12 de dez de 2018

Bolsonaro e a era da comunicação virtual


O episódio envolvendo o motorista Fabrício Queiroz, amigo da família Bolsonaro, serve de alerta para a ameaça que o uso das redes sociais como meio de comunicação direta entre governantes e políticos com a população pode gerar à necessária transparência de seus atos. Passada uma semana da denúncia feita pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), de que Fabrício havia realizado uma movimentação financeira suspeita de R$ 1,2 milhão, onde parte significativa da arrecadação veio de depósitos realizados por nove assessores do gabinete do deputado Flávio Bolsonaro, filho do presidente eleito Jair Bolsonaro, nada se ouviu de parte do envolvido. Até porque misteriosamente ele sumiu do mapa. Encontra-se em local incerto e não sabido.

Enquanto a versão do principal suspeito não vem à tona, o espaço deixado pelo seu providencial silêncio está sendo ocupado pelos coadjuvantes da ação do Coaf. Jair Bolsonaro disse, pelo Twitter, que os R$ 24 mil depositados por Queiroz na conta da sua esposa, Michelle Bolsonaro, refere-se a devolução de um empréstimo pessoal que havia feito ao amigo motorista. Já Flávio Bolsonaro foi mais abstrato na sua explicação, limitando a dizer, também via rede social, ter ouvido de Queiroz “uma história bastante plausível”. Qual seria? Ninguém sabe, pois o deputado não informou. Mesmo assim, sem a manifestação da figura chave da grave denúncia, futuros dirigentes do governo Bolsonaro e políticos de sua base aliada já se manifestam avalizando a honestidade e a probidade de pai e filho.

Pois é nesse disse, não disse, que se sobressai a importância da imprensa. É ela que está chafurdando os meandros da suspeita operação. A proximidade entre o pagamento dos salários dos servidores da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro lotados no gabinete de Flávio Bolsonaro e os depósitos feitos por eles na conta de Fabrício Queiroz, por exemplo, só foi descoberta graças a investigação jornalística realizada. E o assunto só se mantém vivo por conta da insistência da mídia, contrariando as postagens superficiais dos envolvidos que pretendem tratar o acontecimento como algo inexpressivo. Como se fosse possível esquecer que o combate à corrupção foi um dos “cavalos de batalha” utilizados pelo então candidato Jair Bolsonaro.

Pois é esse monólogo travestido de democracia direta, proposto pelas postagens de nossas autoridades – e que já está fazendo escola -, que demonstra o perigo da implantação da ditadura da opinião/versão, especialmente diante de uma idolatria contemporânea à mitos e salvadores da pátria. A história é pródiga em exemplos do que a tal verdade absoluta é capaz de produzir em termos de regressão civilizatória. Em pleno século 21 é inadmissível que governantes ainda não se deem conta de que o papel do Estado e da imprensa não se fundem, pois são complementares e na maioria das vezes, antagônicos.

Por isso, tentar diminuir a importância da mídia criando canais oficiais de comunicação popular, adotando postura de verdade única, mais do que uma restrição é uma agressão a liberdade de imprensa. E como o próprio presidente eleito gosta de bradar, “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”, não existe povo liberto sem que aja respeito a pluralidade de informação. Aliás, para quem irá jurar respeito à Constituição, nunca é demais ressaltar que o artigo 5º dos Direitos e Garantias Fundamentais garante à todos os brasileiros o livre exercício de trabalho e profissão e o acesso à informação.

Sergio Araujo
No Blog do Miro
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Reconhecimento da união homoafetiva pelo STF vira patrimônio da humanidade


A Unesco certificou a decisão do Supremo Tribunal Federal de equipara a união estável entre pessoas do mesmo sexo à entre casais heterossexuais como patrimônio documental da humanidade. Os acórdãos agora serão inscritos no Registro Nacional do Brasil do Programa Memória do Mundo da Unesco (MoW-Unesco).

O reconhecimento da união estável homoafetiva como unidade familiar aconteceu em maio de 2011. O Supremo julgou procedentes duas ações de controle, ambas relatadas pelo ministro Ayres Britto. A ação direta de inconstitucionalidade foi apresentada pela Procuradoria-Geral da República e a arguição de descumprimento de preceito fundamental, pelo estado do Rio de Janeiro — o ministro Luís Roberto Barroso, na época procurador de Estado do Rio, foi quem assinou a ação.

De acordo com a ONU, o Brasil foi o primeiro país a reconhecer a união estável homossexual por meio de decisão judicial. A inscrição das decisões no MoW-Unesco foi anunciada nesta quarta-feira (12/12) pelo presidente do Supremo, ministro Dias Toffoli. O certificado será entregue também nesta quarta ao ministro Britto e à secretária-geral do STF, Daiane Nogueira de Lira.

“Esse reconhecimento representa a consolidação dos direitos alcançados pela sociedade e o compromisso do Estado brasileiro de construir uma sociedade, na forma do seu inciso 4º, artigo 3º, mais livre, justa e solidária, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor ou quaisquer outras formas de discriminação”, disse Dias Toffoli.

Depois do anúncio, Barroso brincou: "A homenagem não cita o advogado da causa?" Em sua sustentação oral no julgamento, veio dele o argumento de que a história da civilização é a história da superação do preconceito, depois usado no voto do ministro Britto.

Apesar da homenagem, em círculos acadêmicos a decisão é motivo de amplas discussões. O professor Ives Gandra da Silva Martins, por exemplo, acredita que o Supremo não poderia ter tomado a decisão, mas enviado uma proposta de emenda à Constituição para que o Congresso fizesse a equiparação.

É que o parágrafo 3º do artigo 226 da Constituição diz que "é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar". Para o professor Carlos Blanco de Moraes, diretor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, com a decisão, o Supremo "derrogou a Constituição".

Leia aqui a carta-convite da Unesco ao Supremo.

Leia aqui livreto do Supremo sobre a certificação MoW-Unesco.

Ana Pompeu
No ConJur
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Grupo dono da Marlboro compra 45% de fabricante de Maconha legal do Canadá

Grupo norte-americano Altria, que entre suas marcas mais populares controla os cigarros Marlboro, desembolsou US$ 1,8 bilhão (o equivalente a R$ 8 bilhões) para comprar 45% da empresa canadense Cronos.


Reportagem do jornal El País afirma que o Grupo norte-americano Altria, que entre suas marcas mais populares controla os cigarros Marlboro, desembolsou US$ 1,8 bilhão (o equivalente a R$ 8 bilhões) para comprar 45% da empresa canadense Cronos, fabricante legal de maconha.

Segundo a reportagem, a aquisição pode marcar o começo de uma nova indústria à medida que o consumo da cannabis seja regulamentado. No ano passado, a fabricante do Marlboro faturou US$ 25,6 bilhões em todo o mundo.

Atualmente, a Atria – empresa matriz da Philip Morris – controla 45% das vendas de cigarros nos EUA. E, ao mesmo tempo, pensa no futuro ao controlar a maconha, produto fadado a substituir o tabaco.

A empresa levará à Cronos sua experiência de comercialização do tabaco, um fator que pode ser importante quando, num futuro não tão longínquo, a comercialização da maconha começar a ser padronizada em escala global.

O mercado da maconha é atualmente estimado em seis bilhões de dólares, com a previsão de chegar aos 10 bilhões nos próximos anos, à medida que mais Estados do país aprovam seu consumo para fins medicinais e recreativos.

O Canadá autorizou há dois meses o consumo recreativo da cannabis. Howard Willard, executivo-chefe da Altria, observa que o investimento na Cronos “representa uma nova e estimulante oportunidade de crescimento” para a companhia, porque lhe permite se posicionar desde o começo em um “setor global emergente”, que crescerá “rapidamente durante a próxima década”.

No Fórum
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Deltan Dallagnol não quer que Lava Jato investigue escândalo dos Bolsonaro


O procurador Deltan Dallagnol não quer que a Lava Jato investigue o escândalo de R$ 1,2 milhão que envolve o assessor dos Bolsonaro.

No tweet em que divulgou essa opinião estapafúrdia [ler aqui], Deltan escreveu:

Relatório do COAF apontou que 9 ex-assessores de Flávio Bolsonaro repassaram dinheiro para o seu motorista. Toda movimentação suspeita envolvendo políticos e pessoas a eles vinculadas precisa ser apurada com agilidade. É o papel do MP no RJ investigar”.

Esse entendimento do pastor fanático da PGR não tem pé nem cabeça; é incabível. A Operação Furna de Onça, que levou à prisão 10 deputados colegas de Flávio Bolsonaro em 8/11 – e que, aparentemente, poupou o filho do presidente eleito do mesmo destino dos colegas – foi executada pela sucursal da Lava Jato do RJ, e não pelos órgãos estaduais.

O jornal Estado de SP assim noticiou a Operação que investiga pagamento de “mensalinho” a deputados, cuja “propina resultava do sobrepreço de contratos estaduais e federais”:

Polícia Federal deflagrou nesta manhã quinta-feira, 8, a Operação Furna da Onça, para investigar a participação de deputados estaduais do Rio em esquema de corrupçãolavagem de dinheiro e loteamento de cargos públicos e mão de obra terceirizada em órgãos da administração estadual. A ação tem com a participação do Ministério Público Federal e o apoio da Receita.

Deltan agora quer que a Lava Jato abandone as investigações porque o escândalo atinge diretamente o clã dos Bolsonaro, de cujo governo Sérgio Moro faz parte.

O pastor fanático da PGR comprova que a Lava Jato é direcionada segundo interesses político-partidários de procuradores, policiais federais e juízes para perseguir inimigos, e proteger seus amigos e esquemas criminosos.

Jeferson Miola
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Quem atirou a 'laranja' em Bolsonaro?


Presidente fraco é uma iguaria muito apreciada por políticos e empresários. Brasília não perdoa. Redes sociais podem ajudar a chegar ao poder. Mantê-lo é para profissionais.

Bolsonaro montou um governo “autoral”. Entregou até aqui o que prometeu. Recebeu dos que o circundam apoios e tapinhas nas costas. Nas ruas da capital federal sorrisos e elogios costumam ser mais letais que tiros.

Quem vazou o motorista milionário e seus saques volumosos? Quem ganhou e quem perdeu com o tiro desferido? Nem as seriemas acreditam que relatórios do COAF “vazam sozinhos”. Atenção aos jogadores:

1 – O Núcleo Familiar – Os “bob filhos” são uma fonte permanente de risco e instabilidade. Já atropelaram o futuro chanceler e brigaram com a bancada do PSL.  A beligerância desagregadora do clã precisava de um freio. O recado foi duro e pode custar a cabeça de um senador.

2 – O Grupo Financista – Paulo Guedes possui dois contrapesos. Os militares dão sinais de que podem resistir à privatização desmedida.  Moro é outro que pode criar dificuldades, principalmente para a turma que gosta de atuar em fundos de pensão. O mercado está faminto. Fará pressão por entregas fortes no primeiro ano. Pode ter decidido “refrescar” a memória do eleito, alertando sobre os compromissos assumidos.

3 – Os Generais - Acompanham com preocupação o Capitão-Presidente. Temem que um eventual naufrágio arraste junto a imagem da instituição. Vêm ampliando a influência no governo. Vão disputar poder com Guedes e podem travar uma guerra surda com Moro. Abin e PF sempre se “estranharam”. Para os militares Bolsonaro é um “abacaxi-oportunidade”. Não fazem o estilo precipitados. De qualquer forma, Mourão não está ali para brincadeira.

4 – O Núcleo Palaciano – Onyx e Bebianno não possuem força própria. O primeiro parece estar sendo fritado em banho-maria pelas demais alas do governo. Seu temperamento explosivo não tem ajudado. O segundo foi quem ajeitou o PSL para a campanha. Luciano Bivar emprestou seu partido por altruísmo? Que argumentos convenceram Bivar? O potencial de choque dos interesses do grupo de Bebianno com Guedes é razoável. Certamente daqui não veio o tiro. Só existem como extensão do poder do Capitão. Seria suicídio.

5 – A Aliança do Coliseu – O bloco composto pela burocracia estatal antinacional e antipovo em aliança com a Globo chegou ao poder pelas mãos de sua ala mais radical. A família Marinho acabou atropelada pela ala curitibana. A emissora fez de Moro seu “representante-interlocutor”. O ex-juiz está numa sinuca de bico. Assiste calado sua fama de “justiceiro implacável” ser corroída pelo motorista milionário. A Aliança sonha com Moro na cadeira de Bolsonaro após um “pit stop” no STF. Detentor de luz própria, o ex-juiz pode até romper com o Capitão. Não fará isto antes da hora. Pelo aparato que está montando seu destino está traçado. Terá o governo nas mãos e passará a dar as cartas ou se isolará e cairá.

6 – MC Centrão – numa sessão do Congresso, enquanto um senador discursava, um dos deputados esbravejava. Um moderado foi pedir ao colega que respeitasse a fala do senador e ouviu o seguinte: “não vou parar não, ta pensando o quê? O Senado é música clássica, aqui é baile funk!” A turma do Centrão está dançando ao som do “pancadão do Queiroz’. Publicamente declaram apoio desinteressado ao Capitão. Nos bastidores, contam com a desgraça do eleito. Como alimentar suas bases sem ocupar posições na Esplanada? Anseiam pela crise que obrigará o Planalto a retomar o “famigerado” presidencialismo de coalizão. São os mordomos do jogo. Sempre os principais suspeitos de tudo. 

7 – A oposição – está como cachorro caído do caminhão de mudança que foi atropelado pelo carro que vinha atrás. Tonta e dividida, resolveu morder o próprio rabo. É pouco provável que consiga  ter acesso a alguma informação importante. Está mais para caça do que para caçador.

8 – Os Tucanos – dizem que as aves de bico avantajado têm controle sobre uma banda da PF. O principal interessado no desgaste de Bolsonaro é Dória. O governador eleito de São Paulo quer o Planalto. E já provou que é capaz de pisar no pescoço de qualquer um. Aspira ser um “Bolsonaro empresário, etiquetado e quatrocentão”. Tomou uma taça de champanhe em homenagem a Fabrício Queiroz, sem sombra de dúvida.

9 – Renan e Rodrigo Maia – são os principais beneficiados no curto prazo. Favoritos nas disputas pelas presidências da Câmara e do Senado, enfrentam resistências da família Bolsonaro. O Planalto pode até não ganhar sozinho as presidências das Casas, mas perder pode virar um problemão. Um eventual pedido de impeachment passa por lá. O carioca e o alagoano deram mais um passo em suas pretensões.

O novo presidente gozará do seu período de lua de mel com a população.  É improvável que o caso tenha potencial para derrubá-lo. Se virar hemorragia, a cabeça de seu filho Flávio pode ser suficiente para estancar a sangria. 

O jogo está começando na mesma voltagem da campanha. Os profissionais estão ávidos pela partida. Quem atirou a(o) laranja? Emoção não vai faltar.

Ricardo Cappelli
No GGN
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A pastora-ministra é profissional em levar a política (da Direita) para dentro das igrejas

Damares Alves fala de aborto - uma de suas agendas prioritárias - com informações parciais e da perspectiva já repudiada pelo movimento feminista nas ruas

A charlatã

Presidente eleito, Jair Bolsonaro inaugurou a figura do “anti-ministério”. Agora o Brasil terá pastas voltadas contra sua própria existência. Aconteceu no Itamaraty, na Educação, mais recentemente no Meio Ambiente e, claro, nos Direitos Humanos fundido à antiga área de Políticas Para Mulheres e à Funai. Tudo delegado à pastora e advogada Damares Alves, que começou os trabalhos no “Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos” levantando a bandeira da “bolsa estupro” - uma agenda de Eduardo Cunha e baixo clero que levou milhares de feministas às ruas em 2015. Uma proposta que está na contramão das discussões mais avançadas sobre o aborto aqui e no resto do mundo.

Com Damares, o The Guardian já publicou que Bolsonaro praticamente “aboliu” os Direitos Humanos no País, substituindo o escopo técnico do ministério por “valores” da família conservadora. Valores que têm sido tabulados e disseminados em todo o território nacional, com atenção especial ao Nordeste, por lideranças religiosas que se profissionalizaram em levar a mensagem política da extrema-direita para dentro dos templos. Ironicamente, estas lideranças esperneiam em favor da "despolitização" de escolas e universidades.

Evangélica da Assembleia de Deus, a pastora-ministra (tudo indica que ela não deixará de ser uma coisa para ser outra), ao menos desde 2014, vai de igreja em igreja com o mesmo script. O GGN assistiu a mais de 4 horas de pregação com Damares para identificar o roteiro.

No começo, ela falava que a Nação estava “doente” (possível alusão à reeleição de Dilma Rousseff). Do impeachment para cá, diz que Jeová ouviu as preces dos fiéis e "sarou esta Terra" que ainda coloca suas crianças em risco com políticas públicas que sexualizam (com a “ideologia de gênero”) e geram “confusão espiritual” (com o ensino de religiões de matriz afro e indígena nas escolas). Cabe à Igreja Evangélica, portanto, "restaurar a Nação” nesses campos, protegendo os “príncipes e princesas” que vão governar no futuro. 

O objetivo de Damares é incitar o fiél a sair do lugar cômodo em que está inserido para participar da vida pública. Ela pastoreia o público-alvo dos parlamentares que militam no Congresso por Escola Sem Partido, o fim do aborto e outras agendas da extrema-direita, e ensina ao mesmo público - na maioria das vezes, mulheres - o que pensar em relação aos “inimigos” que ameaçam a segurança de seus filhos.

A título de exemplo: em uma de suas participações gravadas e divulgadas no Youtube, Damares disse que a ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy gastou milhões de reais com uma política voltada à masturbação de bebês de menos de 1 ano nas creches públicas. No mesmo evento ela também insinuou que o “ponto G” na mulher é uma invenção do Ministério da Educação para incentivar a iniciação sexual precoce de meninas, e o resultado disso é uma epidemia de infecções vaginais nos locais que seguem a cartilha do MEC.

É de se imaginar que o kit gay e a mamadeira erótica que atribuíram à gestão de Fernando Haddad saíram de laboratórios da mesma estirpe.

Sobre o aborto, anunciado uma das prioridades de Damares no Ministério, a pastora já disse que são “mentirosos” os dados que apontam que milhares de brasileiras morrem todos os anos em decorrência do procedimento realizado de maneira clandestina. “Onde estão os túmulos?”, indagou. 

Para ela, não é questão de saúde pública, porque não é doença. Questão de saúde pública é febre amarela, dengue, malária.

Ela também já comparou a descriminalização do aborto à legalização da maconha, como se o lobby fosse apenas para enriquecer os cofres públicos com a regularização e taxação de impostos sobre as clínicas.

O que a Igreja precisa impedir, segundo ela, é que o Brasil vire os Estados Unidos, onde o aborto é permitido até no "nono mês" de gestação. Em verdade, a pastora leva a seu público informação pela metade ou menos.

Os Estados Unidos têm uma política fragmentada em relação ao aborto. Há estados com menos ou mais direitos para as mulheres, sendo que ter acesso ao procedimento se tornou cada vez mais difícil nos últimos anos na larga maioria dos Estados, justamente graças ao trabalho de lideranças religiosas junto aos políticos e à opinião pública. Clínicas foram e serão fechadas em várias regiões, obstáculos foram e serão colocados no caminho da mulher. O acesso já é privilégio de quem tem condições financeiras de transitar de um estado mais proibitivo para outro com menos restrições.

O documentário da Netflix Roe x Wade (o título é uma referência ao processo julgado na Suprema Corte dos Estados Unidos, em 1973, que virou o marco regulatório do aborto, e que Trump prometeu na campanha revogar, alterando primeiro a composição do tribunal) descreve bem a situação atual no País.

No Brasil, a discussão sobre a descriminalização do aborto como direito da mulher se dá no Supremo e de maneira mais limitada, até a 12ª semana de gestação.

Tudo indica que, no governo Bolsonaro, e com Damares, o Ministério que deveria participar do debate em defesa das mulheres só apoiará aquelas que, mesmo em caso de estupro, aceitariam levar a gravidez adiante, por questão religiosa, em troca de ajuda financeira do estuprador, se ele for localizado, ou do poder público. É esta a essência da chamada “bolsa estupro” que Cunha tentou mas não conseguiu aprovar, junto com outras medidas que dificultariam o acesso ao aborto já previsto em lei.

A propósito, Damares já falou de Cunha aos fiéis de sua Igreja. Disse ela que, apesar de preso por corrupção, o ex-deputado tentou fazer o bem no Congresso em pautas relacionadas à defesa da vida. É Deus atuando à própria maneira, disse, e não cabe a nós entender os instrumentos utilizados por Ele em seus planos.

Cíntia Alves
No GGN
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Dodge esperou passar a eleição antes de opinar sobre operação contra Aécio


A Polícia Federal enviou em 11 de setembro, antes da eleição, o pedido ao Supremo Tribunal Federal para fazer uma operação de busca e apreensão em endereços ligados a Aécio Neves (PSDB). Mas o ministro Marco Aurélio Mello só conseguiu despachar nesta semana, porque precisou aguardar a manifestação da procuradora-geral da República Raquel Dodge.

Segundo a coluna de Lauro Jardim, Dodge levou mais de 45 dias para se manifestar a favor da operação. Deu tempo de Aécio se eleger deputado federal no dia 7 de outubro.

Quando quer, a procuradora-geral atua em tempo muito menor. Quando o desembargador Rogério Favreto concedeu um habeas corpus em caráter liminar ao ex-presidente Lula - e acabou desautorizado por uma ação orquestrada entre Sergio Moro e o próprio TRF-4 - Dodge levou uma semana para denunciar Favreto e pedir a pena máxima ao magistrado: a aposentadoria compulsória.

A coluna da jornalista Mônica Bergamo desta quarta (12) traz outra informação sobre a PGR: a de que ela estaria disposta a destravar acordos de delação premiada, que foram colocados "em banho-maria" desde que ela ascendeu ao cargo. Até aqui, a chefe do Ministério Público Federal utilizou as delações herdadas de Rodrigo Janot para encaminhar investigações.

"De acordo com pessoas familiarizadas com as conversas, o próximo ano pode ser, para o PSDB, tão amargo quanto anos anteriores foram para o PT", anotou Bergamo.

No GGN
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2018, o ano que não terminou


O ano, que de certa forma foi inaugurado com o assassinato de Marielle Franco e Anderson Silva, vai terminando com a execução de Orlando Bernardo e Rodrigo Celestino.

A diplomação de Bolsonaro como presidente no dia da Declaração Universal dos Direitos Humanos foi a ironia que faltava para marcar o quanto estamos andando para trás neste triste Brasil.

Em julho, os 23 manifestantes de 2013 foram condenados a penas que chegam a sete anos de prisão. Recorrem em liberdade, mas quem acredita numa "justiça" que até agora não se inibiu em decidir com base em evidências pífias e obtidas de forma ilegal?

Rafael Braga permanece em prisão domiciliar - passou a cumprir a pena em casa, convém lembrar, para tratar da tuberculose que contraiu na cadeia. As abundantes provas de sua inocência e do abuso policial na sua prisão não foram suficientes para a "justiça".

Em Curitiba, continua preso o ex-presidente Lula. Em todo o mundo, há indignação com o processo absolutamente corrompido que o condenou mesmo na ausência da menor prova - do imoral juiz de primeira instância ao Supremo que rasgou a Constituição, em praça pública, para permitir seu encarceramento. Lula é um líder popular impedido de falar, é o símbolo da criminalização em curso de todo um lado do espectro político - e é também um homem de 73 anos que está há mais de oito meses preso injustamente.

Não consigo ver, para o campo democrático no Brasil, prioridade maior do que a luta pela liberdade de Lula e de Rafael Braga, pelo encerramento do processo contra os 23, pela identificação e punição dos assassinos e mandantes dos assassinatos de Orlando e Rodrigo e de Marielle e Anderson.

É preciso dar um basta à perseguição política. É preciso garantir que os movimentos sociais, os ativismos políticos e as organizações de esquerda possam se manifestar e disputar a esfera pública, sem ter a morte ou a prisão como horizontes.

Luis Felipe Miguel - Doutor em Ciências Sociais pela Unicamp, Professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, onde coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades. Pesquisador do CNPq. Autor de diversos livros, entre eles Democracia e representação: territórios em disputa (Editora Unesp, 2014), Feminismo e política: uma introdução (com Flávia Biroli; Boitempo, 2014).
No GGN
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O 1% rico do país e a mentira neoliberal espalhada pelo MBL

Vemos atualmente o que a candidatura presidencial de Collor havia feito em 1989, ao colocar sobre o funcionalismo público todos os problemas do país. Mas o grande responsável pela desigualdade continua sendo o setor privado


Vídeo difundido pelo WhatsApp e que traz a sigla MBL (Movimento Brasil Livre, de extrema direita) revela que o 1% mais rico da população do país seria constituída por funcionários públicos federais (políticos, diplomatas, auditores fiscais e membros do Poder Judiciário, Ministério Público, Tribunal de Contas, Banco Central, Companhia de Valores Mobiliários) e não por grandes empresários. Em virtude disso, a desigualdade no Brasil, em vez de ser explicada pela natureza da dinâmica capitalista, seria expressão dos “marajás federais” que se apossaram do Estado, tornando-o desnecessário e promotor de desigualdade, ademais de financiado por elevada carga tributária a atingir fundamentalmente os mais pobres.

Para o IBGE/Pnadc, dos 207,1 milhões de habitantes estimados para o ano de 2017, 125,4 milhões possuíam rendimentos de diversas fontes, indicando que a cada grupo de dez brasileiros, seis possuíam alguma forma de renda. Tomando-se como referência apenas o segmento representado pelo 1% mais rico dos brasileiros com renda, cujo piso do rendimento auferido é de 15 mil reais mensais, pode-se identificar algumas características principais do perfil dos brasileiros mais ricos.

A cada grupo de quatro pessoas com rendimentos pertencentes ao 1% mais ricos, por exemplo, um encaixa-se na condição de funcionário público (3,7% do total dos 11,5 milhões de servidores públicos do país). O segmento dos funcionários públicos (civis e militares) que faz parte do 1% mais rico no Brasil é composto por 45,8% empregados da União, 40,1% dos estados e 14,1% dos municípios.

Assim percebe-se que o agrupamento dos funcionários públicos federais responde por 11,9% do total das pessoas que pertence ao segmento do 1% mais rico do país. Além disso, constata-se também que a composição dos funcionários públicos que fazem parte do 1% mais rico não se apresenta concentrada em poucas categorias profissionais.

As principais profissões do serviço público federal que fazem parte do 1% mais rico do país estão representadas por 9,3% de professores universitários, 6,9% de oficiais das Forças Armadas, 6,7% de profissionais do direito, 5,8% de gerentes de bancos, serviços financeiros e seguros e 5,7% de contadores. Essas cinco profissões, por exemplo, respondem por menos de 29% do total dos servidores públicos cujo elevado rendimento mensal os fazem pertencer ao 1% mais rico da nação.

A mentira neoliberal propagandeada atualmente repete o que a candidatura presidencial de Collor havia feito em 1989, ao colocar sobre o setor público todos os problemas do país. A redução do Estado, a perseguição de funcionários públicos e o corte dos investimentos públicos e dos rendimentos não diminuem a pobreza, muito menos a desigualdade social no Brasil, ante o contrário.

Aliás, com base no Ibge/Pnadc, cerca de três quartos (ou seja, 75%) do segmento que representa o 1% mais rico no Brasil se constitui por pessoas com rendimentos auferidos justamente no setor privado. Por conta disso, constata-se que a desigualdade brasileira não se assenta fundamentalmente nos servidores públicos federais enquanto “categoria de marajás’ mas, sobretudo, na alta renda do setor privado, o que comprovaria a natureza desigual da dinâmica capitalista.

No setor público registram-se privilégios que devem ser combatidos, assim como a adoção de medidas voltadas à elevação da eficiência e funcionalidade do Estado, mas que dificilmente será possível de alcançar com o receituário neoliberal. A adoção de uma reforma tributária progressiva, que onerasse justamente os mais ricos, justamente os segmentos pertencentes ao setor privado, seria extremamente positiva para o enfrentamento das desigualdades no país.

Estaria o MBL disposto a fazer mea culpa e passa a defender correções na dinâmica capitalista brasileira?

Marcio Pochmann
No RBA
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Procuradores da Fazenda se rebelam contra Paulo Guedes e ameaçam entregar cargos

Procuradores da Fazenda ameaçam entregar todos os cargos de chefia e parar o funcionamento do órgão se o nome do atual diretor do BNDES, Marcelo de Siqueira, for confirmado para comandar a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN).


Reportagem de Adriana Fernandes e Idiana Tomazelli, na edição desta quarta-feira (12) do jornal O Estado de S.Paulo, afirma que procuradores da Fazenda ameaçam entregar todos os cargos de chefia e parar o funcionamento do órgão se o nome do atual diretor do BNDES, Marcelo de Siqueira, for confirmado para comandar a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN). Siqueira foi anunciado pelo futuro superministro da Economia de Jair Bolsonaro (PSL), o economista Paulo Guedes.

“Assim que Siqueira for nomeado, ninguém vai trabalhar com ele. Eles não se sentirão confortáveis para trabalhar com uma pessoa que não sabe o trabalho que nós fazemos”, disse ao jornal o presidente do Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional (Sinprofaz), Achiles Frias.

Vinculado ao Ministério da Fazenda, a PGFN é responsável por atuar na cobrança judicial das dívidas que as empresas e pessoas físicas têm com a União. Desde 2015, o órgão conseguiu evitar perda de R$ 2 trilhões para a União, segundo o sindicato.

Há praticamente duas décadas, a chefia da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional é ocupada por um procurador da Fazenda Nacional (PFN). A categoria vê como um retrocesso uma mudança nessa tradição. Os procuradores votaram para definir a entrega dos cargos; 86% foram favoráveis ao movimento.

No Fórum
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Fabrício era o “caixa” da extorsão a funcionários de Bolsonaro


Fabrício Queiroz, amigo de Jair Bolsonaro e assessor de seu filho Flávio, coletava, como já se suspeitava, o “pedágio” pago pelos funcionários do gabinete em sua conta pessoal.

A evidência foi trazida à tona por Fernando Molica, na Veja e ampliada pelo Jornal Nacional, que cruzou as datas dos depósitos na conta de Fabrício com as datas de pagamento da Assembléia Legislativa.

O Jornal Nacional fez o cruzamento das datas dos depósitos feitos em dinheiro nas contas do ex-assessor com os dias de pagamento dos salários da Alerj entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017 e encontrou uma coincidência: em praticamente todos os meses, a maior parte do dinheiro entra na conta de Fabrício no mesmo dia ou poucos dias depois de os servidores receberem o salário.

No mesmo dia ou no dia seguinte, vapt-vupt, Fabrício sacava os valores em dinheiro vivo e o destinava a…vocês imaginam, tá ok?

Picaretagem da grossa, embora não rara entre parlamentares extorsionistas.

Em defesa de Fabrício diga-se que ele era, provavelmente, também vítima da extorsão: afinal, não é crível que alguém que ganhasse, na PM e no gabinete, R$ 23 mil por mês estivesse morando na casa precária que hoje se descobriu.

A Wal do Açaí virou refresco…

Será que Sérgio Moro considera os indícios de que a família se nutria da extorsão a funcionários “consistente”?

Fernando Brito
No Tijolaço
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‘Guerras Híbridas’, mais do que apenas o whatsapp

O livro Guerras Híbridas - das revoluções coloridas aos golpes, do jornalista e analista político russo Andrew Korybko, chegou em hora para contribuir com o debate nacional sobre o caráter atual da luta social, politica e ideológica, tão necessário quanto estratégico. Editado pela Expressão Popular, a obra pode ajudar a entender os atuais processos de disputa política no mundo, em suas novas formas de ação. O livro trata especificamente das "guerras" da Síria e da Ucrânia, mas a riqueza de informações agregadas à análise tornam os dois casos universais.

No centro do debate que o livro propõe está a busca por entender e também como enfrentar o processo de guerras híbridas deflagradas pelo imperialismo para destruir o Estados Nacionais. Após 2008, por meio de órgãos como a CIA, Usaid, National Endowment for Democracy e a Open Society Foundation de George Soros, os Estados Unidos promoveram o que ficou conhecido como guerras coloridas. A "Primavera Árabe" varreu o Norte da África e o Oriente Médio com a mesma técnica de assalto ao poder - manifestações de massas (manipuladas), uso intenso de mídias sociais (fake news) e, como na Síria, a guerra civil.

O autor mostra com dados e informações objetivas que a tática dos Estados Unidos para assaltar o poder das Nações ao redor do mundo mudou sua forma da atuação. Antes utilizando golpes militares, bombardeios e invasão de territórios, agora lançam mão de sua nova arma, que consiste na combinação de "guerras coloridas" e guerras não convencionais. Algo que o livro não faz referência direta, mas que vivenciamos no Brasil, pelo menos em parte, desde manifestações populares de 2013, o impeachment de Dilma Rousseff, a prisão de Lula e, por fim, a fraude eleitoral de 2018

As análises e conclusões de Andrew Korybko, datadas de 2015, são um passo importante para se chegar à atualização do modelo de "guerra híbrida", em que, trocam a ação militar direta por ações judiciais-policiais. Desde 2015, aprofundou-se o uso das grandes corporações de redes sociais, a exemplo do ocorrido com o WhatsApp no Brasil, e a captura de instituições e autoridades judiciárias e policiais, além da mobilização de "formadores" de opinião. Um livro para se ter a mão, em especial nesses tempos em que o imperialismo aposta em liquidar com as democracias, saquear países e submeter populações à miséria.

Fernando Rosa
No Fundação Perseu Abramo
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Amadeu: Se WhatsApp quer contribuir com democracia, entregue os metadados da eleição

Em entrevista ao No Jardim da Política, o sociólogo Sérgio Amadeu analisa relação entre política e internet


"O debate eleitoral no Brasil foi anulado, ninguém discutiu nada. É uma situação atípica que vai dar muito trabalho para desconstruir". A frase é do sociólogo Sérgio Amadeu, em resposta ao papel das redes sociais nas eleições de 2018 no Brasil. Amadeu, professor da Universidade Federal do ABC, doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo e defensor do software livre, esteve nos estúdios do Brasil de Fato, para participar do programa No Jardim da Política

Na entrevista, o cientista social analisa o papel das redes sociais, em especial o WhatsApp, nas eleições deste ano, comparando com o processo eleitoral que levou Donald Trump à presidência dos Estados Unidos em 2016. Amadeu fala sobre as características de organizações de direita e a influência internacional que veem adquirindo recentemente. 

Ainda sobre o papel do WhatsApp na política brasileira atual, o autor do livro digital, "Tudo Sobre Tod@s: redes digitais, privacidade e venda de dados pessoais", questionou: "Se o WhatsApp quer contribuir com democracia, que entregue metadados dos dois meses em que aconteceram essas eleições!"

Confira a entrevista na íntegra.

Como você avalia o uso do WhatsApp nas eleições e as maneiras de conter as fake news?

O que aconteceu no Brasil foi um processo de desconstrução dos parâmetros de realidade. Isso já havia acontecido na eleição do Donald Trump, nos Estados Unidos. Um grupo novo da extrema-direita norte-americana considera que o capitalismo não se desenvolve corretamente porque existe um predomínio no mundo todo do que eles chamam de marxismo cultural. Eles se colocam em uma posição de lutar contra o sistema e, obviamente, o que eles usam para isso não é razoável e historicamente sustentável, então se propõem a destruir o debate e trabalhar com dogmas. Eles fizeram isso numa parte dos EUA, na eleição do Trump, e deu certo.

No Brasil, o que aconteceu foi que durante o processo do golpe foram destruídos os parâmetros da realidade. É óbvio que os políticos são complicados, e que o PT é um partido que tem sim gente que entrou na corrupção. Agora, transformar o PT no partido mais corrupto do Brasil é perder a noção. É só olhar qualquer indicador que se vê que a corrupção é estrutural na elite brasileira e está no judiciário, além de ser alimentada, principalmente, por partidos de direita. O PT resistiu muito contra a corrupção e isso foi invertido.

Quem ajudou nesse processo foi a Globo, o núcleo duro do tucanato, o (Rodrigo) Janot. Eles não perceberam a nova direita que se aproveitava disso melhor que eles. Entraram pelos dutos do WhatsApp usando técnicas de big data para atingir pessoas específicas, com um determinado preconceito. Esse preconceito foi amplificado e as pessoas começaram a receber isso com “carinhas bonitinhas”, mas os textos eram feitos por profissionais através de disparos comprados no exterior.

Se o WhatsApp quer contribuir com a democracia, que ele entregue os metadados dos dois meses em que aconteceram essas eleições. Eu não quero saber o que as pessoas falaram e qual o conteúdo das mensagens, eu só quero os disparos que vieram do exterior. Não entregam porque estão protegendo esse grupo que assaltou e fraudou as eleições no Brasil, e isso, as pessoas precisam saber. Não estou dizendo que não existe fascismo no Brasil, que não existem grupos de extrema-direita, que não tem o antipetismo. Fizeram uma onda que nunca se viu. O debate eleitoral foi anulado, ninguém discutiu nada, e fizeram essa ação. É uma situação atípica que vai dar muito trabalho para desconstruir.

Foi preparado um caminho e o Bolsonaro se aproveitou disso?

Ele tomou a hegemonia. O núcleo duro do golpe não incluía o Bolsonaro. O Bolsonaro é um sujeito execrável e não é levado a sério, mas ele mobilizou o fascismo no Brasil. Essa direita norte-americana conhecida como alt-right, ou direita alternativa, tem um projeto de poder mundial através do radicalismo do neoliberalismo, e, do ponto de vista político, do Dark Enlightment, o iluminismo às avessas da obscuridade. Quer destruir os parâmetros da razão.

Falar que o Brasil é socialista? Por que temos direitos? Então quer dizer que Portugal, França, Bélgica, Holanda são socialistas. Os Estados Unidos têm mais direitos que nós. Para falar que a Ku Klux Klan é de esquerda é porque você não quer nem ouvir o líder, que diz que é da supremacia branca da extrema-direita americana. Esses caras têm um projeto de hegemonia, e usam esse termo inclusive. Tem um livro que sugiro chamado Kill All Normies, da pesquisadora americana Angela Nagel, que fez um levantamento sobre como atua essa direita alt-right.

Não é uma disputa onde um político que mostrasse despreparo e apresentasse dados falsos perderia votos. A realidade tem que ser destruída do ponto de vista simbólico para que eles tenham chance de debate. Para destruir os direitos mínimos que foram alcançados no Brasil, vão ter que convencer as pessoas que isso é bom. Não dá para convencer, porque é ruim, então o caminho é os factoides, com mentiras, ‘kit gay’ e perseguição.

Por que o Moro, que não era do grupo do Bolsonaro, virou? Porque ele se adequa. Ele é uma correia de transmissão para destruir a economia nacional. Agora, ele vai perseguir os sindicatos e as universidades, que são os centros que vão oferecer resistência a essa política de desmonte do país.

O que são as guerras híbridas e o que aconteceu durante a eleição que tem relação com elas?

O livro Guerras Híbridas mostra com alguns fatos mais recentes, a operação que combina ações militares e não militares, culturais, econômicas e de sabotagem. Isso é muito antigo. Dou uma disciplina chamada cyberguerra, e, nela, usava um texto dos anos 90 lançado pela Raid Corporation, que trabalha para o departamento de Estado e possui textos de estratégia norte-americana. Existe um texto chamado, em tradução livre, No campo de batalha de Atenas. Atenas é a deusa da sabedoria, também armada. Os estrategistas Arquila e Rondfeldt diziam que existem dois tipos de guerra: a cyberguerra, onde os militares já usavam guerras eletrônicas, e a net war, que é uma guerra híbrida feita pelas redes digitais, que combinam desde sabotagem, até a criação de uma baixa moral na sociedade adversária, mostrando outros valores. Tudo isso já estava colocado como uma estratégia militar.

O texto Cyber Power, do Joseph Nye Jr., traz uma expressão que os estudiosos de relações internacionais gostam muito: o soft power. Ela é sobre o poder dos EUA e a identificação que eles criam. Não é só o hard power, o poder militar, são os dois. Surge, então, a expressão smart power, que combina os dois conceitos. Nos textos do Joseph Nye Jr., ele mostra que é mais barato para a dominação, a criação de cisões na sociedade que se pretende dominar, estabelecendo primeiro uma ideologia. Isso também seria, mais contemporaneamente falando, um trabalho de guerra híbrida. Os americanos sempre fizeram isso.

Na época que o [Edward] Snowden denunciou o sistema de inteligência norte-americano, a intrusão feita a partir de plataformas, foi perguntado sobre se a NSA interfere em eleições. Ele falou que sim. Eles sempre tem um lado que podem ter mais vantagem e, obviamente, talvez não tenham interferido simplesmente nas eleições de uma maneira mais clássica, mas utilizaram o apoio que o Trump, os trumpistas, e a alt-right têm, que não é nem formal do Departamento de Estado americano. O departamento trabalhou no Atlantic Council orientando com migalhas o (Rodrigo) Janot, o (Sérgio) Moro, para destruir a capacidade econômica brasileira, perseguir só de um lado e fazer justiça seletiva.

O curioso é que eu vi no twitter do Janot ele pregando voto para o Haddad. Ele foi enganado e deve estar chateado porque fez parte do núcleo duro do golpe, e fez a justiça virar seletiva. Eles destruíram o Estado de Direito. A pessoa mais citada na Lava Jato é o Aécio Neves, que continua senador. A justiça vale para um e não para outro. Por isso Lula precisou ser fraudado e tirado da eleição em um processo ridiculamente insustentável para qualquer jurista sério. O Moro tem a desfaçatez de ir comemorar com o time que ganhou, virando ministro de Bolsonaro.

Toda essa operação é de dominação. Os EUA está rachado também e não é mais uma potência como era. Tiveram uma eleição recente em que o Trump ganhou no Senado e perdeu na Câmara, mas perdeu por pouco porque conseguiu tirar a pauta econômica da discussão. Sabe o que ele discutiu? Os factoides. Os imigra ntes que vão pular o muro do México. Ele fez uma mobilização militar caríssima. Eles fazem factoides e é o que vão fazer no Brasil, porque não têm como governar sem criar esses castelos de fumaça. A pauta real deles é nefasta. O Moro vai sair com carro de polícia invadindo universidades e sindicatos. Fizeram isso na Lava Jato. Primeiro desmoralizam as pessoas. A única coisa que deu errado foi em Santa Catarina, que o reitor foi tão desmoralizado que se matou.

As operações não tem nenhum fundamento jurídico, mas eu esperava houvesse uma cobertura constitucional no Supremo Tribunal Federal (STF), dizendo que não dá para aceitar esse tipo de aberração. Colocam militares como assessores do STF e mostram que o Brasil vive uma tutela militar lamentável. Militar, em países democráticos sérios, não se mete em política. Está cheio de militar querendo comandar o país com arma na mão. Isso é medieval e não tem nada a ver com democracia. Então, os militares precisam que abandonar as forças armadas, e não as contaminar.

Vai prevalecer o que o Tocqueville fala: quando se tem uma arma politizada, se tem uma arma fraca. Se tem uma arma cheia de políticos. Os militares contaminam a sociedade com seu autoritarismo e são contaminados pelo jogo político. É lamentável um país, que é a oitava economia do mundo, não estar apostando em suas universidades, em fronteiras tecnológicas e em criar plataformas diferentes das dos norte-americanos nas redes. Mas não, será comandado por pessoas que batem continência para a bandeira americana e que o sonho é comprar um ladrilhado em Miami.

O soft power abre uma nova possibilidade de desestabilizar governos, mais baratas inclusive, mas que não é tosco. É um trabalho muito profissional que tem psicologia das massas, jornalismo da guerra…

Antes de começar a eleição formalmente, vi um meme chamado “kit vagabundo”, em que mostravam coisas que existem com correlações impróprias. Dizia: “se aquela mulher é vagabunda e tem filho, não tem problema, o governo dá bolsa família”, “se ele não trabalha porque é vagabundo e alcoólatra, não tem problema, o governo dá seguro desemprego”. Se a pessoa está desempregada, é porque é alcoólatra, a mulher está sempre em posição inferior. Foi esse processo de desinformação que enfrentamos na eleição. Esse processo foi realizado por pensadores dessa direita alternativa e foi trabalhado minuciosamente com construção desses perfis.

Já existiam empresas que, para ganhar dinheiro, rasparam o Facebook tentando organizar em segmentos. Quanto mais informações, melhor pode vender esse banco de dados. É muito fácil obter essas informações e depois comprar cadastros e colocar o telefone das pessoas. Então, tinham o número e o perfil de cada pessoa, podendo fazer disparos massivos que certamente não foram pagos pelo comitê de campanha do Bolsonaro, portanto são crimes eleitorais. A Cambridge Analytica já havia sido fechada durante as eleições, mas o banco de dados já poderia ter sido repassado. Pela quantidade de disparos que eu peguei e informei, acredito que eles tenham comprado esses microsegmentos e orientado as pessoas.

A minha tia, que disseminava informações nos grupos pró-bolsonaro, enviava o tipo específico de conteúdo que a sensibilizava. Sempre tem alguém em seu grupo de família que recebe essa mensagem de algum lugar. Uma minoria recebia dos próprios grupos pró-bolsonaro, mas outros eram colocados milimetricamente em grupos de pessoas que não conheciam, e que recebiam esses disparos certeiros. Foi uma campanha de distribuição massiva.

As pessoas distribuíam porque estavam no banco de dados e foram identificadas como propícias a disseminar esse conteúdo. Como nos Estados Unidos, conseguiram transformar pessoas preconceituosas e que tinham irritação com o “politicamente correto” em militantes. Enquanto para se transformarem em militantes as pessoas precisavam ter o mínimo de conhecimento histórico, pegaram um indivíduo irritadiço e o mobilizaram para matar o debate.

Isso pode ser visto como uma estratégia da guerra híbrida mas, ao meu ver, é uma estratégia antiga dos norte-americanos. Tanto que, quem montou o golpe no Brasil não foi a administração Trump, foi a administração Obama. Foi o Departamento de Estado e Justiça que levava o núcleo articulador do golpe para os Estados Unidos.

E não está restrito ao Brasil

Não. Recentemente, em Andaluzia, na Espanha, venceu o Vox (partido da extrema direita), que também pertence a essa direita alternativa que se coloca como anti-sistêmica. Esse conceito é curioso. O Trump, por exemplo, faz parte do capital imobiliário norte-americano. É um antissistema da boca para fora.

Assim como os nacionalistas, com o “Brasil acima de tudo”

“O Brasil acima de tudo” é o Brasil entregue aos norte-americanos. Infelizmente, não temos mais nacionalistas nas forças armadas. Para eles, para o Brasil se desenvolver, é preciso de ordem, mesmo que isso signifique a entrega da Embraer, da base de Alcântara, da Amazônia, que destrua nossa capacidade produtiva, nossas universidades, cortem recursos de pesquisas avançadas, que não existam pessoas da sociologia e política entendendo como funciona o mundo e como são os países que farão acordos comerciais. Os Estados Unidos, para qualquer país do mundo, têm pelo menos 50 grandes pesquisadores que conhecem o país. Mas para Bolsonaro, isso não serve para nada.

Na verdade, estamos em uma situação muito difícil, e precisamos enfrentar esse cenário. Não só com os movimentos sociais e a luta por direitos, mas quem não sabe como ajudar e conhece outras pessoas também com o mesmo interesse, deve montar um coletivo para não deixar que essa nova direita destrua a realidade, com memes e informações mentirosas. Monte um coletivo e coloque na rede um conteúdo consistente e detalhado e destrua essa mentira. Isso é fundamental, porque desmoraliza e passa a mostrar para pessoas que não têm interesse de se misturar com alguém que não tem nenhum compromisso com a verdade e com a ética. Mesmo a classe média mais conservadora não quer isso.

Para manterem a sociedade nesse entorpecimento, precisam destruir a história e trabalhar com dogmas. É necessário montar coletivos de esclarecimento, de reconstituição da verdade. Se trabalhamos com a realidade, é possível a interpretação de várias formas, mas não estão trabalhando com fatos, e sim destruindo toda a história.

Qual a sua elaboração sobre o conceito de fake news e por que ele está contaminado?

Logo após a eleição dos Estados Unidos, Donald Trump falou para a CNN e para os demais que o criticam e cobram suas incoerências, que não ia responder “porque isso é fake news”. Esse termo foi muito usado nas campanhas e ficou comprometido e apropriado por apoiadores de Bolsonaro. Mesmo que fosse fake, ou seja, algo que não é fato, isso é um tipo de estratégia utilizada na eleição. Uma coisa é uma notícia completamente fabricada e mentirosa, outra é uma que possui fundamentos reais com diferentes interpretações.

Posso ter uma opinião, mas não posso tentar transformá-la em realidade contra a própria realidade, e se eu fizer isso, estou fazendo um processo de desinformação. Ao afirmar que uma estatística que aponta 20% é na verdade 80%, o que acontece é um processo de desinformação. Outro exemplo é apresentar notícias verdadeiras fora de contexto.

O processo de desinformação é muito mais complexo e envolve a “modulação da visão”, com a plataforma das redes sociais que possuem algoritmos, que definem quem pode ver suas publicações. Quem me garante que os algoritmos do Facebook não restringiram determinadas publicações de um tipo de política e não de outro? Ele diz que não faz isso, mas não há garantias.

Além disso, as publicações com maior alcance são as com o maior preço de impulsionamento, e quem tem dinheiro para pagar? Os empresários que apoiaram o Bolsonaro, que pagaram e não declararam. O processo de desinformação não abrange só verdade e mentira, e é por isso que não gosto do termo fake news. Quem tem interesse na desinformação e nas notícias falsas como estratégia válida são os grupos de ódio. Um partido como o PSDB não vai querer se comprometer espalhando uma série de mentiras, mas a campanha da direita alternativa não possui nenhum pudor em fazer isso. Eles quebram a placa da Marielle à luz do dia, tem discursos machistas, racistas, lgbtfóbicos, e não têm nenhum interesse em fazer uma campanha com debate econômico. Querem dizer que a Previdência tem um déficit, mas não querem debater o motivo, que é o valor da aposentadoria de militares e dos juízes. Falar em combater o déficit é uma coisa e não debater é uma forma de desinformação.

Um fato possui um contexto e uma série de elementos que precisamos avaliar. Ele pode ter ocorrido, mas pode não ser relacionado com o contexto em que está sendo utilizado, e é por isso que sou contra as leis de fake news que estão no Congresso, porque vão ser usadas contra os defensores da democracia e contra o bom jornalismo. É assim que o judiciário atua. A lei contra o terrorismo é um exemplo disso, pode ser usada contra os movimentos sociais, assim como a lei contra o crime organizado. É preciso saber que vai ter promotor e juiz que são da elite e vão ser seletivos. Destruíram o Estado Democrático de Direito.

Nina Fideles e Mayara Paixão
No Brasil de Fato
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Como a Gazeta do Povo, do Paraná, deu uma guinada à direita e virou porta-voz do Brasil de Bolsonaro

Ilustração: Rodrigo Bento/The Intercept Brasil
Fundada em 1919, a Gazeta do Povo foi durante a maior parte de seus quase 100 anos um jornal importante em Curitiba mas de pouca relevância fora do Paraná. Mas uma guinada abrupta à direita iniciada em 2015 fez do veículo – repaginado como um portal de internet que publica uma edição semanal impressa – a cara e a voz do cada vez maior conservadorismo brasileiro.

Do ponto de vista estratégico, foi um achado. Há alguns dias, a Gazeta anunciou ter sido o jornal mais lido do Brasil em outubro, mês das eleições presidenciais – foram 33,7 milhões de visitantes únicos, segundo o comScore MyMetrix, quase 600 mil a mais que o site da Folha de S.Paulo, ainda líder em tiragem e circulação entre os diários impressos brasileiros.

A audiência se deve, em parte, a um bem feito trabalho de formatação de conteúdo, o chamado SEO, que fez com que qualquer que digitasse, por exemplo, as palavras “candidatos deputado estadual Paraíba” no Google recebesse como primeiro resultado o site da Gazeta. Ainda assim, é um resultado notável para um veículo que, até há dois anos, tinha alcance meramente regional.
 Desde sempre um jornal de perfil conservador, a Gazeta percebeu no avanço da direita no Brasil uma oportunidade para romper as barreiras de Curitiba.  
Do ponto de vista do prestígio com os novos donos do poder, idem. Coube à Gazeta o privilégio de publicar o primeiro artigo do futuro chanceler Ernesto Araújo após a escolha dele por Jair Bolsonaro – ou pelo filósofo de ultra direita Olavo de Carvalho. O portal também conseguiu entrevistas exclusivas com ministros do futuro governo e teve um de seus colunistas recomendado pela jurista Janaina Paschoal ao presidente eleito.

Do ponto de vista do bom jornalismo, há vários poréns. Ao se assumir como porta-voz de pautas conservadoras como a “crítica ao comportamento homossexual” e do liberalismo econômico, a Gazeta reduziu o destaque à cobertura local e o espaço a vozes discordantes, processo que culminou na demissão de seu principal jornalista, o colunista político Rogerio Galindo, também tradutor literário e irmão do premiado Caetano Galindo.

Conservadorismo de costumes

Desde sempre um jornal de perfil conservador, a Gazeta percebeu no avanço da direita no Brasil, palpável desde as manifestações de 2013, uma oportunidade para romper as barreiras de Curitiba. Foi como juntar a fome à vontade de comer: o atual presidente do GRPCOM, grupo que edita a Gazeta e é dono das afiliadas da TV Globo no Paraná, Guilherme Döring Cunha Pereira, é numerário do Opus Dei, a conservadora prelazia da igreja católica. Numerário é a denominação dada a membros que, como ele, são celibatários e dedicam parte importante da vida às atividades apostólicas e de formação de fiéis.

Hoje com pouco mais de 50 anos de idade, Cunha Pereira é um homem magro, cortês, que nunca eleva o tom de voz ou interrompe o interlocutor e fez, ainda jovem, votos de castidade e pobreza. Usa ternos e roupas simples e vive numa residência comunitária da Opus Dei em Curitiba. Desde 2009, com a morte do pai, Francisco Cunha Pereira Filho, ele vinha introduzindo algumas de suas obsessões – o termo é do próprio veículo – na pauta da Gazeta.

“[O conservadorismo adotado pela Gazeta] Tem uma ressonância com parte importante da população brasileira, que não encontrava outros veículos com idêntico posicionamento”, me disse Cunha Pereira na longa entrevista que concedeu em sua sala na redação. “A gente percebeu que isso é uma riqueza também do ponto de vista estratégico, e montou toda uma estratégia em que o posicionamento [conservador] adquiriu status especial. Ele é um direcionador estratégico muito importante.”

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Atual presidente do  grupo que edita a Gazeta, Guilherme Döring Cunha Pereira é numerário do Opus Dei e fez,
ainda jovem, votos de castidade e pobreza.
Foto: Danilo Verpa/Folhapress

Mesmo antes da guinada radical iniciada em 2015, Cunha Pereira havia criado na Gazeta um site chamado Sempre Família, que durante as últimas eleições se dedicou a atacar um padre que celebrou uma missa pela eleição de Fernando Haddad – incentivando críticos a protestarem contra o sacerdote a seu superior hierárquico –, elencou motivos para católicos não levarem seus filhos às passeatas promovidas por mulheres contra Jair Bolsonaro sob o bordão #elenão e colocou figuras como Magno Malta e Eduardo Bolsonaro numa lista de “defensores da vida”.

Ali, a voz que se ouve é a de Cunha Pereira. Os jornalistas responsáveis pelo Sempre Família não respondem à direção da redação, mas diretamente ao presidente do grupo.

“Há um grupo de editorias chamadas internamente de ethos do portal que são dominadas por gente que pensa igual o patrão: Opinião, Sempre Família, Justiça & Direito, Educação. E, por extensão, República [nome da seção que publica material sobre a política nacional]. Na editoria de política local, a liberdade é total. Em República, o cerco é mais apertado. No núcleo duro, o cerco é total. Não há espaço para pluralismo”, me disse Rogerio Galindo.

Sob nova direção

A curva à direita se acentuou em outubro de 2015 com uma mudança que colocou no comando da redação o jornalista Leonardo Mendes Júnior, co-autor do “Guia politicamente incorreto do futebol“, livro que se dedica a criticar a “ingenuidade” da seleção brasileira de 1982 e afirma que a Democracia Corinthiana era na verdade “uma ditadura” comandada por Sócrates, Wladimir e Casagrande. São ele e mais dois jornalistas – Jones Rossi, o outro co-autor do “Guia”, e Ewandro Schenkel – os executores do plano de tornar a Gazeta uma espécie de versão patropi do Breitbart News – o ultra conservador site de notícias dos EUA que trabalhou pela eleição de Donald Trump.

“Ele levou a guinada conservadora a novos parâmetros, quando anunciaram o encerramento do jornal impresso e a cara nova do site”, contou Galindo, que até novembro era o mais lido analista político da Gazeta – foi responsável por 1 milhão dos leitores que o portal atraiu em outubro.
 A Gazeta do Povo que renasceu digital em 2017 tem um novo time de colunistas, todos alinhados à direita.  
A Gazeta do Povo que renasceu digital em 2017 tem um novo time de colunistas, todos alinhados à direita. Resgatou do limbo Rodrigo Constantino, que fora demitido e deletado do site da revista Veja. Trouxe também Ricardo Amorim e Leandro Narloch, que ganhariam nos meses seguintes companhias como Guilherme Fiúza e Bruno Garschagen. Nesse time de articulistas, a presença de Galindo – que me disse ver o mundo a partir de um ponto de vista de “esquerda democrática” – era algo como se Barack Obama fizesse parte do ministério de Trump.

“Os donos do jornal sempre me deram respaldo para falar o que quisesse. Nunca me pediram para não publicar alguma coisa, evitar um tema ou falar bem de alguém. Mas é evidente que, do ponto de vista deles, aquilo era uma permissão. Eles dizem acreditar que opiniões diferentes devem ter espaço. O meu papel ali sempre foi o de oposição consentida. Eu tinha consciência disso, eles também, e a gente conviveu bem por um bom tempo”, avaliou Galindo.

Mas em breve a relação começaria a azedar.

O ‘Monitor da Doutrinação’

Em fins de 2017, a Gazeta colocou no ar uma ferramenta chamada Monitor da Doutrinação, que incentivava leitores a enviarem ao jornal, para publicação, vídeos em que professores alegadamente estariam “doutrinando” seus alunos – à esquerda, é claro. A repercussão foi imensa, e péssima. Educadores, advogados, sindicatos e até empresários reagiram. Quatro dias depois, o portal recuou e tirou o Monitor do ar.

Segundo Cunha Pereira, a ideia partiu da redação, e não dele, que me disse ser contra a Escola Sem Partido. “Foi uma iniciativa da [equipe que cobre a] área [de Educação]. A redação, a equipe que acompanhava esses casos, recebia um volume grande de denúncias de abusos concretos. A intenção deles era alertar para um problema, o que acho legítimo. Foi um trabalho puramente jornalístico”, argumentou.
 ‘A ideologização do ensino é um problema grave, mas não se resolve isso criando tensão entre alunos e professores.’   
“Mas sou contra o Escola Sem Partido. A ideologização do ensino é um problema grave, mas não se resolve isso criando tensão entre alunos e professores. E como um aluno vai ter condições de se arvorar como juiz do professor, permanentemente, numa idade em que se deve fomentar um respeito grande pelo professor?”, questionou Cunha Pereira.

Foi ali que as divergências entre Galindo e o comando da redação começaram a ficar mais agudas. “Escrevi [a Mendes Júnior] dizendo que achava aquilo [o Monitor] um absurdo. Passamos três dias brigando pelo WhatsApp até que eles recuaram e anunciaram que iriam tirar do ar”, contou o jornalista.

Alinhamento a Bolsonaro

A ojeriza da Gazeta do Povo ao PT e sua “agenda permissiva” de “suporte à descriminalização do aborto e novos arranjos familiares” – e alguma simpatia por Bolsonaro – já eram evidentes no vídeo em que o portal anunciou sua cobertura das eleições presidenciais. Em certo momento, Mendes Júnior afirmou que a eleição do capitão reformado era “certeza na segurança [pública]”.
 É impensável apoiar um partido, que não apenas declarou, mas realizou concretamente um volume sem precedentes de atentados à democracia.’   
Mas ela se cristalizou em editoriais como o publicado no dia do primeiro turno das eleições, que garantia que o PT era uma “ameaça real” à democracia brasileira mas não fez menção aos impropérios que Bolsonaro colecionou durante sua carreira. Àquela altura, já era claro que o pleito seria decidido entre Haddad e o militar reformado, e a Gazeta fez sua aposta no político do PSL.

“É impensável apoiar um partido, que não apenas declarou, mas realizou concretamente um volume sem precedentes de atentados à democracia. Não são meramente palavras, [mas] uma realização concreta e o aparelhamento do estado de uma maneira inacreditável para uma tomada paulatina, penetrar em todas as instâncias do poder para dominar o país. E mesmo depois da condenação em última instância no Mensalão, todos os petistas condenados [foram] aclamados como guerreiros da causa”, argumentou Cunha Pereira, não sem razão.

Semanas antes, Galindo publicara texto em que afirmava que a candidatura de Bolsonaro era “moral e inaceitável numa democracia” – até hoje o texto é um dos mais lidos e comentados do portal.

“Ficou claro para mim, conforme a campanha presidencial foi avançando, que a Gazeta decidiu que, para evitar o petismo, era necessário abonar qualquer outra candidatura. O apoio deles [a Bolsonaro] foi envergonhado, a partir do momento em que eles viram que era ele ou PT. Pedi uma reunião com o Guilherme [Cunha Pereira]. Ele me recebeu e ouviu meu pedido para que disséssemos [em editorial] que o outro candidato [Bolsonaro] também tinha problemas, punha em risco a democracia. Ele ficou de pensar, mas evidentemente nunca mudou de ideia. Foi nossa última conversa”, disse o jornalista.

Embora o empresário tenha me garantido que tal preferência não contaminou a cobertura do pleito – “Nossa posição é muito clara nos editoriais, mas a cobertura é totalmente dada pela equipe [da redação], com liberdade” – , não foi o que ouvi em conversas com jornalistas da casa, que naturalmente pediram para não serem identificados.

Um deles relatou ter sido orientado a não usar conteúdo da Folhapress, agência ligada à Folha de S.Paulo, por em tese ser “mais duro com Bolsonaro”. Outro relatou que matérias com Haddad deveriam obrigatoriamente trazer informações negativas ao petista – como, por exemplo, as visitas semanais a Lula na cadeia em Curitiba.
 ‘É evidente, nítido e inegável que [o apoio a Bolsonaro] teve influência nas colunas [de opinião] e, em certa medida, no noticiário.’   
Acompanhei atentamente a cobertura da eleição presidencial da Gazeta do Povo. Desde o primeiro turno, Bolsonaro era presença garantida na homepage do portal, algo que se explica não apenas pela preferência da casa – notícias sobre ele eram cliques garantidos, contou um jornalista. Em certo dia, já durante o segundo turno, a editoria “República”, que reúne o noticiário sobre a política nacional, publicou 11 textos. Nove traziam “Bolsonaro” no título – e eram, na maioria, favoráveis ao capitão reformado.

“É evidente, nítido e inegável que [o apoio a Bolsonaro] teve influência nas colunas [de opinião] e, em certa medida, no noticiário”, cravou Galindo.

O Sempre Família, por sua vez, colocou no ar o Vota, Família. Ilustrado com a foto de uma família de pessoas brancas e de cabelos claros, o site se propunha a indicar as posições de “candidatos e partidos políticos sobre temas morais importantes para a instituição familiar”. Não qualquer família, é claro – candidatos favoráveis ao casamento gay, como Haddad, recebiam sinal vermelho.

“Eu não acho que sejam iguais [os casamentos entre homossexuais e heterossexuais]. A nosso ver, [o casamento é] a união entre um homem e uma mulher pela única razão que esse é o caminho natural para a perpetuidade da sociedade. E imagino que os próprios homossexuais ficariam satisfeitos [com isso, dizendo] não queiram [o Estado e a legislação] interferir no meu relacionamento”, argumentou Cunha Pereira.

O alinhamento, cabe ressaltar, segue após a eleição. Na quinta-feira, 6, os editores do portal fizeram que não viram uma das principais notícias do dia, publicada pelo Estadão: a de que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) registrou movimentação considerada “atípica”, de R$ 1,2 milhão, de um ex-assessor de Flávio Bolsonaro, senador eleito e filho do capitão reformado.

A demissão de Rogerio Galindo

Em 28 de outubro, a Gazeta do Povo publicou um editorial intitulado “Uma chance para consertar o estrago”, conclamando o voto contra o PT – sem usar uma única vez o nome de Bolsonaro – listando, entre as razões, o fato de que o partido “quis tratar como criminosos aqueles que têm opinião crítica ao comportamento homossexual”. À noite, Galindo colocou na imprensa a responsabilidade pela eleição de Bolsonaro. Oito dias depois, ele estava demitido.

“Minha demissão tem muito a ver com o processo eleitoral deste ano. Não tenho certeza se foi [motivada] por algum texto em especial. Avisei a direção que faria um texto dizendo que a imprensa errou [ao dar holofotes a Bolsonaro]. Me disseram que o blog era meu e eu tinha liberdade. Publiquei no dia da eleição. Segui trabalhando por mais uma semana e, num domingo, Leonardo [Mendes Júnior] me chamou para ir à redação no dia seguinte. Fui e fui demitido”, me contou Galindo.

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Até novembro, Rogerio Galindo era o mais lido analista político da Gazeta.
Foto: Reprodução/UNINTER

“Ele [Mendes Júnior] me disse que nossas dissensões estavam ficando cada vez mais graves, e que [a causa da demissão] não era o fato de eu divergir, mas sim a maneira como eu me posicionava, sugerindo que eu estava me excedendo no tom que usava para criticar [a posição do jornal] internamente. Admito que me excedi, cheguei a pegar uma suspensão. A situação vinha ficando há muito tempo insustentável”, ele prosseguiu.

“Acho que [a demissão] foi um mau sinal. Acho que uma dissensão tão franca, aberta, gritante, talvez não seja mais do interesse deles. [Mas] saio sem nenhum ressentimento. O que aconteceu foi uma batalha de ideias, e eu perdi. Faz parte da democracia. Mas não desisti. Vou achar um cantinho e instalar minha guerrilha, que é a dos direitos humanos, do direito das pessoas de serem diferentes”, desabafou o jornalista.

De todos os temas que eu trouxe à mesa, a demissão de Galindo foi o único que Cunha Pereira se recusou a comentar.

“Quando fui informado da decisão, ela já estava tomada [pela chefia da redação]. Acho que havia elementos, acho que a redação tomou [a decisão] em função de um série de circunstâncias da gestão. Por isso não é justo eu fazer um comentário porque é difícil explicar o conjunto dos elementos que podem levar a uma decisão dessas”, justificou-se. “Mas não é verdade que a demissão signifique um fechamento da Gazeta do Povo a vozes discordantes.”

Até o fechamento deste texto, porém, nenhum jornalista com o perfil de Galindo havia sido contratado pela Gazeta do Povo. Pelo contrário: outro repórter premiado da casa, Felippe Aníbal, demitiu-se após as eleições.

Quando foi avisado de que perderia o emprego, Galindo acabara de ser pai pela terceira vez. A pequena Gabriela completou um mês de vida dois dias após a demissão.

Rafael Moro Martins
No The Intercept
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Xadrez da geopolítica, do caso Huawei e da Lava Jato


Peça 1 – a geopolítica moderna


A prisão de Meng Wanzhou, filha do fundador da gigante de tecnologia Huawei, escancarou até para os idiotas da objetividade o contexto das novas disputas geopolíticas globais, tendo como pano de fundo a legislação anticorrupção e o combate ao terrorismo.

Todas as evidências sobre a interferência externa na Lava Jato eram tratadas por esses sábios da objetividade como teoria conspiratória, “coisas da CIA”, como se a CIA fosse apenas uma ficção de Will Eisner.

A Lava Jato conseguiu destruir os principais setores da economia brasileira com competitividade internacional, as empreiteiras, a estrutura industrial que estava sendo montada em torno do pré-sal, os avanços da diplomacia comercial brasileira na África e América Latina.

O modelo político brasileiro estava infectado mesmo. O financiamento de partidos passava pela Petrobras, mas também pelo Congresso, sendo utilizados pelas empreiteiras, pelo agronegócio, por bancos de investimento.

Mas o tiro certeiro foi em cima da engenharia nacional, o setor que havia acumulado o maior coeficiente de competitividade internacional e tinha papel relevante do pré-sal – os únicos setores com interesse direto de grupos americanos. E não se abriu nenhuma possibilidade de estratégias que, punindo os corruptores, preservassem as empresas. O Ministério Público Federal e o juiz Sérgio Moro conseguiram o feito extraordinário de, numa só tacada, destruir a engenharia brasileira. E coroar sua grande obra viabilizando a eleição do mais despreparado agrupamento político da história.

Antes de entrar no caso Huawei, um apanhado de análises publicadas no GGN sobre a cooperação internacional e o jogo geopolítico internacional.

Peça 2 – a prisão da filha


Meng Wanzhou foi presa no Canadá, a pedido dos Estados Unidos, dentro do acordo de cooperação internacional. A acusação era a de que a Huawei teria usado uma subsidiária, a Skycom, para burlar as sanções ao Irã. Se for extraditada, Meng será acusada de conspiração e de fraudes contra instituições financeiras, cada crime sujeitando-a a penas de até 30 anos.

Comprovava-se, ali, uma suspeita levantada há tempos no GGN: a de que a cooperação internacional e a Lei Anticorrupção, aprovada no âmbito da OCDE (o grupo dos países mais industrializados) estariam sendo utilizados pelo Departamento de Estado dos EUA para objetivos geopolíticos. Pela lei, qualquer ato de corrupção que se valesse de dólares passaria a ser de jurisdição norte-americana.

No dia 21/08/2017, publicamos artigo sobre ensaio pensador francês Hervé Juvin – “Da luta anticorrupção ao capitalismo do caos, oito temas sobre uma revolução do direito” – analisando o uso geopolítico pelos EUA dos novos instrumentos organizados.

Hoje em dia há sanções extraterritoriais impostas a empresas francesas e europeias em nome das leis norte-americanas, punindo atos de corrupção (FCPA) ou violações de embargos americanos, em particular em operações de fora do território americano, mas usando o dólar como primeiro critério para garantir a jurisdição do juiz americano, explica Juvin.

Há pesados efeitos diretos e indiretos sobre a economia francesa, constatava Juvin. Os diretos são a submissão às decisões unilaterais de embargos ou sanções norte-americana. Hoje em dia há provedores de serviços dos EUA trabalhando o mercado da “conformidade” com regras dos EUA para empresas sancionadas, muitas vezes contra a lei continental europeia, explica ele.

As despesas indiretas são a paralisia estratégica decorrente daí. Que banco francês irá financiar o estabelecimento de uma empresa francesa na Rússia, Irã, Sudão etc? Que banco francês se atreverá a estudar o financiamento de uma operação comercial nesses países?

Peça 3 – o significado da operação


No caso Hauwai, o que está em jogo é a disputa de gigantes americanos com chineses pelo mercado de tecnologia.

Fundada em 1987 pelo ex-oficial do Exército vermelho Ren Zhengfei, a Huawei se tornou a maior fabricante de equipamentos de telecomunicações, e a segunda maior fabricante de celulares smartphones do mundo. Por número de aparelhos vendidos, superou a Apple este ano e conquistou 15% do mercado mundial de smartphones.

Tem receita anual de US$ 92 bilhões e é líder de mercados em vários países da África, Ásia e Europa.

No início, era considerada uma maquiadora de produtos da Cisco System e da Motorola. Ganhando musculatura, passou a investir pesadamente em desenvolvimento e se tornou líder global em tecnologia de rede de telecomunicações, passando antigos campeões, como a Nokia e a Ericsson.

Nos últimos anos avançou no desenvolvimento de chips, inteligência artificial e computação em nuvem. E montou uma rede de laboratórios por todo o mundo. No Brasil há dois laboratórios, um em Sorocaba, e uma parceria profícua com a Inatel, instalada em Santa Rita do Sapucaí.

Mas seu grande feito foi se lançar à frente das concorrentes na rede móvel de 5ª geração.

A maneira de combate-la foi levantar as teses da guerra híbrida, a versão tecnológica da guerra fria. Procuradores, órgãos de segurança dos EUA – que, ao contrário dos seus pares brasucas, têm o hábito de jogar em favor do país – passaram a difundir reiteradamente suspeitas de que os equipamentos seriam utilizados para espionagem pelo governo chinês. Não havia nenhuma evidência, mas pouco importou.

As autoridades americanas mencionavam uma norma aprovada em 2017 pela Agência Nacional de Inteligência da China, pela qual as empresas do país devem "apoiar, cooperar e colaborar com o trabalho de inteligência nacional”, E, a partir dali lançavam suspeitas de que a tecnologia 5G da Hauwei deixaria os EUA expostos a ciberataques.

O escarcéu deu resultado. Austrália e Nova Zelândia vetaram a tecnologia da Hauwei para redes 5G. O Canadá e o Japão estão reavaliando. Por outro lado, a Hauwai anunciou uma relação de vinte países com acordos já assinados para implementação da tecnologia 5G.

Peça 4 – geopolítica e globalização


Aí se entra no reverso da medalha: a importância da China para as gigantes americanas de tecnologia.

Como consequência da prisão de Meng, um tribunal chinês baniu a venda de alguns modelos antigos da Apple, sob o argumento de que violavam patentes da Qualcomm. Lá, como cá, e como nos EUA, a Justiça passou a ser instrumento de jogadas políticas e comerciais.

Especialistas calculam em 350 milhões a quantidade de upgrades dos iPhones, Desse total, cerca de 70 milhões estão na China.

Além de vender na China, a Apple depende da produção chinesa e do custo menor dos salários por lá. Foi o que levou a BBC a constatar que “ao queimar a Apple, a China estaria, até certo ponto, queimando a própria casa."

Na sequência, o ex-diplomata canadense Michael Kovrig foi detido na China.

Ambos os episódios provcaram um curto-circuito na relevante categoria dos CEOs internacionalizados, braços centrais da globalização econômica.

A Bloomberg foi mais dramática ainda: “Os EUA têm Huawei em algemas. China tem os EUA em cadeias”. E imaginou o que poderia ser a retaliação chinesa:

”Sem isso, você não pode viajar. E com maiores preocupações com a segurança e com a repressão às VPNs (que permitem que os usuários ignorem a censura chinesa na internet), sua empresa decretou que todas as discussões sobre produtos sensíveis sejam feitas pessoalmente na sede. Mas a renovação do visto está demorando muito e você está preso em Xangai, com o ciclo do produto sendo ampliado a cada dia.

Em Shenzhen, onde seus dispositivos são montados, a fábrica acaba de ser invadida pela terceira vez naquele mês. Os inspetores estão procurando violações de saúde e segurança ocupacional. Você trabalhou duro para manter as coisas das normas, embora as regras pareçam mudar constantemente. A ferrugem menor em um cano na parte de trás do local era de todas as autoridades necessárias para encerrá-lo até uma correção. Seu gerente de site não pode sequer encontrar qualquer menção de ferrugem nos regulamentos, e esse tubo não está em pior condição do que as duas inspeções programadas anteriores. Agora é um problema e a produção está parada”. 

A China monta os aparelhos da Apple, os roteadores da Cisco System, os motores da Ford Motor Co. Só Apple pagou US$ 160 bilhões de bens e serviços da China.

Peça 5 – a nova desordem


Não se sabe aonde levará essa nova desordem mundial. Em vez de guerras atômicas, o novo campo da guerra fria são as guerras cibernéticas.

O que fica demonstrado, nesses episódios, é a clareza dos EUA e da China sobre o interesse nacional. Ao contrário de um país que, de sétima economia do mundo, tornou-se alvo de chacota internacional pela extrema incapacidade de suas elites midiáticas, políticas e jurídicas, em entender e defender minimamente os interesses nacionais.

Luís Nassif
No GGN
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