5 de jan de 2019

Matusalém

Há algum tempo, convidaram o Zuenir, o Ziraldo e eu para escrever uma peça de teatro. O assunto, já que a soma das nossas idades dava mais de 250 anos (eu era o caçula!) seria a velhice, suas misérias, seus estragos, seus terrores, suas indignidades - tudo tratado com humor.

Fizemos reuniões para planejar a participação de cada um no roteiro da peça. E reuniões, e reuniões, e mais reuniões, no fim das quais tínhamos exatamente nada. Nem um título. Os produtores nos lembraram, gentilmente, que a produção andava, que já havia uma atriz principal e um teatro contratados, que o espetáculo dependia do texto para ser encenado. Concordamos. O texto era essencial. O texto sairia. Só precisávamos de mais duas ou três reuniões.

Finalmente, o alívio. Para nós e para os produtores, que chamaram um dramaturgo profissional para fazer o texto, aproveitando ideias que - milagrosamente - nós lhe déssemos durante os ensaios. Até hoje não sei a causa daquele branco tripartido que nos embotou o cérebro. Talvez a obrigação de encarar suas velhices e ainda fazer piadas a respeito tenha emburrado os três.

Algumas ideias do Zuenir e do Ziraldo chegaram ao palco. Nenhuma ideia minha sobreviveu. Pensei numa entrevista para a TV do Matusalém, o personagem mais longevo da Bíblia, avô de Noé. Matusalém, ao contrário do que todos pensam, ainda não morreu. Vive no Brasil, mais especificamente em Madureira, e chegou para a entrevista na TV de bicicleta.

- E aí, Matusalém. Quantos anos?

- Só vou dizer uma coisa. Na última vez que me fizeram um bolo de velas, a casa incendiou.

- A Bíblia diz que você morreu com mais de 900 anos.

- Vá acreditar na imprensa.

- Você... Posso chamá-lo de “você”?

- Lá na zona me chamam de “Matu”.

- Vivendo tanto tempo, Matu, você certamente se encontrou com muita gente importante...

- Iiiiih ... Diz um aí.

- Noé, seu neto.

- Grande safado. Quase me deixou fora da Arca, só porque eu estava sem mulher na ocasião e só aceitavam duplas.

- Jesus Cristo.

- Amigaço. Numa mesa com Jesus, nunca faltava vinho.

- Como está se dando no Brasil?

- Mais ou menos. O INSS não aceita meus documentos porque o papiro está se esfarelando e não querem me pagar.

A peça não foi um grande sucesso nas teve uma carreira respeitável. Sobraram da experiência três autores penitentes.

Luís Fernando Veríssimo

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários com links NÃO serão aceitos.

Os comentários são de total responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do blog

Comentários anônimos NÃO serão publicados, como também não serão tolerados spams, insultos, discriminação, difamação ou ataques pessoais a quem quer que seja.

É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O blog poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.