26 de fev de 2019

Pesquisa mostra que o Brasil não deu cheque em branco a Bolsonaro

Engana-se quem leu a pesquisa CNT/MDA como uma chuva de pétalas sobre o Palácio do Planalto. Ao contrário, uma leitura mais ampla dos resultados mostra que, até o momento, grande parte da população está de pé atrás com o governo.

É verdade que os números conferem legitimidade política ao presidente. Bolsonaro aparece positivamente avaliado por 57% dos entrevistados, a melhor posição desde 2013, quando o país foi sacudido pelo tsunami das ditas “jornadas de junho” – até então, Dilma gozava 59% de aprovação. Mas expressivos 28% o reprovam e 14% não responderam.

De lá pra cá, vivemos em permanente crise, principalmente após a oposição não reconhecer o resultado eleitoral, em 2014, e apostar todas fichas no impeachment fraudulento de 2016, gerando o fracasso do governo Temer – o mais rejeitado desde que se tem notícia.

De certa maneira, portanto, é natural que um presidente eleito “contra tudo isso que está aí” goze de relativo beneplácito, ainda mais que sequer completou dois meses de mandato.

Mas as boas notícias para Bolsonaro ficam por aí. Vamos, então, ao copo “meio vazio”. Apenas 38,9% dos brasileiros consideram positivo o início do governo, sendo que só 12% o identificam como ótimo, mas 19% como ruim ou péssimo. De acordo com pesquisas análogas em gestões anteriores, o início do governo é o pior na percepção popular se comparado com os mandatos inaugurais de FHC (57%, em 1995), Lula (56,6%, em 2003) e Dilma (49,1% em 2011). 

Há ainda outros problemas para o Planalto: a confusão entre público e privado que reina no clã Bolsonaro é uma ameaça real à imagem do presidente. Já ficou evidente para a maioria do povo que os filhos interferem nas decisões governamentais (56,8%) e 75% são contrários à ingerência indevida. Se o presidente não colocar as crianças de castigo, pode se ver castigado pela opinião pública.

As medidas iniciais do governo são controvertidas. Se questões como a lei anticrime (um populismo criminal absurdo) e o enxugamento de ministérios têm certo apelo popular, por outro lado, a flexibilização da posse de armas e a fixação do salário mínimo em R$ 998 são majoritariamente criticados. 

A reforma da Previdência, de acordo com o levantamento, é repudiada por 45,6% e aceita por 43,4%. Mas como ficarão esses números quando estiver claro para a população que o governo propõe cortar a aposentadoria de idosos carentes (o BPC) de um salário mínimo para 400 reais e ampliar o tempo de contribuição dos trabalhadores rurais, mas se recusa a enviar projeto que mexa em certos privilégios dos militares? Vale lembrar que o ponto alto da unidade popular e da oposição a Michel Temer foram a greve geral contra a reforma da Previdência. 

Por fim, em grande medida a aceitação a Bolsonaro está ligada a uma fluida expectativa de melhoria de vida. O mesmo percentual de pessoas que hoje aprova o presidente é idêntico ao que acredita que ele vai melhorar a vida dos brasileiros – 57%. Esse número se desdobra em esperança de melhoria no emprego, na segurança, etc. Essa turma parece ter imposto um prazo fatal ao governo – 30,3% dão até um ano e 34, 8% até dois anos para que Bolsonaro mude suas vidas para melhor.

Ora, não há sinais robustos de recuperação econômica para 2019 e, ao contrário, o desemprego tem se mostrado resiliente. O conjunto de medidas contra o povo que o governo procura impor só tende a agravar a já trágica situação social do país, fazendo com que a oposição no parlamento e nas ruas ganhe cada vez mais força. Some-se a isso a quantidade de erros primários e trapalhadas que o presidente e seus ministros cometem dia sim e outro também. 

Em suma: seja por seu programa perverso contra os pobres, seja por sua própria incapacidade, o governo não viabilizará as mudanças positivas para o país com as quais iludiu o povo. E a conta vai chegar, porque definitivamente os brasileiros não deram um cheque em branco a Bolsonaro.  

Orlando Silva, Deputado federal por São Paulo e líder do PCdoB na Câmara.

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