27 de jan de 2019

A frustração de Janaina Paschoal com o governo Bolsonaro é a ponta de um iceberg

Eles, se merecem
Janaina Paschoal, deputada estadual eleita pelo PSL, deu entrevista ao Estadão demonstrando sua decepção com o governo Bolsonaro. 

Ela resume assim sua frustração: “Sabe o que é jogarem um balde de água gelada em cima de você?”

Janaina não é a única, evidentemente. É apenas mais uma, num movimento que tende a cresce até caírem Bolsonaro e seu bando. 

Alguns trechos:

De que acontecimentos a sra. está falando?

Tudo. Investigação, denúncia, que pode ser, pode não ser, colegas viajando pra China, xingando eleitor pela internet. Eu acho isso tudo tão surreal, que me pergunto: será que eu ajudo mais dentro, ou se eu fico fora? Essa dúvida eu confesso que eu tenho. (…)

O que é que não pode ocorrer?

Tenho a impressão de que ainda não perceberam a seriedade do que é exercer um cargo, a seriedade do momento que a gente está atravessando, a expectativa que o País colocou em cima dessas pessoas. Não foi uma eleição como outra qualquer. Foi uma eleição que veio depois de um sofrimento. E esse pessoal está com palhaçada. É muito grave. Eu não tenho como dizer que não estou preocupada. (…)

No caso do senador Flávio, o que é que a senhora está achando?

Ele já explicou a situação dos tais depósitos. É factível? É factível. Não é ilícito. É diferente. Tanto é que o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) indicou uma movimentação atípica, não necessariamente ilícita. Por que dividiu (os depósitos)? Pra não chamar a atenção? Na medida em que ele vem e explica que foi uma negociação – acredito que demonstrará isso para o Ministério Público – eu estou imaginando, porque não vi, que isso tenha sido uma coisa isolada, naquele mês. Não obstante não seja uma coisa tão típica, em termos de transferência.

A senhora criticou o ministro Luiz Fux, do Supremo, por ter dado a liminar em que o senador pedia a suspensão da investigação.

A decisão do ministro está errada, juridicamente errada.

Por quê?

Porque eles, Supremo, acabaram de decidir que se não fosse fato ocorrido no curso do mandato, e inerente ao mandato, não ficaria com foro privilegiado. Para mim é absolutamente límpido que não é caso para análise do Supremo. Se não é, o ministro não poderia ter dado essa liminar. Se o advogado orientou corretamente, ou não, é outra história.

Advogado à parte, o que a sra. achou do próprio senador concordar e defender o pedido?

Foi um erro. Porque ainda que não tenha nada errado, isso gerou uma situação, um sentimento, “poxa, mas por que não explica logo?”. E é um sentimento legítimo.

O que é que está lhe incomodando especificamente no caso do senador Flávio Bolsonaro? Onde é que ele não está fazendo diferente do que deveria fazer, na sua avaliação?

Ele tem todo o direito à defesa, a entrar com todas as medidas, mas me parece complicado ver uma reação parecida com a que a foi a do Aécio (Neves), com a que é a do Lula até hoje. Com isso eu não estou dizendo que as autoridades sempre tenham razão. Mas eu não endeuso ninguém. “É só porque eu sou filho do presidente.” Não é só, pô. Teve lá um apontamento. Talvez a divulgação seja até excessiva, vamos dizer assim, mas houve um apontamento. (…)

A diferença, no caso do senador Flávio Bolsonaro, é que ele é filho do presidente.

Não estou antecipando culpa de ninguém. Mas eu não gosto deste tom: “É um absurdo”, “Não vou falar”, “Só vou falar pra autoridade”. Isso relembra o passado. Para mim foi uma coisa muito triste. Quando eu era pequena tinha a história de um vereador que pedia dinheiro pros funcionários. Na minha cabeça isso era um negócio do passado. Essa fala do vice-presidente, essa semana, “temos que ver até onde é corrupção, e até onde é Rachid, rachadinha”. A rachadinha é crime! Será que ele falou isso mesmo? (…)

O presidente deveria ter se manifestado publicamente – contra ou a favor do general [Mourão]?

Eu não sei qual seria o impacto, publicamente, de ele passar um sabão no vice. Talvez tivesse sido melhor chamar o vice e pedir para voltar à situação anterior. Mas tinha que chamar, e dizer: “Olha, tem que mudar isso aí, não tem jeito”. Teria sido melhor se o presidente tivesse se posicionado nessa situação. (…)

Eu imaginava ter embates de ideias. Então, por exemplo, se o presidente saísse com uma ideia, qualquer coisa contra os casais homossexuais, eu já estava preparada pra combater. Se o presidente tivesse uma ideia de colocar mais ministros no Supremo, e eu falei pra ele que não podia, eu já estava preparada. Mas eu não imaginava esse tipo de problema no núcleo duro.

Que tipo de problema?

Possíveis ilicitudes. (…)

Kiko Nogueira
No DCM

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