7 de jan de 2019

De que 'politicamente correto' estamos falando?


Nos dois discursos que proferiu como presidente empossado do Brasil – no Congresso Nacional e no parlatório –, nesta última terça-feira, 1º de janeiro de 2019, Bolsonaro pouco mais fez do que reafirmar “ad nauseam” sua saga messiânica contra a esquerda nacional, repetindo a mesma estratégia forjada nas oficinas do imaginário delirante e quixotesco que acompanha, sem trégua, a recente trajetória do “mito”.

A mídia – tanto a de abrangência interna, quanto a de alcance internacional – surpreendeu-se com o inusitado das falas de um presidente que mesmo já eleito, mais parecia aprisionado ao calor da disputa eleitoral, no interior da qual mais importa detratar e demonizar todo e qualquer suposto inimigo, do que apresentar coerentes plataformas de governo.

Na retórica requentada das falas presidenciais, a ideologia não apenas supera, mas sobretudo oblitera o aguardado pragmatismo de um governo que ensaia seus primeiros passos. No primeiro e mais moderado discurso, com exatos dez parágrafos de extensão, a palavra ideologia – ou suas variantes, em diferentes combinações de adjetivos, sempre ameaçadores e pejorativos –, foi usada quatro vezes. No segundo, dirigido ao povo, com 14 parágrafos, palavras ou expressões equivalentes se repetiram cinco vezes. No vocabulário que seguramente delineará as linhas discursivas do presidente eleito, a ideologia surge representada como “viés”, como “amarra”, como objeto de submissão e como motor sistemático e nefasto de destruição de valores, tradições, famílias e alicerces sociais. As falas presidenciais nomeiam explicitamente, entre seus vitupérios, as expressões sintagmáticas: “ideologia de gênero”, “ideologização de nossas crianças”, “ideologia que defende bandidos e que criminaliza policiais” e o enviezamento ideológico das nossas relações internacionais.

Prato cheio para a Análise do Discurso, campo do conhecimento consolidado no bojo dos turbulentos anos 60, nos quais se concedeu primazia à análise dos conteúdos ideológicos portados pelos discursos políticos.

Nosso propósito, com essa coluna, é o de discutir fenômenos afetos ao tripé comportamento, sociedade e consumo, em seus desdobramentos na conformação da sociedade em que vivemos. Nesse âmbito, um aspecto particular da fala presidencial nos chama ao dever da crítica. Trata-se, especialmente, do trecho do discurso dirigido ao povo, do parlatório, no qual o presidente eleito comprometeu-se literalmente a "libertar" o país "do socialismo, da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto”. E surge aqui a pergunta que norteia esse artigo: de que politicamente correto estamos falando? Se é politicamente correto, porque algo deve ser combatido? Se alguma coisa já se diz correta, o que pode haver de condenável nela?

Vamos, então, tentar desatar o nó.

A expressão “politicamente correto”, apesar da imensa generalização do seu uso nos dias atuais, nem de longe comporta sentidos confortáveis, estáveis e confluentes. Pelo contrário, trata-se de um jargão escorregadio e pantanoso, que, em realidade, mais serve para designar tudo o que, nas mais variadas medidas, destoa, conflita ou não compactua com os sentidos sociais dominantes. Nessa direção, reveste-se do papel da denúncia das iniquidades do poder e do desvelamento das crises culturais, sociais ou políticas iminentes. Na outra mão, o fenômeno revela suas nuances falaciosas, ao criar, de forma apenas cosmética, o sentimento de novos consensos possíveis, de valorização e de reconhecimento das diferenças, sem, contudo, abalar os alicerces da dominação real e cotidiana.

Sabemos que os sentidos não estão nas palavras, mas nas condições sociais da produção dos discursos. Palavras de teor racista, machista, homofóbico, xenofóbico, ou denotadoras de outras vertentes da estigmatização social só fazem os sentidos que fazem por ocorrerem e serem utilizadas em contextos de discriminação e de exclusão.

Ao adentrar essa arena estamos, sem dúvida, assumindo discussões a respeito do funcionamento ideológico da linguagem, no interior da qual, os sentidos sociais das palavras entram em disputa. Trata-se de um fenômeno de natureza tanto linguística, quanto política, na medida em que denuncia as consequências da atribuição dos sentidos às palavras em seu funcionamento cotidiano.

Sem dúvida que entre as maiores dificuldades em se enfrentar a discussão sobre o politicamente correto está o fato de que o fenômeno tende sempre a se apresentar como progressista e revelador de avanços na organização e expressão social das minorias. Nesse sentido, adquire status de irrefutabilidade, dada suas evidentes boas intenções em prol da igualdade e do apaziguamento social. Contudo, essa mesma prática discursiva também se desdobra em suas vertentes sociais mais obscuras e restritivas, como o patrulhamento ideológico, o cerceamento da liberdade de expressão e a instauração dos eufemismos que pouco mais fazem que mascarar as reais intolerâncias e perversidades presentes no cotidiano do corpo social. Por isso, chamamos, já de início, a atenção para o paradoxal e o pantanoso no âmbito do politicamente correto.

Entre as maiores vítimas do politicamente correto está o humor, que, em realidade, sequer sobreviveria sem altas doses de incorreção, uma vez que parte substancial da graça vem da subversão dos sentidos cotidianos, corriqueiros e estabilizados. Porém, o humor, mais do que confirmador das práticas sociais vigentes, pode e talvez deva ser visto como aliado e coadjuvante da mudança social. Em 2014, por ocasião da comemoração aos 41 anos ininterruptos da realização do Salão Internacional de Humor de Piracicaba, e mais especificamente da edição do livro “Caxara de Forfe”, a convite do meu grande amigo Adolpho Queiroz, pude registrar a reflexão de que “do riso também nasce consciência, pois que faz emergir mazelas escondidas e assim elabora a crítica e tensiona as relações sociais aí implícitas”. Sigo, evidentemente, pensando assim.

Mas, retornando aos discursos da posse presidencial, certamente não é de humor que estamos falando. O politicamente correto que surge da fala do líder político eleito da nação é o que deve ser combatido sem trégua, posto que ameaça e abala os alicerces da família e da “tradição judaico-cristã” que conforma a sociedade brasileira vislumbrada na visão do poder ora ascendente.

O politicamente correto visado é, sem dúvida, o que porta, defende e tenta assegurar os mínimos direitos de índios, quilombolas, negros, mulheres e representantes das comunidades LGBT que, não por acaso ou coincidência, foram justamente os primeiros a serem atingidos pelas novas medidas provisórias assinadas, apenas passadas poucas horas da posse presidencial.

Nesse contexto, torna-se evidente que o novo governo instaura intencional e inequivocamente a sua demarcação social. Seu mandato não será para todos os brasileiros, mas para aqueles comprometidos com os valores mais tradicionais, arcaicos e patriarcais da sociedade brasileira. O novo poder instituído não abre frentes inclusivas de negociação e entendimento. Pelo contrário, assume forte e decisivamente o desmonte institucional erigido pelo esforço das lutas sociohistóricas de trabalhadores, de mulheres progressistas e das minorias oprimidas.

O politicamente correto denunciado pelo novo governo e objeto assumido do seu combate é claramente determinado: é todo e qualquer gesto, fala, disposição, atitude, comportamento e pensamento que desafie o status quo do conservadorismo e do autoritarismo estruturante das sociedades ocidentais, colonizadas e economicamente marginais.

Trata-se do “novo” que não aporta nada de novo. Muito pelo contrário, trata-se da consagração do velho, do arcaico, do descabido, do desproposital. Talvez o lado ainda mais perverso desse quadro seja o da sua notável e inequívoca esquizofrenia que se expressa, entre outros trechos discursivos, naquele em que o paladino nacional reafirma textualmente seu “compromisso de construir uma sociedade sem discriminação ou divisão”.

A pesquisadora norte-americana, Moira Weigel, associada da Universidade de Harvard, já havia nos alertado para o fenômeno, em suas inescapáveis similitudes com o governo de Donald Trump, nos Estados Unidos. Para ela, em entrevista ao jornal “El País”, os ataques ao considerado politicamente correto é a nova narrativa adotada pela direita para poder expressar livremente, sem amarras, sem censuras e sem vergonhas, todas as mais antigas formas de racismo e sexismo. Trata-se do estabelecimento de um novo pacto retórico entre a elite e a classe média atônita e desinformada, cujo objetivo maior é o de reassegurar e perpetuar as velhas formas sociais da concentração da riqueza e do poder.

Ao que tudo indica, o fenômeno vem – e seguirá em frente – produzindo seus efeitos de largo e forte impacto. Tanto lá, quanto agora cá.

Referências das citações:


DELLA COLETTA, Ricardo. “Moira Weigel: o discurso contra o politicamente correto é uma retórica que inviabiliza o debate democrático”. Entrevista com Moira Weigel. El País. 8 de setembro de 2018.


JUNQUEIRA, Antonio Hélio. Vidas Secas. Em: QUEIROZ, Adolpho; VICENTE, Evaldo; CIASI, Letícia Hernandez. Caxara de Forfe. 41 anos do Salão Internacional de Humor de Piracicaba. Piracicaba, SP: Gráfica e Editora Rio Pedrense Ltda. – Centro Nacional de Humor Gráfico, 2014.

Antonio Hélio Junqueira - Doutor em Ciências da Comunicação (ECA/USP), com pós-doutorado e mestrado em Comunicação e Práticas de Consumo (ESPM/SP). Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP). Professor Colaborador e Pesquisador do Mestrado Profissional em Gestão de Alimentos e Bebidas (Universidade Anhembi Morumbi - UAM) e de Pós-Graduação em Comportamento do Consumidor e em Agronegócios, Abastecimento e Alimentação (ESPM e UAM).
No GGN

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