5 de jan de 2019

Bolsonaro já não detém o poder; só ainda não sabe


Neste momento, e de maneira avassaladora, só se tem uma certeza em Brasília: o governo nem bem começou e já está à mais absoluta deriva. O país tem um presidente que já não governa, não sabe do que fala e é a toda hora desmentido por ministros, militares e civis, assessores e auxiliares, além de tomar a iniciativa ele mesmo de comprar briga com outros tantos e os mesmos ministros, auxiliares, assessores e incorporar a esta penca de desafetos os governadores do nordeste, o seu próprio ministro da economia e o ministro chefe da Casa Civil. Ou seja, um militar que não consegue fazer respeitar a hierarquia. Os ministros tampouco se entendem entre si e nem até cada um individualmente consegue entrar em acordo consigo mesmo. Ou seja, uma tropa em completo caos por falta de comando.

Bolsonaro anuncia embaixada em Jerusalém. O general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional, diz que é só plano. Bolsonaro bate o pé. Bolsonaro anuncia aumento de imposto de operações financeiras e redução do Imposto de Renda. O secretário da Receita nega. Moro desdiz Moro. Damares desmente Damares.

Mais impressionante ainda do que esse esvaziamento tão prematuro pelo caos, porém, não é propriamente Bolsonaro não deter o poder, mas ele achar que ainda o detém. A ficha não caiu. O pior problema é Bolsonaro ainda não ter entendido que neste exato momento ele já não manda como presidente. O comando do governo pode estar em algum lugar, talvez não esteja em nenhum, talvez esteja em todos, mas se existe essa dúvida ela é sinal de que Bolsonaro já não manda.

Ele tem a caneta, tem os microfones das emissoras de seu sistema coligado de televisão, pode ter até o sinal de continência de William Bonner, mas pairam dúvidas e reservas gerais sobre sua soberania, recebida das urnas, mas já carente de unidade, racionalidade, coerência, adesão e respeito.

Em uma de suas primeiras entrevistas ele abriu a mais grave crise, tão grave que o "mercado" soluçou incrédulo antes de ele mesmo concluir que não valia. Desmontou anos de acúmulo de negociações no Congresso em torno de uma "reforma da Previdência" a qual, boa ou ruim, fora resultado de propostas que transitam no Congresso há anos. Como sinalização de uma suposta política de equilíbrio atuarial da Previdência, a proposta que Bolsonaro tirou de seu quepe altera a idade mínima da aposentadoria para 62 os homens e 57 as mulheres.

O anúncio, sôfrego, não foi ao que parece acertado com ninguém. Nem com o Congresso, cujo provável presidente já disse que as ideias de Bolsonaro anulam regras de transição do sistema atual para o novo. Pior de tudo, não combinou nem mesmo com o superministro, o todo-poderoso, o posto Ipiranga Paulo Guedes, que simplesmente soube da entrevista pela televisão. Bolsonaro deu agora para entender de economia, e pelo jeito também já não confia em seu überministro. Afinal, quem usa quem? Guedes e o empresariado usam o capitão "ex-populista" ou é o oposto. Bolsonaro engabelou a tigrada?

Talvez tenha se divertido o Messias do Realengo ao contemplar a rasteira de moleque no Chicago Boy, falante de inglês, muito rico e brusco. A caserna tem seus porões, a ociosidade do quartel tem dessas baixarias.

O resultado é que a principal linha de justificação política dos próceres de direita do capital para esse governo de direita foi abalada. Se não é para Bolsonaro defender o ultraliberalismo e cumprir com seu enredo de maldades, transferido renda da sociedade para os privilegiados, o que diabos levou a elite de São Paulo, do Sul e do Centro-Oeste a esvaziar Alckmin em desespero de causa e, por um acaso, ver Bolsonaro milagrosamente colocado lá? Para isso?

Mas não, calma, reuniões vararam a noite, equipes e ministérios se reuniram ao redor, contornando a novidade encalhada na praia. E silenciaram. Bolsonaro terá apoio total e deixem-no falar o que quiser. Ele não manda mais nada. Ele não governa. Só não sabe ainda. Quando souber, vai estrebuchar, corcovear, bufar, mas vai se conformar. Transformou-se no perigoso herói de uma farsa, isolado na caverna, aleijão espiritual a divertir-se arrancando cabeças de inimigos ao léu. No gabinete, talvez contemple sua foto na parede, talvez sonhe então que do trono maneja naves de fumaça e realiza pouso preciso no lado escuro da Lua, junto do seu ministro astronauta.

Mario Vitor Santos é jornalista. Foi ombudsman da Folha e do portal iG, secretário de Redação e diretor da Sucursal de Brasilia da Folha.

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