23 de jan de 2019

Flávio Bolsonaro explica o que é milícia

Adriano, o cara; reprodução de video


Um mês antes de trazer o PM Queiroz para seu gabinete, Flávio Bolsonaro fez discurso defendendo as milícias

Em 07 de fevereiro de 2007, início de seu segundo mandato na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, o deputado Flávio Bolsonaro fez um discurso em defesa das milícias (texto completo abaixo).

Ele argumentou que eram na maioria das vezes bons policiais, que contavam com a ajuda de colegas de farda para proteger as comunidades em que viviam.

No discurso, Flávio não fala em gatonet, monopólio na entrega de botijões de gás, no recolhimento de lixo, taxa de proteção, agiotagem, extorsão, parceria com o tráfico de drogas e armas e esquadrões da morte, alguns dos crimes associados às milícias.

Curiosamente, foi no mês seguinte que Flávio trouxe para dentro de seu gabinete o subtenente da Polícia Militar Fabrício José Carlos de Queiroz, amigo da família Bolsonaro há 30 anos.

Queiroz, se mandava tanto quanto ele e Flávio agora querem fazer crer, deixou a própria família em segundo plano: uma de suas primeiras contratações para o gabinete de Flávio, no dia 06 de setembro de 2007, foi de Danielle Mendonça da Costa Nóbrega, esposa do então capitão PM Adriano Magalhães da Nóbrega, que agora se encontra foragido.

Mas, Adriano era um desconhecido de Flávio?

Impossível: no dia 23/08/2005, ou seja, dois anos antes, o deputado havia proposto a concessão da mais alta honraria do Rio de Janeiro, a medalha Tiradentes, ao então primeiro tenente Adriano.

Segundo a base de dados da Alerj, ao longo de seus quatro mandatos Flávio Bolsonaro propôs a entrega da medalha a 13 pessoas, sendo 7 policiais — um deles, Adriano.

Ops, mas Adriano já havia sido alvo de homenagem anteriormente: em outubro de 2003, em seu primeiro ano de mandato, Flávio apresentou moção de louvor a Adriano — muito antes, portanto, de ter contratado Queiroz.

Duas homenagens públicas, contratação da esposa e mais tarde da mãe. Será que a relação de Flávio com Adriano passava mesmo por Queiroz?

Ligado à contravenção, à máfia dos caça-níqueis e investigado por extorsão, Adriano foi expulso da Polícia Militar em 2014.

A essa altura, obviamente, Flávio Bolsonaro cortou suas relações com Adriano, certo?

Errado.

A mãe e a esposa de Adriano só foram demitidas do gabinete de Flávio em 13 de novembro de 2018, cinco dias depois da Operação Furna da Onça, da Polícia Federal, que prendeu deputados estaduais acusados de vender favores ao ex-governador Sérgio Cabral.

Adriano está foragido. Corre sério risco de ser vítima de queima de arquivo.


Sr. Presidente, venho falar sobre as milícias, assunto tão noticiado pela imprensa.

Como bem disse o Sr. Deputado Paulo Ramos, não se pode, simplesmente, estigmatizar as milícias, em especial os policiais envolvidos nesse novo tipo de policiamento, entre aspas.

Estendem uma exceção, um caso isolado em que há excesso por parte de alguns maus policiais que cometem atrocidades e covardias contra moradores de uma comunidade, à regra.

A milícia nada mais é do que um conjunto de policiais, militares ou não, regidos por uma certa hierarquia e disciplina, buscando, sem dúvida, expurgar do seio da comunidade o que há de pior: os criminosos.

Em todas essas milícias sempre há um, dois, três policiais que são da comunidade e contam com a ajuda de outros colegas de farda para somar forças e tentar garantir o mínimo de segurança nos locais onde moram.

Há uma série de benefícios nisso. Eu, por exemplo, Sr. Deputado André Corrêa, gostaria de pagar 20 reais, 30 reais, 40 reais para não ter meu carro furtado na porta de casa, para não correr o risco de ver o filho de um amigo ir para o tráfico, de ter um filho empurrado para as drogas.

Pergunte a qualquer morador de uma dessas comunidades se ele quer outra coisa, se quer sair de lá, se não está feliz de poder conversar com seus vizinhos na calçada até tarde da noite!

É claro que sim, porque ele sabe que não corre mais o risco de morrer!

Penso que não há diferença entre o policial militar que vai fazer a segurança de um deputado ou de um condomínio de luxo e o policial que está fazendo a segurança, na maioria esmagadora das vezes, no local onde mora e onde tem família.

Não acho justa essa perseguição – é neste ponto que eu quero chegar – principalmente por parte de políticos e entidades ligadas aos direitos humanos.

Por um motivo muito simples, eles se sentem apavorados com as milícias porque, raríssimas exceções – ONGs de Direitos Humanos, políticos ligados a essa área – vivem da miséria, da desgraça e da violência de uma comunidade porque, caso contrário, eles ficarão sem trabalho, não terão nada a oferecer em troca.

Imaginem se acabassem com o tráfico na Rocinha. O que o Viva Rio vai fazer lá dentro? Não vai ter mais função.

Como irá justificar a quantidade de recursos financeiros públicos e privados que recebe para exercer esse trabalho social entre aspas naquele lugar?

Então, para essas ONGs, não interessa ter milícia. Se não houver violência, miséria, morte, bala perdida, estupro, eles não terão o que fazer lá.

E mais, esses políticos ligados aos direitos humanos estão preocupados com a sua própria carreira política, Sr. Deputado Dionísio Lins.

A partir do momento em que não estiverem numa comunidade, como vão lá pedir voto? Então, este é um ponto que também deve ser levado em consideração.

Lógico que não devemos generalizar, mas raríssimas exceções, esta é a regra.

Podemos condenar tais policiais que estão trabalhando ali para tentar expurgar do seio de sua família criminosos que não têm recuperação mesmo?

Qualquer jornal hoje estampa a foto de um grupo de traficantes segurando fuzis de última geração com carregadores onde cabem centenas de balas.

Será que um vagabundo sendo preso poderá se recuperar? Será que ele quer ser recuperar? Será que é justo continuarmos mantendo esse tipo de gente na cadeia? Para quê?

Temos de deixar de ser hipócritas! Não há recuperação mesmo.

Precisamos rediscutir uma série de coisas: o problema social, o problema constitucional, penal, processual penal.

É muita coisa que precisa ser colocada numa máquina de lavar para poder sair toda essa sujeira, Sr. Presidente, Deputado Pedro Fernandes Neto.

Mas uma coisa deve ser levada em consideração: não podemos simplesmente generalizar, dizendo que esses policiais, que estão tomando conta de algumas comunidades, estão vindo para o lado do mal. Não estão.

A diferença é que eles têm sua origem nesses locais e estão preocupados sim, em permanecer ali e combater como eu falei, o que há de pior na criminalidade, seja com a ajuda do batalhão da região, seja com a ajuda de outros policiais colegas de farda. Não importa.

O que importa é que, de repente, pela primeira vez na vida, muitas dessas pessoas carentes estão tendo o mínimo de segurança, o mínimo de tranqüilidade, o mínimo de dignidade para, pelo menos, tentarem dar o mínimo de educação e saúde para suas famílias.

Muito obrigado, Sr. Presidente.

No Viomundo

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