21 de dez. de 2018

Bolsonaro e as redes: a mentira e a manipulação sem intermediários

Projetos políticas deixam de ser debatidos e refinados com a sociedade para serem impostos na voz solitária do líder
Apesar de oratória débil e cultura rasa, o pretenso "mito" conta com tecnologia que dispensa mídia comercial e ideias elaboradas para atingir grandes plateias, já "adestradas" para essa comunicação

Nos anos 1930, um cabo austríaco falava às massas sem intermediários. Usava o rádio e a praça pública. Hoje um capitão reformado brasileiro faz o mesmo usando as redes sociais. Mudam os meios, mas os fins são semelhantes.

O afastamento das chamadas associações intermediárias do jogo democrático, como partidos e sindicatos, é típica de governos autoritários. Projetos e propostas políticas deixam de ser debatidos e refinados através da sociedade organizada para serem impostos à vontade popular através da voz solitária do líder, tendo como sustentação apelos emocionais e demagógicos.

Incapacitado por sua débil oratória e rasa cultura, o pretenso líder brasileiro viu cair aos seus pés uma tecnologia que dispensa ideias mais elaboradas. Uma ou duas frases, muitas vezes capengas, são suficientes para atingir grandes plateias virtuais, já adestradas para esse tipo de comunicação. Infelizmente o entendimento de textos mais elaborados está fora do alcance da maioria dos brasileiros.

A eficiência das redes ficou provada durante o processo eleitoral. Alguns dias antes do pleito, robôs despejaram milhões de mensagens contra candidatos progressistas. Além da disputa presidencial, foram deturpadas diversas campanhas para os legislativos. Exemplos significativos foram as derrotas de Eduardo Suplicy, em São Paulo, e Dilma Rousseff, em Minas, candidatos ao Senado que apareciam até às vésperas das eleições como franco favoritos. O mesmo aconteceu, em sentido inverso, com desconhecido candidato eleito para o governo do Rio.

Foi a fase aguda da comunicação eleitoral. A dúvida agora é saber se de aguda passará a crônica, juntando-se aos meios tradicionais. Desde sempre, esses meios oferecem ao público doses diárias de informações cujo efeito cumulativo é semelhante ao dos remédios de uso contínuo. Permanecem indefinidamente no organismo.

É assim com a criminalização diária da política, a exacerbação da violência através dos programas policialescos e a imposição de regras morais conservadoras pelos canais e programas religiosos onipresentes no rádio e na televisão. São vidas inteiras contaminadas por esses produtos sem nenhuma fiscalização.

Há momentos em que alguns veículos aumentam a dosagem de suas drogas. Um dos casos mais evidentes é o do surgimento e consolidação dos movimentos de extrema direita. O Movimento Brasil Livre (MBL) e seus lideres tornaram-se protagonistas da cena política graças à mídia tradicional que buscava, de qualquer forma, algum movimento de rua capaz de servir de contraponto às tradicionais ações desse tipo, conduzidas pela esquerda.

Dessa forma, pequenos grupos de 10 ou 20 pessoas segurando a bandeira nacional, pedindo o impeachment da presidenta ou a “intervenção militar democrática” viravam notícia de destaque. Alguns dos seus integrantes tornaram-se populares obtendo expressivas votações no último pleito.

O exemplo mais significativo desse processo de ampliação de poder dos grupos de extrema-direita, realizado pela mídia tradicional, deu-se no sábado que antecedeu o primeiro turno das eleições presidências. Naquele dia aconteceu um movimento de massa nacional comparável apenas com os comícios das Diretas Já, na década de 1980. Foi o “Ele Não”, responsável por colocar nas ruas milhares de pessoas nas principais cidades do pais.

A TV Globo, além de não anunciar esses eventos, como fazia quando era para derrubar a presidenta Dilma, os minimizou com uma cobertura minguada e distorcida. Tentou exibir um equilíbrio que só é lembrado nessas horas, indo atrás de reduzidos grupos de manifestantes favoráveis ao candidato direitista. Comparou o incomparável, abrindo espaços iguais para acontecimentos desiguais.

Ainda assim, o sucesso do “Ele Não” assustou seus adversários. A partir daí, o bombardeio através do WhatsApp ganhou proporções nunca vistas por aqui e acabou decidindo as eleições. Tornou-se o grande cabo eleitoral do candidato vencedor que agora aposta nele como forma de sustentação ao seu governo. Resta saber se dará certo.

Uma coisa são as descargas de mensagens fantasiosas concentradas em poucos dias apelando para uma decisão eleitoral. Outra será a necessidade de explicar acusações de corrupção ou de justificar mais reduções de direitos trabalhistas todos os dias.

O WhastApp passará por um duro e inédito teste no Brasil. Estará diante do desafio de se integrar ao conjunto dos meios de comunicação tradicionais, operadores de lentas e constantes ações crônicas de persuasão política ou ficará restrito ao que até agora mostrou, um remédio eficaz apenas para situações agudas.

Muito do nosso futuro depende dessa resposta.

Lalo Leal
No RBA
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Díaz-Canel, presidente de Cuba, chama de “reacionária” a postura de Bolsonaro contra o Mais Médicos - assista


Con la participación del Presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel Bermúdez y otras autoridades del gobierno de Cuba se celebró el acto de reconocimiento a los colaboradores cubanos del Programas "Más Médicos para Brasil". En el mismo fueron reconocidos entidades que aseguraron la participación de Cuba en el programa Más Médicos para Brasil


Mais Médicos: 2.448 vagas ainda não foram preenchidas

A decisão de retirar os médicos cubanos do Brasil foi anunciada há pouco mais de um mês, após ataques de Jair Bolsonaro contra o programa

Das 8.517 vagas do programa Mais Médicos abertas após a saída dos médicos cubanos, 2.448 – 28% do total – ainda precisam ser preenchidas. Na quinta-feira (20), o Ministério da Saúde lançou um novo edital para tentar ocupar vagas em 1.177 municípios e 28 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI) que tiveram médicos inscritos, mas não se apresentaram nos locais determinados. O prazo para inscrições no novo edital por profissionais com registro no Brasil se esgota nesta sexta-feira (21).

Entre os dias 27 e 28 de dezembro, é a vez de os brasileiros formados no exterior escolherem as vagas nas cidades em que pretendem atuar. Na sequência, entre os dias 3 e 4 de janeiro de 2019, os médicos estrangeiros escolhem os postos remanescentes.

Formados no Brasil terão até o dia 10 de janeiro para começar a trabalhar. Brasileiros formados no exterior e estrangeiros deverão assumir até o 22 de fevereiro.

Com 329 postos ainda desocupados, São Paulo é o estado com o maior número de vagas ainda não preenchidas, seguido por Pará (308), Rio Grande do Sul (247), Maranhão (189), Bahia (176) e Paraná (124).

A decisão de retirar os médicos cubanos do Brasil foi anunciada por Cuba há pouco mais de um mês, após ataques do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL) contra o programa, como a intenção de condicionar a permanência dos cubanos a alterações na forma de contratação, além de aplicação de teste de capacidade.

Na quinta-feira (20), o presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, chamou de “reacionária” a postura de Bolsonaro contra o programa. Ele participou de um ato de recepção dos médicos que atuaram no Brasil, e afirmou que a postura do presidente eleito brasileiro torna vulnerável a saúde de uma parte da população, “arriscando a coisa mais preciosa que todo ser humano tem, sua saúde e sua vida”.

“Era impossível ficar de braços cruzados diante de um governo soberbo e insensível, incapaz de entender que nossos médicos foram ao país movidos pelo impulso de servir ao povo, cuidar de sua saúde e de sua alma, não negociar com eles”, afirmou Díaz-Canel.

Ao todo, segundo o presidente cubano, foram 20 mil profissionais que atuaram no Brasil nos últimos cinco anos, representando 80% dos profissionais do programa Mais Médicos. Eles prestaram 113 milhões de atendimentos em aproximadamente 3,6 mil municípios. Ao todo, os cubanos constituíam 80% de todos os médicos participantes.
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Em defesa do Mito, bolsonaristas passam vergonha atacando diplomata francês

Todo mundo sabe o que está acontecendo na França, é simplesmente insuportável viver em certos lugares da França. E a intolerância tende a continuar aumentando, e aqueles que foram para lá, o povo francês os acolheu da melhor maneira possível. Vocês sabem da história dessa gente. Eles têm algo dentro de si que não abandona suas raízes. Eles querem fazer valer sua cultura, os seus direitos lá de trás e seus privilégios. A França está sofrendo isso. Não queremos isso para o Brasil. Para entrar no país deve haver um critério rigoroso. No que depender de mim enquanto chefe de Estado, eles não entrarão. Jair Bolsonaro, num de seus lives no Facebook
63.880 homicídios no Brasil em 2017, 825 na França. Sem comentários. Gérard Araud, embaixador da França nos Estados Unidos
No interior do Brasil seriam chamados de chucros. Mas, por educação e pelo fato de que receberam mandatos populares, Jair Bolsonaro e os filhos Flávio, Eduardo e Carlos podem ser definidos como medíocres, de baixo apego à verdade factual e arrogância inversamente proporcional à inteligência.

O Mito tem como modelo um astrólogo autointitulado filósofo, cujo apego à literatura é equiparável ao de Fernando Collor de Mello, que colocava livros sob o sovaco em suas caminhadas para parecer ilustrado aos telespectadores.

Foi neste espírito que o presidente eleito resolveu discorrer sobre os perigos da imigração, como se o Brasil fosse um poder colonial com a importância da França.

Bolsonaro, feito marionete, reproduziu os mesmos preconceitos de Donald Trump contra “essa gente”.

“Eles querem fazer valer sua cultura, seus direitos lá de trás e seus privilégios”, disse o presidente eleito.

Não explicou quais são “seus direitos lá de trás” nem os tais “privilégios”, simplesmente porque eles não existem, nem nunca existiram.

A colonização francesa, tanto quanto a britânica e a portuguesa, foi voltada para arrancar recursos naturais dos locais, sem qualquer tipo de direito ou privilégio.

No Congo, os belgas promoveram um massacre estimado em mais de 6 milhões de pessoas.

No que hoje é a Namíbia, a Alemanha exterminou etnias para roubar terras e transportou cabeças decepadas para Berlim para desenvolver a pseudociência que “provava” a superioridade dos brancos.

Os campos de concentração nasceram na África do Sul, quando os britânicos se impuseram sobre outros brancos, os colonizadores bôer.

Portanto, Bolsonaro espalha estupidez preconceituosa entre seus seguidores, abraçando como “ameaça” ao Brasil algo que não nos afeta, mas aos estadunidenses e franceses.

E há polêmica sobre isso, já que a mão-de-obra barata dos imigrantes ocupa funções que gringos não estão dispostos a desempenhar, além de derrubar a média salarial, beneficiando o patronato.

O discurso anti-imigração é uma forma tosca de Bolsonaro disseminar entre os brasileiros um sentimento de superioridade racial — logo entre quem é subproduto da mestiçagem e originário de uma colonização baseada no estupro de mulheres negras.

“Bolsonaro está tão desesperado para copiar Trump e outro líderes da Nova Direita da Europa que ele agora cospe retórica anti-imigração apesar do Brasil não ter quase controvérsias a respeito. Na verdade, mais gente deixa o Brasil do que entra. Ele é como uma criança imitando adultos”, escreveu no twitter o jornalista norte-americano Glenn Greenwald.

Ele reagiu a outro tweet, do repórter britânico Dom Phillips, que escreveu: “Mesmo com os venezuelanos chegando, mais brasileiros deixaram o Brasil este ano (252 mil) do que imigrantes chegaram (94 mil). Estudos mostram que os brasileiros acham que sua nação tem 30% de imigrantes, mas na verdade são menos de 1%”.

Porém, eleitores do Mito fizeram questão de passar vergonha.

Ao comentário do embaixador francês, um lembrou que o Brasil é pentacampeão mundial, mas a França ganhou a Copa apenas duas vezes.

Ao que outro, mais burro que o primeiro, disse que a França só ganhou dois títulos por usar jogadores nascidos em outros países — ou seja, justamente um argumento que FAVORECE a imigração.

“Que comparação estúpida, a França tem o tamanho de um estado brasileiro. O Brasil é catorze vezes maior que a França e você não aceita isso, mas nós entendemos, não é fácil ouvir as verdades do Bolsonaro”, escreveu um minion, num inglês macarrônico.

Uma terceira cavalgadura, possivelmente especialista em cálculo matemático, usou o mesmo argumento: era lógico o fato de o Brasil ter mais homicídios do que a França, já que a população brasileira é muito maior.

Provavelmente com dó da moça um internauta — certamente comunista –, rebateu:

Homicídios a cada 100 mil habitantes no Brasil: 30,3. Homicídios a cada 100 mil habitantes na França: 1,58. É uma conta básica de matemática, linda… Não seja burra igual ao nosso presidente.

Luiz Carlos Azenha
No Viomundo

Veja também: Brasil é o 5º país mais ignorante do mundo
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Brasil é o 5º país mais ignorante do mundo


O Brasil ficou em quinto lugar na nova edição do ranking que mede o quanto os países têm noção equivocada sobre a própria realidade.

Chamada "Os Perigos da Percepção", a pesquisa anual é realizada pelo instituto Ipsos. O estudo foi realizado em 37 países e se baseia em entrevistas com pessoas em cada um deles sobre o que elas acham sobre a realidade que vivem. A pesquisa então compara esta percepção com os dados oficiais. Quanto maior a diferença entre percepção e realidade, maior a "ignorância" da população – e por isso o ranking geral foi chamado originalmente de "índice de ignorância".

A cada edição, o foco das perguntas é diferente –portanto os rankings anuais não podem ser comparados uns aos outros ou serem vistos como evolução –, mas o Brasil esteve entre os líderes de percepção equivocada em todos os anos em que a pesquisa foi realizada. Em 2017, o país aparecia como o segundo país com menos noção sobre a própria realidade, atrás apenas da África do Sul. Um ano antes, ficou em sexto lugar.

Na edição deste ano, o foco das perguntas tratou sobre temas relacionados à formação da população, imigração, segurança, criminalidade, comportamento sexual, violência sexual, saúde, economia, ambiente e outros temas.

Em 2018, o Brasil ficou atrás de Tailândia, México, Turquia e Malásia. Os lugares em que a população tem uma maior noção sobre a realidade em que vivem são Hong Kong, Nova Zelândia, Suécia, Hungria e Reino Unido.

Essa falta de noção dos brasileiros sobre a própria realidade pode afetar até mesmo o funcionamento da democracia, segundo o ex-diretor de pesquisas do Ipsos, Bobby Duffy, autor do livro "The Perils of Perception: Why we're wrong about nearly everything" (Os perigos da percepção: Por que estamos errados sobre praticamente tudo).


Ele também explicou que o problema não é exatamente "ignorância", como dizia a pesquisa originalmente, mas o fato de que as pessoas acreditam ativamente em coisas factualmente erradas, têm uma percepção equivocada da realidade (chamada "misperception" em inglês).

Segundo o livro, é possível ver uma correlação entre o nível de certeza que a pessoa tem sobre sua avaliação e o de percepção equivocada da realidade. Quanto mais certa a pessoa acha que está sobre um determinado tema, mais alta a chance de ela estar errada.

"A questão não é falta de conhecimento, mas que elas acham que estão certas, mesmo que não estejam. São duas coisas diferentes. Percepções erradas são mais difíceis de lidar do que ignorância. Quando as pessoas não têm conhecimento sobre algo, elas podem ser ensinadas. É mais difícil convencer pessoas que acham que sabem algo que na verdade está errado. Mudar a percepção das pessoas é mais difícil", explicou.

Imigração

Alguns dos dados da pesquisa deste ano foram publicados em reportagem de Flávia Mantovani na Folha nesta sexta (21).

O jornal mostra que os brasileiros acreditam que o país tem muito mais imigrantes do que realmente tem, e que é o quarto país com a percepção mais equivocada em relação à porcentagem de imigrantes, atrás apenas de Colômbia, África do Sul e Peru. A resposta média dos entrevistados é que 30% da população é formada por imigrantes, quando o índice verdadeiro é de aproximadamente 0,4%.

Os brasileiros também acham que o país tem muito mais muçulmanos do que tem na realidade. O palpite médio foi de 16 a cada 100 pessoas, quando o dado oficial é de menos de 1%.

Ouvida pelo jornal, a pesquisadora Elissa Fortunato, vice-presidente de uma ONG que acolhe imigrantes em São Paulo, disse que o aumento dos fluxos migratórios recentemente no Brasil, principalmente de haitianos, sírios e venezuelanos, pode ter contribuído para a percepção superestimada.

"As pessoas passam a acreditar que aquilo é um problema muito maior do que é. Se as fronteiras onde chegam venezuelanos estivessem mais preparadas para recebê-los, por exemplo, o impacto sobre os serviços públicos seria menor e a percepção das pessoas poderia mudar."

Daniel Buarque é jornalista, escritor e fez mestrado sobre a imagem internacional do país pelo Brazil Institute do King's College de Londres. É autor de cinco livros, incluindo “Brazil, um país do presente - A imagem internacional do ‘país do futuro’” (Alameda Editorial) e escreveu o livreto “Brazil Now” da consultoria internacional Hall and Partners. Nascido no Recife, escreve regularmente para o UOL e já trabalhou como editor-executivo do portal Terra, chefe de reportagem da rádio CBN, pauteiro de Mundo da Folha de S. Paulo e repórter do Valor Econômico e do G1.
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Subterrâneos do Congresso fervem à espera de Bolsonaro


Alegados problemas de saúde salvaram outro personagem bolsonarista de depor. O PM aposentado Fabrício Queiroz, amigo e ex-motorista do clã Bolsonaro, deveria ter prestado esclarecimentos nesta quarta-feira 19 ao Ministério Público sobre suas finanças suspeitas. Duas semanas depois de sua história vir a público, Queiroz segue em silêncio.

No início de dezembro, quem tinha deixado de ir ao MP se explicar havia sido o futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, investigado por suspeita de crimes contra o sistema financeiro.

Saúde à parte, será que o caso de Queiroz, depositante de 24 mil reais na conta da futura primeira-dama e funcionário de um dos filhos de Jair Bolsonaro quando movimentava 1,2 milhão de reais em um banco, estará sepultado quando o novo Congresso tomar posse, em fevereiro?

Os subterrâneos do Legislativo fervem desde já. Por ali, já há político de olho em problemas na cozinha do próximo presidente, a fim de usar isso para fazer jogo duro mais adiante e mostrar-lhe que não haverá moleza na relação com os parlamentares.

O que ninguém quer, por ora, é botar a cara em público contra um presidente que ainda nem tomou posse e que desperta esperança popular. “Tenho ouvido muita gente me aconselhar a não falar mal do Bolsonaro agora, me aconselhar que eu diga que vou ajudar o Brasil. Engraçado como isso mudou. Em 2014, não foi assim”, afirma um deputado do MDB.

Entre os brasileiros, 75% acham que Bolsonaro e sua anunciada equipe estão no caminho certo. Os otimistas com o futuro governo são 64%. Números de uma pesquisa Ibope divulgada em 13 de dezembro pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). 
Seu colega de bancada Marcos Pestana, secretário-geral tucano, acrescenta: “o Bolsonaro fez uma coisa importante e necessária, mudou o padrão de relação com os partidos, não partiu para a cooptação com cargos. Mas como reagirá o Congresso?”

“Se o Bolsonaro der certo, vai mudar alguns paradigmas na política no Brasil, e precisa mudar mesmo. Mas vai dar? O Brasil é um país muito complicado, há muitos entes federados, muitas corporações”, diz o deputado petista Vicente Cândido, que não se reelegeu e agora será o diretor de Relações Institucionais do Corinthians.

Sobram incomodados no Congresso com a falta de “cooptação” na montagem do futuro ministério, feita por Bolsonaro sem ouvir os partidos.

Tome-se a indicação para ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Damares Alves era assessora do senador em fim de mandato Magno Malta, do PR capixaba. Bolsonarista da gema, Malta não só ficou sem cargo, como ainda viu a ex-assessora ser nomeada sem que ele tivesse opinado.

Há também o caso do DEM. Bolsonaro pinçou três deputados demistas para sua equipe – Luiz Henrique Mandetta (Saúde), Onix Lorenzoni (Casa Civil) e Tereza Cristina (Agricultura) – mesmo que o partido tenha até agora preferido uma posição de neutralidade em relação a seu governo.

A escolha de Mandetta foi vista como uma tentativa de enfraquecer o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, como polo de poder no DEM e de construção de um outro polo.

Maia gostaria de se reeleger para o comando da Câmara. Bolsonaro torce o nariz para ele, no entanto, talvez pela boa relação de Maia com o PT e o PCdoB. O bolsonarismo, como se sabe, quer destruir a esquerda.

“O Rodrigo é favorito hoje, vai ter voto de quem é Bolsonaro porque este pessoal quer dar um recado ao governo”, teoriza um deputado tucano. “O Bolsonaro não conversa com ninguém, tem um grupo dele e só.”

A eleição para as mesas diretoras da Câmara e do Senado tem potencial para causar confusão e será decisiva na relação de Bolsonaro com o Legislativo, segundo Marcus Pestana.

Flávio Bolsonaro, o contratante do desaparecido amigo de sua família, Fabrício Queiroz, na Assembleia do Rio, será senador em 2019. Ele já se declarou contrário ao plano do experiente Renan Calheiros, do MDB, de concorrer de novo ao comando da Casa.

Questionado por CartaCapital dias atrás quanto à hipótese de o caso do motorista influenciar o ambiente político do futuro governo, Calheiros ergueu bandeira branca. “São fatos anteriores ao mandato. Não é papel do Senado julgar as pessoas. Nós temos que ajudar o Brasil.”

Declarações a soar um pouco como aquele político aconselhado a não falar mal de Bolsonaro por enquanto e a falar que vai “ajudar o Brasil”.

Certo é que há quem torça mesmo é pelo pior, para poder cobrar alto pelo apoio mais adiantes. Dias desse, o deputado e ex-ministro da Saúde Ricardo Barros, do PP, ex-partido de Bolsonaro, comentou com um colega: “Nós vamos ficar um ano na arquibancada olhando, daí o Bolsonaro vai ter de refundar o governo”.

Será?

André Barrocal
No CartaCapital
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Bolsonarista que me atacou foi condenada também por mentir ao juiz


As vitórias sobre Alexandre Frota por suas muitas mentiras a meu respeito não foram os meus únicos êxitos recentes na busca pela responsabilização de todos aqueles que insistem em recorrer a toda forma abjeta de calúnia em busca de lucros financeiros e políticos.

A Associação Brasil Nas Ruas, cuja presidenta é Carla Zambelli (agora deputada federal eleita pelo PSL de São Paulo), foi condenada pela Justiça por promover em várias redes sociais uma notícia falsa, atribuindo a mim, covardemente, uma fala falsa em defesa da pedofilia, assim como vários de seus colegas de partido – entre eles, o próprio Frota -. Como se não bastasse, no curso do processo a associação tentou enganar o juiz com mentiras para tentar anular a sentença, mas nossos ad

vogados conseguiram provar que as alegações eram mentirosas e a associação, além de ser condenada pela fakenews, foi multada por mentir para o juiz. Quarenta mil reais de indenização, da qual não cabe mais recurso.

Hoje, também, Marcelo Valle Silveira Mello, criador de um fórum incel brasileiro dedicado à incitação do ódio contra pessoas de esquerda, negros, nordestinos, mulheres, judeus e LGBTs, além de material pornográfico envolvendo crianças e adolescentes, foi condenado a 41 anos de prisão pelas ameaças e pela divulgação de notícias falsas envolvendo ativistas de esquerda como Lola Aronovich. Das discussões do seu grupo nasceram várias páginas incitando a morte de homossexuais, “estupros corretivos” contra lésbicas, entre outros. Textos que também incitavam a minha morte, além das ameaças e dos planos concretos de me assassinar em um atentado que contou inclusive com a visita às instalações da Câmara dos Deputados.

Deste grupo, também, surgiram Mallone Morais, preso em 2016, e André Luiz Gil Garcia, que há poucos meses atirou contra uma mulher desconhecida em uma praça e em seguida se suicidou. Há ligações também com Wellington Menezes de Oliveira, responsável pela chacina de Realengo.

Fui vice-presidente da CPI da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, dedico minha vida à defesa dos direitos civis e humanos, e não vou tolerar que mentiras e ameaças sejam cometidas impunemente. Espero que essa e outras decisões judiciais no mesmo sentido, que têm vindo à tona nos últimos tempos, sirvam de alerta para aqueles que acham que, por estarem atrás de uma tela de computador, podem difamar, mentir e promover o ódio sem responder por seus atos. Ninguém está acima da lei!

Jean Wyllys
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Retorno em massa dos médicos cubanos frustra os bolsonaristas

Médicos cubanos desembarcam no aeroporto de Havana
No dia 19 de novembro, menos de uma semana depois da decisão do governo de Cuba de romper sua participação no programa Mais Médicos e determinar a volta  de seus profissionais à Ilha, o general Hamilton Mourão, vice-presidente de Jair Bolsonaro, arriscou um palpite, com uma pitada de ironia: “Posso até ser leviano, mas acho que metade não volta, hein. Não sei, acho que eles gostam do nosso estilo de vida.”

Evidentemente, na declaração estava implícita a torcida do bolsonarismo de que um parcela considerável dos cubanos, diante da iminência de ter de trocar as maravilhas da democracia brasileira pelo retorno à ditadura caribenha, optariam por ficar por aqui.

Passado pouco mais de um mês, não foi o que se viu. E a leviandade de Mourão não passou disso, uma leviandade.

Segundo a jornalista Mônica Bergamo em sua coluna na Folha, da quinta feira, 20, até agora, cerca de 6 mil, dos 8 300 médicos cubanos que atuavam no programa, já retornaram a seu país, onde foram recebidos com festas pelas autoridades e pela população.

Outros 1 800, casados com brasileiros e brasileiras, decidiram permanecer no Brasil, devidamente autorizados pelo governo do presidente Miguel Diaz-Canel.

De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde da Organização Mundial da Saúde (Opas), que intermediou o acordo entre o Brasil e Cuba para a participação de médicos cubanos no Mais Médicos, restam ainda 400 que permaneceram sem autorização, estão doentes e devem retornar a Cuba em breve.

Ou seja, para quem esperava uma deserção em massa, o que seria um trunfo e tanto na batalha ideológica do bolsonarismo contra a chamada  ditadura cubana, o resultado da operação retorno dos médicos, foi uma frustração enorme.

O que só escancara a obtusidade vergonhosa da hostilidade gratuita dos futuros governantes, que provocou danos irreparáveis num dos programas na área de saúde mais bem-sucedidos já implantados no Brasil.

De uma hora para outra, milhões de brasileiros, principalmente os que vivem nas periferias das grandes metrópoles e nos grotões do país, ficaram sem assistência médica.

E a tentativa de repor o vazio deixado pelos cubanos ainda deixa muito a desejar. Até agora, quase um terço dos médicos brasileiros que se inscreveram no programa, não se apresentaram nos locais de trabalho.

Para complicar, em mais de 100 localidades, principalmente em aldeias indígenas, não há candidatos inscritos para trabalhar.

Por uma dessas ironias do destino, em meio à retirada organizada dos médicos cubanos, Bolsonaro e família se viram envolvidos no escândalo do motorista e assessor Queiroz, ex-assessor do filho Flávio, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Como se sabe, alvo do Coaf, sob a suspeita de movimentação de R$ 1,2 milhão, Queiroz, que aparentemente tomou chá de sumiço, era encarregado de receber uma parte considerável de até 90% dos funcionários do gabinete de Flávio Bolsonaro, uma prática muito comum, por sinal, nas casas legislativas.

O que, além de ilegal, vamos combinar, não orna muito com o discurso de Jair Bolsonaro, que considerava os médicos cubanos como escravos por terem 70% de seus salários no Mais Médicos retidos pela ditadura castrista.

Miguel Enriquez
No DCM
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Ministros, juízes e perus


O STF é uma instituição relativamente pequena, com composição fixa (admitindo pequenas mudanças), com regimento interno conhecido, que tem certa transparência e produz documentos escritos que sobrevivem à aceleração dos tempos contemporâneos. O STF é, pois, um excelente exemplo para compreensão do que ocorre no Brasil. Especialmente a partir do momento que a corte deixou de ter seu lado jurídico como balizador de suas ações. Quando as doutrinas, os argumentos lógicos e o respeito às leis deixaram lugar à retórica conveniente, ao conchavo político e ao descaramento abusivo, a corte se tornou um espelho das forças que agem sobre ela. Ao invés de ser um polo de poder contra-hegemônico, plural e garantista, o STF cedeu e se tornou igual ao monstro que deveria conter.

As mudanças do STF, pois, espelham o que ocorre com o Brasil.

Recentemente um amigo me chamou à atenção para o voto de Fux, no caso Cesare Battisti. Quando ainda em 2011, no pleno e com Barroso como advogado, Fux votou a favor da liberdade de Battisti (e anuência com a decisão de Lula) afirmando que era um “ato de soberania nacional”. Apenas sete anos depois, Fux dá uma liminar profundamente política (eis que inapropriada sem respaldo em jurisdição da corte) mandando prender o refugiado político italiano. Não é o único caso de mudanças diametrais no entendimento da corte. Carmem Lúcia mantinha uma postura de independência jurídica nos primeiros anos e terminou seu tempo como presidentA do STF domesticada pelo jogo político. Toffoli foi indicado certamente porque acreditava-se que poderia ser um contrapeso à política rasa que sempre tinha sido feita por Gilmar Mendes. Não aconteceu.

Aliás, estes dois personagens (Toffoli e Mendes) apresentam, talvez, as mudanças mais dramáticas de posicionamentos, e nos ajudam a compreender o Brasil. Toffoli se tornou um subserviente peão político cuja função é apenas legitimar as decisões que são provenientes de poder exercido sobre a corte. Gilmar Mendes, ao contrário, de falastrão político (do tipo coronel da república velha), ele passou a defender posições independentes e até corajosas. Não se diga que era em favor apenas do PSDB, porque é possível que seja, mas não temos certeza. Nosso objetivo nesta análise é minorar as incertezas. Contudo, o silêncio de Mendes, nos últimos tempos, é ensurdecedor.

O que provocou todas estas mudanças em todos os ministros da corte em tão pouco tempo? Teria sido apenas “erro do PT”, como gosta de afirmar uma parte da esquerda que nunca teve de fato o ônus do governo?

Eu acho que não. Há que se ter em mente duas “leis” sobre o poder: (1) nunca há vácuo de poder, se alguém que o deveria deter não usa, outro tomará o espaço e (2) o poder sempre provoca atitudes “anti-naturais”. Ou seja, o comportamento do indivíduo A será diferente após exposição ao poder do que seria sem este. E quem exerce poder não vê sentido em exercer para manter as coisas como estão dado que seria um desgaste sem resultado.

A este ponto da argumentação é possível dizer que as mudanças que vemos no micro-espaço do STF, afeito ao exercício do poder em escalas muito maiores do que no resto da sociedade, reflete o objetivo de quem exerce o poder, bem como demonstra quais são suas práticas, valores e estratégias. Mesmo sem querer, o STF pode ser o grande delator daquilo que está por detrás das mudanças que o país vive desde 2013.

O período de Carmem Lúcia na presidência do STF foi o período do golpe liberal. Carmem Lúcia era bajulada pela mídia, tinha frases de efeito para coroar uma retórica inepta e rudimentar e dizia sempre que “as instituições estão funcionando”. O golpe de Temer e as piruetas dadas nos anos seguintes precisavam da teatralidade do STF, que criou termos jurídicos que ficarão na história para legitimar os abusos. “Mutação constitucional”, “a norma como exegese viva da sociedade”, “o direito que ouve os anseios da sociedade” e o legislador como um modificador ativo do país estão entre as reboladas que foram ouvidas no STF para legitimar o fim da presunção de inocência, da hierarquização do direito (que permitia Moro fazer o que quisesse) e, em última análise, a destruição da constituição de 1988.

Os juristas contemporâneos chamam todo este carnaval retórico que age como fantasia a esconder o uso do poder de “poder desconstituinte”. Marx definia isto a ideologia da classe dominante cuja ação superestrutural visa apenas a manutenção da dominação da burguesia sobre o resto da sociedade com reduzido custo material. Seja como for, ainda havia a necessidade da fantasia jurídica. Havia a necessidade do empolamento teatralizado das cortes e das togas. As leis eram parcialmente respeitadas, e se não eram o corrompedor da lei era um juiz, o que garantia que a encenação continuasse. O TRF4 chegou a dizer em sentença que a Lava a Jato NÃO precisava seguir os ritos jurídicos eis que era de “exceção”. A exceção pedia normalização pela retórica dos tribunais, e isto criava uma teatralidade obscena para quem conhece e entende o que se passa. Contudo, emprestava uma legitimidade pornográfica a todos os que não tiveram a sorte de estudar.

Era, como eu disse, o golpe liberal. Ainda os liberais tinham a pretensão de controlar a mudança. Aécio e Alckmin tinham a pachorra de irem para a Avenida Paulista tentar faturar em cima dos movimentos que financiaram a ajudaram a espalhar. Os liberais pensaram, como os girondinos na Revolução Francesa, que seria mais um golpe branco. Que mudariam a presidenta para não mudar mais nada. Era necessário preservar as aparências. As cortes e os juízes ainda tinham serventia. A mudança tinha que ser tanta que a esquerda caísse, e mais nada, para evitar-se transformações não queridas.

Este jogo de dosimetria das mudanças sociais é, normalmente, o grande erro de quem encabeça golpes e rupturas. Geralmente desconhecem a frase de Luís XVI quando tentava fugir do Palácio de Versalhes em plena Revolução. Surpreendido pelo povo na frente da sua carruagem foi inquirido pelo cocheiro a que velocidade deveriam ir. O ainda rei com sua ainda cabeça no lugar teria dito “Nem tão rápido para que pensem que estamos fugindo, nem tão devagar para que achem que é deboche”. Eis aí o grande problema de quem surfa nas massas. O que se tenta é manter as aparências para se conseguir o que a história do Brasil chama de “mudança pelo alto”. Talvez, um dos exemplos mais bem-sucedidos tenham sido nossa própria independência e nossa República. Mudanças para pouco ou quase nada mudar.

Não é, pois, sem sentido que os “liberais” brasileiros pensassem que poderiam fazer isto de novo. Contudo, cometeram um enorme erro.

Nem assumiu e o fascismo já implementa uma diferença radical no STF. Sai a retórica piruetal exegética jurídica e entra o uso duro e frio da exceção como demonstração de poder. Toffoli, que subservientemente aceitou a colocação de um general para lhe supervisionar seus trabalhos, não teve o mínimo de pudor em cassar de forma monocrática a decisão de Marco Aurélio. Segundo amigos me disseram, o fez de forma única. “Nunca antes na história deste país” um ministro tinha sido calado por decisão individual do presidente da casa. Era sempre o pleno. O “pleno” é a fantasia liberal da deliberação como exercício de uma democracia, ainda que mínima. A decisão de Toffoli, amparada por generais que se reuniram, dizem, que no segundo andar do STF, é o descortinar do fascismo. Veja que Toffoli inaugura a hierarquia entre os ministros, tornando o STF uma cópia do exército. Toda e qualquer decisão ministerial agora, está sujeita ao “cumpra-se” do presidente do STF. E sabe-se que Toffoli decide conforme seu supervisor verde oliva lhe ordena. Marco Aurélio, de forma ousada (pelo quê lhe agradecemos, Ministro), expõe o golpe dentro do golpe. Os liberais perderam a mão, o fascismo transforma tudo à sua volta em espelho de si. A destruição da independência e poder dos ministros do supremo obedece ao novo estágio da monstruosidade que Aécio, Cunha e tantos outros libertaram no país.

A ignorância de procuradores pedindo a intervenção no STF é da mesma lavra da felicidade de alguns ministros e juízes com a queda da decisão de Marco Aurélio. É como o peru comemorando o Natal. Se Marco Aurélio denunciou as “manipulações de pauta” para atacar a esquerda e o PT, é preciso que se diga que elas não são tão distantes da “competência estendida” que Mendes e Moro usaram para cassar atos que não estavam em suas esferas de influência. Este “esgarçar” dos poderes nunca é bem-vindo e nunca é contido, exatamente porque os fins não justificam os meios para uma República.

De qualquer forma, não somos mais uma República, e Marco Aurélio mostrou bem isto. Estamos em transformação acelerada para algo monstruoso que a História chama de fascismo. Com o STF, com tudo.

Fernando Horta
No GGN
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A última do brasileiro, pá!

http://www.maurosantayana.com/2018/12/a-ultima-do-brasileiro-pa.html


Em Lisboa, 19 horas.

Nuvens negras se acumulam para os lados da Praça Luis de Camões e relâmpagos brilham, sinuosos, sobre o Castelo de São Jorge.

Um conhecido, capixaba, que vem descendo a pé o passeio, testemunha inesperadamente o encontro de dois cidadãos portugueses, perto da Tasca Maitai, na rua da Rosa.

-Tu por aqui, pá? E sózinho?

Como está frio, cerca de 10 graus, com chuva e uma umidade de 81%, o primeiro parece estar tentando convencer o segundo a tomar uma taça de vinho, ou quem sabe algo mais forte, em um bar próximo, para esquentar o peito, e completa, incisivo, aumentando o tom de voz, com um apelo que lhe parece incontornável:

- Vamos, vamos, que quero comentar contigo a última do brasileiro!

Frase que, dita com tal ênfase, chama, naturalmente, aos brios, a curiosidade de nosso compatriota, que, não tendo nada melhor para fazer no momento, resolve seguir os gajos para dentro de um lugar pitoresco, ali por perto, lotado de gente apinhada em frente a um balcão cheio de espelhos, onde os dois prováveis lisboetas conseguem uma mesa em um cantinho e o Joaquim - à falta de outros usamos aqui os prenomes que sempre utilizamos no Brasil para identificar clássicos personagens portugueses - já matreiro, tirando a capa molhada com um sorrisinho na boca, volta a fazer alusão à última “do brasileiro”.

- Mas qual delas, pá, qual delas? - pergunta nosso suposto Manoel - diz-me logo que já são tantas, mais de uma por dia, ultimamente !

- Ora, a dos aviões, pá, a dos aviões. Não viste que o Temer, no apagar das luzes, acaba de abrir as asas, ou melhor, as pernas, do mercado brasileiro de aviação de passageiros aos estrangeiros?

- Ora meu caro, isso já era de se esperar. Os brasileiros estão como umas cavalgaduras na sofreguidão por entregar o seu ao alheio. Não percebem que a aviação civil é um excelente negócio, desde que esteja estrategicamente ligado, até por uma questão de segurança, também ao Estado, atendendo aos interesses nacionais, ou, em alguns casos, até mesmo continentais, como por aqui é o caso.

- É verdade. Não foi por acaso que o nosso governo comprou mais ações da TAP no ano passado, completando agora os 50% - disse Joaquim, levando pela primeira vez a taça aos lábios, com nosso providencial capixaba encostado ao balcão, meio de lado, com as orelhas em riste, acompanhando o colóquio lusitano.

- O governo português é socialista - retrucou o Manuel - mas não é burro. No mesmo ano a Air Portugal já deu logo 104 milhões de euros em lucro. Em bom brasileiro, quase 400 milhões de reais.

- A TAP. Uma empresa que foi, durante anos, comandada por um gaúcho brasileiro nada burro, o Fernando Pinto, que acaba de se aposentar. Ficou mais de 15 anos por aqui, vindo de uma empresa antiga, te lembras, que operava em quase todos os aeroportos do mundo e tinha uma rosa dos ventos no rabo das aeronaves, chamava-se VARIG ou BARIG, não me lembro mais...

- Ficando os outros 5% para os funcionários da TAP e 45% para o Atlantic Gateway…

- Um consórcio comandado por outro brasileiro também nada burro, pá, já que é também estadunidense, o David Neeleman...

- Que como li, se colocou contra a abertura indiscriminada do mercado aos concorrentes estrangeiros, ainda mais sem a exigência de nenhuma reciprocidade, como foi feito, aconselhando que o limite fosse de no máximo 49%...

- Como é no outro país dele, os Estados Unidos, onde, por lei, nenhuma empresa estrangeira pode ter mais do que 49% em companhias locais, senão não pode entrar no mercado norte-americano.

- Ou aqui, na Europa, onde a União Europeia proíbe, também por lei, que empresas que não sejam estatais ou não pertençam a capitais europeus, ou a cidadãos nascidos em países da UE, tenham mais de 50% do controlo de qualquer companhia aérea de transporte de passageiros.

- Mas os brasileiros são burros, pá…. - tornou o Manuel, pensativo - ainda acreditam em lorotas como a da livre iniciativa. Mal sabem eles que a liberdade da tal mão invisível do mercado acaba onde começam os interesses dos grandes países e blocos econômicos que têm vergonha na cara.

- Aquela mãozinha sacana dos mercados que onde não tem controlo está sempre enfiada no bolso de trás dos consumidores. A mexer na carteira deles ou a apertar, lascivamente, suas nádegas.

- Como faria o tal do João de Deus - riu Manuel - para continuar com as atualidades de além-mar !

- E a Embraer, pá, não viste como estão encaminhando mal o tema?

- Entregando a companhia de mais alta tecnologia que têm à Boeing, a preço de bananas?

- Sim. Com a justificativa de que a Bombardier canadense também se aliou à Airbus.

- É. Mas a mídia lastimável que os gajos têm no Brasil não explica que a Bombardier canadense tem participação estatal e que o Canadá só vai abrir mão de 50% da nova empresa, porque a tal "aliança" por lá é meio a meio.

- Enquanto a Embraer está entregando o futuro do negócio e 80% das ações para os norte-americanos, com uma claúsula de eventual venda dos outros 20%.

- Com isso os asnos não vêem que a Boieng já se livra, a longo termo, de um futuro concorrente, que já estava fabricando aviões médios, de 120 lugares.

- E que daqui a uns dois ou três anos a Boeing pode fechar as fábricas da Embraer no Brasil e transferí-las aos EUA, engolindo os canarinhos de camisola amarela da seleção 1 x 7.

- Como faria qualquer bom gavião, pá, já que estamos em assuntos aéreos.

- E alcóolicos e etéreos - retrucou Joaquim, filosoficamente - fazendo um sinal ao moço para trazer mais uma taça de vinho.

- Mas o pior de tudo são as desculpas - continuou o Manoel, dando uma boa gargalhada.

- Eu vi, eu vi. Estou acompanhando na Tv a cabo os “especialistas” comprados, que sempre estão à mão para justificar este tipo de engodo e garantir, como diria o Noam Chomsky, a fabricação do consentimento. Estes teimam em dizer que sem o "acordo", melhor dizendo sua rendição à Boieng, a Embraer não sobrevive no mercado.

- Como se a Embraer não tivesse acabado de bancar, sozinha, o desenvolvimento de toda uma nova família de aviões civis para até 120 passageiros, a E-2, muito mais moderna, segura e econômica, sem precisar de ajuda ou parceria de nenhuma companhia estrangeira.

- E não estivesse a colher os frutos desse gigantesco projeto com um tremendo sucesso de vendas nos principais salões aeronaúticos.

- Só no Farnbourough Airshow na Inglaterra, neste ano, a Embraer vendeu 300 aviões, em contratos que podem render até 15 bilhões de dólares.

- Que agora irão para o bolso dos norte-americanos.

- Sem falar nas vendas da semana passada, quando a Embraer vendeu de uma só vez - também sem precisar da Boeing nem de nenhuma outra empresa estrangeira para isso - 100 aviões de médio porte para a Republic Airways dos Estados Unidos em uma única canetada.

- Fora os 21 jatos que vendeu à Azul, do David Neeleman, também nos últimos dias, não te esqueças, por 1.4 bilhão de dólares.

- Ora...o amigo acha que se as grandes empresas de aviação regional estivessem preocupadas com o futuro da Embraer estariam comprando os aviões dela dessa forma?

- Quer dizer, os brasileiros investem durante dezenas de anos sangue e suor e bilhões de dólares em dinheiro público para matar o leão e construir a terceira maior fabricante de aviões do mundo.

- E na hora de comer o felino - completou Manuel - põem a mesa de gravatinha borboleta e creminho no cabelo e servem tudo à francesa para os gringos.

- É que a moda agora no Brasil é acreditar na conversa fiada de que são incompetentes e que estão quebrados. Duas excelentes desculpa para todo tipo de corrupção e de negociatas.

- Afinal, só um país de idiotas vende o controlo de sua mais avançada empresa de tecnologia por 5 bilhões de dólares.

- Quando tem 380 bilhões de dólares - mais que o nosso PIB português - só em reservas internacionais.

- 250 bilhões desses 380 bilhões de dólares, diga-se de passagem, emprestados justamente para os norte-americanos, que são quem está levando para casa a EMBRAER na bacia das almas.

- Acredito que só com as encomendas deste ano a Boeing lucra os 5 bilhões de dólares que vai pagar pela Embraer. A empresa vai sair de graça.

- Ora, se a intenção é atingir escala aliando-se à Boeing, o governo brasileiro devia pegar 5 bilhões de dolares das reservas internacionais, que ao final não fazem a menor diferença diante do total, dá menos de dois por cento, e capitalizar a EMBRAER no mesmo montante da Boeing, ficando com peo menos 50% do negócio e com uma empresa muito maior do que a que o Brasil já tem.

- Mas isso, está claro, não se pode fazer. Seria coisa de comunista estatizante.

- Se vê muito bem que a razão não é empresarial. A questão é não perder a oportunidade de mostrar como são abjetos e como esse “novo” Brasil se rebaixa caninamente aos interesses de tudo que é norte-americano !

- Além de se estar fazendo o mesmo com o KC-390, o novíssimo cargueiro militar feito pra substituir o Hercules C-130 do qual também participamos do desenvolvimento, junto com os brasileiros, os argentinos e a República Tcheca.

- No princípio diziam que o negócio só abrangeria os aviões civis e agora vão chamar a Boieng também para ser sócia na fabricação desse avião, o maior já produzido pela indústria brasileira, que está mais voltado para operações de defesa.

- Nos dois casos o que importa é saber se o governo brasileiro vai conservar a ação de mando na EMBRAER, impedindo que a Boieng amanhã desmonte as fábricas e as leve para os Estados Unidos.

- Como a própria Embraer teve que fazer quando transferiu a fabricação de Super Tucanos vendidos para EUA para a Flórida, sendo obrigada a fazer uma joint venture minoritária com uma empresa americana, a Sierra Nevada, porque os EUA - que já avisaram que querem que o KC-390 seja montado nos EUA - proíbem a importação de armamento para suas forças se não forem construídos em território norte-americano e por empresas majoritariamente norte-americanas.

- É óbvio. Já que os norte-americanos não são estúpidos como os brasileiros, ou a massa ignara e manipulada deles, sempre enganada pela mídia.

- Como se diz por lá, os gringos não dão ponto sem nó, pá !

- Como estão fazendo no caso da Petrobras, a outra grande empresa brasileira de tecnologia.

Arrebentando com a empresa nos tribunais dos EUA com a desculpa da corrupção e se apropriando das reservas de petroleo que ela descobriu com tecnologia própria para suas próprias grandes empresas como a EXXON, com isenção de impostos de dezenas de anos.

- Pobre Brasil… - suspirou o Joaquim, desconsoladamente - aquele baixinho, que tem uma estátua em Le Bourget, na França…

- Quem, o tal Santos Dumont ?

- Deve estar revirando-se no túmulo…

- Afinal, o que não se pode compreender, pá, é como um país tão grande….

- Com 8.5 milhões de quilômetros quadrados e um território e um espaço aéreo maiores que o da Europa inteira.

- E mais de 200 milhões de habitantes com a quinta maior população do mundo…

- Com 380 bilhões de dólares em reservas internacionais e uma das dividas mais baixas do planeta com relação ao PIB entre as 20 maiores economias.

- Consegue ser....

- E pensar…

- Tão pequeno !

- Ah se a Embraer fosse portuguesa...- concluiu Joaquim - pontuando a discussão com um gole que levou até a última gota de vinho e colocando, decisivamente, quase que de forma abrupta, a taça vazia sobre o pano da mesa - e então, pá, vamos embora ou mudamos de assunto?

A essa altura o nosso capixaba, já tendo pago a conta, não se aguentando mais de curiosidade, decide aproximar-se da mesa, e com a capa ao ombro, pendurada no dedo, já de saída, pergunta de sopetão, arriscando-se a levar um chega pra lá ou uma má resposta dos gajos:

- Os senhores vão me desculpar, mas antes de tomarem essa decisão, posso saber como entendem tanto de tudo isso ?

- Porque somos técnicos aeronáuticos, ó brazuca! Trabalhamos para uma subsdiária da EMBRAER daqui de Portugal, em Évora, e viemos passar o final de semana.
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‘O Mourão vai ser presidente da República’. Um drink com o mentor do vice de Bolsonaro

"Mourão é a estrela", diz o general Paulo Assis (à direita), ex-comandante do vice-presidente eleito e de Bolsonaro no Exército. 
Foto: Arquivo Pessoal/Paulo Assis
Noivas costumam atrasar em casamentos. Mas a noiva do PRTB, o general Hamilton Mourão, não é assim. Ele chegou pontualmente às 20h, o horário marcado no convite, para o jantar em comemoração aos 25 anos do partido – ao qual se filiou em março deste ano e se tornou a principal aposta ao se eleger vice-presidente ao lado de Jair Bolsonaro.

Tal qual uma noiva, o vice-presidente eleito foi conduzido mesa a mesa para saudar os convidados ao lado de dois companheiros orgulhosos: Levy Fidélix, o presidente do PRTB, e Alvaro Dias, senador do Podemos derrotado na corrida presidencial deste ano.

No ápice da noite, o general foi levado ao palco montado no centro da Casa Petra, luxuoso salão de festas de Moema, bairro de classe média alta em São Paulo. Estava em frente a uma tela com sua foto, uma bandeira do Brasil e a frase “Meus heróis NÃO morreram de overdose”, referência à música que, sem a negativa, se tornou famosa na voz de Cazuza. Discursou por sete minutos. Neste tempo, foi fotografado, filmado e ovacionado por deputados e senadores eleitos, militares, empresários e ruralistas, todos ávidos para se aproximar e tirar uma selfie.

No discurso, ele agradeceu por ter sido acolhido na “família do PRTB” e falou sobre a necessidade de aprovar reformas da previdência e tributária, “senão em 2022 o governo fecha”. Encerrou com uma frase de efeito: “Vai ser difícil. Mas, aos melhores, as missões mais difíceis”. Aplausos. O casamento foi selado.

Nenhum dos cerca de 200 convidados do jantar tinha dúvidas de que estava perto do próximo presidente do Brasil. E esta pessoa era Mourão. Bolsonaro mal foi citado durante toda a festa.

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Na convenção do PRTB, não havia nem espaço para citações a Bolsonaro. Mourão era o herói máximo.
Foto: Amanda Audi

Em uma mesa ao lado do palco estava sentado o general Paulo Assis, ex-comandante de Mourão no Exército em duas ocasiões e amigo de longa data. Bebericando latinhas de Heineken, o militar da reserva acenava com orgulho todas as vezes em que era mencionado nos discursos. Estava sendo celebrado por ser o responsável por duas façanhas: levar Mourão para a política, filiando-o ao PRTB; e fazer a ponte para que ele se tornasse vice de Bolsonaro.

Venerado pelos convidados da festa, Mourão prestou reverência apenas a Assis e Fidélix, em sinal de lealdade. Com Assis, comportou-se com o respeito e a intimidade de um filho com o pai.

Fui levada até Assis, seu mentor, por Fidélix – ambos são amigos de longa data. Eu havia perguntado como foi a negociação para que Mourão, disputado por vários partidos, escolhesse a sua legenda, pequena e pouco expressiva – nas eleições deste ano não conseguiu eleger nenhum deputado, nem mesmo o criador do partido. “O culpado é aquele senhor ali”, me disse Fidélix, o característico bigode preto tremendo de orgulho.

General Assis demonstrou animação para contar a história. Ao longo da conversa, ia me mostrando fotos e mensagens no celular, de modo a provar o que dizia. Eram imagens dele e de Mourão servindo juntos. “Veja, que jovem”, me apontava o rosto de um Mourão aos 30 e poucos anos, de óculos de sol, em meio a um grupo de militares. Em outra, os dois estavam lado a lado na selva amazônica. As fotos haviam sido enviadas a ele pelo próprio vice-presidente por WhatsApp.

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Fotos: Arquivo Pessoal/Paulo Assis


Quando perguntei o que esperava de Mourão no governo, a resposta veio firme: “o Mourão vai ser presidente da República”. Em 2022 ou antes – caso “algo” aconteça com Bolsonaro. “Tudo pode acontecer. Ele é o vice, é o único que foi eleito. Os ministros todos podem sair, ele não. Vai ficar até o último dia”, vaticinou.

Assis ocupa posição de destaque na equipe de transição do governo, que vem se reunindo em Brasília, para tomar pé da situação atual e planejar os próximos quatro anos. Foi indicado da cota pessoal de Mourão, assim como Fidélix. Ele se considera “conselheiro” do vice-presidente. “Quando ele me perguntar ‘qual será a sua posição [no novo governo]?’, eu vou falar que sou conselheiro”.

Aos gritos – pois estávamos ao lado da banda country que animava o jantar –, o ex-comandante me contou que Bolsonaro sondou Mourão para ser o seu vice há dois anos, na época em que o militar passou à reserva e se tornou conhecido por suas falas corrosivas contra o PT e semi-intervencionistas.

A frase que ficou mais famosa era sobre uma possível intervenção do Exército na política brasileira: “Ou as instituições solucionam o problema político pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos, ou então nós teremos que impor isso”. Isso ocorreu em 2017, quando o presidente Michel Temer estava às voltas com denúncias no Congresso. Mourão foi chamado a se explicar e, cinco meses depois, passou à reserva.

Mourão se mostrou interessado, mas o convite acabou ficando em banho-maria. Em abril deste ano, Fidélix procurou Assis para que convencesse Mourão a se lançar presidente pelo PRTB. Disse que iria abrir mão da própria candidatura porque acreditava na força do general.

Em uma reunião a três, Mourão negou o convite porque já havia se comprometido com Bolsonaro. Foi convencido por Assis a seguir um caminho alternativo: se filiaria ao PRTB para ficar na chamada ‘regra três’. Estavam contando que a candidatura de Bolsonaro não iria decolar, ou ele seria impedido de concorrer, e então Mourão poderia assumir o espaço deixado por ele.

“Falei [pra Mourão]: ‘eu acho que o Bolsonaro não vai se eleger, por causa do caso da Maria do Rosário e tal’ [o presidente eleito responde a dois processos no Supremo Tribunal Federal por ter dito à deputada gaúcha que que não a estupraria porque ela “não merecia”]. Falei pra ele: ‘Mourão, dispute a presidência se o Bolsonaro não concorrer. Porque não é bom ter dois candidatos a presidente militares. Se o Bolsonaro cair, nós apoiamos você’”, disse Assis. No dia seguinte, ele e Mourão se filiaram juntos ao PRTB.

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“Vai ser difícil. Mas, aos melhores, as missões mais difíceis”, discursou Mourão ao lado do presidente do PRTB, Levy Fidélix
Foto: Amanda Audi

O 5º na fila

Pouco tempo depois, Assis encontrou Bolsonaro em um aeroporto. Ele também foi comandante do presidente eleito durante um curto período de tempo. Perguntou a ele se o convite a Mourão ainda estava de pé. “Ah, não, chefe, eu não posso abrir mão de 45 milhões de evangélicos, que é o Magno Malta”, Bolsonaro teria respondido a ele, citando o senador pelo Espírito Santo, íntimo de líderes evangélicos como Silas Malafaia. Informou que iria chamar Mourão para ser ministro da Defesa.

Malta, que chegou a ser chamado por Mourão de ‘elefante branco na sala’, acabou não aceitando o convite para ser vice. Também minguaram as tratativas com o general Augusto Heleno, com a advogada responsável pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, Janaína Paschoal, e com o “príncipe” Luiz Philippe de Orleans e Bragança, parte do que restou da família real no Brasil. O nome de Mourão foi tirado novamente da cartola na véspera da convenção do PSL, em que a chapa de Bolsonaro deveria ser oficializada. Mas ainda havia resistência dentro do PSL.

“O PSL não queria o Mourão”, disse Assis. “O Mourão é estrela.” Perguntei três vezes o que ele queria dizer com isso, mas ele se esquivou: “Ah, não importa”. Depois mudou de assunto.

Ainda de acordo com ele, Bolsonaro teve que ameaçar renunciar à candidatura caso seu partido não aceitasse o general como vice. Acabou dando certo no último momento para o registro da chapa.

“O Mourão me ligou 7h da manhã no dia da convenção. ‘Chefe, acabei de ser convidado para ser o vice do Bolsonaro. E não consigo falar com o Levy’. Eu falei: ‘se o Bolsonaro ou o [Gustavo] Bebianno não falarem com ele, não vai fechar’”, contou. Mesmo como civil, o dever de hierarquia militar mandava que a negociação fosse feita com o presidente do partido. Sem isso, Mourão estaria desrespeitando a autoridade.

Bolsonaro estava desde cedo tentando formalizar o acordo com Fidélix, mas o celular dele estava desligado. Conseguiu localizá-lo no telefone da esposa. Isso aconteceu pouco antes do início da convenção, às 9h do dia 5 de agosto. Na festa, Assis aparece no palco ao lado de Mourão, Bolsonaro, Bebianno e Fidélix.

Em seu discurso durante a festa de sexta passada, o vice-presidente eleito também falou sobre a costura do acordo com o PRTB. “Meu amigo Paulo Assis, meu comandante, me apresentou o Levy. E aí estabelecemos um pacto. Muito bem, Levy, eu entro no seu partido. Seu partido é de retidão, de honestidade. O Levy diz: ‘é limpo’. E a nossa única visão é que caso o Bolsonaro necessitasse do nosso apoio, nós estaríamos juntos”.

Durante todo o tempo em que conversamos, ficou claro que Assis não confia na capacidade de Bolsonaro de resistir até o último dia de governo. Quanto mais disputar a reeleição em 2022. Ele diz que o seu pensamento reproduz o da classe militar, que apoia Bolsonaro, mas com reservas, por causa de seu temperamento belicoso.

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Na festa em que Mourão foi oficializado como vice de Bolsonaro, o general Assis (terceiro da esquerda para a direita) aparece no palco ao lado de Bolsonaro, Bebianno e Fidélix.
Foto: Arquivo Pessoal/Paulo Assis

Punição em caso de corrupção

Ao chegar ao jantar, Mourão participou de uma reunião com lideranças por cerca de 20 minutos. Depois não teve mais sossego. Não conseguiu sentar-se à mesa e nem comer os aperitivos que estavam sendo servidos (ceviche de peixe branco, tapioca com mel e canudinho de carpaccio).

Consegui conversar com ele por alguns minutos, de pé, no meio do salão. Perguntei quais seriam seus primeiros atos como presidente, já que irá ocupar o lugar de Bolsonaro ainda em janeiro, quando o presidente deverá se ausentar para fazer uma cirurgia. “Vou manter as ordens em vigor. Nada mais do que isso. Não vou fazer nada de minha iniciativa. Vou manter aquilo que ele tiver determinado”, disse, em tom respeitoso.

Também lhe perguntei se ele defende punição caso algum integrante do governo esteja envolvido em escândalos de corrupção. “O presidente já disse isso, que defende a punição. E eu também já disse”, respondeu. Perguntei se isso valia mesmo se os envolvidos fossem o filho do presidente, ou o próprio, como vem se anunciando o caso do motorista Fabrício Queiroz – a convenção aconteceu oito dias depois de uma reportagem do jornal o Estado de S.Paulo ter revelado que o ex-funcionário de Flávio Bolsonaro fez movimentações suspeitas de R$ 1,2 milhão, em um ano, e depositou parte para a primeira-dama Michele Bolsonaro. “O presidente já disse isso”, repetiu.

Mourão disse ainda não saber quem do círculo pessoal do presidente deseja vê-lo morto, como foi dito por Carlos Bolsonaro. “Sinceramente, não sei. Tem que perguntar pro filho dele”, irritou-se. Logo foi puxado para tirar fotos com apoiadores. Foi embora da festa cedo, sem comer nem beber. Nem mesmo chope, que gosta de tomar em momentos festivos.

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Após passar por oito partidos, o senador Alvaro Dias (no centro, de azul) deve formalizar a adesão ao PRTB em breve.
Foto: Amanda Audi

Dias de glória para o PRTB

A ambição dos perretebistas se tornou palpável. Fidélix afirma que, pela primeira vez, ele e sua equipe estão sendo ouvidos pelos integrantes do novo governo. Acredita que desta vez suas ideias sairão do papel. Uma delas, a mais famosa, é a do aerotrem. O trem-bala que vai ligar várias capitais do país é o mote de campanha de Fidélix desde que formalizou o PRTB, em 1994. “Eu não vou te dar uma frase para você colocar na manchete, mas estamos discutindo mobilidade urbana, sim.”

Com a boa popularidade de Mourão, o presidente do partido estima que conseguirá a adesão de pelo menos mais 10 deputados eleitos. Com isso, acredita que irá superar as limitações da cláusula de barreira, norma que restringe a atuação de partidos que não atingiram um índice mínimo dos votos nacionais, e com isso voltar a ter acesso a recursos do fundo partidário e de tempo de propaganda na TV –  até novembro o partido arrecadou R$ 4.192.229,20, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral.

No fundo, este era o real motivo do evento: paparicar Mourão para atrair possíveis pretendentes à legenda. Ao lado do vice-presidente eleito no palco do salão de festas, Fidélix mal continha as lágrimas de emoção.

No jantar dos 25 anos do partido, um vídeo mostrou a trajetória da sigla: do começo apoiando Jânio Quadros, ainda como Movimento Trabalhista Renovador, à participação na campanha de Fernando Collor, da qual Fidélix foi assessor. Jânio e Collor são os grandes ídolos do político.

Mesmo contente com o presente de sucessos inesperados, O PRTB olha para o futuro: seu novo trunfo é um recauchutado Alvaro Dias. O senador deve formalizar a adesão ao partido – o 9º de sua carreira – em breve. Ele foi apresentado no evento como “a voz do partido no Senado” e recebeu o boas-vindas de parte dos convidados.

No que depender de Dias, será um embarque silencioso. Durante a campanha, ele atacou Jair Bolsonaro duramente. Foi flagrado em um vídeo chamando o adversário de “bandido”. Quando me aproximei para falar sobre os novos ares, ele se negou a me receber. “Não estou falando com ninguém desde a eleição e não vou falar até fevereiro. O silêncio fala mais alto. O silêncio é retumbante.”

Amanda Audi
No The Intercept
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Brylcrem Toffoli, a guerra apenas começou

O Governo (sic) Bolsonaro prenuncia embates violentos nas ruas


O Conversa Afiada publica artigo sereno (sempre) de seu colUnista exclusivo, Joaquim Xavier, na sereníssima companhia do destemperado Bessinha:

A não ser que se imagine o povo brasileiro como uma manada guiada por um cajado e cães ladrando, o roteiro já está traçado. O grau de atentados à Justiça, ao dinheiro público, à economia e aos costumes já cometidos pela “famiglia” Bolsonaro (cadê o Queiróz?) e seu gabinete, mesmo antes de assumirem, prenuncia um enfrentamento de grandes proporções.

O supreminho mostrou mais uma vez ter virado escritório de advocacia do capital abutre. Só para não beneficiar Lula, José “Brylcrem” Toffóli cassou liminar irrefutável do ministro Marco Aurélio. Sem nenhuma fundamentação jurídica digna desse nome. “Risco à ordem pública”.

Em nome disso, até 170 mil brasileiros encarcerados sem culpa comprovada permanecem nas pocilgas presidiárias à disposição das facções criminosas.

Tóffoli simplesmente omitiu do distinto público que o caso está para ser julgado desde...dezembro de 2017, por causa de manipulações na pauta. Será que este cidadão desconhece o que significa um dia que seja alguém ser privado privado de liberdade, direito que só não é maior que o direito à vida?

Provavelmente desconhece.

Ninguém se esqueça que o senhor. agora de cabelo engomado foi reprovado – tomou pau — em dois concursos para juiz. Não se assuste, porém.

O supreminho que está aí pode ser tudo, menos exemplo de saber jurídico ou excelência acadêmica, ressalvadas exceções de sempre.

Em clima de fim de feira, o governo Michel Temer, acusado de ladrão em inúmeros capítulos do Código Penal, corre para quitar dívidas com quem o acompanhou no golpe de 2016. Entrega a Embraer à Boeing, doa o pré-sal às petroleiras internacionais, aprova aumentos para seus compadres da justiça e distribui bombons aos municípios por intermédio do pitoresco Rodrigo Maia. É o baile da Ilha Fiscal em versão atualizada.

A barulheira destas chicanas abafa o som de coisa ainda mais importante em preparação. No escurinho do gabinete de transição, Paulo Guedes (acusado de crimes) e seus asseclas finalizam o desenho do que pensam em transformar o Brasil. Querem vender tudo. Destruir o direito a uma aposentadoria digna para aplauso da previdência dos bancos. Liquidar as escolas técnicas. Acabar com o SUS. Criar uma nova “carteira de trabalho” para escapar da CLT.

Até agora, as medidas da “famiglia” e seus cúmplices só assustam uma fatia da população um pouco mais informada.

A partir de janeiro, elas chegam ao chão de fábrica de um país de cerca de 40 milhões de desempregados de fato, 7 milhões de famílias sem ter onde morar.

Macron, na França e Macri na Argentina já sentem os efeitos de políticas iguaizinhas às que a “famiglia” Bolsonaro e seu Rasputin Guedes preparam para o Brasil.

E por aqui, não só não há pão, muito menos brioches.

Joaquim Xavier
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O Itamaraty e os ventos da ignorância

Entre os muitos retrocessos já anunciados pelo presidente eleito e sua equipe, em áreas diversas, tem causado especial e justificado escândalo entre especialistas o prometido cavalo de pau na política externa.

Isso porque o Brasil sempre procurou manter certos parâmetros em suas relações exteriores, preservando o Estado nacional de eventuais guinadas promovidas por governos, que são sempre conjunturais. Preceitos como a não intervenção, o respeito à autodeterminação dos povos e nações, a cultura da paz e o respeito ao multilateralismo têm sido marcas da atuação do Itamaraty, independentemente das identificações políticas e ideológicas dos governantes. É o que se chama política de Estado.

Essa tradição, que elevou o Brasil à condição de voz respeitada na cena internacional, corre sério risco. O ministro das Relações Exteriores indicado por Jair Bolsonaro, Ernesto Araújo, carece de requisitos mínimos para o posto e destila um revanchismo ideológico que pode custar muito caro em termos políticos e de parcerias comerciais. Some-se a isso a ameaça de rompimento com os pactos internacionais dos quais somos signatários, levando ao risco de isolamento do país.

É o que se vê, por exemplo, na alardeada retirada do Brasil do Pacto Global de Migração, da ONU. O acordo, firmado por 160 países, elenca questões de direitos humanos a serem observadas, traz propostas para a integração de migrantes aos países e de cooperação internacional sobre o tema, sem que o país que recebe tenha de renunciar à soberania. Trata-se de um avanço, num mundo em que os migrantes são estimados em mais de 258 milhões de pessoas. É uma questão humanitária de grande relevância para a qual o Brasil, ironicamente um país de migrantes, ameaça virar as costas.

Bolsonaro também já falou em retirar o país do Acordo de Paris, que trata das mudanças climáticas e propõe medidas para conter o aquecimento global, no que foi duramente criticado por outras nações e mesmo por setores do agronegócio nacional, que sabem que ficariam sujeitos a barreiras em mercados externos.

Ignorar os impactos globais do aquecimento é negar tudo o que a ciência tem produzido sobre o tema e renunciar ao papel de um país como o Brasil em contribuir para as soluções. É claro que qualquer governo sempre terá a prerrogativa de propor alterações que salvaguardem interesses do desenvolvimento do país, mas a ameaça de rompimento demonstra o viés autoritário e isolacionista com que se trata a questão.

Suprassumo da ideologização das relações exteriores, o novo governo fala em mudar a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, uma agressão despropositada às nações do mundo árabe. De saída, a mera cogitação rendeu um cancelamento de missão comercial ao Egito. Mais recentemente, a Liga Árabe reafirmou que tal medida poderá, sim, acarretar em prejuízo nas relações diplomáticas e comercias do Brasil com aqueles países. A ideia é mesmo tão fora de propósito que o próprio vice-presidente eleito, General Hamilton Mourão, disse em entrevista que ela precisa ser melhor estudada, pois teria potencial para colocar o Brasil na mira do terrorismo internacional. Ou seja: não ganhamos nada aderindo a um lado nesse conflito, mas tendemos a perder muito.

O revanchismo ideológico está presente no injustificado desdém para com o Mercosul, categoricamente dito pelo futuro ministro Paulo Guedes, o que levou a chanceler alemã, Angela Merkel, a afirmar que a postura do novo governo brasileiro dificulta o acordo comercial entre a União Europeia e o bloco sulamericano.

Chegamos ao paroxismo com a retirada do convite para que Cuba e Venezuela estivessem representadas na posse de Jair Bolsonaro, atitude tão prosaica e infantil que fica difícil acreditar que partiu de um chefe de Estado. Um país que é tratado com ofensas pelo presidente eleito não precisa ser “desconvidado”, apenas não viria mesmo – como, aliás, também não virá Donald Trump, tão festejado pelo bolsonarismo. O preconceito nunca foi bom conselheiro e já produziu um grave prejuízo aos brasileiros com a retirada de Cuba e milhares de seus profissionais do programa Mais Médicos.

Como se vê, um governo que ainda nem assumiu já produz rachaduras na bela edificação política construída pelo Itamaraty em seus 200 anos de história. Que as fundações erigidas por mentes brilhantes como Rio Branco, Oliveira Lima, Rui Barbosa e tantos outros sejam fortes o suficiente para resistir aos ventos da ignorância.

Orlando Silva é deputado federal e líder do PCdoB na Câmara.
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