28 de fev. de 2019

Nós, testemunhas

O interesse moderado da imprensa e a farta oferta de assuntos ao gosto da burocracia do jornalismo obscureceram, mundo afora, o gigantismo moral e histórico do que o papa Francisco fez agora no Vaticano. A reunião de quase 200 prelados para reconhecer, ouvir, narrar e debater, sem restrição ao conhecimento público, os abusos sexuais no clero é, talvez, o mais importante ato no âmbito da Igreja Católica desde o rompimento de Martinho Lutero, a completar 500 anos daqui a 14 meses.

São muitas as indicações de que testemunhamos, sem consciência disso, uma revolução global em que o ato de Francisco é um cume jamais imaginado.

Expor a instituição incomparável da Igreja Católica, e seus prelados de ares monárquicos e intangíveis, como campo tolerante do mais abjeto, é algo sem precedente sequer parecido. Pensei no que poderia ser equivalente, em nosso universo de agnósticos, ateus e religiosos, à grandeza moral e à coragem implícitas no ato do poder vaticano. Só me ocorreu uma possível (ou impossível) equivalência: os Estados Unidos fazerem o mesmo quanto ao seu belicismo, aos seus crimes de guerra em Hiroshima, Nagasaki, Tóquio, Vietnã. Além da destruição apenas vingativa, que até o obsessivo guerreiro Churchill denunciou, de cidades alemãs. E ainda a perversidade de sua dominação, direta ou indireta, de tantos países sem condições de enfrentamento.

Caso da América Latina. Os nomes espanholados indicam a propriedade original e legítima: Califórnia, Colorado, Alabama, Texas, Nevada, Flórida. O major general Smedley D. Butler fez outra lista: em 33 anos de ações militares, participou de guerras dos Estados Unidos ao México (várias invasões e ocupações), Haiti, Cuba, Nicarágua, República Dominicana, Honduras e China. Em outra lista, relaciona aos países os interesses que moveram tais ações bélicas: petróleo, National City Bank, Banco Brown Brothers, produtores/exportadores de açúcar, companhias frutíferas (United Fruit, Chiquita Banana), Standard Oil (para nós, Esso ou Exxon).

As palavras do general, reproduzidas por C. Wright Mills em "Listen, Yanqui" (assim mesmo), terminam com com esta comparação: "Al Capone só pôde operar em três distritos de uma cidade. Os "marines" operamos em três continentes". Os sucessores de Butler aumentaram a área para cinco continentes. Na segunda parte do século passado, estiveram outra vez na República Dominicana, aí também com tropas brasileiras oferecidas por Castello Branco; Nicarágua, Haiti, Granada, Guiana, Panamá, Cuba, Porto Rico, Venezuela, Colômbia, se não mais.

Os Estados Unidos apoiaram todas as ditaduras de direita na América Latina. Suas reservas aos ditadores Getúlio e Perón não eram de oposição. Como complemento desse repúdio à democracia, jamais colaboraram para a instalação da democracia em país algum da AL. Quando ajudaram a subida de novo governante, foi pela certeza de que teriam um títere ("laranja", para a intelectualidade brasileira). E sempre que um governante insinuou pretensões de soberania, os governos dos Estados Unidos o combateram, por ações diretas e por via das suas redes de nacionais subservientes por interesse.

Hugo Chávez sabia o que queria. Maduro, não. Chávez, na luta de poder, estava no seu ambiente. Maduro é neófito, entrou logo no jogo pesado, que não entendeu ainda. Donald Trump sabe o que quer e está bem em qualquer ambiente que não seja de pessoas de bem.

Nem por isso é preciso adulterar os fatos. Não é certo que só os militares estejam com Maduro. A miséria histórica do povo venezuelano recebeu de Chávez o que nunca lhe fora dado nem em pequena parte. As primeiras grandes e terríveis favelas da América do Sul surgiram em Caracas, circundando a cidade. A grande riqueza concentrada no poder econômico era fruto do petróleo e de entrega do patrimônio mineral.

Isso mudou com Chávez. Diminuiu. Antes, a Venezuela passara por uma fase de luta interna, e os militares se preocupavam com seu possível retorno. As atenções com a pobreza, embora insuficientes, reduziram esse risco —e por aí se entende parte da atual posição militar e se nega que Maduro só tenha apoio das Forças Armadas. Nem é Maduro. É o que resta do legado de Chávez.

E não esqueçamos que o desabastecimento já foi vitorioso aqui, contra o Plano Cruzado do governo Sarney. Aqui, foi o empresariado. Lá, foram os governos americanos e alguns europeus. Não é obra Chávez nem do perplexo Maduro.

Janio de Freitas

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