14 de dez. de 2018

O Bolsonaro da Bíblia frente ao dilema de Abraão de sacrificar o seu filho

Estará o presidente eleito disposto, se Deus ou a Justiça humana pedir, a sacrificar seu filho em nome do compromisso de fé com seus eleitores?

Jair Bolsonaro ao lado do filho Flávio no dia da votação da última eleição, em 7 de outubro
O novo presidente do Brasil, o capitão reformado Jair Bolsonaro, não é só o homem da bala, mas também o da Bíblia. Fez-se batizar na Terra Santa, nas águas do Jordão, as mesmas em que João Batista batizou Jesus. Não esconde ser crente e costuma erguer em suas mãos, junto da Constituição, o livro das Sagradas Escrituras. Quando ainda era deputado no Congresso, afirmou que o Brasil não é um Estado laico, e sim cristão, e muitos dos que o seguem apoiam uma teocracia como a melhor forma de governo para este país.

Conhece-se de Bolsonaro sua fé nas armas como antídoto contra a violência no Brasil, que ceifa mais vidas que nas guerras em curso no mundo. Junto ao sinal da cruz dos cristãos, seu gesto preferido é o da mão imitando o disparo de um revólver. Durante sua campanha eleitoral que lhe concedeu 57 milhões de votos, o candidato à presidência da República manifestou três grandes atos de fé pessoal e política: fé em livrar os brasileiros das garras da violência que os golpeia e atemoriza; fé em recuperar a economia em crise, que está devolvendo milhões de famílias à pobreza e até à miséria; e, por fim, fé na luta sem trégua contra a corrupção política e empresarial.

Como homem da Bíblia, Deus pôs Bolsonaro perante uma prova de fogo com motivo do suposto escândalo de corrupção que atinge seu filho Flávio através de um de seus assessores. Algo que lhe deve ter feito recordar um dos episódios mais enigmáticos e emblemáticos com que Javé quis provar a fé do patriarca Abraão, considerado como o “pai dos crentes”. Pediu-lhe, como prova de sua fé, que sacrificasse seu filho Isaac. É talvez a cena mais horripilante de todo o Antigo Testamento, narrada em Gênesis, 20. Abraão se encontrou frente ao dilema de oferecer a Deus o sacrifício do seu filho, que além do mais era inocente, ou quebrar seu pacto de fé nele. Escolheu ser fiel a Deus e decidiu sacrificar o seu “filho amado”. Deus premiou sua fé, e um anjo deteve seu braço antes da execução.

Bolsonaro está sendo posto à prova pelo Deus da Bíblia. Pede-lhe que, se for preciso, sacrifique seu filho Flávio ao invés de profanar sua fé na luta contra a corrupção, que ele jurou pôr acima de tudo. Como garantia de seu empenho, convidou para ser ministro o mítico fustigador da Lava Jato, o duro juiz Sérgio Moro. O presidente da Bíblia sabe que seu compromisso contra a corrupção foi fundamental para sua eleição. Quebrá-lo, antes ainda de tomar posse do cargo, equivaleria a uma traição sua a milhões de seguidores.

Tanto sabe disso que, na quarta-feira passada, dirigindo-se como de costume à sociedade através das redes sociais, o capitão confessou que não está disposto a ser “condescendente com nenhum erro”, custe o que custar. Confessa que “lhe dói o coração”, mas que “nem com ele nem com seu filho” pode ser "condescendente com o erro”. E isso porque, como para Abraão sua fé em Javé era inquebrável, a ponto de estar disposto a sacrificar seu filho, para Bolsonaro, afirmou ele, “o que há de mais firme é o combate à corrupção”, que havia sido um pacto de fé com seus eleitores.

Estará Bolsonaro, o presidente da Bíblia, disposto, se Deus pedisse, ou melhor, se a Justiça, desta vez a humana, pedisse, a sacrificar seu próprio filho em nome de seu compromisso de fé com seus eleitores? Ou espera que, como com Abraão, Deus acabe lhe fazendo o milagre de não precisar sacrificar o seu filho? A Bíblia, o talismã sagrado dos seguidores de Bolsonaro, colocou o novo presidente não só frente a um dilema bíblico, mas também diante de um hamtletiano ser ou não ser fiel a suas promessas e a sua consciência.

Juan Arias
No El País
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PSL é bobagem, perigoso é o avanço da extrema-direita


O que leva uma nação com as dimensões da brasileira, com tamanha riqueza natural e energética a adotar uma posição de subserviência e DNA de republiqueta? Podem ser muitas as respostas, a primeira e a mais eloquente é com certeza nosso passado colonial. Forças poderosas do estado brasileiro, como o poder judiciário e a estrutura militar, modernizam-se na aparência, entretanto, na essência mantém formas arcaicas de funcionamento que ainda os vinculam a grupos familiares seculares que transcenderam o império e sobreviveram encastelados no poder. Como hidras, estendem suas cabeças ao corpo político do legislativo e executivo.

A égide do republicanismo e a constitucionalidade para os donos do poder brasileiro não passam de uma perfumaria, discursos de tribuna onde possam exaltar falácias sob o mantra do estado democrático de direito. Nos subterrâneos agem conforme sua gênese classista, envoltos em tramas e conspirações golpistas, contra todo e qualquer avanço civilizatório que possa incluir na agenda estatal o bem-estar social dos excluídos e descamisados. O estado precisa ser mínimo para garantir uma massa imbecilizada, que não ofereça resistência a manutenção dos privilégios tidos como direitos pela minoria detentora dos destinos de quem deva viver e morrer.

Em um continente marcado pela colonização estrangeira como é o caso da América Latina, esse quadro não é pintura apenas brasileira, é fato recorrente em todos os países. O sopro democrático que varreu o continente cambaleou as oligarquias locais, no entanto não logrou êxito em derrotâ-las, a muitos erros que apontar aos olhos de quem vê de fora, todavia, como bem pontuou Maquiavel “as regras políticas são fruto da correlação de forças entre os que disputam o poder”, talvez não houvesse força social para empreender a correlata queda de braço com o poderio econômico e militar do império norte-americano, onipresente no Brasil e em todo o continente, sustentáculo e formador de nossas oligarquias primitivas.

Em 2007, auge da política Chavista na Venezuela, o Brasil liderado pelo Presidente Lula recuperando-se da grave crise política do mensalão era visitado pelo subsecretário de estado norte-americano Nicholas Burns, que declarou “o Brasil é o país mais poderoso da América Latina”. Tempos depois já deflagrada a famigerada operação lava-jato, James Petras, sociólogo estadunidense e especialista em política exterior dos EUA e estudos latino-americanos, declara “os EUA querem dominar o Brasil para ter todo o continente sob controle”. É fato que as formas que assumirá esse novo modelo de dominação ainda estão em gestação, mas seus contornos já se estabelecem de forma nítida. Passados dois anos de governo Trump, na data simbólica do aniversário de 10 anos da crise econômica mundial, há uma ofensiva continental pelas contrarreformas econômicas e sociais, e a ampliação significativa das restrições às liberdades democráticas. Nos parece evidente que há uma ação coordenada do imperialismo estadunidense para extirpar do continente lideranças, partidos e derrotar o que resta dos processos de mobilização progressivos que presenciamos, especialmente no sub-continente sul-americano, desde o início do século XXI.

No último final de semana um fato passou quase que despercebido pela mídia tradicional e alternativa, a realização da Cúpula Conservadora das Américas, impulsionada pelo PSL que surfa na onda de grande partido com presidente e a segunda maior bancada do congresso eleita no último pleito eleitoral do maior país da América Latina. O evento tem sido tratado pelos seus organizadores como um fórum de grandes debates e organização do pensamento conservador do continente. Ocorre que não a mais sentido algum tratarmos como coisa de loucos, ou achar que não ecoará na sociedade tais iniciativas.

A articulação internacional da extrema-direita é impulsionada desde Steve Banon e suas bases firmadas na Europa, mas tem seus tentáculos estabelecidos nos governos de Piñera (Chile) e Duque (Colômbia), além de movimentos que a luz do exemplo brasileiro tentam ampliar seu alcance, como os próprios grupos de direito evangélicos em expansão pelo continente.

O PSL é uma bobagem, sigla decorativa, que abriga títeres e energúmenos reacionários levados ao poder por uma onda conservadora inflada pelo ódio e pelo medo, sustentados pela fama repentina, e que provavelmente em sua maioria não terão vida longa em suas desventuras pela disputa do poder político. A grande interrogação desse evento que pode ter passado como nonsense é o fato de agrupar expoentes da extrema direita, que agem incrustrados nas estruturas do estado, Poder Judiciário, Polícia Federal, Ministério Público, Forças Armadas e representantes do quarto poder – a mídia, incólumes ao voto popular.  

A extrema direita se organiza numa cruzada contra o estado democrático, renova com rapidez acelerada seus quadros públicos que atuarão com a devida insensatez que condiz à nova ordem social conservadora, segundo sua visão, age de forma a manter preservado seu direito consuetudinário, o privilégio de ter privilégios, mesmo que para isso seja necessário o país estar de joelhos.

Cabe a nós empreender esforços para articular aliados de forma ampla e democrática a nível internacional. Tal tarefa não é fácil, é como trocar o pneu com o carro andando em meio a uma estrada cheia de buracos. Porém, é questão de sobrevivência para o desenvolvimento de um projeto que busque a superação da dominação imperialista no América Latina.

Maister F. da Silva - Militante do Movimento dos Pequenos Agricultores
Matheus Gomes - Militante do Movimento Negro e Executiva do PSOL-RS.
No GGN
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A Constituição contra a Teopolítica

Quem é ofendido quando um agente público, no exercício da autoridade, fala em nome de um Deus qualquer?


“Que laico, somos Estado cristão”, exclamou o presidente. “É o momento de a igreja governar, é a igreja de Jesus”, pontificou a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos. O ensino afro e o satanismo nas escolas tem lhe preocupado. O chanceler ponderou que “a fé em Cristo significa, hoje, lutar contra o globalismo. O projeto metapolítico significa abrir-se para a presença de Deus na política e na história”. O ministro da Educação moderou: “Só nos resta a opção liberal-conservadora de defesa do indivíduo, de luta pela liberdade e pela livre iniciativa, de preservação corajosa de nossas tradições cristãs”.

Nesse jogral imaginário dos Cruzados Novos, as frases são reais e as pretensões aterradoras, mas não desconhecidas. A teopolítica — o ativismo religioso que busca empurrar programas de Estado na direção de uma fé particular — sempre foi uma pedra no sapato de democracias liberais e do projeto de promoção das liberdades. Está nas práticas cotidianas (crucifixos em repartições públicas, cultos em casas legislativas); nas leis (imunidade fiscal ao templos); em projetos de lei (Estatuto do Nascituro, cura gay, inviabilização do aborto legal); em audiências públicas do STF (onde religiosos são chamados para opinar sobre a Constituição à luz da revelação divina). A teopolítica contemporânea aprofunda esse mal-estar ao se partidarizar e endossar, em nome de Deus, algumas posições políticas que violam seus próprios livros sagrados (como a teologia do ódio contrabandeada nos ensinamentos cristãos). Quem é ofendido quando um agente público, no exercício da autoridade, fala em nome de um Deus qualquer?

A tolerância e a liberdade religiosas, trunfos do liberalismo, supõem que ninguém será obrigado a ou impedido de professar certa crença (liberdade nos sentidos negativo e positivo). Supõem também que decisões coletivas, por afetarem a todos os membros de uma comunidade política, não podem ser tomadas com base numa revelação divina, mas num argumento que todos possam ao menos compreender, mesmo que não concordem. Uma razão secular, portanto. Não se pode, por exemplo, justificar a criminalização da violência doméstica ou a proibição de um desfile com base na afirmação de que é pecado ou ofende a Deus. Cada Igreja tem seus meios de punir pecadores, mas não pode misturar os canais e interferir na política.

Em democracias plurais, em que coexistem múltiplas crenças, a liberdade religiosa pede uma “religião civil”, uma linguagem comum que respeita igualmente cada indivíduo sem se importar com sua crença espiritual. A Constituição brasileira nos dá os termos dessa linguagem: em nome das liberdades civis, rechaça a teopolítica. A promiscuidade entre religião e política no Brasil se agravou na última década. O governo que se inicia, permeado pela ideologia teopolítica, elevou essa promiscuidade a um ponto inédito em nossa história. Religiosos ou não, conservadores ou não, democratas liberais não podem ficar indiferentes a isso.

P.S.: Febejapá patrocinado

O Festival de Barbaridades Judiciais que Assolam o País — Febejapá — segue vivo e bem de saúde. A magistocracia aprecia um patrocínio, ainda mais se combinado com praia e resort. O Conselho Nacional de Praticagem (Conapra) — que representa os “práticos”, profissão do setor marítimo — realizou em Búzios evento sobre Direito Marítimo. Se chamaram especialistas no tema? Priorizaram a companhia de ministros do STF e STJ, responsáveis por decidir causa de seu interesse. Quem é o advogado do Conapra? Filho de um ministro presente, na melhor tradição da gran famiglia judicial brasileira.

É a “honra institucional” desse mesmo tribunal que outro ministro alegou defender ao dar voz de prisão a sujeito que lhe escrachava em avião. Abuso da liberdade respondido com abuso de poder. Ministros que violam a lei e a ética judicial corroem a própria autoridade. O STF pode não sobreviver a essa geração de ministros. Quando Toffoli hospeda general em seu gabinete e sugere voltar à clássica separação de Poderes, quer dizer mais ou menos isso. Faltou só a piscadela. A capitulação não será televisionada, mas recompensada com auxílio-dignidade qualquer. O leilão do autorrespeito é especialidade da casa judiciária. Nesse tribunal estão muitas de nossas fichas de defesa da Constituição contra a teopolítica. Soa como ironia, mas é drama.

Conrado Hübner Mendes é doutor em Direito e Professor da USP
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Queiroz precisa reaparecer e indicar para quem repassou o R$ 1,2 milhão


O assessor Fabrício Queiroz é a pessoa mais habilitada – além, naturalmente, dos próprios Bolsonaro – para esclarecer o escândalo do R$ 1,2 milhão.

A sucursal carioca da Lava Jato deflagrou a operação Furna da Onça, que levou à prisão deputados estaduais implicados com as mesmas práticas criminosas descobertas no gabinete do Flavio Bolsonaro.

A operação coordenada pelo espetaculoso Deltan Dallagnol estranhamente decidiu-se, porém, por não atribuir a Flavio Bolsonaro o mesmo destino dado aos colegas dele [a prisão] e, além disso, demonstra total inapetência em investigar o caso. Decorridos quase 10 dias desde a denúncia, a Lava Jato sequer convocou Queiroz para depor.

A despeito do sumiço/desaparecimento do Queiroz e da prevaricação de juízes e procuradores da Lava Jato, novas e explosivas falcatruas dos gabinetes dos Bolsonaro foram descobertas pela imprensa:

– Nathalia Queiroz atuava como personal trainer de celebridades nas praias cariocas durante o horário de expediente que deveria cumprir como funcionária do gabinete de Jair Bolsonaro; e

– Wellington Romano da Silva residiu em Portugal durante grande parte do período que esteve lotado como assessor do Flávio Bolsonaro na Assembléia Legislativa do RJ.

Está ficando evidente que os Bolsonaro usavam os gabinetes parlamentares para a apropriação de dinheiro, enriquecimento e aumento patrimonial. Os Bolsonaro tinham como prática empregar funcionários fantasmas e usar “laranjas” que repassavam parte ou todo salário recebido.

Esta prática ilícita está tipificada no Artigo 312 do Código Penal Brasileiro como crime de peculato: “Apropriar-se o funcionário público de dinheiro, valor ou qualquer outro bem móvel, público ou particular, de que tem a posse em razão do cargo, ou desviá-lo, em proveito próprio ou alheio”. A pena é reclusão de dois a doze anos, e multa.

As versões apresentadas pelos Bolsonaro sobre as falcatruas, além de estapafúrdias, revelam muitas contradições, bem como predizem que eles terão enormes dificuldades para apresentar explicações convincentes e mesmo conter novas revelações que deverão surgir.

O constrangimento dos Bolsonaro, nesse sentido, tenderá a aumentar, assim como as dificuldades políticas.

Por um lado, porque o escândalo revelado abarca somente 1 ano de movimentação “atípica” de R$ 1,2 milhão. É preciso recordar que os Bolsonaro estão na política há quase 30 anos e, em grande parte deste período, Queiroz, sua esposa e filhas estiveram lotados nos gabinetes parlamentares do clã – é plausível supor que outros ilícitos ainda poderão aparecer.

Por outro lado, segmentos da imprensa abriram uma competição positiva e saudável, e disputam entre si a primazia da revelação de furos jornalísticos.

Com a avalanche de falcatruas dos Bolsonaro descobertas, o sumiço do assessor Fabrício Queiroz até seria irrelevante, não fosse um único aspecto: ele precisa reaparecer e indicar para quem repassou o R$ 1,2 milhão movimentado no intervalo de 1 ano.

Espera-se que Queiroz, que priva da intimidade dos Bolsonaro há mais de 30 anos, aporte informações sobre outros dinheiros eventualmente desviados em anos anteriores.

Jeferson Miola
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Bolsogate: Jorge Francisco trabalhava para Bolsonaro e repassava dinheiro para seus filhos durante as eleições

Ex-chefe de gabinete de Bolsonaro doava valor superior ao próprio salário para campanhas eleitorais dos filhos do presidente eleito

PRÁTICA RECORRENTE?
Servidor do gabinete do presidente eleito, Jorge Francisco (ao centro) doou
para campanhas dos Bolsonaros em 2002, 2004, 2012, 2014 e 2016
O episódio do motorista Fabrício José Carlos de Queiroz não parece ser um caso isolado na vida política do clã Bolsonaro. Se ficar confirmada a suspeita do Ministério Público de que Queiroz administrava uma caixinha de colaborações dos demais servidores, uma prática semelhante, talvez com objetivos idênticos, é corroborada por outros casos descobertos por ISTOÉ nos gabinetes do presidente eleito Jair Bolsonaro e de seus filhos. Por mais de uma vez, funcionários fizeram doações eleitorais e trabalhos políticos para as campanhas da família, em valores que certas vezes chegavam a ultrapassar os próprios salários ganhos.

As informações apuradas por IstoÉ constam das próprias contas eleitorais. Em vários casos, servidores de Jair Bolsonaro foram responsáveis por doações, por meio de serviços ou em dinheiro em espécie, aos filhos desde quando eles começaram a disputar eleições, a partir de 2002. Ou seja, parece comum que servidores contratados por eles empregassem – obrigados ou não – o dinheiro proveniente de seus ganhos mensais no apoio político-eleitoral aos Bolsonaro.

Em abril deste ano, o presidente eleito interrompeu a sua então intensa agenda de compromissos para participar do velório de um grande amigo: o capitão do Exército Jorge Francisco. Francisco trabalhava com ele havia 20 anos no seu gabinete em Brasília.

As prestações de contas mostram que, mais do que amigo, Francisco praticamente foi um dos responsáveis pela eleição de Flávio Bolsonaro como vereador, em 2002. Conforme a prestação de contas apresentada por Flávio naquele ano, o servidor da Câmara doou R$ 5,9 mil para a campanha do filho mais velho de Bolsonaro, no dia 1º de outubro. Foi tudo o que Flávio Bolsonaro declarou ter gasto. Em valores atualizados, seria equivalente a aproximadamente R$ 18 mil.

No ano seguinte ele passou a fazer parte do gabinete de Jair Bolsonaro. Exerceu cargo de comissão na categoria SP25, hoje um salário de aproximadamente R$ 15 mil. Durante o tempo como secretário parlamentar, Francisco foi responsável por outras doações, em espécie, a membros do clã Bolsonaro. Em 2004, doou R$ 10 mil para a primeira eleição de Carlos Bolsonaro (PSL-RJ) à Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Naquele ano, Carlos recebeu R$ 34,5 mil em doações para a sua campanha. Ou seja, apenas José Francisco foi responsável por aproximadamente 30% das doações recebidas por Carlos na sua primeira investida, vitoriosa, para a Câmara. Em valores atualizados, esses R$ 10 mil doados por Francisco seriam equivalentes a aproximadamente R$ 22 mil em 2018.

O dileto amigo de Bolsonaro aparece em outras doações superiores aos seus vencimentos mensais. Em 2012, no dia 30 de agosto, ele fez uma transferência eletrônica em favor de Carlos Bolsonaro, no favor de R$ 15 mil. Eduardo, deputado federal, também foi beneficiado pelo ex-capitão do Exército em 25 de agosto de 2014. Ele doou R$ 11 mil por meio de um depósito em espécie.

Além disso, durante o ano de 2016, está registrada nas contas eleitorais de Carlos, na sua terceira eleição para a Câmara Municipal fluminense, uma nova doação de Francisco, desta vez no valor de R$ 2,5 mil, por meio da cessão de serviços prestados para a campanha naquele ano.

Não foram apenas Jorge Francisco e agora o motorista Queiroz. Em 2016, o vereador Carlos Bolsonaro recebeu a doação de R$ 1,5 mil, em forma de serviços para a campanha de Alessandra Ramos Cunha. Dois anos antes, ela havia sido nomeada para integrar o gabinete do deputado Jair Bolsonaro.

Na Câmara, operações desse tipo são comuns e apelidadas de “Caixinha Eleitoral”. A prática de funcionários doarem para a campanha do patrão não é considerada ilegal, mas é no mínimo questionável. Qualquer pessoa pode doar dinheiro para a campanha de quem quiser. E pode-se mesmo acreditar que haja afinidade ideológica entre um deputado e seu funcionário de confiança. Por outro lado, é justo imaginar-se que possa ser uma espécie de pagamento em troca do emprego. E pagamento feito com dinheiro público. Há, no mínimo, um conflito ético.
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6 pontos que desmascaram a farsa do processo do sítio contra Lula


A operação Lava Jato se especializou em cometer abusos, utilizar argumentos que não seriam aceitos em nenhum outro caso e levar o julgamento para o juiz que mais lhe agrade. É assim que condenaram Lula sem provas no caso do Triplex e a estratégia se repete com o sítio de Atibaia. Ao apresentar suas alegações finais esta semana, os procuradores da Lava Jato escreveram que haveria “farta prova documental” contra Lula. Essa mentira foi reproduzida em todas as manchetes da imprensa e precisa ser rebatida, ponto por ponto, para restaurar a verdade.

O imóvel foco da ação é comprovadamente de propriedade da família Bittar, que há 40 anos tem amizade com a família do ex-presidente. Além de ignorar o óbvio – o sítio tem dono e não é o Lula – a equipe da Operação Lava Jato não apresentou nenhuma prova, ligação ou qualquer indício de que o caso tenha relação com a Petrobras. Mais uma vez, a equipe do MPF usou de estratagema para forçar que os processos referentes a Lula caíssem nas mãos do ex-juiz, e agora ministro de Jair Bolsonaro, Sérgio Moro, em Curitiba.

Entenda em 6 pontos como o “caso do sítio” é a prova do lawfare, que é o uso do Judiciário para fins econômicos e políticos:

1- MPF e a juíza sabem que o sítio não é do Lula:

O sítio não é e nunca foi de Lula. A família Bittar, amiga de longa data da família da Silva, é comprovadamente, com registro em cartório e comprovação de pagamentos bancários, a proprietária do imóvel. Lula e Dona Marisa foram convidados a utilizar o sítio com a mesma liberdade que você dá a seus amigos para irem à sua casa. Sendo os donos do lugar, os Bittar tinham liberdade de convidar quem bem entendessem. Durante depoimento no dia 14 de novembro, ao ser questionada pelo ex-presidente, a juíza Gabriela Hardt, substituta da 13ª Vara da Justiça Federal do Paraná, admitiu que Lula não é o proprietário do imóvel.

2- Pedalinho e roupa íntima viraram provas

Objetos não confirmam propriedade. Mas a turma da Lava Jato conseguiu se superar no nível de “provas” apresentadas: roupas íntimas e dois pedalinhos dos netos do casal. Essas são as principais “provas” que o MPF conseguiu em anos de investigação. A não ser que o Código Penal tenha sido alterado, guardar algum objeto na casa de um amigo não é crime.

3- Processo foi forçado a ficar com Moro

Assim como no processo do apartamento no Guarujá, as acusações são genéricas, e mencionam supostos contratos com a Petrobras sem explicar qualquer tipo de ligação com Lula. Nada comprova que o ex-presidente tenha, de alguma forma, se envolvido nas negociações entre a estatal e as empresas ou se beneficiado delas. Esse estratagema foi adotado porque o juiz Sérgio Moro tem a responsabilidade de julgar os processos relacionados à Petrobras, e assim poderia julgar Lula mais uma vez. A lei determina que os processos são julgados na região onde o caso ocorreu, logo, teria de ser por um juiz de São Paulo, onde fica o sítio.

4- Sem perícia nos contratos

Não existe prova de fraude de licitação nos contratos e as empresas que fizeram as reformas, que é quando uma empresa é beneficiada para vencer a disputa de uma obra, ou consegue a empreitada por um preço maior que o devido. Também não existe nenhuma perícia de desvios nesses contratos nem de que Lula tivesse recebido qualquer recurso deles. Ou seja: a perícia, desprezada por Moro, nega qualquer relação entre Lula e os valores pagos pela Petrobrás às empresas.

5- Testemunhas negaram envolvimento de Lula

O próprio Marcelo Odebrecht, ao fazer delação, disse que Lula não teve nada a ver com esses contratos e nunca se envolveu em assuntos de Petrobras. De todos os depoimentos do caso, em nenhum deles jamais foi afirmado que Lula teve qualquer relação ou conhecimento das reformas que aconteceram no sítio, nem que tenha pedido reforma, nem que tenha trocado qualquer ato como presidente pelas tais reformas. Uma análise técnica na contabilidade da Odebrecht mostrou que o dinheiro que a Lava Jato diz que foi para as reformas, na realidade, foi sacado por um executivo da própria Odebrecht. Isso também foi ignorado por Moro.

6 – Quais os interesses do ex-juiz e ministro Sérgio Moro

O juiz que orientou todo o caso virou ministro de um governo de extrema-direita que só chegou ao poder graças a perseguição política contra Lula. Moro foi o responsável pela condenação, sem provas, que tirou Lula da disputa eleitoral em que liderava com folga e provavelmente venceria no primeiro turno. Em outras palavras, o ex-juiz abriu o caminho para a vitória de Bolsonaro, para logo depois ser recompensado com o cargo de ministro. Para um futuro governo antipovo, manter o maior líder popular do país, reconhecido e admirado em todo o mundo, fora da atividade política é uma questão de sobrevivência, já que é inevitável que Lula lidere a oposição ao desmonte do país, dos direitos e das conquistas do povo que o futuro governo pretende fazer.

Como seria sem Lawfare

Como não há provas de desvios da Petrobrás e o apartamento não pertence a Lula, o processo nem deveria existir. Ainda assim, se o MPF acreditasse que deveria haver algum tipo de investigação e ela fosse levada de maneira correta, obedecendo ao Estado Democrático de Direito, não apenas as leis, mas também a forma correta de aplicá-las, Lula jamais seria julgado em Curitiba. Ele não seria questionado pela propriedade do sítio, que já é comprovadamente da família Bittar.

Lula deveria ser inocentado por total falta de relação comprovada com os contratos da Petrobras, por falta de qualquer ação indevida comprovada. O ex-presidente deveria ser inocentado porque não existe nenhum depoimento ou prova que comprove desvio de recurso ou ato de corrupção dele. A imprensa erra e mantém a perseguição a Lula ao repetir, em seus títulos, a falsa afirmação de que haveria “fartura de provas” contra ele. O que há é uma fartura de mentiras, ilegalidades e arbítrios nestes processos.

No Agência PT
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Com João de Deus, Manchinha e bonapartismo de Bolsonaro, Globo aperta os nós para 2019


Depois de décadas de controvérsias, acusações de assassinato, pedofilia e abusos sexuais, repentinamente “a verdade bateu à porta”, como disse Pedro Bial, e seu programa deu a partida para a caça ao médium-celebridade João de Deus, com atualizações diárias que já rivalizam com a meganhagem também diária das prisões da PF nas telas. Sabemos que para o jornalismo da Globo não basta apenas a verdade “bater a porta” – é necessário a “verdade” ter timing e oportunismo dentro das estratégias políticas da emissora. Soma-se a isso a também repentina indignação e atualizações diárias sobre o espancamento e morte do cão “Manchinha” em um hipermercado em Osasco/SP, uma notícia que na paginação tradicional dos telejornais seria colocada no bloco das notícias diversas. Tudo na semana do vazamento de movimentação atípica de dinheiro na conta de assessor de Flávio Bolsonaro, pressão da grande mídia por explicações e a resposta “bonapartista digital” de Jair Bolsonaro na sua diplomação no TSE: “o poder popular não precisa de intermediação”, apostando nas novas tecnologias para governar o País sem a grande mídia. Fala-se que a Globo “não dá ponto sem nó”: quais nós a TV Globo está apertando para 2019 com essas “anomalias” jornalísticas no final do ano?

Esses últimos dias que culminaram com a diplomação da chapa Bolsonaro/Mourão pela Justiça Eleitoral, foram marcados por inúmeros lances de xadrez midiático. Traçando de antemão as estratégias do tabuleiro do jogo político do próximo ano.

Em primeiro lugar, aquilo que mais chamou a atenção: a repentina e feroz investida dos canhões do telejornalismo da Globo contra o médium-celebridade João de Deus. Poucas vezes se testemunhou um ataque tão violento e sistemático contra um alvo – descontando-se, claro, as investidas do consórcio judiciário-policial-midiático que vem sustentando nos últimos anos a presença diária nas telas da meganhagem da Polícia Federal no âmbito da Lava Jato.

Sabemos que esses irruptivos ataques, em geral, são atos de vingança quando algum interesse da Globo é atingido. Como, por exemplo, as denúncias de Nicéia Pitta em rede Nacional no Globo Repórter acertando em cheio seu ex-marido Celso Pitta em 1999 – a prefeitura havia barrado na Justiça a final do campeonato brasileiro no meio da semana à tarde, derrubando a grade de programação de final de ano da emissora (clique aqui).

Ou quando, no início da administração Doria Jr. (o “queridinho” da Globo naquele momento), em São Paulo, dezenas de caminhões-caçamba ocuparam o Viaduto do Chá contra uma decisão da prefeitura. Ato contínuo, o telejornalismo global disparou uma série de matérias figurando os motoristas como contraventores e baderneiros (clique aqui).

Denúncias de Nicéia Pitta em 1999 no Globo Repórter: a verdade com timing de vingança
A verdade “bateu a porta”

Tudo começou com o programa “Conversa com Bial” na sexta-feira (07/12) entrevistando a coreógrafa holandesa Zahira Lieneke Mous – a única mulher que aceitou mostrar o rosto e denunciar com detalhes os abusos sexuais cometidos por João de Deus. O making off do programa informa que a apuração levou “três meses”, ouvindo-se dez depoimentos de vítimas. No início o propósito era um programa com João de Deus no formato talk show – dentro dos cânones do chamado “infotenimento”.

Mas “repentinamente” mudou quando a produção “esbarrou” em denúncias de abuso sexual e “começou a correr atrás da história”. Obrigando a reformatar totalmente o programa com a presença dos depoimentos da holandesa Zahira e da americana Amy Biank – sem banda, plateia e reduzido número de técnicos no estúdio.

Desde o dia sete, diariamente, todos os telejornais nacionais da emissora vêm sustentando a suíte jornalística, com direito a imagens de repórteres indo ao encalço do médium na sua residência. Previsivelmente, o Ministério Público de Goiânia quer entrar no show, com uma célere “força tarefa” para também tomar depoimentos – previsível, dentro da atual “linha de passe” Justiça/Globo.

Qual a surpresa? Há décadas João de Deus é uma figura, no mínimo, controversa: acusações e julgamentos em torno de assassinato, atentado ao pudor, assédio sexual, pedofilia e contrabando de minério. Por que só agora? João de Deus é muito poderoso e intimida a todos? Nos últimos tempos o jornalismo da Globo esteva muito ocupado em derrubar um governo e turbinar a Guerra Híbrida brasileira?

No caso da TV Globo, nada é por acaso e nunca dá um ponto sem nó – seu jornalismo sempre foi regido pelo senso timing e oportunismo, e não pelo senso do dever jornalístico de Pedro Bial: para Bial, ele é “jornalista”, e o seu “talk show que procura refletir a realidade e seus fatos não pode deixar de receber a verdade quando ela se apresenta. E a verdade bateu à nossa porta”.

A verdade "bateu na porta" de Bial: qual era a oportunidade e o timing?
Bonapartismo digital

Para além de toda a justa indignação de dezenas de vítimas de abuso pelo médium-celebridade em, no mínimo, 30 anos, é necessário refletir sobre a repentina e feroz investida contra um notório charlatão.

Paralelo a tudo isso, a Globo repercutiu vazamento da coluna de Fausto Macedo do Estadão sobre a movimentação atípica de dinheiro na conta de assessor de Flávio Bolsonaro – deputado estadual e senador eleito, filho mais velho de Jair Bolsonaro. Investigação da Operação Furna da Onça do MPF realizada no mês passado, mas só AGORA vazada.

Denúncia que atingiu em cheio o clã Bolsonaro, fazendo o futuro ministro da Casa Civil, Onix Lorenzoni, ser grosseiro com repórteres e o futuro ministro da Justiça, Sérgio Moro, dar às costas aos jornalistas que cobravam um posicionamento.

Depois dos sete minutos do escândalo no “Jornal Nacional” e de a revista Exame manchetar que Bolsonaro seria diplomado “com patrimônio familiar sob suspeita”, a resposta do futuro presidente foi rápida no seu discurso na cerimônia do TSE: “O poder popular não precisa mais de intermediação. As novas tecnologias permitiram uma relação direta entre o seu leitor e os representantes”.

Uma afirmação rica em consequências tanto para a ciência política (um bonapartismo civil digital? – “bonapartismo civil”: tipo de governo em que o Poder Legislativo perde força e o Executivo se fortalece através do culto à personalidade) quanto para o campo da cibercultura – de como o tempo real das redes digitais é uma ameaça à democracia representativa – tema já discutido pelo Cinegnose, clique aqui.

Sem falar nas consequências em política de comunicação social: Bolsonaro dará uma banana para a generosa “mídia técnica” dos tempos petistas que enchiam de dinheiro os cofres da Globo.

Manter os canais abertos com o ativismo pelos direitos: preparando-se para 2019
Manchinha e os “nós” da Globo

E no meio de tudo isso, um repentino destaque para uma notícia local que ganhou destaque nacional: o espancamento com barra de ferro seguido de morte do cãozinho “Manchinha” por segurança de uma unidade do Carrefour em Osasco. Mais uma vez, atualizações diárias, dando destaque a manifestações de ativistas pelas causas dos animais.

Um fato “prosaico”, tradicionalmente jogado para os “fatos diversos”, ao lado de maus tratos humanos em hospitais púbicos.

Mas dessa vez, com furor indignado do mesmo nível do endereçado ao médium-celebridade. E o MP, dessa vez de São Paulo, recebe o passe da Globo e instaura inquérito para surfar em mais uma onda levantada pela emissora.

João de Deus e “Manchinha”, com o potencial escândalo do clã Bolsonaro espremido entre eles na paginação dos telejornais. Quais são os “nós” dados pela Globo nessas estranhas anomalias que antecederam a rápida diplomação do capitão reformado que deixou o STE sem falar com os jornalistas:

Primeiro Nó – continuidade da política de redução de danos

Depois de anos remexendo a lama psíquica do Brasil Profundo para derrubar um governo trabalhista, agora tenta se livrar da criatura parida do extremo-direitismo que alimentou como aliado de primeira hora. Principalmente no momento que se comemoram os 70 anos da Declaração dos Diretos Humanos da ONU – a presença de duas “gringas” que mostraram corajosamente seus rostos para denunciar João de Deus ajudaria a Globo a reforçar essa suposta isenção para o público tanto interno quanto externo. E o seu apego às questões identitárias.

De olho em 2019: direitos serão "coitadismos"
Segundo Nó – antevendo 2019

O que nos leva ao segundo nó. Com as seguidas afirmações de futuros ministros de que o Governo sairá de acordos climáticos (Acordo de Paris) e migratórios (ONU), a Globo sabe que esses campos serão catastróficos em 2019. Manter a pauta identitária e humanista é uma questão estratégica para manter livre os canais de comunicação com ativistas, ONGs ou front groups em geral. Afinal, front groups são um dos atores principais na engenharia de opinião pública e foram usados como peões na guerra midiática que desestabilizou o governo Dilma no rastro das manifestações híbridas a partir de 2013.

Terceiro Nó – manutenção da agenda identitária

Aqui revela-se a ingratidão de Bolsonaro para com a grande mídia. Na sua ingenuidade bonapartista, acredita que foi eleito apenas pelo whatsApp. Na verdade, todos os memes, pitacos e bravatas do clã Bolsonaro e seus asseclas (MBL etc.) nas redes sociais, não teriam a menor força sem a polarização criada pelo poder de agendamento da grande mídia (“frame set”) em torno das causas culturais, identitárias e de costumes. Enquadrou o debate nesses temas, para esconder o ponto fraco de toda direita numa eleição: o amargo programa neoliberal, inimigo do Estado, programas sociais e... de votos.


Com a “verdade” que bateu à porta de Bial, a Globo apertou esse nó para alcançar o objetivo mais profundo escondido pela cortina de fumaça: as reformas previdenciárias e a construção de um Estado mínimo e policial que reduza toda questão social e trabalhista a crime ou terrorismo.

Quarto e último Nó – tentar manter Bolsonaro no arreio curto

Olhando em perspectiva a paginação geral dos telejornais, a cobertura das transações financeiras suspeitas de ex-assessor de Flávio Bolsonaro tem ficado espremida entre João de Deus, o protesto de ativistas contra a morte de Manchinha e a meganhagem do dia das prisões preventivas da Polícia Federal na infindável Lava Jato.

É como se o jornalismo da Globo controlasse a fervura do escândalo como carta no bolso do colete ou um punhal perpetuamente colocado sobre o clã Bolsonaro. Com isso, a Globo tenta manter a criatura sob controle, puxando vez ou outra a corda: sete minutos no JN aqui e uma espetada no Fantástico ali.

Resta saber até onde vai o bonapartismo de Bolsonaro. Isto sabendo-se que para a maioria dos luminares intelectuais da extrema-direita, a Globo é petista...

Wilson Roberto Vieira Ferreira
No Cinegnose
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Temer recebeu R$ 20 milhões para abrir capital de companhias aéreas, narrou delator


O atual presidente Michel Temer recebeu o equivalente a R$ 20 milhões ao MDB em horas de voos de empresas do Grupo Constantino, que controla a Gol Linhas Aéreas, em 2014, para a aprovação da medida provisória que libera 100% de capital estrangeiro a companhias aéreas brasileiras, que foi efetivada quatro anos depois, nesta quinta-feira (13).

A acusação integra a delação premiada de Lucio Funaro, então operador do ex-deputado Eduardo Cunha, aos procuradores da Lava Jato, no ano passado. A íntegra do conteúdo chegou a 29 anexos envolvendo diversos temas e personagens acusados de vantagens indevidas e corrupção. Henrique Constantino, da Gol, e Michel Temer aparecem em alguns capítulos.

Na delação, Funaro detalha as articulações ilícitas de Eduardo Cunha, ex-deputado federal pelo MDB, junto a diversas medidas e projetos de lei em troca de doações para campanhas. Em determinado momento, o delator narra que o ex-deputado federal Tadeu Filippelli, que substituiu Cunha na presidência da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) da Câmara, e Cunha já haviam desenvolvido uma série de medidas de interesse da Henrique Constantino, da Gol Linhas Aéreas.

Entre elas, a "diminuição do ICMS sobre combustível para a aviação no Distrito Federal, a qual geraria uma grande economia para a GOL TRANSPORTES AÉREOS de propriedade do GRUPO CONSTANTINO". Além disso, Funaro disse que "o DEPUTADO EDUARDO CUNHA atuou para a desoneração da folha de pagamento dos setores em que o GRUPO CONSTANTINO tinha interesse".

Posteriormente, em outro anexo da delação de Funaro, intitulado "Medidas Provisórias em que houve pagamento de propina e fundo garantidor de crédito", é que entra a acusação direta contra Temer no mesmo tema de interesse do empresário Constantino. "O colaborador tem conhecimento sobre as articulações dentro do Congresso para a aprovação de Medidas Provisórias como troca de pagamentos indevidos ou doações de campanhas", introduz o capítulo.

Diversas medidas provisórias são citadas e, em todas elas, havia uma contrapartida: "Cunha conversava e informava o colaborador [Funaro~sobre o andamento das Medidas Provisórias, ressaltando que para que essas MP's fossem aprovadas, ele já havia 'acertado' com os empresários".

E explica melhor o que quis dizer com "acertado": "Quando Cunha se referia a algum assunto como acertado, restava claro que tinha algum pagamento de vantagem indevida". 

Como operador de Eduardo Cunha, Funaro tomava conhecimento de articulações em troca de vantagens indevidas relacionadas a outros caciques do MDB, como por exemplo, o atual presidente Michel Temer. Aos investigadores, Funaro disse ter "conhecimento da articulação por Michel Temer, Eduardo Cunha e Henrique Eduardo Alves para que a Medida Provisória 563/2012- desoneração dos encargos tributários sobre a folha de pagamento dos setores de transporte aéreo e coletivo rodoviário, a qual beneficiaria as empresas aéreas".

E detalhou o processo: "QUE a GOL LINHAS AEREAS estava passando por dificuldades financeiras, e HENRIQUE CONSTANTINO achava que a única solução seria a venda total da empresa para algum investidor estrangeiro. Que por conta dessa necessidade do GRUPO CONSTANTINO, HENRIQUE CONSTANTIN, o qual era o membro da família encarregado das relações institucionais, começou a se movimentar para tentar conseguir apoio suficiente dentro do GOVERNO para a abertura do capital de setor aéreo para empresas estrangeiras", introduziu, sobre o interesse de Constantino. 

O delator afirmou que durante o governo da ex-presidente Dilma Rousseff, houve a aprovação pelo Congresso do limite de até 50% da abertura do capital estrangeiro a companhias aéreas brasileiras. Entretanto, "não era suficiente para resolver o problema financeiro do Grupo Constantino". "Assim continuou-se a buscar a solução da aprovação da participação de capital estrangeiro sem um limite previsto", seguiu. 

Com esse objetivo, Henrique Constantino e seu irmão, Constantino Jr., procuraram à época o então vice-presidente Michel Temer, para pressionar pela aprovação de uma Medida Provisória ou Projeto de Lei que "liberaria a participação estrangeira em empresas aéreas sem limite". 

Em troca, os irmãos "doaram como contrapartida para a campanha de 2014 o valor equivalente a R$ 20.000.000,00 em horas voadas em aviões de empresas ligadas ao GRUPO CONSTANTINO".

Além das acusações pelo acordo de delação premiada, Funaro entregou aos investigadores o caminho das provas: disse que é possível confirmar essa contrapartida no registro de todos os voos feitos em aviões da marca Gulfestrean, Falcon e Citation modelo Sovererign, no ano de 2014, pertencentes ao grupo Constantino, configurando o repasse como vantagem indevida.

Entretanto, na prática, enquanto vice, Temer não teria conseguido a aprovação da medida e, por isso, teria tentado uma alternativa no formato de Projeto de Lei. E resolveu dar sequência a isso quando assumiu, em 2016, a Presidência da República. A Medida Provisória foi aprovada nesta quinta-feira (13), já no fim do mandato de Temer.

Funaro explica, ainda, que "este pleito das aéreas está sendo negociado desde a época em que Moreira Franco era Ministro da Aviação Civil" e que "a medida provisória que desonerou a folha de pagamentos dos setores de aviação e de transporte rodoviário coletivo a MP 563/12 e lei do Distrito Federal de 18/04/2013, que reduziu o percentual de 25% para 12%, do imposto que incide sobre o querosene de aviação, beneficiou muito o GRUPO CONSTANTINO, pois o combustível é o segundo item que mais influi nos custos do setor de aviação".

No GGN
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O silêncio de Ciro Gomes pode levá-lo a se tornar Marina

https://www.revistaforum.com.br/blogdorovai/2018/12/14/o-silencio-de-ciro-gomes-pode-leva-lo-a-se-tornar-marina/

Marina, em agosto de 2014, era tida por muitos como virtualmente eleita. Como se sabe, Marina acabou ficando em terceiro lugar, deixou que Aécio lhe beijasse a mão e o apoiou de corpo, alma e cabelos soltos no 2º turno, selando ali o seu destino rumo ao 1% de 2018.


Ciro Gomes teve 13% dos votos numa eleição em que não sobrou mais nada além dele, PT/Lula/Haddad e Bolsonaro.

Todas as outras candidaturas e partidos foram dizimadas. Mas quem mais perdeu foi Marina, que acabou com 1% dos votos.

Marina, em agosto de 2014, era tida por muitos como virtualmente eleita. Pessoas do seu núcleo dirigente já discutiam inclusive estratégias de governabilidade. Marina convidaria quadros do PT e do PSDB, com quem mantinha boas relações para o seu governo, com o objetivo de sair do PSB e tornar a Rede um partido dos “melhores” das outras legendas.

Como se sabe, Marina acabou ficando em terceiro lugar, deixou que Aécio lhe beijasse a mão e o apoiou de corpo, alma e cabelos soltos no 2º turno, selando ali o seu destino rumo ao 1% de 2018.

Ciro Gomes teve a chance de ser eleito presidente em 2018. Haddad, autorizado por Lula, o convidou para ser o vice do ex-presidente. Com isso ele seria virtualmente o candidato de todo o campo progressista caso houvesse a cassação da candidatura Lula. Ciro não topou. Considerava que podia ser o Macron brasileiro. O candidato do centro. Aquele que seria eleito pra afastar o risco dos extremos Lula/PT e Bolsonaro.

Foi atrás do centrão e por isso não convidou nem o PSB e nem o PCdoB para ocupar a vaga de vice. E tomou um olé de Alckmin e de Rodrigo Maia, que fazia de conta que articulava por ele.

Mesmo assim fez uma campanha bonita e chegou longe. Não se deve subestimar os votos de Ciro no contexto em que eles foram obtidos. Foi uma campanha heroica.

Mas ao invés de transformar aquele resultado numa vitoria, Ciro pegou o primeiro voo para Paris e passou o segundo turno sem se posicionar de forma clara. Pior, voltou na véspera da eleição, num momento em que Haddad recebia apoios inclusive da centro direita, e não declarou voto direto a ele.

Bolsonaro vitorioso, Ciro deu mais declarações no sentido de que o Brasil não corre riscos com um descerebrado desses na presidência, do que qualquer outra coisa. E agora, esconde-se quando o prefeito de Niteroi, do seu partido politico, é preso de maneira absolutamente arbitrária.

Na politica, gestos como este costumam cobrar alto preço. Ciro Gomes, que é um dos quadros políticos mais preparados do país, perdeu completamente o rumo. Isso é muito ruim.

Não é da noite para o dia que se constroem lideranças como Marina e Ciro. E isso pode fazer muita falta para a reconstituição de um campo político progressista capaz de governar o Brasil. Tomara que seja apenas uma má fase. E que a virada de ano e a crise institucional, que virá com a posse e as medidas que Bolsonaro tentará aprovar já no primeiro semestre de 2019, tragam o velho Ciro de volta a arena política.

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Perfis falsos e robôs pró-Bolsonaro continuam ativos


A atuação de perfis falsos e robôs de Jair Bolsonaro no Twitter caiu fortemente após as eleições, mas ainda há um volume considerável dessas contas agindo com mensagens a favor do presidente eleito, e contra seu principal adversário na eleição, Fernando Haddad (PT), informa a jornalista Patrícia Campos Mello. A empresa de análises AP/Exata afirma que são 2078 bots em operação mencionando Bolsonaro positivamente neste momento. 

A reportagem do jornal Folha de S. Paulo contextualiza a pesquisa e seus dados: "segundo o estudo, com dados coletados em 145 cidades brasileiras, o número de perfis de interferência mencionando Bolsonaro ou termos relacionados a ele caiu 73% entre a semana anterior ao segundo turno (de 22 a 28/10) e a primeira semana de dezembro (de 2 a 9/12). No caso de Haddad e termos ligados ao PT e à esquerda, a queda foi de 94%."

A matéria destaca os números da pesquisa: "o que chama a atenção, segundo Sergio Denicoli, diretor de Big Data da AP/Exata, é o número significativo de bots, militantes e perfis falsos ainda citando Bolsonaro. Segundo a amostragem, são 2.078 mencionando Bolsonaro e termos relacionados e 382 para Haddad e PT. O total de postagens dos perfis de interferência caiu de 64.378 para 9.735 no caso de Bolsonaro e de 52.297 para 732 no caso de Haddad."

O diretor de Big Data da AP/Extata Sergio Denicoli diz que "o fato de ainda estarem em atividade mostra que provavelmente serão usados durante o governo na tentativa de moldar as narrativas e conseguir apoio para determinados temas."

Segundo o jornal, "para o levantamento, a AP/Exata analisou mais de 10 milhões de postagens e 624.827 perfis no Twitter desde maio de 2018."

O Twitter questiona o conceito de perfis de interferência e "lamenta que seja dado crédito a um relatório metodologicamente falho, cujos critérios técnicos não conhece".

A matéria ainda liga a movimentação digital fraudulenta à denuncia do Coaf sobre as irregularidades do assessor direto do filho de Bolsonaro, Flávio Bosonaro: "assim que foi noticiado caso em que o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) encontrou movimentação atípica na conta de um ex-assessor do deputado estadual do Rio e senador eleito Flávio Bolsonaro, filho do futuro presidente, o perfil 'Rodrigo 1988' comentou em tuíte: 'Tentativa n° 76352 de tentar derrubar alguém próximo do Bolsonaro. Dessa vez um assessor do filho'."
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Três mil brasileiros inscritos no Mais Médicos ainda não se apresentaram e ministério prorroga prazo


Depois de forçar o desligamento dos médicos cubanos com declarações preconceituosas e ameaçadoras, Bolsonaro enfrenta um outro problema com Programa Mais Médicos: os três mil brasileiros que se inscreveram no programa ainda não se apresentaram e o prazo para o início do trabalho terminava nesta sexta-feira (14). Os dados foram apresentados pela comissão tripartite que acompanha o programa. 

O Ministério da Saúde prorrogou o prazo para os médicos inscritos na primeira etapa de seleção do Mais Médicos se apresentarem nos municípios. Os profissionais com CRM no Brasil terão até 18 de dezembro para apresentação nas cidades selecionadas. O começo da atuação deve ser estabelecido junto ao gestor local.

Reportagem do jornal Folha de S. Paulo ainda destaca que "uma segunda questão aflige os gestores: boa parte dos mais de 4.000 médicos brasileiros que já se apresentaram no trabalho pode deixar os cargos a partir de março, quando começam as residências médicas do país."
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Fux rasga decisão de Lula e manda Battisti para a cadeia

Logo, Executivo pode rever decisão da Dilma que nomeou Fux!


O "ansioso blogueiro" ouviu quatro pessoas que, pessoalmente, ouviram do candidato ao Supremo Luiz Fux dizer que ia "matar no peito" as acusações (falsas) contra Dirceu, no mensalão do PT (o do PSDB, o ministro presidente Joaquim Barbosa escondeu nas entranhas do domínio do fato).

É possível que Fux tenha procurado TODOS os petistas que estivessem envolvidos no julgamento do mensalão para prometer a mesma coisa: matar no peito.

Fux matou no peito, sim: matou no peito a Operação Satiagraha, que está provisoriamente enterrada por ele.

Fux segurou a decisão sobre o auxílio-moradia, ainda que sua filha, jovem e talentosa desembargadora, receba o auxílio-moradia enquanto mantém a propriedade de dois imóveis no Leblon, bairro de baixíssima classe baixa do Rio...

Na decisão, Fux manteve a porta escancarada para o auxílio-moradia voltar, breve!

Agora, Fux resolveu fazer um especial favor ao presidente que assume dia 1o de janeiro, com a faca nos dentes!

Para atender à Procuradora que procura o que quer achar, a Dra. Dodge, Fux anulou uma decisão do Presidente Lula que, no uso de atribuições constitucionais, manteve Cesare Battisti livre, no Brasil.

Fux entregou a cabeça do Battisti ao Bolsonaro.

Fux entende que uma decisão do Lula, por si mesma, não tem o menor valor legal.

Vale tanto quanto as reações indignadas do Aecinho.

Fux disse com aquela esperteza que se esconde sob o juridiquês:

- É da própria natureza dos atos produzidos no exercício do poder soberano (do Lula - PHA) a sua reversibilidade a qualquer momento (ele pode rasgar quando quiser - PHA), visto que amparados em juízo estritamente político (do Lula - PHA) (sim, porque as decisões do Fux não são políticas - PHA) e sujeito às conjunturas sociais, tanto internas quanto externas (e multi-planetárias - PHA)".
Tudo o que o Lula, a Dilma, o Jango e o Getúlio fizeram pode ser revisto pelo Fux, já que foram decisões, ainda que amparadas na Constituição, decisões políticas.

E, como são políticas, o Fux, um juiz "técnico", pode revogá-las.


A decisão, porém, é um tiro no pé.

Como se sabe, os bolsomínios podem fechar o Supremo com um cabo e um sargento.

Segundo os bolsomínios, ninguém vai para a porta do Supremo para defender o Ministrário Gilmar quando ele for preso.

Portanto, no mesmo camburão do Gilmar os bolsomínios podem levar o Fux.

Sim, porque se o Supremo pode reverter uma decisão derivada de um ato "político", na outra face da moeda o Executivo pode reverter uma decisão do Supremo movida por politiquismo de baixa categoria...

Por exemplo: Bolsonaro pode reverter a decisão política da Dilma que nomeou o Fux (a pedido do zé da Justiça)!

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Quem anda no pântano desperta os jacarés


Todo o noticiário das pequenas imundícies praticadas pelo entorno dos Bolsonaros, a esta altura, não muda mais a natureza das falcatruas, apenas a sua quantidade.

Cada pequeno trambique que aparece, como este do tenente-coronel que assessorou Flávio Bolsonaro por um ano, dos quais seis meses viveu em Portugal, é só mais um salpico de lama num esquema de nepotismo, extorsão e coleta de dinheiro que, a rigor, nem chega a ser novidade em nossa política.

A história de que tinha “160 dias de férias acumuladas” não passa pelo que diz a Portaria 541/2013 da PM, que determina que  “fica vedada a acumulação de férias, ressalvados os casos de interesse de segurança nacional, de manutenção da ordem pública ou, excepcionalmente, de extrema necessidade do serviço.” Nenhuma novidade, também, isso está proibido desde antes deste Wellington entrar na PM pelo Decreto 3.044/1980, que diz  que “é proibido a acumulação de férias, salvo por imperiosa necessidade de serviço e pelo máximo de dois períodos”.

São duas as questões que importam, agora.

Uma, a mácula pessoal que atinge Jair Bolsonaro – que não pode deixar o caso com a matilha de filhos – porque as suas ligações com o subtenente Fabrício são de décadas, foi ele quem o fez servidor da “família” e quem se meteu – seja lá com que razão for – com um extorsionista que achacava servidores e forjava contratações – também em seu próprio gabinete – para abastecer a “caixinha”.

Para quem se elegeu com gritos moralistas contra a “velha política” é veneno do seu próprio veneno.

A segunda é o já pouco disfarçado incômodo dos militares com as ‘escapulidas’ do cavalo que se dispuseram a montar em sua marcha para tomar o governo brasileiro. Pode apostar que, a esta altura, os serviços de inteligência militar pesquisam e avaliam o que mais pode aparecer no passado de Jair Bolsonaro e o potencial que isto terá de atingir o núcleo militar do poder.

A Globo, cujo faro é melhor do que o de qualquer cão de caça, percebeu e – dos grandes veículos de comunicação – é quem menos “alivia” a família presidencial, com matérias diárias no Jornal Nacional.

Bolsonaro acusou o golpe, mas sem saídas de melhor qualidade, diz que está disposto a “pagar” a conta pelos “erros” cometidos.

Não foram erros, foram crimes e não é possível invocar a “jurisprudência” de Sérgio Moro e deixar para lá porque, tal como Ônyx Lorenzoni, o ex-capitão “arrependeu-se”.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Bolsonaro exalta as milícias que querem matar Freixo, a quem chama de “covarde”, desde 2003


O ódio organizado a Marcelo Freixo vem sendo cevado há muito tempo e tem em Jair Bolsonaro um de seus maiores propagadores. 

A Polícia Civil interceptou planos de milicianos que iriam tentar executá-lo no próximo sábado (15) num evento com professores da rede particular em Campo Grande.

O PM e os dois comerciantes citados no relatório são ligados a milicianos investigados pelo assassinato de Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes.

Freixo, acertadamente, lembrou que a ameaça não é a ele, “mas à democracia”.

Parte do estado é comandada por esses criminosos num modelo de negócio altamente lucrativo. Controlam comunidades através de extorsão, tortura, homicídios e tráfico de drogas.

Parêntese: o bairro da Taquara, onde o ex-assessor de Flávio Bolsonaro mora, é dominado por milícias. Fecha parêntese.

Bolsonaro é um herói para eles.

Em 2003, fez no Parlamento a elegia de um grupo de exterminadores que atuava na Bahia, com um convite.

“Enquanto o Estado não tiver coragem de adotar a pena de morte, o crime de extermínio, no meu entender, será muito bem-vindo”, falou.

“Se não houver espaço para ele na Bahia, pode ir para o Rio de Janeiro. Se depender de mim, terão todo o meu apoio”, afirmou.

O que significa “todo meu apoio”?

Há dez anos, criticou na Câmara o relatório da CPI da Alerj que apurava a atuação dos grupos paramilitares e as punições requeridas.

Detectou-se cobrança de propina, serviços clandestinos, venda de apoio político etc.

“Existe miliciano que não tem nada a ver com gatonet, com venda de gás. Como ele ganha R$ 850 por mês, que é quanto ganha um soldado da PM ou do bombeiro, e tem a sua própria arma, ele organiza a segurança na sua comunidade”, declarou o então deputado.

Detonou Freixo: “O Marcelo Freixo tem trânsito livre em qualquer favela do Rio de Janeiro e a sua principal proposta é desarmar o bombeiro militar”.

“Ele inclusive pregou, por ocasião do referendo do desarmamento, o voto sim, ou seja, pela proibição do comércio e da fabricação de armas de fogo no Brasil. Hoje, de forma covarde – porque ele é um covarde –, Marcelo Freixo anda em carro blindado e com meia dúzia de seguranças. Ele tem de dar o exemplo. Se é homem suficiente para pedir o desarmamento, dê o exemplo: não ande em carro blindado e com meia dúzia de seguranças.”

Em entrevista à BBC, defendeu a legalização do que chamou de “defensores da ordem”.

Refere-se ao inimigo pelo apelido idiota de “Frouxo”, algo supostamente engraçado entre repetentes de 15 anos.

Em fevereiro, na encarnação de candidato, Bolsonaro voltou ao tema na Jovem Pan.

“Tem gente que é favorável à milícia, que é a maneira que eles têm de se ver livres da violência. Naquela região onde a milícia é paga, não tem violência”, inventou.

As milícias surgiram há cerca de 20 anos a reboque do abandono da população pelos governos.

São herdeiras dos esquadrões da morte da ditadura, contratadas por comerciantes e “caciques” para “limpar” a área da “bandidagem” (lato sensu).

Cresceram e atualmente podem faturar 20 milhões de reais por mês na zona oeste do Rio, seu principal reduto.

Em 2016, candidatos a prefeito e a vereador foram assassinados, incluindo o presidente da Portela, Marcos Falcon.

Em março, foi Marielle. No sábado, podia ser Freixo.

Essa máfia hoje tem um padrinho e ele estará sentado no Palácio do Planalto a partir de 1º de janeiro de 2019.



Kiko Nogueira
No DCM
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Milicianos mataram Marielle por causa de grilagem terras, diz general


A vereadora Marielle Franco (PSOL) foi morta porque milicianos acreditaram que ela podia atrapalhar os negócios ligados à grilagem de terras na zona oeste do Rio. O crime estava sendo planejado desde 2017, muito antes de o governo federal decidir decretar a intervenção federal no Rio. As revelações foram feitas pelo general Richard Nunes, secretário da Segurança Pública do Rio. Nunes, que assumiu a pasta no dia 27 de fevereiro, relatou os casos que encontrou na secretaria e diz que vários generais que vão assumir cargos na área no próximo ano procuraram o comando da intervenção no Rio para levar o modelo de gestão para outros Estados. Leia, a seguir, sua entrevista:

O senhor imaginava o tamanho do problema que encontraria aqui?

Imaginava. Primeiro porque sou do Rio e acompanhei a evolução do quadro da Segurança no Estado. Segundo, porque comandei a força de pacificação na Maré (ocupação militar de complexo de favelas, zona norte do Rio, de abril 2014 a junho de 2015), vendo de perto no nível tático, na ponta da linha, o que estava acontecendo no Estado e, depois, como comandante da Eceme (Escola de Comando e Estado-Maior do Exército) era um tema de estudo nosso. Não me surpreendeu, mas o fato de não me surpreender não significa que eu não tenha me deparado com ações que eu não imagina.

Dos R$ 1,2 bilhão enviados pelo governo federal, por enquanto o gabinete da intervenção conseguiu empenhar 39,06% do total ou R$ 468 milhões. Qual foi a dificuldade para se conseguir gastar esse dinheiro?

Esse é um aspecto fundamental do início da ação: compreender as restrições impostas pelo regime de recuperação fiscal; Isso não estava claro para ninguém. O regime de recuperação fiscal estabelecido em setembro de 2017 nos causou embaraço de todas ordem. Tanto que a verba federal alocada aqui teve de ser administrada por uma estrutura que não existia, que nós tivemos que criar. Ai foi uma luta contra o tempo. Em uma intervenção de curta duração, tivemos de montar esse processo ao mesmo tempo em que montávamos a estrutura para fazer as licitações. No âmbito da secretaria, colocamos em funcionamento o Fised, o Fundo Estadual de Segurança Pública e e Desenvolvimento Social. Ele é uma dádiva. São 5% dos royalties do petróleo. Neste ano, já superamos R$ 300 milhões e no próximo nossa expectativa é superar R$ 400 milhões.

Como estava frota da polícia quando o senhor chegou?

O índice de indisponibilidade era de 50%. Metade da frota sem condições de rodar e as últimas aquisições datando dos grandes eventos, coisa de cinco anos. A crise econômica que se abateu sobre o Rio provocou dois efeitos graves: o atraso de pagamento de salário e o Estado deixar de honrar contratos, como o de manutenção. Os carros iam enguiçado e sendo encostados. Tinha batalhão com menos de dez viaturas para rodar. O policiamento virou a pé com consequências gravíssimas para os indicadores de criminalidade. Não tínhamos ostensividade. Mesmo que tivesse policial não tinha viatura para transportá-lo.

O senhor tinha ideia disso quando assumiu?

Víamos a criminalidade se expandir e não víamos mais a polícia. A polícia desapareceu. A polícia estava a pé. E a desmotivação era completa. O quadro que encontramos em fevereiro era muito negativo. Com pagamentos atrasados – o 13.º só foi sair no final de abril –, sem equipamento, sem capacidade de mobilização, pois algumas verbas de premiação não eram pagas, como o regime adicional de serviço, no qual o policial trabalha na folga. Criou-se um descrédito, porque a crise econômica cria uma crise moral e as pessoas começam a deixar o interesse público em segundo plano. Era um salve-se quem puder. Tivemos de atacar fortemente isso aí, e foi na garganta, pois não tínhamos o que entregar. Era pegar o pessoal e dizer: acredite que vai melhorar. Nossa intervenção foi de gestão, de atrair os policiais com maior senso de liderança para os postos chaves. Hoje, a situação da frota não é a ideal, mas nós conseguimos fazer a entrega e comprar cerca de 2 mil viaturas. Isso com recursos do Estado. As com recursos federais tem mais 1,5 mil viaturas que devem chegar de um licitação de R$ 200 milhões (hoje a PM do Rio tem 3,5 mil viaturas e a Polícia Civil tem 1,3 mil viaturas). E também criamos uma estrutura logística para a manutenção.

O senhor considera que esse foi o principal efeito da intervenção?

Esse foi o grande diferencial dessa intervenção, o legado que acredito que vai ser apropriado pela Secretaria Nacional de Segurança Pública. O general Guilherme Cals Theophilo Gaspar de Oliveira virá aqui se reunir comigo e com o general Braga Netto; o (futuro) secretário de Segurança de São Paulo, o general João Camilo Pires de Campos, o futuro secretário do Paraná, general Luiz Carbonell, estiveram aqui conversando. Está havendo um interesse nas experiências da intervenção federal que possam ser úteis em outras partes do País. E o grande diferencial foi exatamente esse. Fizemos a intervenção com propósito muito mais de reestruturar os órgãos do que de tratarmos do dia a dia da criminalidade. Segurança Pública é muito absorvida pela temática da criminalidade, mas ela não é só isso. Nossa preocupação é que o legado da intervenção tenha prosseguimento. O maior risco que a gente corre aqui é a divisão da secretaria, como pretendido pelo novo governo. É como acabar com o Ministério da Defesa. Como acabar com essa estrutura e fazer a integração? Já deixei patente em várias reuniões. Eu e o general (interventor) Braga Netto, mas o tempo vai passando, e a gente vai ficando cada vez mais preocupado. Não adianta ficar pedindo GLO (operações de garantia da lei da ordem com emprego de tropa das Forças Armadas na segurança pública). Esse negócio de GLO virou uma panaceia.

Aliás, continua GLO depois do fim da intervenção?

Não. GLO morre com a intervenção, no dia 31 de dezembro.

O senhor é crítico do modelo das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs). Ele deve ser abandonado?

A minha crítica não é ao modelo em si, mas à maneira indiscriminada como ele foi empregado. Imaginar que em uma área de atuação de um batalhão existe uma organização comandada por um oficial inferior com efetivo superior ao do batalhão que não presta contas ao batalhão. Isso é um contrassenso. Há locais em que você pode ter uma polícia de proximidade dentro do conceito de pacificação perfeitamente e fazendo isso integrado ao batalhão da área. Não extinguimos as UPPs. Fizemos uma rearticulação. Sete delas deixaram de ser UPPs e passaram a ser companhias de batalhão, que é o caso da Cidade de Deus (favela na zona oeste do Rio). Ali não tem sentido fazer uma UPP. Como faz polícia de proximidade em uma área enorme daquela? É colocar no ombro da polícia uma responsabilidade maior do que ela pode assumir. E começa a dar errado, pois o policial se torna refém de uma estrutura montada no terreno inadequada para o enfrentamento daquela realidade. Imobiliza a polícia. Ela precisa ter dinamismo, deslocar-se no terreno, ter liberdade de ação. Determinadas UPPs se tornaram uma prisão para os policiais. Eles tinham de permanecer em bases sem a menor condição de fazer o patrulhamento daquela área. Foi um desperdício de recursos e daí a perda de credibilidade. Seria melhor preservar as UPPs naquelas iniciais para que elas se consolidassem. Porém, o interesse político falou mais alto e houve expansão das UPPs para outras áreas onde não havia condições de dar certo porque naquela época era uma marca positiva e trazia dividendos político-eleitorais. Tivemos de romper com isso e só a intervenção podia fazer isso. Pela autonomia política que desfrutamos a gente pode fazer esse movimento sem causar maiores comoções. O modelo UPP não está proscrito. Está sendo revisto e poderá funcionar em outras regiões do País.

General, o caso Marielle foi uma afronta à intervenção?

Não foi. O que entendo hoje é que os criminosos superestimaram o papel que a vereadora poderia desempenhar. Era um crime que já estava sendo planejado desde o final de 2017, antes da intervenção. Isso aí nós temos já; está claro na investigação. O que aconteceu foi o contrário. Os criminosos se deram conta da dimensão que tomou o crime por ter sido cometido na intervenção. Não podemos entender como afronta porque eu assumi em 27 de fevereiro. E dei posse ao comandante da PM no dia 14 de março, que foi o dia do crime. Estávamos iniciando um trabalho. E hoje com os dados de que dispomos de 19 volumes de investigação fica claro que se superestimou o papel que ela desempenhava.

Que papel?

Ela estava lidando em determinada área do Rio controlada por milicianos, onde interesses econômicos de toda ordem são colocados em jogo. No momento em que determinada liderança política, membro do legislativo, começa a questionar as relações que se estabelecem naquela comunidade, afeta os interesses daqueles grupos criminosos. É nesse ponto que a gente precisa chegar, provar essa tese, que está muito sólida. O que leva ao assassinato da vereadora e do motorista é essa percepção de que ela colocaria em risco naquelas áreas os interesses desses grupos criminosos.

Como ela colocaria em risco?

A milícia atua muito em cima da posse de terra e assim faz a exploração de todos os recursos. E há no Rio, na área oeste, na baixada de Jacarepaguá problemas graves de loteamento, de ocupação de terras. Essas áreas são complicadas.

A atuação dela seria de fazer…

Uma conscientização daquelas pessoas sobre a posse da terra. Isso causou instabilidade e é por aí que nós estamos caminhando. Mais do que isso eu não posso dizer.

O sr. ou a intervenção receberam pressões por esse crime?

Zero. O que há é muita especulação. Houve um movimento para tentar federalizar esse investigação totalmente desprovido de fundamento. Então foi um incômodo que não auxiliou em nada a investigação. Houve essa sugestão sob a suspeita de que a Polícia Civil não estaria fazendo um trabalho isento. Isso não tem fundamento. Temos de ter muito cuidado em não dar voz a criminosos que se encontram preso e colocam em xeque o processo de investigação (ele se refere á acusação feita pelo miliciano Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando de Curicica, um dos suspeitos de participar do crime). É um absurdo em uma nação democrática colocar em xeque uma investigação a partir do depoimento de um preso.

Esse criminoso faz isso como peça de sua defesa?

É lógico. Ele está sendo muito bem tratado por certa parcela da mídia e de determinadas instituições que estão dando voz para ele. Aquilo ali não é uma delação premiada coisa nenhuma. Está colocando sombras onde as próprias famílias (das vítimas) estão seguras de que se está fazendo o melhor trabalho possível.

Hoje depois desse tempo todo pode-se dizer que as milícias são hoje um perigo maior para o Rio do que as facções criminosas?

Acho que se equivalem. O que há de perigoso nas milícia é o modo como ela explora determinadas atividades. Ela é mais insidiosa. Porém, facções de tráfico têm adotado práticas de milícia e vice-versa. Então, como secretário de segurança, não há como estabelecer um grau de risco diferenciado. No momento em que a milícia passa a aceitar o tráfico de drogas na comunidade de sua presença e quando o traficante também se dedica a modalidades de crimes semelhantes ao que a milícia tem realizado, para mim o cenário indica que temos de combater ambos esses movimentos criminosas com a mesma intensidade.

O senhor vai conseguir deixar a secretaria com o anúncio da prisão dos envolvidos nesse crime?

Não tenho ideia. Nossa luta é contra o tempo; é coletar muitos dados que precisamos checar, de característica técnica, em um quadro de deficiência estrutural  grande que encontramos. Esse cruzamento de dados, para poder fechar em cima dos autores, é  demorado e complicado; filtros têm de ser feitos com precisão para que não se cometa erro. O erro que a gente não pode cometer não é deixar de anunciar até 31 de dezembro. O erro é anunciar precipitadamente e essas pessoas virem a ser inocentadas por um inquérito mal concluído.  Não sou um ator político, até porque continuo no Exército, vou seguir minha vida. Para mim, o mais grave seria tentar, de forma precipitada, apresentar alguns nomes que no futuro não sejam condenados. Centenas de depoimentos foram colhidos. Há 19 volumes de investigação. Nossa expectativa é resolver.

Alguns dos suspeitos estão mortos?

É provável que sim.

Queima de arquivo?

Queima de arquivo ainda é difícil de caracterizar. Mas porque são pessoas que vivem da prática de crimes com certa frequência estão mais sujeitos a esse tipo de desfecho.

Uma das críticas à polícia do Rio é sua letalidade. De 2013 a 2017, o Exército e a Marinha em suas operações mataram 19 pessoas e um militar morreu. Esse é nível de confronto menor do que os batalhões da PM. O que faz a ação das Forças Armadas tenham um nível de confronto menor do que a das polícias?

A capacidade dissuasória. A questão da mortalidade é mais complexa. Comparar o Rio com outros Estados é complicado. O Rio convive com três facções de tráfico que disputam espaço, além de grupos milicianos. É uma dinâmica de enfrentamento totalmente diferente do que ocorre em outros Estados, onde uma facção tem hegemonia. Então, temos no Rio uma quantidade de armamento nessas áreas considerável. Isso faz com que a polícia se depare com confrontos imprevistos. Nossa orientação é que operações em comunidade sejam feitas com absoluta superioridade de meios para dissuadir o enfrentamento. Não tem havido atuação indiscriminada da polícia. Isso é um exagero.

É necessário mudar procedimentos operacionais?

É questão de treinamento, que vamos tentar aperfeiçoar. Esse ano, tudo indica, vamos ter redução de mortes de policiais em confronto. Esse aumento de mortes em confronto com a polícia se tornou mais debatido porque outros indicadores de violência no Rio caíram, como roubos e homicídios, e esse não caiu na mesma proporção, pois tem havido uma atuação da polícia mais ostensiva. A polícia recuperou a ostensividade que  havia perdido. Ela está mais presente. Muitos casos caracterizam a legítima defesa dos policiais. Eu não comparo com as Forças Armadas porque seria até uma deslealdade com as polícias. Quando ocupei a Maré, tínhamos a superioridade absoluta de meios. Ai de quem nos enfrentasse. Não nos enfrentávamos porque não eram loucos.

O senhor acha que as regras de engajamento devem mudar como a questão do bandido armado com fuzil?

Sempre direcionei minha atuação como secretário para o nível político-estratégico e deixei o operacional e tático mais com diretrizes, pois não entendo que se resolva em nível tático um problema é que natureza estratégica. Mas é lógico que um criminoso armado com fuzil é uma ameaça. Não importa se ele está no ombro ou na mão.  Alguém que porte fuzil sem ser policial ou militar é uma ameaça à sociedade e é lícito, no meu entendimento, que ele seja engajado pela polícia diante de atitude tão agressiva. Mas não é com regras de engajamento que se resolve isso. É com mudança cultural, para que a sociedade toda entenda que isso é uma ameaça. Tratar um criminoso desses como vítima do sistema é extremamente grave e infelizmente esse discurso ainda é escutado aqui e acolá.

Com o senhor aqui, o (João Camilo Pires de) Campos em São Paulo, e o (Luiz Felipe) Carbonell no Paraná, o que o senhor acha que se deve essa opção do mundo político de ir procurar nas Forças Armadas gerentes para a Segurança Pública?

A sociedade chegou a um ponto de amadurecimento de entender que nossa maior crise era ética, muito mais do que econômica e social. E as Forças Armadas conseguiram atravessar todo esse processo mantendo alto grau de credibilidade. Ela conseguiram preservar-se pelos valores que encarnam. Outro aspecto inegável foi a intervenção, que sinalizou para o País que há condições de se enfrentar problemas gravíssimos por meio de uma correta percepção da realidade e encaminhamento de soluções que não sejam midiáticas e pirotécnicas e traduzam algo que pode ser colhido no futuro, que é próprio de quem não tem interesse político imediato.Nas figuras dos generais da reserva, identifica-se que eles não têm outro interesse do que o da sociedade e construíram uma vida calcada em princípios e valores éticos sólidos.

Mas esse interesse da política pelos militares não pode levar à divisões no Exército?

Estamos plenamente conscientes de que uma coisa são militares da reserva sendo chamados a atuar na esfera política. Outra coisa são as instituições militares se envolveram na vida político-partidária.  Não vejo que isso seja um risco, pois estamos deixando bem separadas as duas coisas.

Não entraremos em ciclo que pode gerar novas divisões, Dizia-se que o Exército devia ter a política do Exército e não no Exército. Mas nas décadas de 1940 a 1960 isso não ocorreu. A partir do momento que se tem um partido como o PSL com imagem fortemente vinculado à Forças Armadas a oposição não tende a buscar referências nelas, podendo levar a divisões internas?

Acho que nós todos temos muita consciência de todo o fenômeno histórico que caracterizou a República. Isso é algo que tem de nos preocupar no sentido de uma vigilância permanente. Não como risco efetivo de que isso possa nos dividir. Não permitimos que haja qualquer desvio de nossas normas e estatutos.

No QuantoÉ
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