9 de fev de 2019

Para Lisboa

Os três lado a lado no avião. A mulher no meio. Não se conhecem. As primeiras escaramuças por espaço. A mulher se posicionando, estabelecendo seu perímetro. Vou botar meus cotovelos aqui para eles botarem os deles atrás, assim na hora da comida a vantagem é minha. Esse a minha direita senta com as pernas abertas, se encostar o joelho na minha perna, eu... Iiiih, já está se preparando para dormir. Melhor. Assim ele não come. Menos um cotovelo na briga. E este aqui? Quanto tempo até ele puxar conversa? Já me examinou bem, nem disfarçou. Deve ser do tipo que...

– Quer um jornal?

Menos tempo do que eu esperava, pensou a mulher.

– Não, obrigada.

– São apertados estes bancos, né?

– Horríveis.

– Vai pra Lisboa?

– Vou.

– Que pergunta cretina! Se não fosse, não estaria nesse avião, não é mesmo? Eliseu.

A mulher levou algum tempo para entender que Eliseu era o nome dele.

Depois, para horror da mulher, ele contou que estava indo a Lisboa para enterrar a mãe. Ela ficou em pânico. Pensou em aceitar o jornal, para interromper a conversa. Qualquer coisa para evitar os detalhes.

– Sinto muito.

– O que vai-se fazer? É a vida.

A mulher concordou que era a vida. Eliseu pareceu se consolar com isso e mudou de assunto. Quando serviram as bandejas com o jantar, ele já tinha contado tudo a seu respeito.

* * *

A mulher nem desconfiava que alguém pudesse fazer carreira em o que mesmo? Interruptores. Eliseu precisou levantar a bandeja e a mesinha à sua frente, ameaçando derramar Coca Light nela, para tirar da carteira um cartão com o nome dele e, embaixo, “Interruptores”. Para ela acreditar.

Eliseu comeu tudo da sua bandeja e mais a sobremesa que ela não quis, repetiu sua Coca Light, deu um arroto que ele mesmo recebeu com um “Eliseu!”, como se fosse a sua própria mãe rediviva, e perguntou:

– Você tem algum programa para esta noite?

A mulher, incrédula:

– Mas hoje não é o enterro da sua mãe?

– Que mãe? Ah, não. O enterro vai ser às cinco. Às cinco e meia deve estar tudo liquidado. A gente pode jantar e...

– Não!

– Epa.

Carlinhos se assustou com o tom do “não”.

– E tem outra coisa – disse a mulher.

– O quê?

– Você só soube que sua mãe tinha morrido esta madrugada, certo?

– É...

– Só comprou a passagem esta manhã.

– Foi... Comprei no aeroporto.

– Então como é que eu, que reservei há uma semana, estou no meio e você está na ponta?

– Sei lá.

– Pois é.

Os dois ficaram em silêncio, Eliseu olhando para ela e ela olhando para a frente. Finalmente, Eliseu falou:

– Quem sabe só um drinque?

– NÃO!

Eliseu não disse mais nada, pelo resto da viagem. Só dormiu e roncou. Mas o homem do outro lado da mulher, fingindo que dormia, não parava de encostar o joelho na sua coxa.

– Ó raça – pensou a mulher.

Luís Fernando Veríssimo

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