25 de fev de 2019

A esfinge Mourão


“O Brasil acredita firmemente que é possível devolver a Venezuela ao convívio democrático das Américas sem qualquer medida extrema que nos confunda com aquelas nações que serão julgadas pela história como agressoras, invasoras e violadoras das soberanias nacionais”.
Vice-presidente, general Hamilton Mourão, diante dos representantes dos outros países do Grupo de Lima e do convidado especial Mike Pence.

E pensar que a gente ia ter um dia que ficar interpretando as mensagens cifradas do general Hamilton Mourão, o vice que não era dos sonhos, mas, pelo menos na pose, como alguns de seus companheiros de farda na Esplanada, parece ser mais equilibrado que o presidente e sua família pirada. Mourão já disse tanta coisa com a qual eu não concordo que nada me fará nutrir simpatias pelo vice. Mas em terra de cego, quem anda vendado é rei. É difícil saber se o jogral tatibitate entre Mourão e Bolsonaro é ensaiado ou não, até porque se passar o governo inteiro desautorizando o general vice, o capitão não fará mais nada na vida. Pois foi Mourão quem se deslocou até a Colômbia para representar o Brasil no encontro do inacreditável Grupo de Lima, que tem até Guiana e Canadá como membros – oi!? -, para dizer que o governo brasileiro acredita que é possível encontrar uma solução “sem qualquer medida extrema” para, segundo ele, “devolver a Venezuela ao convívio democrático das Américas”. Num país que tem um presidente e a família real americanófilos, e um chanceler indicado pelo cáften Olavo de Carvalho, a frase soa, mesmo decalcada do anti-bolivarianismo, com de um bom senso surpreendente. Especialmente dita por um Mourão em trajes civis, deslocado dos colegas medalhados, e diante de quem quer ver o circo pegar fogos, e os cucarachas se enfrentando, o soturno vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence.

E de uma mídia brasileira que parece folhetim dos interesses americanos, sem um pingo de capacidade crítica – exceto pelas exceções de praxe entre os comentaristas -, de investigação e de equilíbrio. O que esperar da altiva Folha de S.Paulo que chama Nicolás Maduro, presidente eleito, de “ditador”, e o golpista Juan Guaidó de “presidente autoproclamado”. Como se o autoproclamado isentasse o jornal de sua burrice. Num cenário onde sobra insensatez e desejos agressores e belicistas, Mourão fica, assim, como um coringa que está virado na mesa, enquanto todo mundo quer bater. Uma no cravo, outra na ferradura, claro. O vice-presidente ressaltou ainda que, no contexto atual, o governo brasileiro reconhece que a Venezuela “não vai conseguir se livrar sozinha do regime Maduro”. De acordo com ele, só haverá uma alternância de poder no país sul-americano se houver uma ajuda externa. Apoiou posições “sanções” ao regime chavista e defendeu a abertura de um canal de diálogo com as Forças Armadas venezuelanas, que são hoje o principal pilar de sustentação do presidente Nicolás Maduro. E seguimos tentando entender os rumos desse episódio e o que se passa na cabeça de Mourão.

No Gilberto Pão Doce

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