4 de fev. de 2019

Quem é Paulo Pavesi, citado na última mensagem de Sabrina Bittencourt

Paulo Pavesi
Na mensagem deixada por Sabrina Bittencourt antes de cometer suicídio há um recado para um certo Paulo Pavesi.

“Sinceramente sinto muito pela morte do seu filho. Tenha certeza, que se eu soubesse da sua história na época, implicaria minha vida e segurança como fiz com centenas de pessoas”, escreveu a ativista que denunciou o guru Prem Baba e o médium João de Deus por abuso sexual.

Embora compassivo, o trecho é destinado a um homem que nos últimos meses investiu contra Sabrina. “Paulo Pavesi está obcecado por mim. Já passou do limite, mas não vou processá-lo porque alguém assim tenho pra mim que desenvolveu transtornos severos devido à perda do filho”, escreveu ela em um post no Facebook de 27 de janeiro.

Pavesi, brasileiro residente em Londres, promoveu uma cavalgada virtual para desqualificar as denúncias de Sabrina. Por meio de vídeos no Youtube e postagens no Facebook, militou contra a ativista, de quem exigia comprovações de denúncias recentes.

Este trecho de um post dá noção do nível discursivo de Pavesi:

“Como esquerdista, ativista que atua em todas as áreas, sem na verdade atuar em nenhuma, ela acredita que seja um ‘fetiche’ meu denunciá-la. Sabrina, ou seja lá o nome que você tem, quem tem fetiche por lavagem é porco”.

Com seus posts e vídeos ele defende indiretamente João de Deus e demais abusadores atingidos pelo grupo de Sabrina. Motivos para isso, aparentemente, Pavesi não tem. A causa pela qual ele milita há 18 anos não tem relação ou sofre influência dos avanços das denúncias levantas por Sabrina.

Durante muito tempo, a principal luta de Paulo Pavesi foi em busca de justiça pela morte do filho Paulo Versoni Pavesi.

O menino, então com 10 anos, sofreu um acidente em 2000, na Cidade de Poços de Caldas, onde morava. Internado com traumatismo craniano, teve os órgãos retirados após diagnóstico de morte cerebral, que segundo o Ministério Público teria sido forjado.

Conhecido como “Caso Pavesi”, resultou na condenação de três médicos, em 2014, anulada dois anos depois.

Após alegar sofrer ameaças, Pavesi pediu asilo ao governo da Itália, para onde se mudou em 2008. Na Europa, escreveu o livro “Tráfico de Órgãos no Brasil: 500 mil reais e uma sentença anulada”.

O alinhamento com pensamentos da ultradireita parece ser recente. A primeira postagem do Facebook é de maio de 2017. Posts sobre o “Caso Pavesi” surgem intercalados aos links e comentários de sempre contra o PT, o esquerdismo, foro privilegiado, o salário dos magistrados e em defesa de Jair Bolsonaro.

Com o tempo este tipo de conteúdo ganhou mais espaço em relação àqueles relacionados à morte do filho. No canal do Youtube, o primeiro vídeo é de março de 2017. Até o início do ano passado, todos eles eram sobre o “Caso Pavesi” ou transplante de órgãos.

A partir de março de 2018, Pavesi passou a criticar também os defensores dos Direitos Humanos e a esquerda de modo geral.  A data coincide com o assassinato da vereadora Marielle Franco, para quem fez um vídeo chamado “Tchau, Marielle Franco. Vá para o inferno”.

Nele, Pavesi compara a comoção provocada pela morte de Marielle, a quem chama de vagabunda, com a repercussão do “Caso Pavesi”. Disse que foi à Comissão dos Direitos Humanos da OAB em Brasília, mas não teve as demandas atendidas.

“Quer justiça? Entra na fila”, disse Pavesi, após acusar Marcelo Freixo de ter ligações de traficantes de drogas.

“PSOL, eu chamei Marielle de vagabunda, eu acho que ela é um cadáver como outro qualquer, eu inclusive desejo que vocês cremem o corpo dela porque os vermes não merecem ficar comendo esta merda”, disse ele.

Ao contrário de Sabrina, Paulo Pavesi não conseguiu transformar o próprio trauma em luta por um mundo mais justo. Busca a justiça pela morte do filho, mas direciona seu ódio contra aqueles que poderiam ser companheiros de batalha.

Quem sabe com o tempo ele melhore. Sabrina, que tratou Pavesi com compaixão e empatia ao se despedir do mundo, acreditaria nisso.



Marcos Sacramento
No DCM

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