3 de jan de 2019

Foi Deus

Todo governo tem seu núcleo duro. É aquele pequeno grupo ao qual um presidente se recolhe informalmente, quando quer soltar a gravata, tomar um uisquinho e falar mal da imprensa, sem medo de consequências. O grupo pode ser pequenininho: o do Temer era um trio, formado pelo Moreira Franco e o Padilha, que mantiveram a condição de amigos e confidentes do presidente até o fim do seu governo, mesmo tendo que se esquivar de algumas suspeitas flutuantes. Companheiros de descontração não são necessariamente conselheiros, mas sabe-se muito sobre os caminhos de um governo sabendo-se com quem ele anda, e conversa.

O novo ministro e Relações Exteriores do Brasil, e o ministro mais polêmico até agora, Ernesto Araújo, escreveu um artigo em inglês para a revista New Criterium, americana de direita, sobre o que acontece no País, que ele vê como uma intervenção da Divina Providência na nossa História. Segundo Ernesto Araújo, foi Deus que proporcionou o encontro entre o candidato Jair Bolsonaro, o novo moralismo nacional evidenciado pela operação Lava Jato e pela prisão de corruptos, e as ideias políticas de Olavo de Carvalho e econômicas de Paulo Guedes.

Esse núcleo duro do novo governo representa suas crenças básicas, não se sabe ainda se inflexíveis ou não. De qualquer maneira, Araújo nos deu uma ideia do pequeno grupo a que Bolsonaro pode recorrer quando precisar, ele mesmo, relaxar e entender o que se passa. Reuniões informais do grupo seriam um problema, com Deus e Olavo de Carvalho disputando o direito de escolher onde seriam os encontros – um impasse decidido por Donald Trump, com sua determinação que seriam em Mar-a-Lago, sua propriedade na Flórida, onde poderia jogar um pouco de golfe.

Espera-se que o Deus providencial de Ernesto Araújo interfira mais vezes na nossa história. Há mais milagres a serem feitos, mesmo para quem acredita em outros deuses.

Luís Fernando Veríssimo

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