15 de dez. de 2018

Retórica do clã torna o Brasil vulnerável no mundo


Nicolás Maduro não fez uma bravata quando denunciou os atos de ingerência e ameaças de intervenção do assessor de Segurança Nacional dos Estados Unidos, John Bolton. É preciso levá-los a sério, como também os alertas sobre os elos existentes entre esse representante dos falcões do imperialismo estadunidense e a direita latino-americana, nomeadamente o governo colombiano e o presidente eleito do Brasil.

Em boa hora, o líder bolivariano, ao mesmo tempo que alçou a voz na defesa da legitimidade de seu governo e da soberania de seu país, chamou a atenção do Brasil e seus vizinhos para algo que muitas vezes permanece oculto pela pujança e força do gigante do cruzeiro do sul: a vulnerabilidade ou a potência relativa do nosso país.

Por paradoxal que possa parecer, é isso também que transparece do evento realizado na cidade de Foz do Iguaçu, a chamada Cúpula Conservadora das Américas, uma articulação da extrema-direita regional, em que o deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do presidente eleito, excedeu-se em ameaças à Venezuela, Nicarágua e Cuba, num discurso tão delirante quanto revelador de ignorância das normas do Direito Internacional. Bolsonaro filho chegou ao ponto de sugerir que o Brasil seja a sede de um tribunal para julgar autoridades desses países. Cúmulo da desonra para uma nação cujo prestígio que desfruta no mundo está ligado - para além de sua nova civilização, cultura palpitante, modo de vida despojado e imensas riquezas - ao fato de que à exceção do genocídio que perpetrou contra uma nação irmã, o Paraguai, no século XIX, e da infame participação numa intervenção ianque contra a República Dominicana no período inicial da ditadura militar, o Brasil tem por norma a defesa da paz, o respeito à autodeterminação de outros povos e nações, a solução mediante o diálogo dos conflitos internacionais e o estrito apego às normas do direito internacional. O arroubo bolsonariano subtrai esta força obtida e temperada na trajetória nacional e vulnera as posições do País.

Seria desastroso para o Brasil converter-se nessa pretendida sede mundial ou regional da direita internacional, algo totalmente estranho que jamais ocorreu em outra época da história nacional, nem sequer durante a ditadura militar. Não há a menor dúvida de que um País que sempre se distinguiu no concerto mundial como uma nação amiga, passaria a ser catalogado como inimigo e hostilizado.

É preocupante que o próprio presidente eleito tenha felicitado a iniciativa, e considerado sua eleição como "uma resposta aos estragos" que em os governos progressistas causaram "em todos os lugares, em especial na Venezuela". "Este é o momento de propor novos caminhos e a Cúpula Conservadora das Américas representa esse desejo", disse Jair Bolsonaro.

Esse tipo de declaração é uma provocação contra países soberanos e amigos, por isso mesmo é inaceitável. O povo brasileiro não quer que o País se torne um gendarme internacional na América Latina a serviço do imperialismo estadunidense, porquanto isto é perigoso não somente por afastar o Brasil de uma orientação pacifista e de integração regional voltada para o desenvolvimento compartilhado, mas também revela uma análise tosca, ao considerar equivocadamente os países citados como Estados débeis, sem amigos, aliados e respaldo internacional.

Ao comprometer tanto a imagem do País no exterior e gerar instabilidade nas relações diplomáticas e comerciais, a catilinária do clã Bolsonaro provoca contradições no próprio seio da equipe que entrará em funções governamentais dentro de duas semanas. Os militares, por exemplo, afeitos aos assuntos geopolíticos, dominando as artes da ofensiva, defensiva e dissuasão, sabem que o Brasil não pode nem deve envolver-se em aventuras. O momento mundial, as tendências da época e mesmo a correlação de força interna desaconselham a ultrapassagem de certos limites. O intervencionismo militar não é consensual na área diplomática nem na castrense.

Assim, um dos desafios da oposição no novo ciclo político será entrelaçar as bandeiras democráticas e populares com a frente externa. Mais do que nunca estará na ordem do dia a luta pela paz e anti-imperialista, para o que será indispensável a unidade das forças progressistas da região e o exercício da diplomacia entre povos.

José Reinaldo Carvalho, jornalista, pós-graduado em Política e Relações Internacionais, diretor do Cebrapaz – Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz
Leia Mais ►

O único milagre de João de Deus, um charlatão milionário, foi enganar tanta gente por tanto tempo

Esta reportagem do Hypeness foi publicada originalmente em 2014. Ganha atualidade com a fuga do curandeiro picareta João de Deus, acusado do abuso sexual de mais de 200 mulheres

João de Deus entre Ronaldo Fenômeno e a modelo Celina Locks
Em 25 de outubro desse ano, um programa de televisão australiano chamado “60 Minutos” (em tradução livre) contou a história da cética investigação que a jornalista Liz Hayes fez sobre o enigmático João Teixeira de Faria, mais conhecido como “João de Deus”, em 1998.

O brasileiro ficou internacionalmente conhecido depois de ser promovido por ninguém menos que a apresentadora norte-americana Oprah Winfrey, uma das mais famosas do mundo, como um médium que canalizava os espíritos de médicos mortos e os usava para realizar curas milagrosas em pessoas das mais diversas nacionalidades que o visitavam em sua “Casa”, em Abadiânia, Goiás.

Aqui está um resumo do que foi revelado nesta investigação, embora o título desse artigo já dê uma boa dica do que você vai encontrar aqui pela frente.

Parte 1 do caso João de Deus

Na parte 1 da reportagem, o repórter Michael Usher revelou que uma mulher declarada como curada de um câncer de mama por uma entidade espiritual canalizada por João de Deus morreu em 2003. Uma outra mulher em uma cadeira de rodas com esclerose múltipla que, na pesquisa de Hayes realizada em 1998, visitou João com a expectativa de andar novamente, disse não ter sentido qualquer efeito do “tratamento” e obviamente ainda está em uma cadeira de rodas.

Na verdade, sua condição até piorou. Mas se você é desses que diz “não custava nada tentar”, bem, você está enganado. Essa brincadeira de sair lá da Austrália para vir até o “consultório” de João de Deus saiu por 5 mil dólares australianos. Algo que ultrapassa tranquilamente os 10 mil reais. A matéria de Usher também conta que nenhum dos outros australianos (que vieram em um grupo de 40 pessoas) sentiram qualquer melhora após a consulta.

O relatório do jornalista Usher também mencionou que alguns dos milhares de pacientes de João também esperavam receber uma tal de “cirurgia espiritual” com ele, 3 vezes na semana. Essas práticas, tais como a inserção de tesouras (ou pinças) de profundidade em um nariz, e raspar um olho sem anestesia, foram registradas em histórias anteriores sobre João. Parece cruel, não? João também foi mostrado diversas vezes fazendo várias incisões na pele de seus “pacientes” sem demonstrar o menor respeito por procedimentos anestésicos ou de esterilização de materiais.

Para o médico David Rosengren, “o mundo da medicina moderna não pode tolerar esse comportamento de forma alguma”. Fácil de concordar com ele, não? Até porque um procedimento como esse pode custar bem mais caro – se a gente partir do pressuposto que uma vida vale bem mais de 5 mil dólares.

No decorrer da matéria, Usher esclarece a questão dos valores cobrados

A consulta com o João de Deus era gratuita, mas muitas vezes ele prescrevia visitas a uns leitos de cristal [que contavam com luzes coloridas brilhando sobre eles], que custavam US$ 25 por sessão. Isso gerava uma receita de aproximadamente 1.8 milhão de dólares por ano. Nada mal. Havia também a “água abençoada”, que custava cerca de um dólar por garrafa.

O consultório também contava com uma loja de presentes e uma farmácia, que vendia pílulas abençoadas de ervas (apenas disponíveis sob prescrição João de Deus, aparentemente). Uma caixa saía por US$ 25, o que garantia uma receita de US$ 40.000 POR DIA. Isso significava mais de US$ 14 milhões por ano (R$ 36,15 mi no câmbio atual).

Usher ressalta que foi comprovado que as pílulas não eram nada além de maracujá.

De acordo com o Natural Medicines Comprehensive Database (banco de dados de medicina natural, em tradução livre), o maracujá é “possivelmente seguro quando usado por via oral e de forma adequada para fins medicinais de curto prazo”, e também é “possivelmente perigoso quando utilizado em quantidades excessivas” e não deve absolutamente ser usado durante a gravidez, já que “constituintes de maracujazeiro mostram evidências de estimulação uterina”, o que poderia provocar um aborto.

Esse mesmo banco de dados sugere que o composto em questão é possivelmente eficaz para transtornos de humor, ansiedade e abstinência de opiáceos, mas “pode causar tonturas, confusão, sedação e ataxia” e há alguns relatos de efeitos colaterais mais graves, incluindo vasculite e consciência alterada. Ou seja: requer um certo cuidado ao ser prescrito.

Parte 2 do caso João de Deus

Na Parte 2 da matéria, Usher afirmou que houve duas mortes nos últimos anos na “Casa” que justificam as investigações, mas ninguém sequer foi acusado.

Ele também informou que, em 2010, quando João visitou Sedona, no Arizona (Estados Unidos), o departamento de polícia o investigou porque uma mulher disse que ele pegou as mãos dela e as colocou em seus órgãos genitais; João também teria tentado colocar a mão embaixo da saia dela. O caso nunca foi ao tribunal; um de seus associados incentivou a mulher a desfazer as acusações. Sabe-se lá que incentivos foram esses.

O que João tem a dizer em sua própria defesa?

O jornalista australiano tentou entrevistar João, mas ele acabou ficando muito irritado depois que Usher perguntou se João se interessava mais pelo dinheiro do que pelos milagres e se ele já havia agredido sexualmente algum de seus pacientes. A matéria mostra que João foi embora, respondeu sarcasticamente para o intérprete e depois voltou para a entrevista insistindo para ver o que havia sido gravado. Suspeito.

Mas isso não foi tudo.

Em 10 de fevereiro de 2005, foi ao ar no horário nobre da televisão norte-americana uma entrevista muito mais cordial de João de Deus, conduzida pelo repórter John Quiñones, que também entrevistou o milagreiro Oz e o médico James Randi. Nessa ocasião, Oz falou de uma “técnica” que envolvia colocar uma pinça no nariz das pessoas para ver se isso teria alguma influência sob medicamentos tomados.

Essa especulação obviamente não faz sentido anatômico, mas os telespectadores não tiveram acesso a essa informação esclarecida pelo Dr. Randi, porque o horário nobre escolheu colocar no ar apenas os 19 segundos em que o médico protestou contra João de Deus, declarando-o um charlatão.

Embora Quiñones seja um jornalista premiado, o saldo dessa entrevista acabou sendo um desserviço aos seus telespectadores, por não explorar os dois lados da história.

Conclusão

Ao relatar João Teixeira de Faria, Oprah e Quiñones selecionaram informações para incentivar o pensamento positivo de que Deus e os espíritos usam um homem sem instrução como um canal para a cura sobrenatural.

Em contraste, tanto o levantamento realizado em 1998 quanto o de 2014 por parte do australiano foram baseados em um ceticismo saudável e permitiu os espectadores compreendessem os méritos de pontos de vista contrastantes. Em seu relatório, Michael Usher reconheceu o valor da esperança, mas também observou que ela pode ser uma fraqueza, transformando as pessoas em presas fáceis e vulneráveis para o pior tipo de seres humanos.

João de Deus é um homem que afirma fazer milagres e curar os doentes. Ele se chama João de Deus, mas não há nada de divino nele. Milhares de pessoas o procuram na esperança de uma cura para a sua dor, mas acabam sendo esfolados na hora de pagar a conta. Ele se vende como a suposta cura de Deus, mas não o faz de bom grado. Muito pelo contrário. Ele é um homem de negócios parcimonioso que ganha dezenas de milhões de dólares com a fé e o desespero alheio. Posso estar enganada, mas não vejo nada de nobre nisso.

RandiRD
No DCM
Leia Mais ►

AI-5 continua vivo

O Brasil, ao contrário de outros países da América do Sul que também passaram por ditaduras militares, nunca conseguiu encerrar realmente o ciclo político do autoritarismo militar.

Para tanto, teria sido necessário que os culpados por crimes hediondos, como o de tortura, sequestro, assassinato, etc. tivessem sido responsabilizados por seus atos, e julgados com o amplo direito à defesa que eles negaram às suas vítimas.

Dessa forma, o país poderia ter “passado a limpo” o seu passado de crimes e crueldades. A população teria tomado consciência da terrível realidade de se viver numa ditadura.

A lei assimétrica da Anistia pode ter facilitado uma transição indolor para o período democrático posterior, mas manteve aberta a ferida dos crimes cometidos, ocultou, da consciência nacional e da justiça, a necessidade de uma ampla reparação histórica e impossibilitou de encerrar, de forma definitiva, o ciclo político da ditadura.

Assim sendo, o ano de 1964 e, especialmente, o ano de 1968, o ano do AI-5, ainda não se encerraram de modo irreversível.

É isso que explica, em alguma medida, o surgimento desse neofascismo brasileiro com tintes militaristas. É isso que explica esse inexplicável saudosismo da ditadura militar. É isso que explica, em parte, que um deputado do baixo clero que faz elogios reiterados à tortura, aos sequestros, aos assassinatos e à ditadura militar possa ser tão popular a ponto de chegar à presidência da república.

Em outros países do mundo, mesmo em alguns da América do Sul, uma pessoa com esse perfil despertaria amplo desprezo. Nos EUA, um indivíduo que defendesse torturas e ditaduras não seria eleito nem para síndico de prédio da Ku Klux Kan. Na Europa Ocidental, provavelmente estaria preso.

Essas características singulares do processo histórico brasileiro também explicam, ao menos em parte, a fragilidade da nossa democracia, duramente atingida pelo golpe de 2016, que desfez o pacto político-social plasmado na Constituição de 1988. Da mesma forma, permitem compreender a atual e óbvia tutela do poder militar sobre o poder civil.

Ocorre no Brasil, no plano coletivo, o que Freud analisava no plano individual: o retorno do oprimido.

Aquilo que é reprimido fora da consciência, acaba retornando e ressurgindo, de forma modificada e distorcida.

Nesse sentido, o neofascismo militarista brasileiro é o retorno, de forma distorcida, de uma ditadura cujo ciclo histórico nunca foi encerrado, de modo pleno e definitivo.

Portanto, o espírito do AI-5 continua vivo no governo Bolsonaro.

É uma espada de Dâmocles sobre a cabeça do que restou da nossa democracia.

Marcelo Zero
Leia Mais ►

Trabalhadores resgatados em condições de escravidão eram pagos com crack, em SC

Trabalhadoras foram aliciados no Piauí. Não tinham sequer água potável e eram pagos com crack


O Ministério Público do Trabalho em Santa Catarina (MPT-SC) aguarda a identificação dos proprietários das terras de Bom Retiro onde foram resgatados 22 trabalhadores em condições análogas à de escravos, para abrir inquérito e tomar as medidas necessárias. O processo será conduzido pelo procurador do MPT-SC Jaime Roque Perottoni. A operação de resgate por auditores-fiscais do Ministério do Trabalho (MTb), com apoio da Polícia Rodoviária Federal, teve início no dia 30 de novembro.

Os trabalhadores foram recrutados no Estado do Piauí para fazer a colheita de cebola em diversas propriedades da serra catarinense, sendo transportados sem prévia comunicação ao Ministério do Trabalho e sem registro em Carteira de Trabalho, o que configura, em tese, crime de aliciamento, previsto no artigo 207 do Código Penal.

Eles foram colocados em uma casa com três quartos, sem as mínimas condições de conforto e higiene. Dormiam em pedaços de espuma improvisados. Com graves problemas de infiltração, a água da chuva invadia os cômodos do alojamento atingindo os colchões e pertences dos trabalhadores. 

Foi identificado também ausência de fornecimento de água potável e filtrada, instalações sanitárias em condições precárias de manutenção e higiene e muita sujeira acumulada no local.

Os trabalhadores aguardam em um hotel na região a conclusão dos procedimentos de resgate e o pagamento das verbas rescisórias, emissão de guias de seguro-desemprego do trabalhador resgatado e retorno ao local de origem.

A equipe de fiscalização e autoridades da esfera criminal investigam ainda a denúncia de que existem outros aliciadores na região e que os trabalhadores estariam sendo pagos com drogas, especialmente crack.

A identificação do trabalho análogo à de escravo, segundo o auditor-fiscal Pedro Henrique Maglioni da Cruz, chefe do Setor de Segurança e Saúde no Trabalho da Superintendência Regional do Trabalho em Santa Catarina, se deve a estratégia de intensificar a fiscalização na colheita da cebola neste ano, uma vez que a atividade permanece como importante foco de infrações trabalhistas no Estado.

Assim que responsáveis pela contratação forem identificados, serão autuados pelo MPT e poderão ser processados criminalmente conforme prevê o artigo 149 do Código Penal. O procurador do Trabalho Jaime Perottoni, vai propor ainda a assinatura de um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) para que os produtores de cebola envolvidos no caso se comprometam a não mais aliciar trabalhadores e mantê-los em situação semelhante à de escravidão.

No Portal MPT
Leia Mais ►

De vendedora de açaí a personal trainer: o staff de Bolsonaro na Câmara

https://www.balaiodokotscho.com.br/2018/12/15/de-vendedora-de-acai-a-personal-trainer-o-staff-de-jair-bolsonaro-na-camara/

“Ah, pelo amor de Deus, pergunta para o meu chefe de gabinete. Eu tenho 15 funcionários comigo”, desabafou Jair Bolsonaro, já eleito presidente, quando os repórteres lhe perguntaram sobre o que fazia em seu gabinete de deputado a funcionária Nathalia Melo de Queiroz.

De camiseta, encostado num carro na entrada do seu condomínio na Barra da Tijuca, o capitão parecia visivelmente acuado diante das câmeras e microfones, cercado por um batalhão de jornalistas e seguranças.

Fiquei pensando: se ele não sabe o que fazem os 15 funcionários do seu gabinete em Brasília, como vai comandar os 22 ministros encarregados de governar 208 milhões de habitantes e 12 milhões de desempregados, com o país mergulhado na mais profunda crise da sua história?

Nathalia é um bom exemplo dos critérios do capitão para montar suas equipes.

Filha de Fabrício de Queiroz, o PM que trabalhava no gabinete de Flávio Bolsonaro, e está desaparecido desde que encontraram R$ 1,2 milhão em sua conta bancária, ela é personal trainer de celebridades e tinha um emprego no Rio enquanto estava recebendo salário de secretária parlamentar no gabinete de Jair Bolsonaro em Brasília.

Antes dela, outra funcionária fantasma era a agora célebre “Wal do Açaí”, a secretária parlamentar que cuidava da casa de veraneio dos Bolsonaro, na região da Costa Verde, no Rio.

Walderice Santos da Conceição estava empregada no gabinete do deputado federal Jair Bolsonaro desde 2003 e só pediu demissão ou foi demitida quando a Folha revelou a sua história de funcionária fantasma, já durante a campanha presidencial.

Por conta disso, Bolsonaro jurou o jornal de morte, antes que o Coaf revelasse as “atípicas” movimentações financeiras de Fabrício Queiroz, que acumulava as funções de assessor parlamentar, segurança, motorista e caixa eletrônico particular da agora família presidencial.

Queiroz levou a família inteira para trabalhar no gabinete de Flávio Bolsonaro e pediu demissão, no mesmo dia 15 de outubro em que Nathalia deu baixa na carteira em Brasília, entre o primeiro e o segundo turnos da eleição, quando a vitória do capitão já parecia assegurada.

A denúncia sobre a conta de Queiroz só vazou já em pleno governo de transição, quando Bolsonaro estava nomeando seus ministros.

Numa das tumultuadas entrevistas sobre o caso Coaf, Jair Bolsonaro contou que foi colega no Exército e é amigo de Fabrício Queiroz há 34 anos, seu companheiro de pesca, churrasco e futebol.

Agora, limita-se a dizer que cabe ao amigo e ex-assessor, que depositou um cheque de R$ 24 mil na conta da futura primeira-dama Michelle, dar explicações à Justiça.

Fábio Bolsonaro repete todo dia que não fez nada de errado e também lavou as mãos.

Enquanto o motorista Queiroz não reaparece, uma sombra de dúvidas cobre o modus-operandi dos Bolsonaro com seus subordinados, todos pagos com dinheiro público, para prestar serviços particulares ou serviço nenhum.

Daqui a duas semanas, a nova ordem toma posse, e este caso tem tudo para desaparecer no limbo do juizado de pequenas causas, apenas um acidente de percurso do governo de transição.

Bom final de semana.

Vida que segue.

Ricardo Kotscho
Leia Mais ►

Bolsogate: Assessoras de Flávio Bolsonaro prestam serviços ao PSL e não vão à Alerj

Uma delas é irmã de PMs presos em agosto por extorsão


Em maio deste ano, Lídia Cristina dos Santos Cunha e Valdenice de Oliveira Meliga foram nomeadas na Alerj para trabalharem como assessoras parlamentares V do deputado estadual Flávio Bolsonaro na liderança do PSL. Cada uma recebe um salário líquido de R$ 5.124,62, segundo a folha de pagamento de outubro.

No entanto, Lídia e Valdenice nunca aparecem por lá, como informaram à coluna servidores do gabinete de Flávio. As duas batem ponto na sede do diretório regional do PSL, no Recreio dos Bandeirantes. Lídia é secretária-geral do partido. Valdenice, tesoureira. Ou seja: prestam serviços para a legenda e recebem salários pela Alerj.

Extorsão

Valdenice, mais conhecida como Val, é irmã dos gêmeos Alan e Alex Rodrigues de Oliveira, policiais militares presos em agosto na Operação Quarto Elemento, que investiga quadrilha de PMs especializada em extorsões.

Amiga da família

Os dois PMs participaram de agendas de campanha de Flávio Bolsonaro, eleito senador. Valdenice, aliás, é amiga da família do presidente eleito Jair Bolsonaro.

Indicação

Já Lídia Cunha foi uma indicação de Valdenice e de Miguel Ângelo Braga Grillo, chefe de gabinete de Flávio e vice-presidente regional do PSL.

Confirmação

Funcionários do diretório do PSL, que fica no Condomínio do Edifício One Offices, na Avenida das Américas 18.000, confirmaram à coluna que Lídia e Valdecine cumprem expediente no local.

Lembrando

Como a coluna revelou nesta quinta-feira, o ex-motorista de Flávio, Fabrício José Carlos de Queiroz, está isolado num apartamento na Barra da Tijuca preparando a defesa com um contador e um advogado.

Conta bancária

Segundo o Coaf, Queiroz movimentou R$ 1,2 milhão de forma suspeita.

Outro lado

A coluna não conseguiu uma resposta do deputado Flávio Bolsonaro sobre o caso até o fechamento desta edição.

Cássio Bruno
No O Dia
Leia Mais ►

Bolsogate: Fabrício Queiroz indicou enteada para gabinete de Flávio Bolsonaro

Além da mulher e de duas filhas, ex-motorista do deputado, mencionado em relatório do Coaf, levou ainda o ex-marido da atual mulher para gabinete de deputado na Alerj

Márcio Gerbatim com a enteada, que foi indicada para trabalhar no gabinete de Flávio Bolsonaro
O deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), primogênito do futuro presidente, empregou em seu gabinete mais duas pessoas ligadas ao ex-motorista Fabrício José Carlos de Queiroz . Além da mulher e de duas filhas, o ex-assessor indicou a enteada, Evelyn Mayara de Aguiar Gerbatim, e o ex-marido da atual mulher, Márcio da Silva Gerbatim, para trabalhar no gabinete.

Evelyn foi nomeada para o cargo de assessora parlamentar em 31 de agosto de 2017, justamente para a vaga da mãe, Márcia Aguiar, mulher de Queiroz, que integrou o gabinete de Flávio entre março de 2007 e setembro de 2017. Segundo o pai de Evelyn Mayara, no entanto, a filha cursa faculdade de manhã e trabalha em uma farmácia à tarde.

Aos 21 anos, a enteada de Queiroz aparece na folha de pagamento de outubro da Alerj com um salário líquido de R$ 7.549,75. Além dela, atualmente a filha de Queiroz, Evelyn Melo de Queiroz, segue lotada com salário idêntico no gabinete.

Há cerca de uma semana, um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) anexado aos autos da Operação Furna da Onça, da Polícia Federal, revelou uma movimentação atípica de R$ 1,2 milhão na conta de Queiroz no período de um ano. Entre janeiro de 2016 e o mesmo mês de 2017, a conta recebeu R$ 605.552 — sendo R$ 84,1 mil da filha Nathalia Melo de Queiroz e R$ 18,8 mil da mulher, Márcia.

Entre as movimentações atípicas, há na conta a compensação de um cheque de R$ 24 mil pago à futura primeira-dama, Michelle Bolsonaro, além de saques fracionados em espécie. O presidente eleito afirma que o cheque é parte do pagamento de uma dívida de R$ 40 mil.

Pai desconhece cargo

Em entrevista, Márcio Gerbatim, que foi lotado como motorista no gabinete de Flávio entre maio de 2007 e maio de 2011, informou desconhecer que a filha estivesse lotada no gabinete do deputado. Segundo ele, a filha cursa Psicologia em uma universidade na Taquara, na Zona Oeste do Rio, no período da manhã e trabalha em uma farmácia na mesma região.

— Minha filha faz faculdade de Psicologia. Ela trabalhava antes numa farmácia, agora você está falando que ela está trabalhando lá na Alerj. Estou surpreso. Para mim, ela trabalhava na farmácia ainda — disse Gerbatim, que diz não se recordar do nome do estabelecimento.

Na tarde da última segunda-feira, O Globo encontrou Evelyn Mayara na viela onde está localizada uma casa que, segundo vizinhos, pertence a Queiroz. O imóvel fica na Taquara. Na ocasião, ela negou ter parentesco com o ex-assessor de Flávio e também com Márcia.

Juliana Castro, Juliana Dal Piva, Bruno Abbud e Igor Mello
No O Globo
Leia Mais ►

Bolsogate: "trabalho escravo"


Funcionários de Flávio Bolsonaro na Alerj repassaram até 99% de seus salários

Uma análise da movimentação financeira do ex-assessor do deputado estadual Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), Fabrício José Carlos de Queiroz, indica que pelo menos uma funcionária da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) pode ter depositado quase tudo que recebeu na Casa em sua conta.

A servidora em questão é Nathalia Melo de Queiroz, que é filha do ex-servidor. No período investigado, ela repassou R$ 97.641,20 ao pai, um hipotético crédito mensal médio de R$ 7.510,86.

Segundo informações do blog do Fausto Macedo, no jornal O Estado de S. Paulo, a quantia equivale a 99% do pagamento líquido da Alerj a Nathalia em janeiro de 2016, mas não é possível concluir que o dinheiro tem origem exclusiva dos pagamentos da Alerj porque os dados sobre a movimentação financeira total de Nathalia não foram divulgados - uma matéria veiculada na Folha de S. Paulo nessa sexta (14) aponta que enquanto era funcionária, ela trabalhava como personal trainer no Rio.

O Estadão fez cálculos por aproximação, utilizando o relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), da Operação Furna da Onça, e também a folha salarial da Casa.

De acordo com a publicação, a renda considerada pelo Coaf provavelmente contabiliza valores que não fazem parte da folha de janeiro da Alerj, mas, ainda assim, os números apontam percentuais altos de repasse.

Nathalia trabalhou na Alerj de setembro de 2007 a dezembro de 2016. Depois disso, ela foi trabalhar como assessora no gabinete parlamentar do então deputado federal Jair Bolsonaro (PSL). Sua exoneração foi assinada no dia 15 de outubro, mesmo dia em que seu pai também foi desligado do gabinete de Flávio. No caso dele, o motivo apontado para a demissão foi a aposentadoria de Queiroz como policial militar.
Leia Mais ►

Greg News com Gregório Duvivier| Especial 2018


Leia Mais ►

ONG de Damares é acusada de tráfico de crianças indígenas


A ONG Atini, entidade fundada por Damares Alves, futura ministra de Mulher, Família e Direitos Humanos, é alvo de denúncias no Ministério Público por crime de tráfico e sequestro de crianças e incitação ao ódio contra indígenas.

De acordo com matéria da Folha de S. Paulo, a Atini, sob um falso selo humanitário, é acusada de explorar o infanticídio de crianças indígenas para legitimar sua agenda. Em 2016, a Polícia Federal pediu informações à Funai (Fundação Nacional do Índio) sobre supostos "tráfico e exploração sexual" de indígenas para apurar a atuação da fundação da ministra e outras duas ONGs.

A Funai, a partir de 2019, ficará sob guarda da pasta chefiada por Damares, que prometeu pôr em sua presidência alguém que "ame desesperadamente os índios". O processo sobre as organizações ainda tramita no órgão.

Damares fundou a Atini em 2006 e se vangloriava por supostamente ter alvo ao menos 50 crianças em situação de risco, algumas delas enterradas vivas. Ela se afastou da Atini em 2015 para integrar o gabinete do senador Magno Malta (PR-ES), onde prestava assessoria jurídica à bancada evangélica no Congresso.

Confira a íntegra da matéria na Folha de S. Paulo.
Leia Mais ►

Como o ‘kit gay’ ajudou Damares Alves a chegar ao primeiro escalão

A futura ministra dos Direitos Humanos do governo de Jair Bolsonaro fala em Brasília em 6 de dezembro. 
Foto: Sergio Lima/AFP/Getty Images
Damares Alves estava com enxaqueca naquele fim de tarde em 2015. O expediente de uma quarta-feira de junho, às vésperas do recesso parlamentar, havia sido repleto de reuniões, telefonemas, assinaturas de papéis e caminhadas pelos corredores das duas Casas do Congresso Nacional.

Mesmo cansada, a futura ministra dos Direitos Humanos de Jair Bolsonaro aceitou conceder a entrevista que eu havia lhe pedido para o meu documentário Púlpito e Parlamento: Evangélicos Na Política.

Ao final da conversa de cerca de uma hora, perguntada sobre seu futuro, ela me daria um ultimato: “Eu estou cheia de tudo isso, vou parar de trabalhar aqui em dezembro de 2015”. Não parou.

Até chegar ao atual palco do poder Executivo federal, no entanto, a advogada e professora Damares Alves, 54, transitou por muitas coxias. Desde o início dos anos 2000, ela trabalha como poucos na organização do multifacetado bloco evangélico que hoje faz barulho no Congresso, mas que à época ainda era um grupo disforme. Sempre nos bastidores, ela treinou servidores, deu aulas de técnicas regimentais para parlamentares novos e ganhou status de celebridade – maior do que o de grande parte dos eleitos com quem atuou.

Quando nos encontramos para a entrevista, Alves acumulava, no parlamento, os cargos de assessora do senador Magno Malta e consultora jurídica das frentes parlamentares Evangélica e da Família e Apoio à Vida. Fora dele, ela ainda era Secretária Nacional do movimento Brasil Sem Aborto e membro dos grupos Maconha Não e Brasil Sem Drogas, além de figura carimbada em programas de entrevistas evangélicos.

Esse havia sido o motor da minha curiosidade: como a Brasília do baixo clero produzira, sem votos, uma formadora de opinião entre a parcela mais conservadora do público evangélico? E em que medida ela concentraria poder para alçar voos mais altos?

No burocrático e pouco aconchegante gabinete onde trabalhava, Alves me recebeu em meio a vários pedidos de “espera só um pouquinho que eu vou conversar aqui uma coisa importante e já volto”. Na sala, bandeiras dos movimentos em que ela milita tentavam levar alguma decoração ao amarelo das paredes, sem sucesso.

BRASÍLIA, DF, 11.12.2018 ? DAMARES-ALVES: A futura ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, fala com a imprensa em Brasília, na tarde desta terça-feira. (Foto: Walterson Rosa/Folhapress)
Passado de abuso foi determinante nas escolhas religiosas – e políticas – da ministra.
Foto: Walterson Rosa/Folhapress

Fé, política e sobretudo infância são as causas que credenciaram Damares ao ministério de Bolsonaro. Evangélica de berço, ela frequenta e é pastora da Igreja do Evangelho Quadrangular, de tradição pentecostal.

Paralelo à religião, o outro grande fio condutor da carreira política da nova ministra começou a ser desenrolado na adolescência. Em Sergipe, ela se envolveu aos 14 anos com organizações ligadas à defesa da criança, dando aulas de alfabetização. A vocação para o tema teria nascido antes, da forma menos inspiradora possível: um abuso sexual sofrido aos 6 anos de idade. Hesitei em falar sobre o fato, dei algumas voltas antes de perguntar, mas ela foi rápida em entender e me contou, entre enfática e emocionada.
‘Ele enganou meus pais e me submeteu a várias sessões de estupro.’
“Um homem se hospedou na minha casa dizendo ser missionário. Ele enganou meus pais e me submeteu a várias sessões de estupro. Tirou minha inocência, achei que eu não iria mais para o céu. Mais tarde eu tentei me suicidar, mas tive um encontro com Jesus que me livrou da morte. A partir dali, resolvi fazer daquela dor a minha bandeira.”

Entre o final dos anos 80 e a metade dos 90, a advogada acompanhou a criação de políticas públicas relacionadas à infância, como o Estatuto da Criança e do Adolescente, assessorando políticos cristãos. Em 1998, ela aterrissou definitivamente na capital federal e passou a trabalhar com o deputado João Campos, futuro presidente da Frente Parlamentar Evangélica e de quem se tornaria chefe de gabinete.

No ano seguinte, ela participaria da equipe de assessores da CPI da Funai, introduzindo a causa indígena em seu portfólio. “Ali eu descobri que crianças eram enterradas vivas por suas famílias ao nascerem defeituosas. Resolvi lutar contra o infanticídio indígena para sempre.”

Em pouco tempo, porém, o ar-condicionado de uma sala com mesa e telefone empurraria a pastora para longe da rotina de gabinete. Damares Alves queria sair e transitar. Fora do cargo e já uma habitué dos corredores, ela passou a perceber o potencial contido no grupo de parlamentares evangélicos que começava a se organizar para votar o Código Civil, em 2002.

O novo conjunto jurídico tratava de temas caros ao pastorado, como taxação de igrejas, flexibilização dos conceitos de família e facilitação do divórcio. Antes divididos, os deputados e senadores das mais diversas igrejas precisariam abdicar das divergências teológicas em nome da proteção política.

Oficializada a partir daí, a Frente Parlamentar Evangélica passaria a atuar com mais força em torno de pautas morais no Congresso poucos anos depois. A votação do PL 122/2006, que criminaliza a homofobia, o debate sobre o aborto que marcaria a disputa à presidência em 2010 e a escalada do deputado-pastor Marco Feliciano à presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, em 2013, colocariam  o bloco religioso no centro da política nacional.

Pioneira na paranoia do ‘kit gay’


Damares Alves acompanhou tudo isso de perto, e foi justamente em 2013 que ela começou a sair das sombras dos parlamentares para os holofotes. Durante uma pregação noturna na Primeira Igreja Batista de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, a pastora apresentou aos fiéis uma série de slides com denúncias supostamente inéditas de erotização infantil promovida pelo Estado.

Muito antes de Jair Bolsonaro levar o chamado “kit gay” à bancada do Jornal Nacional na entrevista pré-eleições de 2018, Alves já apontava para a existência de cartilhas escolares “ensinando homossexualidade”.

Na fala, a advogada alertava, por exemplo, que a ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy teria pago um grupo de estudos para promover práticas de masturbação em bebês. E convocava: “a igreja evangélica está deixando isso acontecer. Vamos começar a reagir, porque estão detonando as nossas crianças”.

Damares Alves já havia gravado apresentações do tipo anteriormente, mas a popularização proporcionada pelo YouTube impulsionou o vídeo como nunca antes (a edição original tem hoje cerca de 650 mil views). O material foi, inclusive, meu primeiro contato com a imagem e a voz dela. Viral, ele passou a ser tema de encontros em igrejas, foi visto por padres, espíritas, médicos e até traduzido para outros idiomas. A partir de então, o boom de convites para palestras valorizaria o passe da pastora dentro e fora do Congresso.


A desconfiança sobre as falas de Damares Alves no vídeo, no entanto, pairou sobre a pesquisadora Magali Cunha, então no departamento de comunicação da Universidade Metodista de São Paulo. Em um relatório analisando todos os slides da palestra, ela constatou: sem fontes, a maior parte das informações continha inverdades, falsas associações e generalismos.

Contestada, a advogada me diria que não precisava provar as denúncias porque “existe entre a ovelha e o pastor o princípio da confiança mútua e da credibilidade”. E atacaria: Magali foi uma enviada do PT para deslegitimar sua atuação enquanto evangélica e conservadora. Ficou por isso mesmo.

Os deputados dela


Não foram poucas as vezes em que Alves parou para cumprimentar outros assessores, tirar fotos com fãs ou adiantar assuntos da pauta evangélica com parlamentares enquanto andávamos pelo Congresso.

Em uma das conversas, com prancheta e folhas de papel na mão, ela caminhava ao lado de um deputado enquanto planejava a derrubada do projeto de lei  882/2015, de Jean Wyllys, do PSOL carioca. Colocada em tramitação dois meses antes, a proposta sugeria a descriminalização do aborto no país e seria discutida na Comissão de Seguridade Social e Família nas semanas seguintes. “Vamos lutar para barrar isso”, Damares prometeu. O PL está parado no colegiado até hoje.

Me impressionou a forma como a assessora reivindicava para si uma espécie de propriedade dos parlamentares evangélicos. “Eu oro com os meus deputados. Eu leio a Bíblia com os meus deputados. Eu vou na casa deles orar quando eles estão tristes”, ela me diria sobre sua relação com os parlamentares.
‘Eu oro com os meus deputados. Eu leio a Bíblia com os meus deputados.’
Impressionante também era a quase onipresença com que ela se movia para acompanhar os eventos da bancada evangélica. Durante dois dias de gravações na Câmara, acompanhei-a na reunião semanal do grupo, encontrei-a no culto que ocorre às quartas-feiras pela manhã e em duas audiências públicas que tratavam de homossexualidade, ambas convocadas e com massiva presença dos parlamentares cristãos.

É possível dizer que a substância responsável por dar alguma consistência ao discurso de Jair Bolsonaro na última campanha estava sendo formulada nesses eventos. Grande parte das teses conspiratórias, dos inimigos comuns e das ações de contra-ataque a eles eram apontados ali. O futuro presidente, aliás, compartilhou do mesmo espaço com Damares Alves em diversas ocasiões, ambos como ouvintes e também participantes ativos.

Entre um evento e outro, Alves me pediu para acompanhar a entrevista que daria sobre “ideologia de gênero” para a rádio Canção Nova, de orientação católica. Entrar ao vivo na emissora demonstrava que a pregação da advogada não se resumia ao mundo evangélico, normalmente refratário à Igreja de Roma. Valia se aliar aos antigos inimigos dos protestantes em nome dos bons costumes.

“Eu fiz aula de biologia e nunca precisei levar uma banana para a sala e botar uma camisinha nela. Se os pais souberem de algo que os professores estão ensinando e que contrarie seus princípios, devem denunciar”, disse ela, em tom enérgico, ao apresentador do programa.

A consolidação do underground


A despeito dessas e de outras declarações que fazem estourar os tímpanos mais progressistas, é preciso dizer que Damares é um tanto complexa. Como a própria bancada evangélica, ela não não encarna um bloco monolítico de ideias e opiniões.

Contrariando Magno Malta, seu ex-chefe, ela me surpreendeu ao dizer que não endossa a redução da maioridade penal, por exemplo. “Quem defende crianças e adolescentes não pode ser a favor de prendê-los”.

Diferente ainda de Bolsonaro, ela já se manifestou contra a diferença salarial entre homens e mulheres e chegou a dizer que lutaria a favor de crianças discriminadas por sua orientação sexual. A declaração não caiu bem para parte do parlamento evangélico, diga-se.
‘Quem defende crianças e adolescentes não pode ser a favor de prendê-los’
Mal também soou a nomeação da pastora para quem esperava estar entre as primeiras opções do presidente. O próprio Magno Malta, dado como certo no cargo e depois preterido, declarou não ser coisa sua a indicação Damares Alves. Em uma entrevista de respostas curtas ao Intercept, ele diz não estar chateado com o esquecimento de Bolsonaro. Mas tampouco parece estar satisfeito.

Na última quinta, no Centro Cultural Banco do Brasil, sede da transição do governo, a escolha de Damares Alves pelo presidente eleito foi anunciada à imprensa.

Falando aos microfones de tantas emissoras provavelmente pela primeira vez, a agora ministra manteve o tom enérgico e professoral com o qual costuma pregar. Quase sempre com o indicador em riste, ela relatou brevemente seu histórico, anunciou suas principais medidas e deu os primeiros avisos aos desconfiados, já adiantando que a prioridade pasta será “a proteção da vida”.

Ao seu lado direito, a figura de Onyx Lorenzoni se impunha, mirando o horizonte. Outrora um deputado de pequena importância do DEM, o gaúcho foi alçado à Casa Civil do Planalto.

Naquele momento, os dois sintetizavam o tom do novo ministério: a vitória do baixo clero, que tem em Jair Bolsonaro seu maior troféu. A Brasília underground, agora, virou governo.

Felipe Neves
No The Intercept
Leia Mais ►

As parcerias da Globo com o Judiciário carioca


Os factoides plantados pelo jornal O Globo, em parceria com o Judiciário carioca, comprometem totalmente a ideia do jornalismo isento que tenta passar, em suas escaramuças contra Bolsonaro.

Análise dois casos recentes:
  1. O encontro do prefeito Marcelo Crivela, do Rio de Janeiro, no episódio conhecido como “Fala com Márcia”.
O Globo tentou dar cunho religioso à reunião. Pela descrição do evento, feito pela própria mídia, não havia nada que indicasse essa intenção. Mas o carnaval feito pelo jornal induziu um juiz a dar uma liminar proibindo o evento. Hoje, o Ministro Dias Toffoli, do STF (Supremo Tribunal Federal) cassou a liminar por não ter visto nenhum sinal de proselitismo religioso no evento (clique aqui).
  1. O caso do desembargador  Siro Darlan.
Darlan é conhecido por ser um juiz garantista – isto é, que privilegia os direitos individuais em suas sentenças. Mais que isso, é um crítico feroz das regalias do Poder Judiciário carioca. Insurgiu-se contra a bolsa escola conquistada pelos juízes e por outras benesses. Também colocou-se contra a TV Globo em programas em que julgava que crianças estavam sendo exploradas. E tem se constituído em opositor permanente de Luiz Zveiter, a eminência parda da Justiça carioca, intimamente ligado às Organizações Globo.

Dias atrás, candidatou-se a um cargo na câmara superior do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. No dia da votação, O Globo publica uma denúncia vergonhosa contra ele, um factoide que não passava sequer no teste de verossimilhança (clique aqui). Requentou uma armação antiga, de que a polícia teria grampos em que uma pessoa se apresentava como intermediário para a venda de sentenças do juiz. Era uma armação tão evidente que, aqui no GGN, desmontamos recorrendo exclusivamente às próprias informações contidas na tal denúncia (clique aqui). Em cima desse factoide, tempos atrás foi aberta uma representação contra Darlan no CNJ (Conselho Nacional de Justiça).

A escandalização do jornal fez o CNJ acelerar a análise do caso. E resultou no seu óbvio arquivamento, por falta de fundamentação e de provas.

O jornal não noticiou o arquivamento.

Nos próximos anos haverá uma luta ciclópica entre a liberdade de imprensa e os esbirros autoritários do governo Bolsonaro. Pergunto: é mantendo essa cultura de usar o jornalismo politicamente contra alvos mais vulneráveis que a Globo pretende se legitimar para enfrentar o arbítrio?

Luís Nassif
No GGN
Leia Mais ►

Salvar Aécio, “Missão Montagu 2018”


Em novembro de 1922, chegava à presidência da República o mineiro Arthur Bernardes, período que o Brasil passava por grandes dificuldades financeiras devido à Primeira Guerra Mundial.

Logo após a posse, formulou um programa de política econômica na tentativa de restaurar as finanças e a economia do país, propondo à casa bancária dos Rothschild um empréstimo de 25 milhões de libras, o que só seria aceito “após uma avaliação do estado das finanças”, a ser feito pela depois denominada “Missão Montagu”.

Após a avaliação, o proposto pela missão era tão nocivo aos interseres e soberania nacional, principalmente em relação à entrega das reservas minerais, e tendo em vista que seus assessores econômicos já estavam todos cooptados pelos ingleses, que para recusar o proposto Bernardes foi obrigado a demití-los ao final de 1924.

Na verdade repetia-se o ocorrido entre 1918 e 1922, período que Bernardes ocupou o cargo de presidente (Governador) de Minas Gerais, e enfrentou Percival Farquhar, quando no intuito de criar um parque siderúrgico, promulgara uma lei majorando o imposto de exportação do minério de ferro para as companhias que visavam apenas a exportação.

Ao mesmo tempo, reduziu-o em quase cem vezes para as empresas exportadoras que instalassem em seu estado usinas siderúrgicas.

Esta lei estadual foi confrontada em 1920 pelo presidente da República Epitácio Pessoa, que também foi deputado federal em duas oportunidades, ministro da Justiça, do Supremo Tribunal Federal, e procurador-geral da República, ao assinar com Percival Farquhar dirigente da Itabira Iron e representante dos interesses internacionais, contrato para exportação de gigantesca quantidade de minério a preço insignificante.

Os termos eram tão absurdos que o Tribunal de Contas da União se recusou a registrá-lo. Porém, oito anos depois, o Congresso Nacional revisou a decisão, possibilitando a edição em 12 de novembro de 1928 do Decreto nº 5.568.

Veio a revolução de 1930 e Getúlio Vargas, atendendo aos anseios da maioria dos políticos mineiros, chefiados por Arthur Bernardes, declarou a caducidade do contrato da Itabira, criando a Comissão Nacional de Siderurgia com a incumbência de estudar o aproveitamento dos minérios de ferro nacionais tanto na exportação como na implantação de uma indústria siderúrgica em larga escala.

A interferência do capital inglês novamente era tamanha que foi necessária a criação, em abril de 1933, da denominada “Comissão dos 11”, que preparou uma minuta enviada ao Congresso em maio de 1935. Várias comissões parlamentares opinaram, e não se entendiam, até que o projeto foi remetido à Comissão de Segurança Nacional. Solicitado seu parecer, o Estado-Maior do Exército, representado por seu chefe, o general Pais de Andrade, foi contrário, considerando que “melhor seria que o governo chamasse a si tão vultoso empreendimento, satisfazendo assim completamente os supremos interesses da defesa nacional”.

O Estado-Maior da Armada, chefiado pelo vice-almirante Anfilóquio Reis, apresentou igualmente seu parecer, declarando-se contrário ao contrato. As isenções, os privilégios, e o monopólio concedidos à Itabira significariam para o Brasil abrir mão de seus direitos de soberania nacional.

Por fim, em 18 de junho de 1937, a minuta do novo contrato com a Itabira foi levada ao plenário da Câmara. Desta vez como deputado, Artur Bernardes Filho propôs que o governo declarasse a caducidade do contrato, por ser ele lesivo aos interesses nacionais.

Sugeriu também que o governo organizasse, no momento oportuno, uma sociedade anônima para explorar o transporte do minério de ferro pela ferrovia Vitória-Minas, bem como o cais a ser construído e a frota marítima.

O governo subscreveria a maioria das ações, de modo a assegurar o controle da sociedade.

O presidente da Câmara, Pedro Aleixo, retirou o projeto de revisão do contrato da Itabira da ordem do dia, impedindo assim que tanto o projeto como o substitutivo fossem discutidos.

Com o fechamento do Congresso pouco depois, em 10 de novembro, o projeto acabou por não receber o parecer do plenário. Finalmente, durante a Segunda Guerra Mundial, quando a Inglaterra necessitou de uma fonte de emergência para o abastecimento de minério de ferro, as minas da Itabira foram transferidas para o governo brasileiro através dos Acordos de Washington, ratificados pelo Decreto-Lei nº 4.352, de 1º de junho de 1942.

Esse decreto criou também a Companhia Vale do Rio Doce S.A., que, além das minas, adquiriu o acervo da Estrada de Ferro Vitoria-Minas.

Durante 55 anos o Brasil, e principalmente Minas Gerais, investiu e entregou seu patrimônio mineral à Cia. Vale do Rio Doce, que foi transferido a preço simbólico em 1997, no governo de Fernando Henrique Cardoso, por privatização, através de projeto aprovado quando Aécio era líder do governo e comandou todas as votações na Câmara Federal.

A prática do entreguismo, interrompida em 1942, retornava, e por “serviços prestados”, possibilitou 60 anos depois, em 2002, a eleição de Aécio ao Governo de Minas Gerais para, em 10 anos, viabilizar o que os Ingleses queriam desde 1911: ter todas as riquezas minerais de Minas Gerais, sem qualquer compensação para a sociedade, através de pesado e inimaginável esquema de corrupção nas diversas áreas que deveriam fiscalizar o setor.

A partir dai, Aécio passou a representar no Brasil os interesses da Casa Rothschild, dona indireta da Cia. Vale do Rio Doce, e que vem exigindo dos diversos poderes do país que seu representante esteja acima da lei.

Tempos atrás, em gravações, Aécio, além de admitir ter indicado o presidente da Cia. Vale do Rio Doce, foi flagrado pedindo dinheiro a Joesley Batista para pagar seus advogados. De uma hora para outra, sem qualquer rendimento extra, apenas com seu provento de senador, já não tinha mais esta dificuldade, principalmente após passar a ser defendido pelo advogado Alberto Zacharias Toron, coincidentemente o mesmo advogado da Samarco, pertencente a Cia. Vale do Rio Doce.

Não por outro motivo, assim como em relação a Aécio Neves, nada acontece com a mineradora que devastou impunemente 5% do ecossistema mineiro. Não tenham dúvida, Aécio Neves, junto com seus familiares, já têm garantido asilo politico na Inglaterra, embora alguns já tenham cidadania Suíça. É só esperar para ver.

Marco Aurélio Carone
Editor-Novojornal
Leia Mais ►