29 de jan de 2019

A penetração do preconceito de classe no Brasil

A origem popular sempre pesou contra Lula. O slogan “Um trabalhador igual a você” gerava reações contrárias em muitas pessoas, em muitos trabalhadores, que haviam introjetado a incompetência política a que são condenados e definitivamente não queriam alguém igual a eles no poder. Lembro do porteiro do prédio em que eu morava dizendo que não votava no Lula porque não ia votar em um “analfabeto” – ele, que não conseguia produzir um bilhete para avisar que o elevador estava quebrado. Certo ou errado, em Lula, ele via a si mesmo. E não gostava do que via.

Das primeiras campanhas até a vitória em 2002, muita coisa mudou em Lula e no PT, que se foram moderando, reduzindo os horizontes de transformação social, ampliando as parcerias ao centro e à direita, criando pontes com o capital, aderindo às formas tradicionais da política no Brasil.

Lula foi deixando de ser o “trabalhador igual a você” para se tornar o líder mundial e o grande negociador. Duda Mendonça explicou como a chapa com José de Alencar seria vendida ao público: dois meninos pobres que subiram na vida, um na política, outro nos negócios. Uma guinada consistente com a mudança no valor central do discurso do partido, da igualdade social substantiva para a “igualdade de oportunidades” liberal.

Parece que com Bolsonaro é diferente. A “simplicidade” do ex-capitão é seu grande trunfo. Mesmo a evidente debilidade cognitiva dele (e de muitos de sua equipe) produz uma identificação positiva com o eleitorado. É uma poderosa proteção que tem garantido que o desastroso início de governo não leve a uma queda brusca de popularidade.

Não é difícil decifrar a charada. Ela ilustra a penetração do preconceito de classe no Brasil.

Luis Felipe Miguel

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