22 de jan de 2019

Religião e Sociedade

Existe uma disciplina da área da Lingüística chamada "arqueologia literária", cujo objetivo é fazer um estudo comparado do texto das escrituras sagradas, no hebraico, aramaico e latim. A ideia é, através da comparação, estabelecer a autoria, a autenticidade e o sentido das narrativas bíblicas. Faz parte do que se convencionou chamar de ciências hermenêuticas. Há várias formas de interpretação desses textos. Temos uma hermenêutica liberal, uma ortodoxa e uma terceira que faz uma revalorização do profetismo como fonte de uma reflexão teológica. Isto porque se encontra justamente nos profetas do velho testamento os germes, as sementes do protesto social, da indignação humana contra todas as formas de injustiça social. É da voz (e da pregação) de Isaías, Amós, João Batista e outros) que os neo-ortodoxos extraem hoje o material de sua exegese dos textos bíblicos. A interpretação ortodoxa das escrituras é a mais conservadora, mais fundamentalista e alheia aos problemas da vida profana. É esse ramo da exegese bíblica que mantém mais afinidades com o Judaísmo, entendendo-o como o irmão mais velho do Cristianismo.

A interpretação ortodoxa ignora ou subestima toda a complexidade hermenêutica do estudo e da compreensão desses textos e tende a uma leitura literal, sem atentar para o ato de que o livro sagrado do Judaísmo e do Cristianismo é um compósito de várias narrativas,de autores diferentes, épocas diferentes e que contém histórias extraordinárias, que se não forem lidas como parábolas ou alegorias edificantes, podem se tornar fonte de credulidade ou ignorância.

A reinterpretação dos textos vestutestamentários foi feita de inúmeras formas e com objetivos bem diferentes. A mais problemática, com certeza, é aquela feita por ramos ou denominações da Igreja Reformada, como por exemplo: o movimento pentecostal e neo pentecostal (que, aliás, não se reivindicam do legado de Cristo ou do Cristianismo), em sua origem anglo-saxã. Não é segredo para ninguém que o primeiro a fazer isso foi Martinho Lutero, ao negar a importância da intermediação da Igreja romana na interpretação dos evangelhos e ressaltar o livre exame das escrituras por cada fiel ou crente. No entanto, quem iria extrair todas as consequências dessa nova exegese seriam os evangélicos norte-americanos e a sua ênfase no papel do indivíduo e suas ações na salvação da alma. Enquanto os cristãos romanos e ortodoxos se ativeram à ética das convicções, os evangélicos passaram direto para a ética das consequências, afirmando que o crente se salva pelas obras e pelo resultado prático de suas ações, independentemente do contexto social. E a manifestação da graça divina estaria nos sinais de prosperidade material do crente. Quanto mais rico,mais próspero e abonado, mais abençoado por Deus. Surgia aí uma nova moral, a moral puritana do trabalho. E uma nova teologia, a teologia da prosperidade. Naturalmente que o pano de fundo de uma tal teologia era a sociedade norte-americana (antes do fim do sonho americano), o chamado "American Way Life".

A transposição dessa teologia da prosperidade para o Brasil enfrentou, inicialmente, certas dificuldades em razão da forte e prolongada hegemonia da Igreja católica romana e a sua doutrina do "usto preço" bem como o seu despreza pelo acúmulo de bens materiais. Mas a crise do catolicismo e a proliferação dos cultos evangélicos, sobretudo nas comunidades pobres e desassistidas da periferia, esse discurso caiu como um a luva no desespero e na orfandade religiosa das classes mais pobres. Marx se referia à religião, em sua época, como o "ópio do povo", e Freud, como uma espécie de neurose ou infantilismo nas pessoas piedosas. Hoje, é preciso atualizar o sentido dessa crítica. O discurso do enriquecimento fácil e o acesso ilimitado aos bens de consumo duráveis sugeridos pela "teologia da prosperidade" ofertado pelas igrejas pentecostais e neo-pentecostais tornou-se uma forma de alienação política e econômica muito grave, transformando-se num imenso obstáculo para a pregação socialista e republicana do Brasil.

Michel Zaidan Filho é filósofo, historiador, cientista político, professor titular da Universidade Federal de Pernambuco e coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia.
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