4 de fev de 2019

Bem-vindos à Era Mourão


Não foi preciso nem um mês para confirmar a precarização sistêmica do clã Bolsonaro. O novo presidente, de forma eficiente, demostrou que as predições negativas feitas nos meses prévios, na campanha eleitoral, não eram simplesmente discursos eleitorais de candidatos opositores. Estamos vivendo a tragédia anunciada. Existe um paradoxo: o aspecto mais previsível do atual governo é justamente sua imprevisibilidade, tendo em vista a alta dose de improviso que está em jogo.

Por um lado, nada foi proposto, nem uma política pública honesta foi estabelecida como norte do novo governo, exibindo incapacidade e pouco planejamento. Por outro lado, os discursos e símbolos que desfilaram no primeiro mês de governo nos deixam um sentimento misto de vergonha e desconfiança. É só lembrar alguma fala aleatória de parte dos ministros mais visíveis do governo nacional.

Menos de um mês foi o suficiente para conhecer e se desesperar com as novidades. Enquanto isso, o silencio nas áreas vitais preocupa mais ainda. Mas além do desfile de paradoxos, temos na nossa frente o precipício do novo momento nacional. E desse precipício não se sabe quem vai cair. Foi descoberto um esquema de corrupção que tiraria a qualquer agente de governo, mesmo um presidente. Não se trata só disso, mas também do seu vínculo com a milícia que nos deixa no limite do precipício dos sentidos institucionais e humanos. Assim, a continuidade do Clã Bolsonaro é a aceitação de um novo tipo de estado brasileiro, mais perto do Oriente Médio que da trajetória histórica brasileiro.

As milícias representam hoje a forma de criminalidade mais espúria para a ordem democrática. Isso porque ela conjuga crimes de colarinho branco (lavagem de dinheiro, empresas fantasmas, cabides de emprego no setor público etc.) com crimes contra a vida, principalmente, os homicídios e desaparecimentos forçados. Elas expressam, assim, um vórtice entre o poder econômico das elites nacionais e a propagação da manifestações agudas da barbárie no nível local. O caráter explícito das relações entre a família Bolsonaro e as milícias (vínculos de amizade, homenagens públicas, contratações suspeitas em gabinete parlamentar) define as linhas gerais da chegada ao poder nacional dessa rede criminosa. É, portanto, a expressão de outro paradoxo: o exercício de um governo que desconstitui a ordem para a qual foi eleito.

Neste cenário, esperar que Bolsonaro e sua turma continue no poder, coloca ao Brasil nas cordas. O Brasil como um todo. E significaria a aceitação e cumplicidade, dos setores tradicionais e do âmbito militar, de um governo miliciano. Assim, entraríamos na era do boxe e da prepotência, desfazendo os sentidos da democracia minúscula na que estamos vivendo. Mas na verdade pareceria que tudo se está orientando numa virada de rumo, dentro do mesmo norte. Ou seja, estamos entrando na nova era do passado. A era Mourão. Os setores do judiciário, militar, empresários, velha política e mídia, a tradição em pé novamente e mais forte que nunca.

Tudo passará da tonalidade explícita, literal, óbvia e simplória que marca o bolsonarismo para um poder que possui profunda relação com o artifício das aparências. Ao estancar a sangria do furor bolsonarista, Mourão empregará meios mais sutis e, por isso, mais eficientes de manutenção da mesma ordem defendida pelo capitão-bufão. Seria, portanto, um passo importante para a consolidação dos setores conservadores no poder: a volta para expressões mais próprias do conservadorismo à brasileira.

Ao invés de bocas espumando ódio, a cordialidade cruel das relações de poder mais abusivas. No lugar da guerra declarada contra o “politicamente correto”, o triunfo da naturalização da mentalidade e das expressões conservadoras. É como voltar a ver uma pornochanchada sem que o machismo, o racismo e a misoginia dessa escola do cinema brasileiro causem espanto ou indignação. Isso porque não se trata mais de expressão do passado, algo datado, mas experiência do presente.

Depois da experiencia do delírio-bolsonarista, que durara um suspiro no melhor dos casos, entramos na artificial normalização da vida política brasileira com o mais velho que há no Brasil. Por um lado, o judiciário garantindo a permanência do estado de direito pós-impeachment. Os militares, por outro, como guardiães da democracia brasileira, da tutela dos últimos tempos e garantidores da ordem, ou o que eles consideram ordem. E os empresários e os políticos de sempre, fazendo fluir com normalidade a dinâmica nacional do corporativismo e repartição territorial, com ar de vida ordinária. Todo carimbado pela mídia restituída no seu rôle de garantia de um accountability seletivo e arbitrário. Enfim, Bem-vindo ao passado.

Neste percurso, a memória da trajetória do progressismo do Partido dos Trabalhadores será reconfigurada, localizando-a como um período de excecional corrupção, nivelando essa experiencia com o suspiro chamado o miliciano Bolsonaro.

A era Mourão se torna um processo de normalização artificial do passado no presente, de restabelecimentos dos papeis tradicionais dos atores e agentes na dinâmica nacional. Assim, com uma população que vai apoiar uma normalização artificial depois de uma experiencia traumática como a bolsonarista, tudo parece novamente ordinário.

Três anos na vida de um pais é pouco e muito ao mesmo tempo. E foi o prazo que demoraram os setores tradicionais para reconfigurar e restabelecer as velhas estruturas e posições de poder dos atores.

Bem-vindos à velha era, bem-vindos a era da ordem dos de sempre.

André Rodrigues é professor doutor de Ciência Política na Universidade Federal Fluminense.
Andrés del Río é professor doutor de Ciência Política na Universidade Federal Fluminense.
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