2 de jan de 2019

Várias omissões e uma grande fraude do presidente incapaz da verdade


Foram discursos de candidato ainda em caravana eleitoral. Não foram discursos presidenciais. Nem na cerimônia de posse no Congresso Nacional, nem pronunciamento no mais arriscado pronunciamento no parlatório, o agora empossado presidente Bolsonaro anunciou nem sequer uma medida prática para resolver problemas. O tom continuou a ser o mesmo que deu o tom nos palanques eleitorais.

Bolsonaro não propôs aliviar as divisões criadas durante a disputa eleitoral. Não anunciou que pretende ser o presidente de todos os brasileiros, mas sim que pretende governar com a “maioria” do povo brasileiro que o elegeu. A referência à maioria é fraudulenta, pois na verdade Bolsonaro foi eleito com 39% dos votos do conjunto do colégio eleitoral, computados aí nulos, brancos e abstenções. Não acenou com pacificação, mas com o combate ao que chama de viés ideológico na educação e na diplomacia.

Prometeu também combater o “politicamente correto” e a “ideologia de gênero”. Ressuscitou no parlatório diante do Palácio do Planalto, na parte não lida, mas “improvisada” de seu discurso, os antigos temas de campanha. Disse que vai libertar o Brasil do “socialismo” e que a bandeira brasileira “jamais será vermelha”, a não ser com o sangue dos que saírem em defesa da pátria.

Tanto no pronunciamento no interior do Congresso como no discurso na Praça dos Três Poderes, que parecia relativamente esvaziada na comparação com outras cerimônias do tipo, predominou o sentido de governar fascista, ou seja, diretamente “com o povo”. Mencionou sim apenas de passagem o respeito “aos fundamentos” da democracia e da “Constituição”. Pregou um “pacto” com Legislativo e Judiciário, mas não exatamente união.

Não mencionou os seus candidatos adversários da campanha eleitoral, nem mesmo os partidos políticos, senão indiretamente para dizer que seu ministério é “técnico”, sem “o tradicional viés político”, e não resulta de negociação com os partidos. Convicção mesmo mostrou ao abordar a proteção às forças policiais no “combate aos bandidos”.

Nem mesmo a anunciada cruzada contra a corrupção mereceu mais do que alusão passageira. Causa dúvida a referência à sua intenção de “resgatar a legitimidade e a credibilidade do Congresso Nacional”. Difícil saber como Bolsonaro pretende realizar essa tarefa, que aliás nem cabe a ele, ignorando em seu governo as forças presentes no Parlamento. O trecho mais enigmático e perigoso das duas falas de Bolsonaro, porém, foi emitido no Congresso, quando disse, mentirosamente, que “inimigos da pátria, da ordem e da liberdade tentaram pôr fim à minha vida”. Nenhuma investigação séria confirma essa versão.

Na boca da autoridade presidencial, ela já abre em si um espaço de falsidade inaceitável, que desmoraliza sua credibilidade.

Talvez seja porque Bolsonaro afinal só fale mentiras. Talvez seja por isso que a praça estivesse relativamente vazia. E talvez também seja por isso que a maioria que não votou no capitão da mentira esteja em casa, sem comemorar, só olhando para ver se ele vai sentar na cadeira e governar.

Ou melhor não.

Mário Vítor Santos é jornalista. Foi ombudsman da Folha e do portal iG, secretário de Redação e diretor da Sucursal de Brasilia da Folha.

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