22 de jan de 2019

Ligue os pontos

Queiroz se escondeu em favela do Rio dominada pela milícia

Queiroz tem pelo menos dez mortes no currículo de ex-PM


Alvos de operação, milicianos foram homenageados por Flávio Bolsonaro em 2003 e 2004

O major Ronald Paulo Alves Pereira, chega preso à Cidade da Polícia: ele recebeu homenagem por meio
de uma moção honrosa proposta por Flávio Bolsonaro de louvor e congratulações pelos serviços prestados
na época em que estava no 22º BPM (Maré)

Foto: Márcia Foletto
O Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ), com o apoio da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) e da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) da Polícia Civil, desencadeou na manhã desta terça-feira a Operação Os Intocáveis, em Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio, e outras localidades da cidade, que prendeu ao menos cinco suspeitos de envolvimento no assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes. Os presos são integrantes da milícia mais antiga e perigosa do estado. 

Para a ação, que mobiliza cerca de 140 policiais, a Justiça expediu 13 mandados de prisão preventiva contra a organização criminosa. Os principais alvos da operação são o major da Polícia Militar Ronald Paulo Alves Pereira, o ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope) Adriano Magalhães da Nóbrega, chefe da milícia de Rio das Pedras; e o subtenente reformado da PM Maurício Silvada Costa, o Maurição. 

Embora o objetivo da ação do MP-RJ seja atacar a milícia que explora o ramo imobiliário ilegal em Rio das Pedras com ações violentas e assassinatos, há indícios de que dois dos alvos de prisão comandem o Escritório do Crime, braço armado da organização, especializado em assassinatos por encomenda. Os principais clientes do grupo de matadores profissionais são contraventores e políticos. 

Major PM é preso

O major Ronald Paulo Alves Pereira, de 43 anos, é investigado por integrar a cúpula do Escritório do Crime. Foi denunciado por comandar os negócios ilegais como grilagem de terra e agiotagem. É réu no processo de homicídio de cinco jovens na antiga boate Via Show, em 6 de dezembro 2003, e vai a júri em abril deste ano. O oficial foi preso no condomínio fechado Essence, perto do Parque Olímpico, na Zona Oeste. Segundo moradores, os apartamentos mais caros valem mais de R$ 1 milhão.

Maurição, de 56 anos, é uma espécie de capataz dentro de Rio das Pedras. Dá também ordens sobre as cobranças dos imóveis da facção e controla as vans.

Também foi preso Manuel de Brito Batista, o Cabelo - que atua na quadrilha como contador e gerente armado. Os agentes encontraram Cabelo dormindo em seu quarto, em uma casa no condomínio de luxo Floresta Country Club, na Estrada do Bouganville 442, bloco C1. Ele deu diversas informações contraditórias aos agentes. Indagado se tinha carro, ele negou. Mas os policiais encontraram chaves de dois veículos, um Corolla e um HB20 preto placa LTA-9321. O Corolla não foi encontrado, mas o HB20 foi revistado e nada foi encontrado em seu interior. Os policiais acharam um cofre cuja a chave não foi encontrada. Os agentes ainda cumprem o mandado de busca e apreensão.

Os outros presos na operação são Benedito Aurélio Ferreira Carvalho e Laerte Silva de Lima. Benedito é apontado como "laranja" da organização criminosa. Ele empresta o nome para a abertura de uma empresa de construção civil na Junta Comercial do Rio. Já Laerte é o braço armado da quadrilha. É um dos responsáveis pelo recolhimento e repasse das taxas cobradas aos moradores e comerciantes, além da parte de agiotagem.

Alvos de operação, milicianos foram homenageados por Flávio Bolsonaro em 2003 e 2004

Os dois principais alvos da Operação Intocáveis , o ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega e o major da PM Ronald Paulo Alves Pereira, foram homenageados, em 2003 e 2004, na Assembleia Legislativa do Rio por indicação do deputado estadual Flávio Bolsonaro. O parlamentar sempre teve ligação estreita com policiais militares.

Adriano, que ainda não foi encontrado pela polícia, chegou a receber a medalha Tiradentes, a mais alta honraria do Legislativo fluminense. Ronald, um dos presos na manhã desta terça-feira, ganhou a moção honrosa quando já era investigado como um dos autores de uma chacina de cinco jovens na antiga boate Via Show, em 2003, na Baixada Fluminense. Os dois são suspeitos de integrar o Escritório do Crime, um grupo de extermínio que estaria envolvido no assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL).

O ex-capitão Adriano Magalhães da Nóbrega foi alvo de duas honrarias, de louvor e congratulações por serviços prestados à corporação. A primeira, uma moção, ocorreu em outubro de 2003, por comandar um patrulhamento tático-móvel, quando estava no 16º BPM (Olaria). Na época, o militar era primeiro-tenente. O texto da moção de número 2.650/2003 dizia que ele era homenageado "pelos inúmeros serviços prestados à sociedade". Flávio Bolsonaro justificou o ato: "no decorrer de sua carreira, atuou direta e indiretamente em ações promotoras de segurança e tranquilidade para a sociedade, recebendo vários elogios curriculares consignados em seus assentamentos funcionais. Imbuído de espírito comunitário, o que sempre pautou sua vida profissional, atua no cumprimento do seu dever de policial militar no atendimento ao cidadão. É com sentimento de orgulho e satisfação que presto esta homenagem".

Em março de 2004, major Ronald Paulo Alves Pereira, então capitão, também recebeu uma homenagem por meio de uma moção honrosa Foto: Reprodução
Em março de 2004, major Ronald Paulo Alves Pereira, então capitão, também recebeu uma homenagem
por meio de uma moção honrosa
Na segunda, em agosto de 2005, Adriano recebeu a medalha Tiradentes, principal honraria da Assembleia Legislativa, também com elogios à carreira do então militar.

Em março de 2004, foi o major Ronald Paulo Alves Pereira, então capitão, que também recebeu uma homenagem por meio de uma moção honrosa proposta por Flávio Bolsonaro. A moção de número 3.480 foi de louvor e congratulações pelos serviços prestados por Ronald, que na época estava no 22º BPM (Maré).

Ele teria se destacado em uma operação realizada no Conjunto Esperança, no Complexo da Maré, na Zona Norte, no dia 22 de janeiro de 2004, à 0h30m. De acordo com os registros da Assembleia Legislativa, a ação resultou “em confronto armado com marginais da lei, onde três destes vieram a falecer, sendo um deles o meliante Macumba, líder do tráfico no Conjunto Esperança, Complexo da Maré”. Na operação foram apreendidos: dois fuzis M16, uma granada marca FMK de fabricação argentina, dois celulares, um radiotransmissor, além de munição.

O ex-capitão Adriano Magalhães da Nóbrega recebeu duas homenagens na Assembleia Legislativa do Rio. As duas indicações partiram do então deputado estadual Flávio Bolsonaro Foto: Reprodução
O ex-capitão Adriano Magalhães da Nóbrega recebeu duas homenagens na Assembleia Legislativa do Rio.
As duas indicações partiram do então deputado estadual Flávio Bolsonaro
O major recebeu a homenagem menos de um ano depois de estar sendo investigado como um dos autores da chacina de cinco jovens na antiga boate Via Show, em São João de Meriti, em 6 de dezembro de 2003. Quatro policiais já foram condenados pelos quatro homicídios de jovens que foram sequestrados pelos agentes da casa de show. O único agente que ainda responde pelo crime é o oficial, que conseguiu postergar seu julgamento até hoje. O júri de Ronald está marcado para abril.

Mãe de procurado em operação contra milícia trabalhou no gabinete de Flávio Bolsonaro e foi citada em relatório do Coaf

A mãe de um dos denunciados na operação contra milicianos deflagrada nesta terça-feira (22) foi lotada no gabinete de Flávio Bolsonaro quando ele era deputado estadual. Raimunda Veras Magalhães aparece em relatório do Coaf como uma das remetentes de depósitos para Fabrício Queiroz, ex-motorista de Flávio.

Raimunda, de acordo com o relatório do Coaf, depositou R$ 4,6 mil na conta de Fabrício Queiroz. Ela aparece na folha da Alerj com salário líquido de R$ 5.124,62.

Tenente Adriano também recebeu moção de louvor proposta por Flávio Bolsonaro em 20013 — Foto: Reprodução
Tenente Adriano também recebeu moção de louvor proposta por Flávio Bolsonaro em 20013
O filho mais velho do presidente Jair Bolsonaro também homenageou o filho dela, Adriano Magalhães da Nóbrega, o Capitão Adriano, que está foragido. Em 2003, o então deputado propôs moção de louvor e congratulações a Adriano por prestar "serviços à sociedade com absoluta presteza e excepcional comportamento nas suas atividades".

Ex-capitão do Bope, Adriano foi preso duas vezes, suspeito de ligações com a máfia de caça-níqueis. Em 2011, Adriano foi capturado na Operação Tempestade no Deserto, que mirou o jogo do bicho. Segundo o MP, o capitão era o responsável pela segurança da chefe da quadrilha, Shanna Harrouche Garcia, filha do bicheiro Waldomir Paes Garcia, o "Maninho", morto em 2004.

Três anos depois, Adriano e o primeiro-tenente João André Ferreira Martins foram demitidos da PM, considerados culpados nas acusações de associação com a contravenção.

Major homenageado

Adriano não foi o único alvo da operação do MP hoje agraciado com uma moção na Alerj. Flávio Bolsonaro fez a mesma homenagem ao major Ronald Paulo Alves Pereira, quando era lotado no 16º BPM.

A condecoração aconteceu meses depois de ele ser apontado como um dos autores da Chacina da Via Show, que deixou cinco jovens mortos após a saída de uma casa de festas em São João de Meriti, na Baixada Fluminense. Até hoje o major - agora apontado como chefe da milícia da Favela da Muzema - não foi julgado pelo crime.

Major Ronald foi homenageado em 2004 pelo então deputado estadual Flávio Bolsonaro, que propôs moção de louvor — Foto: Reprodução
Major Ronald foi homenageado em 2004 pelo então deputado estadual Flávio Bolsonaro, que propôs moção de louvor
Caso Marielle


Ano passado, Ronald e Adriano chegaram a ser ouvidos pela Delegacia de Homicídios como testemunhas no inquérito que apura as mortes da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em 14 de março.



Notícia de 2007: "No primeiro mês de seu segundo mandato na Assembléia Flavio Bolsonaro já votou CONTRA A INSTALAÇÃO DA CPI DAS #MILÍCIAS e, inclusive, planeja apresentar um projeto de REGULAMENTAÇÃO das atividades das "polícias mineiras”

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