24 de fev de 2019

Os donos dos tesouros

Cem milhões de reais em dinheiro vivo e enfurnado domesticamente são o dobro do encontrado na caverna de Geddel Vieira Lima, mas não tiveram nem a metade, longe disso, do tratamento dispensado aos R$ 51 milhões. Das notas achadas na Bahia, a Polícia Federal distribuiu fotos de frente e de perfil, endereço e histórico da caverna, nomes e papéis dos colecionadores.

Com perceptível contrariedade, e só para não perder um momento de autopromoção, a PF só conseguiu dizer que uns R$ 100 milhões eram escondidos por Paulo Preto, menos conhecido como Paulo Vieira de Souza, em São Paulo. Mas a questão não é geográfica.

A distinção está entre o que uma polícia honrada não pode ser, nem fazer, o que outras se permitem. E ainda entre o que um Ministério Público, com seus procuradores e promotores, tem que fazer por sua altivez e respeitabilidade, e o que outros fazem em exibicionismos e facciosismo.

E se trata, também, da diferença entre altos magistrados e conselheiros de Justiça sem conexões espúrias e sem temor, e, de outra parte, os não juízes.

Em tradução simplificada dessas distinções, para aplicação aos dois tesouros achados e respectivos tratamentos, basta relembrar que Geddel Vieira Lima e família são do MDB, ao passo que Paulo Vieira de Souza é gente de confiança no PSDB que a Polícia Federal — já por tradição notória — acoita desde o início do governo Fernando Henrique.

Não seria bom, porém, que nestes tempos de tantas e grandes inovações, com milicianos enfim prestigiados, dinheiro público do fundo eleitoral em bolsos sem fundo, filhos fazendo e desfazendo ministros, faltasse inovação na PF. Até demais.

Parte relevante do sistema que distinguiu o PSDB, Sergio Moro é nada menos do que o ministro da Polícia Federal.

União perfeita, portanto, de tradições e de futuros esperáveis. Tão cuidadosa, que Sergio Moro tratou logo de entregar a chefia do "combate ao crime organizado" a Igor Romário de Paula. Delegado e apoiador de primeira hora do então candidato do PSDB, Aécio Neves, dele fez propaganda nas redes de internet em ostensivo desacato ao regulamento da PF e do funcionalismo público - mas seguro da impunidade.

Está entendido, assim, como R$ 50 milhões da corrupção valem mais do que uma corrupção de R$ 100 milhões.

Compra de risco

Os episódios de violência cometidos por vigilantes de empresas "de segurança" sucedem-se, sobretudo em supermercados, sem providência alguma de prefeitos, governadores e governo federal.

Os contratantes têm um escapismo fácil: "Eles são terceirizados, a seleção é feita pela empresa de segurança". Foi a explicação para as pauladas assassinas em um manso cachorro, no Carrefour, e para o assassinato de um jovem perturbado, e já dominado, no Extra.

Assim como as empresas "de vigilância", os subcontratantes dos seus servidores têm a obrigação de saber a quem contratam e põem em contato com os clientes. Mas só quando um juiz escapar às seduções e der a devida punição a um desses contratantes, entre os mais altos, a integridade dos clientes passará menos riscos.

Na pista

Deputados e senadores estão avisados de que logo se abre a "negociação" para sua receptividade ao projeto de alterações na Previdência.

É o velho compra-e-venda, ou toma lá-dá cá, apelidos do santificado é dando que se recebe. Pela primeira vez com um militar — um general, Santos Cruz — entre os que vão operar no esquema de liberação de verba em troca de voto na Câmara e no Senado.

O Exército caminha. Eu é que não direi para onde.

Janio de Freitas

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