeita de São Paulo e determinou os primeiros passos para as identificações. “Eu me sinto gratificada ao povo de São Paulo, de ter me dado um mandato, e agradeço a Deus a oportunidade de ter tido esse poder, e colocá-lo a serviço de uma causa, que tem sido para mim o sentido da minha vida”, disse ao GGN.

Na estreia do documentário “Ossadas da Vala Clandestina de Perus, de 1970 a 2015” (2015, 22 min), da Equipe GGN, também foram exibidos os documentários “Vala Comum” (1994, 30 min), de João Godoy, e “Apelo” (2014, 13 min), de Clara Ianni e Débora Maria da Silva. O Espaço Itaú de Cinema ainda foi palco de um debate, com mediação do jornalista Luis Nassif, e participação do secretário-adjunto Municipal de Direitos Humanos, Rogério Sottile, da procuradora da República Eugênia Gonzaga, presidente da Comissão Especial Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, e do coordenador do Centro de Arqueologia e Antropologia Forense, Prof. Dr. Rimarc Gomes Ferreira.

Acompanhe as entrevistas e reportagens da série “Ossadas de Perus: A Difícil Transição”.

Patrícia Faermann
No GGN
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