2 de jan de 2019

Posse de Bolsonaro foi um fiasco

Esplanada vazia
Sob muitos aspectos, a posse de Jair Bolsonaro foi um fiasco.

O primeiro deles é o público.

A equipe do presidente anunciou que colocaria na Praça dos Três Poderes e na Esplanada dos Ministérios mais de 250 mil pessoas — havia assessores falando em 500 mil.

A ideia era quebrar o recorde de público na posse de Lula, em 2003 — 250 mil.

Na festa de Bolsonaro, segundo cálculo do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), compareceram 115 mil.

O segundo fiasco foi o baixo comparecimento das autoridades de outros Estados.

Destacaram-se dois expoentes da direita mundial.

Benjamin Netanyahu, que enfrenta problemas políticos internos muito sérios em seu país, Israel, acusado de corrupção.

O outro é Victor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, comparado a Hitler.

Donald Trump, a quem Bolsonaro faz acenos de submissão, não veio, e seu representante, o secretário de Estado Mike Pompeo, ficou pouco tempo em Brasília.

Ele chegou por volta das 13 horas a Brasília, e fez uma postagem no Twitter:

“Ansioso para testemunhar a transferência pacífica de poder em uma das democracias mais fortes da América Latina.”

Mike Pompeo, no entanto, foi embora no início da noite. Teria permanecido no Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores, apenas meia-hora, e saiu sem falar com a imprensa.

O presidente peruano, Martín Vizcarra, deixou Brasília ainda pela manhã, antes da posse. Sua assessoria informou que há uma crise política no país, e ele teve que retornar.

O presidente da Argentina, Maurício Macri, nem colocou os pés em Brasília.

Dias antes, avisou que não compareceria, e mandou no seu lugar o ministro das Relações Exteriores, Jorge Faurie.

O presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Souza, compareceu, mas, pelo que se conta nos bastidores, tinha motivos familiares para estar no Brasil.

Seus netos moram em São Paulo, e ele passou o Réveillon com a família, e de manhã viajou para Brasília.

Perguntado sobre o que achou da posse de Bolsonaro, disse que foi um dia bastante “cheio”, no sentido de que houve muitas solenidades.

No Congresso Nacional, a posse de Bolsonaro também não teve o prestígio que se imaginava.

Deputados progressistas, sobretudo os da bancada do PT, PSOL e PCdoB, boicotaram, em razão das declarações hostis do presidente.

Durante a campanha, ele disse que iria metralhar os petistas e banir do Brasil os opositores.

Mas não foram só eles que faltaram.

Quem acompanha o dia a dia de Brasília notou a ausência de políticos experientes do chamado centrão.

Na prática, deram uma banana para Bolsonaro.

Em política, a ausência de um parlamentar é um sinal eloquente.

É uma declaração de que ainda esperam algum aceno do chefe do Executivo.

Por enquanto, tudo é festa, mas para tocar este transatlântico chamado Brasil Bolsonaro precisará de muito mais do que uma retórica beligerante — aliás, esta só atrapalha.

Não adianta dizer que vai libertar o Brasil do socialismo ou que a bandeira não será vermelha.

Declarações desse tipo deixam excitados os analfabetos políticos, mas não representam nada nas relações institucionais.

São palavras desprovidas de sentido. Quando é que o Brasil foi socialista?

Se gritar muito, Bolsonaro vai ficar rouco, mas não vai conseguir nada.

Só aumentará a rejeição que tem da parte já civilizada da sociedade, brasileira e mundial.

* * *

Em relação à posse de Bolsonaro, Donald Trump se limitou a fazer uma postagem curta no Twitter – o cumprimentou pelo “ótimo discurso de posse”.

Minutos depois, Bolsonaro agradeceu, também pelo Twitter, e chamou o presidente dos Estados Unidos de “Senhor Presidente”.

Muitos eleitores de Bolsonaro se arrependerão rapidamente de entregar o comando do país a um político do baixo clero.

Joaquim de Carvalho
No DCM



Posse é um show de horrores, mas ao mesmo tempo altamente populista


A posse de um presidente vale não pelos rococós que dispensam quase 90% do seu tempo, mas pelo momento em que o eleito sobe no parlatório para falar ao público presente na Esplanada. É ali que se dá o recado de qual será o tom do início do governo. É neste discurso que se estabelecem os marcos do marketing que chega.

E a grande novidade é que Michele Bolsonaro não será uma primeira-dama decorativa. Ela falou antes do novo presidente usando a linguagem de libras. Foi tudo meio patético, mas ao mesmo tempo um golaço de marketing. Ao fazer isso ela estabelece uma relação direta com o público deficiente físico, em especial os surdos. São 25% dos brasileiros com alguma deficiência. E 5,4% de surdos. Não é pouca coisa.

Ao mesmo tempo seu discurso humanizou o marido para o público feminino que era o mais refratário a ele durante a campanha eleitoral.

Já Bolsonaro não desceu do palanque. E deixou claro que vai manter seu tom bélico e de ódio na presidência. Abriu falando que estava com a sua posse libertando o país do socialismo, declarou o fim do politicamente correto, acusou os direitos humanos pelo aumento da violência e para lacrar ainda encerrou com uma bandeira do Brasil na mão dizendo que a nossa bandeira jamais será vermelha e se for preciso derramará sangue para mantê-la verde e amarela.

O público presente na Esplanada foi ao êxtase neste momento. Muitos devem ter comemorado nos sofás de suas casas assistindo à Rede Globo, que aliás, fez uma cobertura absurdamente favorável ao novo presidente. Os comentários, em especial de Heraldo Pereira, foram altamente reverenciais. Como se nada estivesse acontecendo com seus colegas jornalistas que foram tratados, nas palavras de alguns deles, piores do que cachorros na posse.

Os primeiros 100 dias de governo costumam ser de bate-cabeça. Cada ministro buscando ter mais poder do que o outro. Quando dá tudo certo, as coisas se ajeitam lá pela Páscoa. Mas pelo que se pode perceber hoje, o governo que chega tem foco. Será autoritário, mas altamente populista.

E isso pode lhe garantir certo fôlego.

Aliás, não foi à toa que o filho Carlos Bolsonaro, vereador no Rio de Janeiro, foi o escolhido para acompanhar o pai no desfile de carro aberto. Ele é o mais bélico de todos. É o que expressa com maior virulência o ódio a todos os valores iluministas e de respeito aos direitos humanos.

Não será tão fácil combater o governo Bolsonaro neste primeiro momento. Porque ampla maioria da população torce para que dê certo. Para que o capitão bote ordem nas coisas e melhore a segurança pública, a saúde, a empregabilidade etc.

Sabe-se que ele não vai conseguir entregar isso de cara e por isso as pessoas darão um tempo para as coisas se ajeitarem. Enquanto isso, Bolsonaro se encarregará de, com um rumo claro nos aspectos políticos e culturais, ir entregando sua agenda autoritária.

O que pode atrapalhá-lo é se o leite azedar na economia. Mas o que dá para prever olhando essa posse é que teremos um governo trapalhão, mas populista e que não titubeará. Fará tudo o que prometeu na campanha em relação a perseguição e ataques a agenda progressista. E buscará transformar cada um desses retrocessos em grandes vitórias para o país.

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