14 de jan de 2019

O que podemos aprender com Cesare Battisti?


Não restam dúvidas de que a extradição de Cesare Battisti teve absoluta conotação político-ideológica. Naquela distante Itália dos anos 70 o que se via não era democracia, mas uma luta aberta e repressiva da direita contra uma esquerda (liderada pelo PCI) que insistia em obter vultosas vitórias nas urnas das mais importantes cidades daquela península.

A violência da direita foi respondida por segmentos armados da esquerda. Foram os "anos de chumbo" da Itália. No meio desse fogo cruzado um jovem comunista levantou armas contra a direita. Era Cesare Battisti.

Condenado na "Lava-Jato" italiana - conhecida como "Operação Mãos Limpas" - Battisti foi condenado por, entre outras coisas, um duplo assassinato ocorrido com uma margem de tempo de alguns minutos a uma distância de mais de mil quilômetros.

Essas foram as "delações premiadas" que condenaram antigos inimigos políticos da direita italiana e absolveu mafiosos e empresários envolvidos em graves crimes de corrupção que se estendiam até à Santa Sé.

Sabendo que seu processo era farsesco, Battisti fugiu pra França onde obteve asilo político do lendário presidente socialista, François Mitterrand. Com a derrota da esquerda nas eleições francesas, o italiano fugiu para o Brasil.

Vale lembrar que o Brasil tem uma larga tradição em conceder asilos políticos a ditadores e gente da pior extirpe. Um exemplo clássico foi o asilo político dado ao ditador, genocida, corrupto e paraguaio, Alfredo Stroessner.

Depois de uma longa novela, o Ministro da Justiça da época, Tarso Genro, concedeu asilo político a Cesare Battisti. O STF - sempre reacionário e sempre com seus tentáculos sob os outros poderes - quis julgar um ato de competência exclusiva do poder Executivo como ilegal. Caiu no colo de Lula a decisão final e, republicano que é, o mesmo tomou a decisão a favor do asilo político.

Aqui começaria o erro de Battisti. Na verdade são vários erros que culminam em uma unidade, como veremos.

O primeiro erro foi acreditar na solidez da decisão do Executivo brasileiro. O Brasil não é um país sério. O que está na lei se cumpre diante da conveniência do momento. De cada 100 estrangeiros que apontam o maior problema no Brasil, 99 dizem que é a insegurança jurídica. Battisti acreditou que sua condição era sólida, mas a mesma era tão líquida como a água.

O segundo erro foi acreditar que ele poderia se amparar no Direito Civil, em especial no da Família. Ele é casado e tem uma filha que depende financeiramente de seus proventos. Mas o que significa isso em um país de miseráveis de espírito e de dinheiro. A maioria pobre ignora esse fato e a minoria rica quer ver a sua cabeça servida em uma tijela de prata.

Por último, o seu pior erro: tentar levar uma vida simples, frugal e sem envolvimento político. De inimigo simbólico da direita nacional e italiana, Battisti se converteu em um suave desjejum a ser servido depois das vitórias eleitorais da extrema-direita, lá e cá.

Battisti deveria ter feito o contrário: deveria ter se tornado um ativista político, defendido as grandes causas sociais do Brasil, defendido a Amazônia, os índios... em suma, deveria ter dito em claro e alto som: "aqui nesse corpo existe um ser que luta contra as injustiças e pelos injustiçados".

Nesse caso, se fosse preso, seria uma prisão política escancarada e um governo de esquerda poderia ter interesse em defender o seu nome e lhe conceder asilo político.

Mas Battisti abandonou a luta e ficou escondido, sem se envolver com nada. Tomava sua cervejinha com os amigos, era um bom marido, escrevia poesias e era um pai amável.

Battisti não era mais um preso político potencial, mas uma sobremesa política, pronto para ser devorada por uma direita que nunca perdoa, nunca esquece e nunca perde a oportunidade de violar os direitos e a vida de seus opositores de hoje e de ontem.

Não se questiona a fraqueza do suposto governo de esquerda de Evo Morales por ter entregue Battisti, sem pestanejar, ao governo italiano. Evo é o mandatário do país mais pobre da América do Sul e sua esquerda pós-moderna só convence quem nasceu ontem. É, no final, mais um lacaio dos governos brasileiros. Nesse hemisfério só há governos de esquerda em Cuba e na Venezuela.

Mas o que podemos aprender com esse drama vivido por Battisti é simples: se optamos por lutar, teremos que lutar até a morte. Não há rendição para a direita e nem cessar fogo. É lutar ou se entregar como escravos ao banquete dos reacionários.

Carlos D'Incao é historiador

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