17 de dez de 2018

A entrevista de Lurian


Lurian (pronuncia-se Lurián) parece ter aquela notável capacidade das pessoas simples de resistir às piores tragédias. Assim como o pai, Luiz Inácio Lula da Silva, não se deixa consumir pela indignação, o ressentimento ou a desesperança. Segue o jogo, confiante na virada improvável. De pessoa despachada, está agora mais reclusa, “com vontade de ver filmes e ficar com a neta”. Aos 44 anos, é mãe de Beatriz, de 23, e João, de 14. Avó de Analua, de 1 ano e 8 meses, esforça-se como pode para que ela não se esqueça do bisavô, preso há mais de sete meses. Para tanto, recorre a um peso de porta, um Lula de feltro recheado de pedras. Analua segura o boneco nas mãos. No esperanto dos bebês, despacha com o ex-presidente.

Lurian Cordeiro Lula da Silva ficou famosa aos 15 anos. Em 1989, sua mãe, Miriam, apareceu na campanha presidencial de Fernando Collor de Mello a afirmar que Lula “me ofereceu dinheiro para abortar”. Depois do parto, disse, entregou a filha “no colo” dele: “Agora você mata”. Lula perdeu a eleição. O episódio entrou para a história política do País como uma de suas passagens mais deploráveis. “Fui citada como filha bastarda”, diz Lurian. “Que filha bastarda, se o declarante da minha certidão de nascimento era ele?” O episódio é superado entre mãe e filha. Lula nunca mais falou com Miriam Cordeiro.

Jornalista, não chegou a trabalhar em uma grande redação. “Que jornal daria emprego a uma filha do Lula?” Assim como já se disse que o irmão era dono da Friboi, Lurian foi acusada de ser proprietária de uma ONG que teria recebido repasse de 9 milhões de reais do governo Lula. Seria dona, ainda, de uma pioneira fábrica de tomadas de três pinos, motivo pelo qual papai teria mudado o padrão brasileiro. Lurian nunca teve uma ONG. Jamais fabricou tomadas. É assessora da deputada estadual Rosângela Zeidan (PT-RJ) e, desde o ano passado, presidente do PT de Maricá, no Rio de Janeiro.

“Maricá é uma merda de lugar”, disse o ex-prefeito do Rio Eduardo Paes (DEM), durante conversa com Lula interceptada pela polícia. A cidade da Região dos Lagos parece de fato não gozar de grande cartaz. “Outro dia, uma pessoa disse: ‘Você é filha do Lula, o que está fazendo aqui em Maricá?’ Respondi: ‘Eu moro aqui, uai.’ Ela: ‘Mas então você tem uma irmã que está rica, não?’ ‘Não. Nem rica nem pobre, tampouco irmã, já que só tenho irmãos.’” Lurian recebe salário líquido de cerca de 5 mil reais, mora em um apartamento financiado, e tudo que possui é um Ford Fiesta, cujo ano não faz ideia.

Na segunda-feira 26, Lula foi novamente denunciado, dessa vez por lavagem de dinheiro em negócio na Guiné Equatorial. “O que se pretende é que Lula morra”, comentou a presidente do PT, Gleisi Hoffmann. No mesmo dia, Lurian sugeriu “uma delicatessen muito boa” em Niterói para a conversa com Carta Capital. Tratava-se, a bem da verdade, de uma conveniência de posto de gasolina, o que talvez tenha deixado este repórter sugestionado com relação à simplicidade de sua interlocutora. Lurian comeu tapioca e misturou o suco com a faca. Fez questão de pagar a conta, para o que recorreu a um conjunto de notas de 2 reais completamente amassadas em sua carteira. Antes, concedeu a seguinte entrevista.

CartaCapital: Como está se sentindo vendo seu pai na cadeia?

Lurian Cordeiro Lula da Silva: Esse processo deixou a gente mais duro em nossas relações. Eu me sinto com menos paciência, mais ansiosa, mais emotiva. Sou pisciana, então choro mesmo. Mas a pancada é tão forte, que você cria um casco. Tudo que acontece depois parece menor. De qualquer jeito, sempre que vou vê-lo saio mais forte.

Ele está bem?

Ele não está deprimido, está bem, sim, ainda que muito indignado. A gente sempre vai nas visitas imaginando que ele pode estar triste, que cada dia é um dia, que deve estar se cansando daquilo… Mas, não, ele está persistente, quer a sua inocência, ou alguma prova de culpa. Isso me dá muita força para continuar a defendê-lo. Embora, nas redes sociais, eu acabe bloqueando todo mundo…

Por quê?

Porque, desde a reeleição da Dilma, a coisa tomou uma dimensão de ódio. Cresci numa geração de São Bernardo do Campo em que a maioria dos pais dos meus amigos eram malufistas. Mas eu ia na casa deles e perguntavam como estava meu pai. Diziam: “A gente não vota no seu pai, mas a gente gosta dele, a história dele é muito legal”. Tinham respeito e admiração, mesmo que houvesse divergência. Hoje não tem mais isso. Nunca me xingaram na rua, mas nas redes sociais sempre há um comentário babaca.

O ódio que se instalou no Brasil é culpa das redes sociais?

O vício nas redes está desnorteando as pessoas. Se um famoso termina um relacionamento, vai todo mundo dar pitaco. Se esse famoso começa a namorar outra, as pessoas vão lá agredi-lo. É uma loucura completa. Pelo menos serve para mostrar a cara de muita gente, que ficou à vontade para dizer o que pensa. E, ao negar o politicamente correto, revelaram-se machistas, homofóbicos, fofoqueiros.

A internet promove o grande encontro dos malucos. Se antes o sujeito se achava sozinho, agora ele sabe que muitos pensam como ele.

Vejo o ódio muito mais do lado de lá do que do lado de cá. Mas também tem gente do nosso campo que acaba por cometer excessos. Por que invadir a vida pessoal dos outros, sejam fascistas, de direita ou de esquerda? Não interessa quem bebe, quem cheira, quem trai. Interessa que haja educação, desenvolvimento econômico, essas coisas que estavam transformando a vida das pessoas. Agora não tem mais isso e, além do quê, as pessoas acabaram com as relações. Com quantos amigos você brigou? Eu não briguei, mas bloqueei, excluí. O mundo vive uma situação crítica que transcende a política.

Há pouco tempo você devia falar com grande orgulho do seu pai. Hoje é um constrangimento?

Não sinto constrangimento, mas medo. A gente vê pessoas agredindo, ofendendo, ameaçando, e fico com receio, inclusive da minha própria reação, porque, dependendo do que digam, sei que vou elevar o tom.

Isso já aconteceu?

Graças a Deus, não. Outro dia estava no aeroporto e veio um senhor: “Você é a Lurian?” Contei até dez. “Sou”. Aí era um eleitor do Haddad. Pensei: “Amém, Jesus”.

Alguém da família passou alguma situação mais complicada?

Não sei. Eu e meus irmãos somos muito resguardados, não damos entrevistas, até fotos evitamos. Para a gente é importante esse descanso.

Como foi para vocês o momento da prisão do seu pai?

Ele tinha consciência de que ia se entregar. Dizia: “Não vou pedir asilo, eles estão me levando porque acham que sou culpado, vão ter de dar prova disso”. Eu e meus filhos dormimos no Sindicato dos Metalúrgicos (em São Bernardo do Campo, para onde Lula foi assim que ficou decretada a sua prisão) durante a vigília. Tínhamos uma mistura de emoções. Não sabíamos o que falar, tentávamos contar uma piada, a gente tentando tranquilizá-lo, ele tentando tranquilizar a gente. Quando tentou sair do sindicato e o povo não deixou, fui até a janela e não sabia se gritava para pararem com aquilo ou para impedirem meu pai de se entregar.

A família teve um momento reservado com ele?

Almoçamos juntos antes de ele se entregar. Minha neta de 1 ano fazia graça, meus sobrinhos… Estávamos todos naquele clima de despedida, tentando transformar tudo num almoço de família como qualquer outro. Mas não estava ali o Lula pai, estava o Lula dirigente, focado. Teve dois momentos de grande emoção para nós: a hora que ele saiu do caminhão de som depois da missa para a Marisa, carregado pelo povo, quando até a vizinhança que estava puta se emocionou. E, depois, entre a gente, na despedida final. Foi a única hora que a gente chorou. No fundo, achamos que ia ser tudo muito rápido, nós e ele tínhamos esperança na votação das ADCs (Ações Declaratórias de Constitucionalidade) aquela semana. Estava na pauta. Quando não aconteceu, foi um balde de gelo nas nossas cabeças.

Eu estava no sindicato e vi Lula sobre o caminhão com um olhar perdido, parecia triste ou preocupado.

Acho que olhava e se perguntava: “O que está acontecendo, o que eu fiz?” Havia indignação e tristeza, claro, porque era a missa da dona Marisa e a forma como ela morreu foi muito trágica. Também tem a tristeza por tudo o que acontece com aquilo que ele construiu, com o que estão tentando fazer com a história dele. Mas isso é também o que deixa seus adversários mais indignados: fazem de tudo, mas sua história só se fortalece. Hoje pode não haver mais de 3 mil ou 4 mil pessoas no acampamento, em frente à PF, em Curitiba, mas tem sempre 150 pessoas, vai ter caravana para as noites de Natal e Ano-Novo.

Ele pode sair da cadeia antes disso.

Poder, pode. Mas quem não tem expectativa não se frustra. E não acredito nisso, então não quero levar mais ansiedade e sofrimento para ele, nem quero ficar mal. Só observo.

Para Lula, qual a importância da vigília em frente à PF, onde está preso?

Fundamental. A gente ouve tudo lá de dentro. É uma demonstração de carinho, lealdade, companheirismo. No Natal e no Réveillon, como são feriados, ele não vai receber visita. Por isso estão combinando de celebrar na vigília, para que se sinta abraçado. A não ser que haja um milagre e ele saia antes do dia 23. Podia, né? Tadinho… Vou montar uma árvore e fazer este pedido para o Papai Noel.

Sobre dona Marisa, que você citou a missa no sindicato: ela foi vítima da perseguição ao seu pai?

Eu, meu pai, todos nós sentimos que ela morreu por causa disso, lógico. Foi vítima de estresse, violência, abuso, falta de respeito. Teve o AVC e meia dúzia de malucos foram para a porta do hospital torcer por sua morte.

Em seu último depoimento, Lula parecia mais magro e envelhecido. Há uma degradação física ou psicológica do seu pai na cadeia?

De maneira alguma. Aquele dia, ele realmente pareceu abatido. Mas houve momentos ali que, pelo amor de Deus… Entendo que tem de haver um tratamento mais formal da Justiça, mas ele é um senhor de 73 anos, respondendo por um crime que não cometeu, não é um bandido. Houve falta de respeito com ele e com a família. Ele está sendo privado do convívio com filhos, netos, bisneta. Se o soltarem amanhã, não apaga esse dano porque o tempo dessa convivência não volta.

Como tem sido isso para as crianças?

Muito pior, porque tem a questão da escola, de exclusão mesmo. Elas sofrem. Os filhos dos meus irmãos assistiram à prisão coercitiva, estavam lá às 5 da manhã. Na escola, as pessoas sabiam. E há uma crueldade, né?

Seu filho de 14 anos já tem uma compreensão melhor do que acontece?

O João é muito fechado, e vai somatizando. A escola dele foi legal, mas a gente percebe que está mais fechado ainda, mergulhado no videogame. Foi a fuga dele, e talvez não estivesse tão enraizado nisso se a situação fosse outra.

Nesses mais de sete meses de prisão, você percebeu em seu pai algum momento de fraqueza? Ele disse para o Haddad que tem dia que não está legal.

Só fiquei preocupada mesmo com ele no dia desse último depoimento. Estava irritado, triste, tudo. E constrangido pela forma como ela (a juíza Gabriela Hardt) o tratava. Nem sei se a palavra é constrangido. Estava indignado e surpreso. Triste por ver a capacidade de um ser humano, uma mulher jovem, tratar um senhor de 73 anos daquela maneira. Quando o (advogado José Roberto) Batochio fala que precisava ir embora e meu pai diz “me leva com você”, ele parecia um cachorrinho… Cachorrinho, não. Uma criança pedindo colo.

Você ficou com pena?

É… Parecia aquela brincadeira com um fundo de verdade. Meu pai transforma dor em humor de um jeito muito fácil. Ele não precisa de médico nem psicólogo, mas ninguém está bem ali dentro, né? Sabe que isso vai acabar uma hora, só não sabe quando. A gente não tem o direito de passar para ele qualquer sentimento de pena, temos de levar as melhores notícias.

Como Lula recebeu a derrota nas eleições?

A gente não fala muito de política. Uma coisa é você sentir nas ruas o que está acontecendo, outra é ver isso apenas pela televisão, como é o seu caso. Acho que ele não tem noção, por exemplo, do ódio que se disseminou. A gente fala e ele fica olhando meio assim… Não consegue assimilar que isso existe.

O que você espera que aconteça com seu pai daqui para a frente?

Não sei o que esperar deles. A gente só quer justiça, justiça, justiça. Que soltem uma pessoa que é inocente. Já está provado que o triplex e o sítio não são dele. Insistem em dizer que as doações que o instituto recebeu eram propinas, mas as mesmas empresas doaram para o Instituto Fernando Henrique Cardoso. Por que só para ele é propina?

Muita gente diz que os filhos de Lula ficaram ricos.

Até hoje aparece gente dizendo que fui dona de uma ONG em Santa Catarina que recebeu 9 milhões do governo federal, quando meu pai era presidente. Nunca tive ONG, não saberia nem contar 9 milhões. É uma coisa bizarra. E muito criativa. Imagine que dizem também que meu pai mudou o padrão das tomadas porque eu seria a dona da fábrica das novas tomadas de três pinos. Pegam um vídeo de gente que nunca vimos na vida e dizem que são meus irmãos num iate de luxo cheio de mulheres.

Uma nota na Veja disse que seu irmão Luiz estaria deprimido. É verdade?

Cada um de nós enfrenta o problema do seu jeito. Na época, a gente brincou com ele: “Está deprimido, Luiz Cláudio, vem para cá”. Mas não tem nada disso, nem é um quadro clínico nem uma tristeza, está do jeito que sempre foi.

Os bloqueios das contas de Lula afetaram a vida financeira de vocês?

Eu trabalho, todos nós somos independentes. Um dos meus irmãos, que eu não gostaria de citar o nome, é o único que neste momento está desempregado. Quem tem colhão para dar emprego a um filho de Lula?

Isso é um motivo de sofrimento para o seu pai?

(Silêncio) Ele é incapaz de pedir para que alguém empregue o filho. Não pede nada a ninguém. Na cabeça dele, eu apenas acho, passa o seguinte: “Pô, eu não precisava ajudar, mas também não precisava atrapalhar”. E não é culpa dele. É culpa da crueldade das pessoas. Primeiro, sempre acharam que a gente é rico. Teve uma época que fiquei desempregada, e as pessoas convidavam para ir a lugares, jantar e tal. Dizia que estava sem grana, então falavam: “Mas você não é filha do Lula?”

Na prisão, a comida é um problema para Lula?

Quem já passou fome não tem isso. A vida foi muito dura com ele. Em 1982, já diziam que ele tinha uma mansão no Morumbi. Depois, todo aquele episódio com o Collor envolvendo minha mãe. Ele não se queixa de absolutamente nada. A única coisa que a gente percebe é a tristeza pela injustiça que estão fazendo com ele.

Já chorou com vocês?

(Silêncio.) Na primeira visita, a gente é que quase chorou. Mas ele mesmo não chora. Com toda dor que possa sentir, tem uma espiritualidade do bem em volta dele. Muita gente reza e pede por ele, emanando uma energia positiva.

Ele está mais espiritualizado?

Sempre foi religioso, mas a política não permitia tanto tempo de reflexão. Hoje tem lido muito, incluindo livros religiosos, espíritas e até evangélicos.

Te amedronta saber que vem aí um governo Bolsonaro e uma PF sob a guarda de Sérgio Moro, enquanto Lula está preso?

O mundo está de olho na Polícia Federal. Eu acho, né? Se houver qualquer ideia… Me preocupa mais a morosidade. Alguém que diga: “Deixa ele lá”. Com meu pai nas ruas, teríamos uma reorganização social, outro debate, outro enfrentamento. É uma liderança que eles temem.

Sinceramente, ainda acredita na Justiça no caso do seu pai?

Fico me perguntando se essas pessoas dormem. Não sei. É como matar um inocente. Depois você vai beber no bar da esquina? Não, você vai remoer aquilo para o resto da sua vida. Sei que meu pai deita e dorme tranquilo, ora mais aflito, ora menos, mas apenas esperando o dia da liberdade dele chegar.

Já pensou na possibilidade de ele morrer na cadeia?

Nunca. Ele tem 73 anos, mas é extremamente saudável, lúcido. Li um texto até bem-intencionado (de Marcelo Reis Garcia, ex-assessor do PSDB e do DEM) dizendo que só vê meu pai saindo da cadeia no caixão. Tão pesado dizer uma coisa dessa… Poxa, meu pai tem família, tem irmãos mais velhos que ele.

Como eles estão?

Muito tristes, muito mesmo. Já viveram isso com a prisão do Frei Chico, depois a do meu pai durante a ditadura. Mas essa, agora, é uma prisão silenciosa, a mais cruel de todas. Não maltratam, mas também não tem trato. Acham que estão fazendo justiça, sabendo que estão cometendo uma injustiça. Se calam. A Justiça não está só cega, mas surda e muda. Se o advogado dele fosse o papa, seguiria preso. O papa não foi crucificado porque mandou um terço para ele? Que cristãos são esses? Enquanto Cristo acolhia a todos, apontam o dedo e julgam. Crucificam mulheres, homossexuais… Se Jesus voltasse hoje, diriam: “Soltem Barrabás, esse Jesus é comunista!” É um mundo surreal.

Nesse processo todo, chegou a questionar sua fé?

Na semana que meu pai foi preso, fiz várias promessas. Entre elas, uma novena do Anjo Gabriel. Comprei uma vela e uma imagem. Menino, uma hora entro no banheiro e tinha pegado fogo na asa do anjo. “Tá feia a coisa”, pensei. Persisti, comprei outro, só não bati tambor porque não tenho ritmo. E nada… Será que é para questionar a fé da gente? A resposta ouvi dentro de mim: “Ei, eu matei meu filho para libertar vocês, seu pai não está morto ainda”. Depois disso, não vou questionar mais nada. E se tudo o que ele está passando não o preservou de um atentado? Ainda que doa para a gente, ele está num lugar protegido de qualquer agressão, e vai sair de lá ainda mais forte.

Acredita mesmo nisso?

Não digo que sairá mais forte politicamente. Sobre isso, já demonstrou sua força. Sairá mais forte como homem. Na maioria dos dias, é ele com ele mesmo. Isso traz muito autoconhecimento. Até os momentos com a família agora são diferentes. A gente se ouve mais, tem mais saudade, troca mais afetos, entende melhor os olhares, se respeita mais. Estamos pegando a dor e fazendo disso algum aprendizado. Uma pessoa presa e sua família tornam-se muito honestas uma com a outra. Não há mais nada a perder.

Fred Melo Paiva
No CartaCapital
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Não haverá governo sob a “vibe” da goiabeira


Está certo o que muita gente vem dizendo nas redes sociais: ninguém merece ser alvo de chacota por suas convicções religiosas. Deixem a Damares e sua goiabeira em paz, portanto. Respeitar as convicções da Damares, porém, não é achar que ela será uma boa ministra, e nem, sobretudo, aceitar que, a duas semanas da posse de um novo governo, o debate nacional gire em torno de goiabeira, escola sem partido, verbas publicitárias da Caixa, embaixada em Jerusalem, caça às bruxas ideológica e agora – pasmem! – pena de morte, entre outras pautas.

Ninguém merece essa agenda, que parece estar sendo estimulada pelo próprio presidente eleito e pessoas chegadas a ele, como os filhos 01, 02 e 03. Neste domingo, Jair Bolsonaro amanheceu negando, no Twitter, que pretenda debater a implantação da pena de morte em seu governo. O desmentido parece ser dirigido ao Jornal O Globo, mas se destina, na verdade, ao deputado Eduardo Bolsonaro, que defendeu o assunto no jornal.

Bolsonaro dedicou sua atenção a esse tema da mesma forma como, na véspera, havia usado a rede social para defender Damares em sua goiabeira e, nos últimos dias, a falar da extradição de Cesare Battisti, do encontro da ONU que não quer sediar, da Cúpula Conservadora das Américas, etc.

Quem vê pode até se esquecer que Bolsonaro e os seus ainda devem explicações consistentes sobre a movimentação financeira atípica do assessor flagrado no Coafgate. Ou então imaginar que esse sujeito não tem um país inteiro, cheio de problemas, para governar daqui a 15 dias.

A pauta da transição para o governo Bolsonaro vem ignorando solenemente as graves e urgentes questões que ele tem que resolver a partir de janeiro. Alguém tem alguma ideia de como será a reforma da Previdência que ele vai levar ao Congresso? E a tributária, recém-aprovada em comissão na Câmara, vai ser adotada ou engavetada? E as providências obrigatórias e imediatas que têm que ser tomadas para conter o aumento vergonhoso da miséria detectado por estudos recentes?

Pouco ouvimos, ou vimos nas redes sociais, o presidente eleito falar de empregos de forma construtiva e propositiva. Ouvimos Bolsonaro dizer que ser patrão neste país é horrível e sugerir que direitos dos trabalhadores sejam suprimidos. (Ele não disse isso com todas as letras na campanha, e, se o tivesse feito, talvez não tivesse sido eleito).

Às vésperas da posse, Bolsonaro continua se escondendo sob a mesma cortina de fumaça da reforma ideológica e dos costumes que usou na campanha para não ter que falar das questões concretas do dia-a-dia do brasileiro, talvez por não saber bem o que fazer com elas. Discursos desse tipo costumam sustentar a felicidade dos casais a lua-de-mel. Mas depois vêm as contas para pagar, o tanque cheio de roupa suja para lavar, as crianças choronas…

Governar vai muito além de bater-boca sobre a Damares e outros assuntos secundários. Não haverá governo sob a “vibe” da goiabeira…

Helena Chagas
No Os Divergentes
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Moro dá secretaria à subprocuradora militante das 10 Medidas Contra Corrupção


O futuro ministro da Justiça Sergio Moro anunciou a subprocuradora da República Maria Hilda Marsiaj como futura titular da Secretaria Nacional de Justiça. Maria é militante do pacote que ficou conhecido como 10 Medidas Contra Corrupção, que a Lava Jato tentou emplacar no Congresso há 2 anos.

A nova secretária chegou a participar de eventos contra a corrupção ao lado do ministro anunciado da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, que revelou recentemente, em entrevista à GloboNews, que sua relação com Sergio Moro existe desde o Mensalão.

Em vídeos divulgados na internet, Maria cita o pacote contra a corrupção e pede apoio aos políticos que tentavam aprovar o projeto de lei do Congresso. "Apoie o relator [Onyx] a manter a integridade dessa proposta", apelo a seus seguidores. O próprio Moro disse que sua prioridade enquanto ministro será aprovar as 10 medidas de maneira fatiada.

Mais recentemente, a subprocuradora assinou uma carta pública de membros do Ministério Público em favor da nomeação de Sergio Moro para a Justiça. A nota dizia ainda que a escolha de Moro pelo presidente eleito, Jair Bolsonaro, reafirmava “seu compromisso com o combate à corrupção e à insegurança pública, que tantos males têm causado ao povo brasileiro”.

A imprensa divulgou nesta segunta (17) que Maria Hilda é "gaúcha, trabalhou na Procuradoria Regional da República da 4ª Região (localizada em Porto Alegre), atuou na força-tarefa da Lava-Jato no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e na demarcação de terras indígenas de Passo Grande do Rio Forquilha, localizada nos municípios de Cacique Doble e Sananduva, e Votouro-Kandoia, que se estende pelos municípios de Faxinalzinho e Benjamin Constant do Sul."

Em seu nome consta uma sociedade na "Agropecuaria Passo Do Remanso Ltda", situada em Uruguaiana, Rio Grande do Sul. Criada em 2004, a empresa cria bovinos para corte.

No GGN
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“Se só tem tu, vai tu mesmo”: Bolsonaro e a falência da política tradicional

Assim como Adolf Hitler para chanceler do Reich não era a perspectiva preferencial do establishment alemão em 1932, Jair Bolsonaro para presidente não animava o establishment brasileiro em 2018. 

Na Alemanha do início dos anos trinta, o reacionário oportunista Franz von Papen fazia a festa dos patrões. Chegara ao poder através da traição, da intriga e da conspiração contra seu antecessor autoritário Heinrich Brüning, apoiado pela social-democracia e por seus sindicatos, mas, também, com fortes alianças com setores militares. 

Von Papen, que o acusava de ser simpatizante da esquerda, já no governo, passou a promover a redução do “custo do emprego”, o aumento das subvenções para a indústria, o estabelecimento de barreiras tributárias protetivas do mercado interno e a repressão da atividade sindical-partidária da esquerda. 

Era um verdadeiro pai para empresários pouco impressionados com a crise social que se avolumava nas famílias proletárias alemãs. E não parava de dizer: “o importante é crescer, estabilizar a economia e estamos no caminho certo”. 

Contentava-se com a abstração estatística, que mostrava um viés de prosperidade para os tempos por vir. Finalmente as negociações com os vencedores da 1ª Guerra Mundial mostravam resultados na diminuição da dívida de reparações e o comércio internacional dava sinais, ainda que fraquíssimos, de recuperação. 

O mercado interno se bastava com uma burguesia ávida por consumo de luxo. O jornalista russo-americano Abraham Plotkin, em viagem prospectiva pela terra arrasada da crise, anotava que, nas lindas avenidas de Berlim, as vitrinas estavam cheias, os restaurantes e as casas noturnas bem frequentadas, com ares de normalidade impressionante, muito diferente da paisagem de desalento de Nova York pós 1929.

O quadro é muito próximo do período que se usa chamar de “governo Temer” (que de “governo” não tem nada), uma caricatura tupiniquim do governo de Von Papen. 

Também ele se esmerou, ao longo de dois longos anos, em desfazer políticas sociais e demonizar o PT, que o permitira ser vice-presidente, no banquinho de reserva, pronto para derrubar à sorrelfa, igualmente com intriga e conspiração, a presidenta legítima Dilma Rousseff. 

Também aqui, apesar do mísero um por cento de crescimento, os índices econômicos abstratos fazem o mercado antever que “o pior já passou”, indiferente para com a miséria da massa de desempregados, subempregados na informalidade e de “lumpen” excluídos do processo de produção de riqueza. 

A volta da fome entre os mais pobres, o aumento da inadimplência de consumidores, a destruição do atendimento à saúde e a forte desaceleração nos investimentos sociais não chegam a tirar o sono dos patrões. 

Estaríamos  ainda melhores que a Venezuela… Afinal, em dezembro de 2018, os navios de cruzeiro na costa brasileira estão com lotação completa, não há, também, vagas nos resorts do nordeste e “o brasileiro” enche os shoppingcenters para fazer compras às vésperas de Natal.

A reação da massa à crise social e a indiferença dos capitalistas lá e cá levou a um processo de radicalização política de que se aproveitou o fascismo, a disseminar pavor ao “perigo comunista” e ódio a sindicalistas e políticos de esquerda. 

Atribuíram e atribuem, então e agora, a culpa por todos os males à “desnaturação” daquilo que chamavam e chamam de “valores” (whatever that means) pela cultura do “marxismo” (que, no caso dos fascistas alemães, era sinônimo de “judaísmo” e, no dos brasileiros, sinônimo de “terrorismo islâmico”, “ideologia de gênero”, “vitimismo”, “corrupção” ou “bolivarianismo”, uma verdadeira sopa de letras para alimentar a cachola vazia de irados sem causa).

O establishment pode ser canalha, mas idiota não é. Esse papo “dumb” sempre é para consumo da massa, por quem empresários, latifundiários e empregadores nutrem total desprezo. Mas têm faro apuradíssimo por oportunidade de negócios. 

Claro que preferem seus vogais tradicionais na política. Estes têm o rabo preso, lhes devem favores e ostentam telhado de vidro, senão de celofane! São presas fáceis. Sua fidelidade é questão de sobrevivência e, por isso, são muito mais confiáveis e afáveis. Claro que Von Papen e sua cambada era preferível para fazer o trabalho sujo contra os interesses da grande maioria dos alemães miseráveis. 

É evidente, também, que nossos capitalistas preferem gente do tipo de Michel Temer, Henrique Meirelles, Picolé de Chuchu ou até de Álvaro Dias. São de casa, entram pela porta da cozinha e são afeitos aos agrados do capital, legais ou ilegais, tanto faz.

O problema para os endinheirados é que sua clientela política não engana mais ninguém. Não tem voto. As massas estão fartas de seu cinismo, de seu desserviço contra a maioria das brasileiras e dos brasileiros. A incapacidade de Temer fazer passar a odiada reforma da previdência no Congresso fala por si. 

É como um advogado que não tem o respeito dos tribunais – ninguém dessa turma de interesseiros contrata. Temer é assim: cansou até quem sustentou sua traição contra a companheira de chapa. É um bagaço de laranjada chupado, sem sumo.  Até nisso lembra Von Papen: a burguesia alemã sabia que não conseguia mais formar maioria no Reichstag e, por isso, sozinho não servia para mais nada. “Ausgemustert”, já havia dado o que tinha que dar.

Franz von Papen e, hoje, Michel Temer são, porém, marcados pelo espírito de sobrevivência. Como não conseguem mais encantar a rica donzela do capital com seus próprios dotes viris, passam de amantes a proxenetas políticos e adotam um fascista para chamar de seu: um marombado que satisfaça a rica donzela do capital e, se conseguirem ascendência sobre ele, mantenha intactos seus interesses materiais. 

Para o alemão, esse amante profissional seria Adolf Hitler, o corporal austríaco de cabeça quente, que odiava judeus e comunistas. Tudo de ruim, mas ainda podia procriar politicamente e, talvez, quem o levasse ao poder poderia lucrar com o preço da cobertura. Para Temer e sua corriola de golpistas, o touro a ser domado seria Jair Bolsonaro.

Von Papen provou quão arriscado é, para a burguesia, apostar no fascismo. Fascistas não são domáveis. São balas perdidas. Só o desespero diante da insustentabilidade do custo social de sua prática econômica exploradora é que faz capitalistas optarem pelo atalho totalitário.  Essa aposta é a “ultima ratio”, pois a alternativa socialista ou social-democrata é, para eles, intolerável. 

Mas, “se só tem tu, vai tu mesmo”, como diz a resignação popular. Temer e sua patota  fazem o mesmo ao apostarem suas fichas em Jair Bolsonaro, certos de que, se algo der errado, não serão eles que pagarão a conta. Se nenhuma saída houver no Brasil, a haverá em Miami. Afinal, é para isso que juntaram dinheiro em offshores.

Aqui o fascismo vicejará por algum tempo, fazendo seu inevitável estrago. A receita é sempre a mesma. Fascismo não é ideologia. É prática política rasteira, calcada na mentira que causa ódio, rancor e fobias nas massas. Em transe, estas se tornam suscetíveis a acreditar em falsas promessas de um lar de “brasileiros de bem”, com valores “cristãos” e de um mundo em ordem, mesmo na tempestade global de incertezas e riscos. 

Por detrás está um projeto de poder totalitário que aniquilará a democracia e suas liberdades civis. Nada além disso. Fascismo é o engodo a serviço da violência. E, como violência só traz violência em troca, sua capacidade de destruição de riquezas de uma nação é enorme. Trata-se de projeto predatório. A Alemanha que o diga com seu monstro grande que pisou forte, parafraseando Mercedes Sosa.

Já podemos ouvir o zumbido dos foguetes V-2 de nossos fascistas tupiniquins. As mortes no campo aumentaram só com a perspectiva do que está por vir. O medo se espalha nas escolas, onde a relação de confiança entre alunos e professores é substituída pelo denuncismo intolerante. E o abuso da polícia se espraia pelas cidades, na certeza da impunidade. 60.000 homicídios num ano só não é pouca coisa.

A política tradicional – aquela que sempre enganou eleitores a cada quatro anos e se alimentou secularmente das prebendas empresariais – está no seu crepúsculo, com ou sem Jair Bolsonaro. Durará algum tempo, mas o desastre fascista seja, talvez, o único caminho para chamar massas imbecilizadas à razão. 

Foi assim na Alemanha e infelizmente parece que será aqui também! Até lá, quem tem um mínimo de discernimento só pode escolher o duro e doloroso caminho da resistência. Haverá mártires, mas seu sangue lavará essa nossa terra das aventuras da canalhice.

Eugênio Aragão, ex-ministro da Justiça
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Irmãos Bozo colocam nos anais o ex-assessor


O deputado estadual do Rio Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) e seu irmão, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), homenagearam o ex-PM Fabricio José Carlos de Queiroz, à Assembleia Legislativa do Rio e à Câmara municipal em 2003 e em 2006, respectivamente. Em 2003, Flávio Bolsonaro requereu à Mesa Diretora da Assembleia que fosse registrado 'nos Anais desta Casa de Leis, Moção de Louvor e Congratulações ao ilustre Sargento PM Fabrício José Carlos de Queiroz, lotado no Batalhão de Policiamento em Vias Especiais'.

A reportagem do jornal O Estado de S. Paulo destaca trecho do texto em homenagem a Queiroz: "presta serviços à sociedade desempenhando com absoluta presteza e excepcional comportamento nas suas atividades. No decorrer de sua carreira, atuou direta e indiretamente em ações promotoras de segurança e tranquilidade para a sociedade, recebendo vários elogios curriculares consignados em seus assentamentos funcionais."

E sublinha mais um trecho: "imbuído de espírito comunitário, o que sempre pautou sua vida profissional, atua no cumprimento do seu dever de policial militar no atendimento ao cidadão. É com sentimento de orgulho e satisfação que presto esta homenagem ao Sargento PM Fabrício José Carlos de Queiroz , devendo receber desta Casa Legislativa a presente Moção de Louvor e Congratulações."

A homenagem de 2006 foi a medalha Pedro Ernesto, aprovada pela Câmara dos Vereadores: "a medalha Pedro Ernesto, homenagem a Fabricio José Carlos de Queiroz, na Câmara dos Vereadores, foi aprovada pelo plenário da Casa em 4 de outubro de 2006, após requerimento de Carlos Bolsonaro. A premiação foi criada por meio da Resolução nº 40, em 20 de outubro de 1980."
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Motorista do Bolsonaro (filho) tem dois apês em seu nome

Mas... Por que ele mora numa casinha na Taquara?

Fabrício Queiroz comprou um apartamento na planta na Zona Oeste do Rio
Créditos: Reprodução/GloboNews
O Conversa Afiada reproduz do Globo Overseas (empresa que tem sede na Holanda para lavar dinheiro e subornar agentes da FIFA com objetivo de ter a exclusividade para transmitir os jogos da seleção):

Ex-assessor de Flávio Bolsonaro, que movimentou R$ 1,2 milhão, tem dois apartamentos no Rio em seu nome

O ex-assessor do deputado estadual Flávio Bolsonaro (PSL) , senador eleito pelo Rio de Janeiro e filho do futuro presidente Jair Bolsonaro, Fabrício Queiroz tem dois apartamentos registrados em seu nome na Zona Oeste do Rio. A Globonews pesquisou o nome do ex-assessor, de sua mulher, Marcia de Oliveira de aguiar, e das duas filhas, Evelyn e Nathalia Melo de Queiroz, em registros de cartórios, dos últimos 20 anos, e encontrou dois apartamentos: um na Praça Seca e outro, ainda em construção, na Taquara.

Os dois apartamentos estão registrados em nome do ex-assessor, que teve uma movimentação atípica de R$ 1,2 milhão em uma conta bancária apontada por um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) anexado aos autos da Operação Furna da Onça, da Polícia Federal. Entre janeiro de 2016 e o mesmo mês de 2017, a conta recebeu R$ 605.552 — sendo R$ 84,1 mil da filha Nathalia Melo de Queiroz e R$ 18,8 mil da mulher, Márcia.

O primeiro imóvel foi comprado em 1999. O apartamento fica em condomínio na Praça Seca, na Zona Oeste do Rio, e tem 65 metros quadrados, com um sala, dois quartos, banheiro e cozinha. O imóvel é avaliado em pouco mais de R$ 200 mil.

O segundo apartamento — ainda na planta — fica na Taquara e foi comprado no dia 3 de julho de 2018. Segundo a reportagem da Globonews, os imóveis em construção custam apartir de R$ 280 mil.

No dia 11 de dezembro, O Globo revelou que o policial militar Fabrício José Carlos de Queiroz mora em uma casa, em um beco de um local simples na Taquara, na Zona Oeste do Rio.

Na viela onde Queiroz mora com a mulher, Márcia Aguiar, os imóveis são colados uns aos outros. No beco, há varais improvisados do lado de fora das casas, fios emaranhados e canos aparentes. Na casa de Queiroz, um adesivo rasgado com as fotos do presidente eleito Jair Bolsonaro e de seu filho Carlos, vereador no Rio, está colado na fachada. No segundo andar, que tem tem uma parte da laje sem revestimento, tapetes secavam no parapeito. (...)
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Os lobbies de energia que pressionam o governo Bolsonaro


O maior lobby em ação no futuro governo Bolsonaro é o que cerca o mercado de energia. Inicialmente, a turma dos financiadores de campanha (confira divisão dos grupos no “Xadrez da nova corte e a fragilidade de Bolsonaro”) tentou emplacar Paulo Pedrosa no Ministério das Minas e Energia (MME).

Aqui, você poderá entender um pouco sobre o que pretendiam com a indicação. A manobra foi abortada pelos militares, que lograram colocar no cargo o Almirante Bento Costa Lima de Albuquerque Junior, ligado ao programa nuclear da Marinha.

Mas o lobby não parou.

Há dois lobbies principais em atuação, segundo revelações do general Hamilton Mourão. Um, ligado à questão da distribuição de gás; outro, ao tema da distribuição de combustíveis. Ambos exigem uma visão sistêmica da questão, conforme se poderá conferir na sequência do artigo.

Inexplicavelmente, foi constituído um grupo pelo Ministério da Fazenda para discutir o tema. E instituições relevantes, como a ANP (Agência Nacional do Petróleo) abriram mão de sua responsabilidade na discussão – como responsável pela qualidade do produto ofertado nos postos – entregando as conclusões especificamente a visão meramente financista da Fazenda.

Entenda como se dá o jogo.

O vício do foco único

Historicamente, alguns vícios marcaram a montagem de políticas públicas no país. Um deles é o vício do foco único, uma superstição que se traduz nas balas de prata (aquela reforma, que, sozinha, salvará o país) ou na análise fiscal (basta cortar tudo que a virtude imperará).

É um modelo de pensamento monofásico que sobrevive por servir aos interesses de lobbies. Para defender uma posição, basta apresentar todos os pontos positivos e ignorar os demais.

Por exemplo, desregulamentar um setor significa derrubar todas as barreiras de entrada à competição. Positivo! Mais competição, em tese, sempre é melhor para o consumidor final.

Mas a desregulamentação tem implicações na qualidade do produto. A liberalização total do mercado abrirá espaço para a venda de produtos falsificados.

Também tem implicações de ordem fiscal. Dependendo do setor, a liberalização total poderá abrir espaço para a ampliação da sonegação fiscal de forma descontrolada.

Mesmo do ponto de vista econômico, há limites para a desregulação. De um lado, pode aumentar a competição. De outro, poderá significar o comprometimento com obras de infraestrutura integradoras de um país continental.

A questão energética

Vamos analisar a questão energética de um ângulo mais sistêmico.

Teoricamente, quanto mais competição, melhor para o consumidor. Trata-se de um princípio, não de uma regra absoluta. Uma das saídas propostas é a permissão para a venda direta das usinas de álcool para os postos de gasolina.

Trata-se de um tema complexo, que não passa em inúmeros testes.

Argumento

O argumento mais levantado em defesa da livre comercialização é uma proposição aparentemente imbatível:
  • O que é mais barato: uma usina vender para o posto da sua cidade ou mandar o etanol para o depósito da distribuidora, que se encarregará de entregar no posto?
Dito assim, discutir que há de? Uma discussão mais responsável não se fixaria nessas formulações simples e ampliaria a análise para outros pontos igualmente relevantes:
  1. A falácia da composição.
A proposta de venda direta das usinas aos postos esbarra na chamada falácia da composição.

Funciona assim: se existe uma usina na região Sudeste, fica mais barato vender para um posto, na mesma região, do que enviar o etanol para uma distribuidora e esta transportar para o posto. Dito assim, discutir quem há de?

Vamos complicar um pouco essas simplificações.

Se houvesse pleno equilíbrio entre oferta e procura entre as diversas regiões, a visão da parte (o posto perto da usina) se adequaria ao todo (todos os postos perto de usinas).

O Nordeste, por exemplo, produz mais do que consome. O Sudeste consome mais do que produz. Como é que fica?

Esse desequilíbrio produziria a seguinte equação:

1. O etanol do Nordeste chegaria ao Sudeste  por um custo maior do que o etanol produzido na região. Digamos que o etanol produzido no Sudeste chega no posto do Sudeste a um custo de 1,00 e o do Nordeste chegue a um custo de 1,30.

2. Pela própria lógica do mercado, as usinas do Sudeste tenderão a igualar seus preços de venda às usinas do nordeste. Ou seja, o preço final será dado pelo preço mais caro.

Primeira consequência - aumento do preço, na medida em que o preço de transporte do nordeste para o Sudeste será superior à média nacional, em um sistema integrado.

Segunda consequência - mais concentração de renda no Sudeste, em relação à produção do Nordeste. O que é custo para o etanol do Nordeste, vendido para o Sudeste, será margem de lucro para o etanol do Sudeste.

A consultoria Leggio desenvolveu um estudo minucioso comparando os custos finais do álcool hidratado do modelo atual, de venda através das distribuidoras (chamado de Alternativa A no trabalho) com o modelo de venda direta das usinas aos postos (chamado de Alternativa B).

O estudo concluiu que, com a venda direta, haverá um aumento de custos da ordem de R$ 181 milhões, ou acréscimo de 24,7% sobre os custos atuais.

Na Alternativa B (venda direta) os seguintes fatores principais encarecem o preço:

Fator 1 -  a entrega mais fragmentada impede o uso de modais de alto volume, como dutos e ferrovias.

Fator 2 - as distribuidoras utilizam veículos de maior capacidade (40 m3) devido ao fato de transportarem também diesel e gasolina C. No caso da usina --> posto, haverá uso de veículos de 30 m3.

Fator 3 - queda de produtividade da frota contratada pela Usina, com maior tempo de transporte, devido à infraestrutura limitada para carregamento, gerando filas na operação, devido à infraestrutura limitada das usinas.

Fator 4 - perda de escala na contratação de fretes, já que a quantidade transportada por Distribuidoras é significativamente maior do que a transportadas por usinas.

Pode-se criticar o estudo por ter sido encomendado pelas distribuidoras. De qualquer modo são dados técnicos a serem considerados, exigindo análises sistêmicas da questão por agentes que atendam aos chamados interesses nacionais.
  1. A sonegação e o crime organizado
No ato da criação da ANP (Agência Nacional do Petróleo), ainda o primeiro governo FHC, organizei um seminário sobre o tema. O grande assunto levantado foi o do golpe das liminares. Para reduzir a sonegação do setor, instituiu-se o sistema da substituição tributária (com os impostos sendo pagos antecipadamente na saída do combustível das refinarias). Quadrilhas organizadas especializaram-se em montar empresas fantasmas, obter liminares para não pagamento antecipado do imposto – conquistados por um sistema de corrupção de juízes. Acumulavam os passivos tributários e sumiam na poeira, deixando a dívida pendente.

Grandes fortunas se fizeram desde então. O inacreditável é que essas quadrilhas continuam em franca operação. A desregulação total do mercado, conforme pretendida, abriria um espaço sem tamanho tanto para a falsificação de produtos quanto para a sonegação fiscal.

A política virtuosa

Uma discussão responsável do tema deveria passar pelas seguintes instituições:

CADE (Conselho Administrativo de Direito Econômico) – analisando especificamente a questão dos limites para a livre competição e os acordos de preços.

ANP (Agência Nacional de Petróleo) – analisando a questão da qualidade do produto oferecido nos postos.

SRF (Secretaria da Receita Federal) – os aspectos tributários dos modelos propostos.

Secretaria do Direito do Consumidor – do Ministério da Justiça, analisando a qualidade da oferta e os preços praticados.

Polícia Federal – que dispõe de amplo levantamento sobre a abrangência das organizações criminosas atuando no setor.

MME (Ministério das Minas e Energia) – incumbindo-se da visão nacional, de pensar modelos que atendam de forma equânime a oferta nacional do produto.

Luís Nassif
No GGN
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Resolução da ONU impede que Bolsonaro mude embaixada de Israel

Promessa de   Bolsonaro (PSL), a transferência da embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém não pode ser realizada devido a uma legislação internacional incorporada pelo Brasil. O dispositivo legal que impede essa mudança é a resolução 478 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, aprovada em 1980.

Essa resolução declara nula a Lei Básica que reconhece Jerusalém como capital de Israel e convida os Estados membros do Conselho de Segurança da ONU a retirarem suas missões diplomáticas da cidade. Atualmente, somente os Estados Unidos e a Guatemala têm embaixada em Jerusalém. O Paraguai havia transferido o órgão, mas voltara atrás em sua decisão, o que irritou o governo israelense.

A Rússia declarou Jerusalém como capital israelense, mas não transferirá a embaixada porque considera Jerusalém Oriental como capital de um futuro Estado Palestino. Assim também anunciou o primeiro-ministro australiano, Scott Morrison, no último sábado (15), adicionando ainda que a transferência da embaixada depende do compromisso de paz e de solução em dois Estados.

O governo de Michel Temer (MDB) votou a favor da resolução que exige que todos os países sigam as determinações da ONU, após decisão dos Estados Unidos de reconhecer Jerusalém como capital de Israel, em pleito que contou com 128 votos a favor, nove contra e 35 abstenções. Os países membros da ONU são obrigados a seguir os regulamentos internacionais ou podem sofrer represálias.

No Amigos do Presidente Lula
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Um Berlusconi é demais. Seis, então...

Durante os dez anos em que morou e trabalhou na Europa, o jornalista paulista Pablo Guelli via ''os desmandos dos jornais e TVs do Berlusconi - ou seja, praticamente de todo noticiário vindo da Itália", ele diz. Começou então a pensar em fazer e escrever o roteiro de um documentário, um filme que mostrasse a absurda concentração dessa indústria da informação nas mãos de uma oligarquia restrita como ocorre no Brasil.

Agora, quatro anos depois, Guelli, de 43 anos, chega à finalização do seu documentário sobre esse tema com o título mais do que inquietante: O país dos seis Berlusconis. ''Me pareceu uma analogia pertinente'', ele ressalta durante a entrevista à Carta Maior, por email.

O filme estreia no fim deste verão em cadeia nacional. Será mostrado em escolas, empresas, universidades, centros culturais, cineclubes e outros ambientes alternativos às salas de cinemas convencionais. Para tal, Guelli, que finaliza o filme em São Paulo, está levantando um crowdfunding* para conseguir verba e divulgar o trabalho em todo o Brasil; o que é importante.

O país dos seis Berlusconis estará disponível também no VOD do canal CineBrasilTV para onde o cineasta está dirigindo atualmente o documentário Casa Grande & Senzala: a desigualdade social como opção política.

Realizado através da produtora Salamanca Filmes, desde já o doc atiça a curiosidade sobre a oligarquia da mídia brasileira vista por dentro de quem trabalhou em diversas grandes redações. Afinal, o filme remete, em versão tropical e através de meia dúzia de famílias, ao mitológico Cidadão Kane.

Confira a entrevista:

Quem são seus personagens e como foram realizadas as entrevistas?

Todas elas foram feitas pessoalmente. Noam Chomsky, Luis Nassif, Laura Capriglione, Ricardo Melo, Xico Sá, Rodrigo Vianna, Glenn Greenwald, Jessé Souza, Ana Magalhães, Kiko Nogueira, entre outros. A trilha sonora é de André Abujamra.

O ator gaúcho Paulo Cesar Pereio, uma das grandes estrelas do cinema novo, nos anos 60, faz que papel?

Pereio personifica a mídia brasileira. E os entrevistados comentam e analisam a sua atuação.

E o que dizem seus entrevistados estrangeiros?

Os entrevistados de outros países falam com assombro sobre o comportamento da mídia brasileira. Alegam nunca ter visto nada parecido, em nenhum lugar do mundo. Já os brasileiros dizem que a imprensa nacional é simplesmente a pior do mundo.

Você, que já passou pela Globo, TV Cultura, Folha de S. Paulo, G1, Terra, Abril, CBN, Globo News, Media Pro, de Madri e TV NHK, do Japão, acha que o documentário brasileiro, no cinema, está ocupando, progressivamente, a posição que deveria ser da mídia, do jornalismo investigativo?

Sem dúvida. Como a chamada grande mídia abriu mão de fazer jornalismo por interesses econômicos, isso está abrindo espaço para que os documentários mostrem algo mais próximo da realidade.

O jornalismo de hoje, então, está sendo pouco a pouco desvirtuado em relação ao que ele era no passado?

A chegada da internet e as transformações na comunicação agiram como o meteoro que provocou a extinção dos dinossauros. O modelo de negócio foi extinto e junto com ele a credibilidade de toda imprensa - salvo raras e honrosas exceções. No Brasil temos a Agência Pública, o site The Intercept, os sites Jornalistas Livres e Mídia Ninja e diversos blogueiros que estão fazendo o que a mídia costumava fazer, ou seja, jornalismo de qualidade.

Tal como Carta Maior. Mas você enxerga responsabilidade também nos profissionais - editores, redatores, repórteres – que trabalham para os ''berlusconis'' em todo esse lamentável processo de desinformação e manipulação da mídia brasileira?

Na mídia brasileira existe um grupo de cães de guarda muito fiel aos donos. Merval Pereira, Josias de Souza, Miriam Leitão e por aí vai. A lista é longa. Sem dúvida, essas pessoas têm a parcela de responsabilidade nesse esgoto que é o jornalismo brasileiro atual. Mas é claro que a maioria dos profissionais são pessoas que têm contas para pagar e precisam trabalhar nesses conglomerados. Recentemente os jornalistas do portal R7 foram coagidos pela direção a fazer matérias pró-Bolsonaro. Alguns divulgaram textos na internet e fizeram o possível para mostrar o absurdo da situação. É o que conseguiram fazer. A maioria não pode se permitir o luxo de pedir demissão porque não concorda com a linha editorial da casa.

E quais são as ''seis famílias''? Marinho, Mesquita, Frias, Civita...? Descreva algumas das características de cada grupo.

Rede Globo, Record, SBT, RBS e os grupos Folha e Bandeirantes detêm juntos mais de 90% da audiência nacional. Depois de trabalhar durante 15 anos nesses grupos e entrevistar mais de 20 jornalistas para o filme, eu diria que a principal característica da imprensa nacional é a canalhice. Os grupos são uma versão moderna dos senhores da casa grande, principal traço da cultura brasileira, em minha opinião.

Vamos por partes.

A Globo é um império midiático que nasceu de forma ilegal e foi um dos pilares da ditadura militar. A sua história mais se assemelha à ficha de um criminoso de alta periculosidade. A quantidade de barbaridades que essa empresa comete não cabe nesse texto. Em qualquer país sério ela já teria sido processada por crime lesa-pátria e fechado as portas. Como dizem alguns entrevistados: o que é bom para a Globo é ruim para o Brasil. O Grupo RBS é um filhote desse império mafiomidiático.

Record e Folha?

A Record é a imagem e semelhança da Globo, mas evangélica. Inclusive contrataram sabe Deus quantos ex-funcionários da Globo para que a imitação ficasse mais próxima do original. Talvez agora, com Bolsonaro, a Record tenha uma chance de se destacar, já que o país está a caminho de se tornar uma teocracia militar. O grupo Folha de São Paulo é o que mais tenta parecer neutro, "plural". Uma ilusão. O Sr. Frias costumava emprestar os carros da Folha para que os militares chegassem disfarçados de jornalistas para prender e matar pessoas durante a ditadura - aquela que um dos cães de guarda do jornal chamou de "Ditabranda" em editorial. Quando os militares estavam deixando o governo, a Folha mudou a bandeira e passou um verniz democrático na sua fachada oligárquica.

E o SBT e Bandeirantes?

Os dois são os mais pitorescos. O SBT é aquele canal que transmite o programa do Chaves há 25 anos e cujo dono costuma humilhar mulheres ao vivo. Bandeirantes pertence à família Saad e são ligados ao governo estadual de São Paulo.

Em resumo?

Em resumidas contas: são grupos privados, cujos donos têm mentalidade de oligarcas e senhores de escravos do século retrasado, operando e fazendo negócios com uma concessão pública. Estão usando as concessões para ganhar muito dinheiro e amealhar mais poder. Não é ao acaso que a família Marinho é a mais rica do Brasil.

Grupos restritos de ''berlusconis'' também operam controlando a mídia em outros países Mas aqui, os oligarcas são bem mais fortes e organizados, não?

As oligarquias são fortes na América Latina pela história da região. Por conta disso há problemas de concentração de mídia em outros países, como na Argentina, que chegou a fazer uma Ley de Medios. Mas, sem dúvida, a mistura da pior concentração de renda do mundo, com altos índices de analfabetismo e uma cultura escravocrata, fazem do Brasil um lugar especial. Aqui, esses oligarcas atuam sem freios. Fazem o que lhe dá na veneta, destroem quem quer que seja e sabem que não serão punidos.

Qual é a sua percepção, depois de conversar com seus entrevistados?

Fica claro que deixamos de ser um país em desenvolvimento e nos convertemos oficialmente em uma república bananeira por conta desses oligarcas. Eles foram os pilares que sustentaram a imensa fraude de informação que tem chegado para a população.

Em 2012, Pablo Guelli e sua equipe ganharam o prêmio de Melhor Documentário no Festival de Castilla y León, na Espanha, com o filme Un instante en nuestras vidas, um doc que fala sobre a imigração espanhola na América Latina.



Léa Maria Aarão Reis
No Carta Maior
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Temer reconhece que derrubou uma presidente honesta - assista


Michel Temer concedeu entrevista na madrugada desta segunda-feira (17) ao programa Poder em Foco, no SBT. Denunciado por corrupção e como chefe de quadrilha, Temer acabou reconhecendo no programa que derrubou uma presidente honesta: "Eu tenho a impressão de que ela é uma senhora correta, honesta. Eu não tenho essa impressão de ela seja alguém que chegou ao governo para se apropriar das coisas públicas", disse. "Nunca tive essa impressão e confesso que continuo não tendo".

A afirmação foi deita em meio a platitudes e inverdades, como: "Eu apanhei o governo numa situação de muita contestação. Quando o presidente é impedido, assume o vice, com toda naturalidade", ou: "Não tem nada de toma lá dá cá" - sobre sua relação com o Congresso. Menos de duas semanas antes de deixar o governo que usurpou, ele reconheceu a integridade moral da presidenta legítima Dilma Roussef, derrubada por um golpe parlamentar e jurídico.

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Uma mulher que é a tragédia brasileira


Gritos, lágrimas, alucinação, neo-evangelização total da política. Esta mulher que prega como quem precisa de ajuda psiquiátrica urgente será parte do governo de 200 milhões de pessoas.

1. Damares Alves conta que foi violada a partir dos seis anos, e isso determinou toda a sua vida. Aos dez quis matar-se, subiu a um pé de goiaba para tomar veneno, mas Jesus apareceu e salvou-a de Satanás, relatou ela, entre gritos e lágrimas, às massas que hoje a seguem. Damares prega como quem precisa de ajuda psiquiátrica urgente. Não é uma história rara no Brasil. Só que esta mulher será ministra a partir de 1 de Janeiro.

2. Nordestina de família pobre, como tantas no Brasil, Damares cresceu no Sergipe, filha de um pastor evangélico e de uma dona de casa. Ela resumiu assim ao “The Intercept” o que lhe aconteceu aos seis anos: “Um homem se hospedou na minha casa dizendo ser missionário. Ele enganou meus pais e me submeteu a várias sessões de estupro. Tirou minha inocência, achei que eu não iria mais para o céu. Mais tarde eu tentei me suicidar, mas tive um encontro com Jesus que me livrou da morte. A partir dali, resolvi fazer daquela dor a minha bandeira.”

O relato desse encontro com Jesus está num vídeo impressionante.



Sozinha, deambulando ofegante por um palco, entre gritos e lágrimas, Damares prega a uma imensa plateia, contando como aos dez anos se quis matar. No fundo da casa do pai havia um pé de goiaba, ela subia nele e chorava. Um dia em que estava lá em cima, já com veneno para se matar, aconteceu uma coisa: “Eu vi Jesus se aproximar do pé de goiaba.” Neste instante do relato Damares grita mais alto: “Eu tive uma revelação extraordinária!”, e “Jesus quer experiências extraordinárias com as crianças!”, e, de punho no ar: “Acreditem nisso!” Depois, Damares retoma a história do pé de goiaba: “Jesus olhava para mim, e ele era tão lindo, tinha uma roupa comprida, uma barba comprida, aquela visão que a criança tem de Jesus.” Aí Jesus começou a subir e ela esqueceu o veneno, preocupada com ele. “Não sobe Jesus! Você não sabe subir em pé de goiaba! Você vai se machucar! E já te machucaram tanto na Cruz!” Aqui, a voz de Damares é ainda mais lancinante, as lágrimas atropelam-se. “Eu amava tanto Jesus!” Mas “Jesus é tão poderoso, tão poderoso” que conseguiu subir no pé de goiaba até ao galho onde ela estava, e lhe deu “o abraço que a igreja não deu, o abraço que papai e mamãe não deram”. E “essa menininha que Satanás quis esmagar” se salvou. E hoje “está lá no Senado!”

Porque Damares, a menina abusada, se tornou uma pastora-política, como tantos no Brasil.

3. Aos 14 anos, ainda em Sergipe, Damares começou a trabalhar com organizações para a defesa das crianças. Deu aulas de alfabetização, experimentou dormir na rua para entender as crianças de rua, abrigou algumas temporariamente. Quando fala dessa época, faz questão de ligar o que lhe aconteceu com as suas decisões de vida. “Sou sobrevivente da pedofilia. Só quem passou por esse calvário é que sabe o que querem fazer com as nossas crianças”.

Entre o final dos anos 80 e meados dos 90, já advogada, Damares acompanhou a criação do Estatuto da Criança e do Adolescente, enquanto assessora de políticos cristãos. Em 1998, mudou-se para Brasília e foi trabalhar com o deputado João Campos, que viria a presidir à Frente Parlamentar Evangélica. Foi sua chefe de gabinete.

O abuso na infância deixou sequelas que a impediram de gerar uma criança, diz. Tornou-se mãe adoptiva de uma menina indígena, hoje com 20 anos. E pastora neo-pentecostal, na Igreja do Evangelho Quadrangular.

Nos últimos tempos, além de assessora do pastor-cantor-senador Magno Malta, era também consultora jurídica das frentes parlamentares Evangélica e da Família e Apoio à Vida; secretária nacional do movimento Brasil Sem Aborto; membro dos grupos Maconha Não, e Brasil Sem Drogas; e figura cada vez mais conhecida das emissões evangélicas.

Fez campanha, antes de Bolsonaro, contra manuais escolares supostamente “ensinando homossexualidade”. Um dos seus alvos foi a ex-prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, que teria pago estudos para promover masturbação em bebés. “A igreja evangélica está deixando isso acontecer”, alertava Damares. “Vamos começar a reagir, porque estão detonando as nossas crianças.”

Manuais e estudos tão inexistentes como o “kit gay” que Bolsonaro continuou a atribuir ao PT, mesmo depois de estar legalmente impedido de o fazer.

4. No começo de Dezembro, Bolsonaro confirmou Damares como sua futura ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos. Uma promoção que deixou para trás os chefes dela no Congresso, como Malta. E que ela começou imediatamente a antecipar, desdobrando-se em declarações, por exemplo, sobre gravidez, aborto e violação.

“Se a gravidez é um problema que dura só nove meses, o aborto é um problema que caminha a vida inteira com a mulher”, disse Damares à imprensa, depois de uma reunião com Bolsonaro. Em outras ocasiões mostrou dúvidas sobre a quantidade de mulheres que morrem na sequência de abortos clandestinos, e insistiu: “Não considero tema de saúde pública.”

Mas nem estas declarações prepararam os mais pessimistas para a nova ideia de Damares: uma bolsa-estupro. Ajuda financeira para que as mulheres violadas não abortem.

Ou seja: uma mulher que foi violada, e se sentiu abandonada por família e igreja, e sente que toda a sua vida foi determinada por essa violência, torna-se pastora de outra igreja, e enfim ministra. E como ministra-pastora vai incentivar financeiramente mulheres a terem os filhos dos homens que as violaram.

5. Damares também fez várias declarações sobre o papel das mulheres: “Me preocupo com ausência da mulher de casa.” Ou: “A mulher nasceu para ser mãe, é o papel mais especial da mulher.” Ou: “As feministas [estão] levantando uma guerra entre homens e mulheres.” Ou ainda: “Costumo brincar de como eu gostaria de estar em casa a tarde toda, em uma rede, e meu marido ralando muito para me sustentar e me encher de jóias. Esse seria o padrão ideal da sociedade. Mas não é possível. Temos que ir para o mercado de trabalho.”

Quando, infelizmente, já estão no “mercado de trabalho”, Damares contudo faz questão de defender que ganhem o mesmo: “Nenhum homem vai ganhar mais que uma mulher nessa nação desenvolvendo a mesma função. Se depender de mim, vou para a porta da empresa [para ver se] o funcionário homem desenvolvendo o mesmo papel da mulher está ganhando mais. Acabou isso no Brasil.”

6. Damares também disse que “se precisar estarei nas ruas com as travestis, se precisar estarei na porta da escola com as crianças que são discriminadas por sua orientação sexual”. Mais, ao contrário da direita brasileira em geral, declarou-se contra a redução da maioridade penal: “Quem defende crianças e adolescentes não pode ser a favor de prendê-los”. E, numa altura em que pares de gays e lésbicas correm a casar-se no Brasil, com medo dos retrocessos, Damares garantiu que o casamento gay não está em perigo: “É uma conquista deles. Direitos conquistados não se discutem mais.”

Ao mesmo tempo, esta futura ministra é a mesma que pergunta: “O que nós estamos vivendo hoje? Uma ditadura gay. Há uma imposição, há uma imposição ideológica no Brasil e quem diz que não aceita, é perseguido.” Damares duvida da própria ideia de orientação: “Não há prova científica que o gay nasça gay. Se tivesse, já tinham jogado na nossa cara”, disse em 2013. “A homossexualidade, ela é aprendida a partir do nascimento, lá na infância. A forma como se lida com a criança. Mas ninguém nasce gay.”

Muito compatível com a visão de Bolsonaro sobre o assunto.

7. Finalmente, a igreja. “Eu oro com os meus deputados, eu leio a Bíblia com os meus deputados, eu vou na casa deles orar quando eles estão tristes”, explicou Damares ao “The Intercept”. Estado laico como princípio básico democrático, constitucional? Essa ideia, no mundo das ideias de Damares, Bolsonaro & Cia, está extinta. O que se tem vindo a construir no Brasil nas últimas décadas, por falhanços vários do estado, da política — várias esquerdas incluídas — é um fundamentalismo religioso neo-pentecostal. Um fundamentalismo que se alimenta do que os fundamentalismos se alimentam em geral, abuso, abandono, pobreza, ressentimento, fragilidade psíquica.

Instituições, escola, assistência médica? A futura ministra Damares Alves não confia em nada disso: “Todas as instituições que defendem crianças faliram e falharam na proteção da infância no Brasil. A escola falhou, não é mais um lugar seguro para as crianças. Os clubes não são seguros. Nem os consultórios médicos são mais seguros. Não existe lugar seguro. Todos falharam. Só há um lugar seguro: a igreja, o templo.” E, sendo Damares mãe adoptiva de uma indígena, declarada protectora dos indígenas, há indicações de que dará mais liberdade aos pastores para a conversão de indígenas. Uma protecção evangelizadora, pois.

Durante um culto, a futura ministra declarou mesmo: “Chegou a nossa hora, é o momento de a igreja ocupar a nação. É o momento de a igreja dizer à nação a que viemos. É o momento de a igreja governar.”

8. Contraditória, inflamada, sofrida, mas, de uma estranha maneira, genuína, empática, e por isso ainda mais perigosa, Damares parece concentrar em si a tragédia brasileira deste fim de 2018.

Já escrevi aqui várias vezes sobre como a fé evangélica no Brasil não tem de estar refém deste fundamentalismo. Como esse fundamentalismo não está na sua essência, tal como o fundamentalismo não está na essência islâmica. Nas últimas décadas, vi esse fundamentalismo reforçar-se no Médio Oriente ou na Ásia Central, por muitas razões: governos locais ineptos, autoritários, corruptos; interferência, ganância e asneiras múltiplas das potências “ocidentais”; a selvajaria financeira global. Como vi os evangélicos fundamentalistas crescerem no Brasil, e do Brasil espalharem-se pelo mundo, por exemplo na África de língua portuguesa (Guiné-Bissau, Moçambique, para citar os que conheço), mas também nas faixas mais frágeis da população portuguesa. Esta tragédia está em muitas partes da Terra.

Mas no Brasil há pastores e pastoras — como sempre houve padres e freiras — que todos os dias lutam contra o abuso gerado pelo abuso, e nunca atendido. Escrevi há algumas semanas sobre um deles, Henrique Vieira, e sobre como a esquerda tem urgentemente de mudar, de reflectir sobre o que falhou na sua relação com os pobres, os abandonados, os periféricos. Esses que hoje votam em evangélicos, que fazem com que a mais recente sondagem sobre o futuro governo Bolsonaro seja de 64 por cento de aprovação. E nessa esquerda estão incluídos os que não sabem o que fazer com os Coletes Amarelos de França.

Teologia da Libertação foi um movimento católico, mas continua a ser uma boa expressão para quem tem fé. Um grande mestre brasileiro, Paulo Freire, disse que quando a educação não é libertadora o sonho do oprimido é ser o opressor. Não sendo crente, imagino que isso se possa aplicar à fé.

O mais impressionante nos vídeos de Damares Alves, na forma desesperada como ela fala, talvez seja essa imagem de um ser humano prisioneiro: do sofrimento, da perturbação, de uma febre. E nessa imagem se projecta quem sofre.

Alexandra Lucas Coelho, jornalista e escritora portuguêsa
Do Sapo
No DCM
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Nenhum período de graça, nenhum crédito de confiança

https://www.ocafezinho.com/2018/12/16/wanderley-bolsonaro-nao-merece-nenhum-credito-de-confianca/

Até o acaso tem limites. A declaração de guerra preventiva do governo Bolsonaro contra, não as práticas propriamente, mas os praticantes dos escambos usuais da política – apoio em troca de recompensas – plantou suficiente número de sementes para pequenas e grandes escaramuças. As condições econômicas e sociais continuam insatisfatórias e não haverá conserto nos dois semestres de 2019. Mesmo contida, a dogmática de Paulo Guedes e sua Ordem de cruzados velhos não terá dificuldade em provocar insatisfação generalizada, apesar dos sorrisos de botox e declarações fúteis dos segmentos empresariais.

Se as democracias normais estão em alvoroço para amenizar colisões entre interesses sublevados, o curto prazo não promete serenidade em democracias estúpidas, fundadas em estereótipos e preconceitos, única riqueza jamais dissipada entre nós: preconceitos religiosos, de existências medíocres, de primitivos em estado de graça, aliados aos estereótipos culturais de mentalidades obsoletas.

Tamanha imperícia acumulada não esclarece as tentativas de importar a guerra fria entre os Estados Unidos e a China, como ensaiam os mutantes em vias de assumir o governo, candidatos a hilários e desprezados fantoches. Menos ainda o provocador anúncio de mudança da representação do Brasil em Israel para Jerusalém. A cada semana tuitasse um retrocesso civilizatório na política externa brasileira. Tudo isso somado não pode ser aleatório. Ao contrário da falsa saúde cognitiva, o mundo atual contém conspirações e conspiradores como jamais na história das nações.

Conspiratas palacianas durante o absolutismo, conspirações contra a ordem aristocrática nos séculos XVII e XVIII, conspiratas sem fim para o rodizio de ditadores na América Latina do século XX, nada disso se compara à soma de espionagem industrial, de conspiração tecnológica de manipulação de dados contra os consumidores e contra eleitores, de conspirações entre nações poderosas dividindo mercados, sabotando a difusão do conhecimento, racionando a publicidade de conquistas farmacológicas, e sabe-se lá o quê mais. As conspirações atuais capturam milhões de pessoas e as regras do capitalismo enquanto jovem tornaram-se antiguidades sem valor de mercado.

A discussão entre conceder ou não algum crédito ao governo por começar é alternativa para quem dispõe de recurso financeiro ou político para financia-lo. Analistas independentes não têm porque dispensar períodos de graça a quem, diariamente, reafirma contra quem pretende governar. Não se trata de difama-lo, mas enquadra-lo no contexto real, no mundo cuja deterioração ou recuperação depende de ações, não de jogos de paciência.

O Brasil faz parte de pequeno conjunto de países se equilibrando no limite da inviabilização de sua autonomia. A ignorância dos líderes intelectuais da esquerda é assustadora, o anti-intelectualismo adotado pelo PT em seus anos iniciais exaltou a politica de resultados imediatos, desprezando a cultura de vanguarda e os professores como pedantismo elitista. Não é também por acaso que os quadros sobreviventes não consigam dizer coisa com coisa, apelando para a chantagem de que nada será normal enquanto Lula estiver preso. Não é verdade. A ignorância está livre, leve e solta.
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Moro, Toffoli e o lobby: Brasil trata unha encravada fingindo não ter dedo


Duas vezes nesta semana, o futuro ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sérgio Moro, defendeu a regulamentação do lobby político no Brasil. "É melhor regulamentar do que ser feito às sombras como é hoje."

Do outro lado, o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Dias Toffoli, afirmou que a regulamentação da atividade poderia gerar um novo tipo de caixa 2 para campanhas eleitorais. "Sou absolutamente contra, acho antidemocrático." Comparou a atividade com a de um despachante que atua para burlam as leis.

Pressão e articulação para defender os interesses de um grupo social, político ou econômico junto ao Estado existe e sempre existiu em qualquer lugar do mundo. Faz parte do jogo democrático que grupos incidam politicamente, através do diálogo ou da pressão, com governos e parlamentos, pela mudança, manutenção ou julgamento de leis ou a execução de ações que beneficiem seus representados.

O que não faz parte é isso envolver somas de dinheiro ou troca de favores para que políticos, juízes, funcionários públicos coloquem o Estado a serviço de quem quer que seja.

O problema é que, mesmo proibida, a atividade lobby existe em Brasília sob outros nomes. Para citar apenas três exemplos que atuaram fortemente nos bastidores do Judiciário, do Legislativo e do Executivo, neste ano, tivemos o lobby das empresas produtoras e comercializadoras de amianto – produto relacionado ao desenvolvimento de câncer. O lobby da indústria farmacêutica contra a quebra de patente de medicamento para o tratamento da Hepatite C, o que impede a produção, pelo país, de genérico com custo muito mais baixo. E o lobby dos agrotóxicos, para afrouxar as regras relacionadas ao controle e denominação desses produtos químicos.

Mas como a atividade de lobby e a função de lobista não são regulamentadas no Brasil, é comum membros dos Três Poderes e servidores públicos receberem quem quiserem, da forma que acharem mais conveniente, na surdina, sem que isso passe por uma prestação de contas à sociedade. E essa falta de transparência ajuda a criar monstros como os escândalos de corrupção. Com isso, descobrimos determinadas relações espúrias quando elas já drenaram os cofres públicos ou fizeram com que a máquina servisse aos interesses particulares de alguém.

Associações empresariais, sociais ou sindicais raramente fazem visitas de cortesia a deputados e ministros do STF. Há interesses envolvidos nessas conversas que deveriam ser expostos à coletividade.

Projetos e discussões para regulamentar a atividade no Brasil, alguns beirando o ridículo de se fazer apenas um cadastro e uma carteirinha para identificar o profissional envolvido, já foram apresentados no Congresso Nacional. Fazer um crachá é uma solução tão boa quanto montar uma comissão para resolver um problema. E, como sabemos, o Brasil adora um crachá. E uma comissão. Porque é a forma de resolver sem resolver nada por aqui.

Defendo há anos, neste espaço, a regulamentação como forma de aumentar a transparência e impor regras para a esbórnia que existe hoje. Regulamentar o lobby significa dizer o que se pode e o que não se pode fazer. E estipular formas de publicizar obrigatoriamente essas ações e encontros.

Um lobista do setor sucroalcooleiro visitou o ministro-chefe da Casa Civil? Que seja colocada na página do ministério o motivo da reunião, os presentes e o que foi discutido e não apenas uma linha de agenda, quando muito.

Um ex-presidente/ governador/ prefeito /senador /deputado /vereador foi recebido por alguém que defendeu algum interesse específico de movimentos sociais ou sindicatos? Que se dê plena publicidade disso.

Um lobista do setor de rádio e TV ou da área de telecomunicações foi tomar chá com biscoitos com o ministro responsável pela área das Comunicações? Que fique claro quanto tempo durou e o que foi discutido no encontro além do sabor dos amanteigados, se ingleses, holandeses ou dinamarqueses.

Um outro do setor automobilístico conversou com um presidente de comissão da Câmara dos Deputados? Que as respostas para "quem, quando, como, onde, o que, por que e com quem" estejam disponíveis no site do parlamento sem demora.

E se alguém não publicar a informação estará incorrendo em falta grave, passível de punição à empresa, ao grupo representado ou ao político ou funcionário público envolvido. E em caso de desvio de conduta (como o pagamento de propina), os envolvidos seriam alvo de investigação, processo público e condenação, sob regras duras.

Hoje, há um entra e sai tão grande de "interesses" nos gabinetes que faz parecer que a única diferença entre "público" e "privado" é que uma é palavra proparoxítona e a outra não.

E, repetindo, isso valeria para todos os setores: empresas, associações, sindicatos, movimentos sociais, organismos internacionais, organizações não-governamentais. Afinal, é nosso interesse que está envolvido e os políticos eleitos com nossos votos e os servidores públicos não têm direito de guardar sigilo sobre isso.

Países como os Estados Unidos autorizam o lobby, mas têm regras específicas sobre o tema. Isso significa que as coisas não descambam para corrupção por lá? Longe disso. Mas a situação fornece, ao menos, instrumentos de fiscalização.

Quem já assistiu ao filme "Obrigado por fumar" (Thank You for Smoking, 2006), que satiriza a indústria do tabaco e as associações de lobby do petróleo ou das armas que atuam nos Estados Unidos, sabe o que é o discurso da defesa do indefensável. Isso não vai deixar de existir, mas deveria, ao menos, ser público.

O roteirista da pornochanchada chamada "Brasil" é tão nonsense que, enquanto o cabaré pega fogo, ele faz com que os clientes e os funcionários continuem como se nada estivesse acontecendo.

Gosto também daquelas metáforas envolvendo saúde – um dos lobbies mais poderosos: ignorar que uma unha espeta a carne, escondendo-a sob a meia e o sapato, não faz ela desencravar.

Pelo contrário. Infecciona.

Leonardo Sakamoto
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