1 de jan. de 2019

Ano Novo, Vida Pior


Uma convenção, nada mais? De fato a passagem do 31/12 ao 01/01 é arbitrária. Faria algum sentido se o ano começasse no solstício. Mas, tanto faz, né? Está combinado que 2018 termina hoje.

Uma data, como qualquer outra? Também não. É algo que nos convida a planejamento, desafia a promessas e induz balanços.

Esse ano está difícil desejar “feliz ano novo” contra todas as evidências de que será o pior ano das vidas de mais de 100 milhões de pessoas que não vivenciaram a ditadura. Não há a menor possibilidade de que 2019 seja melhor que nenhum dos anos anteriores, a parir da redemocratização. Será um ano de ainda maiores retrocessos para as mulheres, para os negros, para os idosos, para os homossexuais, para os índios, para todos os coletivos vulneráveis, e para quem precisa vender sua força de trabalho para viver.

Não se trata de “torcida contra”. É conclusão racional. Quem conseguir emprego ganhará este ano muito menos do que ganhou em cada um dos anos anteriores. Milhões perderão seus empregos, serão substituídos por outros trabalhadores pior remunerados. Com menos dinheiro na mão dos consumidores o comércio e o setor de serviços encolherá. Com menos vendas no comércio o patronato demitirá em massa sob a justificativa de “salvar os negócios”. Todos perderão renda. O Brasil se tornará um lugar horrível para se viver.

A inadimplência e a pobreza aumentarão e, com elas, a criminalidade e a violência praticada por pessoas desesperadas e pelas “pessoas de bem” contra os mais pobres atingirá níveis jamais vistos. O novo governo, com a qualidade do Ministério, com a capacidade dos eleitos e de seus apoiadores, se “der certo”, se fizer tudo o que dele esperam seus eleitores, tornará o Brasil em um inferno para quem compreende a realidade.

Sem uma grande dose de hipocrisia é impossível acreditar em um “feliz ano novo”. E desejar, pode? Claro que sim. Claro que pode. Mas os desejos não mudam a realidade. Salvo para os muito ricos, em 2019 será muito difícil ser feliz.

E o que desejar, então?

Sei lá. Quem souber me diga. Eu, mesmo sabendo que em 2019 será impossível sermos felizes, desejo aos meus amigos e amigas saúde e capacidade para resistir. Não há mal que sempre dure. A idade da pedra não acabou por falta de pedra, mas porque houve criatividade. A idade média não acabou por falta de trevas, mas porque as pessoas se deram conta da sua perversidade. A ditadura de 64 não acabou por falta de milicos ignorantes e autoritários e o governo que inicia amanhã não terminará por falta de imbecis, mas porque não basta fazer arminha com a mão e rezar a um deus vingativo para que a realidade social melhore. Saúde, capacidade de resistir e paciência. Muita paciência, para esperar que o desastre social que se antevê crie logo as condições objetivas para uma tomada de consciência por parte da maioria da população. E a felicidade? Fica adiada para quando houver condições objetivas e subjetivas para que concebamos, juntos, um novo futuro.

Wilson Ramos Filho, Xixo, é doutor em direito, professor universitário (UFPR/UFRJ) e presidente do Instituto Defesa da Classe Trabalhadora
No GGN

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