27 de jan de 2019

"Multas" não ressuscitam mortos

Xavier: abutres acham que dinheiro lava tudo


O Conversa Afiada publica artigo sereno (sempre!) de seu exclusivo colUnista Joaquim Xavier:

Sei que está fora de moda defender vidas num governo de propósitos abertamente homicidas. “Tem que matar uns 30 mil”, disse o hoje presidente Bolsonaro numa entrevista emblemática quando ainda era deputado. “Jean Willys tem que ir para o paredão profilático”, postou a desembargadora carioca Marilia Castro Neves, “embora não valha a bala que o mate”. “Tem que mirar e acertar na cabecinha”, orienta o novo governador do Rio.

O dilema volta com o desastre de Brumadinho. Após a tragédia, governos e ministério público se apressam a lavrar multas e bloquear dinheiro da Vale como “punição”. Assim como têm feito ao longo dos tempos. Serve para alguma coisa?

No principal, para nada. Seja qual for o volume, a dinheirama nunca será capaz de aplacar a dor e o trauma definitivo de quem perdeu familiares, parentes, amigos. Para desgosto da ministra Damares, mortos não ressuscitam em pés de goiaba, por maior que seja a fé de cada um.

Num nível abaixo, a montanha de “punições” sempre está sujeita a recursos, chicanas e jeitinhos nesse judissíário subserviente ao grande capital – fora que os valores mal fazem cócegas no cofre empanturrado das empresas atingidas. O desastre de Mariana em 2015 até hoje corre nos tribunais. Mais de 300 famílias aguardam até hoje a reconstrução de suas casas. Vivem como párias, chorando a perda de seus mortos. Ninguém está preso. Já a Vale seguiu a mil por hora, produzindo lucros para os que se aproveitaram do arrastão de privatizações promovido por Fernando Henrique Cardoso.

Paulo Henrique Amorim, no Conversa Afiada, tocou no ponto. Enquanto era estatal, a Vale não produziu um morto vítima de desastres parecidos. Poderia não “lucrar” tanto – e olha que lucrava muito! - porque levava em conta medidas de segurança e de preservação de seus funcionários. Após a privataria selvagem, a empresa deixou o assunto em último plano – se é que deixou em algum plano. Escondeu riscos e preferiu investir no azul do livro caixa. Mortos viraram estatísticas “inevitáveis” no plano da empresa.

Assim como em Mariana, o desastre de Brumadinho era previsível. O noticiário está repleto de informações sobre reuniões alertando para os riscos. Dias antes do estouro da barragem, houve tremores de terra indicando a gravidade da situação. Mais grave ainda: não existia nenhum sistema para advertir a população das cercanias de que o pior estava prestes a acontecer.

Não se sabe – e nunca se saberá ao certo — a quanto chegará o número de vítimas de Brumadinho, assim como não se conhece com exatidão quantos morreram em Mariana. Outras tragédias do gênero já estão no calendário, a não ser que se tome a única providência cabível num ambiente como esses: SUSPENDER imediatamente a operação de todas essas instalações Brasil afora, até que uma comissão independente de especialistas ateste a segurança de tais construções. “Ah, mas isso custa dinheiro.” Sim, vai custar dinheiro do pessoal do 1% que suga os recursos da maioria do planeta.

A má notícia: o ministro responsável pelo meio-ambiente é investigado como especulador de licenças ilegais. Paulo Guedes, o czar das finanças que mora no Brasil, mas tem seu domicílio cerebral com CEP em Washington e Chicago, não está nem aí para isso. Já o chefe de ambos, o ex-capitão Bolsonaro, avalia que cuidados com o meio ambiente travam investimentos no Brasil.

Onde será o próximo Brumadinho?

Joaquim Xavier

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