27 de fev de 2019

A volta do monstro


O “monstro golberyano” está de volta. A Lava Jato representa hoje a mesma ameaça à sociedade que o SNI representou ao final da Ditadura de 64. E foi necessário, então, destruir a Ditadura para destruir o monstro.

Um pouco de história

Golbery do Couto e Silva, general articulador do golpe de 1964, foi o idealizador e o primeiro chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), que ganhou vida própria e, posteriormente, engoliria o próprio criador por ocasião das bombas do Riocentro em 1981. Golbery pediu a cabeça do general Gentil Marcondes, comandante da Vila Militar de onde haviam saído os terroristas fardados. O general Octávio Medeiros, então chefe do SNI, se opôs com o apoio do ditador Figueiredo. A demissão de Golbery não tardaria – “criei um monstro” – Carta Capital.

Barata voa

O ministro Gilmar Mendes do STF – Supremo Tribunal Federal – sente-se perseguido. Declarou-o a uma reportagem da Revista Época de 21 de fevereiro de 2019. Na semana anterior, tornara-se pública uma inédita investigação da Receita Federal sobre ele – um magistrado da mais alta Corte do país. Gilmar, disse também que é alvo, inclusive, de um procurador integrante da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba que tentaria incriminá-lo através de uma delação e que além de si próprio, vítima do que chama de “milícias institucionais”, há um ministro do STF sendo chantageado por uma das grandes operações investigativas em curso no país: “a toda hora plantavam e plantaram que esse ministro estava delatado. Qual a intenção? Isso é uma forma de atemorizar, porque essa gente perdeu o limite. Este ministro ficou refém deles”.

Alguns dias depois, em 25 de fevereiro de 2019, o “procurador integrante da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba” não se fez de rogado e mostrou a cara e as garras. Deltan Dallagnol repercutia a Lava Jato do Rio de Janeiro: “Afirmação em público de que a Receita Federal presta serviços de “pistolagem” por encomenda de procuradores e juízes demonstra que o Min. Gilmar Mendes continua a ofender gratuitamente a honra de magistrados e servidores porque acredita estar acima do bem e do mal”.




A bem da verdade, a Lava Jato do Rio de Janeiro, em reposta a mesma Revista Época, entre ataques a Gilmar Mendes – suas acusações não passariam de “devaneios sem qualquer compromisso com a verdade” – negava que investigasse o ministro: “Os membros da Força-Tarefa da Lava Jato no Rio de Janeiro não têm conhecimento de qualquer atuação do órgão fazendário que tenha relação, ainda que indiretamente, com o ministro Gilmar”. Ainda que dizer que “não têm conhecimento” seja diferente de negar, de que outro modo entender um posicionamento oficial de um órgão oficial – o Ministério Público?

Escandaloso por qualquer lado que se olhe tal bate-boca público entre figuras que deveriam, em princípio, portar-se com temperança, moderação e recato, já que guardiões no nosso Estado democrático de direito – o STF e o Ministério Público. Sintomático que tenha despertado tão pouca repercussão. Um ministro da Suprema Corte denunciando que membros do Ministério Público o perseguem e chantageiam pelo menos um outro ministro – mesmo em tempo de família Bolsonaro no poder – deveria fazer mover a República e as máquinas da imprensa. Silêncio geral.

A volta do monstro

Aparentemente as piores previsões para a Lava Jato – que já podiam ser antevistas desde três anos atrás – se concretizaram. A Lava Jato tornou-se um poder acima dos Poderes republicanos. Nos moldes do que já foi o SNI – Serviço Nacional de Informações – na Ditadura de 64. Um poder com interesses próprios – e muito provavelmente com candidato próprio para as eleições presidenciais de 2022. Um poder com uma agenda de poder.

O que o ministro Gilmar fez foi mostrar que também sabe jogar o jogo. E que tem merda para jogar no ventilador, caso seja atacado. Acompanhemos o desenrolar dos acontecimentos.

De qualquer modo, o “mostro golberyano” parece estar de volta. A mesma autonomia depravada, a mesma quebra de hierarquia e os mesmos métodos de arapongagem. O mesmo silêncio por parte do que o conhecem. Dele não a quem esteja a salvo – empresários, ministros do Judiciário, políticos e donos da imprensa – basta, para tornar-se sua vítima, estar contra seus interesses ou contra os interesses de seus patrocinadores.

A Ditadura de 64 acabou no mostro SNI – e foi preciso derrubar a Ditadura para destruir o mostro. Mas ele resistiu – com bombas, inclusive. E agora?

O Golpe de 2016 acabou na Lava Jato que não respeita nem ministro do STF. Custará acabar com o Golpe para acabar com o monstro?

Sérgio Saraiva
No Oficina de Concertos Gerais e Poesia

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