24 de dez de 2018

Espírito de Natal

– Alô?

– Oi.

– Quem é?

– Eu.

– Ahn...

– Não desliga. Estou telefonando para pedir paz,

– Olha, cara...

–Deixa eu falar. É ridículo a gente continuar com essa briga.

– Você me chamou de paspalhão. Uma palavra que nem se usa mais.

– Pois é. Ridículo. Peço desculpa. Retiro o paspalhão.

– Disse que eu tinha a percepção política de um tomate.

– Eu disse isso? Não é o que eu penso. No calor da discussão, a gente não se controla. Eu falei mesmo ‘tomate’?

– Berinjela, sei lá.

– Veja só. Uma amizade de tantos anos acabar por nada. Por uma bobagem.

– Eu não achei bobagem. Você não respeitou minha posição.

– É que durante todos os anos da nossa amizade eu nunca soube qual era a sua posição. Nós nunca falamos de política. Me surpreendi, é isso.

– Agora você sabe.

– Foi como se, depois de tantos anos, eu descobrisse que você é gay.

– Qual é o problema de ser gay? Eu não sou, mas qual é o problema?

– Nada contra!

– Mas você me insultou, me, me, me...

– Cara, me arrependi. Quero fazer as pazes!

– Ahn...

– Não esquece que nós tínhamos bebido, naquela noite. Ninguém sabe o que diz, bêbado. Eu jamais chamaria alguém de paspalhão, sóbrio. Mas uma amizade que não resiste a um simples porre não é amizade. São, o quê? Vinte anos de amizade. Isso deve estar acima de qualquer posição, de qualquer bebedeira, de qualquer desentendimento passageiro.

– Sei não...

– Hoje mesmo a Janice me perguntou se eu sabia o que vocês iriam fazer no Natal, para a gente fazer juntos. Tive que contar da nossa briga. Ela também achou um absurdo.

– O que vocês vão fazer no Natal?

– O de sempre, com a mesma turma de sempre. Peru, o famoso sarrabulho da Janice, muita birita... Podemos contar com vocês?

– Está bem.

– Vamos acabar com essa bobagem?

– Vamos.

– Só uma coisa, cara.

– O quê?

– Não diz pra ninguém que você votou no Bolsonaro.

Luís Fernando Veríssimo
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Assombros

É fácil fazer pouco de quem confia no sobrenatural para curar seus males ou consertar sua vida. Você vê um desses programas neopentecostais na TV, que em muitos casos beiram o curandeirismo, proibido pelo Código Penal, e se assombra com o tamanho da multidão embalada pela voz e pelo poder de pastores milagreiros. Você se pergunta como alguém pode acreditar em coisas como cirurgias espirituais e outras práticas pseudomédicas e lamenta mais uma vez, com um sentimento de superioridade civilizada, a infindável ignorância da raça humana.

Mas o assombroso não é a quantidade de crentes muitas vezes sendo iludidos dentro das suas igrejas, é o enorme vazio lá fora, que os impele a procurar na igreja o que não têm na vida, e ouvir que, apesar das suas misérias, Jesus os ama. O tamanho da crendice e do público das neopentecostais é o tamanho das privações de um povo maltratado, e não é a igreja que os maltrata. Antes os consola.

Há muito se discute se a cura de uma doença psicossomatizada vale como cura, já que na realidade a doença não existe, só os seus sintomas. Se os sintomas desaparecem como resultado de um tratamento convencional ou da ação de um curandeiro não interessaria, o fato é que desaparecem. Há casos até de gravidez psicossomática, em que a mulher tem todos os sinais de estar grávida, até a barriga, e não está. Misteriosos são os poderes da mente. Também é fácil menosprezar quem procura um João de Deus como último recurso para salvar uma vida, até que você comece a pensar no desespero por trás do apelo.

Os católicos não podem falar mal dos protestantes, a força e a história da igreja romana são baseadas no sobrenatural e em santos milagrosos. É assombroso, também, o tamanho de um império mundial como o da igreja católica centrado numa única hipótese, a existência de Deus. Quem sabe? Talvez Ele exista, talvez seja uma espécie de somatização.

Curiosidade: será que o Paulo Guedes vai pedir que igrejas paguem imposto?

Luís Fernando Veríssimo
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Um Natal sem Queiroz, o homem com licença para sumir


Esse será um Natal feliz para a família Bolsonaro. Prestes – não diga “pronto” – a assumir o Brasil, vão poder estourar champanhe, comer castanhas e se lambuzar de rabanada sem que a polícia e a mídia brasileira tenham tido a capacidade de achar um elefante no palheiro. Claro, terão que arrumar um substituto para Fabrício Queiroz na direção do Rolls-Royce Presidencial quando Jair Bolsonaro tomar posse como presidente do Brasil no próximo dia 1º. Se é, claro, que, com colete a prova de balas, segurança padrão USA e tudo, ele terá coragem de enfrentar a tradição do desfile da posse – ensaios ocorreram. Mas o importante é que Fabrício é o desaparecido político mais famoso do Brasil. E diferentemente dos desaparecidos dos anos de chumbo, idealizados por Bolsonaro, esse desaparecido está mais para um Wally careca e com cordão com crucifixo no peito. Afinal, como já se percebeu, o ex-motorista que foi descartado e evaporou depois de aparecer em relatório do Coaf com movimentação de R$ 1,2 milhão em transações bancárias durante um ano, tem uma espécie de licença para sumir.

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Fabrício Queiroz e seu ex-chefe, Flávio Bolsonaro, em momento de descontração; e reunido com a família Bolsonaro num alegre churrasco; Ensaio da posse do futuro presidente Jair Bolsonaro teve Rolls Royce, com capota aberta da Catedral ao Congresso; e tesoureiro de Collor, Paulo César “PC” Farias, durante entrevista concedida a Roberto Cabrini, da Globo, em 1993.
A mídia, tão proativa nos governos Collor e Lula, parece que deitou no berço esplêndido dos dossiês entregues nas redações e das escutas telefônicas passadas para os “setoristas de vazamentos”, e se limita a relatar o que lhe é dito. Enfermo, supostamente internado em algum hospital par-ti-cu-lar do Rio, Fabrício não compareceu aos dois depoimentos já marcados pelo Ministério Público do Rio, o último na sexta, 21/12. Pobre Queiroz, perdido em algum quarto de hospital no Rio, ou talvez já em casa de resguardo. Na minha terra, “procedimento invasivo com anestesia” pode ser até tratamento de canal e endereço incerto e não sabido tinha PC Farias, que, mesmo assim, foi encontrado pelo então global Roberto Cabrini em Londres, um dos seus endereços na cidade. Se está em pânico, ensaiando seu depoimento – media training nele, assessores! -, esperando uma gráfica rodar notas frias ou simplesmente decidido a desaparecer até o caso esfriar – não adianta procurarem em Cuba, Venezuela ou Nicarágua, que nem na posse do “mito” esses países podem ir -, ninguém sabe ao certo. Em breve o noticiário estará tão ocupado com “as primeiras medidas” do novo governo, com Paulo Guedes e Sérgio Moro deixando seus dedos na calçada da fama da Esplanada, que Queiroz poderá ser lembrado apenas como um bom meme.

Ho! Ho! Ho! e Ha! Ha! Ha! E Feliz Natal a todos. Menos aos Bolsominions. Que engasguem com o osso do peru.

Joaquim Manoel dos Santos
No Gilberto Pão Doce
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Firehosing: a estratégia de disseminação de mentiras usada como propaganda política


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Política e direito sob os efeitos da fake news


Os direitos de informar, e o de ser informado, geram responsabilidades e consequências, e precisam, naturalmente, de eterna vigilância.

A antiga narrativa sobre a Torre de Babel – cujo epílogo foi o castigo divino de confundir as línguas, “de modo que não se entendam uns aos outros” – evoca novos personagens e eventos perturbadores de nosso tempo.

É o caso do Facebook e do Whatsapp, instrumentos que tem levado muitas sociedades para o atoleiro do desentendimento a partir de notícias falsas. Este Leviatã moderno conecta 2,2 bilhões a pessoas a conteúdos que podem ter sido produzidos de forma infame, no anonimato e sem qualquer controle ou filtro mais rigoroso.

Como anjo do apocalipse que espraia pragas para toda a terra, o fenômeno das informações baseadas em mentiras, meia-verdades, falsificações absurdas dos fatos, produziu verdadeiros torpedos com alto poder de destruição, endereçados para a política, para o Direito e para a imprensa convencional.

Em climas sociais inflados pela radicalização, em que a informação foi substituída pela propaganda enganosa, os prejuízos irreparáveis para a política e os inúmeros desafios para o campo jurídico são evidentes. Sem mencionar a mídia tradicional, envolvida atualmente em inúmeras iniciativas para demonstrar o que é “fato” e o que é “fake”.

É bem verdade que o repertório social e as tendências políticas de uma sociedade são fruto de uma construção complexa. Por outro lado, não se pode ignorar o grau de persuasão de notícias falsas em contextos polarizados como a saída da Inglaterra da União Européia, as eleições presidenciais norte-americanas de 2016, e o recente período eleitoral brasileiro.

Além dos segredos ocultos dos algoritmos, de hackers, da proliferação de robôs, o modelo de negócios das redes sociais conta com personagens comuns, como o norte-americano Christopher Blair, 46 anos. A profissão de Blair e seu negócio – inventor de histórias – foram revelados recentemente pelo jornal Washington Post (17/11). "Nada nesta página é real", dizia uma das 14 declarações publicadas no próprio site de Blair, mesmo assim, suas lorotas se tornaram reais, reforçando os preconceitos das pessoas e espalhando-se por sites de notícias falsas pelo mundo afora, revela o jornal. E é ainda mais espantoso que a audiência de seis milhões de visitantes por mês chegue a render U$ 15 mil dólares mensais para um profissional da mentira como Blair.

O número de pessoas que consideravam seus posts factuais pode causar perplexidade, mas o próprio Blair explica o lado sombrio do fenômeno: “não importa o quão racista, quão intolerante, quão ofensivo, quão obviamente falso nós nos tornamos. Quanto mais extremados nos tornamos, mais as pessoas acreditam nisso".

Para além do fake news, outra dimensão no debate entre verdades e mentiras, foi apontada indiretamente por Ives Gandra da Silva Martins, Renato de Mello Jorge Silveira e Hamilton Dias de Souza. Em artigo na Folha de S. Paulo (06/11) manifestaram-se contra a espetacularização das ações anticorrupção. De acordo com estes juristas, a comunicação agressiva de tais investigações, por parte das autoridades, altera princípios básicos da Constituição.

Sem qualquer precaução quanto ao sigilo, tal padrão de visibilidade – em que pese a necessidade de banir a impunidade – é instantaneamente compartilhado por milhões de usuários das redes sociais. A suspeita já sai vestida de “denúncia comprovada”, os indícios são tidos, categoricamente, como provas cabais e peremptórias. O prejulgamento acarretará perdas que, mesmo restituídas anos depois, não serão capazes de preencher lacunas devastadoras para a reputação ou para a dor incurável da alma. Assinala-se, aqui, o trágico e irreparável episódio da perda da própria vida como aconteceu ao reitor da UFSC, cuja inocência, inclusive, foi confirmada pela própria investigação que de forma apressada já o havia condenado.

Menos dolorosa, mas com alto custo, pode ser também a perda de uma eleição. O ex-governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), candidato competitivo ao Senado Federal, foi preso cerca de quinze dias antes do pleito. O fato aqueceu as redes sociais, efeito colateral do comportamento de autoridades que transformam suspeitos automaticamente em culpados. O que reparar posteriormente, caso seja inocentado? “Devolver” uma eleição?

A recente reparação à honra do ex-governador Olívio Dutra também inspira reflexões. Dezesseis anos atrás, em 2004, ainda sem o vigor das redes sociais, um advogado publicou texto no jornal Zero Hora, acusando Olívio de “conivência e interesse com a prática do jogo do bicho”, além de chamá-lo de “um dos maiores mentirosos que já passaram pelo Estado do Rio Grande do Sul”. A reparação, publicada no jornal, ocorrida somente agora em novembro de 2018, por decisão tomada pela 8ª vara Cível do Foro de Porto Alegre, desperta a imaginação: qual o impacto este texto falso teria caso o post fosse propagado nas redes sociais em plena campanha eleitoral na qual Olívio Dutra disputava um mandato? Nos dias trepidantes de hoje, custaria uma eleição. Perda irremediável.

Assim, o campo do Direito enfrentará cada vez mais as conexões entre a política e a velocidade da comunicação neste novo arranjo tecnológico-digital.

Com o padrão informativo sendo engolfado pela invasão das fake news nas redes sociais, o efeito mais imediato será congestionar ainda mais o já exaurido Poder Judiciário. Conflitos sobre a delimitação de fronteiras para a liberdade de expressão, opinião e pensamento, bem como ataques à reputação, como calúnia, difamação e injúria serão cada vez mais frequentes.

Vítimas de palavras e imagens que não correspondam à verdade, publicadas em posts, blogs, redes sociais, nesta era de comunicação informal, mas com repercussão imediata e acelerada, vão bater às portas dos tribunais com um agravante: o julgamento público hoje não se resume a um exemplar de jornal ou a alguns minutos na televisão. A exposição de um conteúdo nas redes sociais é permanente. Daí outro desdobramento para o Judiciário: a invocação do direito ao “esquecimento”, polêmica aguçada pela onipresença de conteúdos nas redes sociais.

Alguns consideram o combate às notícias mentirosas como um trabalho de Sísifo, personagem da mitologia castigado por um cansativo esforço, eterno e inútil. Justificam que a verdade pertence mesmo a de cada um – os indivíduos são autônomos, acreditam na realidade a partir de suas crenças, opiniões e valores, independentemente do conteúdo que recebam. Se isto for possível, o problema ganha outra dimensão. De todo modo, a questão permanecerá nos tribunais.

Seja como for, as virtudes positivas das redes sociais não minimizam os danos causados pelas notícias falsas. O progresso da sociedade, a manutenção da democracia e a preservação dos direitos individuais e coletivos sempre vão depender do uso correto da informação.

Os direitos de informar, e o de ser informado, geram responsabilidades e consequências, e precisam, naturalmente, de eterna vigilância.

Confundir a realidade, de modo que ninguém se entenda, é uma maldição a ser enfrentada.

Marco Aurélio de Carvalho é advogado e atualmente sócio da Celso Cordeiro & Marco Aurélio de Carvalho Advogados.
No GGN
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Quem é Nando Moura?




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O caso Ghosn e o Brasil


Carlos Ghosn é o executivo brasileiro de maior relevância mundial. Dirão os céticos “ah, ele não é mais brasileiro, fez carreira na França”. Negativo, Ghosn, nascido nos confins da Amazônia é brasileiríssimo e tem solidas raízes no Brasil, sua mãe mora no Rio de Janeiro e ele tem residência e laços no país onde nasceu. Na França, fez sua impressionante carreira, depois projetada no Japão, mas ele também trabalhou dez anos no Brasil como principal executivo da fábrica de pneus Michelin, onde iniciou sua vitoriosa carreira.

Ghosn foi preso no Japão em função de um GOLPE CORPORATIVO, claro, para tirá-lo do comando da NISSAN, empresa que ele salvou da falência e transformou na montadora de automóveis mais lucrativa do planeta. Criou uma aliança ente RENAULT, NISSAN e MITSUBISHI que se tornou o MAIOR GRUPO AUTOMOTIVO DO MUNDO em número de automóveis produzidos, superando Toyota e Volkswagen. Porque foi um GOLPE CORPORATIVO?

1. Quem o denunciou à Justiça japonesa foi o executivo que ELE INDICOU como Presidente da Nissan, uma traição pessoal. A denúncia baseou-se em dois itens: SONEGANÇAO FISCAL sobre honorários recebidos da Nissan e uso de MORDOMIAS pagas pela Nissan, especialmente a compra de um apartamento no Rio de Janeiro, que pertence à Nissan, mas era usado por Ghosn quando vinha ao Brasil, onde a Nissan tem filial. Portanto, a Nissan tinha uma base brasileira, não era para turismo.

2. O fisco japonês é o mais eficiente do mundo, acham uma formiga em um monte de palha, como Ghosn poderia receber salários sem declarar e sem que a Receita japonesa percebesse isso de uma companhia enorme, de capital aberto, com auditoria internacional? Como isso é possível em grandes corporações?

A acusação de Ghosn ter recebido 40 milhões de dólares não declarados é surreal. Mega corporações como a Nissan são fiscalizadas online pelas Receitas, não é crível uma saída de caixa nessas proporções possa ser considerada “não declarada”. É uma história, obviamente, mal contada do começo ao fim, sabe-se apenas a versão dos acusadores que tem interesse em se livrar de Ghosn.

3. Mordomias, como um apartamento comprado pela Nissan no Rio de Janeiro, são formas absolutamente corriqueiras em grandes empresas, a legalidade é saber se QUEM AUTORIZOU TINHA PODERES PARA AUTORIZAR, o questionamento se dá pelos orgãos de controle da empresa, inclusive e especialmente pelo Conselho de Administração, pode ser certo ou errado do ponto de vista da empresa, mas não é um crime, ele poderia até ser demitido pelo abuso mas não justifica uma prisão. Já fiz parte de Conselho de Administração de grandes empresas e sei como se observa beneficio do CEO, é um dos itens mais debatidos nas reuniões, não passa batido, um dispêndio desse tipo TEM QUE SER APROVADO em Conselho de companhia aberta, é básico.

A narrativa dessa prisão não fecha. O caso foi detonado pela empresa contra Ghosn, não partiu do Ministério Público ou da Receita Fiscal japonesa, como seria lógico, como é possível um executivo de uma gigantesca empresa multinacional que tem Conselho, auditoria interna, compliance, auditoria externa pagar milhões de dólares não autorizados a si mesmo? 

Essa alegação não tem credibilidade, um cheque precisa ser processado e assinado pelo setor financeiro, onde há executivos responsáveis. Segundo a denuncia Ghosn recebeu em excesso há muitos anos, NINGUÉM PERCEBEU?  É ridículo, isso não existe.

A FUSÃO RENAULT NISSAN

Ghosn estava preparando a etapa final de seu projeto, a fusão da Renault com a Nissan e isso desagradava alguns executivos japoneses da Nissan. Para barrar esse projeto resolveram derrubar Ghosn através de uma prisão espetacular, que resultará fatalmente numa pena de no mínimo 10 anos de prisão. O sistema jurídico japonês é considerado medieval, a defesa tem enorme dificuldades, em 99% dos casos a condenação é certa. A estratégia foi necessária porque Ghosn tinha tal prestígio mundial que sua simples demissão seria insuficiente, era preciso destruí-lo como profissional. Foi um golpe de extraordinária crueldade.

Para se ter uma ideia do prestígio de Ghosn, no ultimo Fórum Econômico Mundial em Davos no ano passado ele foi um dos principais palestrantes sobre os rumos da economia mundial.

O PAPEL DO BRASIL

Se o presidente da Toyota fosse preso no Brasil por algum problema fiscal, o Governo do Japão de imediato protestaria. É algo que todo Governo tem obrigação de fazer. O Governo brasileiro protestou fortemente quando um brasileiro foi preso e depois executado por tráfico de drogas na Indonésia, todo governo tenta defender seus nacionais presos no exterior, não importa o motivo, é uma questão de interesse de Estado cuja primeira função é proteger seu cidadão.

Ghosn tem passaporte brasileiro, é brasileiro nato, o Governo do Brasil tem OBRIGAÇÃO moral e protocolar de tentar defendê-lo, é parte do jogo diplomático. Ainda por ironia e coincidência o Presidente do Brasil tem sangue libanês dos quatro lados, assim como Ghosn é um brasileiro de pais libaneses, mais uma razão, ambos são brasileiros de primeira geração da mesma origem étnica e cultural. Desconheço qualquer “démarche” diplomática do Itamaraty em beneficio de Ghosn, é algo que qualquer grande País faz em defesa de seus nacionais de qualquer nível, mas no caso de uma personalidade como Ghosn e ainda mais justificável. Reafirmo que desconheço esse movimento, se houve ninguém soube, mas caberia inclusive uma manifestação diplomática do mais alto nível em beneficio de um brasileiro preso pelo que parece ser uma TRAMA indefensável, afinal Ghosn salvou uma da maiores empresas do Japão que estava a beira da falência, salvou milhares de empregos, salvou uma marca que estava desmoralizada, isso nada conta, não é considerado atenuante pelos japoneses?

Fico pensando se fosse um cidadão americano no mesmo caso, o Departamento de Estado moveria céus e terra para defendê-lo, como fizeram com os pilotos do Legacy que levaram a morte 186 brasileiros e que não ficaram um dia presos no Brasil, seu País os protegeu.

Há alguns anos um playboy americano de 19 anos fez uma baderna em uma boate em Florianópolis, quebrou a casa, foi preso. Dez horas depois um Vice Consul dos EUA em São Paulo estava em Florianópolis para libertar o jovem, que não era nada especial, apenas um cidadão americano comum, bêbado e arruaceiro, mas seu Consulado correu atrás .

Com a presença do Vice Consul o jovem foi libertado, nem sei se foi processado.

Assim procedem países que se dão ao respeito quando um de seus cidadãos é preso no exterior, a Embaixada do Brasil em Tóquio deu algum telefonema?

A propósito do caso Ghosn, a notícia teve REPERCUSSÃO MUNDIAL e Ghosn foi apresentado nos noticiários como EXECUTIVO BRASILEIRO preso no Japão. E o Brasil, não tem nada a dizer?

O caso Ghosn é parte de um ciclo mundial de Inquisição contra quem faz e produz por parte de quem nada produz, só fica olhando o que outros fazem para depois achar defeito.  Onde estavam os procuradores japoneses quando a Nissan afundava? Não havia entre eles nenhuma inteligência superior, um espírito aventureiro no bom sentido para colocar a mão na massa, apta a correr os riscos e o trabalho de salvar a Nissan? Apontar erros nos outros é uma tarefa mais fácil, muito mais fácil, do que construir e realizar obras concretas. Não havia no Japão nenhum cérebro para ver os erros da Nissan, precisaram importar um brasileiro-franco-libanês? Olha que o Japão tem muita gente preparada, mas ninguém se propôs a salvar a Nissan, cadê a coragem? Depois de feito, falar é fácil, difícil é fazer e acontecer.

Depois que ele salvou a Nissan, Ghosn virou bandido, sinal de nossos tempos destrutivos.

André Araújo
No GGN
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Pastor nada santo é convidado para a posse do Bozo

Pastor convidado para a posse de Bolsonaro foi acusado de estelionato, preso por porte ilegal de armas, investigado por lavagem de dinheiro etc etc

Valdemiro Santiago: convidado para a posse de Bolsonaro
Entre a turma esperada em Brasília para a posse de Jair Bolsonaro estão parentes, antigos parceiros de pescaria e líderes religiosos.

A família comparecerá em peso. A mãe, Olinda, de 89 anos, Renato, único irmão do presidente eleito, filhos, noras, cunhados, netos e sobrinhos.

Renato Bolsonaro, aliás, foi exonerado em 2016 da função de assessor especial parlamentar na Assembleia Legislativa de São Paulo.

No cargo havia três anos, recebia R$ 17 mil mensais, mas não aparecia para trabalhar.

Mas os caciques evangélicos têm um lugar especial no evento.

Silas Malafaia e Valdemiro Santiago (da Igreja Mundial do Poder de Deus) confirmaram presença.

Dissidente da Universal, calcula-se que a empresa de Valdemiro conte com 4,5 mil filiais no Brasil e no exterior.

O homem é um fenômeno.

Em 2003, foi preso por porte ilegal de armas.

Tinha uma escopeta, duas carabinas e munição. Alegou que estavam sendo levadas para um amigo.

Em 2014, a Mundial teve bens retidos pela Justiça por causa de uma dívida de R$ 10 milhões com a Rede Bandeirantes.

O juiz citou, à época, o “absurdo número de processos” a que a organização respondia, “grande parte deles por inadimplência”, o que apontaria para uma “irremediável insolvência”, sem contar “o grande número de restrições de créditos diversas”.

Cartas enviadas a fiéis pediam que eles se passassem por “enfermos curados, ex-dependentes químicos e aleijados” para que as pessoas se compadecessem e doassem dinheiro para a aquisição de um canal de TV.

Em 2017, Valdemiro foi esfaqueado (como o chegado Jair) num templo. Aproveitou para faturar. Pediu R$ 8 milhões às ovelhas.

Disse que o câncer de Marcelo Rezende foi porque ele pediu que a “mão de Deus” pesasse sobre o apresentador, um “malfeitor”.

Rezende era autor de reportagens sobre Valdemiro como a que você pode ver abaixo.

Está vendendo “chaves ungidas” por R$ 300 reais para o povo entrar em 2019 “abençoado por Deus”.

Bolsonaro deve ganhar uma de presente.

Ao seu lado estará o presidente da Igreja Batista Atitude Central da Barra, frequentada por Michelle Bolsonaro, Josué Valandro Junior.

Valandro, sua organização e um pastor estão sendo processados pelo sumiço de R$ 700 mil de uma fiel. 

Não poderia estar fora do convescote o dono da Igreja Universal, Edir Macedo, que o mundo sabe quem é. Inclusive o Senhor.

Todos ungidos. Em compensação, não teremos os presidentes comunistas de Venezuela, Cuba e Nicarágua.

É isso o que importa, afinal de contas.

Talkei?





Kiko Nogueira
No DCM
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O reposicionamento das oposições progressistas

Foto Rafael Carvalho
A vitória de Bolsonaro não pode ser encarada como uma mera continuidade do arranjo golpista que tirou Dilma do poder. Não foram só as esquerdas que foram derrotadas nas eleições, mas também boa parte das forças que fizeram parte daquele arranjo capitaneado por Temer e pelos grupos que a ele se agregaram. A vitória de Bolsonaro também não pode ser vista como um fato normal da política brasileira. Pela primeira vez a extrema direita chega ao poder legitimada pelas eleições. Esta situação exige não só uma profunda avaliação dos erros e das debilidades das esquerdas e do campo progressista, mas também um reposicionamento espacial, organizativo, político e programático. As resoluções dos partidos que tentaram assentar entendimentos acerca desta conjuntura pouco acrescentaram e não avançaram posições indicativas para reposicionar os mesmos.

As esquerdas em geral e o PT em particular estão na defensiva. Não é um fenômeno apenas nacional. Excetuando o México, a direita avançou, além do notório caso norte-americano, em diversos países latino-americano. Na Europa, além de uma forte presença no Leste Europeu, a extrema-direita avança nos países que foram pilares da democracia no pós II Guerra, a exemplo da Inglaterra, Alemanha, Áustria, França, Itália, Espanha, Portugal e até mesmo na Suécia. Embora haja uma articulação internacional crescente da extrema direita, as especificidades de cada país ou de cada região são determinantes nas explicações que são fornecidas por analistas acerca do crescimento da extrema direita.

Na Europa, as causas que são apontadas, em resumo, para explicar o crescimento da extrema direita são as seguintes: fragmentação das estruturas partidárias tradicionais, captura da democracia pelo capital financeiro, incapacidade das democracias em apresentar soluções aos problemas crescentes de desigualdade e falta de direitos, processos migratórios que causam temor tanto na questão do emprego quanto no enfraquecimento cultural e político das hegemonias brancas européias, transformações econômicas e tecnológicas que ameaçam empregos e geram insegurança e empoderamento dos indivíduos pelas redes sociais quebrando as estruturas sociais e políticas hierarquizadas, situação de que se vale a extrema direita para mobilizar vontades e pessoas.

Algumas dessas causas estão presentes também nas explicações do crescimento da direita e da extrema direita na América Latina. Mas aqui também existem especificidades. Após navegar numa onda de bonança, alguns governos e partidos de centro-esquerda sofreram golpes e derrotas eleitorais. Com exceção do Uruguai, em praticamente todos os outros governos de centro-esquerda ou esquerda da região surgiram casos de corrupção, provocando perda de legitimidade popular, ofensiva do falso moralismo da direita e derrotas. Ademais, esses governos, no geral, não foram capazes de realizar reformas institucionais e políticas capazes de remover os mecanismos que perpetuam as desigualdades na região, limitando-se à implementação de programas sociais que reduziram temporariamente essas desigualdades. Esses governos foram também incapazes de criar alternativas de integração global dos países que governaram e da própria região, ao contrário do que vem fazendo a China há quatro décadas.

É diante de um conjunto complexo de problemas, do qual se destacaram aqui apenas alguns pontos, que as esquerdas e o campo progressista precisam se reposicionar. Quem avançou mais o sinal até agora foram o PDT, o PSB e o PC do B, formando um bloco. Além de criar um polo de oposição visando construir uma alternativa em torno de Ciro Gomes, este bloco busca uma  posição espacial situada na centro esquerda, mas deslocada mais ao centro do que à esquerda. Aparentemente, este bloco avalia que o espaço que vinha sendo ocupado por um setor mais democrático do PSDB ficou vazio à medida em que os tucanos, liderados por Dória, se deslocam mais à direita. Não ficar sob a hegemonia do PT é outro objetivo desse bloco. Mas este bloco poderá ter uma concorrência: um novo partido, resultante da fusão do PPS, Partido Verde, Rede e parte do PSDB deverá surgir visando ocupar este espaço de um centro democrático que está vazio.

A situação do PT é a mais difícil. Relativamente isolado, o partido se mostra incapaz de viabilizar uma solução para a situação de Lula e também se mostra incapaz de se renovar. Fernando Haddad, a sua principal liderança, excetuando Lula, deverá ter uma posição secundária no partido, dominado pela burocracia que serve líderes fracos. Com uma retórica formalmente mais radical para encobrir seus fracassos, o PT vem perdendo aos poucos a dimensão de um partido que tinha um projeto para o Brasil e, consequentemente, um projeto de poder. Tornou-se, em um sentido político, uma ala do PSol. Mas aquilo que o PSol sabe fazer bem, o PT não sabe fazer, pois o seu espaço e o seu programa não podem ser os mesmos do PSol.

À esquerda, o PSol ficou com o espaço livre e à sua disposição para crescer. A decisão de Boulos de permanecer no partido, mesmo sem a presidência, e de não retornar à condição de coordenador do MTST, foi sábia, pois lhe abre caminho para se firmar como líder político. O próprio PSol terá que abrir-se mais, superar o sectarismo interno dos pequenos grupos que disputam pequenos poderes.

Boulos poderá cumprir um papel importante na articulação de vário movimentos sociais, principalmente da periferia, que não estão ligados a partidos e nem querem se ligar. Isto implicará sabedoria e criatividade para fazer convergir pautas e agendas específicas e diversas, que precisam se encontrar no futuro num movimento, numa organização ou numa frente sob o abrigo de um programa universalizante. Saber respeitar estes movimentos, sem pretender aparelhá-los, é um ingrediente dessa sabedoria. Dispersos, esses movimentos são fracos. Se convergirem para um programa comum, se tornarão fortes.

Os partidos e os movimentos de esquerda precisam equacionar tanto a sua organização de base quanto a articulação e o fortalecimento dos movimentos sociais de base. É preciso superar a principal causa das sucessivas derrotas das esquerdas: a inexistência de força organizada nas grandes periferias das cidades. Força consciente, formada, organizada, não só para resistir às investidas contra as liberdades e contra os direitos que virão do governo Bolsonaro, mas também para mobilizar e conquistar vitórias. É preciso criar uma mentalidade combativa nos movimentos sociais e políticos progressistas, pois as esquerdas perderam as ruas. É preciso reconquistá-las.

É improvável que se formem frentes formais e orgânicas em oposição ao governo Bolsonaro. As frentes serão informais e temáticas, definidas por pautas e agendas. A frente informal mais ampla deverá ser a frente democrática, que irá da esquerda até o centro democrático e dela participarão sindicatos, movimentos sociais, a sociedade civil, intelectuais e estudantes. A base desta frente será a defesa da Constituição, da democracia, das liberdades e dos direitos em face de possíveis ataques do governo. Sempre que essas instituições forem atacadas ou sofrerem ameaças a frente deverá agir para defendê-las e para reforçar a cultura democrática.

Outra frente será a frente das lutas sociais, mais orgânica, articulada pelas Frentes Povo sem Medo e Brasil Popular, pelo MTST e pelo MST e pelas centrais sindicais. Além dos movimentos sociais, aproximará o PSol, o PT, o PCdoB e setores do PDT e do PSB, entre outros. A frente das lutas sociais, além de resistir e lutar por direitos, terá que superar duas deficiências endêmicas que são causas de derrotas: estimular uma cultura de combate e mobilização e organizar bases sociais com a formação de novas lideranças. A juventude em geral hoje está fora das lutas e parte dela aderiu à direita. É  preciso perceber as causas disso e enfrentá-las, rever as formas de comunicação, de participação e de organização para torná-las capazes de atrair os jovens. Se estes problemas não forem enfrentados e superados, as esquerdas e os progressistas viverão um longo inverno.

Aldo Fornazieri - Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).
No GGN
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PF encontra drogas com colaborador da transição de Bolsonaro suspeito de fraude fiscal

Thiago Taborda Simões é alvo de investigação em um esquema de fraude, sonegação e lavagem de dinheiro que pode ter dado prejuízo de R$ 500 milhões ao Fisco


Na manhã de 27 de novembro, policiais federais e fiscais da Receita entraram no apartamento do advogado Thiago Taborda Simões, em São Paulo, em busca de provas sobre a suposta atuação de uma quadrilha que operava um esquema de fraude, sonegação e lavagem de dinheiro que pode ter dado prejuízo de R$ 500 milhões ao Fisco.

Durante as buscas, os investigadores apreenderam documentos, encontraram uma caixa com maconha e cocaína e um crachá de acesso ao local de trabalho da equipe de transição do governo do presidente Jair Bolsonaro, em Brasília. 

Segundo a operação, batizada de Chiaroscuro, a suposta quadrilha funcionava a partir de um escritório de advocacia que atuava em conjunto com empresas laranjas e reais.

A PF afirma que as empresas simulavam a venda de produtos e serviços e, ao receber os pagamentos e emitir notas fiscais sobre as transações fictícias, distribuíam os valores para contas no Brasil ou no exterior, ou realizavam a entrega de dinheiro em espécie aos envolvidos no grupo. 

"Há indícios de que esses pagamentos eram realizados para diminuir valores devidos em impostos, lavar dinheiro e pagar propinas a agentes públicos", diz a polícia.

As empresas teriam continuado a operar mesmo após passar pela fiscalização de um funcionário da Receita que pertencia ao grupo. 

Simões virou alvo porque, segundo a investigação, indicou a um cliente com problemas com a Receita um advogado envolvido no esquema. Teria recebido uma comissão por isso.

Simões não é formalmente da equipe de transição, mas participou de reuniões com o grupo comandado pelo economista Paulo Guedes, futuro ministro da Economia. 

O advogado admitiu, via sua assessoria, que teve dois encontros com a equipe de Guedes como especialista convidado. Teria atuado, segundo ele, como consultor em assuntos tributários. 

Ex-conselheiro do Carf (Conselho Administrativo da Receita Federal), órgão administrativo que julga processos em segunda instância na Receita, Simões é ligado aos irmãos Abraham e Arthur Weintraub, integrantes da equipe de transição na área econômica

Um episódio recente ilustra a proximidade do advogado com os irmãos. Foi a Simões que Arthur Weintraub recorreu quando decidiu processar por dano moral uma aluna sua da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), que o acusou de ser "mau caráter". 

Isso apesar de Simões ser tributarista, quando o normal para esse tipo de processo é que fique a cargo de um especialista na área cível.

Procurado, Arthur não atendeu aos telefonemas. Seu irmão, Abraham, negou que tenha sido o responsável por indicar Simões ao governo de transição. 

"Ele foi advogado da gente num dos casos em que tratamos da perseguição que sofremos na faculdade", disse Abraham. 

"A partir da hora em que apareceu esse caso, a gente cancelou todo o relacionamento com ele. Ele não chegou a ser oficializado na transição, que eu saiba", declarou.

Abraham é cotado para assumir como secretário-executivo da Casa Civil, para ser o principal articulador da reforma da Previdência. 

A Polícia Federal ainda analisa o material apreendido e não terminou o relatório nem decidiu sobre indiciamentos.

Por causa da descoberta das drogas, o advogado teve que assinar na polícia um termo circunstanciado, que é o registro de uma infração de menor potencial ofensivo. A pena máxima nesses casos é de até dois anos de prisão ou multa.

Outro lado

A assessoria de imprensa de Thiago Simões diz que ele "participou de duas reuniões [na transição], mas meramente como especialista convidado". Segundo a nota, sua contribuição foi apenas de caráter consultivo. 

Com relação às drogas encontradas em sua casa, a assessoria disse se tratar de "questão de foro pessoal, já esclarecida e arquivada pelas autoridades e sobre a qual não há o que comentar". 

"No que tange à Chiaroscuro, Taborda não é acusado, mas apenas investigado pela Polícia Federal, a quem já explicou que seu trabalho foi inteiramente técnico em defesa de um contribuinte perante a Receita Federal." 

O advogado Fábio Toffic, que defende Simões, diz que ele "apenas indicou um advogado a uma empresa que era sua cliente e só agora veio a saber que esse advogado usava métodos ilícitos".

Procurada, a assessoria da equipe de transição não se manifestou.

No fAlha
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Zygmunt Bauman: “A solidão é a grande ameaça"


Quantos amigos você tem no Facebook? 500? 5000? Essas perguntas dificilmente importariam, porque o que está em jogo aqui é o que você entende por "amigo".

"Um viciado em Facebook me confessou, não confessou, de fato, mas gabou-se para mim de que havia feito 500 amigos em um dia. Minha resposta foi que eu tenho 86 anos, mas não tenho 500 amigos. Eu não consegui isso. Então, provavelmente, quando ele diz 'amigo' e eu digo 'amigo', não queremos dizer a mesma coisa. São coisas diferentes", explica Zygmunt Bauman.

Nada de novo saber que conceitos mudam conforme o desenvolvimento da sociedade. Não se trata disso. Trata-se de se questionar se, neste processo de mudança, algo crucial foi perdido. Para Zygmunt Bauman sim. Habilidades sociais básicas, necessárias para qualquer interação humana, estão gradativamente sendo perdidas na rede.

Já leu em algum site sobre a rapidez com que as pessoas começam e terminam relacionamentos amorosos hoje em dia? Ou sobre como somos uma sociedade que "desiste fácil" das relações? Isso lhe soa familiar? Quantos amigos você deletou este ano? Com quantos destes você conversou antes de fazê-lo?

Estas questões foram apresentadas pelo sociólogo polonês em um dos top 10 vídeos mais assistidos de Zygmunt Bauman no Fronteiras e também em uma entrevista que concedeu ao El País. Reunimos os conteúdos e vamos propor uma boa reflexão sobre o que estamos fazendo das nossas vidas e sobre o que faremos com a maior consequência desta facilidade em deletar relações: a solidão e a sensação de abandono, "os grandes medos nestes tempos de individualização".

Zygmunt Bauman | O que entendemos por "amizade"

Quando eu era jovem, eu nunca tive o conceito de “redes”. Eu tinha o conceito de laços humanos, de comunidades, esse tipo de coisa, mas não redes. Qual é a diferença entre comunidade e rede? A comunidade precede você. Você nasce numa comunidade. Por outro lado, temos a rede.

O que é uma rede? Ao contrário da comunidade, a rede é feita e mantida viva por duas atividades diferentes. Uma é conectar e a outra é desconectar. E eu acho que a atratividade do novo tipo de amizade, o tipo de amizade do Facebook, como eu a chamo, está exatamente aí. Que é tão fácil de desconectar. É fácil conectar, fazer amigos. Mas o maior atrativo é a facilidade de se desconectar.

Imagine que estamos falando não de amigos online, conexões online, compartilhamento online, mas sim de conexões offline, conexões de verdade, frente a frente, corpo a corpo, olho no olho. Neste caso, romper relações é sempre um evento muito traumático. Você tem que encontrar desculpas, você tem que se explicar, você tem que mentir com frequência e, mesmo assim, você não se sente seguro, porque seu parceiro diz que você não tem direitos, que você é um porco etc. É difícil. Na internet é tão fácil, você só pressiona delete e pronto. Em vez de 500 amigos, você terá 499, mas isso será apenas temporário, porque amanhã você terá outros 500, e isso mina os laços humanos.

Os laços humanos são uma mistura de bênção e maldição.

Bênção porque é realmente muito prazeroso, é muito satisfatório ter outro parceiro em quem confiar e fazer algo por ele ou ela. É um tipo de experiência indisponível para a amizade no Facebook; então, é uma bênção... E eu acho que muitos jovens não têm nem mesmo consciência do que eles realmente perderam, porque eles nunca vivenciaram esse tipo de situação.

Por outro lado, há a maldição, pois quando você entra no laço, você espera ficar lá para sempre. Você jura, você faz um juramento: até que a morte nos separe, para sempre. O que isso significa? Significa que você empenha o seu futuro. Talvez amanhã, ou no mês que vem, ou no ano que vem, haja novas oportunidades. Agora, você não consegue prevê-las e você não será capaz de pegar essas oportunidades, porque você ficará preso aos seus antigos compromissos, às suas antigas obrigações.



Então, é uma situação muito ambivalente e, consequentemente, um fenômeno curioso dessa pessoa solitária numa multidão de solitários. Estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo. 

Em entrevista ao El País, o sociólogo polonês comenta outro conceito que está se transformando às custas da perda de uma capacidade elementar para o ser humano: o diálogo. "Diálogo real não é falar com gente que pensa igual a você."

Zygmunt Bauman | O que entendemos por "diálogo"

A questão da identidade foi transformada de algo preestabelecido em uma tarefa: você tem que criar a sua própria comunidade. Mas não se cria uma comunidade, você tem uma ou não; o que as redes sociais podem gerar é um substituto.

A diferença entre a comunidade e a rede é que você pertence à comunidade, mas a rede pertence a você. Na rede, você se sente no controle. Você pode adicionar amigos, se quiser, você pode deletá-los, se quiser. Você controla as pessoas com quem você se relaciona. Isso faz com que os indivíduos se sintam um pouco melhor, porque a solidão, o abandono, são os grandes medos nestes tempos de individualização.

Mas, nas redes, é tão fácil adicionar e deletar amigos que as habilidades sociais não são necessárias. Elas são desenvolvidas na rua, ou no trabalho, ao encontrar gente com quem se precisa ter uma interação razoável. Aí você tem que enfrentar as dificuldades, se envolver em um diálogo.

O papa Francisco, que é um grande homem, ao ser eleito, deu sua primeira entrevista a Eugenio Scalfari, um jornalista italiano que é um ateu autoproclamado. Foi um sinal: o diálogo real não é falar com gente que pensa igual a você.

As redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia… Muita gente as usa não para unir, não para ampliar seus horizontes, mas ao contrário, para se fechar no que eu chamo de zonas de conforto, onde o único som que escutam é o eco de suas próprias vozes, onde a única coisa que veem são os reflexos de suas próprias faces. As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha.



Do Fronteiras do Pensamento
No GGN
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Que ministro do STF está na mira do Cabral?

Ex-governador vai cuspir os feijões


Sérgio Cabral começa a negociar sua delação premiada; Judiciário está na oferta

Condenado até agora a 197 anos de prisão, Sérgio Cabral sempre negou ter recebido propinas. Admitia, no máximo, ter usado sobras de campanha para seus luxos. Agora, numa reviravolta em sua resistência em reconhecer o óbvio, Cabral quer fazer uma delação premiada.

O líder máximo da organização criminosa fluminense deu uma procuração para o seu novo advogado, João Bernardo Kappen, negociar a colaboração com o Ministério Público Federal no Rio de Janeiro e com a PGR. Kappen já começou a conversar, ainda em estágio inicial, com autoridades ligadas à Lava-Jato no Rio.

Mas, afinal de contas, o que Cabral teria a contar, após dezenas de delações terem esquadrinhado a roubalheira incrustada no Rio?

O cardápio inicial inclui o Judiciário — tanto o Tribunal de Justiça do Rio quanto o STJ — ex-chefes do MP fluminense, as jogadas nebulosas da Copa do Mundo e da compra de votos para a Olimpíada de 2016, além de detalhamentos de fatos já narrados em outras colaborações.

Entre as promessas do ex-governador, estão revelações sobre corrupção no Poder Judiciário e entre ex-integrantes do alto escalão do Ministério Público do Estado do Rio — o ex-procurador-geral de Justiça Cláudio Lopes chegou a ser preso sob a acusação de receber uma mesada para proteger o ex-governador.
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'Só um tolo não vê a farsa contra Lula', escreve Jessé de Souza


O sociólogo Jessé de Souza, autor de livros como "A Elite do Atraso" e "A Classe Média no Espelho" escreveu uma carta ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que é mantido como preso político há oito meses na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba. 

Na careta, Jesse elogia Lula pelo seu legado no combate à miséria e na busca por uma distribuição de renda mais igualitária. "Em uma sociedade doente e cruel como a nossa, dominada pelo ódio covarde aos pobres, o senhor é a luz nas trevas. O senhor é o líder popular mais importante dos 500 anos de história deste país e o único que se preocupou com os mais pobres e os mais marginalizados", escreveu.

Souza destacou ainda que a perseguição judicial a Lula está cada vez mais clara e se materializa na parcialidade do agora ex-juiz Sérgio Moro. "A força moral do inimigo construída por mentiras já está caindo. A farsa de Sérgio Moro está cada vez mais evidente. Só um tolo não percebe isso", afirmou a Lula.  

Leia, abaixo, a carta na íntegra:


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Caso do motorista que movimentou milhões é apenas mais uma das suspeitas de mutreta do clã Bolsonaro


O interminável silêncio do motorista Queiroz não deixa dúvidas de que ele não tem como explicar as mutretas no gabinete de Flávio Bolsonaro, que envolvem o presidente eleito da República e sua esposa.

Há mais de duas semanas, a família Bolsonaro vem tentando se esquivar do assunto, limitando-se a dizer que é Queiroz quem deve ser questionado. Mas o amigo íntimo de quase 40 anos do presidente sumiu do mapa. Na última sexta-feira, ele faltou pela segunda vez a uma convocação para prestar depoimento no Ministério Público do Rio alegando doença. Essa dificuldade em explicar os desvios nos leva a supor que os envolvidos no caso ainda não combinaram uma boa desculpa.

O motorista mora numa casa simples e leva uma vida incompatível com a de um criminoso que liderava um esquema que desviava quantia milionária dos cofres públicos.

Já a família Bolsonaro, que multiplicou seu patrimônio na política, hoje conta com pelo menos R$ 15 milhões só em imóveis.

“Tudo funciona dentro do meu gabinete. Vocês estão criando uma história no imaginário das pessoas que não é verdade. Nós sempre trabalhamos super direitinho, super bem”, mentiu Flávio Bolsonaro. A sua família está longe de trabalhar “super direitinho” quando se trata da administração dos seus gabinetes.

Pouco se tem lembrado que o clã Bolsonaro tem larga tradição na distribuição de tetas públicas para amigos e parentes e no funcionalismo fantasma. É um costume de família. Com atuações parlamentares tímidas, para não dizer irrelevantes, a promiscuidade entre o público e o privado sempre foi uma das grandes marcas dos gabinetes dos Bolsonaro. Não foram poucas as vezes em que se descobriu que gente próxima da família recebia um salário público sem aparecer para trabalhar.

O caso Queiroz é só mais um entre tantos. Resolvi relembrar alguns casos antigos que mostram como o clã mais poderoso do país tem utilizado seus mandatos para abrigar amigo e parentes no serviço público. Nem todos os casos são ilegais, mas demonstram que o zelo pelo dinheiro público nunca foi um princípio caro dentro dos seus gabinetes.

Todos os casos citados abaixo já foram publicados na mídia. Portanto, não há novidades. O intuito é colocar o caso Queiroz sob perspectiva e registrar o uso do dinheiro público para favorecimento particular como uma tradição familiar.

Ana Cristina Valle – é aquela ex-mulher que negou ter sido ameaçada de morte por Jair Bolsonaro durante a campanha mesmo depois de aparecer um documento oficial do Itamaraty em que ela relatou a ameaça. Antes de virar candidata à deputada federal usando o sobrenome do ex-marido, e não se eleger, Ana Cristina conseguiu emprego nos gabinetes da família Bolsonaro não apenas para ela, mas também para seus parentes.

No fim de 1998, quando seu filho com Jair Bolsonaro ainda não tinha completado um ano, Ana Cristina foi trabalhar no gabinete da liderança do PPB, a sigla pela qual Bolsonaro acabara de ser eleito.

Em 2000, se mudou para o Rio de Janeiro para trabalhar no gabinete do vereador Carlos Bolsonaro, onde ficou por seis anos. Em 2018, foi ser chefe de gabinete do vereador Renan Marassi que, vejam só que coincidência, é de Resende — base eleitoral dos Bolsonaro — e um grande aliado político. No mês seguinte à contratação, mais uma nova coincidência: o vereador foi com o prefeito de Resende até Brasília para agradecer Bolsonaro pelas emendas que destinaram verbas para o município.

Andrea Valle – a ex-cunhada de Bolsonaro estreou no serviço público ganhando uma tetinha no gabinete de Jair Bolsonaro em 1998, mesmo ano em que sua irmã deu a luz ao filho de Bolsonaro. Ela foi nomeada assessora na Câmara, onde ficou até 2006.

Dois anos depois, uma semana após o STF proibir a contratação de parentes de até terceiro grau para cargos de confiança, o então deputado estadual Flávio Bolsonaro nomeou a ex-cunhada do pai para trabalhar em seu gabinete.

Durante 10 anos, Andrea recebeu R$ 7,3 mil entre salário e gratificações, além de mais R$ 1,1 mil em auxílio escolar. Há um ano, reportagem do O Globo foi procurá-la no gabinete por duas vezes, mas os funcionários nunca haviam ouvido falar dela. Flávio garante que ela não era funcionária-fantasma. Segundo ele, ela não aparecia no gabinete porque ficava em Resende organizando reuniões e fazendo divulgação e panfletagem das atividades parlamentares.

José Cândido Procópio Valle – é pai de Ana Cristina e Andrea. O ex-sogro de Jair foi nomeado como assessor do seu gabinete também no mesmo ano em que Renan Bolsonaro nasceu. Mas não foi para Brasília, ficou no Rio de Janeiro prestando assessoramento parlamentar. Em 2003, foi trabalhar no gabinete de Flávio Bolsonaro, onde ficou durante cinco anos. Foi exonerado no mesmo dia em que sua filha Andrea foi contratada para o mesmo cargo.

Renato Antônio Bolsonaro – o irmão de Jair Bolsonaro mora em Miracatu, interior de São Paulo. Já foi candidato a prefeito da cidade, é dono de quatro lojas de móveis na região e trabalhou como assessor especial no gabinete do deputado estadual André do Prado (PR). Reportagem do SBT acompanhou a rotina do irmão de Bolsonaro e constatou que ele não só não aparecia no gabinete do deputado como também não exercia nenhuma atividade ligada ao parlamentar em sua cidade. O irmão de Jair Bolsonaro sugava cerca R$ 17 mil dos cofres públicos por mês, totalizando aproximadamente R$ 230 mil por ano. Foram três anos nessa mamata. Após a revelação do caso, Renato foi exonerado.

Assim como a filha do Queiroz, que ganhava salário como funcionária do gabinete de Jair Bolsonaro, mas atuava como personal trainer de celebridades no Rio, Renato se dedicava exclusivamente à administração das suas lojas.

Waldirene dos Santos Conceição – conhecida como Wal do Açaí, ela constava como funcionária do gabinete de Jair Bolsonaro desde 2003, mas jamais exerceu o cargo público. Wal trabalhava vendendo açaí em Angra dos Reis, na mesma rua em que Bolsonaro tem uma casa de veraneio. Segundo moradores da cidade, Wal prestava serviços na casa de Jair, onde seu marido trabalhava como caseiro. Ou seja, durante mais de uma década, Bolsonaro usou dinheiro público para pagar uma funcionária particular.

Depois que a Folha revelou o caso, Jair exonerou a funcionária, assinando o atestado de culpa. Preocupado com a campanha eleitoral, entrou com pedido no TSE para que as reportagens a respeito fossem retiradas do ar.

Enquanto baixo clero, a família Bolsonaro tratou a coisa pública como se fosse um puxadinho da sua casa. Distribuiu cargos para amigos, parentes e fantasmas. Mesmo assim, uma das palavras de ordem que impulsionou o bolsonarismo foi: “a mamata vai acabar!” Nada indica que essa família muito unida e ouriçada vá se emendar quando papai subir a rampa do Planalto. O Brasil anda numa fase tão surrealista, que é capaz de Jair Bolsonaro desfilar no Rolls Royce presidencial no dia da posse tendo Queiroz como motorista.

João Filho
No The Intercept
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