7 de jan de 2019

Ideologia, eu quero uma pra viver


Virou moda, já há algum tempo, dizer que os problemas do Brasil decorrem da "ideologização" promovida por governos petistas. O flagrante mais recente saiu da boca de Onix Lorenzoni, cliente cativo de caixa dois, parlamentar medíocre que assumiu a Casa Civil. "Vamos despetizar a administração", bradou ao anunciar a demissão em massa de servidores comissionados. Nem se deu conta do ridículo, pois desde o golpe de 2016 o PT foi apeado do poder.

Lorenzoni chegou ao ponto mais alto, e também mais grotesco, do bla-bla-bla que a direita e a extrema-direita vêm plantando ao longo dos anos. Economistas a soldo de consultorias abutres martelam dia após dia que as contas não fecham, que sem o tal ajuste fiscal o país vai ao precipício, que a reforma da previdência (ou o fim da aposentadoria, vamos combinar) é o elixir capaz de curar todos os males. Acusam a oposição de ignorar números para defender ideias populistas.

Pera aí. A troco de que estes "especialistas" cerram fileiras para sustentar o corte agressivo nos benefícios sociais, a liquidação de direitos trabalhistas e a eliminação de fato de aposentadorias dignas? De uma ideologia, veja só. Na cabeça desta gente, o correto é que a riqueza seja concentrada com base na "meritocracia", que o mercado controlado por meia dúzia de especuladores comande os destinos da economia e que os sobrenomes, a cor da pele e o obscurantismo teológico se sobreponham aos interesses sociais.

Os números, por mais frios que pareçam, podem ser usados ao gosto do freguês. Ideologicamente. Suponha que exista um buraco nas contas do governo. Como resolver? Os ideólogos da extrema-direita, ora no poder, acham que a saída é passar a faca nos direitos da maioria do povo trabalhador. Não apenas: trata-se de leiloar o patrimônio nacional a preço de banana para equilibrar o livro-caixa. De brinde, o comprador ganha um crucifixo.

Já do outro lado as propostas são outras. Por que não taxar os bilionários que vivem à custa do suor do povo, enriquecem com a especulação, engordam suas contas bancárias sem nunca ter produzido um parafuso? Por que não cobrar os grandes devedores do campo e da cidade que, em vez de pagar seus papagaios, são presenteados com Refis e anistias sucessivos enquanto um trabalhador comum vive atormentado pelo medo entrar na lista do Serasa?

A diferença é ideológica, isto sim. O tamanho do bolo é o mesmo. A questão é como reparti-lo. O governo da "famiglia" Bolsonaro veio ao palco para defender uma ideologia que privilegia os ricos por herança, oportunismo ou sobrenome e pretende impor como verdade absoluta valores anteriores à Revolução Francesa. Nada de igualdade, liberdade, fraternidade. E muito de tradição, família e propriedade. Esta é a luta que está em curso. Cazuza tinha razão.

Ricardo Melo é jornalista, presidiu a EBC e integra o Jornalistas pela Democracia

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