7 de jan de 2019

A extrema-direita só sabe governar pela força


A história prova que governos liberticidas têm como instrumento essencial o recurso à força, de preferência a militar. Hitler, Mussolini, Castello Branco, Pinochet, Edorgan, Netanyahu, Trump – os exemplos se acumulam. Mas nem todos são iguais. Alguns tratam ou trataram-se de revestir-se de um discurso mais ou menos coerente, uniforme, que embalasse seus objetivos obscurantistas. Formam, ou formaram, equipes de acólitos que pelo menos falem, ou falassem, a mesma língua.

A desgraça do governo Bolsonaro, recém-integrado ao panteão de mandatários da extrema-direita, é maior do que se pensa. Deputado há quase 30 anos, inexpressivo como legislador, Bolsonaro jamais se preocupou em montar um corpo de assessores, mesmo na extrema-direita, capaz de elaborar um programa ou narrativa que dessem coerência aos seus planos reacionários. Passou anos e anos esbravejando contra a subversão de costumes medievais os quais defende. Como militar, acostumou-se à disciplina pretoriana, onde o superior manda e os subordinados batem continência.

Para sua própria surpresa, virou presidente da República. Os motivos deste desastre não vêm ao caso neste momento. Já foram explorados à exaustão. Com a batata quente na mão, Bolsonaro saiu correndo a montar um gabinete em que há de tudo, menos a harmonia de opiniões. Juntou uma chusma de militares, arrivistas, crentes, o astrólogo Olavo de Carvalho e os membros da "famiglia" – sem esquecer o velho amigo Fabricio Queiroz.

Não há um dia, um único dia, em que os membros deste desgoverno não emitam opiniões diametralmente opostas sobre qualquer assunto. A mais recente é sobre impostos. O presidente militar anunciou mudanças tributárias pela manhã. À tarde, o secretário da Receita desautorizou Bolsonaro. Sim, o subordinado humilhou o chefe. Marcos Cintra disse que as mudanças no IOF e no IR não passam de estudos, e que Bolsonaro deve ter se confundido.

E assim tem acontecido em todas as áreas, como a da mudança de embaixada em Israel para Jerusalém. Um dia vai, outro dia não, outro dia vai, outro dia não. É fácil imaginar o espanto da comunidade internacional diante de tanta trapalhada. O Brasil virou motivo de piada.

É claro como o sol se segue à lua que o governo Bolsonaro é um condomínio montado às pressas. O núcleo militar tem suas ideias cozidas na caserna e trata Bolsonaro como capitão submetido a generais. A equipe econômica, formada por especuladores sem nenhuma experiência administrativa, só quer fechar as contas no azul vendendo tudo o que estiver à mão, pouco se importando com as consequências na vida do povo. Já o núcleo de costumes e segurança – onde se inclui o juizeco Sergio Moro, o chanceler aloprado, a ministra dos Direitos Humanos e o ministro da Educação - ficam encarregados de recuar o Brasil aos tempos do faroeste, da Inquisição e ao criacionismo nas salas de aula.

Ricardo Melo é jornalista, presidiu a EBC e integra o Jornalistas pela Democracia

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