27 de dez de 2018

Subiu na goiabeira

Divina providência ajudou na eleição, diz Araújo


O futuro ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, afirmou que a união do filósofo Olavo de Carvalho, da Operação Lava Jato e do presidente eleito, Jair Bolsonaro, foi responsável por “quebrar o sistema cultural marxista criado pelo PT“.

O sistema teria sido construído por meio da “corrupção, intimidação e controle duro“. A afirmação faz parte de um texto de 3 páginas publicado na edição de janeiro de 2019 da revista norte-americana The New Criterion.

o diplomata afirma que acredita que Deus atuou nessa união. “Foi a divina providência que guiou o Brasil por todos esses passos, reunindo as ideias de Olavo de Carvalho co a determinação e o patriotismo de Jair Bolsonaro? Eu acredito que sim“. O encontro teria auxiliado no “renascimento da nação”.

Araújo faz também uma análise sobre os últimos 30 anos de politica brasileira, no qual chama o MDB de “oligarquia antiga“, o PSDB de “oposição domesticada” e afirma que o PT é composto por “marxistas intelectuais, guerrilheiros de esquerda e representantes da burocracia sindicalista“.

O Partido dos Trabalhadores também teria promovido uma agenda de esquerda que fomentou a ideologia de gênero, a tensão artificial entre raças e a humilhação de cristãos.

Na área de política externa, Araújo afirma que as posições do Brasil favoreceram a transferência de poder dos Estados Unidos para a China, auxiliaram o Irã e ajudaram a criar uma nova cortina de ferro socialista na América Latina.

Divina providência na eleição de Bolsonaro

Na publicação, que recebeu o nome de “Carta de Brasília: Agora nós Debatemos”, Araújo começa o texto criticando um comentarista que afirmou estar preocupado pelo presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), falar muito sobre Deus no seu discurso de vitória.

Então agora falar sobre Deus supostamente deve preocupar as pessoas. Isso é triste“, escreve.

Apesar de iniciar com a fala do comentarista, o futuro ministro afirma que o governo Bolsonaro não se importa com o que os especialistas pensam.

Eles não têm ideia sobre o que é Deus e sobre o que os brasileiros são e querem ser“, continua.

Para ele, a crítica representa um discurso de medo, uma vez que “eles não controlam mais os limites da fala do presidente e da sociedade“.

Nós podemos falar sobre Deus agora em público. Quem imaginaria?“, afirma.

Em seguida, Araújo afirma que o Brasil virou uma fossa de corrupção e diz que a fé do presidente eleito foi um instrumento para sua vitória e para a a “onda de mudança que está lavando o país“.

O Brasil está experimentando uma mudança politica e espiritual, e o aspecto espiritual é uma das variáveis determinantes dessa transformação“, diz.

No texto, o futuro comandante do Itamaraty faz uma análise da política brasileira nos últimos 30 anos. Para Araújo, a ditadura militar foi um regime estabelecido, e não apenas militar. De acordo com ele, após o fim do período, o MDB “assumiu as rédeas” do governo e se tornou uma frente ampla para a antiga oligarquia, com uma roupagem moderna, urbana e orientada socialmente.

No período comandado pelo PSDB, de 1995 a 2002, Araújo afirma que o partido escondia parte de sua agenda liberal tanto na economia quanto na cultura. Ele também diz que os tucanos “sempre mantiveram ligações com membros da tradicional burocracia política representado pelo MDB“.

Para Araújo, o PT, que comandou o país de 2003 a 2016, é formado por “marxistas intelectuais, guerrilheiros de esquerda e representantes da burocracia sindicalista“. De acordo com ele, logo após assumir o poder, o Partido dos Trabalhadores se uniu com o MDB e o PSDB.

O MDB tornou-se o partido júnior na coalizão do PT, enquanto o PSDB assumiu o papel de oposição domesticada, participando de eleições presidenciais de 4 em 4 anos, nas quais seu papel era perder nobremente para o PT“, escreve.

Araújo afirma ainda que o PT adquiriu controle de todos os níveis da burocracia publica e criou um mecanismo de crime e corrupção.

O modelo era tão bem-sucedido que o PT começou a exportar o modelo para outros países da América Latina, tentando criar e consolidar uma rede de corrupção com regimes de esquerda da região“, diz.

Além de comandar o Estado, o diplomata afirma que o Partido dos Trabalhadores promoveu uma agenda de esquerda cultural, que fomentava a “ideologia de gênero, a criação de tensões raciais, o afastamento dos familiares e a aproximação do Estado na formação das crianças, a infiltração da mídia, o deslocamento do debate público para assuntos de esquerda, a humilhação de cristãos, o fortalecimento da doutrina marxista na igreja Católica e a má-orientação das artes, por meio de recursos públicos“.

Na área de política externa, Araújo afirma que o Brasil apoiou a transferência de poder dos Estados Unidos para a China, favoreceu o Irã e ajudou a criar uma cortina de ferro socialista na América Latina, pelo favorecimento de partidos de esquerda em diversos países da região.

Na última página do texto, o futuro ministro explica que o filósofo Olavo de Carvalho, a Operação Lava Jato e o presidente eleito Jair Bolsonaro foram os responsáveis por quebrar o sistema marxista cultural, “conquistado por meio da corrupção, da intimidação e do forte controle”.

Para Araújo, Carvalho teve um papel importante ao perceber os “propósitos horríveis do globalismo” e o caráter comunista do PT.

Ele foi a única pessoa no Brasil a usar a palavra ‘comunismo’ para descrever a estratégia do PT e tudo que estava acontecendo no país“, escreve. “As ideias de Olavo de repente começaram a percorrer todo o país, atingindo milhares de pessoas que haviam sido alimentadas apenas com mantras oficiais“, acrescenta.

Segundo o texto, o pensamento do filosofo também auxiliou na criação de um suporte total e sem precedentes ao “único e verdadeiro político nacionalista brasileiro no último século, Jair Bolsonaro“. Aliado a isso, havia a Lava Jato, que “pôs luz nas profundezas dos planos do PT em destruir o país“.

Araújo afirma ainda que “tudo conspirou contra o nascimento da nação“, mas Deus auxiliou na transformação do país. “Foi a divina providência que guiou o Brasil por todos esses passos, reunindo as ideias de Olavo de Carvalho co a determinação e o patriotismo de Jair Bolsonaro? Eu acredito que sim“, afirma.

O título do texto é em referência à fala do porta-voz do ex-primeiro-ministro do Reino Unido Tony Blair, Alastair Campbell. Na ocasião, questionado sobre a religião de Blair, Campbell interrompeu a pergunta e afirmou: “Nós não debatemos Deus“.

No fim da publicação, Araujo diz “Bom, no Brasil, nós debatemos“.

No Poder360
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O combate à corrupção da Lava Jato acabou com a democracia no Brasil, afirma jurista

Após 39 anos de profissão, Afrânio Jardim larga carreira depois da decisão de Dias Toffoli

O jurista Afrânio Jardim anuncia abandono do Direito após decisão de Dias Tofolli
Leandro Taques
Na última semana, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Tofolli, derrubou a liminar expedida pelo outro ministro da Corte Marco Aurélio Mello. A medida de Tofolli evitou que presos condenados em segunda instância, inclusive o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pudessem responder em liberdade até o fim de todos os recursos judiciais.

Por conta disso, no dia seguinte à decisão de Tofolli, o jurista Afrânio Silva Jardim, considerado um dos maiores processualistas do Brasil, anunciou que estava se retirando da atividade jurídica. "A minha decepção e desgosto é muito grande. Como lecionar direito com um Supremo Tribunal Federal como este??? Estou me retirando deste 'mundo' falso e hipócrita", afirmou em sua conta no Facebook.

Afrânio atuou por quase 39 anos lecionando direito processual penal e 31 anos no Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro. O professor associado à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) conversou com o Brasil de Fato uma semana após sua decisão. Na entrevista, o jurista demonstra sua total decepção e descrença em relação ao Poder Judiciário brasileiro e afirma que o método utilizado pela Operação Lava Jato para o combate à corrupção acabou com o Estado Democrático de Direito. "O Poder Judiciário hoje tem lado. Ideologicamente ele assumiu um lado", acredita.

Confira a íntegra da entrevista:

Brasil de Fato - Em que momento você decidiu sair do Direito?

Afrânio Silva Jardim - Eu estava planejando me aposentar, até porque estou com 68 anos, no final de 2020. Mas, eu resolvi antecipar para agora. A gota d’água foi as decisões do Supremo Tribunal Federal (STF). No meu entendidmento, o STF está julgando muito mal. Está se deixando levar por um ativismo absurdo judicial, com uma visão punitivista incompatível com o que se esperava dos ministros [da Suprema Corte].

Estou decepcionado, desencantado com a importação de aspectos do Direito norte-americano para o Direito brasileiro. Deram ao acordo de delação premiada uma amplitude que não era a prevista em lei. Permitindo que o negociado predomine sobre o legislado, no processo penal também. E isso a Lava Jato fez de forma absurda, com regime de penas não previstas na Lei de Execução Penal. Virou um processo penal negociado, violando nosso sistema tradicional. Virou um monstro. E a palavra-chave em um Estado Democrático é: controle. Controle interno e controle externo. Essas coisas criam um certo desencanto.

Isso é uma subversão do nosso sistema, uma coisa impensável. Perdeu-se o limite da coisa. E eu também verifiquei que talvez dois terços do Ministério Público (MP) e dois terços da magistratura são punitivistas à direita, e isso é decepcionante também. Eu vou ficar em outras trincheiras, sempre participando. Mas aula, corrigir prova e ficar falando em sala de aula coisas que na prática não acontecem …. É até enganar o aluno. 

Em um artigo seu, em fevereiro deste ano, você afirma que o MP, a Polícia Federal (PF) e o Poder Judiciário se uniram para combater a corrupção. Quais as consequências disso?

Exagerando um pouco eu poderia dizer que a consequência é acabar com o Estado Democrático de Direito. Porque o Poder Judiciário não foi feito para combater nada. Ele foi feito para, distanciado do fato, preservar a sua imparcialidade e julgar de acordo com o Direito. Resolver os conflitos de forma imparcial, distante. Agora, quando o Poder Judiciário se irmana com a Polícia e com o MP você não tem a quem recorrer. O Poder Judiciário hoje tem lado. Ideologicamente ele assumiu um lado. É o caso do presidente Lula. Ele recorre a quem? O caminho está minado. 

Você diria que não tem saída jurídica para o caso do ex-presidente Lula?

Tem que haver. O Lula só vai sair com alvará judicial. Ninguém pensa em tomar de assalto a PF, resgatar o presidente Lula, isso não tem sentido. Mas é uma situação inusitada o que está acontecendo ali. Eu acho que o [presidente do STF, Dias] Toffoli não tinha competência para fazer isso. Ele não é um revisor das decisões monocráticas dos ministros do Supremo. Ele extrapolou e as pessoas sabem disso.  

Estamos politicamente segurando o Lula preso por pressão não sei se da mídia tradicional, da classe empresarial, das Forças Armadas ou de todos juntos. O fato é que a situação é absurda. O Direito já não me interessa mais. Tem que haver o Direito, já que uma sociedade sem normas não existe, mas não me interessa mais reproduzi-lo, ensiná-lo, porque a gente acaba legitimando a ordem absolutamente injusta que está aí.

Você diria que o que vivemos hoje é um cenário que vem sendo projetado desde o chamado Caso do Mensalão?

Eu acho que muito começou com aquelas passeatas de 2013. Com a Lava Jato fechando com a Rede Globo e aquela campanha sistemática contra a corrupção, como se descobrissem isso de um dia para o outro, como se isso não fosse uma coisa histórica, endêmica e muito própria das sociedades capitalistas, da ganância, do lucro. Porque os corruptores e empresários estão todos em casa, nas suas mansões, com tornozeleiras, essa é que a verdade.

A Lava Jato poderia combater a corrupção, dentro da lei, sem estardalhaço. Mas o esquema que o [ex-juiz da Lava Jato Sérgio] Moro fez com a TV Globo e com a mídia empresarial, no geral, foi um espetáculo. Isso criou nas passeatas um antagonismo à corrupção, como se a corrupção fosse uma coisa da esquerda. Existia também, mas é uma coisa disseminada, está em todos os partidos. Começa com patrocínio de campanha pelas empresas. Aí começou tudo, em termos de corrupção. A população ficou raivosa, manipulada pela visão punitivista.

A previsão para 2019 é que se agrave o autoritarismo?

Não tenho dúvidas. Seja no plano normativo, na legislação, seja na aplicação com juízes e promotores vinculados à direita, que é aquela visão punitivista, simplista. Eu sempre digo que se o endurecimento da lei penal resolvesse o problema da violência seria fácil. É uma visão ingênua. Ingênua ou de má-fé, não sei.

Como você avalia que este tipo de questionamento, em relação ao autoritarismo judiciário, pode ajudar a mudar as práticas jurídicas brasileiras?

O homem do povo não tem conhecimento em relação a este tipo de denúncia e as vezes até repele isso. A grande mídia fez um trabalho muito competente. Se você fizer hoje uma pesquisa as pessoas são à favor do sistema normativo, são à favor da pena de morte e até de linchamento. A direita ressuscitou o comunismo. Quem mais fala de comunismo hoje é a direita. A verdade é essa. O povo brasileiro não tem instrução.

Você anda na rua, pergunta às pessoas e elas não sabem de nada do que está acontecendo. Presa fácil para essa mídia empresarial. Por isso votaram nele [Jair Bolsonaro], o capitão truculento. A gente tem mania de pensar que todo mundo pensa como a gente, tem as mesmas informações, tem os mesmos interesses em política, na questão social. As pessoas não estão nem aí. As pessoas no Brasil são ignorantes no sentido puro da palavra, ignoram as coisas.

Você disse que vai procurar novas trincheiras. Já tem alguma ideia de quais?

Eu tenho uma ideia de me aproximar mais dos movimentos sociais. Teoricamente, através de textos, eu posso abordar menos a teoria do Direito e mais as questões sociais, mas especificamente o simpático MST [Movimento dos Trabalhadores Sem Terra].

Lia Bianchini
No Brasil de Fato
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O tiro no pé de Queiroz: revenda de carros é perfeita para manipular valores faturados


A entrevista concedida pelo ex-assessor de Flávio Bolsonaro à emissora oficial do laranjal bolsonariano, revelou verdades inquestionáveis.

Nenhuma delas, porém, advindas do que falou explicitamente o ex-PM, ex-assessor e atual “máquina de fazer dinheiro”, Fabrício Queiroz.

Muito pelo contrário, por sinal.

A cada explicação esfarrapada que dava, vinha à tona exatamente o que queria esconder. Sem contar, é claro, com as vezes em que as pernas curtas de suas mentiras não alcançavam sequer uma resposta medíocre para contar como a da simples pergunta de em qual hospital ele havia se internado.

O gaguejar e o desfecho final do “depois eu revelo”, seria um ótimo enredo pastelão se não fosse todo o país a estar sendo feito de palhaço.

Enfim, o fato é que após driblar a justiça do Rio de Janeiro por duas vezes seguidas, o corado e bem-disposto Queiroz apareceu sorridente para dizer que a sua movimentação financeira milionária é proveniente da compra e revenda de carros usados.

É seguramente a pior desculpa que ele poderia dar, mas, justiça seja feita, dada as circunstâncias, é a única que lhe convém.

Quem faz parte do setor bancário e já fez vários cursos de Combate e Prevenção à Lavagem de Dinheiro, sabe perfeitamente que compra e revenda de carros (ao lado da pecuária) são atividades com alta incidência de ilícitos justamente em função da facilidade de manipular os valores faturados.

No caso da pecuária, fiquemos com o exemplo de um grande fazendeiro que dispõe de milhares de cabeças de gado. Em todo esse universo é fácil manipular – e difícil investigar – quantas cabeças nasceram, quantas morreram, quantas foram abatidas para o corte e abastecimento de frigoríficos e quantas foram transacionadas vivas.

É um mercado perfeito para sonegar imposto e lavar dinheiro. Mas, convenhamos, o nosso querido Queiroz não dispõe sequer de uma gleba de terra com um par de novilhos a mostrar para as autoridades.

Daí chega-se ao comércio de veículos usados. Ainda que o cidadão não tenha uma mísera concessionária onde possa expor e divulgar a sua, digamos, frota de veículos, nada o impede de dizer que o fazia individualmente, com todo o talento que Deus lhe deu para o negócio.

Como nesse ramo específico a coisa toda é feita clandestinamente, os “registros” dos negócios realizados são tão confiáveis quanto sua versão para o cheque depositado na conta da futura primeira-dama, ou seja, absolutamente nada.

A pessoa que compra um carro usado para revender, não o coloca em seu nome para depois repassar ao seu cliente. A transferência da propriedade do veículo é feita do dono original (que ao vender o carro já deixou o DUT assinado) diretamente para o comprador final, nada ficando, portanto, em nome do intermediário.

Nada oficializado, Queiroz pode dizer que vendeu quantos carros quiser na proporção direta que encontre outros laranjas a confirmar sua história.

É claro que nesse caso em particular, tudo foi feito de forma tão descarada que mesmo com todas essas facilidades de burlar a investigação, será muito difícil explicar as “coincidências” de transações tão voláteis justamente com as datas de pagamento dos servidores da ALERJ.

Numa investigação minimamente séria, a culpa do senhor Fabrício Queiroz e de membros da família Bolsonaro já estaria fortemente documentada. Mas, como sabemos, convicções de determinado lado do espectro político pesam mais do que qualquer batom na cueca.

Só resta agora saber se Polícia Federal, Ministério Público Federal e Justiça Federal se juntaram a Jair Bolsonaro na sua curiosa missão de lavar essa cueca no tanque de roupa suja na Ilha de Marambaia.

Carlos Fernandes
No DCM
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Ignácio Ramonet: A opinião pública não quer verdades, quer confirmar crenças

"Na física quântica é possível estar em dois lugares ao mesmo tempo. Hoje estamos diante de informações quânticas. (...) A verdade não é relevante, não é mais pertinente, e por isso se colocou esse conceito de pós-verdade ou verdade alternativa: você tem a sua, eu tenho a minha", diz o jornalista frânces Ignácio Ramonet


Em novembro de 2018, La Casa Encendida, um centro cultural de Madri, divulgou no Youtube o vídeo de uma mesa de debate com o jornalista francês Ignácio Ramonet, autor de "A Explosão do Jornalismo" na era da internet. 

No início dessa década, Ramonet viajava o mundo propagando ideias sobre como as novas tecnologias da informação e comunicação (TICs) catapultaram a ascensão dos "meios-polvo" sobre os "meios-sol". Qualquer cidadão com um dispositivo conectado à internet agora opera como um propagador de mensagens ou produtor de conteúdo, dinamitando o monopólio da imprensa tradicional.

Por um lado, esses avanços tecnológicos representaram a democratização dos meios de informação mas, de outro, já perto do final da década, ficou claro que esses mesmos avanços nos levaram diretamente a uma segunda explosão do jornalismo: no mérito, uma desvalorização ou desqualificação do conteúdo feito por profissionais, somada à uma crise de confiança que desbaratou emissoras de TV e rádio, jornais impressos e digitais, blogs e afins.

Manipulado ou espontâneo, certo é que esse desinteresse de parte da sociedade acerca da verdade factual lapidada pelo jornalismo profissional virou terreno fértil para as fake news.

No vídeo abaixo, Ramonet comenta suas perspectivas sobre a era da pós-verdade, notícias falsas e uso das redes sociais por populistas de direita na América Latina, Estados Unidos e Europa.

A partir de 1 hora e 6 minutos de vídeo, ele trata da eleição de Jair Bolsonaro neste contexto de sociedade organizada em rede, com cidadãos fortemenete inclinados a formular uma verdade própria.

O GGN destacou alguns trechos desse momento do debate:


* * *

"Para entender a comunicação no século XXI é preciso entender que naturalmente a opinião pública não busca a verdade. O que a opinião pública busca são informações que confirmem suas crenças prévias.

O que acaba de passar no Brasil de Bolsonaro?

Há uma investigação sobre Bolsonaro ter utilizado oficianas de ciberguerra para infiltrar no WhatsApp mensagens falsas.

No Brasil, as empresas ajudaram Bolsonaro financiando a difusão de mentiras.

Em particular:

- Que o Haddad havia distribuído um kit gay aos meninos de 6 anos nas escolas.

- Que o homem que apunhalou Bolsonaro era militante do PT e amigo de Lula. E havia uma foto de um meeting de Lula com o esfaqueador, uma foto manipulada.

- Uma atriz com os olhos roxos, difundiram que ela foi agredida porque gritou em favor de Bolsonaro. Ela faleceu há 2 anos.

- Disseram que Haddad defendia o incesto e o comunismo.

- E difundiram que se Haddad ganhasse as eleições, ira aprovar uma lei para legalizar a pedofilia.

São exemplo de fake news que permitiram a Bolsonaro ganhar a eleição. 

A internet não impede que uma informação falsa possa se difundir. 

Todas as controversias se alimentam, todas as teses são válidas. Todas as afirmações são legítimas. É a teoria da relatividade em matéria de informação. Não há informação mais válida que outra, se eu a afirmo com mais força.

Na física quântica é possível estar em dois lugares ao mesmo tempo. Hoje estamos diante de informações quânticas. 

Foulcault dizia que a verdade tem uma história. Finalmente o mundo funciona com uma ideia de verdade não-científica, não-racional, que ele chamava de "verdade raio", porque se manifesta num momento, num lugar e numa pessoa. 

No século XVIII apareceu a "verdade céu". Um metro mede um metro seja aqui ou em qualquer lugar do planeta. 

A pergunta que faço hoje é se estamos abandonando a "verdade céu" para regressar à "verdade raio".

Estamos sendo enganados pela ideia de que podemos ter crenças que se podem introduzir no nosso pensamento.

Os psicólogos nos dizem que preferimos crer em realidades alternativas do que na realidade real porque nos dá mais prazer emocional.

Nos EUA, 61% já se informam através do WhatsApp.

Escrevemos o que pensamos que as pessoas querem ler, não a verdade.

A pós-verdade e os meios alternativos estão reposicionando o campo da informação, modificando a batalha eleitoral e contribuindo na influência da opinião pública. É um problema para a democracia, o emocional das verdades fictícias.

É perigoso porque a historia nos ensina que quando desaparece a verdade, também desaparece a liberdade."



"JÁ NÃO INFLUENCIAM OS MEIOS INFLUENTES?"

Estão aparecendo novas formas de governo. No mundo democrático, globalmente, tinhamos governos conservadores, progressistas ou de alianças entre os dois. De uns anos para cá, estamos vendo surgir organizações políticas que vencem as eleições e que não correspondem a nenhuma dessas famílias políticas que conhecemos.

Em vários países europeus, mais recentemente na Itália, temos visto a ascensão do governo populistas que fazem a Europa entrar numa nova etapa política, em que a questão das imigrações e das novas tecnologias são importantes.

Hoje o funcionamento da democracia está em crise. Estamos entrando em uma nova era da política em que as regras do jogo não estão funcionando. Há uma crise de confiança nas democracias.

Em vários países da América Latina, a maioria responde que entre um governo democrático sem emprego e um governo autoritário que promova empregos, eles preferem o segundo. É o que estamos vendo na Europa.

Uma parte da sociedade já não crê na democracia e na economia neoliberal. 

A crise de 2008 provocou uma crise de desconfiança traumática na economia de mercado tal como estava sendo dada.

As sociedades que pensavam ter deixado a pobreza para trás viram como os ricos continuaram bem durante a crise e isso ajudou a desencadear a crise da democracia.

Nem o neoliberalismo, nem o marxismo tradicional, nem a sociodemocracia têm conseguido responder às mudanças dessa sociedade que não se vê representada na classe política.

Ao mesmo tempo, estamos com dificuldade de encontrar uma agenda política com a qual nos identificamos diante da oferta.

O caso mais emblemático é o de Trump. Sua eleição constitutiu um verdadeiro traumatismo. 

Como alguém atacado por todos os meios hegemônicos pode ter sido eleito? A mesma pergunta pode ter sido feita sobre Bolsonaro.

Trump tinha a mídia e Wall Street contra ele. Todos os grandes intelectuais e todos os grandes pensadores e formadores de opinião estavam contra.

A mesma coisa com o Brexit: toda a vida inteligente estava contra o Brexit.

Fica a pergunta: já não influenciam os meios influentes?

As coisas mudaram com a internet. Não estamos no mundo midiático que conhecemos por muito tempo. 

Agora, todos somos meios. E todos podemos nos comparar com grandes canais de televisão. É uma revolução copernicana. Todos podemos produzir conteúdo. 

Os meios dominantes impuseram a moral e a agenda política. A imprensa era capaz de criar uma manipulação de massa sutil para conduzir a sociedade na direção desejada. Isso se rompe com a democratização dos meios de comunicação.

Trump, por exemplo, não foi a programas de televisão durante a campanha. E diz que a imprensa é inimigo do povo. Os EUA têm 4 grandes canais, sendo a Fox um deles, o único em que Trump vai.

Trump tem 55 milhões de seguidores no Twitter, o dobro de espectadores que assistem a um telejornal. E tem mais 24 milhões de seguidores no Facebook. Tem mais do que os meios tradicionais, que estão perdendo audiência.

O meio dominante hoje são as redes sociais. Está fragmentada, mas é o meio domintante. Não há nenhum canal de televisão hoje que tenha mais influência que os chamados digital influencers.

Não podemos mais pensar que a TV tem influência. Muita gente tem TV para ver Netflix ou canais privados. Hoje os indivíduos podem se comunicar por suas redes e alcançar mais gente do que os grandes canais de comunicação. É uma revolução comunicação de grande envergadura.

Os meios de massa deixaram de ser meios dominantes e devemos perguntar se continuam sendo meios de massa ou só meios hegemônicos, porque os meios sociais são os novos meios de massa. Eles é que estão fazendo mudança no plano político e eleitoral, inclusive.

"A VERDADE NÃO É MAIS NECESSÁRIA"

A vitória de Trump também demonstrou que a verdade não é mais necessária. Para ganhar a eleição, você não precisa se apoiar na verdade. A verdade não é relevante, não é mais pertinente, e por isso se colocou esse conceito de pós-verdade ou verdade alternativa: você tem a sua, eu tenho a minha.

As fake news, a construção de uma falsidade é algo que a gente pensava ser normal, já existia. Mas profissionalmente é algo novo. Foram uma parte do debate político, como se fossem algo normal.

Estamos impactados e traumatizados pelo universo da comunicação estar colonizado pelas falsas notícias.

Cíntia Alves
No GGN
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A morte da Falha de S.Paulo


A maioria de vocês já deve ter visto uma conta de Twitter chamada Falha de S. Paulo, que imita a Folha de S.Paulo. Ela não tem ligação alguma comigo ou com meu irmão, Mario Ito, que criamos, há praticamente uma década, a Falha original, fomos censurados e processados pela família Frias e estamos em em uma batalha na Justiça até hoje – no momento o caso encontra-se no STF.

As diferenças são muitas. A nossa Falha durou apenas um mês antes de ser censurada pela Folha. Era um blog de paródia e crítica. Seu conteúdo tinha muitas fotomontagens, como a de “Otavinho Vader”, que mesclava o corpo do vilão Darth Vader com o rosto do então Publisher do jornal, Otavio Frias Filho. Sua linha editorial era progressista e buscava derrubar o discurso falso do jornal, que se diz apartidário, imparcial (nenhum veículo no mundo é, isto é impossível).

A Falha atual, por sua vez, busca muitas vezes claramente confundir-se com o jornal, conseguindo assim ser retuitada por muita gente desavisada, entre elas personalidades. Desta forma começou a ganhar fama. Já foi retuitada, por engano, por nomes como Ciro Gomes ou Paulo Guedes. Mais recentemente, tem sido retuitada pessoalmente pelo presidente eleito Jair Bolsonaro, mas só que de propósito, em meio a sua cruzada contra o jornal.

Não posso afirmar ainda que a nova Falha é uma das contas de apoio mantidas ou orientadas pela equipe de Bolsonaro no Twitter, como são as contas “Isentões”, “Joaquim Teixeira” e tanta outras.

O que podemos dizer, com certeza, é que a nossa produção era impossível de ser confundida com o conteúdo original da Folha. Nunca fizemos nada com esse propósito, e o próprio STJ já decidiu nesse sentido, a nosso favor. Tanto que ninguém se confundia, era uma realidade totalmente diferentemente da Falha atual, que se esforça em fomentar a confusão e, desta forma, alcançou sua fama.

Outra diferença vital: a cruzada de Bolsonaro contra a imprensa não parece em nada com a crítica progressista que eu e meu irmão fazíamos ao jornal. Nem com nossas convicções pessoais. Bolsonaro e seus apoiadores atacam o jornalismo. São contra a existência da crítica e da própria imprensa. Bebem da fonte de Olavo de Carvalho, que prega que os jornalistas são “os maiores inimigos do povo”. Seus ministros abandonam entrevistas coletivas no meio e destratam repórteres. Sou jornalista, não posso compactuar com isso. Qualquer um que tenha visto a Falha original no ar sabe que ela jamais seria munição para gente que pensa desta forma.

Já derrotamos de goleada a sede por censura dos falsos democratas da família Frias no STJ. Inconformados, agora o clã e seus asseclas recorrem ao Supremo. Com o surgimento dessa nova Falha com, digamos, outro DNA e sendo apropriada pelo novo governo, mesmo que ganhemos o processo nesta última instância, não há a menor possibilidade de reativarmos a marca.

Acabam de matar a Falha de S. Paulo.

Lino Bocchini
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Caso Queiroz caminha para um rápido esquecimento

Não importa que sua desculpa tenha sido absolutamente inconvincente. Que mesmo na improbabilíssima hipótese de que a tal compra e venda de carros fosse verdade, faltaria explicar a ausência de documentação, a coincidência das datas, a natureza da clientela, a dispersão das agências bancárias, a conveniente doença e, sobretudo, o modo de vida incompatível com as quantias movimentadas.

Mas, mesmo risível, a história permite ao “mito” dizer que “tudo está explicado”. Seus seguidores, que ficam felizes ao acreditar em barbaridades muito piores, engolirão mais essa sem pestanejar. Seus aliados de ocasião têm interesses que falam bem mais alto do que a preocupação com a verdade ou a honestidade. Não vai haver CPI. O que resta da imprensa falará em “explicação discutível” e encerrará o caso. E o MP provavelmente terá bons incentivos para transformar o caso em moeda de troca.

Com o fim dos governos do PT, voltamos ao modelo dos tempo de Sarney e FHC, quando os escândalos são só marola, inconvenientes mas com pouca consequência. Temer já inaugurou esta restauração, que o capitão há de consolidar. Esta foi a grande conquista da “luta contra a corrupção”.

Luis Felipe Miguel
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A farsa continua: Queiroz não apareceu, apenas se pronunciou desde algum esconderijo e não deu nenhuma explicação “bastante plausível”


Queiroz continua sumido, para decepção nacional.

Ele apenas saiu momentaneamente de algum esconderijo onde está sendo guardado a 7 chaves para conceder uma entrevista arranjada, sob medida, para a emissora SBT que, tudo indica, habilita-se a forte candidata a voz oficial do regime nazi-bolsonarista [ver aqui].

É descabido, tecnicamente falando, chamar de entrevista a performance ensaiada do Queiroz no SBT com exclusividade, sem submeter-se ao escrutínio de toda a imprensa.

Mais grave do que a ofensa ao conjunto da imprensa, todavia, é que a atitude do Queiroz representaria 1 insulto à Lava Jato, ao MP, à PF e ao judiciário, de quem fugiu de depor em 2 ocasiões. Neste particular, aliás, Queiroz parece-se com seu chefe Jair, que na eleição fugiu dos debates com Haddad como ele, Queiroz, foge da justiça e da polícia.

Isso, entretanto, parece irrelevante para Deltan Dallagnol, Sérgio Moro e justiceiros da Lava Jato. Afinal, a Lava Jato, sempre valentona e arbitrária contra Lula e o PT, faz de tudo para safar Queiroz, os Bolsonaro e a extrema-direita [ler aqui e aqui].

No falatório no SBT, Queiroz apresentou-se como um sujeito descolado; 1 autêntico carioca malandro. Ele buscou aparentar tranquilidade, sendo logo desmentido pela auto-comiseração de dizer-se alguém com problemas de saúde, com a “calça caindo” devido a suposto emagrecimento súbito e, também, vitimizando-se como alguém que sofre de moléstias que vão de necessidade de cirurgia num ombro, problemas na urina, passando por tosse forte a câncer maligno no intestino. É incrível e sui generis o menu de morbidez que subitamente acometeu Queiroz, até semanas atrás animado em pescarias e churrascadas com os Bolsonaro.

Quanto à suposta “cirurgia invasiva” que o impediu de prestar depoimento ao MP pela segunda vez, nenhuma palavra. Atestado médico – pelo menos por enquanto – nem pensar. E tampouco ocorreu ao SBT perguntar-lhe a respeito.

O blá-blá-blá do Queiroz nem de longe corresponde ao que Flavio Bolsonaro considera ser uma explicação “bastante plausível”. Queiroz não renegou a amizade com a família. Muito ao contrário, considera-se o maior amigo do clã.

Ele se refere ao mandato de Flavio como “nosso gabinete”. Deixa subentendido que a exoneração em 15/10/2018 [e também a de sua filha “laranjinha” Nathalia do gabinete do Jair no mesmo dia] foi procedimento arranjado [e avisado] para livrar os Bolsonaro da investigação da operação da Lava Jato Onça da Furna no RJ.

Queiroz se empenhou em livrar a cara dos Bolsonaro e rechaçou o apelido de “laranja”, embora não tenha explicado o depósito, na sua conta bancária, em alguns casos, de até 99% do salário de funcionários dos gabinetes dos Bolsonaro.

No mais importante, que é o depósito de R$ 24 mil na conta de Michelle Bolsonaro, Queiroz entrou em flagrante contradição. O COAF apurou depósito de R$ 24 mil na conta da esposa de Jair. Queiroz, contudo, afirma ter efetuado 10 depósitos de R$ 4 mil a título de pagamento de suposto e não documentado empréstimo de R$ 40 mil.

Para explicar a movimentação financeira muito acima do seu salário em apensas 1 ano, Queiroz assim se define: “sou um cara de negócios, faço dinheiro”, e justifica seu espírito empreendedor fazendo trambique de carros.

Recibos, transações no DETRAN, comprovantes de compra e venda etc para sustentar estapafúrdia versão, entretanto, não foram apresentados. Detalhe: o primeiro amigo dos Bolsonaro trabalha com a família há quase 30 anos, o que supõe que sua atividade de “cara de negócios” e empreendedor arrojado que “faz dinheiro”, seja ainda mais extensa.

A farsa continua. Queiroz não apareceu; ele apenas se pronunciou desde algum esconderijo e não deu nenhuma explicação “bastante plausível”, como alega Flavio Bolsonaro.

A pergunta do samba “Onde está o Queiroz?” [ouvir aqui], de autoria de Zé Barbosa Júnior continua, portanto, sem resposta.

Afinal, Onde está o Queiroz?

Jeferson Miola
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Queiroz, cuja entrevista no SBT só piorou a situação, já foi processado por falso testemunho

Fabrício Queiroz, o ex-assessor de Flávio Bolsonaro pilhado no Coaf por uma movimentação suspeita de R$ 1,2 milhão, já foi processado por falso testemunho. Veja abaixo:


Na quarta-feira, dia 26, vinte dias após o caso ter sido revelado, o SBT o entrevistou.

Foi o massacre da serra elétrica em matéria de embromação e levantamento de bola.

Não se sabe onde e quando a conversa foi gravada, mas percebia-se a mão dos patrões de ambos, a jornalista e o interlocutor.

Queiroz alega que suas movimentações devem-se a negócios que sempre costumou fazer, principalmente a revenda de carros.

Conta que foi diagnosticado com um câncer e será submetido em breve a uma cirurgia.

Não sabe o sobrenome do médico ou do hospital.

Faltou duas vezes ao Ministério Público, mas pretende explicar ao Ministério Público suas transações.

É um deboche da Justiça. No momento mais patético, pede para “tirar a imprensa deles” (os Bolsonaros).

“Vem em cima de mim, eu sou o problema, não é eles”, requisita, magnânimo.

Então tá.

A ação por falso testemunho foi arquivada.

Kiko Nogueira
No DCM
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Onze perguntas a Queiroz


1. Se a “movimentação atípica” na conta de Fabricio Queiroz vem da venda de carros recuperados de companhias de seguros, por que ele demorou tanto tempo para dar explicação tão singela?

2. Ele pode mostrar a documentação dos carros que comprou e revendeu?

3. Se Jair Bolsonaro não tem tempo para ir ao banco, e daí Queiroz ter depositado na conta da futura primeira-dama, como explicar que o presidente eleito vira e mexe sai de casa exatamente para ir ao banco?

4. Se Queiroz está doente, porque não disse logo ao país sobre o mal que o acomete?

5. Se pôde falar ao SBT por que não o fez ao MP?

6. Se temeu por sua vida por que não pediu proteção às autoridades?

7. Se não fez nada de errado, por que deixou de falar com Flávio Bolsonaro?

8. Como dizer que não estava foragido se ninguém o encontrava?

9. Ele contou que o enteado suicidou-se com um revólver seu. Não é mesmo perigoso ter armas em casa?

10. Como um ex-policial experiente pôde ser tão descuidado?

11. Quem ele pensa que engana?

Bem, essa última pergunta é fácil responder…

Juca Kfouri
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A farsa do Queiroz e o jornalismo farsante do SBT

https://www.revistaforum.com.br/blogdorovai/2018/12/27/a-farsa-do-queiroz-e-o-jornalismo-farsante-do-sbt/

Se os 1,2 milhão que circularam na conta do Queiroz são de compra e venda de carros, por que eram depositados por assessores da ALERJ e retirados do banco sempre em quantias menores do que 5 mil reais?

Foto: Lourival Ribeiro
Entre os jornalistas, o SBT já vem sendo chamado de Sistema Bolsonaro de Televisão, tamanha a desfaçatez com a qual a emissora de Silvio Santos aderiu ao novo governo. Entre outras bizarrices, resgatou o programa Semana com o Presidente e o slogan Brasil, Ame-o ou Deixe-o. Ambos, produtos da ditadura militar.

Mas não foi só isso que o SBT fez para se tornar mais amigo do novo rei do que outros grupos de comunicação. Também foi se livrando de jornalistas mais sérios e contratando aqueles que fazem qualquer coisa para “subir na vida”.

A entrevista de ontem com Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro, foi o encontro desses projetos. O dos interesses do dono do veículo, do governo que vai assumir e de uma profissional que tem feito qualquer coisa para aparecer, mesmo que seja jogar todos os fundamentos básicos do jornalismo no lixo.

Tão bizarras quanto as respostas de Queiroz, foram as perguntas e as não-perguntas da repórter Débora Bergamasco.

A quem interessar possa, a moça foi a autora da capa contra Dilma Rousseff na Isto É em que Dilma é apresentada como tendo surtos de descontrole e quebrando móveis no Planalto. Uma capa absurdamente machista e mais do que isso, feita só com base no “ouvi dizer”.

Bergamasco também foi a autora da capa da delação de Delcídio, que escondia tudo o que havia contra Aécio Neves no depoimento. E que, segundo colegas de redação da IstoÉ com os quais o blogue conversou à época, foi obtido via Aécio, que, inclusive, estava com a revista em mãos numa reunião com líderes do Congresso antes mesmo que ela houvesse chegado às bancas.

Não é incomum este tipo de trajetória de jornalistas que fazem qualquer coisa para ascender profissionalmente. Bergamasco é só mais uma entre tantos.

Ontem a entrevista já começa num jogo de cena sobre a doença do entrevistado. Ele fala que está defecando sangue e a jornalista pede permissão a ele para voltar ao assunto mais tarde. Ah, tá certo, quer dizer que alguém que está fugindo de depoimentos e é acusado de participar de um esquema de corrupção envolvendo o futuro presidente da República te insinua estar com câncer, você pede autorização para tratar do assunto com ele depois? É mais fácil acreditar nas respostas do Queiroz.
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A entrevista de Queiroz - assista


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É bom não esquecer... (ainda dá tempo)




O dia em que Collor confiscou sua poupança

16 de março de 1990. Um dia após a posse de Fernando Collor de Mello como primeiro presidente da República eleito pelo voto direto em mais de 25 anos, os brasileiros tiveram uma desagradável notícia. O governo resolveu botar a mão no dinheiro de poupadores com a justificativa de combate à inflação. Coube à economista Zélia Cardoso de Mello, primeira e única mulher a comandar o Ministério da Fazenda, anunciar o Plano Brasil Novo, que passou a história simplesmente como Plano Collor. Além de uma reforma administrativa ampla, da abertura da economia, de congelamento de preços e salários, a parte mais explosiva do plano consistia no bloqueio, por 18 meses, dos saldos superiores a NCz$ 50 mil nas contas correntes, de poupança e demais investimentos. Além do confisco, a ministra anunciou ainda o corte de três zeros no valor da moeda e a substituição do cruzado novo pelo cruzeiro.

Com a medida, calcula-se que foram congelados cerca de US$ 100 bilhões, equivalente a 30% do PIB. A inflação, que no último mês anterior ao anúncio fora de 81%, caiu para a média de 5% nos meses seguintes. Mas o tiro único desferido na inflação - como prometera o presidente eleito durante a campanha eleitoral - falhou e os preços voltaram a subir logo depois.

Economista formada na USP com passagens pela inicativa privada e pelo setor público, Zélia Cardoso de Mello era praticamente desconhecida do grande público. Mas por sua curta passagem pelo governo, foi considerada a mulher que mais poder teve na história republicana do país. Para montar o plano e o confisco, ela convocou uma equipe de economistas, com Antonio Kandir e Ibrahim Eris à frente.

O próprio Fernando Collor conta em seu livro de memórias que convenceu-se da necessidade de promover o confisco depois de uma reunião com um pequeno grupo de economistas. Faziam parte do grupo o professor Mário Henrique Simonsen, que já fora ministro da Fazenda e do Planejamento, e dois de seus mais brilhantes alunos: André Lara Rezende, uma das cabeças responsáveis pela elaboração do Plano Real, anos mais tarde; e o banqueiro Daniel Dantas, que ficaria mais conhecido não propriamente por seu conhecimento das ciências econômicas. Dantas, segundo Collor, foi radicalmente contra a medida.

O confisco criou um dilema para os seus ciadores: ou mantinha-se o arrocho monetário e corria-se o risco de uma forte recessão; ou afrouxava-se o aperto e corria-se o risco da volta da inflação. Aconteceram as duas coisas: no fim de 1990, a economia havia encolhido 4%. Em setemro do mesmo ano, a inflação já voltara a 20% e continuava em alta. O fracasso do plano foi reconhecido pelo sucessor de Zélia Cardoso. Marcílio Marques Moreira, que assumiu o Ministério da Fazenda em 1991 e ficou até o impeachment de Collor, considerou “exageradas” algumas medidas do plano. Tão exageradas que viraram casos de Justiça.

À época centenas de milhares de liminares foram concedidas pela Justiça para a liberação antecipada do bloqueio. Ainda hoje, tramitam na Justiça Estadual e Federal, 550 mil ações individuais e coletivas contra os planos Bresser e Verão, ambos editados durante o governo do presidente José Sarney, e os planos Collor I e II, do governo de Fernando Collor

O Supremo Tribunal Federal vai se manifestar sobre a constitucionalidade dos planos Bresser (87), Verão (89), Collor I (90) e Collor II (91) na ação movida pela Confederação Nacional do Sistema Financeiro (Consif). Os bancos defendem, no STF, que o estado tem o direito de definir a política monetária para zelar pela moeda nacional e combater a inflação. Eles argumentam que apenas implementaram os planos por determinações do Executivo.

Os bancos se defendem contra a pretensão dos correntistas e poupadores a respeito dos índices de correção da poupança aplicados por ocasião da decretação dos planos econômicos. Se os correntistas levarem a melhor, os bancos podem perder até R$ 100 bilhões, de acordo com dados da Febraban (Federação Brasileira de Banco). Se os bancos levarem a pior, a Consif já afirmou que a única alternativa será acionar o estado para tentar conseguir o ressarcimento da quantia.

Apesar do abalo provocado na economia do país e nas contas pessoais dos cidadãos, há quem considere o plano mirabolante de Zélia Cardoso como uma medida precursora que lançou as bases econômicas para o Plano Real, que cinco anos depois haveria de estabilizar de forma duradoura a economia brasileira.

Débora Pinho
No ConJur
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Queiroz gagueja, fala, mas a história segue mal-contada


A entrevista “dócil” de Fabrício Queiroz a Debora Bergamasco,  arranjada pelo SBT não convenceu ninguém.

Não posso, claro, colocar em dúvida que tenha problemas de saúde, mas não saber dizer o nome do hospital onde esteve internado é demais.

Assim como não dizer nada sobre os motivos da movimentação financeira.

A história da “compra e venda” de automóveis é descrita como algo de seu passado de “fazedor de dinheiro”, mas não é a isso que ele atribui os movimentos de dinheiro vivo em sua conta, diretamente.

E ainda que fossem, não explicaria o movimento “picado” de dinheiro, não ultrapassando os R$ 5 mil que soam o alarme do COAF.

A não ser muito “caidinho”, carro por menos de R$ 5 mil é negócio de ferro velho.

Aliás, não é crível que quem compra e vende tantos automóveis não fosse conhecido de todos por esta atividade.

Não se movimenta R$ 1,23 milhão de reais em um ano sem saber apontar, ao menos, uma operação de peso – a venda de um apartamento, por exemplo.

Ou se é compelido a “ir viver numa comunidade” com renda de “R$ 23, 24 mil” por mês, mesmo pagando pensão alimentícia.

Fabrício alegou que não dizia o que eram os depósitos “em respeito” ao Ministério Público e sinalizou que seu depoimento será em meados ou final de janeiro, depois dos das filhas e da mulher, no dia 8.

Não se sabe o que faz o Ministério Público que não pede ao menos a abertura de um inquérito e a quebra do sigilo bancário de Fabrício, nem que seja para impedir a montagem de “histórias plausíveis”.

Porque na entrevista ele não apresentou uma que fosse digna de credibilidade, embora, repito, não se possa fazer juízo de seu estado de saúde.

Tenho a impressão que o tiro saiu pela culatra e vai deixar inúmeras pontas soltas para qualquer repórter competente.

Se a imprensa quiser, claro.

Assista a entrevista de quase 23 minutos em que nada de concreto é provado, sempre com documentos “que vou lhe dar depois”, mas que não são mostrados em momento algum.

Fernando Brito
No Tijolaço
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A Folha de Bolsonaro

Jair Bolsonaro não se conforma em ver na Folha textos que não lhe convêm. Tamanha é a sua consideração pelo jornal que reage com insultos, trata mal gente da casa, adverte que prejudicará a empresa, quando dos seus desagrados. Vê-se que é uma distinção exclusiva, e dessas que não se tem como agradecer nem corresponder. Mas é ainda mais rica a sua reação à importante e bem realizada reportagem de Thais Bilenky, baseada na observação de que, "pela primeira vez na história da República", um presidente se empossará "sem nenhum representante" do Nordeste e do Norte "no primeiro escalão" do novo governo.

Primeiro, o Bolsonaro convencional: "A Folha de S.Paulo continua a fazer um jornalismo sujo e baixo nível". E assim segue, esperando convencer de que fez "escolhas técnicas". O que, mesmo se verdadeiro, não impediria a escolha de técnicos capazes e representativos das regiões que compõem cerca de metade do país.

Desta vez apareceu o segundo Bolsonaro, já sacando uma pretensa resposta técnica do seu governo: "Ainda em janeiro" o governo vai "construir instalação piloto para retirar água salobra do poço, dessalinizar, armazenar e distribuir" no Nordeste. Tudo a jato, porque será no mesmo janeiro a ida do ministro da Ciência e Tecnologia a Israel, ainda para procurar parcerias e a tecnologia necessária.

Está claro que Bolsonaro ignora o indispensável sobre a sua solução técnica. O interesse pela dessalinização vem de longe também no Brasil. A tecnologia não é problema. Suas modalidades são conhecidas aqui, já foram testadas, técnicos para aplicá-las não faltariam. Caso alguma dessas modalidades se mostrasse suportável financeiramente. Nem são as instalações, que custam uma só vez. O custo operacional é muito alto e permanente, em descompasso com as condições socioeconômicas da região.

Outras soluções para as dificuldades prementes dos nordestinos são consideradas preferíveis. Prova disso, e sem excluir a continuidade dos estudos de dessalinização, é o feito da ministra Thereza Campello no governo Dilma, já citado aqui mais de uma vez: em torno de um milhão — sim, um milhão — de cisternas familiares instaladas, eficiência rara em qualquer setor brasileiro em qualquer tempo. E, de pasmar, sem nem sequer um arremedo de escândalo.

Israel vale-se da dessalinização, sim. Mas conta com um suporte financeiro sem igual no mundo. Tem a contribuição segura, regular e fartamente generosa de judeus em numerosos países, além da colaboração múltipla dos Estados Unidos, por sua aliança. O Brasil, sem enganações convenientes aos da riqueza especulativa e não produtiva, está destroçado, desacreditado e sem dinheiro até para alimentar os sinais de vida.

Bolsonaro diz, por escrito, que os repórteres da Folha "vão quebrar a cara!" Se ele não quebrar a sua e o Brasil, com seus propósitos desatinados, não faz mal.

Janio de Freitas
No fAlha
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