15 de fev de 2019

O herói do bolsonarismo


Pode-se dizer várias coisas a respeito da eleição de Bolsonaro. Mas não que foi normal, que decorreu de fenômenos naturais na democracia. Ao contrário, foi uma vitória eleitoral artificial, fruto de intervenções ilegítimas e manipulações, que maculam o mandato que dela proveio. Há vícios de origem na ascensão de Bolsonaro, na disputa eleitoral que travou e no governo vergonhoso que, nominalmente, chefia.

Um dia, quem sabe, ele resolve contar como ganhou a eleição. Não que seja grande a esperança de que essa data chegue, considerando seu histórico de falsificações. Mas pode acontecer. Afinal, não é ele que repete que não tem papas na língua, que fala tudo?

Seria bom que falasse, para ajudar o País a entender o que aconteceu na eleição, especialmente em seu momento decisivo, os dez dias que antecederam o primeiro turno. Aquela reta final permanece um mistério: depois de Fernando Haddad quase empatar com ele, abriu-se entre os dois uma grande distância, tão expressiva que, apesar do crescimento de Haddad no segundo turno, terminou sendo ele o vencedor. Ninguém melhor que o próprio Bolsonaro para explicar o que ocorreu e qual o principal responsável pela mudança, pelo menos a seu ver.

Conhecendo um pouco os bolsonaristas, é certo que, na hora em que fosse feito o anúncio de que o nome do herói seria revelado, eles entrariam em alvoroço. Todos iriam querer ser o indicado.

Sérgio Moro, por exemplo, ficaria se roendo. Imaginaria que ninguém mais que ele tem motivos para receber a distinção. E não estaria errado. Sem sua atuação, Bolsonaro teria tido que enfrentar Lula. Qualquer um é capaz de imaginar o resultado.

E os militares que mandam em Bolsonaro? Poderiam responder a Moro que, sem eles, de nada teria adiantado forçar a barra, pois seria natural a revisão de suas decisões pelas instâncias superiores do Judiciário. Quem tinha bala para obrigar o STF e o STJ a engolir a pílula eram as Forças Armadas.

Os empresários da mídia e do mercado financeiro não teriam dúvidas de que seriam eles que receberiam o reconhecimento do capitão. Torceram tanto, há tanto tempo, soltaram tantos foguetes quando o resultado saiu, que têm o direito de se sentir como mães do governo. Sem a atuação cotidiana de seus veículos para criar um quadro de opiniões favoráveis a Bolsonaro e sem seu endosso, ele não sairia do subúrbio.

Um personagem hoje esquecido talvez achasse, emocionado, que Bolsonaro iria finalmente reconhecê-lo. A turma do "baixo bolsonarismo", os anônimos que vestiram camisetas toscas enaltecendo o "mito", que foram fazer guerrilha na internet sem sequer saber se expressar, estaria certa de que o lugar era dela.

Nada disso. Na hora em que Bolsonaro revelasse o verdadeiro herói de sua eleição, nenhum desses seria o agraciado. Nem Moro, nem militares, nem banqueiros, nem a ralé bolsonarista. Naqueles dez dias finais, tudo que esses podiam fazer já estava feito. E revelava-se insuficiente: Haddad permanecia favorito.

Foi aí que o verdadeiro herói da eleição de Bolsonaro entrou em campo. Ninguém sabe seu nome, onde mora, em que trabalha. Ninguém sabe sequer se é uma ou mais de uma pessoa.

Para prestigiá-lo, Bolsonaro pode escolher o símbolo de sua campanha: a mamadeira de piroca. E anunciar o herói: o inventor da mamadeira, que inventou também que Haddad era o criador. Através dele, homenageia outros, que inundaram a internet com postagens semelhantes, freneticamente reproduzidas através do WhatsApp e destinadas a públicos bem identificados: a baixa classe média conservadora e religiosa, particularmente evangélica.

Foi esse soldado desconhecido que deu a Bolsonaro a eleição. A golpes de mamadeira, transformou Haddad em alguém tão amoral que Bolsonaro se tornou palatável.

Com as pesquisas disponíveis, é possível fazer um exercício: se o eleitorado evangélico chegasse à véspera da eleição do mesmo modo que estava dez dias antes, ela terminaria empatada e os dois iriam para o segundo turno em pé de igualdade. Sem enganar pessoas simples, Bolsonaro e os interesses que representa teriam morrido na praia.

Honra ao mérito: o criador da mamadeira de piroca é o herói de todos eles. Em seu louvor, podem construir-lhe um monumento. Seria impagável ver Moro, os generais e os banqueiros, engalanados e circunspectos, cantando o hino nacional e prestando-lhe continência.

Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

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