13 de dez de 2018

Morre Eunice Paiva, protagonista na luta contra a ditadura


Símbolo da luta contra a ditadura, Eunice Paiva morreu nesta quinta-feira, 13 de dezembro de 2018, em São Paulo. Ela convivia há 14 anos com alzheimer e tinha 86 anos. Deixa cinco filhos: Marcelo, Veroca, Eliana, Nalu e Babiu.

Eunice teve papel central na busca por informações sobre o paradeiro de Rubens Paiva, ex-deputado desaparecido depois de ser preso, torturado e assassinado pela ditadura militar nos porões do DOI-CODI no Rio de Janeiro entre os dias 20 e 22 de janeiro de 1971.

Estudou Direito na tradicional universidade Mackenzie, já depois da viuvez. Conciliava a vida de mãe e de pai de cinco filhos com a rotina estudantil. Tornou-se advogada e se engajou em lutas sociais e políticas, como as causas indígenas, nos anos 80 e 90.

Eunice Paiva é uma das personagens do Heroínas dessa História, projeto que o Instituto Vladimir Herzog está realizando para dar visibilidade às trajetórias de mulheres que tiveram seus familiares mortos pelas mãos armadas do Estado e que fizeram de suas vidas uma constante luta por memória, verdade e justiça.

O Instituto Vladimir Herzog lamenta profundamente a morte de Eunice e manifesta toda sua solidariedade à família, em especial aos filhos Marcelo e Veroca. Talvez não por coincidência, Eunice morre no dia em que a promulgação do AI-5 completa 50 anos: um protesto de quem nunca deixou de lutar por um país democrático, mais justo e que garanta o direito a memória e justiça a todos os seus cidadãos.

O velório acontece no Funeral Home, na Rua São Carlos do Pinhal, nº 376.

Giuliano Galli



A morte da gigante Eunice Paiva e a cusparada de Bolsonaro no busto de Rubens Paiva

O Brasil está duplamente de luto nesta quinta feira, 13 de dezembro. Por um lado, pela passagem dos 50 anos da edição do AI-5, o Ato Institucional que marcou o mergulho definitivo do país nas trevas da mais feroz ditadura, suprimindo as garantias individuais, a liberdade de imprensa e opinião, naturalizou a tortura e a morte de opositores políticos.

Por outro, em mais uma dessas ironias do destino, é também o dia da morte, aos 86 anos de idade, de uma das mulheres que mais se destacaram no combate à tirania naqueles anos de chumbo, a advogada Eunice Paiva, mulher do ex-deputado Rubens Paiva, cassado em 1964 e assassinado sob tortura, nos porões da repressão do Doi-Codi do Rio de Janeiro, no início de 1971.

Sua trajetória pessoal é um paradigma de superação e transformação. Até então uma dona de casa de classe média alta, da Zona Sul carioca, sem militância política anterior, a despeito das atividades do marido, Eunice se dedicava basicamente às chamadas tarefas do lar e à educação dos cinco filhos, um deles o escritor Marcelo Rubens Paiva.

“Ela tinha aquele perfil clássico da mulher dos anos 1960”, diz Marcelo. “Linda, arrumada e cheirosa esperando o marido chegar.”

Tudo mudou naquele 20 de janeiro, dia de São Sebastião, padroeiro da cidade do Rio de Janeiro e feriado municipal. A casa da família, no bairro nobre do Leblon foi invadida por militares que levaram preso não apenas seu marido, mas também ela e uma filha menor de idade.

Eunice permaneceu 13 dias em poder da repressão, numa cela nas dependências do Doi-Codi, na Tijuca. Ao voltar para casa, esperava encontrar-se com Rubens. Em vão. O tempo foi passando e a angústia aumentava, diante da falta de notícias do marido.

Foi então que Eunice iniciou uma peregrinação por quartéis e ministérios do governo do ditador Emilio Médici –chegou a pedir uma audiência em Brasília com o ministro da Justiça Alfredo Buzaid, de quem recebeu a garantia de que Rubens fora interrogado, estava bem e logo seria liberado, no máximo em dois dias.

A realidade seria bem diferente, como relatou o escritor Antônio Callado, que encontrara Eunice na praia de Búzios sorridente, feliz pela boa nova transmitida por Buzaid.

“Dois dias depois, isto sim, os jornais recebiam uma notícia tão displicente que se diria que seus inventores não faziam a menor questão que fosse levada a sério”, escreveu Callado. “Rubens estaria sendo transferido de prisão, num carro, quando guerrilheiros que tentavam libertá-lo tinham atacado e sequestrado o prisioneiro.”

O resto é história. Aos 41 anos de idade. Eunice foi obrigada a acumular o papel de mãe e pai de Marcelo, Veroca, Eliana, Nalu e Babiu. Para garantir o sustento da família, já que os bens de Rubens foram bloqueados, teve de trabalhar e estudar. Mudou-se para São Paulo, ingressou na faculdade de Direito da Universidade Mackenzie, formando-se aos 46 anos.

Como relata Marcelo, em seu livro “Ainda estou aqui” (Alfaguara), como advogada Eunice denunciou incansavelmente o desaparecimento de Rubens por décadas e lutou pelos direitos indígenas ao lado do cantor Sting.

“Ao longo do tempo, percebi que a grande heroína desta história é minha mãe”, afirmou Marcelo.

Ao mesmo tempo, Eunice, que nunca se conformou com a farsa oficial, do sequestro do marido por um grupo de esquerda, também esteve na linha de frente das lutas pela Anistia, Diretas Já e pela Constituinte.

Em fevereiro de 1996, ela obteve uma primeira grande vitória: recebeu no cartório de Registro Civil das Pessoas Naturais – Primeiro Subdistrito da Sé, o atestado de óbito de Rubens Paiva, 25 anos depois de sua morte, o que lhe permitiu acesso aos bens bloqueados do marido. “Na saída, ela sorriu, falou com a imprensa e ergueu o atestado de óbito como um troféu”, afirmou Marcelo.

Numa entrevista ele explicou o sorriso da mãe, que chegou a causar estranheza aos jornalistas que cobriam o recebimento do atestado.

“Por anos, fotógrafos nos queriam tristes. Deflagramos uma batalha contra o pieguismo da imprensa. Sim, éramos a família modelo vítima da ditadura, mas não faríamos o papelão de sairmos tristes nas fotos”, disse.

“Nosso inimigo não iria nos derrubar. Guerra é guerra. Minha mãe deu o tom: a família Rubens Paiva não chora em frente às câmeras, não faz cara de coitada, não se faz de vítima. A angústia, as lágrimas, o ódio, apenas entre quatro paredes.”

Em 2014, uma nova vitória. Em depoimento à Comissão da Verdade e ao Ministério Público Federal, o general reformado Raymundo Ronaldo Campos revelou que o Exército montou uma farsa ao sustentar, na época, que Paiva teria sido resgatado por seus companheiros “terroristas”, ao ser transportado por agentes do DOI no Alto da Boa Vista.

Raymundo, que era capitão, conduzia o veículo supostamente atacado e estava na companhia dos sargentos e irmãos Jacy e Jurandir Ochsendorf.

Segundo o jornal O Globo, “O general, que passou os últimos 43 anos sustentando a farsa admitiu que recebera ordens do então subcomandante do DOI, major Francisco Demiurgo Santos Cardoso (já falecido), para levar um Fusca até o Alto da Boa Vista e simular o ataque. Raymundo e os dois sargentos metralharam e incendiaram o carro, jogando um fósforo aceso no tanque de combustível.”

A versão mentirosa, por sinal, tinha um propagador ativo na figura do capitão e deputado federal Jair Bolsonaro, o campeão das fake news no país.

Disse Bolsonaro: “Acusam-nos de ter matado Rubens Paiva. O grupo do Lamarca suspeitou e chegou à conclusão de que ele foi denunciado pelo Rubens Paiva quando foi preso. Ninguém resiste à tortura… Então, o grupo do Lamarca suspeitou que Rubens Paiva o havia denunciado. E esperaram o momento certo. Quando o Rubens Paiva foi detido pelo Exército, posto em liberdade, com toda a certeza, foi capturado e justiçado pelo bando do Lamarca e pelo bando da Esquerda, da VPR. E aí a culpa recai sobre as Forças Armadas.”.

Assolada pelo mal de Alzheimer, que a afetava desde 2004 e tema central do livro Ainda estou aqui, escrito pelo filho, Eunice, infelizmente, não pôde desfrutar desse momento de restabelecimento da verdade.

A moléstia, no entanto, a livrou de presenciar uma das cenas mais sórdidas já vistas na Câmara dos Deputados, naquele mesmo ano. Protagonizada, para variar, por ele mesmo, o homem que se pretende vir a ser o presidente de todos os brasileiros.

O episódio ocorreu durante a inauguração de um busco com a imagem de Rubens Paiva, em homenagem à sua luta pela democracia no Brasil. Como relata Chico Paiva Avelino, um dos seus netos, presente ao ato:

Minha família foi em peso. Emocionadas, minha mãe e minha tia fizeram discursos lindos e orgulhosos sobre a memória do pai. No meio de um deles, fomos interrompidos por um pequeno grupo que veio se manifestar. Era Jair Bolsonaro, junto com alguns amigos (talvez fossem os filhos, na época eu não sabia quem eram), que se deu ao trabalho do sair de seu gabinete e vir em nossa direção, gritando que “Rubens Paiva teve o que mereceu, comunista desgraçado, vagabundo!”. Ao passar por nós, deu uma cusparada no busto. Uma cusparada. Em uma homenagem a um colega deputado brutalmente assassinado

O que consola é que os Bolsonaros passam e devem ocupar um nota de rodapé na história do Brasil. Mulheres guerreiras como Eunice Paiva, que juntamente com outras gigantes como Therezinha Zerbini, a presidente do Movimento Feminino pela Anistia, a estilista Zuzu Angel tanto fizeram pelas liberdades democráticas no país, certamente ficarão.

“De todas as combatentes que denunciaram os assassinatos e abusos cometidos pela ditadura militar, durante os anos de chumba, a figura de Eunice Paiva é uma daquelas que quer permanecem para sempre vivas e cheias de forças em nossos corações”, declarou em nota a presidente Dilma Rousseff.

Miguel Enriquez
No DCM
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Otimismo sobre ações de Bolsonaro expõe conduta 'esquizofrênica' do brasileiro


Pesquisa da CNI/Ibope identificou 64% dos brasileiros otimistas com o futuro governo Jair Bolsonaro e apoio de 75% às ações durante a transição.

Os entrevistados apontaram como principais problemas do país a saúde (46%) e o desemprego (45%).

Pois bem.

O futuro ministro da Saúde, Henrique Mandetta, é investigado por fraude em licitação, tráfico de influência e caixa dois.

À ficha corrida se soma o desafio de garantir a atenção básica depois do vácuo sanitário deixado pela saída dos médicos cubanos.
Os brasileiros não parecem tão dispostos a encarar o espírito da medicina em áreas pobres, distantes e indígenas afetadas pelo coice diplomático bolsonarista.

O cargo de ministro do Trabalho não existirá porque Bolsonaro extinguiu a pasta e esquartejou as atribuições entre outros ministérios.

O presidente eleito defendeu os patrões, criticou as leis trabalhistas e elogiou a informalidade - emprego bom é emprego com menos direitos, ele defende.

Integrantes do governo defendem o fim da estabilidade do serviço público.

Tudo caminha para a precariedade total da terceirização: menos direitos, menos impostos pagos, menos recolhimento previdenciário.

E, aí, o desfecho do otimismo: menos dinheiro público na saúde, menos aposentadoria, menos grana para férias, décimo terceiro e quinquilharias de países atrasados.

O lema perfeito para esse Brasil esquizofrênico bem poderia ser “Sorria, você está sendo enganado”.

Tiago Barbosa
No GGN
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Escanhoar ou não escanhoar

Herbert Block, que se assinava “Herblock”, foi chargista do Washington Post por mais de 50 anos, durante os quais não faltaram alvos na política e na sociedade americanas para sua pena afiada. O senador McCarthy, furioso caçador de comunistas, ameaçou processá-lo mais de uma vez, e só conseguiu ser ainda mais ridicularizado. Mas o alvo preferido de “Herblock” foi Richard Nixon, quando este começou a se destacar como um político não, digamos, muito limpo. O chargista o retratava saindo de esgotos e aprontando maldades, e sempre com a barba por fazer, para realçar seu ar meio sinistro.

Apesar da cara inconfiável e da ausência de qualquer tipo de credencial para o cargo, Nixon foi eleito presidente dos Estados Unidos, e governou até cair, vítima do escândalo de Watergate e das suas próprias mentiras. Mas a charge do Washington Post depois da eleição de Nixon surpreendeu todo o mundo. “Herblock” o desenhara saindo de uma cadeira de barbeiro, exemplarmente escanhoado. A legenda da “charge” era “Na barbearia do Herblock, todos têm direito a pelo menos uma barba de graça”. O que não quis dizer que no dia seguinte o agora presidente não voltasse a ser alvo do chargista, com barba cerrada e tudo

Escanhoar ou não escanhoar? A escolha é entre continuar lamentando a eleição de alguém como o Bolsonaro, cercado dos seus generais, ou aceitar o inevitável e lhes dar um crédito mesmo temporário, de confiança, já que o governo do cara ainda nem começou, poxa! A escolha é entre coerência e rendição – uma escolha que teremos de fazer, já que tudo indica que o governo que se aproxima vem cheio de contradições e choques de egos, pedindo uma imprensa investigativa como nunca antes. Eu, por sinal, escolho a coerência.

Por falar em charges: nosso “Herblock”, o Chico Caruso, fez uma que resume tudo. O governo em formação: “Menos médicos, mais milicos”.

Luís Fernando Veríssimo
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Após consultar Paulo Guedes, Temer libera 100% de capital estrangeiro a companhias aéreas


O presidente Michel Temer assinou, nesta quinta-feira (13), uma medida provisória que autoriza que as companhias aéreas brasileiras possam ter até 100% de capital estrangeiro. A medida acaba com artigo do Código Brasileiro de Aeronáutica que obrigava que 80% das empresas de aviação nacional estejam sob o controle de brasileiros.

Apesar de ocorrer paralelamente à pressão da empresa norte-americana Boeing para a fusão com controle sobre a brasileira Embraer, a medida não impactará fábricantes de aeronaves, apenas companhias aéreas. Antes de ser assinada pelo governo Temer, o futuro ministro da Economia de Jair Bolsonaro foi consultado.

Hoje, um artigo do Código Brasileiro de Aeronáutica limita que estrangeiros adquiram até 20% do capital de uma companhia aérea brasileira. Mas com a medida provisória assinada por Temer, tal artigo deixa de ter validade.

A estratégia econômica é uma das intenções do governo Temer junto ao ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, de abertura da economia brasileira aos investimentos exteriores, afetando a possibilidade de controle e garantias de empresários brasileiros sobre as empresas nacionais e aumentando a competição a conglomerados internacionais, principalmente, norte-americanos.

Mas para Eliseu Padilha, a medida é positiva: para ser considerada brasileira, a companhia aérea não precisará ter, necessariamente, recursos de empresários brasileiros, bastando ter sede no país. 

"A empresa de aviação tem que ser brasileira. A origem do capital, que [a legislação] antes limitava que capital estrangeiro pudesse ter até 20%, agora nós poderemos ter inclusive 100%. Isso é o que acontece, por exemplo, na telefonia", disse Padilha, durante anúncio da medida provisória.

Segundo o ministro de Temer, a abertura ao capital estrangeiro "resolverá  um dos principias problemas da aviação brasileira, que é a fonte de financiamento para as companhias de aviação". "Nisso nós acabamos tendo a possibilidade de ter a participação de capital estrangeiro no financiamento, independentemente de sua origem", defendeu.

A exemplo do que ocorreu com outras decisões de Michel Temer já no fim de sua gestão, essa medida provisória foi discutida com o governo de Jair Bolsonaro. Neste caso, Eliseu disse que o futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, foi consultado: 

"Claro que nós tivemos o cuidado de conversar com o ministro Paulo Guedes, e ele, de pronto, disse que estava rigorosamente conforme aquilo que entende que deve ser feito. Nós estamos fazendo já em consonância com o novo governo", completou, ainda.

No GGN
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Flávio Bolsonaro diz que 'não sabia de nada'


O deputado e senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) disse "não saber de nada" sobre a movimentação de R$ 1,2 milhão feita pelo seu ex-assessor Fabrício Queiroz e que vem sendo alvo de monitoramento pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Por meio de nota enviada ao site de extrema-direita O Antagonista, Flávio afirma estar "angustiado" e que não tem como se pronunciar "sobre algo que não sei o que é, envolvendo meu ex-assessor".

Na semana passada, Flávio declarou que durante uma conversa com Queiroz, este teria lhe contado "uma história bastante plausível", sem "ilegalidade", nas movimentações financeiras sob suspeita.

"Mantendo nossa coerência de sempre, não existe passar a mão na cabeça de quem errou. Não fiz nada de errado, sou o maior interessado em que tudo se esclareça pra ontem, mas não posso me pronunciar sobre algo que não sei o que é, envolvendo meu ex-assessor", destacou Flávio no texto da nota.

Ainda segundo ele, a "mídia está fazendo uma força descomunal para desconstruir minha reputação e tentar atingir Jair Bolsonaro. Não acreditem nesse enredo absurdo que mídia criou para tentar manipular a opinião pública". "Basta ver como abordam a movimentação na conta de meu ex-assessor, como se ele tivesse recebido R$ 1,2 milhões, quando na verdade foram R$ 600 mil que entraram mais R$ 600 mil que saíram de sua conta", ressalta. O parlamentar ressalta que o ex-assessor tomou a decisão de só falar sobre o caso com o Ministério Público.

Flávio Bolsonaro também diz que as suspeitas do Coaf sobre o caso não recaem apenas sobre assessores ligados a ele, mas também de pessoas ligadas a outros partidos, "incluindo do PSOL, mas a mídia só ataca a mim".
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AI-5 O Dia que não Existiu




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Requião se despede do Senado


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Sinais são de que Bolsonaro terá o mesmo fim de Colllor e Jânio Quadros

https://www.revistaforum.com.br/blogdorovai/2018/12/13/sinais-sao-de-que-bolsonaro-tera-o-mesmo-fim-de-colllor-e-janio-quadros/

Jânio Quadros ganhou a eleição com uma vassourinha que seria usada para varrer a bandalheira. Era um moralista sem moral que desafiou o sistema e derrotou os grandes partidos da época.

Fernando Collor saiu de Alagoas para caçar os marajás e combater a corrupção. Seu programa de governo, aliás, era muito parecido com o de Bolsonaro. Privatizações, diminuição do Estado, fim da estabilidade do servidor público, sanha moralista e criminalização dos movimentos sociais e sindical.

Collor também derrotou os grandes partidos e favoritos na primeira eleição pós-democratização. Na primeira eleição pós fim de um regime militar motivado pela renúncia de Jânio Quadros.

O fato é que ambos foram substituídos por seus vices em curto espaço de tempo e derrotados pelo discurso que os levou ao poder.

Os vices de Jânio e de Collor eram muito melhores do que eles, João Goulart e Itamar Franco. O primeiro acabou sofrendo um golpe militar. O segundo, de alguma maneira, uma rasteira civil.

Itamar apoiou FHC para a sua sucessão, mas este o traiu logo no início do mandato implementando uma agenda neoliberal, que Itamar, convicto nacionalista, era contrário.

O que impressiona neste momento é que Jair Bolsonaro, que se elegeu com a mesma agenda e narrativas de Jânio e Collor, vive antes mesmo de sua posse um desgaste tão grande que sequer terá a famosa lua de mel, que quando curta, dura até a semana santa.

O bate-cabeças no PSL, partido do governo, as caneladas do general Mourão no presidente e em seus filhos, a dificuldade em criar uma base para eleger os presidentes da Câmara e do Senado e a nomeação de uma série de ministros inexpressivos e caricatos, indicam que Bolsonaro começa seu mandato já com cheiro de mofo.

Em começo de mandato, governantes costumam ter paz e capital político para se impor. Mas isso não está acontecendo com o futuro presidente. Ao contrário, ele está completamente perdido e já começa a ser visto como um estorvo a ser retirado do cargo.

A questão que vai se colocar em breve se o caso do “esquema laranja” de Flávio Bolsonaro não vier a ser solucionado e se, por exemplo, o assessor Queiroz vier a abrir a boca e dizer que a grana que depositou na conta de Michelle não tem nada a ver com dívida com Bolsonaro, é que se iniciará a fase “como se livrar do presidente”.

Porque o capital financeiro e os agentes políticos não estarão dispostos a viver mais quatro anos de crise político-econômica, que será ainda maior com a perseguição do Estado, via Moro, a todos aqueles que incomodarem.

Quando isso acontecer, Mourão, que já está se mostrando bem assanhado para o cargo, estará sambando em articulações para armar um impeachment rápido e indolor contra o seu cabeça de chapa.

O Brasil parece estar prestes a mais uma interrupção de governo por impeachment ou golpe. A forma como a Globo está cobrindo o caso do “esquema laranja”, as entrevistas de Mourão e o jeitão como estão se movendo as raposas políticas mais astutas é que apontam para isso.

Bolsonaro, o jacaré banguela, pode estar prestes a se tornar bolsa. Nunca antes da posse um governo em primeira eleição esteve tão desgastado. Nunca antes na história deste país. Dilma e FHC viveram algo semelhante, mas nas suas reeleições.
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Catedral de Campinas e as armas de Bolsonaro


 
As cenas do tiroteio na Catedral Metropolitana de Campinas, no interior de São Paulo, seguem gerando angústia e indagações na sociedade. O que explicaria uma ação tão bárbara, que resultou na morte de cinco pessoas inocentes que tinham acabado de assistir a uma missa? O que teria levado o analista de sistema Euler Fernando Grandolpho, de 49 anos, a disparar duas armas de fogo e depois se suicidar? Segundo o delegado José Henrique Ventura, não há registro de antecedentes criminais do rapaz de classe média, morador de um condomínio fechado na vizinha Valinhos. “Uma pessoa fora de qualquer suspeita em circunstâncias normais", afirmou estarrecido o policial.

O triste episódio ainda exigirá investigação e dará muita audiência aos programas sensacionalistas e policialescos de rádio e tevê. Ele também podia servir a uma reflexão mais séria sobre a proposta de Jair Bolsonaro de liberação do porte de armas no Brasil. Durante a campanha presidencial, com seu discurso hidrófobo de incentivo ao ódio e à violência, ele prometeu revogar o Estatuto do Desarmamento, aprovado em dezembro de 2003. Esta norma legal, alvo da fúria da indústria de armamentos e das hordas fascistoides, limitou a posse e retirou das ruas milhares de armas. Até o início de 2014, quase 650 mil armas de fogo foram entregues voluntariamente pela população – o que certamente evitou outras tragédias como a de Campinas.

Apesar da onda conservadoras no país, a proposta de liberação das armas ainda esbarra na resistência da sociedade. Pesquisa Datafolha de outubro último mostra que 55% dos brasileiros defendem a proibição da venda de armas “por representar uma ameaça à vida dos outros”. Esse índice, porém, tem recuado – talvez em decorrência do aumento da audiência dos programas policialescos da tevê. Em novembro de 2013, 68% achavam que as armas deveriam ser proibidas e só 30% queriam armas liberadas. Foi nessa onda fascistizante que Jair Bolsonaro se elegeu; e nela que ele agora tentará revogar o Estatuto do Desarmamento. A tragédia da Catedral de Campinas devia servir de alerta aos eleitores menos tapados e imbecilizados pelas mídia!

Altamiro Borges
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O novo golpe do fantástico Rubnei Quícoli, na eleição do Palmeiras


Rubnei Quícoli foi personagem de uma série de denúncias da Folha, na campanha eleitoral de 2010. Apresentava-o como um consultor sério, que tentou um financiamento de R$ 5 bilhões junto ao BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) para uma pequena empresa especializada em energia eólica. Mas não havia conseguido o empréstimo por ter se recusado a pagar R$ 5 milhões em propina para Dilma Rousseff.

Aqui no Blog, mostramos que o emérito consultor tinha acabado de sair da cadeia, depois de um período preso por estelionato. E que seria impossível, pelas regras do BNDES, financiamento de tal monta para uma empresa pequena.

Os próprios proprietários da empresa deram entrevistas dizendo que não haviam autorizado Quícoli a tomar financiamento algum.

Tempos atrás, Quícoli apareceu de novo, atacando minhas filhas pelo Facebook. Fiz uma denúncia, o delegado intimou-o a vir a São Paulo prestar esclarecimentos (ele é de Campinas). Foi consultada sua ficha, para ver se oferecia algum risco. E, no final, constatou-se ser apenas um pequeno estelionatário.

Agora, o bravo Quícoli reaparece com uma tacada fantástica. Apresentou-se no Palmeiras como diretor financeiro de uma certa Blackstar International Limited (clique aqui) com uma proposta fantástica: R$ 1,4 bilhão por dez anos de patrocínio do Palmeiras. A proposta foi apresentada como o grande trunfo do candidato da oposição, Genaro Marino.

R$ 1 bilhão seria pago à vista, na assinatura do contrato. Os demais R$ 400 milhões seriam diluídos ao longo de dez anos. Segundo reportagem do R7, se o presidente do Palmeiras recusar essa oferta, o presidente terá que se explicar junto aos conselheiros.

Luís Nassif
No GGN
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Por um país de biscateiros…


Mostra a Folha que, ontem, diante dos deputados do DEM, Jair Bolsonaro explicitou o que, para ele, deverá ser o futuro do trabalhador brasileiro.

“… sei que (o regime de relações de trabalho) está engessado o artigo sétimo [da Constituição], mas tem que se aproximar da informalidade”.

O artigo sétimo, para quem não lembra, lista o que são “direitos dos trabalhadores urbanos e rurais”, esta “aberração” que, desde 1930, comunistas como Getúlio Vargas vêm impondo ao oprimido patronato brasileiro.

Chegamos ao absurdo, conforme Bolsonaro, de um empresário não poder chantagear seus funcionários com a perda do emprego, para que votem em um determinado candidato. Ele, naturalmente.

“Luciano Hang da Havan, de Santa Catarina, está com uma multa de 100 milhões de reais porque ele teria aliciado, obrigado os funcionários a votar em mim”, diz, em tom crítico.

No lugar da fiscalização, o ex-capitão sugere “fiscais amigos do empresário”, na qual “tenha fiscalização, sim, mas nós queremos que chegue no órgão fiscalizado e a pessoa seja atendida como amiga”.

Para isso, sugere que termine a independência do Ministério Público do Trabalho, onde “cada um [dos procuradores] faz o que bem entende” e, assim, a fiscalização só se dê sobre quem “o chefe” autorizar. Luciano Hang, por exemplo, nem pensar.

O trágico é que isso é dito pouco mais de um ano depois de uma imensa e inédita mutilação das leis trabalhistas, feitas por Michel Temer, que foi aos limites – e muitas vezes passou deles – da abolição de direitos.

Quem sabe Jair Bolsonaro possa “flexibilizar” estes direitos fazendo coisas semelhantes ao que se fazia no gabinete do seu filho, Flávio? O trabalhador teria direito a permanecer no emprego desde que desse uma “caixinha” para alguém designado para recolhê-la, como Fabrício Queiroz.

Sabe como é, é melhor um emprego só com uma parte do salário do que nenhum emprego, não é?

Quem não quiser isso pode escolher: pode ser camelô – não esqueça da caixinha do “rapa” -, biscateiro, pedinte e outras variantes do subemprego ou “trabalhar por conta própria” o que, não raro, é o famoso “bico”.

O que já é a realidade para quase dois terços dos trabalhadores brasileiros.

A informalidade que o ex-capitão deseja – claro que não para todos, porque não haveria oficiais militares free-lance – não é um projeto, é um fato e deste fato é que derivam a crise da Previdência, a insegurança do brasileiro, a atrofia do consumo e do crédito.

O país de Bolsonaro é um país de biscateiros, onde só os trabalhadores de alta qualificação terão direito a alguma garantia. Ao resto, o mínimo possível e, não fosse o “maldito” Artigo Sétimo da Constituição, a escravidão.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Secretário da Secom de Bolsonaro espalha discurso de ódio contra a mídia e jornalistas nas redes

Floriano Amorim tem o hábito de replicar postagens da família Bolsonaro. Ele costuma tratar a Folha, por exemplo, como “Foice”, símbolo do comunismo

Eles se merecem
O publicitário Floriano Amorim, futuro chefe da Secom (Secretaria de Comunicação) do governo de Jair Bolsonaro, mantém um perfil no Twitter com discursos de ódio contra a mídia e jornalistas e opiniões bem similares às do chefe, seus filhos e correligionários.

Amorim, que hoje é assessor do gabinete do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), tem o hábito de replicar postagens da família. Ele costuma tratar a Folha, por exemplo, como “Foice”, símbolo do comunismo.

Ao republicar post sobre uma pesquisa do instituto Datafolha, o futuro secretário comentou: “Mais ridículo ainda é perceber que ainda tem gente que dá crédito a uma pesquisa encomendada pela Globo e Folha de SP! Isso já está ficando bizarro e feio pra essa esquerdalha”.

Amorim afirmou também, na rede social que, ao cortar verbas de propaganda oficial, Bolsonaro estará fazendo girar a economia.

“Com essa ação, aqueles que sempre se deram bem nas contas de governo irão ter que mostrar serviço no mercado privado. Em consequência, irão aquecer o mercado. 17!”, disse, citando o número do PSL, sigla de Bolsonaro.

Ele também sugeriu punição ao homem acusado de matar a pauladas uma idosa de 106 anos no Maranhão: “Um animal desses só tirando toda a pele e soltá-lo no meio do sertão”, escreveu o publicitário.

Foto: Reprodução Twitter

Amorim terá como atribuição cuidar dos contratos de publicidade oficial do governo. Sua indicação para a Secom não foi oficializada por Bolsonaro, mas nesta semana o futuro ministro da Secretaria-Geral, Gustavo Bebianno, afirmou que ele é o escolhido.

Sobre um jornalista do UOL, Amorim endossou post de Carlos Bolsonaro (PSC) e comentou: “Essa escória com alcunha de jornalista é um peso morto pro país”.

Ele também comparou o ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, ao cachorro do ex-presidente americano George Bush, que ficou ao lado do caixão do dono no funeral: “Nem Haddad agiu assim com seu mentor”, em alusão a Lula.

Amorim foi informado por email e mensagem sobre o teor desta reportagem, produzida pela Folha, mas não respondeu sobre os posts.

“Dentro do possível estou tentando responder diversas demandas. Na oportunidade certa vamos nos falar”, disse.

Na noite desta quarta (12), no entanto, o seu perfil no Twitter foi alterado e passou a ser fechado. Com os tuítes protegidos, novos seguidores terão que ser autorizados pelo dono.

O nome da página também mudou para “Brasil” e a foto de Amorim foi substituída por uma imagem da bandeira nacional.

Leia mais sobre o assunto na Folha

No Fórum
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Operação da PF mira família do golpista Jovair Arantes

Investigações da Polícia Federal no âmbito da Operação Registro Espúrio, que apura irregularidades no Ministério do Trabalho, identificaram desvios de quase 13 milhões de reais de uma conta administrada pela pasta, e uma nova fase da ação foi deflagrada nesta quinta-feira para aprofundar as investigações, informou a PF em comunicado.

De acordo com a Polícia Federal, a organização criminosa suspeita de cometer fraudes e desvios relacionados a registros sindicais junto ao Ministério do Trabalho desviou pelo menos 12,9 milhões de reais da Conta Especial Emprego e Salário, (CEES), um fundo abastecido com dinheiro da contribuição sindical e administrado pelo ministério.

O Supremo Tribunal Federal (STF) expediu 14 mandados de busca e apreensão a serem cumpridos por agentes da PF em Brasília, Goiânia, Anápolis e Londrina na quinta fase da operação, que tem como foco "o desvio de valores da Conta Especial Emprego e Salário (CEES), por meio de pedidos fraudulentos de restituição de contribuição sindical", informou a PF.

As investigações revelaram que o esquema funcionava com o envolvimento de entidades interessadas na obtenção fraudulenta de restituições de contribuição sindical supostamente recolhidas indevidamente ou a maior na CEES, cujos pedidos eram acatados de forma indevida. Os valores, então, eram transferidos da CEES para a conta das entidades, com posterior repasse de um percentual para servidores públicos e advogados integrantes do esquema, de acordo com a Polícia Federal.

"Para viabilizar a empreitada criminosa, a organização criminosa arregimentou o Consultor Jurídico do Ministério do Trabalho — cujo afastamento do cargo foi determinado pelo STF —, efetivando, ainda, a nomeação, no final do ano passado, de um membro da quadrilha para exercer o cargo de Superintendente Regional do Trabalho no Distrito Federal, com o intuito de deferir, de forma irregular, os pedidos de restituição formulados por entidades ligadas ao bando", disse a PF em comunicado.

De acordo com o Ministério do Trabalho, que administra a Conta Especial Emprego e Salário, os recursos da CEES integram o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), que é destinado ao custeio do programa do seguro-desemprego, do abono salarial e ao financiamento de programas de desenvolvimento econômico.

A Operação Registro Espúrio já resultou na apresentação de denúncia pela Procuradoria-Geral da República (PGR) contra cinco deputados federais, o ex-ministro do Trabalho Helton Yomura e o presidente do PTB, Roberto Jefferson, pela formação de uma organização criminosa para cometer fraudes.

No total foram denunciadas 26 pessoas em consequência das investigações realizadas no âmbito da operação, que foi deflagrada em maio deste ano e que resultou no afastamento do então ministro Yomura, nomeado para o cargo pelo presidente Michel Temer.

Também foram denunciados os deputados federais Jovair Arantes (PTB-GO), Cristiane Brasil (PTB-RJ), Nelson Marquezelli (PTB-SP), Wilson Filho (PT-PB) e Paulo Pereira da Silva (SDD-SP), o Paulinho da Força, e servidores e ex-servidores do ministério. Todos os acusados negam irregularidades. 

O presidente eleito Jair Bolsonaro decidiu extinguir o Ministério do Trabalho em seu governo, apontando como um dos motivos a série de casos de corrupção na pasta.

No Reuters
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Bolsonaro e filhos 'não têm mais nenhuma autoridade' para falar de corrupção, diz José Dirceu

Aos 72 anos, Dirceu diz ter visitado 19 capitais nos últimos meses para lançar um livro de memórias escrito
na prisão; ele foi condenado em dois processos na Lava Jato e é réu num terceiro, que deve ser julgado em
2019
Condenado a 41 anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro em dois processos da Operação Lava Jato, o ex-ministro da Casa Civil no governo Lula (2003-2005) e ex-presidente do PT José Dirceu tem aproveitado o habeas corpus que o Supremo Tribunal Federal (STF) lhe concedeu para viajar pelo Brasil e divulgar o livro de memórias que escreveu na prisão.

Em junho, a Segunda Turma da Corte decidiu que Dirceu deveria aguardar em liberdade o julgamento de seus recursos à condenação decretada pelo então juiz Sérgio Moro e confirmada pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) no processo em que é acusado de mediar contratos fraudulentos entre a Petrobras e a empreiteira Engevix.

Em outro processo, Moro e o TRF-4 condenaram Dirceu por irregularidades em um contrato para o fornecimento de tubos para a petrolífera. O ex-ministro é réu numa terceira ação ligada à Lava Jato, a que deve responder a partir de 2019. Ele contesta todas as acusações e diz ter sido condenado injustamente.

As denúncias vieram à tona após Dirceu ser condenado e cumprir pena pelo mensalão - esquema de compra de votos no Congresso no início do governo Lula que o ex-ministro foi acusado de chefiar, mas também nega ter existido.

Em entrevista à BBC News Brasil, Dirceu - hoje com 72 anos - falou sobre a possibilidade de passar o resto da vida na prisão. "Não posso brigar com a cadeia. Se eu brigar com a cadeia, eu entro em depressão, eu começo a tomar remédio."

Ele se queixou da atitude do candidato do PT à Presidência, Fernando Haddad - que, questionado durante a campanha sobre uma declaração de Dirceu, disse que o ex-ministro não faria parte de seu governo. "Primeiro precisa ganhar (a eleição), né? Para depois participar de governo. O Lula jamais falaria isso, jamais falou", afirmou o ex-ministro.

Magro e aparentando boa saúde, o petista recebeu a reportagem em um condomínio de luxo vizinho ao parque Tingui, em Curitiba, onde estava hospedado na casa de amigos.

Depois de quase uma hora de entrevista, pediu para encerrá-la dizendo-se exausto pela maratona de viagens nos últimos dias, quando esteve no Tocantins para lançar o livro e em Minas Gerais para visitar parentes.

Ele diz ter viajado a 19 capitais nos últimos meses, sempre de carro ou em ônibus alugados - opção que, segundo assessores, busca permitir que Dirceu "reveja o Brasil e converse com as pessoas", além de levar toda sua equipe, com ao menos quatro integrantes.

Confira os principais trechos da entrevista.

BBC News Brasil - Na véspera da eleição, o senhor disse ao jornal El País que "é uma questão de tempo para a gente tomar o poder. Aí nós vamos tomar o poder, que é diferente de ganhar uma eleição". O que o senhor quis dizer?

Dirceu - (Risos) Você tem uma versão que já é a quarta. A pergunta foi simples e objetiva: "E se Haddad ganhar e não levar (a eleição)?" Eu falei: "Mas aí não é mais eleição, aí é uma questão de tomar o poder". Se você fecha o Parlamento, como a ditadura fez, e fecha o Judiciário, vai fazer eleição? Não tem nada a ver com a resposta seguinte, que é a que conta: (A pergunta era) "E se o Bolsonaro ganhar?" Eu falei: "Já convivemos com Jânio e com Collor, vamos conviver com o Bolsonaro".

O senhor não disse que era "questão de tempo até tomarmos o poder"?

De jeito nenhum. Todo mundo me conhece, eu sou o contrário disso. A pergunta era sobre o caso de não darem posse para o Haddad. Nesse cenário, você vai discutir eleição? A questão que está colocada é do poder.

Nesse cenário, haveria uma guerra civil?

Não, o Brasil já tem guerra civil. Se mataram 305 mil jovens de 2005 a 2015, se morrem 62 mil jovens no Brasil por ano, a maioria negro e pobre, o Brasil já tem uma guerra civil.

Ainda que o senhor negue essa fala sobre tomar o poder, ela recebeu bastante atenção, e Haddad foi cobrado sobre ela no Jornal Nacional. Não acha que ela foi prejudicial à campanha?

Não, não teve nenhum efeito. Porque 90% da população brasileira não sabe o que é isso, não discutiu isso, não ouviu isso, não dá nenhuma importância para isso.

Mesmo ela tendo sido abordada no Jornal Nacional?

Foi abordada por 30 segundos. Ele respondeu. Eu sempre disse que não faço parte de campanha. Não posso nem fazer parte de governo porque eu estou inabilitado (pelas condenações judiciais). Falo em meu nome, não no nome do PT ou do Haddad.

Haddad fala por ele. E depois, (ele) dizer que não vou participar do governo dele... Primeiro precisa ganhar, né? Para depois participar de governo. O Lula jamais falaria isso, jamais falou.

O senhor ficou magoado?

De jeito nenhum, isso faz parte. Não tenho nenhum problema, porque realmente isso não teve nenhuma importância.

Podem acusar o PT de muitas coisas, menos de ser um partido que tentou chegar ao governo por vias que não fossem democráticas. Foi o PT quem praticamente criou as condições para o fim da ditadura.

As forças de oposição liberais burguesas democráticas não tinham mobilização popular. Quem tinha éramos nós. Da mesma maneira, nós não tínhamos eleitorado, e eles tinham. O MDB ganhou maioria na Câmara e no Senado e elegeu quase todos os governadores em 1986. O PT depois se transformou numa força majoritária eleitoral e chegou a ganhar quatro eleições (presidenciais).

Só ganham de nós rompendo as regras democráticas, como romperam inabilitando o Lula, fazendo uma eleição que, com as regras aprovadas, era para eles ganharem, e não nós. Autorizam o candidato a se autofinanciar, diminuem o tempo de rádio e TV, proíbem a campanha de rua e de arrecadação. Veja como estigmatizaram as doações de pessoas físicas. Ninguem faz doação, todo mundo tem medo.

As mudanças não foram um avanço em relação à legislação que permitia doações empresariais?

Não, só teria sido avanço se houvesse financiamento público e proibição de autofinanciamento. A maioria dos candidatos que se elegeu são pessoas que autofinanciaram a campanha. Os do PT, sem exceção, só tinham verbas do fundo eleitoral e de pessoa física, que ninguém conseguiu arrecadar mais do que 100, 150, 200 mil reais.

Isso não se aplica ao resultado da eleição presidencial.

A eleição presidencial era para ganharmos no primeiro turno. Aceitamos, porque está dentro das regras e tudo. Mas, se Lula disputa, o mais provável é que ganhasse do Bolsonaro no primeiro turno.

Bolsonaro se elegeu com um discurso muito forte contra o PT e contra o vínculo que ele estabelece entre o PT e a corrupção. A presença ativa de quadros do PT que foram condenados por corrupção, como o senhor, não fortalece a posição dele?

De jeito nenhum, senão o Lula não teria levado o Haddad com 30 milhões de votos para o segundo turno. A figura mais injustamente acusada é o Lula, não sou eu.

Mas Haddad perdeu para um candidato com um altissimo índice de rejeição.

Isso não quer dizer nada. Os dois tinham índice de rejeição parecido. Ele perdeu por outras razões, não só por causa da questão da corrupção. Aliás, em matéria de corrupção, temos que esperar para ver o que vai acontecer com o Bolsonaro e os filhos dele. Eles não têm mais nenhuma autoridade para falar sobre isso. Nem o (ex-juiz e futuro ministro da Justiça Sérgio) Moro tem, da maneira que cobraram dos outros.

Não que sejam culpados, precisa investigar. Mas o comportamento já revela algo quase inacreditável. A vitória dele se explica também pela questão da segurança, da violência, a questão religiosa, das igrejas evangélicas, do kit gay, a questão do antissistema.

Bolsonaro não é qualquer presidente. Ele é um presidente de um governo militar. O que tem de novo no Brasil é que a coalizão PSDB-DEM/PFL, que representava os interesses das elites do país, foi afastada. A coalizão que governará o Brasil é nitidamente do capital financeiro-bancário, que o (futuro ministro da economia, Paulo) Guedes representa, o setor militar, o partido do Bolsonaro e a Lava Jato.

Mas, como a cadeira é quente, ele nem sentou ainda e já está esquentando a cadeira, e começa a atenuar as posições.

O Lula também não atenuou as posições ao assumir a Presidência?

Não, o Lula só evoluiu. Evidentemente tivemos que governar o país em circunstâncias em que as reformas que tínhamos de fazer foram limitadas, porque nós fomos o único governo de esquerda na América Latina que não tinha maioria no Parlamento com nosso partido.

Não conseguimos porque nem 120 deputados nem 20 senadores queriam fazer imposto sobre grandes fortunas, Imposto de Renda progressivo, taxar heranças e doações no Brasil, mudar o caráter do sistema tributário.

O PT não tem responsabilidade por criar as condições que permitiram a ascensão de Bolsonaro, com a crise econômica que se inicia no governo Dilma e com os escândalos de corrupção?

A economia está no estado que entregamos. Michel Temer não resolveu e quero ver Bolsonaro resolver.

Ela parou de decrescer.

Parou de decrescer porque teve uma recessão. Tem muitos fatores que levaram à crise, eles estão sendo estudados. Tem fatores internacionais, tem erros do governo...

Quais erros?

Não vou entrar nisso. Nada justifica o impeachment da Dilma, senão teríamos que ter feito o do FHC. Ele fez câmbio fixo, aumentou a carga tributária em 5%, dobrou a dívida interna, cobrou juro real de 27,5% por três anos. Vendeu patrimônio por 10% do valor, fez reeleição sob suspeita, teve apagão, inflação, desemprego.

Governos erram. Você não pode analisar o legado do PT pelo último ano do governo da Dilma.

Mas houve o agravante de a crise ter ocorrido em meio à Lava Jato. Não havia um diferencial relevante?

Isso foi usado politicamente para prender o Lula e condená-lo. Mas não para prender os outros. Essa história de que a Lava Jato atingiu os outros não é verdadeira. Ela foi manipulada e dirigida contra o PT.

O Eduardo Cunha e tantos políticos de outros partidos não foram presos? Vários políticos do MDB do Rio de Janeiro, por exemplo, estão presos.

O Eduardo Cunha está preso... (risos). Olha, 90% fizeram delação. Não tem um empresário importante preso. O único que está preso está fazendo delação. Os outros que estão presos estão para fazer delação. O patrimônio deles está intocado, e as empresas, quebradas. Isso é a Lava Jato também.

Segundo, o sistema político eleitoral funcionou com compra de voto nesta eleição. Nunca se comprou tanto voto quanto nesta eleição. É só você andar pelo Brasil e conversar com as pessoas. Eu andei e vi isso.

O senhor tem denúncias específicas?

Você viaje pelo país. A compra de voto foi descarada e aberta. Só a Justiça Eleitoral não vê. Fora o problema das fake news, do WhatsApp. Se fosse o Haddad, já estava cassado. Se encontrassem no filho dele o que encontraram no filho do Bolsonaro, todo mundo já estava pedindo a cassação dele no Congresso, e a Lava Jato já estava atrás disso.

Uma coisa é a corrupção na Petrobras, a corrupção no sistema político brasileiro, caixa dois, em que o PT também se envolveu. Outra coisa é corrupção. Me diga um vereador, um deputado, um prefeito, um dirigente do PT que enriqueceu na política.

Houve os que enriqueceram depois de deixar a política se aproveitando de laços construídos nela, como o ex-ministro Antonio Palocci.

Mas o Palocci você sabe o que ele é. O Palocci é delator, não tem nada a ver com o PT mais. Ele atravessou o Rubicão.

Mas foi prefeito pelo PT, galgou todos os postos no partido.

Me dê outro exemplo. Você está dando o exemplo de alguém que depois delatou, o que mostra quem a pessoa é.

O (ex-secretário geral do PT) Silvinho Pereira andava com um jipe Land Rover na época do mensalão.

Silvinho Pereira trabalha no restaurante da mãe dele, não tem renda de dez salários mínimos por semana. Nosso governo não pode ser acusado de não combater a corrupção, porque toda a estrutura, toda a legislação fomos nós que criamos. E não tem petista na Petrobras condenado por corrupção, hein? Nenhum.

Mas há indicados pelo PT que foram condenados.

Indicados pela coalizão política, pelo presidencialismo de coalizão, que continua com o Bolsonaro. O PSDB, enquanto nos criticava, governava em todos os Estados assim. Todos os partidos governavam assim. O Bolsonaro está governando assim.

O senhor mesmo, após deixar a política e trabalhar como consultor, não enriqueceu?

Era diferente. Eu era advogado e consultor. Minha renda era de R$ 60 mil por mês, compatível com qualquer advogado ou consultor com a minha experiência.

A Lava Jato diz que o senhor recebeu R$ 12 milhões, valor usado para comprar imóveis.

A Lava Jato diz. A casa era financiada. Como ela vale R$ 6 milhões e é minha se ela é financiada no Banco do Brasil? Tudo tem duas histórias. As outras (casas) eu comprei e paguei. Trabalhei dez anos. Não posso trabalhar e comprar uma casa para minha mãe e para mim? A minha casa eu comprei antes de 2005.

O senhor não indicou o Renato Duque para a diretoria de Serviços da Petrobras, um dos principais núcleos de corrupção na empresa?

Não há nenhuma pessoa que diga que eu indiquei o Renato Duque. Dizia-se nos corredores, falava-se. O que ocorreu foi o seguinte: estava tendo uma reunião, me chamaram para tomar a decisão final. Estavam indicando alguém que já estava de carreira, do PSDB, e queriam indicar outro. Eu falei: não, não tem condição nenhuma. Se nós temos diretores com currículo, e ele (Duque) tinha, deveria ser indicado.

E o Renato Duque já disse que eu nunca pedi nada para ele. Só que a delação do Renato Duque não sai. Já viu alguém ficar delatando durante quatro anos e não sair a delação? Esse é outro problema da Lava Jato. Quando fica comprovado que delatores mentiram, não anulam as provas. Só anulam a delação. Isso é uma lei completamente...

Como o senhor lida com a hipótese de passar o resto da vida preso?

Não posso brigar com a cadeia. Se eu brigar com a cadeia, eu entro em depressão, eu começo a tomar remédio. Qualquer situação em que você se encontre - pode não ser a cadeia, pode ser um acidente de avião, você cai em algum lugar, até se encontrar, fica três meses lá, você tem que encontrar condições de sobreviver.

A melhor maneira de sobreviver na cadeia é trabalhar e estudar. Foi o que eu fiz. Escrever, trabalhar e estudar. Que posso fazer? Tenho que me defender nas instâncias jurídicas do país. Não tenho outra alternativa.

O senhor já pensou em fugir para Cuba, onde tem laços tão bons?

Não, meu lugar é aqui, lutando. Na prisão se continua lutando. Sou exemplo disso. Tanto que escrevi um livro e estou divulgando-o pelo país. Se fosse outra situação, de uma ditadura, como foi na época da ditadura militar, aí cada um toma uma decisão. Naquela época a minha decisão foi fugir da prisão. Tanto é que, no sequestro (do então embaixador americano, Charles Elbrick, em 1969), nós saímos.

O PT errou a insistir por tanto tempo na candidatura do Lula, sendo que ele era réu em seis processos, já estava condenado em segunda instância e tudo indicava que seria barrado pela Lei da Ficha Limpa?

Por que vamos fazer o trabalho sujo que a Justiça tinha de fazer, de impugnar o Lula? Foi ela que fez, sem base na Constituição, porque está na Constituição que a condenação só vale quando transitada em julgado.

Uma vez que Lula foi barrado pela Ficha Limpa e que o PT não conseguiu ganhar a eleição, isso não encerra o ciclo do lulismo no PT? Não é hora de uma renovação no partido?

Você acha que alguém com 40 milhões de votos encerra um ciclo?

Alguém que não pode concorrer.

E daí? O (ex-presidente argentino Juan Domingo) Perón (1895-1974) ficou 20 anos na Espanha, não podia concorrer, mas era força determinante na Argentina. O Lula é a maior liderança política popular do Brasil, tem papel fundamental na vida política do país. O PT é um partido, é mais que o Lula, apesar de que Lula tem mais voto que o PT.

O PT vai se renovar, vai se autorreformar, porque sempre fez isso. O PT vai avaliar todas essas questões, inclusive com relação ao segundo governo do Lula, o primeiro da Dilma, a crise do impeachment. O PT vai analisar o resultado dessa eleição. Mas falar em pós-lulismo é bom pra nossos adversários, não para nós.

Enquanto Lula for tão influente no PT, o antipetismo não vai continuar a todo vapor na sociedade?

Existe antipetismo, mas quem teve 30 milhões de votos? (Haddad) Foi candidato no dia 7 de setembro, e em 30 de outubro tinha 30 milhões de votos.

Quando Lula ganhou a eleição, em 2002, o senhor se reuniu com Michel Temer e defendeu que se fizesse uma aliança com o PMDB - inicialmente rejeitada pelo então presidente. Depois que houve o impeachment de Dilma, acha que errou ao buscar essa aproximação com o partido?

De jeito nenhum. Minha aliança não foi com Temer, foi com PMDB. Ele foi indicado pelo PMDB. Defendi que se fizesse aliança com o PMDB como um todo para não depender de outros partidos, de pequenas alianças. O Lula tomou outra decisão, ele era o presidente. E nós tocamos.

Mais grave do que isso foi a maneira como enfrentamos o mensalão. Se tivéssemos enfrentado o mensalão como devíamos, a história seria outra.

Como assim?

O mensalão é uma farsa, nunca houve mensalão nenhum. O Marcos Valério está fazendo delação, vamos esperá-la. O que houve foram empréstimos em bancos para financiar campanha. Não tinha nada a ver com Visanet, com comprar deputados e senadores.

Os dirigentes partidários não embolsaram parte desses "empréstimos"?

Não, foi dinheiro de campanha eleitoral.

O senhor diz que não houve mensalão, mas mesmo juízes indicados pelo PT avaliaram que houve e votaram pela sua condenação. O senhor acha que há um complô do Judiciário contra o senhor e o PT?

Está nos autos: os juizes falaram que não havia prova mas me condenaram pela teoria jurídica e pela teoria do domínio de fato. Eu não tive participação no financiamento da campanha de 2004, nenhuma, nem na de 2002. Não há ninguém que deponha contra mim, a não ser o senhor Roberto Jefferson, que não tem credibilidade nenhuma.

Fui absolvido de formação de quadrilha e tinha de ser absolvido de corrupção passiva. Todo mundo sabe que fui cassado politicamente. E fui condenado sem provas.

Na Lava Jato também?

Na Lava Jato, no segundo processo, fui condendo totalmente sem provas. É um processo kafkiano. A Petrobras diz que não houve direcionamento da licitação, a empresa foi absolvida, o consultor foi absolvido. Era um contrato legal, como posso ser condenado por corrupção e lavagem de dinheiro?

No primeiro, fui condenado por cinco contratos entre a Engevix e a Petrobras. Não há nehuma comprovação de que eu tenha nenhuma relação com isso. Não há provas na Engevix, um diretor da Petrobras, um relatório que me envolva, um telefonema, nada. É só ler os autos.

O senhor não admite nenhum crime em nenhuma das condenações?

Não. Nem fiz lavagem de dinheiro e nem fiz corrupção.

Não faz nenhuma autocrítica?

Lógico que faço, mas é em outro departamento. Se deveria dar consultoria ou não, se deveria continuar só como advogado. Não devia ter mantido relação que mantive com o (lobista) Milton Pascowitch (condenado a 20 anos de prisão na Lava Jato por mediar um esquema de propinas entre a Engevix e a Petrobras; após fazer delação premiada, ele cumpre a pena em casa). Aí foi meu erro, que já reconheci, de ter reformado meu apartamento, o apartamento do meu irmão, de ter reformado uma casa quando eu estava preso (foi Pascowitch quem custeou a reforma).

Reconheço os erros que cometi e que o PT cometeu. Só não se pode pedir que numa campanha eleitoral um partido fale dos erros dele e não dos acertos. Como se o Bolsonaro falasse dos erros dele. Sou contra mesmo. Em plena campanha eleitoral, vamos fazer autocrítica?

O ex-governador da Bahia Jaques Wagner disse numa entrevista nesta semana "que nessa questão de corrupção, que gente nossa fez bobagem está claro". A quem ele se referia?

Pergunta para ele.

O senhor concorda com a afirmação dele?

Não vou tecer comentários. Ele falou, ele que explique.

Lula governou num período em que houve uma grande onda da esquerda na América Latina. Hoje a esquerda caiu em quase todos os países. Ela não soube aproveitar a bonança daqueles anos?

Ela soube aproveitar muito bem, melhorou muito a população dos países, fez reformas. Ela foi derrotada politicamente. Faz parte dos ciclos politicos. Não é porque perdemos a eleição que o legado do Lula e a obra que fizemos no país possa ser jogada fora. Porque nem (o legado) da ditadura você pode jogar fora.

Nós fizemos tudo o que era possível para melhorar a vida do povo e para que a nação se constituísse como independente e com capacidade de se autogovernar. Fomos derrotados, faz parte. Vamos tentar voltar ao governo. Sabemos que para isso precisamos ter mais organização, mais força popular, mais consciência política no país.

A hora que você aplica a política econômica deles, a luta social e política cresce, o eleitor se alinha com você de novo. Deixa ele (Bolsonaro) privatizar a previdência, deixa aplicar os cortes de gastos.

O senhor disse que Bolsonaro tem base social. Essa base não se perde tão facilmente, não?

Lógico que tem, senão não seria eleito. Ele tem uma coalizão muito forte em torno dele. Ao mesmo tempo, ele tem uma fraqueza que são as posições de extrema-direita que vários setores da elite brasileira não estão aceitando.

Isso não quer dizer que em um ano ele não possa estar em minoria no país. Os militares ficaram em minoria em 1966, em 1974, em 1978. Mas criaram um sistema político-eleitoral que permitiu que ficassem no poder até 1985. Depois veio a Constituição, felizmente. Que eles querem agora rasgar. Porque eles querem enterrar a era Vargas e a era Lula.

O senhor pretende visitar o ex-presidente Lula na prisão? Mantém algum contato com ele?

Mantenho contato através da família dele, dos advogados, dos dirigentes do PT. Mas não acho que deva visitar Lula, até porque sou condenado, estou em liberdade com habeas corpus do Supremo. Não tem necessidade, seria um despropósito de minha parte. E nós temos convivência suficiente, nos conhecemos o suficiente para saber quais são nossas posições, onde convergimos e onde divergimos.

João Fellet
No BBC
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Denunciado por Venezuela nuevo plan golpista orquestado por EE.UU.

El presidente de Venezuela, Nicolás Maduro, informó hoy sobre el entrenamiento de un comando de Estados Unidos, denominado Fuerza Aérea Eglin, que planea una nueva agresión contra bases militares del país sudamericano.

En rueda de prensa con medios nacionales e internacionales desde el Palacio de Miraflores (sede del Ejecutivo), el jefe de Estado precisó que el objetivo de las fuerzas estadounidenses es neutralizar las instalaciones aéreas Libertador de Palo Negro, ubicada en el estado de Aragua, las de Puerto Cabello, en el estado de Carabobo y la de Barcelona, en Anzoátegui.

Maduro enfatizó que desde Washington se soborna para el quiebre de oficiales venezolanos, y manifestó que la operación cuenta con un respaldo monetario de entre 40 a 120 millones de dólares.


Igualmente, informó que el plan tiene el centro de acción en Colombia e involucra directamente al coronel Oswaldo García Palomo, implicado en el intento de magnicidio del 4 de agosto último contra el alto mando político-militar de la Revolución bolivariana.

El mandatario aseguró que el exmilitar venezolano desde la nación neogranadina ofrece gigantescos montos en dólares a oficiales activos para que participen en la acción intervencionista.

'Hemos recibido decenas de llamadas de nuestros efectivos alertando sobre esto, tratan de quebrar lo inquebrantable, la unidad moral, espiritual e institucional de la Fuerza Armada Nacional Bolivariana (FANB)', sentenció Maduro.

Asimismo, alertó sobre otro grupo de mercenarios adoctrinados dentro de la misma acción para atacar a Venezuela por la base aérea Tolemaida, ubicada en la frontera con Colombia.

Maduro instó a que deben cesar este tipo de campañas golpistas contra el país suramericano, el cual aspira al respeto internacional a la autodeterminación.

Estableceremos medidas políticas, policiales, de inteligencia y contrainteligencia militar con carácter permanentes para neutralizar los planes injerencistas, puntualizó.

Por otra parte, el presidente aseguró que el plan Eglin está liderado por el consejero de Seguridad Nacional estadounidense, Jhon Bolton, quien declaró públicamente sus intenciones de atacar la institucionalidad venezolana.

En ese sentido, Maduro refirió que el funcionario de la Casa Blanca recién viajó a Brasil para asignarle 'misiones' al futuro vicepresidente de ese país Hamilton Mourao para provocaciones militares en la frontera sur del país.

'La ultraderecha cree que Venezuela no tiene quien la defienda, no tiene FANB y pueblo; le vamos a dar una lección de dignidad y de unidad popular a los locos de Brasil, de Colombia de donde sea', enfatizó.

Ante las insistentes maniobras el primer mandatario venezolano instó nuevamente a su par norteamericano Donald Trump, y a los medios de comunicación de su país a superar el conflicto de enfrentamiento y conspiración para construir relaciones de respeto.



Norelys Morales
No Isla Mía
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Para a história

Os 50 anos do AI-5 foram percorridos, de ponta a ponta, por um problema de incorreção histórica ou, no mínimo, de dúvida. Sua intocada existência em nada influencia a visão estabelecida do Ato brutal, mas importa para a caracterização do que o antecedeu e o seguiu.

O entendimento de que o AI-5 foi um golpe dentro da ditadura ainda é, apesar de sua fundamentação, secundário na interpretação do episódio. Desde o primeiro momento, prevaleceu a dedução de que o endurecimento do regime refletia o ditador Costa e Silva. Assim foi, ou porque se sucediam contestações à ordem ditatorial, e o AI-5 repunha a primazia da força, ou porque Costa e Silva ficara identificado como chefe da linha mais dura. Motivos que, aliás, se completavam.

Muitos fatos não se encaixam nas duas explicações. A começar da reunião, nos primeiros dias pós-golpe, de alguns governadores chamados por Costa e Silva ao então Ministério da Guerra, no Rio. A Presidência estava com o interino de sempre, Ranieri Mazzilli, e o Congresso vivia as vésperas de indicar o presidente para complementar o mandato interrompido. Disso o general queria falar. Para advertir os governadores de que se enganavam no apoio ao chefe do Estado-Maior do Exército, general Castello Branco, da corrente militar contrária à devolução do poder aos civis, no tempo previsto. Não foi explícito, mas a insinuação de um civil para o cargo não era imperceptível na exposição.

Carlos Lacerda, pré-candidato nas eleições presidenciais do ano seguinte, insurgiu-se contra as informações e argumentos de Costa e Silva, que traduziu como manobra para prejudicá-lo: Castello também era udenista, e Costa e Silva tinha proximidade com o PSD de Juscelino. O general insistiu em vão. Os udenistas Magalhães Pinto e Ney Braga, também aspirantes à Presidência, reforçaram Lacerda.

Ao final dos três anos seguintes, que Castello presidiu com a supressão das eleições presidenciais, Costa e Silva venceu a dura batalha interna para sucedê-lo. Seu primeiro ano de presidente foi tranquilo, com plena liberdade de imprensa, nenhuma cassação, Congresso livre de pressões, a oposição ativa a ponto de Lacerda, Juscelino e Jango se juntarem em Frente Ampla pela redemocratização. O chefe da linha dura fazia o país entrever liberdades e direitos. Os estudantes aproveitaram.

O que diziam ser a linha branda, exemplificada em Castello, passou a cobrar com parte da imprensa (a de sempre) providências contra "os agitadores". Costa e Silva abriu 1968 com resposta inesperada: no primeiro dia 2, mandou ouvir os estudantes. Lacerda elevou o tom, propagando que os vencedores e os vencidos de 64 iam fazer, unidos, "a verdadeira revolução". Os indícios de inquietação dos extremistas militares se sucediam. Costa e Silva, sob pressões múltiplas, em março foi falar na Escola Superior de Guerra. E, para irritados e aliviados, defendeu a oposição como necessária para vigiar o governo.

A morte do estudante Edson Luís provocou um movimento de massas sem precedente. Houve choques numerosos com as PMs em vários estados. Os apoiadores civis da ditadura, como se pôde ver na imprensa, estavam atônitos. O recurso a ato institucional, arma de Castello, voltava a ser cobrado. A proposta de estado de sítio logo aparecia. Ambos eram assuntos diários. Costa e Silva os abordou um mês depois da fala na ESG: "Não pensei, não penso e não pensarei" nessas medidas. E, para pasmo de todos os lados, se dispôs a conversar com uma comissão representativa das manifestações.

A ditadura estava dividida entre Costa e Silva e uma titubeante articulação contra a linha do governo. Em dezembro, o AI-5 foi levado a Costa e Silva, um texto produzido por seu ministro da Justiça, Gama e Silva. Traição? Sendo, não foi única no ministério. Costa e Silva jogou o jogo. Assinou o Ato. O que lhe restava era repetir o que fez para derrotar a obstrução dos castelistas e chegar à Presidência: levantar forças a seu favor. Morreu antes disso. Seu acidente vascular cerebral foi dado por muitos como efeito do golpe que sofrera.

Quando divulgou sua equipe para o governo, entre jornalistas, escritores e políticos houve uma surpresa: Heraclio Salles, intelectual de alto nível, machadiano, crítico brilhante de literatura, jornalista de política extraordinário, democrata inabalável, seria o secretário de imprensa do ditador Costa e Silva. Emitido o AI-5, Heraclio Salles se demitiu. Na preparação do governo, Costa e Silva convencera-o de que mudaria o regime, e precisava do seu auxílio.

Costa e Silva como governante e seus anos na Presidência esperam ser estudados, para que o país saiba o que foram, afinal: o do AI-5 ou da redemocratização que o golpismo retardou por mais de 15 anos.

Janio de Freitas
No fAlha
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Assessor de Flávio Bolsonaro “ganhou” R$ 86 mil em 16 meses, mas passou metade do tempo em Portugal




O Jornal Nacional desta noite mostrou que um assessor do então deputado estadual Flávio Bolsonaro, agora senador eleito, recolheu mais de R$ 86 mil em dinheiro público como funcionário da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, a Alerj, embora tenha passado metade do tempo em Portugal.

É um novo indício de que funcionários podem ter sido contratados sem trabalhar repassando parte do dinheiro para a família Bolsonaro.

Wellington Sérvulo Romano da Silva é tenente-coronel da Polícia Militar do Rio. Trabalhou duas vezes com Flávio. Primeiro como assessor da vice-liderança do PP, partido ao qual o deputado pertencia em 2015, depois no gabinete do filho do presidente eleito.

De acordo com o JN, a “Alerj informou que, durante todo o período em que ele esteve na casa, nunca tirou licença. Em um ano e quatro meses em que trabalhou para Flávio, Wellington ficou fora do país por 248 dias — a metade do período”.

Como o salário de Wellington, com gratificações, era de R$ 5.400,00 mensais, isso significa que ele recebeu sem trabalhar R$ 43.200,00. No total, foram R$ 86.400,00.

Wellington está na lista de nove assessores e ex-assessores de Flávio e Jair Bolsonaro que repassaram dinheiro para a conta de Fabrício Queiroz, motorista de Flávio Bolsonaro. Foram R$ 1.800,00.

[Ver íntegra do documento do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf, no pé do post]

Muitos repasses para a conta de Queiroz foram feitos no mesmo dia do pagamento de salários da Alerj.

Queiroz, também policial militar, é íntimo da família Bolsonaro e despertou a atenção de investigadores depois de movimentar R$ 1,2 milhão em um período de um ano, apesar de receber um total de R$ 23 mil mensais em dois empregos.

Em sua conta bancária, Queiroz também recebeu depósitos de parentes. Ele empregou a ex-mulher, a atual e duas filhas nos gabinetes de Flávio e Jair Bolsonaro.

Nathalia, uma das filhas, morando no Rio de Janeiro era contratada como assessora de Jair Bolsonaro na Câmara Federal, em Brasília.

Não se sabe se de fato ela prestava serviços ao deputado federal. Porém, tinha ao mesmo tempo um segundo emprego no Rio, como funcionária de uma academia, como mostrou o repórter Marcelo Auler.

A suspeita é de Queiroz operava uma conta ônibus, utilizada para transferir dinheiro de forma a esconder origem e destino.

Chamou a atenção dos investigadores o fato dele fazer saques em dinheiro, muitas vezes mais de um por dia, no valor de R$ 5 mil.

Teria sido uma forma de não chamar a atenção de autoridades encarregadas de monitorar lavagem de dinheiro.

Uma das transferências feitas por Queiroz foi para a futura primeira dama Michelle Bolsonaro, de R$ 24 mil.

O presidente eleito disse que foi parte do pagamento de um empréstimo de R$ 40 mil que Bolsonaro teria feito ao motorista e amigo.

Jair Bolsonaro argumentou que não recebeu o pagamento em sua própria conta bancária por ter dificuldades de ir ao banco.

Nem Queiroz, nem a futura primeira dama falaram sobre o caso.

Hoje o Jornal Nacional localizou um terceiro endereço de Fabrício, num bairro de classe média do Rio. O porteiro disse que é lá que mora o ex-policial militar.


O PM Queiroz e a filha Nathalia se afastaram dos gabinetes de Flávio e Jair Bolsonaro no mesmo dia, em outubro, antes da deflagração da operação.

O afastamento aconteceu entre o primeiro e o segundo turnos da eleição presidencial.

Curiosamente, no mesmo período, o juiz Sérgio Moro arranjou uma forma de vazar a delação do ex-ministro Antonio Palocci, que comprometia lideranças do Partido dos Trabalhadores.

Posteriormente, Moro foi indicado para um turbinado Ministério da Justiça do candidato que ajudou a eleger.

Moro disse que Jair Bolsonaro já explicou o que teria de explicar sobre o caso.

Na Furna da Onça, a PF prendeu seis deputados estaduais: Marcos Vinicius Neskau (PTB), Marcos Abrahão (Avante), Coronel Jairo (SD), Chiquinho da Mangueira (PSC), Andre Correa (DEM) e Luiz Martins (PDT). Também envolvidos no esquema estavam os deputados Paulo Melo, Jorge Picciani e Edson Albertassi, todos do MDB, que já estavam presos. O ex-deputado Marcelo Simão (PP) foi proibido de frequentar a Alerj.

Os deputados davam apoio a Sergio Cabral na Alerj em troca de mensalinhos e de indicar apaniguados para cargos públicos.


Conceição Lemes
No Viomundo
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