1 de fev de 2019

Uma discussão sobre educação para a era pós-Ricardo Vélez


Um dos avanços da educação brasileira foi a introdução de indicadores de desempenho, através do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), ligado ao Ministério da Educação. Esses indicadores estimularam a criação de ONGs bancadas por empresas, destinadas a apoiar os avanços na educação, seguindo métodos corporativos.

Indicadores são o primeiro passo para o salto mais relevante: identificar as escolas que se saíram melhor, entender o seu contexto, e disseminar as experiências bem-sucedidas. Então, são o ponto de partida, não o objetivo final.

Durante algum tempo, o MEC cuidou desse trabalho, identificando escolas modelos, cujas experiências pudessem ser replicadas. Havia um ponto em comum em todas elas, especialmente no Piauí (um estado que vale a pena ser acompanhado): todas incluíam um amplo modelo de aproximação dos professores com alunos e com as famílias. Não apenas nos conselhos escolares, mas na própria visita dos professores às residências do aluno, para entender melhor suas necessidades.

Durante algum tempo, no Brasil, ganharam visibilidade - e espaço na mídia - especialistas em métodos corporativos, com a educação se resumindo a pressionar as escolas a obter bons resultados nos exames nacionais do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) e do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio). Com a superficialidade que caracteriza as discussões públicas, um desses especialistas chegou a propor que cada escola colocasse uma placa na entrada, com sua nota do IDEB ou do ENEM.

A visão meramente estatística gerou um conjunto de manobras, tanto por parte das escolas públicas quanto privadas. Um dos indicadores é o índice de repetência. Para melhorar o índice, alunos passavam sem condições. Em muitos casos, escolas selecionavam somente os melhores alunos para as provas nacionais.

Esse mesmo fenômeno ocorreu nos Estados Unidos, quando um grupo de filantropos, como Bill Gates e os Waltons, da Walmart, incentivou reformas educacionais baseadas nessa visão corporativa pré-Toyota.

Hoje em dia, um aluno médio norte-americano é submetido, ao longo de sua passagem pela escola, a mais de uma centena de testes padronizados, todos focados em matemática e no inglês. É uma espécie de taylorismo aplicado à educação.

No século em que a informação e a criatividade estão no centro das grandes mudanças, começaram a brotar experiências individuais muito mais eficazes e criativas, segundo levantou a jornalista Andrea Gabor em seu livro “Depois das Guerras Educacionais: Como as Escolas Inteligentes Aprimoram a Reforma Empresarial”, conforme artigo da analista Lyn Perramore.

Em algumas dessas escolas, seguiu-se o método corporativo. Mas, em lugar dos métodos de Fredrick Winslow Taylor, o pai do taylorismo – que, no início do século 20 treinava trabalhadores para funções repetitivas -, o guru foi W. Edwards Dreming, especialista em qualidade e estatística, que influenciou o modelo de sucesso da Toyota, no Japão. Seu método se baseia na contribuição dos funcionários comuns, derrubando o temor imposto pelas hierarquias e apostando na motivação intrínseca de todos os envolvidos no processo.

Em vez de estimular alunos e professores com chicote e cenoura, diz Gabor, obrigando-os uma rotina interminável de preparação para testes, essas escolas criaram um ambiente rico para aprender, explorar e desenvolver o potencial humano.

Em 1990, os cortes de impostos promovidos pela era Reagan depauperaram a rede pública, nela o Brockton High, que se tornou o maior e mais pobre colégio de Massachusetts. Com demissão em massa de professores, havia turmas gigantescas em cada sala, muitos dos alunos precisando de assistência especial.

O primeiro passo foi uma ação judicial que se tornou a Lei de Reforma Educacional de Massa de Massachusetts, de 1993, apoiado por uma ampla coalizão de partidos, associações empresariais, sindicatos de professores e Judiciário. Definiu-se um objetivo central: as reformas precisariam ser colaborativas, democráticas e não seriam impostas de cima para baixo.

Um grupo de professores e administradores elaborou novas metodologias, não apenas o básico, leitura e escrita, como uma série de habilidades não previstas nos testes padronizados, como falar, aproximar-se das belas artes, do teatro, dos esportes e atividades que permitissem a interação de alunos e famílias com as escolas. A prioridade maior era criar uma cultura de confiança, que fosse assimilada não apenas pelos alunos, mas pelos funcionários e professores.

Em 2012, pesquisadores de Harvard constataram que, com dois terços dos alunos da décima série em Brockton negros e hispânicos, 64% se qualificaram para bônus de alimentação, superando a maioria dos demais estudantes do Estado.

O que há em comum em todos esses movimentos progressistas é o respeito pelos processos democráticos, respeito aos professores, conquista de corações e mentes para aderirem espontaneamente ao projeto, abrindo espaços para inovação.

Mas, obviamente, esta é uma discussão a ser retomada depois que o país sair do pesadelo da Idade Média, representada pela Escola Sem Partido e pelo inacreditável Ministro da Educação Ricardo Vélez Rodríguez, lídimo representante da refundação do Brasil preconizada pelo Ministro Luís Roberto Barroso.

Luís Nassif
No GGN

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