24 de fev de 2019

Globo os Diários Associados de amanhã?


Um medo ronda os herdeiros de Roberto Marinho. O medo do declínio ou mesmo do fim de seu império midiático, do qual a Rede Globo de Televisão é o braço mais visível.

De detentores de um poder quase absoluto no Brasil, seja no regime autoritário (1964-1985), seja na chamada Nova República que a ele se seguiu, os Marinho se deparam com uma realidade antes impensável.

Até então, a Globo era duramente criticada apenas pelos setores democráticos e de esquerda, por seu descompromisso histórico com a verdade dos fatos.

Ela foi decisiva na manutenção dos militares no poder por duas décadas, na criminalização do PT, no golpe – travestido de impeachment – contra Dilma Rousseff, e na condenação e prisão, sem provas, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Desde a última campanha eleitoral para a presidência da República, o capitão reformado Jair Bolsonaro, por outras razões, passou também a criticar e a ameaçar a TV Globo.

“Façam matéria pesada sim, bastante, contra mim. Que se eu chegar lá, não vou perseguir vocês. Vou pagar pra vocês o que vocês merecem”, bradou em várias ocasiões.

Mesmo fazendo uma cobertura para lá de protocolar e quase ignorando a campanha de Fernando Haddad, candidato do PT, Bolsonaro não se deu por satisfeito em relação à Globo.

Tanto que ele não falou com exclusividade para a Globo depois de eleito, como se tornou praxe no Brasil. Preferiu a TV Record, do empresário e bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus.

Em 13 de dezembro, fez questão de almoçar com outro empresário da mídia, o apresentador e dono do SBT, Sílvio Santos. O teor da conversa não foi revelado e nem precisava. No dia seguinte, o SBT passava a dar uma cobertura ufanista à montagem do novo governo, digna dos velhos tempos da ditadura.

Ao contrário de outras posses, em que os repórteres e comentaristas da TV Globo – “Grobo”, para os bolsonaristas – circularam com desenvoltura por todos os recintos oficiais, impenetráveis para o resto da mídia, na do “capitão”, a emissora foi mantida à distância.

E já nos primeiros dias de governo, ficava claro que era a Record, inimiga de longa data dos Marinho, quem assumia a posição de emissora “chapa branca”.

É a TV Record agora quem dá, em primeira mão, as notícias do interesse do Planalto, seguida de perto pelo SBT e pela TV Bandeirantes, da família Saad. As três, aliás, travam uma disputa para ver quem vence no quesito subserviência.

BRAÇO ARMADO

O ex-ator pornô e ex-funcionário da “Grobo”, agora deputado federal, Alexandre Frota (PSL-SP), promete ser o braço armado de Bolsonaro na guerra contra a “Vênus Platinada”.

Através de projeto de lei elaborado com a ajuda dos concorrentes da emissora, Frota pretende proibir o “instrumento” que levou o sistema publicitário brasileiro a uma espécie de cartelização, em que a Globo tem primazia sobre todas as demais emissoras, a chamada Bonificação por Volume (BV).

O mecanismo foi introduzido pela Globo no final dos anos 1960, com o objetivo de “estimular o mercado publicitário”. No entanto, ele é considerado um “câncer” por um de seus maiores adversários, o vice-presidente e sócio da RedeTV, Marcelo de Carvalho.

O funcionamento do BV é simples: o anunciante contrata uma agência de publicidade para divulgar um produto. Os veículos de comunicação pagam uma comissão para as agências, o BV, para que elas os escolham como destinatários da verba.

Isso cria um ciclo vicioso, em que o meio mais rico no Brasil, a TV aberta – e dentro dela a TV Globo – mantenha seu domínio sobre o bolo publicitário alimentando as agências com o BV. Grandes contratos de publicidade costumam ter um BV variando entre 10 e 20% do seu valor.

Frota aguarda apenas a palavra final de Bolsonaro para apresentar o projeto na Câmara dos Deputados.

Em 14 de janeiro, outra bomba caiu no colo dos irmãos Marinho. A emissora estadunidense CNN terá um canal no Brasil. A emissora vai operar como TV fechada e não virá sozinha.

Junto com ela também chega a sua agência de notícias, ambas funcionando 24 horas por dia e dedicadas exclusivamente ao jornalismo. Douglas Tavolaro, sobrinho do bispo Edir Macedo e ex-diretor de jornalismo da TV Record, será o responsável pelo acordo de licenciamento com a matriz da CNN. Associado a ele estará ainda o empresário mineiro Rubens Menin, da construtora MRV.

Com risco de perder o BV, enfrentando a disputa dos concorrentes na TV aberta, e, em breve, da CNN na TV paga, o império dos Marinho corre sério risco de repetir a história do apogeu e queda dos Diários e Emissoras Associados, de Assis Chateaubriand.

AMBIÇÃO E PODER

O BV é, sem dúvida, um dos grandes responsáveis pelo poder avassalador que a Globo teve e ainda mantém no Brasil. Mas não é o único culpado pela emissora ter se transformado em uma espécie de “estado dentro do estado”.

Grande parte dessa responsabilidade deve ser creditada aos militares que assumiram o poder após o golpe de 1964.

No período áureo dos negócios, ainda sob o comandado de Assis Chateaubriand, os Diários Associados chegaram a ter 36 jornais, 18 revistas, 36 rádios e 18 emissoras de TV, constituindo-se no maior conglomerado de mídia da América Latina.

Endividado e mergulhado em crises de gestão, entraram, em meados da década de 1970, em um processo que culminaria na cassação das suas concessões de TV em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, no início de 1980. Ficava patente a derrocada do grupo.

Os Associados possuem hoje alguma presença apenas em Minas Gerais e no Distrito Federal.

O que isso tem a ver com os herdeiros de Roberto Marinho?

Chateaubriand e Roberto Marinho não tinham nada em comum, exceto a ambição e o gosto pelo poder.

Paraibano de família rica e formado em Direito, desde cedo Chateaubriand percebeu que seu negócio era a imprensa.

Veio parar no Rio de Janeiro e, como advogado, logo caiu nas graças da poderosa Light, empresa canadense de eletricidade. Foi com o dinheiro da Light que comprou, em 1924 seu primeiro diário, que batizou de O Jornal. Começava aí a carreira do mais bem sucedido e igualmente mais inescrupuloso magnata da mídia no Brasil até o aparecimento de Roberto Marinho.

Sem papas na língua, um “entreguista” sem compromissos com o Brasil e preocupado exclusivamente com seus interesses, Chateaubriand mandou e desmandou em políticos, empresários, na Justiça e demais autoridades de sua época.

Ridicularizava o presidente Eurico Dutra, a quem, em mais de uma ocasião, passou-lhe em público a mão na bunda. Infernizou a vida de Getúlio Vargas. Conseguiu quase tudo o que quis de Juscelino Kubitschek. Foi peça fundamental na derrubada do governo João Goulart e na vitória do golpe civil-militar de 1964.

Chatô, como era conhecido, morreu em maio de 1968, preso a uma cadeira de rodas, tetraplégico, meses antes da edição do AI-5, o golpe dentro do golpe.

Em seu sepultamento não faltaram políticos e militares com as palavras elogiosas de sempre. Antes de morrer, triste e amargurado, pode presenciar episódios que, para qualquer pessoa perspicaz, eram evidentes: os Diários Associados começavam a ser rifados pelos novos ocupantes que ajudaram a colocar no poder.

CASTELO ESQUECEU O RELATÓRIO NA GAVETA

Pessoa de temperamento afável, discreto e dotado de grande capacidade para agradar aos interlocutores, Roberto Marinho possuía um jornal, uma emissora de rádio e uma emissora de TV, os três no Rio de Janeiro.

O jornal e a emissora de rádio estavam longe de qualquer liderança e a televisão, inaugurada em 1965, engatinhava.

A favor de Marinho havia ainda o fato de ser “um revolucionário de primeira hora” e de nutrir, a exemplo dos militares no poder, enorme admiração pelos Estados Unidos, que ele definia como “nação líder e condutora do mundo democrático”.

Foi JK quem deu, em 1957, a concessão do Canal 4 do Rio de Janeiro, a Roberto Marinho.

JK havia prometido o canal à direção da Rádio Nacional, emissora estatal e líder de audiência. Mas para se livrar de Chateaubriand, que ameaçava colocar todos os seus veículos contra ele caso a Rádio Nacional recebesse aquela concessão, JK viu em Marinho um tertius. Até porque ninguém acreditava que ele tivesse dinheiro para montar uma TV.

É aí que entra a sociedade entre o então gigante da mídia estadunidense Time-Life e a TV Globo.

Na época, a Constituição brasileira proibia a participação de capital estrangeiro em qualquer veículo de mídia no país. No entanto, o Grupo Time-Life contribuiu com alguns milhões de dólares para criação da TV Globo, valor muitas vezes maior que o patrimônio do grupo de Roberto Marinho, à época.

Os contratos firmados entre ambas previam ainda colaboração técnica, incorporação de tecnologia e, até mesmo, participação de funcionários estadunidenses em sua direção. Elementos essenciais para que pudesse se implantar e rapidamente suplantar a concorrência.

Registrado posteriormente em detalhes pelo jornalista Daniel Herz no livro “A história secreta da Rede Globo” (1986) essa parceria, quando descoberta na época, provocou um escândalo.

Além de dezenas de artigos em tom de denúncia escritos por Chateaubriand, rendeu uma Comissão Parlamentar de Inquérito, que teve como relator o senador carioca Saturnino Braga e como um de seus mais destacados membros o também senador capixaba João Calmon, o número dois na hierarquia dos Diários Associados.

No relatório final, a CPI Globo-Time/Life condenou a sociedade de Roberto Marinho com o grupo estadunidense, mas o escândalo não deu em nada.

O então presidente da República, marechal Castelo Branco, recebeu o relatório e o esqueceu em alguma gaveta. Em 1971, o acordo foi formalmente desfeito, sem qualquer problema para a TV Globo.

Sacramentava-se aí a parceria de Roberto Marinho com os militares que atravessou quase duas décadas e foi extremamente vantajosa para ambos os lados.

Os militares tinham na Globo o seu porta-voz e a garantia de boa imagem junto à opinião pública, mesmo nos momentos mais sombrios dos “anos de chumbo”. A Globo, por sua vez, crescia à sombra das benesses do poder.

MONOPÓLIO E DESINFORMAÇÃO

Nos Estados Unidos, onde a mídia audiovisual é regulada, nunca uma rede de televisão comercial monopolizou a opinião pública e menos ainda as verbas publicitárias.

A tradição lá é de três a quatro grupos de mídia aberta dividirem a atenção dos telespectadores, a exemplo da CBS, NBC, ABC e, mais recentemente, da Fox.

Some-se a isso que os Estados Unidos contam com uma importante TV Pública, a PBS, com mais de 400 emissoras espalhadas pelo país, que servem de contraponto à mídia comercial, além de dezenas de TVs pagas que podem ser assistidas via cabo ou satélite.

Na Europa, as TVs nasceram públicas e seguiram assim por cinco décadas até a vitória de governos neoliberais, a começar por Margaret Thatcher, no Reino Unido, em 1979.

A partir daí foram obrigadas a disputar com as emissoras comerciais e até o momento continuam vencendo, a exemplo da BBC inglesa, considerada “a melhor TV do mundo”.

Nessas cinco décadas, as TVs Públicas se mostraram essenciais para que a população desenvolvesse censo crítico em relação aos seus governos, ao dia-a-dia de suas sociedades e à própria mídia.

Enquanto isso, o Brasil é um caso raro dentre as 15 maiores economias do mundo. Além de nunca ter regulado os veículos audiovisuais, não conseguiu garantir sequer um padrão mínimo aceitável de concorrência empresarial e de seriedade jornalística no trato das informações. O que também explica o poderio dos Associados e, depois deles, o monopólio das Organizações Globo.

Para um europeu ou estadunidense, por exemplo, é impensável que uma única emissora de TV possa deter uma fatia de 70% da audiência, como ainda acontece com a Globo. Sem falar que até bem pouco tempo, essa audiência encostava nos 90%. Vale dizer: todo um país se informava e se pautava pela ótica da Globo.

A exceção de alguns poucos acadêmicos e de entidades ligadas ao assunto, no Brasil não se discute e não se sabe o que é regulação democrática da mídia.

Há, igualmente, um profundo desconhecimento do que seja uma TV Pública. A mídia comercial, TV Globo à frente, sempre fez questão de confundir o respeitável público sobre esses temas, tachando-os de “censura à liberdade de imprensa” ou de “televisão do governo”.

Um dos primeiros a sentir isso na pele foi JK, nos idos de 1958, quando, incomodado com a pressão que Chateaubriand fazia a seu governo, encomendou a um grupo técnico, um anteprojeto de lei para a radiodifusão. Antes que o anteprojeto pudesse ser enviado ao Congresso, o assunto vazou para a imprensa e passou a ser criticado.

Aconselhado por amigos sobre a repercussão negativa para o seu futuro político, esqueceu o assunto.

Esse anteprojeto foi retomado por João Goulart, quando, em 1961, assumiu o poder. Os episódios que antecederam à sua posse fizeram com que percebesse que o Brasil não poderia avançar na linha do desenvolvimento e da justiça social com a mídia concentrada nas mãos de poucas famílias e avessas a quaisquer medidas de interesse popular a exemplo das Reformas de Base, do aumento do salário mínimo e da criação do 13º.

Os Diários Associados e Roberto Marinho estiveram juntos na campanha pela deposição de João Goulart, mas foi Marinho quem soube melhor capitalizar a simpatia e o apoio dos militares nas décadas seguintes.

Mesmo quando a TV Globo não pode mais esconder as manifestações pelas eleições diretas e na, sequência, a favor da candidatura de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, Marinho buscou maneiras de tutelar o poder civil.

SEM APOIO NA ESQUERDA E PERDENDO O DA DIREITA

Na primeira eleição direta para a presidência da República, em 1989, depois de duas décadas de regime autoritário, a Globo foi decisiva para a vitória de Fernando Collor, candidato desconhecido de um partido minúsculo, que passou a ser apresentado por ela como o “caçador de marajás”.

O termo “marajá” significava na época algo muito próximo ao “combate à corrupção” dos dias atuais.

A desilusão popular com Collor foi tamanha que antes de completar o segundo ano de mandato, já era alvo de processo de impeachment que o levou a renunciar ao cargo.

Nos dois governos do tucano Fernando Henrique Cardoso, as organizações Globo nadaram de braçada.

O império de Roberto Marinho combateu o quanto pode o Partido dos Trabalhadores (PT) e seu candidato à presidência Luiz Inácio Lula da Silva. Mesmo assim, em 2002, na contramão de suas previsões, Lula e não o tucano José Serra, candidato de FHC, era eleito.

A história recente é conhecida, mas vale ressaltar que mesmo Lula não mexendo em questões essenciais no que diz respeito aos interesses da Globo, ela não o perdoou por suas políticas voltadas para os mais pobres, como os programas Bolsa Família e Universidade para Todos, e pela soft tentativa de regular a mídia.

A Globo e seus amigos estadunidenses também nunca perdoaram Lula por sua política externa independente e por fortalecer a Petrobras, o que redundou na descoberta do pré-sal e no compromisso de destinar os recursos do petróleo para a educação e saúde do povo brasileiro.

Bolsonaro e a turma que o apoia – sobretudo militares e evangélicos – há muito criticam a atuação da Globo, seja por seu enorme poder, seja em função de um fundamentalismo religioso que vê pecado em tudo e quer regredir os costumes ao século XIX.

Nos dois casos, advogam em prol de uma Globo enfraquecida ou desejam o seu fim. Os episódios da deposição da presidente Dilma Rousseff e os dois anos do governo Temer fizeram com que chegassem a uma conclusão bastante próxima dos vitoriosos do golpe civil-militar de 1964 em se tratando dos Associados.

É bom lembrar que Bolsonaro nunca foi o candidato dos sonhos dos filhos de Roberto Marinho.

O papel que eles lhes atribuía era apenas o de anti-Lula. O clã Marinho bem que tentou emplacar outros nomes na corrida presidencial – de Luciano Huck a João Amoedo, passando por Henrique Meireles e Geraldo Alckmin -, mas não funcionou.

Com Lula impedido de disputar e a Globo há anos martelando a opinião pública contra o PT, Bolsonaro acabou eleito, mesmo que num pleito marcado por gravíssimas denúncias de uso de caixa 2 e de fake news.

Como em situações anteriores, os Marinho pensavam resolver seus problemas da forma “tradicional”.

Leia-se via negociações onde a Globo batia, assoprava e, no final, acertava-se tudo.

O que explica as idas e vindas do noticiário da emissora e dos demais veículos do grupo no primeiro mês de governo Bolsonaro e no período entre a vitória na eleição e a posse.

Só que o velho expediente não está funcionando, com a “Vênus Platinada” passando a ser o alvo da fúria do “Mito”, de seus filhos, de correligionários e seguidores.

Basta uma rápida conferida nas redes sociais para se constatar a raiva e o ódio que os bolsonaristas destilam contra a “Grobo”, que chega a ser acusada de “comunista” e de “ter parte com o diabo”.

Os herdeiros de Roberto Marinho – que tinham como objetivo central impedir a volta do PT ao Palácio do Planalto -, são obrigados a lutar agora pela própria sobrevivência.

Há muito poder e dinheiro em jogo e eles sabem que se já não contavam com o apoio dos setores democráticos e da esquerda, estão perdendo também o da direita e da extrema direita.

Um império de mídia não morre de um dia para o outro, mas a morte começa bem antes do seu fim.

Ângela Carrato é jornalista e professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Eliara Santana é jornalista, doutoranda em Estudos Linguísticos pela PUC Minas/Capes.
No Viomundo

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