29 de dez. de 2018

Quem ganha com a existência de grupos terroristas no Brasil?

https://www.revistaforum.com.br/blogdorovai/2018/12/29/quem-ganha-com-a-existencia-de-grupos-terroristas-no-brasil/

Um novo Rio Centro pode estar sendo armado? Não é fácil responder isso e nem há elementos ainda para tal. Mas é importante que se registre que já houve um Rio Centro no Brasil. Um ato terrorista armado pelo governo ditatorial


Uma reportagem de hoje do site Metrópoles relata a conversa de um repórter com uma pessoa que se diz integrante de um grupo terrorista no Brasil. Esse integrante assume como ações do grupo a tentativa de ataque a uma igreja em Brazlândia, no DF, que poderia ter matado várias pessoas.

Há um cheiro de pólvora e de farsa no ar. Desde já adianto que não atribuo o odor nem ao repórter e nem ao veículo, mas diria que forças ocultas, como registrou Jânio Quadros em seu discurso de renúncia, podem estar operando.

Fórum precisa ter um jornalista em Brasília em 2019. Será que você pode nos ajudar nisso? Clique aqui e saiba mais

Em negócios ou em política uma boa pergunta a se fazer quando algo acontece é a quem interessa.

Se empresas brasileiras do ramo de carnes e embutidos estão sob forte investigação, vale perguntar, quem ganha com isso?

Da mesma forma se for uma empresa nacional do ramo de petróleo e derivados.

E mais vale ainda o questionamento se interesses políticos de monta estiverem por trás.

A quem interessa neste momento a existência de grupos terroristas no Brasil? Eu arriscaria dizer que este é o desejo dos sonhos do governo Bolsonaro. Porque num momento em que ele tiver terroristas para combater, muitos do que só farão oposição democrática ao seu governo poderão ser assim classificados. Muito mais dinheiro para as Forças Armadas e aparelhos de segurança ele poderá destinar.

Bolsonaro já chamou MST, MTST, CUT e outras instituições sérias de grupos terroristas. Já falou em eliminar a petralhada e mandar adversários para a Ponta da Praia, centro de tortura da ditadura. E desde sua vitória vários líderes desses movimentos já foram assassinados. Aumentou a violência contra eles em especial no campo. Onde parece ter havido uma licença para matar aqueles que se opõe ao trabalho escravo, à grilagem e ao desmatamento.

A denúncia de terrorismo na posse de Bolsonaro e a forma como a imprensa foi excluída do evento é algo que precisa ser anotado. Da mesma forma a maneira como está sendo armado um circo de segurança nunca visto na história das posses.

Um novo Rio Centro pode estar sendo armado? Não é fácil responder isso e nem há elementos ainda para tal. Mas é importante que se registre que já houve um Rio Centro no Brasil. Um ato terrorista armado pelo governo ditatorial.

Não deve ser na posse, mas quem sabe ali na frente. Regimes de força precisam de inimigos que usem a força. Se eles não existem, que alguém os crie.

Se não for isso, que se investiguem logo os loucos que estão por trás dessa ação e que eles sejam devidamente julgados por seus atos de ameaça. Que sejam céleres na investigação. E que não se dê a eles a moleza que está sendo dada ao tal Queiroz, que já adiou seu depoimento ao MP quatro vezes. E que não se esconda o sujeito como estão escondendo Adélio Bispo de Oliveira.
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Polícia de Israel recomenda indiciamento de Netanyahu por corrupção


O primeiro-ministro rejeita acusação de fraude e suborno por supostamente favorecer a principal empresa de telecomunicações do país

A Polícia de Israel recomendou neste domingo o indiciamento do primeiro-ministro do país, Benjamin Netanyahu, por fraude e suborno. A decisão deverá ser tomada pela Procuradoria-Geral. Netanyahu é suspeito de beneficiar o conglomerado de telecomunicações Bezeq, o que poderia ter gerado milhões de dólares ao grupo, em troca de uma cobertura favorável no site de notícias Walla. Para a esposa do primeiro-ministro, Sara Netanyahu, os investigadores recomendam a acusação de “obstrução” da Justiça.

Segundo um comunicado da Polícia, há indícios suficientes para indiciar o chefe de Governo por “suborno, fraude e quebra de confiança”, assim como o acionista majoritário do grupo Bezeq, Shaul Elovitch. Este é o terceiro caso em que a Polícia apresenta acusações contra Netanyahu após três anos de investigações.

Entre 2012 e 2017, o primeiro-ministro e seu entorno “interferiram no conteúdo publicado pelo site de notícias ‘Walla’ e tentaram influir na nomeação de pessoas”, explicou a Polícia. O objetivo era a publicação de “fotos e artigos positivos e suprimir o conteúdo crítico contra o primeiro-ministro e sua família”, indica a nota, que resume as conclusões da investigação.

Netanyahu rejeitou as conclusões. “Tenho certeza de que neste caso as autoridades competentes, após terem examinado a questão, chegarão à mesma conclusão: não houve nada porque não há nada”, escreveu o primeiro-ministro numa declaração.

Durante a reunião semanal do Governo neste domingo, os ministros do Likud (direita), o partido de Netanyahu, expressaram seu apoio ao chefe de Governo. “Muito obrigado, mas vocês têm que levar esse assunto mais a sério do que eu”, respondeu ele. Na oposição, o líder dos trabalhistas, Avi Gabbay, pediu a renúncia de Netanyahu.

Em fevereiro, a Polícia recomendou o indiciamento do primeiro-ministro em outros dois casos. No primeiro, suspeita-se de que Netanyahu e alguns membros de sua família tenham recebido até um milhão de shekels (cerca de um milhão de reais), além de charutos, champanhe e joias por parte de pessoas muito ricas em troca de favores financeiros ou pessoais. No segundo caso, os investigadores acreditam que o primeiro-ministro tentou fechar um acordo com o dono do jornal Yediot Aharonot, um dos mais importantes de Israel, para conseguir uma cobertura mais favorável sobre sua gestão.

No El País
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The Guardian lança documentário com esposa de Marielle, em meio à eleição de Bolsonaro


O jornal The Guardian divulgou nesta sexta (28) um webdocumentário de 25 minutos protagonizado por Mônica, esposa da ativista e vereadora Marielle Franco, assassinada em 14 de março de 2018 em função de sua militância política em favor dos direitos humanos - em especial, LGBTs, mulheres e negros.

A produção é ambientada na eleição presidencial de 2018, que teve como vitorioso - apesar de protestos de feministas nas ruas e de setores da sociedade civil organizada - o deputado federal Jair Bolsonaro.

Capitão da reserva, Bolsonaro venceu promovendo discurso contrário aos direitos humanos, a favor do armamento da população, contra a isonomia salarial entre homens e mulheres e outras pautas de gênero, além de ataques a homossexuais e contra políticas voltadas para negros.

Nos minutos finais, Mônica comenta que apesar de todo o cenário político conturbado - "Temos que aceitar que o Brasil é um País homofóbico e racista", disse após a eleição de Bolsonaro - e da morte da companheira - um atentado político ainda não solucionado pelas autoridades - ela vê motivos para continuar na luta.



No GGN
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Esquerda desarmada diante das operações psicológicas "alt-right"


Fotos de Bolsonaro e do futuro ministro da Casa Civi, Onix Lorenzoni, cuja angulação e recorte sugerem ao fundo expressões como “anta” ou “traição governa”; vídeo do capitão reformado lavando roupas no tanque; outro vídeo do presidente eleito com a faca na mão em um churrasco debochando do próprio atentado que sofreu. Tudo material distribuído pela assessoria do presidente, pautando a grande mídia e a indignação da esquerda, como matéria-prima para os protestos que acabam virando apenas “metamemes”. Continua em ação uma estratégia muito mais de comunicação do que de propaganda. Uma operação psicológica baseada nos mecanismos de dissonância e ambiguidade diante da qual a esquerda está paralisada e desarmada, incapaz de compreender a linguagem “alt-right”, a ultradireita alternativa, surgida diretamente de sites como o “4chan” (EUA) ou do “Corrupção Brasileira Memes”(CBM, Brasil). Uma linguagem cuja mão de obra criadora é farta: a geração NEET (Not currently engaged in Employment, Education or Training) ou “Nem-Nem”, cuja desesperança e niilismo ganharam expressão política depois de anos de animações politicamente incorretas como Os Simpsons, Beavis and Butt-head, South Park, American Dad e o Rei do Pedaço.
“Por que a ultradireita está ganhando espaço no mundo todo? Porque são metódicos, são militares, têm disciplina. Por que nós da esquerda somos todos fodidos? Porque é todo mundo desorganizado, tudo muito ‘hare hare’ demais”.

(Sabrina Bittencourt, ativista por trás das denúncias do guru Prem Baba e do médium João de Deus, Carta Capital, 26/12/2018)
Desde que o ator britânico Hugh Grant foi flagrado pela polícia, na famosa Sunset Boulevard, fazendo sexo oral em plena luz do dia com uma prostituta chamada Divine Brown, em uma BMW branca conversível, a gestão de Relações Públicas de crise e de imagem não foi mais a mesma.

Em 1995, Grant estava em Hollywood (graças ao sucesso do filme anterior Quatro Casamentos e um Funeral) para atuar em uma comédia piegas romântica chamada Nove Meses, com Julianne Moore. E a sua famosa foto da ficha policial com ombros retraídos, sorriso tímido e óculos casualmente pendurados na gola da camisa polo foi a “redenção divina” (desculpe o trocadilho...) para Grant em Hollywood – sem arranhão posterior na carreira, criou uma dissonância politicamente incorreta: o britânico fleumático e tímido, ator de comédias românticas, preso por atos obscenos em local público.

A alta audiência do pedido de desculpas ao vivo na TV feito no talk show de Jay Leno, fez o programa ultrapassar o “Late Show With David Latterman”, virando o principal atração do gênero nos EUA; a fama do escândalo fez Divine Brown ficar rica e comprar uma mansão em Beverly Hills; e até a então esposa de Hugh Grant, Elizabeth Hurley, virar estrela de cinema, separando-se do ator só em 2000.

Evento proposital ou involuntário, mas a verdade é que a foto do tímido galã britânico fichado pela polícia ao lado da foto de uma prostituta teve dois elementos repercussivos, muito mais do que o escândalo em si: ambiguidadee dissonância.
1995: ainda a tática de ambiguidade e dissonância estava
restrito ao Marketing e Relações Públicas
Armas semióticas

Mas isso foi em tempos em que estratégias de Relações Públicas como essas se limitavam ao chamado “marketing de guerrilha” de marcas como Benetton ou táticas do “falem bem, falem mal, mas falem de mim” que impulsionavam carreiras de atores e artistas pop.

Hoje fazem parte do arsenal das armas semióticas das guerras híbridas colocado em prática nas diversas “primaveras” do Leste Europeu, Oriente Médio e Brasil, a partir de 2013. O paradoxal é que a tática de criação de ambiguidades e dissonância não é propriamente uma estratégia de propaganda.

Como afirma o antropólogo Piero Leiner, professor da Universidade Federal de São Carlos/SP e estudioso das estratégias militares, “é muito mais uma estratégia de criptografia e controle de categorias, através de um conjunto de informações dissonantes" – clique aqui.

Desde o início, a campanha de Bolsonaro à presidência foi considerada tosca e amadora, com recursos escassos, uma estética pobre do material de divulgação e dona de um discurso limítrofe, incapaz de articular três frases sem um erro de concordância.

Nunca foi uma campanha clássica de propaganda – sob a aparência de cacos de conceitos ideológicos (meritocracia, Estado Mínimo, menos imposto, etc.), a parte da comunicação se resumiu a memes, vlogs, a ridicularização de qualquer um que se opunha, e uma postura geral “ensaboada” – provocar, xingar e sair correndo.

Mas, principalmente, provocações que causavam dissonâncias, confundiam a opinião pública e pareciam descoordenados, fazendo os opositores (principalmente a esquerda) reagirem como estivesse diante de uma turba de fascistas hidrófobos, alucinados e cheios de ódio. Mas são disciplinados, cuja tática está fundamentada nas operações psicológicas das estratégias militares da Guerra Híbrida.

Loucos do "Brasil Profundo" ou organizada Operação Psicológica?
“Caneladas” e expressões subliminares

Um exemplo foram as famosas “caneladas” a qual Bolsonaro se referia sobre as supostas divergências de opinião entre ele e as figuras de comando da campanha – p. ex., divergências sobre a questão do 13o salário e a CPMF com o vice General Mourão e o economista Paulo Guedes. Resultado: uma blitzkrieg de ocupação da pauta da grande mídia e da “secada” da esquerda contra seu rival. Enquanto isso, o também suposto programa de governo do candidato era colocado entre parêntesis no debate.

Após a vitória eleitoral e nesse momento de governo de transição, ainda continua a todo vapor a criação de dissonâncias e ambiguidades com o propósito de gerar uma verdadeira cortina de fumaça para a opinião pública.

É o caso das fotos divulgadas pela assessoria de comunicação do futuro governo, feitas durante as reuniões do governo de transição, que criaram mensagens inusitadas que dão margem a duplo sentido. Em pelo menos três imagens, o termo “transição governamental” inscrito no cenário de fundo ganhou novas configurações em fotos com as presenças de Bolsonaro e do futuro ministro da Casa Civil, Onix Lorenzoni (DEM-RS).

O recorte das fotos sugere a palavra “anta” atrás de Bolsonaro; e atrás de Onix, surge “transão” e “traição governa”. Tudo por conta do ângulo tomado pela lente e pelo recorte do plano. O detalhe é que as fotos foram feitas pela própria equipe do governo, em ambiente em que a imprensa não tem acesso.

Imagens que fizeram a delícia da oposição e viralizaram nas redes sociais. Um fotógrafo espera uma carreira inteira para clicar imagens com poder simbólico como essas... Mas a assessoria de comunicação consegue divulgar no atacado fotos que nada mais que ilustram as próprias críticas da oposição: subliminarmente, um fotógrafo denuncia um governo promíscuo, traiçoeiro e liderado por uma anta...

Uma variação dessa estratégia foi a divulgação de um vídeo do “mito” lavando roupa suja no tanque no Natal em Marambaia, RJ.

Ou ainda o vídeo (também divulgado pela assessoria do presidente) em que Bolsonaro, com uma faca na mão em um churrasco, brincando aponta para um dos atendentes e debocha: "Olha aqui. Se eu fizer um corte desse aqui em você, você vai ser presidente da ONU”, disse Bolsonaro aos risos em meio às gargalhadas dos apoiadores ao redor. Provocativamente, o capitão da reserva faz escárnio do próprio atentado que o catapultou à presidência.


Alimentando o inimigo

É como se a estratégia de comunicação do clã Bolsonaro fosse alimentar continuamente a oposição com matéria-prima para memes (como por exemplo, a apropriação da foto de Marambaia em tom laranja para ironizar o Caso Queiroz que “tinge de laranja a posse da presidência”) e para o wishful thinking das esquerdas sobre supostas fissuras internas na equipe do governo ou auto sabotagem subliminar de profissionais na assessoria do presidente.

Dessa forma, o clã Bolsonaro alimenta não só a pauta da grande mídia como também a própria oposição – provoca, ao que a esquerda responde se apropriando das imagens e audiovisuais, para criar metamemes.

O fato é que a esquerda parece desarmada ou incapaz de lidar com essa estratégia, muito mais de comunicação do que de propaganda – um tipo de linguagem que se tornou a vanguarda da chamada “Alt-right”, a direita alternativa nos EUA, iniciada no site 4chan. Uma estratégia alimentada por aquilo que o escritor que quadrinhos americanos Dale Beran chama de “ideologia da desesperança” – clique aqui.

E no Brasil, a misteriosa aquisição do site Corrupção Brasileira Memes (CBM) pelo Movimento Brasil Livre (MBL), para, como nos EUA como 4chan, criar um discurso de alopração generalizada, niilista, que integra também a nova direita brasileira.

Dale Beran: de onde veio a "alt-right"?
Nova direita e a geração “Nem-nem”

Para Dale Beran, o 4chan, de comunidade on-line nerd para compartilhamento de animes, videogames e HQs, nos últimos anos tornou-se a usina do discurso da vanguarda da ultradireita – o inventor dos memes como usamos hoje e o próprio método de intercalar gifs e imagens com diálogos em aplicativos de mensagens. O chamado estilo “4chaniano” marcou profundamente comportamentos e interações.

Para Beran, há um quê de “Senhor das Moscas” (livro de William Golding, de 1954) nos valores dessa ultradireita “4chaniana” – uma sociedade anárquica e agressiva de adolescentes, ou pelo menos de adultos com mentes de garotos: “jovens adultos”. “Um tipo de bandeira de livre expressão libertária, em que meninos-homens isolados afirmavam seu direito de fazer ou dizer o que quer que fosse, desprezando sentimentos alheios”, afirma Beran.

Dessa forma, postar suásticas, pornografias, xingamentos raciais e demais conteúdos perniciosos para outras pessoas e organizar “raids” (ataques surpresa em sites, fóruns e salas de bate papo) é apenas “for the lulz”, zoeira niilista e desesperançada.


O combustível (ou a mão de obra) da ultradireita está na chamada geração NEET (Not currently engaged in Employment, Education or Training) – jovens sem emprego, estágio ou que simplesmente não estudam. Um preocupante e crescente fenômeno social que aqui no Brasil chamam-se os “nem-nem”, que já compõe um quarto da população de jovens na faixa de 15 a 29 anos.

Sites como o 4chan viram uma espécie de Clube da Luta – filme de David Fincher de 1999 sobre homens que recobram sua virilidade por meio da violência depois de terem sido aviltados pela cultura corporativa moderna. E para os “jovens” nem-nem da ultradireita, o inimigo a ser “zoado” (o culpado pelas sua condição de “impotência”) é a cultura politicamente correta globalista – feministas, ONU, ativistas de esquerda, ecologistas, coletivos de defesa dos direitos de minorias etc.

Seja Trump nos EUA ou Bolsonaro no Brasil, seus eleitores não foram atraídos por promessas, mas por uma total desesperança. Bolsonaro presidente?... for the lulz! Rsrsrsrsrs...

E daí se o ângulo da foto do novo presidente figura a palavra “anta” ao fundo? Como afirma Paulo Nogueira Batista Jr. em seu artigo “Falsos Idiotas” (clique aqui), Bolsonaro mostra traços de genialidade ao comportar-se como um perfeito idiota. A simulação da idiotice cai como uma luva na rede de valores niilistas dos desesperançados da geração nem-nem.

Anos de humor e sarcasmo niilista de Os Simpsons, Beavis and Butt-head, South Park, American Dad e o Rei do Pedaço encontraram a tradução política com o alt-right americano e brasileiro.

Agora, só nos resta apertar os cintos enquanto a esquerda está paralisada e em choque. Até entender o que significa abandonar o seu discurso confortável de “luta e resistência” para descer no mesmo campo semiótico onde a ultradireita ganha por WO.

Wilson Ferreira
No CineGnose
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A sociedade está submetida a um nefasto e longo obscurantismo

O fato mais traumático que vivenciei, em toda a minha existência, foi a morte prematura da minha filha Eliete. Esta tragédia ocorreu no ano de 2014 e ainda não me recuperei desta irreparável perda …

Revendo o meu passado, acho que posso afirmar que este ano de 2018, que ora se finda, foi o segundo ano mais danoso que vivi. Não vou aqui elencar as grandes decepções e perdas que me amarguraram no curso deste período. Vou ser mais genérico e sucinto.

Durante este ano de 2018, perplexo e atônito, assisti à derrocada de quase todos os valores pelos quais sempre pugnei. Foram décadas pregando a solidariedade e fraternidade, tudo no âmbito de uma sociedade mais justa, menos desigual, onde todos pudessem ter uma vida digna.

Lutamos contra o individualismo, a ganância, os preconceitos, a competição como fundamento de uma sociedade consumista (e vários outros aspectos negativos deste modelo de sociedade).

Entretanto, não posso deixar de consignar uma situação específica, qual seja, a injusta prisão do maior líder popular de toda a história de nosso país. Este absurdo jurídico, na minha opinião, maculou toda a trajetória do nosso sistema de justiça criminal. Esta prisão apequenou e apequena o nosso sistema de justiça criminal.

Agora, sou obrigado a reconhecer: perdemos, ainda que parcialmente e temporariamente. Eu perdi e acho que não tenho tempo de vida suficiente para ver surgir um verdadeiro socialismo democrático em nosso país…

Perdemos, porque a sociedade está submetida a um nefasto e longo obscurantismo. As pessoas estão ficando “infantilizadas” e a conjugação da ignorância com o fanatismo religioso transformou o nosso povo em “massa de manobra” de grupos empresariais que manipulam as redes sociais.

Não tenho mais dúvida de que vou deixar este mundo muito pior do que ele era quando, por uma incrível coincidência biológica, eu aqui nasci. Aqui vivi 68 anos e agora tenho de reconhecer que a “direita autoritária” chegou ao poder e, o que é pior, as pessoas elegeram para presidente um antigo militar que disse, pública e reiteradamente, que era favorável à tortura de seres humanos e ao extermínio de seus adversários ideológicos. Na verdade, todos perderam ou vão perder…

Perdemos, sim, para a truculência, para o ódio e para a ignorância. Entretanto, digo que detestaria estar no lugar dos que nos venceram, conforme célebre frase do grande Darci Ribeiro. Que falta está fazendo este grande escritor, político, acadêmico e intelectual inconformado !!!

De uma forma geral, o mundo está ficando muito pior. Quanto mais as pessoas se apegam às várias religiões, mais perversas e ignorantes elas se tornam. A ciência também está perdendo para as crendices. Invertendo a lógica das coisas, os “fiéis” se utilizam das suas religiões para disseminar os valores que, com elas, são incompatíveis. Não estamos mais na era da razão humana e, sim, na era da “confusão tecnológica”. A lógica está fora de moda !!!

Vejam a matéria cujo link coloco abaixo, publicada no site “The Intercept, Brasil”. Deprimente e nos cria um verdadeiro desassossego.

Não sei se conseguirei viver em um país governado pela extrema direita. Não sei se conseguirei permanecer “vivo entre tantos mortos”, como diz a bela música cantada pelo camarada argentino Victor Heredia, que tantas vezes coloquei aqui.

Vamos resistir. A cultura, o conhecimento, o companheirismo e a generosidade não podem perecer. Vamos resistir sem medo e sem perder a ternura jamais (Che).

Afrânio Silva Jardim, ainda, professor associado de Direito da Uerj.


Para ler a reportagem sugerida por Afrânio Silva Jardim, clique aqui.
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Rede social de ultradireita chega ao Brasil com acenos a Bolsonaro


Levantamento inédito mostra que às vésperas das eleições presidenciais, brasileiros se tornaram segunda maior nacionalidade na plataforma Gab, que é investigada no Brasil e nos EUA

Frases racistas, xingamentos a mulheres e feministas, insultos a LGBTs, posts que relativizam a escravidão no Brasil. Esses são alguns dos temas discutidos livremente em português no Gab, “uma rede social que defende a liberdade de expressão, as liberdades individuais, e o fluxo livre de informações”, segundo o site oficial. “Todos são bem-vindos”, define. A rede ficou famosa por ser um reduto da ultradireita americana – um dos saltos de usuários nos EUA foi na época do protesto supremacista branco de Charlotesville.

Criado nos Estados Unidos em agosto de 2016, às vésperas do pleito que elegeu Donald Trump à Casa Branca, o Gab, agora, é também terreno brasileiro. Em levantamento inédito, a Pública revela como o Brasil se tornou a segunda maior nacionalidade na rede após um boom de novos perfis em agosto deste ano – uma onda de novos usuários que trouxeram para o Gab uma série de comentários que poderiam ser banidos em outras redes.

A ação foi liderada pelo próprio fundador do Gab, o americano Andrew Torba, que se aproximou de apoiadores do então candidato Jair Bolsonaro para expandir seu mercado. A própria plataforma chegou a convidar o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) para criar um perfil por lá – seu filho Flávio Bolsonaro já tem um.

O Gab funciona de maneira parecida com o Twitter. Os usuários podem postar textos de até 300 caracteres, fotos, links e vídeos. A página inicial é aberta com as postagens mais populares do momento, mas cada perfil pode construir seu próprio feed. A grande diferença são os termos de uso. Enquanto no Twitter não são permitidos conteúdos abusivos, de propagação de ódio ou violência, no Gab só serão excluídas publicações com pornografia infantil e as que incitem explicitamente à violência. “O Gab é uma rede que visa não ter moderação nenhuma. Na verdade ele tem uma moderação muito fraca. Ele fala alguma coisinha que ele não permite e o resto está liberado”, explica Fabrício Benevenuto, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Enquanto a plataforma diz ser defensora da liberdade total de opinião, autoridades nos EUA e no Brasil estão investigando a presença de discurso de ódio e até a relação com ataques terroristas de ultradireita.

Ação coordenada levou usuários brasileiros ao Gab

Em agosto deste ano, o Twitter brasileiro foi inundado de sapos verdes – antigo logo do Gab, uma alusão ao “Pepe The Frog”, desenho adotado por supremacistas durante a campanha de Trump –, acompanhados da hashtag #MeSegueNoGab. Era uma ação de convite para que brasileiros migrassem de outras redes e criassem contas no Gab.

A hashtag foi postada 25 mil vezes entre o dia 21 e 23 de agosto, segundo relatório da Sysomos, uma empresa de análise de mídia social com sede em Toronto, no Canadá, obtido pela pesquisadora Luiza Bandeira, do Observatório das Eleições (Election Watch), um projeto do centro de estudos internacionais americano Atlantic Council.

A estratégia deu resultado: nos primeiros 30 dias da campanha eleitoral no Brasil (de 20 de agosto a 17 de setembro), o endereço do site gab.ai foi o 16º domínio mais compartilhado no Twitter brasileiro.

De acordo com relatório da Secretaria de Títulos e Câmbios do governo americano, em 10 de setembro, o Brasil se tornou a segunda nacionalidade mais presente na rede: 144 mil brasileiros possuíam contas no Gab, atrás apenas dos EUA, com 275,6 mil perfis. Até junho, os brasileiros não apareciam nem entre as cinco maiores nacionalidades dentro da plataforma.

A Pública analisou mais de 66 mil publicações na plataforma de 21 a 28 de agosto, período da campanha #MeSegueNoGab. Descobriu que 9.691 dos posts que possuíam sua linguagem identificada foram feitos em português. Isso equivale a 15% das postagens no período, o que coloca o português como o segundo maior idioma nas postagens, depois do inglês, que foi 54% do total.

A reportagem analisou também outras 105 mil publicações, realizadas na semana que antecedeu o primeiro turno das eleições, de 1o a 8 de outubro. A porcentagem de posts identificados com o idioma português nesse período era de 5% do total. Mesmo assim, o português foi a segunda língua mais presente na rede social.

Porcentagens de postagens por idioma no Gab


A adesão em massa de brasileiros para o Gab foi, em parte, uma resposta à exclusão de centenas de contas em redes sociais por denúncias de publicação de conteúdo falso (fake news) e discurso de ódio que violam os termos de uso dessas plataformas.

No dia 25 de julho, o Facebook removeu 196 páginas e 87 perfis brasileiros que violavam as políticas de autenticidade da plataforma. “Essas Páginas e Perfis faziam parte de uma rede coordenada que se ocultava com o uso de contas falsas no Facebook, e escondia das pessoas a natureza e a origem de seu conteúdo com o propósito de gerar divisão e espalhar desinformação”, escreveu o líder de cibersegurança do Facebook, Nathaniel Gleicher.

Em outro comunicado, em 15 de agosto, a empresa informou que retirou 74 grupos, 57 contas e 5 páginas do Brasil que violaram os Padrões de Comunidade e spam.

O Twitter também se engajou na remoção de usuários e aplicativos que vão contra sua política de uso. Entre o dia 21 e 27 de agosto deste ano, em seu perfil oficial, a rede social informou que suspendeu 770 contas por “engajar em manipulação coordenada de informações”. A plataforma não divulgou dados da exclusão de contas no Brasil.

Brasileiros que haviam sido banidos do Twitter e Facebook criaram contas no Gab. A migração também foi associada à hashtag #DireitaAmordaçada, que chegou aos trending topics do Twitter no Brasil nos dias 7, 8 e 16 de agosto. O próprio Jair Bolsonaro aderiu à hashtag, assim como membros do Movimento Brasil Conservador (MBC) e do Movimento Brasil Livre (MBL).

O projeto Bot ou Humano, desenvolvido pelo grupo Eleições sem Fake, da UFMG, concluiu que não houve interferência significativa de robôs nas postagens da hashtag #MeSegueNoGab – 98% dos perfis eram humanos.

Mas, segundo Luiza Bandeira, houve uma coordenação nesse movimento. “Existe uma diferença entre um movimento que é coordenado e um movimento automatizado. Quando você tem grandes contas participando de um movimento, você acaba gerando uma coordenação, que pode ser orgânica.”

O primeiro perfil a postar a #MeSegueNoGab no Twitter foi do Movimento Brasil Conservador, apoiador declarado de Jair Bolsonaro. O tweet foi publicado no dia 21 de agosto às 13h04, convidando os seguidores a subir a hashtag. Depois disso, outros perfis ligados à direita e ao então candidato a presidente também se engajaram, entre eles o MBL e os sites Conexão Política, Renova Mídia e Terça Livre.

Em entrevista à Pública, Anderson Sandes, membro do MBC e da equipe editorial do site Conexão Política, negou que hashtag foi iniciada pelo movimento. “Fomos um dos primeiros, porque nós estamos sempre ligados no Twitter, é a rede social que nós mais usamos, mas quem começou eu não sei”, disse.

O perfil do Movimento Brasil Conservador no Twitter foi o primeiro a postar a hashtag #MeSegueNoGab

Sandes conta que o CEO do Gab, o empresário americano Andrew Torba, procurou o site Conexão Política para convidá-los para a plataforma e ofereceu ainda um selo de verificação. “É essa estratégia de marketing deles. Eles pegam páginas que tenham muitos seguidores e uma linha editorial ideológica semelhante à deles, que lutam por uma rede social que não tenha uma política tão fechada. Eu não sei como é que eles acham, mas eles saem pedindo para essas pessoas migrarem para o Gab e divulgarem o Gab.”

À Pública, a empresa não quis comentar o convite a páginas brasileiras para se juntarem à rede.

Para Sandes, não cabe às plataformas sociais moderar o discurso: “A rede social não é só uma questão de conhecer o crush e curtir uma fotinho como era de início. Agora ela tem um papel informativo e midiático. E assim como a TV que não vai me calar da minha casa, as redes sociais também não têm esse papel de calar”, diz.

Agrados a Bolsonaro e a bolsonaristas

Segundo o levantamento da Pública, as menções ao então candidato dispararam nas postagens realizadas na semana da votação do primeiro turno: entre as publicações em português, Bolsonaro apareceu em 21% delas.

Já na semana de 21 a 28 de agosto, quando houve a campanha #MeSegueNoGab, das postagens em português, mais de 10% citavam Bolsonaro. Também mais de 2% das 17 mil postagens sem idioma identificado continham a citação.

Menções a Bolsonaro no Gab por idioma


A pesquisadora Luiza Bandeira concluiu em artigo que o movimento em torno da hashtag #MeSegueNoGab também estava ligado a um apoio ao então candidato à Presidência Jair Bolsonaro. As principais hashtags utilizadas em conjunto com a #MeSeguenoGab foram #DireitaUnida, #DireitaNoGab, #BolsonaroNoGab e #BolsonaroPresidente17.

Além disso, os seguidores de Bolsonaro no Twitter foram os que mais compartilharam a hashtag – 5.819 deles postaram a #MeSegueNoGab, de acordo com estudo da Sala de Democracia Digital da Fundação Getulio Vargas (FGV). Em segundo lugar ficaram os seguidores de João Amoedo, candidato do Novo: 1.218 deles publicaram a hashtag. Em último ficaram os de Guilherme Boulos, do Psol (167).

Mas a aproximação da plataforma com Bolsonaro não se restringe ao apoio dos seus usuários. O empresário americano Andrew Torba, CEO e fundador do Gab, chegou a convidar oficialmente o presidente eleito Jair Bolsonaro a fazer parte da rede social. O convite foi publicado em inglês e em português, mas as postagens foram excluídas posteriormente. Ele compartilhou outros conteúdos relacionados ao político e às eleições brasileiras.

O próprio Andrew Torba, nas postagens depois eliminadas, criticou a campanha petista. A Pública teve acesso a 86 postagens de Torba relacionadas ao Brasil e publicadas entre 18 de agosto e 9 de setembro. Em 23 de agosto, ele publicou “Como é possível que o candidato preso esteja à frente nas pesquisas?”. Torba compartilhou link para uma petição de autoria da página “Brasil No Corrupt” pela adesão de Bolsonaro à rede. No dia 25 de agosto, ele compartilhou dois vídeos do político e postou: “Quanto mais eu vejo vídeos do Bolsonaro, mais eu gosto dele”. No primeiro vídeo, chamado “Conheça Jair Bolsonaro, o Trump Brasileiro”, o então candidato aparece dizendo que as minorias devem se curvar às maiorias. O segundo se trata da entrevista de Bolsonaro a Stephen Fry, o qual Torba descreveu como “hilário”.

Andrew Torba é CEO do Gab

A conta oficial de Twitter do Gab também fez referência ao candidato eleito e às eleições brasileiras em diversos posts – que foram igualmente deletados depois. O mesmo ocorre nos perfis oficiais dentro da plataforma. É comum Torba republicar postagens de brasileiros e a página verificada do Gab postar conteúdos em português.

A conta oficial de Twitter do Gab também fez
referência à Jair Bolsonaro e às eleições brasileiras
A plataforma nega ter tido influência nas eleições brasileiras ou de qualquer outro lugar no mundo. Mas admite ter impacto. “Muitos souberam do recente esfaqueamento de Bolsonaro primeiramente pelo Gab. As informações fluem livremente no Gab sem o policiamento da Big Tech. Todos vocês estão fazendo a diferença”, disse a empresa em postagem oficial no dia 17 de setembro.

Andrew Torba compartilhou em seu perfil uma postagem do Twitter de Eduardo Bolsonaro com vídeo da facada que atingiu seu pai. Em outra publicação ele escreveu: “Nenhuma facada comunista vai parar esse homem”. O CEO do Gab ainda compartilhou a hashtag #PrayForBolsonaro (rezem por Bolsonaro, em inglês).

Apesar do convite e dos agrados, o presidente eleito ainda não tem uma conta oficial na plataforma – existe apenas um perfil extraoficial e outro dedicado a republicar seus tweets.

Mas seu filho Flávio Bolsonaro possui desde setembro. Os outros dois filhos, Eduardo e Carlos Bolsonaro, possuem contas extraoficiais, criadas por usuários. “Pela iniciativa de outros usuários do GAB, fiz essa conta e está reservada para o vereador pelo PSL-RJ Carlos Bolsonaro, quando ele vier para o GAB”, escreve o perfil não oficial na sua apresentação.

O Partido Social Liberal (PSL) possui uma conta oficial – é o único dos 35 partidos brasileiros que tem uma conta do Gab.

Uma rede onde o discurso de ódio é livre – e aplaudido

No Gab, o espaço é aberto para propagação de todo tipo de discurso – incluindo o que outras plataformas classificaram como discurso de ódio. O estudo “O que é o Gab? Um bastião da liberdade de expressão ou uma câmera de eco da extrema direita?”, realizado em parceria com universidades americanas e europeias, constatou que 5,4% das postagens na plataforma entre agosto de 2016 e janeiro de 2018 continham palavras de ódio em inglês, como palavrões e xingamentos. O número é 2,4 vezes maior do que o encontrado no Twitter.

“Todos os crimes de ódio serão permitidos”, postou um usuário do brasileiro Gab no dia 29 de outubro, um dia depois da vitória de Bolsonaro. É possível encontrar diversas publicações incitando à violência contra grupos e indivíduos na plataforma, como “Viado é igual punheta só serve pra bater kkk” e “Jornalistas e artista também têm que apanhar até virar gente”, entre outras postagens.

Menções a grupos sociais no Gab


Na semana de 21 a 28 de agosto, o post mais curtido com menção a “negros” foi do Allan dos Santos, do portal Terça Livre. Na postagem, ele relativiza a escravidão ao afirmar que o ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela participou da exploração de diamantes, assim mantendo a exploração de negros africanos como escravos nas minas. Outra postagem, do usuário Lincoln Menezes, também relativiza a escravidão: “Eu corro o risco de ser extremamente politicamente incorreto, mas foda-se. Se não houvesse escravidão africana, todos os cidadãos negros das Américas de hoje seriam miseráveis africanos. Os ancestrais foram escravos, seus descendentes são livres numa sociedade infinitamente mais evoluída”.

Já o terceiro post com mais interações com menção a negros no período tinha uma conotação ainda mais racista. “‘Os brancos têm uma dívida histórica com os negros’. Beleza. A minha eu paguei quando tinha 14 anos e um preto roubou meu relógio e minha carteira”, publicou o usuário Renato Monteiro. A publicação atingiu 37 curtidas, mas foi apagada depois. O mesmo perfil havia publicado outras afirmações racistas antes, mas apagou e hoje possui apenas uma publicação no Gab.

No Gab é possível encontrar diversas publicações de cunho racista

A reportagem analisou também publicações que se referiam à população LGBT. Foram 467 publicações com as palavras “lgbt”, “gays”, “lésbicas”, “transexuais”, “bissexuais”, “homossexuais”, e xingamentos relacionados, na semana de 21 a 28 de agosto. “Gente, eu sou novo aqui. Posso desejar morte aos comunistas e chamar os viados de bichas?”, comentou Wellington Nunes em uma postagem no grupo “Brasil no Gab” que divulgava os números de candidatos do PSL em São Paulo e o link para doar para a campanha de Bolsonaro.

As publicações que mencionavam feministas foram 228 na primeira semana de análise. A grande maioria ironizava o movimento e ofendia essas mulheres. “Para desespero dos Vagabundos Petistas, do PSOL e PC do B, o negócio da cachorrada aqui no GAB é MULHER DE VERDADE, vagabundagem. Não venham com feminazis peludas e comunistas anoréticas (SIC) com brincos nos cotovelos e cabelo verde…AQUI, NÃO !!!!”, publicou o perfil Ataque Aberto. O texto veio acompanhado de uma foto de uma mulher seminua e foi marcado como sensível para menores de 18 anos.

Menções ofensivas, agressivas ou conspiratórias a “esquerdistas” “comunistas” ou “petistas” também são comuns – foram 273 publicações entre as analisadas, representando 3% das identificadas em português. O usuário Jonathan Jean publicou uma imagem do sapo Pepe com uma metralhadora e de legenda escreveu: “pronto para receber os esquerdistas aqui…”. A segunda publicação com maior interação mencionando esses grupos foi do portal Renova Mídia, dizendo que “4 das maiores plataformas de tecnologia do mundo têm parcerias de trabalho com uma associação esquerdista que tem um histórico de imprecisões e rotula rotineiramente organizações conservadoras como ‘grupos de ódio’”. O post teve 208 likes.

Na semana do primeiro turno, de 1o a 8 de outubro, as ofensas a esses grupos se misturavam com comentários xenófobos. “Cara, eu estou com um ódio tremendo dessas desgraças que votaram em esquerdistas, tanto aqui no Nordeste quanto nas demais regiões do país!”, com 54 likes, foi a terceira postagem com maior número de likes mencionando esquerdistas entre as analisadas.

Publicações incitando à violência e comentários xenófobos são comuns no Gab

Brasileiros pró-Bolsonaro são “influenciadores” no Gab

Entre as personalidades brasileiras que aderiram ao Gab durante o início da campanha eleitoral estão diversos nomes ligados a Bolsonaro. Fernando Holiday e Kim Kataguiri, ambos do MBL, entraram na plataforma em agosto de 2018, mês da campanha #MeSegueNoGab. Olavo de Carvalho, escritor e mentor de Bolsonaro, e Luiz Philippe de Orleans e Bragança, descendente da família real portuguesa e eleito deputado federal pelo PSL-SP, também criaram suas contas na rede no mesmo mês. O deputado eleito recebeu até postagem de boas-vindas do CEO da plataforma: “Agora o Gab tem realeza”, escreveu Torba no dia 23 de agosto.

O sucesso dos brasileiros na rede é visível: na primeira semana da campanha eleitoral, usuários brasileiros ficaram entre os perfis com maior interação na plataforma. Nas 66 mil publicações analisadas pela Pública, de 16.044 perfis, as oito contas com maior número de curtidas em publicações eram de brasileiros.

Maiores influenciadores no Gab entre 21 e 28 de agosto


No topo, ficou Gabriel Pinheiro, membro do Gab desde sua fundação, em agosto de 2016. Seus posts no período somaram quase 5 mil curtidas, ou “pontos positivos”, como contabilizado pelo Gab. Ele já publicou mais de 3,7 mil posts com mais de 218 mil pontos (uma média de 59 curtidas por publicação – um número alto para o Gab).

Pinheiro atualmente reúne 20.751 seguidores na rede e ficou famoso entre os conservadores no Twitter com postagens contra o “politicamente correto”. Ele não possui mais conta em outras redes sociais, após ser banido inúmeras vezes. No Gab, publica todos os dias. Durante as eleições sua atividade se resumia a postagens de apoio a Bolsonaro e críticas aos adversários do político. Hoje seu perfil compartilha mais vídeos de músicas do que relacionados à política.

Já Allan dos Santos, do site Terça Livre, que afirma tentar “desmascarar todas as mentiras que a mídia propaga dia e noite”, ficou em segundo lugar nas interações, somando 4.697 likes no período. Sua conta no Gab foi criada em julho de 2018 e ele já publicou 606 posts, totalizando 192 curtidas por post – e 29.220 seguidores. Sua atividade se resume a republicar conteúdos do Terça Livre e algumas outras notícias hiperpartidarizadas. No Twitter, Allan também já teve conta excluída, mas possui novo perfil com 91,5 mil seguidores.

O Terça Livre também teve grande interação de posts no Gab, ficando em décimo lugar, com 1.401 likes. O portal está com sua conta temporariamente suspensa pelo Twitter desde junho, mas está no Gab desde novembro de 2016.

Em terceiro lugar, com um total de 3.332 curtidas nos posts analisados, ficou o perfil Joaquin Teixeira, que se descreve como um homem aposentado, cristão e patriota. Ele criou sua conta em setembro de 2016, publicando sátiras e piadas para maiores de 18 anos – como define em sua biografia no Gab. Atualmente, possui 32.597 seguidores e 452 posts.

Portais de conteúdos apoiados pelos movimentos de direita também são populares no Gab. O Renova Mídia, que defende a propagação de notícias “sem o filtro do politicamente correto”, ficou em quarto lugar nas interações de 21 a 28 de agosto. Com 2.407 curtidas e 11.925 seguidores, o perfil do site no Gab tem 1.544 publicações – cerca de 12 posts por dia desde a criação, em agosto deste ano. No Twitter, o Renova tem 94 mil seguidores, enquanto no Facebook possui apenas 15 mil likes.

Em quinto lugar ficou o perfil do site Caneta Desesquerdizadora, um portal pró-Bolsonaro que critica a imprensa que chama de “esquerdista” e projetos de fact-checking. Também são publicadas análises e notícias hiperpartidarizadas relacionadas à direita.

A Caneta tem 15.198 seguidores no Gab e seu perfil foi criado em agosto, como a maioria das contas brasileiras. Desde então, publicaram 265 posts, somando 51.385 likes. Na semana analisada, de 21 a 28 de agosto, os posts tiveram 2.386 likes. No Twitter, a conta foi criada em 26 de julho e soma mais de 200 mil seguidores. O site também possui Instagram e YouTube.

Outro perfil de destaque, sobretudo na semana da votação do primeiro turno, foi o “Blog do Pim”, uma conta de Felipe Moura Brasil. O perfil teve 1.537 likes nas postagens analisadas no período e soma mais de 1.653 posts, com 63.894 likes e 8.063 seguidores. Grande parte das publicações são cópias das publicações oficiais no Twitter.

Em comum, todos os “influenciadores” do Gab compartilham apoio declarado a Jair Bolsonaro. Na primeira semana de levantamento, das 1.697 postagens analisadas que continham menção ao então candidato, as três com maior número de likes foram feitas por algum desses perfis.

Gab é investigado nos EUA por relação com terrorismo

Devido à falta de moderação e de combate ao discurso de ódio, o Gab tem enfrentado crescentes dificuldades nos EUA – e os problemas começam também aqui no Brasil.

A empresa teve seu aplicativo rejeitado pela loja virtual do sistema Android, o Google Play, e pelo IOS, a Apple Store. No dia 29 de outubro, a empresa GoDaddy baniu o site de seus servidores devido à associação da rede com o atentado de Pittsburgh em 27 de outubro.

O atirador, que entrou em uma sinagoga e matou 11 pessoas, tinha perfil no Gab e havia postado conteúdos antissemitas diversas vezes. Sua apresentação na plataforma era “Judeus são os filhos de Satã”. Dias antes do atentado ele postou “O HIAS [Sociedade de Auxílio a Imigrantes Hebreus] gosta de trazer invasores que matam nosso povo. Não posso ficar sentado e assistir a meu povo ser massacrado. Danem-se suas opiniões, eu vou agir”. Seu perfil foi banido depois do massacre.

Por causa do crime, o Federal Bureau of Investigation (FBI) investiga a associação do Gab com terrorismo, monitorando seus usuários.

Em novembro, outro membro da rede social foi preso por associação com o atirador de Pittsburgh e por planejar outro atentado. Seu perfil também foi excluído.

Depois de ter perdido seu servidor no Go Daddy, o Gab ficou fora do ar até dia 4 de novembro, quando conseguiu acolhimento pela startup Epik, situada em Seattle. Quando voltou ao ar, todas as postagens anteriores do CEO Andrew Torba haviam sido excluídas.

A associação com o terrorista, ainda, fez o Gab perder seu contrato com as empresas Paypal e Stripe, que facilitavam os pagamentos do crowdfunding que mantêm a plataforma e da compra de contas “Pro”. Agora, para fazer doações ou pagar mensalidade da conta especial, é preciso enviar cheques para os endereços postais do site.

Sobre a investigação do FBI, o GAB afirma ser protegido pela legislação americana, por meio da Primeira Emenda, que garante a liberdade de expressão. É essa lei que permite, por exemplo, a existência de grupos como a Ku Klux Klan, declaradamente racista e antissemita, nos Estados Unidos.

Sérgio Amadeu, membro do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI), explica que a primeira emenda americana determina limites claros até para a Ku Klux Klan. “Pode falar, porque esse grupo está exercendo sua liberdade de expressão, sua liberdade de queimar uma cruz. Mas ele nunca assume um ato de violência, por exemplo”, explica.

No Brasil, Ministério Público de Minas investiga crimes de ódio no Gab

Porém, no Brasil, a interpretação legal é outra. A liberdade de expressão é garantida pelo artigo 5º da Constituição Federal, mas, diferentemente dos EUA, ela tem exceções que ocorrem “exatamente quando alguém extrapola esse direito e passa a agredir o outro, a praticar, por exemplo, o racismo, que na nossa Constituição é proibido. Então você tem todo um mecanismo de contraposição”, diz Amadeu.

O Marco Civil da Internet protege os chamados provedores de aplicação, que são sites, blogs, aplicativos ou redes sociais. “Pelo Marco Civil, os provedores de aplicação não podem ser responsabilizados pela ação de terceiros dentro dele”, explica o membro do CGI.

No caso de crimes de ódio ou ofensas, as legislações aplicáveis são as de crimes contra a honra, como calúnia, injúria e difamação, e crimes de discriminação, racismo e injúria racial. Vítimas desses tipos de crimes dentro do ambiente online podem recorrer à Justiça para punir o responsável pela postagem e exigir a retirada do conteúdo, por exemplo. “A plataforma somente será responsabilizada se, uma vez acionada, não atender ao pedido da Justiça”, diz Sérgio Amadeu.

Foi o que aconteceu com o Gab no dia 19 de novembro. A Coordenadoria Estadual de Combate aos Crimes Cibernéticos do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) solicitou ao CEO do Gab dados da plataforma para apurar uma investigação que corre em sigilo sobre disseminação de discurso de ódio, envolvendo racismo e gênero. O órgão deu dez dias de prazo sob pena de responsabilidade criminal em caso de não cumprimento.

Em seu perfil no Gab, Torba publicou a resposta encaminhada à promotora responsável pelo processo, Christianne Cotrim. Ele afirmou que não responderia aos questionamentos do MPMG por seguir a lei federal dos Estados Unidos: “Chamamos sua atenção para a lei federal dos EUA, que nos proíbe de divulgar o conteúdo de comunicações eletrônicas a qualquer pessoa e de divulgar ‘um registro ou outra informação pertinente’ de um usuário de nosso serviço a qualquer entidade governamental”, escreveu Torba.

À Pública, o Gab respondeu que só respeita a legislação americana: “O Gab.com é uma rede social livre de anúncios dedicada a preservar a liberdade individual e de expressão, e o fluxo livre de informações na internet. Nós recebemos todos na nossa plataforma. Nós somos uma empresa americana. Assim, somos subordinados à lei federal dos Estados Unidos de proteção à privacidade e dados e estendemos a todos os nossos usuários a proteção do direito de liberdade de expressão conforme garantido nos EUA. Até onde sabemos, as únicas leis que se aplicam a pessoas nos Estados Unidos são as leis dos Estados Unidos. Sem mais comentários”.

Sérgio Amadeu defende que, devido ao enorme número de brasileiros, o GAB precisa respeitar a nossa legislação. “O Gab é uma plataforma que não está acima da legislação do Brasil, assim como o Facebook e o Twitter. E o que se publica nela, se forem conteúdos extremamente discriminatórios, homofóbicos, misóginos, são conteúdos que, na nossa Constituição, são fora dos seus parâmetros. O fato de ter uma liberdade de expressão não pode ser assim usado para esconder o chamado discurso de ódio.”

“Qualquer órgão é obrigado a cooperar com a Justiça brasileira. Se a Justiça pede informação e esse órgão não passa, eles aplicam uma multa”, explica o delegado Felipe Carvalho, da Delegacia Especializada de Investigações de Crimes Cibernéticos (DEICC) de Minas Gerais. Para que o Gab responda à solicitação, contudo, é preciso acionar a Justiça americana, visto que o site não possui sede ou representação no Brasil. “Como a Justiça brasileira pode se comunicar com esses sites? Através do Ministério das Relações Exteriores e da Polícia Federal. Mas é complicadíssimo”, diz o delegado.

Extrema direita americana e eleição de Trump tornaram Gab uma rede milionária

Nos Estados Unidos, o Gab se tornou também uma alternativa para usuários da ultradireita. Nos primeiros três meses após a criação da plataforma, em agosto de 2016, já havia mais de 100 mil usuários cadastrados. Em setembro deste ano já eram 635 mil inscritos, 242 mil deles eram ativos. Hoje, são mais de 820 mil usuários e 10 milhões de visitas por mês.

Com o crescimento de usuários, a empresa sediada no Texas declara seu valor de capital em US$ 9,9 milhões. Além disso, mais de 3 mil pessoas teriam doado dinheiro para a plataforma através de seu crowdfunding inicial, que arrecadou US$ 150 mil, segundo dados do próprio Gab. Além das doações, a empresa se financia através de mensalidades de usuários que pagam por uma conta “Pro”, com mais recursos na plataforma como verificação de conta, possibilidade de salvar posts e ter conversas particulares com outros usuários.

Em junho de 2017, o Gab abriu parte de seu capital através da Start Engine, uma plataforma online de financiamento de startups na qual pessoas comuns podem investir. O primeiro arrecadamento atingiu a meta de US$ 1,07 milhão em menos de dois meses, com mais de mil investidores. Agora, a empresa está testando um projeto de arrecadação maior – US$ 20 milhões.

O sucesso começou com a eleição de Donald Trump. Segundo monitoramento da UFMG, durante o primeiro ano de funcionamento do Gab, 51,4% dos usuários se inscreveram entre agosto e dezembro de 2016, e apenas em novembro daquele ano foram 28% – data que coincide com a eleição. No período, as hashtags mais compartilhadas eram pró-Trump. Em primeiro lugar ficou a #MAGA, sigla para o slogan de campanha do presidente “Make America Great Again” (ou Faça a América Grande Novamente, em tradução livre para o português).

Não há membros da campanha nem do governo de Trump na plataforma, mas sim outras personalidades relacionadas à política nos EUA. Entre elas está Patrick Little, candidato ao Senado nas eleições parciais para o legislativo americano em 2018. Little foi expulso do Partido Republicano e teve que interromper sua campanha devido a seus comentários antissemitas – o político nega o Holocausto e chegou a comparar Adolph Hitler à “segunda reencarnação de Cristo”.

Recentemente, a conta de Little foi excluída do Gab devido a postagens em que ele pedia a “completa erradicação” de judeus. A exclusão foi feita no dia 20 de novembro, depois de a Microsoft ameaçar retirar o site de seus servidores. O Gab publicou em seu perfil oficial uma nota sobre o acontecimento em que justifica a exclusão: não foi pela grande quantidade de discurso de ódio, mas pela presença de ameaças concretas a indivíduos e ao patrimônio.

Apesar da exclusão de Little, contas ligadas a personagens da extrema direita americana são comuns.

O estudo da UFMG analisou 36 mil usuários do Gab cadastrados entre 2016 e 2017 e encontrou, entre eles, perfis listados como extremistas por organizações como o Southern Poverty Law Center (SPLC) e a Liga Antidifamação (ADL). Entre os listados pela ADL, 61,1% tinham conta no Gab no período.

“Falando do Brasil ou dos Estados Unidos, o Gab se trata de uma parede de eco da extrema direita”, conclui Fabrício Benevenuto, da UFMG.

Além disso, a análise mostra que 67% dos usuários da plataforma eram homens, contra 32% de mulheres. Levando em conta a raça, 76,1% eram brancos, 8,2%, negros e 15,7%, asiáticos. Os homens brancos representavam mais da metade dos usuários (50,9%).

Com tamanha adesão da extrema direita, outro evento que atraiu usuários para o Gab nos EUA foram os protestos de supremacistas brancos em Charlottesville em agosto de 2017. Dos usuários inscritos na plataforma entre agosto de 2016 e janeiro de 2018, 13% entraram nesse período, segundo a pesquisa.

Na ocasião, o Facebook prometeu excluir contas que contivessem ameaças. “Não há espaço para ódio na nossa comunidade”, escreveu Mark Zuckerberg em seu perfil oficial. Até então, pelo menos oito grupos relacionados à extrema direita americana foram excluídos da plataforma.

Ethel Rudnitzki | Felipe Sakamoto
Infográficos: Bruno Fonseca
No A Pública
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Na Europa e EUA, um fascismo tradicional nacionalista. No Brasil, um fascismo servil

Imagem: Renato Alarcão
Rogério de Campos assina na última edição de Le Monde Diplomatique Brasil um artigo sobre o fascismo brasileiro, que destoa do que é visto na Europa e Estados Unidos, hoje em dia, por uma característica peculiar: o entreguismo. É principalmente por causa desse elemento que, segundo Campos, alguns autores ainda resistem em colar Jair Bolsonaro à imagem de um governo, no mínimo, potencialmente fascista em sua feição mais tradicional.

Enquanto lá fora o fascismo tem entre suas principais características o nacionalismo latente e ódio aos imigrantes [uma mentalidade desenvolvida pela história do colonialismo, na visão de Campos], aqui no País que elegeu Bolsonaro a intolerância contra quem atravessou fronteiras em busca de abrigo não tem tido muitas oportunidades para se manifestar porque o fluxo é inferior, em comparação ao que ocorre nos Estados Unidos e Europa. E mais: aqui o brasileiro apto a ser chamado de fascista não tem no estrangeiro seu inimigo principal, mas em outros brasileiros que pensam diferente dele.

O novo fascismo brasileiro, segundo Campos, é racista mas não se sustenta na xenofobia na maioria dos casos. "Ainda que o slogan 'o melhor do Brasil é o brasileiro' seja criação de um ex-integralista, Câmara Cascudo, tal frase não faz qualquer sentido para a nova extrema-direita brasileira, para a qual o problema é justamente o brasileiro, ele é a sub-raça perniciosa. Quanto do ódio ao Lula não é por ele ter 'cara de povo'?", indagou.

"Talvez essa extrema-direita do Brasil seja uma forma nova de regressão, uma inovação brasileira: um fascismo servil, especialmente criado para países obrigados a se submeter aos fascismos dos países que mandam."

Leia o artigo abaixo.

Uma inovação brasileira: o fascismo servil

Em 2002, os primeiros ministros Tony Blair e José María Aznar levaram à cúpula da União Europeia a proposta de punir com sanções econômicas os países de origem de imigrantes indesejáveis. A proposta causou escândalo porque explicitava o desejo de que governos dos países da África, por exemplo, transformassem-se em “carcereiros dos seus cidadãos”[1]. O novo modelo de Estado para o Terceiro Mundo, na proposta de Blair e Aznar, seria um que, além de cumprir a tradicional tarefa de garantir o fornecimento de matéria prima para o Primeiro Mundo a baixo custo, passaria a vigiar para que seus habitantes não tentassem escapar da miséria provocada por esse baixo custo. Nações pobres se tornariam grandes campos de trabalho forçado, com seus cidadãos impedidos de fugir.

Ainda que a proposta de Blair e Aznar tenha sido publicamente rejeitada pela maioria dos outros membros da UE (burro que sou, gosto especialmente da justificativa de um representante da Suécia: “nós queremos um equilíbrio entre a vara e a cenoura. É contra-produtivo enfatizar tanto a vara”[2]), na prática ela foi aprovada e vem sendo aplicada de maneira um pouco menos explícita, numa forma intermediária. Usando variadas cenouras e algumas varas, a União Europeia tem terceirizado para países em sua fronteira a tarefa de impedir a chegada de imigrantes. É isso que está por trás dos “campos de refugiados” em países como Turquia e Jordânia e massacres de imigrantes em países como Marrocos e Líbia. Pode-se dizer que a Europa aprendeu algo com as tragédias dos anos 1930 e 40: que não se deve fazer campos de concentração dentro de seu continente, mas fora…

Em seu famoso “Discurso sobre o Colonialismo” (1950), o poeta martiniquense Aimé Césaire demonstra que o nazismo é uma consequência do colonialismo. Descivilizado e embrutecido pelas barbaridades que comete na África, nas Américas e na Ásia, o europeu levou essa brutalidade junto com seu butim quando retornou à terra natal:

“Haveria que estudar, em primeiro lugar, como a colonização trabalha para descivilizar o colonizador, para embrutece-lo no sentido literal da palavra, para degradá-lo, para despertar seus recônditos instintos em prol da cobiça, da violência, do ódio racial, do relativismo moral; haveria mostrar depois que cada vez que no Vietnam se corta uma cabeça e se arrebenta um olho, e na França se aceita; que cada vez que se viola uma menina, e na França se aceita; que cada vez que se tortura um malgaxe, e na França se aceita, haveria que se mostrar, que quando tudo isso acontece, se está verificando uma experiência da civilização que pesa por seu peso morto, se está produzindo uma regressão universal, se está instalando uma gangrena, se está estendendo um foco infeccioso, e que depois de todos esses tratados violados, e todas essas mentiras propagadas, de todas essas expedições punitivas toleradas, de todos estes prisioneiros manietados e ‘interrogados’, de todos esses patriotas torturados, depois deste ódio racial estimulado, dessa jactância desfraldada, o que encontramos é o veneno instilado nas veias da Europa e o progresso lento, porém seguro do enselvajamento do continente ”[3].

Assim, e essa é conclusão minha a partir de Césaire, o ressurgimento do fascismo na Europa não é consequência de uma natural hostilidade à imigração, mas um dos resultados da exploração dos países da periferia do capitalismo por governos “civilizados” e modernas empresas europeias, muitas delas cheias de “sustentabilidade”, “multiculturalismo” e progressismos. O fato dessa exploração ser feita tantas vezes remotamente, por drones e algoritmos, sem sujar as mãos, não impede o envenenamento.

A conclusão de Césaire é que “a Europa é indefensável”. Mas creio que hoje ele diria o mesmo dos Estados Unidos: é indefensável o que acontece na fronteira com o México. Como suportar aquelas imagens de crianças, filhas de imigrantes, separadas à força de seus pais e aprisionadas naqueles campos de concentração? Não parece haver inspiração de Blair e Aznar na exigência que Trump faz de que o próprio México pague o muro que divide as fronteiras? O Criminal Alien Deportation Enforcement Act, projeto de lei do deputado republicano Brian Babin, prevê não apenas sanções econômicas, mas também a suspensão de vistos para residentes de países cujos governos não demonstrem competência em impedir a emigração “ilegal” de seus cidadãos.

Uma prova de que não é o imigrante que faz surgir o nazista é a existência do novo fascismo brasileiro, que apesar de racista não se sustenta na xenofobia. Ok, todos sabemos do descaso e violência com que, desde sempre, são tratados imigrantes pobres no Brasil. Vimos aquelas imagens das agressões contra médicos cubanos e também aquelas, ainda mais horríveis, contra venezuelanos em Roraima. Mas a verdade é que, talvez pelo fato de a imigração aqui não ter a dimensão que tem na Europa, os fascistas brasileiros não têm tido muitas oportunidades de exibir publicamente o lado xenofóbico de sua estupidez. É por isso também que alguns pesquisadores resistem a caracterizar essa nova extrema-direita brasileira como fascista. Que fascismo é esse que não é nacionalista? Que apesar das camisetas verde e amarelas, não demonstram raiva do estrangeiro, mas, sim, desprezo pelo próprio brasileiro. Ainda que o slogan “o melhor do Brasil é o brasileiro” seja criação de um ex-integralista, Câmara Cascudo, tal frase não faz qualquer sentido para a nova extrema-direita brasileira, para a qual o problema é justamente o brasileiro, ele é a sub-raça perniciosa. Quanto do ódio ao Lula não é por ele ter “cara de povo”?

Contra esse argumento de que o bolsonarismo não é fascista porque não é nacionalista, pode-se dizer que os diversos fascismos do início do século XX tiveram de tudo, inclusive “entreguistas”. Na Europa, roedores foram correndo abrir a porteira de seus países para a invasão nazista e depois se destacaram como os mais miseráveis colaboracionistas.

No Brasil dos anos 1920, os condes Matarazzo e Crespi talvez até financiassem uma hipotética invasão do país por Mussolini. Mas Matarazzo e Crespi, e muitos outros imigrantes italianos bem menos afortunados que eles, ficariam até ofendidos se chamados de brasileiros. Sua pátria era a Itália. Portanto, eram nacionalistas, mais fervorosos talvez justamente porque longe de seu país. E isso nada tem de incomum.

Agora veja o caso do agrupamento heterogêneo que atropelou os tucanos nas passeatas pelo Golpe e que forma a base do bolsonarismo: fanáticos do neoliberalismo junto com fanáticos religiosos, os mais cínicos oportunistas ao lado de criacionistas, impacientes partidários da modernização tecnológica alinhados com terraplanistas… a lista se prolonga em um patético pandemônio de contradições no qual uma rara constante é o entusiasmado nacionalismo, que só confunde o olhar externo porque, no caso, a “pátria amada” são os Estados Unidos da América.

As cenas de Bolsonaro batendo continência para a bandeira americana (ou qualquer americano que veja pela frente) ou de seu filho com o boné do Trump, causam constrangimento até para autoridades dos Estados Unidos, mas estão longe de perturbar seus fiéis admiradores brasileiros. A avenida Paulista foi talvez o único lugar fora dos Estados Unidos em que houve uma manifestação a favor de Trump durante a campanha dele para presidente. Foi uma manifestação bem pequena, é verdade, mas ruidosa: teve até palavra de ordem contra Hillary Clinton, chamada de “comunista”.

Do ponto de vista do governo norte-americano, a equipe de Bolsonaro é um verdadeiro dream team: na economia, que é o que importa, tem o Chicago Boy Paulo Guedes, e, como estepe do próprio capitão, no caso de ser necessário engrossar, está o general Hamilton Mourão, que só não tem diploma da Escuela de Las Americas porque chegou atrasado, mas que representa talvez a ala mais americanizada das Forças Armadas brasileiras (“Aliste-se no Exército Brasileiro, venha você também defender os interesses dos Estados Unidos”, diz o meme). Quem encabeçou a direção política da vitoriosa campanha eleitoral foi o novato Gustavo Bebianno, cuja grande experiência como empreendedor foi a criação de uma academia de jiu-jitsu na Florida. Ainda assim, apesar da competência de Bebianno, a campanha foi vitoriosa graças, é claro, a benção que Deus enviou por meio dos pastores do pentecostalismo, a mais norte-americana das religiões cristãs.

Poderíamos dizer que tal agrupamento é apenas um pitoresco bando de bucaneiros oportunistas, mas é preciso admitir que eles têm base social. Não falo aqui dos milhões que votaram no “Mito”, mas, especificamente, daqueles militantes que, muitas vezes sem serem remunerados, o defendem com entusiasmo e violência. Ativistas que brotam dos shopping centers e das igrejas, dos times de basquete e dos seminários para empreendedores, mas também dos fandoms da Marvel, do hard rock, de Star Trek e do Vin Diesel. Eles saudariam o desembarque dos marines, porque estes, além de nos proteger de uma invasão cubana ou venezuelana, talvez também expulsassem coisas estranhas à cultura brasileira, como as religiões africanas e o elitismo intelectual europeu. Nos livrariam finalmente do que o Mourão classificou como “indolência” indígena e a “malandragem oriunda do africano”. E, principalmente, esses nacionalistas norte-americanos nascidos no Brasil sonham que a chegada dos marines finalmente os liberaria da exigência do visto para entrada na Florida. Sonham um dia tornarem-se americanos brancos, e que o Brasil ainda vai cumprir seu ideal, ainda vai tornar-se um imenso Porto Rico.

Por isso talvez tenham alguma razão aqueles que dizem ser um erro classificar essa gente simplesmente como fascista só porque ela parece, age, fala e rosna como os velhos fascistas. Talvez essa extrema-direita do Brasil seja uma forma nova de regressão, uma inovação brasileira: um fascismo servil, especialmente criado para países obrigados a se submeter aos fascismos dos países que mandam. Uma jabuticaba do avesso: dura dentro e mole pra fora. Um fascismo que ultrapassa os anos 1930 e avança pelo século XIX e vai mais para trás. Que usa instrumentos do século XXI e estratégias do início do século XX para defender uma situação do século XVIII.

Os fascistas italianos sonhavam reviver a Roma Imperial, os fascistas brasileiros sonham com a volta do Brasil Colonial.

[1] https://diplomatique.org.br/como-a-europa-segrega-seus-vizinhos/



[2] https://www.theguardian.com/world/2002/jun/18/eu.immigration



[3] Na tradução de Anísio Garcez Homem (Discurso sobre o Colonialismo, 2010, Letras Contemporâneas).

Rogério de Campos é editor, tradutor e autor dos livros Revanchismo, Dicionário do Vinho (Prêmio Jabuti) e Imageria (Prêmio HQ Mix). Seu livro mais recente, Super-Homem e o Romantismo de Aço (Ugra Press, 2018) fala da relação do gênero super-heróis com o fascismo


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Jair, o Messias, que não sabe nem jogar War, arrisca o país em complexo xadrez geopolítico alinhando-se a Israel

“Israel é a terra prometida e o Brasil é a terra da promessa de futuro”.
Frase feita do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, depois de encontrar-se com Messias, o Jair
O “Posto Ipiranga” de geopolítica de Jair Bolsonaro é Olavo de Carvalho, que colocou seu discípulo, o chanceler maluquinho Ernesto “No Che” Araújo para comandar a pasta de Relações Exteriores – que já teve próceres como Celso Amorim, Antonio Patriota, Celso Lafer, Francisco Rezek e, mesmo na ditadura, pessoas como Gibson Barbosa, Saraiva Guerreiro e Juracy Magalhães. Quis o destino que nesta mesma sexta-feira que nos tirou o escritor israelense Amos Oz, aclamado por levantar a voz contra os fanatismos religiosos, uma luta que ficou registrada em sua autobiografia romanceada “De amor e trevas”, best-seller mundial, o país receba a visita do beligerante primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Ele e o Messias, no caso Jair Bolsonaro, se encontraram simbolicamente no Forte de Copacabana, construído para impedir a aproximação de belonaves que pudessem ameaçar a então capital do país. Não por acaso, igualmente, é primeira visita oficial de um primeiro-ministro israelense ao Brasil, que ficará, incrivelmente, cinco dias no país, incluindo para a posse. O alinhamento inconsequente do governo Bolsonaro, mesmo antes da posse, ao republicano Trump e ao seu mais estratégico aliado, Israel – junto com o Reino Unido, obviamente -, mostram que Bolsonaro é uma marionete de interesses americanos brincando de xadrez geopolítico sem ter se iniciado sequer nos joguinhos de tabuleiro. Não sabe jogar War e já quer colocar o país em risco.

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O Messias Bolsonaro chacoalha as mãos com Benjamin Netanyahu; o chanceler maluquinho Ernesto Araújo, 
baba ovo de Trump e que apoia a irresponsável – e irreversível – transferência da embaixada do Brasil em Israel de Tel Aviv para Jerusalém – em encontro anterior com o embaixador de Israel, Yossi Shelley; contêineres no Porto de Santos, maior porto brasileiro, embarcando importações árabes; e o escritor israelense Amos Oz, que morreu nessa sexta em que o novo governo deixa cravem as unhas na sua geopolítica.

Não apenas riscos comerciais, como têm percebido especialistas, minando as boas relações com países árabes – ao falar em trocar a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém -, estes sim excelentes parceiros comerciais. Suas declarações já provocaram reações do mundo árabe. O governo do Egito cancelou visita que receberia do atual chanceler, Aloysio Nunes Ferreira, e de uma missão empresarial brasileira como sinal de insatisfação. O Egito importou 1,5 bilhão de dólares em produtos brasileiros entre janeiro e setembro, segundo dados públicos da Secretaria de Comércio Exterior (Secex). Todo o Oriente Médio, excluído Israel, comprou 9,6 bilhões de dólares do Brasil no período, enquanto Israel importou 256 milhões. No encontro com Netanyahu estava Paulo Gudes, o futuro “superministro” da Economia. O que terá dito sobre isso? A imprensa não revelará. Bolsonaro afirmou que planeja ir com uma comitiva a Israel em março. Lá, pretende negociar acordos de cooperação tecnológica e nas áreas de agricultura, segurança, militar, pesca, entre outras. Defina “entre outros”, Bolsonaro.

Mas, como disse, não apenas risco comercial, também risco político. Ou será que nosso futuro mandatário não sabe que está colocando o país na rota do terrorismo? Já terá ouvido falar em Hamas? Em Fatah? Ou será que a única Faixa de Gaza que conhece é o entroncamento das Linhas Amarela e Vermelha, no Rio de Janeiro?

A embaixada dos EUA em Jerusalém foi inaugurada em maio. A transferência da chancelaria representa o reconhecimento de Jerusalém – cidade considerada sagrada por várias religiões – como capital israelense. Israel considera Jerusalém a “capital eterna e indivisível” do país, mas os palestinos não aceitam e reivindicam Jerusalém Oriental como capital de um futuro Estado palestino. Bolsonaro, que não sabe o que é um Shabat e deve achar que judeu ortodoxo é uma espécie de comunista da Terra Santa, está se metendo em campo minado. É óbvio que, como não entende patavinas de economia, não entende de política externa. Fica refém de seus tutores – o que é péssimo para um chefe de Estado. É só lembrar do exemplo de Oz que, sem perder o orgulho pátrio, e sem deixar condenar os excessos dos dois lados do tabuleiro, defendia a criação do Estado palestino – uma tradição dos últimos governos brasileiros, independente de ideologia- e confrontava as políticas de Netanyahu, tendo recusado um cargo oficial no exterior em protesto pelo que considerou um “crescente extremismo” de seu governo. Foi considerado a consciência de uma nação, e era considerado inimigo pela ultra direita israelense. Pelo jeito, seria fuzilado pela direita brasileira.

Tem tempo, enquanto Bolsonaro comemora nas redes sociais ter trazido Netanyahu em sua posse, o Ministério das Relações Exteriores chinês informou que o vice-presidente do Comitê Permanente da Assembleia Popular Nacional da China, Ji Bingxuan, será o enviado especial do presidente Xi Jinping para a cerimônia de posse do presidente eleito do Brasil. A escolha foi vista nos meios diplomáticos brasileiros como uma decisão protocolar. Trata-se de um representante de nível elevado, porém sem status especial na área diplomática. Mesmo os Estados Unidos serão representados pelo secretário de Estado, Mike Pompeo. Que decepção, “mito”. Trump não vem para jantar.

No Gilberto Pão Doce
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