4 de jan de 2019

Relato da jornalista Júlia Dolce


Eu me vesti de verde e amarelo e distribui sorrisos pra conseguir passar com três lentes e uma câmera profissional pelas quatro fases da triagem que proibia jornalistas e qualquer tipo de bolsa/mochila/pochete. Tentaram me barrar porque uma das minhas lentes podia ser um objeto 'disparável', porque eu poderia machucar alguém. Eu ri na cara da segurança e falei que seria muito caro e burro jogar uma lente, mas ela não achou muita graça. Por causa do disfarce as pessoas se sentiram muito confortáveis pra comentar um monte de coisa comigo e ao meu redor, mas acho que elas estavam à vontade de qualquer forma.

Visualmente eu me decepcionei com os absurdos da posse, achei que o material fotográfico captaria várias cenas assustadoras, mas as proibições (e a vitória, provavelmente) limitaram os cartazes e fantasias. O público também era bastante diverso, e é contraproducente dizer o contrário. Muitos negros, muitas mulheres, muitas pessoas de diversos estilos, embora houvesse uma concentração de clubes de motoqueiros que provavelmente ultrapassa a população normal desse grupo no país rs. No entanto, caminhar por entre as pessoas era um show de horrores sonoro. Pessoas argumentando que tinham amigos homossexuais, mas eles não eram 'gayzistas' como o Jean Wyllys, seja lá o que isso significar; pessoas irritadas com os outdoors de homenagem aos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos que decoravam a Esplanada dos Ministérios, "tinha que ser 70 anos de direitos iguais", e principalmente, fazendo muitas menções ao PT e a Lula, e agradecendo ao "novo Brasil que teve início em 2019". Vi algumas pessoas parando crianças e dizendo: "Que sorte a sua, você vai crescer no novo Brasil!".

Chamou a atenção também a irritação do público com o sistema de segurança, que realmente estava muito rígido e absurdo, principalmente a proibição de garrafas d'água e limitação de alimentos. O sol em Brasília castigou e em diversos momentos o público ficou literalmente preso, como ratinhos, em áreas que foram completamente fechadas para a passagem demorada de comitivas. Bebês, idosos, presos em praças gigantescas sem nenhum tipo de sombra, sem possibilidade de se alimentar e com poucos pontos de água que tinham muitas filas. No final, assistimos até ao primeiro protesto contra o governo Bolsonaro, quando as pessoas ameaçaram quebrar as grades se o Exército não as deixasse ir embora rs.

Mas em relação à segurança em si, ouvi comentários do tipo "pra quê isso?", "Isso é tudo culpa dos idiotas do PT, se não fossem eles não estaríamos ameaçados", ou "pelo menos aqui só vai entrar gente de bem". O que me surpreendeu mais foi o cansaço e indignação em relação a um sistema que existe, basicamente, em governos e situações militarizadas. É uma comparação perigosa, mas a última vez em que eu tive que passar por tantos sistemas de segurança, triagens, detectores de metal, e mentir que eu não era jornalista, foi quando fiquei cinco semanas na Palestina, e tive que passar no assustador aeroporto de Israel (*assustador para quem não é Judeu), um Estado completamente militarizado, e ter uma experiência de vivência em uma nação ocupada militarmente. As filas me lembraram os Checkpoints, (claro que o tratamento não tem nem comparação), mas um Bolsonarista do meu lado chegou a comentar que estávamos sendo tratados como gado. Em um Checkpoint na Palestina eu cheguei a ver um menino israelense, com botas militares desproporcionalmente grandes pra sua cara não barbada, brincando de liberar e travar uma catraca com pessoas lá dentro e pedindo o telefone de uma mulher Palestina para deixá-la passar. Coincidentemente ou não, o que mais vi na posse além de bandeiras do Brasil, foram bandeiras de Israel.

Fica claro que as pessoas que apoiam Bolsonaro não têm ideia do que está por trás do que ele propõe. Da forma como as coisas seriam implementadas. Porque as pessoas prezam pela liberdade e pelos seus direitos, elas apenas não sabem disso.

E aí eu chego no segundo fato que me chamou a atenção: Passei sete horas na posse presidencial ao redor de bolsonaristas e não vi uma lágrima sendo derramada. Meus amigos fotógrafos também não. As pessoas se diziam felizes, em êxtase, diziam que aquilo lá estava lindo, que provavelmente era a maior posse presidencial da história (kkk). Gritavam e urravam com os aviões da esquadrilha da fumaça e com os tiros dos canhões, vaiavam a fala de qualquer político que não fosse Bolsonaro e Hamilton Mourão. Mas não se emocionavam. E isso me surpreendeu porque eu esperava fotografar lágrimas. Eu acredito que Bolsonaro seja claramente um político populista, e move e convence a população por estratégias populistas (o que não é uma coisa ruim, mas simboliza a política do estômago e do coração, usando, principalmente, do sentimento).

Eu era muito nova, infelizmente, mas já assisti várias vezes vídeos da posse de Lula em 2003. Além da liberdade de locomoção e aproximação do público, a diferença principal é essa: em 1º de janeiro de 2003 o público na esplanada chorava copiosamente, de agradecimento, de orgulho, de esperança. Lula também é um político populista. O que os difere, além da ideologia, para mim, é que o PT, os políticos e a própria ideologia de esquerda mexem com sentimentos diferentes dos movidos pelo movimento de Bolsonaro, que são basicamente indignação e raiva.

As pessoas gritavam de raiva, de vingança, de ódio. Elas tentavam ser super educadas o tempo todo, convencidas de que a cidadania venceu no país e que elas são as grandes representantes disso. Mas quando se exaltavam, em massa, era puro ódio. Mesmo após a vitória, as pessoas continuam com ódio, e isso não vai passar. É preocupante, porque repercute para todas as relações pessoais, trabalhistas, amorosas. É a forma como o fascismo vai entrando nas veias das pessoas e fazendo delas mesmas o próprio sistema de segurança do governo. Isso contamina todo mundo, não só quem é de Direita. Nesse sistema, para se defender, lideranças, movimentos e militantes de esquerda, na urgência de preservar sua organização, tratam individualmente as pessoas com o mesmo ódio e descaso. É um regime de exceção dentro da exceção que já vivíamos.

Não sei o que devemos fazer, não faço ideia, sinceramente. Mas acho que a gente pode começar parando de tratar essas pessoas como se fossem burras, dizer que a posse delas estava esvaziada, e falar apenas com os nossos. Isso tudo de novo? Sim, porque viramos o ano e, infelizmente, essa é a mesma estratégia comunicacional dos veículos e pessoas de esquerda. Spoiler: já não deu certo. E a raiva, o estômago, a indignação, podem tanto cegar quanto incentivar a disponibilidade de ouvir soluções, se juntar a movimentos, sair da apatia. A gente tem que aprender a canalizar isso, como a Direita soube fazer.

Eu tô envergonhada com a nossa comunicação, com o nosso jornalismo. No discurso final, Bolsonaro destacou que aquelas pessoas estavam finalmente sendo ouvidas. Foram ouvidas. Elas vibraram nessa parte. E querem saber? Elas foram mesmo ouvidas, e não foi por nós. Nem nos últimos anos, nem ontem.

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