3 de jan de 2019

Diplomatas estão constrangidos e envergonhados com chanceler


Em um discurso com várias críticas à própria casa que vai comandar, o novo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, afirmou, ao assumir o cargo nesta quarta-feira, que a política externa brasileira se atrofiou nos últimos anos por medo de ser criticada e que lutará para reverter o globalismo e provar que é possível ter comércio exterior com ideias e valores.

"Lembrar-se da pátria não é lembrar-se da ordem global, do que diz o último artigo da Foreigner Affairs ou da última matéria do New York Times. Não estamos aqui para trabalhar pela ordem global. Aqui é o Brasil e não tenham medo de ser Brasil", disse o novo chanceler.

"Acho que nossa política externa vem se atrofiando por medo de ser criticada. Não tenham medo de ser criticados."

Para uma plateia basicamente formada por diplomatas de carreira e alguns poucos convidados externos, como o senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho do presidente Jair Bolsonaro, Araújo afirmou que o Brasil havia perdido sua voz e falava para agradar os administradores da ordem global.

"Queríamos ser um bom aluno na escola do globalismo e achávamos que isso era tudo. O Brasil volta a dizer o que sente e sentir o que é", afirmou.

Em longo discurso na cerimônia de transmissão de cargo, que começou com o versículo da Bíblia de João 8:22, um dos bordões da campanha de Bolsonaro — "E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" —, Araújo fez largos elogios ao novo presidente. Para ele, Bolsonaro está libertando o Brasil e agora eles irão libertar a política externa brasileira.

Citou, também, o escritor Olavo de Carvalho, a quem atribuiu o papel de estar mudando o país junto com Bolsonaro. Diplomata de carreira, Araújo se aproximou de Carvalho e, através dele, dos filhos de Bolsonaro.

Por ser embaixador há menos de um ano e não ter comandado nenhuma embaixada no exterior, o novo chanceler não teria, de acordo com a praxe hierárquica do Itamaraty, estatura para ocupar o cargo. No entanto, a proximidade com a família Bolsonaro e a disposição de seguir as ideias do novo presidente lhe garantiram o posto.

Em seu discurso de posse, Araújo desfilou temas e ideias que já vinham sendo exploradas em um blog que criou em julho deste ano e em artigos que escreveu. Entre eles, o ataque ao chamado globalismo e a teoria de que há uma política internacional querendo acabar com as nações e suplantar o conceito de Deus entre a população mundial.

"O globalismo se constitui no ódio através das suas várias ramificações ideológicas e seus instrumentos contrários à nação, à natureza humana e ao próprio nascimento humano", afirmou. "O problema do mundo não é a xenofobia. É a Oikofobia, é odiar o próprio lar, o próprio povo."

Araújo também citou a "teofobia", o ódio a Deus, que, segundo ele, perfaz toda a "agenda global". "Para destruir a humanidade é preciso acabar com as nações e afastar o homem de Deus. É isso que estão tentando e é contra isso que nos insurgimos", disse.

Durante o longo discurso, Araújo foi aplaudido apenas em um momento, quando afirmou que Bolsonaro está libertando o Brasil e que "vamos libertar a política externa e vamos libertar o Itamaraty".

Os aplausos, no entanto, foram concentrados nos convidados. Do lado dos diplomatas, o silêncio se manteve.

O discurso do novo chanceler foi recebido com claro constrangimento entre os presentes. Ao final, puxados por alguns convidados, alguns se levantaram, mas nem sequer aplaudiram. Outros, o fizeram claramente sem vontade.

No Reuters

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