7 de jan de 2019

Com Zema no governo de Minas a “máquina parou”, diz sociólogo Rudá Ricci

"Eu faria um paralelo com o início da revolução russa: sem quadros, logo no início dos anos 1920, teve que atrair os antigos engenheiros e repor a lógica taylorista. A extrema-direita faz muito barulho por nada", diz o cientista político.


Após sofrer com a sabotagem do governo golpista de Michel Temer – que reteve cerca de R$ 14 bilhões em repasses ao Estado durante a gestão Fernando Pimentel (PT) -, a população de Minas Gerais agora sente os efeitos da falta de experiência de gestão pública e do perfil centralizador e personalista do governador Romeu Zema (Novo), que em um de seus primeiros decretos, no dia 1º de janeiro, demitiu cerca de 6 mil servidores e travou a máquina – tendo que voltar atrás após críticas de seu próprio secretariado.

“A máquina parou. Já ocorrem os primeiros protestos de servidores na Cidade Administrativa. Desarticulou vários serviços públicos correntes. Este é o problema dos fundamentalistas: sabem o que não querem, mas não sabem o que querem”, analisa o cientista político e sociólogo Rudá Ricci.

Segundo Rudá, Zema se mostrou um dos mais equilibrados políticos de extrema-direita eleitos em 2018, mas as primeiras medidas administrativas mostraram-se desastrosas.

“Dos governos estaduais de direita ou extrema-direita, pareceu o mais equilibrado e determinado. Fez um discurso de posse minimamente republicano. Porém, suas primeiras medidas administrativas foram desastrosas: exonerou sem um plano alternativo. O resultado foi a paralisação de muitos serviços, em especial, na cultura e comunicação. Neste sentido, se alinha com o fundamentalismo extremado de outros governos deste tipo”.

Renata Vilhena e Aécio Neves
Reprodução
Segundo ele, a política prometida – e colocada em prática – pelo único governador eleito pelo Partido Novo não é tão nova assim. “Seu foco parece ser o controle orçamentário. Mas, de fato, não foi tão novo: se socorreu da consultoria de uma ex-secretária de Aécio Neves, Renata Vilhena”, diz Rudá, sobre a ex-secretária de Estado de Planejamento e Gestão dos governos Aécio Neves e Antônio Anastasia, do PSDB.

O sociólogo, que observa os bastidores do intrincado jogo político mineiro, diz que os movimentos e o perfil de Zema têm feito ele perder apoio até de quem seria aliado natural.

“Zema não tem quadros. E seu perfil é muito centralizador e personalista. Bateu de frente com a Fiemg (Federação das Indústrias de Minas Gerais), que seria seu aliado natural. Eu faria um paralelo com o início da revolução russa: sem quadros, logo no início dos anos 1920, teve que atrair os antigos engenheiros e repor a lógica taylorista. A extrema-direita faz muito barulho por nada”.

Sobre as prometidas privatizações no Estado por Zema, Rudá acredita que possa trazer um ônus ainda maior para o Estado caso sejam concretizadas.

“Privatizar demanda muitas ações om capacidade de atração de investidores. O problema é que se obtiver sucesso, destruirá as possibilidades de reconversão produtiva de Minas Gerais. Explico: a pauta produtiva do Estado é primária, focada em commodities. Esta característica produz duas consequências nefastas: 1) dependência do mercado externo (em especial, China); e 2) baixos salários, dado que não há exigência de qualificação profissional. Assim, Minas Gerais é o terceiro PIB estadual do país com a 15ª média salarial. Sem estrutura de Estado, amargará está sina da dependência”, conclui.

Plinio Teodoro
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