7 de fev. de 2019

A campanha que não terminou


Na carta que enviou ao Congresso para a abertura do ano legislativo na segunda (4), o presidente Jair Bolsonaro deixou claro que não pretende encerrar tão cedo a campanha eleitoral do ano passado. Em outras palavras: não faltará trabalho nos próximos quatro anos às agências de checagem de fatos.

Mesmo sem ter anunciado sequer uma medida econômica em seu primeiro mês de governo, o presidente já começou a tentar convencer os brasileiros de que a economia está melhorando. Chegou a afirmar, por exemplo, que “a taxa de investimento parou de cair, os postos de trabalho voltaram a ser criados e a renda das famílias começou a dar sinais de melhora”.

Como destacou a agência Aos Fatos em sua checagem da carta, o IBGE ainda não divulgou dados de emprego, renda das famílias e taxa de investimento para janeiro. O que sabemos a partir dos dados do ano passado é que continuamos vivendo a mais lenta recuperação da história das crises brasileiras, com baixíssima criação de empregos formais e frustrações sucessivas das expectativas de crescimento.

Quanto à renda das famílias, os mais recentes dados consolidados pelo IBGE são referentes a 2017 — ano em que o rendimento médio mensal real domiciliar per capita ainda caiu 1% em relação a 2016.

Um estudo do FGV Social coordenado por Marcelo Neri estima que a renda tenha caído ainda mais entre os mais jovens e os menos escolarizados, levando 6,3 milhões de pessoas para abaixo da linha da pobreza.

Basta um pouco de psicologia barata, portanto, para qualificar como projeção no outro de seus próprios erros a acusação feita na mesma carta de que nos governos anteriores “o combate à miséria foi limitado à maquiagem nos números” e os “indicadores foram alterados para fins de propaganda, sem implicar melhoria nas condições de vida da população”.

Afinal, condenar as manobras fiscais de 2014 não justifica, nem de longe, descartar os indicadores que apontam melhora nas condições de vida da população nos anos 2000.

É um fato incontestável que o cenário externo favorável e o maior crescimento econômico abriram espaço para uma redistribuição de renda para a base da pirâmide, tanto por meio da universalização dos programas de transferência e da valorização do salário mínimo observada desde o Plano Real quanto pela forte geração de empregos formais em setores de serviços e construção civil.

Para completar, Bolsonaro reforçou em sua mensagem ao Congresso aquela que talvez seja a “fake news” mais danosa das últimas eleições, pelo grande apelo que tem para a massa de brasileiros em situação de insegurança econômica desde o fim de 2014: “Treze milhões de desempregados! Isso foi resultado direto do maior esquema de corrupção do planeta, criado para custear um projeto de poder local e continental”, afirma o presidente em sua carta.

Independentemente do peso atribuído às múltiplas causas da crise — entre erros de governos e choques externos e internos —, fica uma sugestão para as agências de checagem: quanto representa o custo total para os cofres públicos atribuído a atos de corrupção nas investigações em curso em relação ao déficit público ou à queda no PIB de 2015-2016?

Assim como os ataques a imigrantes, vendidos como “ladrões de emprego” nos EUA e na Europa, a “roubalheira do PT” como causa da crise é apenas uma simplificação sórdida forjada para alimentar uma parte da população sedenta por identificar o grupo de culpados a ser combatido.

A esta altura, a humanidade já deveria ter aprendido que uma mentira, por ser repetida mil vezes, não se torna verdade.

Laura Carvalho, professora da Faculdade de Economia da USP
No Folha

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