3 de dez de 2018

Essa nova direita veio para ficar?

Personagens grotescos, ridículos, caricatos, vão se unindo em torno do que a direita tem a propor ao país. Já é tempo de perguntar se todo o esforço para, por qualquer tipo de método, tirar a esquerda do governo, compensou para o país? O governo Temer é o que a direita quer para o Brasil? Esse governo é o contraponto aos governos do PT?

Não bastasse o desastre econômico, social e político do governo Temer, a direita aderiu a uma versão extrema, a que se configura como o próximo governo para o Brasil. Não contente com o fracasso estrepitoso para o país do governo Temer, se lança a um governo ainda mais aventureiro. Usa os mesmos argumentos que deram errado, promete cortar ainda mais recursos púbicos, o que só aumentará a recessão e o desemprego. Mas o que interessa é ganhar e depois fazer tudo para permanecer no cargo, não importa os danos que se provoca no país.

Será essa, a nova cara da direita, a versão que supera o projeto tucano, vindo para ficar na vida política brasileira?

O fracasso e o esgotamento do projeto tucano deixou o espaço livre para esse tipo de aventureirismo político. As próprias bases do PSDB se haviam bandeado para o candidato da extrema direita, ainda no primeiro turno, explicando porque o candidato oficial tucano teve um resultado eleitoral desastroso, assim como as candidaturas nos estados e no Congresso. O campo parece aberto para que a extrema direita substitua a direita. A próxima reiteração do mesmo modelo neoliberal nas sucessivas campanhas eleitorais desde o fim do governo de FHC, demonstrava a incapacidade dos tucanos de aprender com seus erros, - fazer sua autocrítica -, facilitando assim a sucessão de derrotas.

A extrema direita se aproveitou para se apresentar, diante do grande empresariado, dos meios de comunicação, dos velhos partidos da direita, do Judiciário, como o candidato a realizar o projeto da direita no Brasil: impedir que o PT volte a governar o país. Pelo seu sucesso inicial, parece que essa versão extremada da direita veio para ocupar o lugar dos tucanos, cuja crise, tudo a leva a crer, seja terminal. O próprio tom penoso das declarações de FHC confirmam isso.

Mas, como não basta uma agenda negativa, foi escolhido para cuidar da economia um neoliberal radical para cuidar do ramo. Um daqueles que diz que o Brasil não cresce porque ainda não enterrou traços socialdemocratas no país. (Não especificou bem do que se trata, nem se sabe ao que ele se refere.) Que privatizará tudo o que possa. Como se trata de um Chicago Boy, adepto do Pinochet, pode-se esperar o pior de tudo. Porque, ao contrário do que se propala, o Chile era um dos países menos desiguais do continente antes da ditadura pinochetista, e se tornou um dos mais desiguais depois da aplicação das políticas de choque neoliberal. O Chile é, assim, um caso de fracasso e não de sucesso. O crescimento do PIB foi acompanhado do aumento brutal da desigualdade, porque o modelo funciona para as elites econômicas, mas não para a massa da população.

Pela sua vontade, essa direita veio para ficar. Mas nenhuma força que não incorpore como fundamentais os gravíssimos problemas sociais do Brasil, não tem possibilidade de perdurar, salvo mediante a repressão. O governo Temer se esvaziou rápido no Brasil, o governo Macri na Argentina também. O próximo governo brasileiro está condenado a esse mesmo destino.

Além disso a ultradireita se lançou como forca política mediante afirmações bizarras, sobre tudo, afirmações que cabem perfeitamente na internet, mas que, transpostas para a realidade, representam desastres nacionais e internacionais. Uma coisa é falar, outra é transformar isso em políticas concretas.

Encaixada numa sinuca de bico, resta à direita tentar passar do regime de exceção ao Estado de exceção, isto é, a um sistema político blindado, que trate de impedir que alternativas de esquerda possam voltar a governar o Brasil. Essa nova direita só terá vindo para ficar se o Estado de exceção conseguir se impor, daí uma direita autoritária, repressiva, com requintes fascistas, pode ser a cara mais permanente da direita no Brasil.

Emir Sader
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É como se Bolsonaro tivesse entrado na política brasileira pelo Nordeste

Se a extrema direita ganhou 12 deputados no feudo histórico do socialismo espanhol, imaginem quantos poderá ganhar em regiões governadas pela direita

Santiago Abascal, líder do Vox, e o candidato Francisco Serrano comemoram os resultados.
Um susto. Essa é a palavra que definiu as eleições na Andaluzia. A região que representa o feudo histórico do socialismo espanhol entra pela primeira vez à extrema direita, só que entra pela porta da frente, ostensivamente, com 12 deputados na configuração do novo parlamento andaluz. Ninguém esperava. A ciência política errou nas suas previsões, de novo. Foi Trump, foi o Brexit, foi Bolsonaro, mas parece que ainda não queremos enxergar o tsunami político que representam os populismos de extrema direita no mundo. Os analistas espanhóis ficaram, como os brasileiros, de queixo caído e bocas abertas.

Estamos diante de um fenômeno muito parecido com o novo nome. Vox, o partido espanhol criado em 2013 e que propõe dar voz aos espanhóis desencantados, transformando a indignação num capital político, atropelou qualquer cálculo eleitoral e pode ter na mão a chave para um governo de direita na Andaluzia, depois de 36 anos do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) no poder. Esta derrota da esquerda espanhola é daquelas que ficarão escritas nos livros de História, daquelas que inauguram novos ciclos. A Espanha enfrentará em 2019, provavelmente, eleições antecipadas diante dos problemas de governabilidade de Pedro Sánchez. Se o Vox ganhou 12 deputados na terra do PSOE, imaginem quantos poderá ganhar em regiões da Espanha governadas pela direita. É como se Bolsonaro tivesse entrado na política brasileira pelo Nordeste.

Venho estudando Bolsonaro há bastante tempo no Brasil e, recentemente, comecei a estudar também o grupo Vox na Espanha. As semelhanças na retórica são impressionantes. Ambos formam parte da estratégia de internacionalização da extrema direita apoiada por Steve Bannon e que pretende conquistar as urnas do mundo. Ambos se apresentam como antissistemas e outsiders, colocando uma suposta nova política como única forma de enfrentar a velha política, corrupta e fisiológica. Ambos nascem e se fortalecem na política da inimizade. Sem praticamente propostas programáticas nem conteúdos sólidos, a campanha de Vox foi da exaltação nacionalista. “Espanha grande de novo”, “Espanha primeiro”, “Deus abençoe a Espanha” são alguns dos lemas mais utilizados por eles frente aos inimigos que querem destruir o país: o separatismo catalão, a imigração, a União Europeia ou a globalização. Lembram-se do futuro ministro de Relações Exteriores do Brasil? O Vox também é antiglobalista. É a retórica do cidadão de bem frente a um inimigo explorado até a exaustão. O cidadão de bem na Espanha é o “espanhol que acorda cedo”, o que acredita numa Espanha forte e unida, o homem religioso. Quando as propostas não existem, ó ódio se transforma em política.

Pasmem, o Vox também acredita numa hegemonia e domínio cultural da esquerda e também utiliza a retórica anticomunista, só que desta vez a vítima do delírio coletivo em vez de ser o PT é o partido de Pablo Iglesias, Podemos, o partido do “comunismo chavista”. Aparentemente, para o Vox, o muro de Berlim tampouco caiu e a Espanha enfrenta o perigo de que o Podemos transforme o país numa Venezuela. O perigo vermelho pelo visto atravessa o Atlântico. Pasmem outra vez, Francisco Serrano, líder do VOX na Andaluzia, é juiz, um juiz preocupado com a corrupção, obviamente. O homólogo de Sergio Moro na Espanha também diz que ele não é político, ele só quer servir a Espanha. Deve estar na moda os juízes não políticos na política.

Serrano também é fervorosamente antifeminista e se diz vítima do “jihadismo de gênero”. O Vox é a favor da família tradicional, contra a descriminalização do aborto e contra os “abusos” da legislação espanhola que protege às mulheres da violência de gênero. Luz Belinda, também eleita deputada estadual pela Andaluzia é uma ex-militar. Eugenio Moltô, outro dos novos deputados, coloca em questão que o franquismo foi uma ditadura. Mais dois eleitos: Benito Morrillo é ex-policial e Manuel Gavira diz que “o homem é criminalizado por ser homem”. Semelhança assustadora com o bolsonarismo, não é?

Como Trump e Bolsonaro, os partidários do Vox são agressivos contra a grande imprensa e utilizam um tom polêmico e escandaloso nas suas declarações. Fazem da controvérsia um instrumento político muito eficaz. Contra a tirania do politicamente correto, dizem.

Assim como no Brasil, não podemos dizer que todos os eleitores do Vox são fascistas. Tem gente, sim, que compartilha os ideais de intolerância, xenofobia e ódio e vota porque se sente contemplada por eles, mas a maioria é parte daquele Brasil e daquela Espanha cansados da política, raivosos e ressentidos. Aquele Brasil e aquela Espanha que não se sentem mais representados pelas forças da democracia. A extrema direita é uma esperança para eles. Aprendamos rápido porque eles estão ganhando tudo.

Esther Solano Gallego, socióloga espanhola e professora da Unifesp
No El País
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O que podemos esperar e como nos preparar para o Brasil de 2019?

https://www.balaiodokotscho.com.br/2018/12/03/o-que-podemos-esperar-e-como-nos-preparar-para-o-brasil-de-2019/

Durante três dias, um grupo de 30 brasileiros discutiu neste final de semana, durante encontro de grupos de oração, os possíveis rumos do país no próximo ano e de que forma podemos nos preparar para o ano que virá.

Entre orações, meditações, silêncios e leituras de textos, repetimos o ritual de sempre nos retiros, como acontece faz 40 anos, a serem completados em 2019.

A partir da iniciativa pioneira de psicanalistas do Rio reunidos em torno de Hélio Pellegrino, em 1979, que queriam aprofundar sua espiritualidade, sob a orientação do dominicano Frei Betto, grupos de orantes foram surgindo também em São Paulo e Belo Horizonte, a partir dos anos 80.

Em São Paulo, participei da formação do primeiro grupo de oração, formado por jornalistas que fizemos uma entrevista com Frei Betto para o “Pasquim”, de saudosa memória.

Para celebrar o aniversário desta grande confraria espiritual, marcamos um retirão para junho, no feriadão de Corpus Christi, em São Lourenço (MG), e estamos agora convidando dezenas de companheiros que passaram pelos grupos durante este período.

O clima generalizado de insegurança, medo de um retrocesso institucional e de perseguições políticas, já anunciadas em diferentes manifestações da nova ordem, pode ser resumido na dúvida lançada por uma professora ligada a movimentos sociais de educação popular:

“Mas será que vai ser possível fazer o retirão no ano que vem?”

Alguns até acharam graça no temor da colega, mas havia boas razões ali para pensarmos juntos em caminhos possíveis para enfrentar os novos desafios que certamente virão.

Como a maioria dos integrantes dos grupos é formada por profissionais liberais, genericamente classificados de esquerda, jornalistas, advogados e professores, ouviram-se vários testemunhos dando conta de que o cerco já começou, embora falte ainda um mês para a posse do novo governo.

Para se contrapor a essa ofensiva, cada um na sua área também relatou a formação de núcleos de defesa da liberdade de cátedra e de expressão, iniciativas que vão se multiplicando pelo país, sem que haja uma coordenação ou programa comum.

“É preciso fazer alguma coisa antes que seja tarde”, ouvi de vários companheiros nos intervalos de lazer e durante as refeições.

Fazer o quê exatamente, aonde, como, com quem?

Com o gradativo esvaziamento de tradicionais movimentos sociais ligados às igrejas, universidades e sindicatos, dos quais muitos de nós participamos, desde a redemocratização do país, pela qual todos lutamos, parece que os velhos militantes de outrora andam ainda meio perdidos, diante do cenário de ameaças às liberdades democráticas que se avizinha.

Na verdade, nenhum de nós poderia sequer imaginar a repetição de um drama que vivemos, especialmente nos anos 60 e 70 do século passado, no auge da ditadura militar, quando ainda não havia grupos de oração.

Até os grupos de jovens que se formaram nos anos seguintes já têm hoje orantes de cabelos brancos e, os mais veteranos, apenas esperavam viver em paz o tempo de vida que lhes resta.

Uns se preocupam com os filhos ainda pequenos; outros, com o futuro dos netos.

Agora, é preciso reunir forças para começar tudo de novo e não perder os nossos direitos de cidadania, tão duramente reconquistados, nem faz tanto tempo.

Saber que não estamos sozinhos, cada um no seu quadrado, e que as seguidas demonstrações de intolerância ameaçam a todos igualmente, é o primeiro passo para sairmos do imobilismo e nos organizarmos em defesa dos mais vulneráveis.

Com a falência dos partidos e das lideranças da chamada sociedade civil, que entraram em prolongada hibernação faz tempo, o quadro que se desenha à nossa frente é ainda mais preocupante do que no tempo em que nos juntamos todos em defesa das eleições diretas para presidente da República, em 1984.

Quem sabe surjam agora os novos líderes para substituir a geração 68 surgida nas lutas pela redemocratização do país.

Vivemos um final de ciclo, em todas as áreas, e é nestes momentos que se revelam também novos caminhos e lideranças capazes de nos unir novamente em torno do bem comum.

As forças nem tão ocultas, daqui e de fora, que se opõem à democracia e defendem medidas de exceção, são as mesmas que se uniram e venceram em 1964, e nos afundaram na longa noite do arbítrio.

Para quem não quer ver esse filme de novo, só tem um jeito, além de rezar bastante: em primeiro lugar, vencer o medo e, aos poucos, ir criando novas formas de organização no mundo digital dos algoritmos, para podermos lutar com as mesmas armas que decidiram as eleições de outubro.

A dificuldade é maior para dinossauros analógicos como eu, mas, enquanto puder continuar escrevendo aqui, vou cumprindo meu papel de denunciar o que está acontecendo e alertar para o que ainda pode vir pela frente.

Faltam apenas quatro semanas para o dia 1º de janeiro de 2019.

Vida que segue.

Ricardo Kostcho
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Lula teve o pior julgamento entre 154 casos similares no TRF-4


Um levantamento feito pela revista Época mostra que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve um julgamento mais severo do que outros 154 casos similares pela segunda instância, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4).

Ao que a própria revista indica, o objetivo inicial seria o de contestar as declarações da presidente nacional do partido, a senadora Gleisi Hoffmann, de que se tratava de uma injustiça a condenção de Lula pelo Tribunal e que o partido estava sofrendo perseguição política.

Então, os repórteres Daniela Simões e Rodrigo Capelo foram atrás e compilaram um total de 154, relativos a 288 réus diferentes, no período de 5 anos, entre 2013 e 2017. Se era esse ou não o objetivo inicial, a conclusão dos jornalistas foi de que Lula estava sim sendo tratado de maneira mais dura do que todos os demais processos na segunda instância neste cinco anos.

Para se ter como base justa de comparação, foram selecionados casos em que o relator era o desembargador João Pedro Gebran Neto, e cujas acusações eram também de lavagem de dinheiro e ocultação de bens. No TRF-4, os mais de 280 réus tentaram reverter a pena imposta na primeira instância, assim como Lula tentou.

"Lula enfrentou circunstâncias mais rígidas do que outros réus em três aspectos: celeridade do julgamento em segunda instância, unanimidade dos desembargadores e severidade da pena", informou a publicação da revista Época.

No primeiro quesito, o julgamento contra o ex-presidente "foi o mais rápido entre todos os réus da Lava Jato" que chegaram ao Tribunal. Em média, os casos da Operação levam 18 meses para serem julgados, isso considerando, ainda, que a Lava Jato teve esse efeito de 'prioridade' na segunda instância.

Da mesma forma, o tempo de encarceramento determinado ao ex-presidente foi superior à média aplicada a todos os réus analisados. A pena de Lula na sentença foi aumentada de 9 anos e seis meses para 12 anos e um mês. Com isso, foram 2 anos e 8 meses a mais dado pelo TRF-4 em comparação à condenação já estipulada por Sérgio Moro, o juiz da primeira instância. Já os demais réus da Lava Jato tiveram, em média, um aumento de 2 anos e 1 mês.

Ainda, "a unanimidade vista na apelação criminal do petista, por fim, não é comum no colegiado". Isso porque, até agora, 68% das decisões que são definidas pelos desembargadores do Tribunal com diferenças de opiniões, ou seja, sem serem unânimes. A média calculada pela reportagem da Época mostra que somente 3 em cada 10 casos tiveram unanimidade, e o de Lula foi um destes poucos.


No GGN
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DNA identifica homem torturado e morto sob comando de Ustra, o herói de Bolsonaro


Aluízio Plhano
O Grupo de Trabalho Perus divulgou nesta segunda-feira (3), em Brasília, a confirmação da identidade de um homem torturado e morto sob o regime militar. A identificação do bancário Aluízo Palhano Pedreira Ferreira, que esteve preso no departamento comandando por Carlos Brilha Ustra - o herói de Jair Bolsonaro - nos anos 1970, foi possível por conta de exame de DNA. Ele foi assassinado por volta dos 49 anos. 

O Ministério Público Federal denunciou Ustra e mais um agente da ditadura pelo feito em 2012, mas após a morte do coronel, seu nome foi retirado da ação. À época, a Justiça Federal rejeitou a denúncia argumentando que ela violava os fundamentos da Lei da Anistia. O MPF recorreu e o caso está aguardando análise do Superior Tribunal de Justiça.

Ferreira foi funcionário do Banco do Brasil e um dos principais líderes sindicais do País. Em 1970, segundo dados da Folha de S. Paulo, Ferreira integrou a organização clandestina de luta armada contra a ditadura VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), do ex-capitão Carlos Lamarca. Ele foi foi preso em 9 de maio, em São Paulo, e torturado em instalações do Cenimar, o centro de inteligência da Marinha. 

Depois, foi transferido para o DOI-Codi (Departamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna) de São Paulo, órgão do Exército sob comando de Ustra, onde Ferreira morreu após novas torturas, possivelmente em 21 de maio de 1971.

O Grupo de Trabalho Perus tem o objetivo de identificar os corpos encontrados na vala de Perus, em parceria com a Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), o Ministério dos Direitos Humanos, a Secretaria Municipal de Direitos Humanos da Prefeitura e a CEMDP (Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos), além do Ministério Público Federal.

O caso de Ferreira é o segundo identificado pelo Grupo, o quinto relacionado à vala de Perus, onde cerca de outras mil ossadas foram localizadas nos anos 1990 em Perus, durante a gestão de Luiza Erundina, no Paço paulistano. O cemitério Dom Bosco fica na periferia da capital.
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Em Madri, Moro diz que Haddad era o candidato autoritário


Em Madri nesta segunda (3), o ex-juiz da Lava Jato Sergio Moro defendeu a imagem de Jair Bolsonaro, dizendo que o presidente eleito não é um fascista nem representa ameaça à democracia no Brasil. Segundo Moro, era o "principal candidato opositor" de Bolsonaro, o petista Fernando Haddad, quem representava o projeto autoritário.

"Era o principal candidato opositor [Fernando Haddad] que, a rigor, tinha propostas de controle social da imprensa e do Judiciário", disparou Moro.

A fala de Moro, descolada das críticas de cientistas políticos e sociais, que enxergam em Bolsonaro traços de autoritarismo típicos de um político de extrema direita e declaradamente anti-esquerdista, ocorreu após o escritor Mario Vargas Llosa dizer que o capitão da reserva vem sendo apresentado ao mundo como "líder de extrema direita, inimigo das conquistas democráticas e liberais, em suma, um fascista.

Vargas Llosa disse, contudo, que 55 milhões de brasileiros não podem ter virado fascistas porque votaram em Bolsonaro. "Então, não acredito nessas etiquetas."

Moro ainda repetiu o discurso que vem usando junto à imprensa brasileira: o de que Bolsonaro, depois de eleito, se comprometeu com a defesa da democracia e quanto aos ataques contra minorias que desferiu no passado, o ex-juiz tratou tudo como "declarações infelizes", mas que não devem se traduzir em políticas públicas.

“Não vislumbro no presidente traço de autoritarismo”, disse Moro. "Há intenção de endurecimento, não contra a democracia, mas contra a grande corrupção, o crime organizado e o violento, que a afetam”, insistiu.

A Folha fez questão de anotar que Moro omitiu deliberadamente as ameaças de Bolsonaro ao jornal e outros veículos de comunicação.

No evento realizado pela Fundação Internacional para a Liberdade, presidida pelo Nobel de Literatura peruano Mario Vargas Llosa, Moro ainda comentou sobre a decisão de ser ministro da Justiça de Bolsonaro.

O juiz disse que sempre se perguntou se "não tinha ido longe demais na aplicação da lei, se o sistema político não iria revidar. Esse caso ia chegar ao fim, e era preciso que gerasse mudanças institucionais."

“Meu trabalho no Judiciário era relevante, mas tudo aquilo poderia se perder se não impulsionasse reformas maiores, que eu não poderia fazer como juiz.”  

No GGN
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Bolsonaro recua outra vez, acaba com o Ministério do Trabalho e entrega Sindicatos a Moro


Jair Bolsonaro recuou da ideia de extinguir o Ministério do Trabalho e manter, pelo menos, o status da Pasta, mas sob a direção de Paulo Guedes. O ministro anunciado da Casa Civil Onyx Lorenzoni afirmou nesta segunda (3) que o plano agora é não só extinguir como fragmentar todas as atribuições do Trabalho, distribuindo as competências entre os ministérios da Economia, Cidadania e Justiça. Bolsonaro entregará a Sergio Moro, por exemplo, os sindicatos – que, no Brasil, são a base de inúmeros protestos contra governos.

“O atual Ministério do Trabalho como é conhecido ficará uma parte no ministério do doutor [Sergio] Moro, outra parte com Osmar Terra e outra parte com o Paulo Guedes, lá no ministério da Economia, para poder tanto a parte do trabalhador e do empresário dentro do mesmo organograma”, afirmou, segundo relatos da Folha.

Em entrevista à rádio Gaúcha, Onyx disse que Moro vai cuidar da “secretaria que trata de concessão sindical”.

“A face mais visível, e que a imprensa brasileira registrou por inúmeras vezes os problemas que ocorriam naquela pasta, de desvios, problemas graves de corrupção, então aquele departamento ou secretaria do ministério do Trabalho que cuida disso, vai lá pro doutor Moro, vai ficar no ministério da Justiça e da Segurança”, disse.

Ainda de acordo com Onyx, o combate ao trabalho escravo também deve ficar com Moro.

Já as políticas públicas que tratam de emprego serão divididas entre Economia e Cidadania. “Onyx explicou que o desenho do primeiro escalão está quase concluído. A previsão é de que a estrutura seja anunciada ainda esta semana, durante visita de Bolsonaro a Brasília”, afirmou a Folha.

“Nós vamos ter 20 ministérios funcionais. E tem dois que são eventuais, caso do Banco Central, que quando vier a independência deixa de ter status, e o segundo AGU (Advocacia-Geral da União), pretendemos fazer ajuste constitucional, e quando tiver definido.”

Bolsonaro já anunciou 20 ministros e deve escolher esta semana o chefe de Meio Ambiente.

Falta definir também se Direitos Humanos terá status de ministério. Segundo Onyx, a pastora Damares Alves é a mais cotada para o posto.
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Bolsonaro levanta taça de 18 quilos com a bolsa de colostomia que o impediu de ir aos debates


O presidente eleito Jair Bolsonaro só vai tirar a bolsa de colostomia que usa desde o atentado que sofreu em Juiz de Fora no mês de janeiro.

A decisão foi tomada pelos médicos depois do exame mais recente.

Eles alegaram que Bolsonaro “encontra-se bem clinicamente e mantém ótima evolução, porém os exames de imagem ainda mostram inflamação do peritônio e processo de aderência entre as alças intestinais”.

A bolsa de colostomia foi um dos motivos pelos quais o candidato do PSL deixou de participar de todos os debates, inclusive os mais recentes, na campanha do segundo turno, diante do petista Fernando Haddad.

Quando anunciou que Bolsonaro não participaria dos debates, o presidente do PSL, Gustavo Bebbiano, disse que “ele continua com a colostomia do lado direito do seu abdômen. Quando é feita do seu lado esquerdo, o paciente tem um controle do seu fluxo digestivo, ao passo que do lado direito, não. Como não há esse controle aquela bolsinha pode se encher rapidamente, pode haver um acidente. Pode estourar, como já aconteceu, então, apesar da melhora que ele vem tendo o seu estado é de desconforto”.

Nas entrevistas televisivas roteirizadas que deu, as respostas de Bolsonaro eram subitamente interrompidas para que um profissional checasse suas condições de saúde — tudo muito bem coreografado.

Porém, telespectadores que acompanharam a presença do presidente eleito na partida final do Palmeiras no Campeonato Brasileiro não notaram qualquer constrangimento físico de Bolsonaro.

Ele caminhou livremente nos bastidores, cumprimentou os presentes, festejou com os vencedores e até levantou a taça do título nacional, adotada em 2014, que segundo a CBF pesa 18 quilos — foi patrocinada pela Chevrolet e hoje leva o nome da rede de supermercados Assaí.

Não por acaso, internautas reagiram às imagens. Um deles lembrou que os debates com Haddad no segundo turno seriam em ambiente absolutamente controlado, com ar condicionado, cadeiras e poltronas — diferentemente do que se viu ontem.

No twitter, Rogério Tomaz Jr. escreveu: “35 dias atrás ele não tinha condições de participar de um debate na televisão. Hoje está saltitante entregando TAÇA pro Palmeiras, time de imigrantes, categoria que ele chama de ESCÓRIA DO MUNDO”.

No Viomundo
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STF, emparedado, não tem chance de fazer justiça com Lula


A segunda turma do STF julgará nesta terça-feira, 4 de dezembro, o habeas corpus do ex-presidente Lula. A defesa alega parcialidade do ex-juiz e agora ministro bolsonarista Sérgio Moro, pede a nulidade do processo e a liberdade do Lula.

A infinidade de arbítrios e atropelos até aqui perpetrados não admite ilusão quanto ao nível de maldade e violência que a oligarquia está disposta a continuar praticando para atingir Lula.

O vale-tudo dos agentes do Estado de Exceção para aniquilar o PT e, à continuação, liquidar o conjunto da esquerda, está longe do fim. Com Bolsonaro, a cruzada macarthista de juízes, procuradores e policiais federais ganhou relevante impulso e o reforço de segmentos das Forças Armadas, em especial do Exército.

O desempenho eleitoral do PT – bastante positivo, apesar da circunstância especial em que a eleição ocorreu, de tutela militar do STF para impedir a candidatura do Lula – é a chave para se entender o motivo para o imediato recrudescimento da vilania do judiciário e do MP contra o PT. No breve intervalo de 7 dias, multiplicaram-se os ataques:

[1] em 23/11, juiz da 10ª Vara do DF acolheu denúncia absurda do ex-PGR Rodrigo Janot que acusa Lula, Dilma, Gleisi e outros petistas de constituírem, “desde meados de 2002 até 12 de maio de 2016”, […] “uma organização criminosa, com atuação durante o período em que os dois primeiros denunciados sucessivamente titularizaram a Presidência da República, para cometimento de uma miríade de delitos”. Esta montagem jurídica nasceu com o objetivo pré-concebido de condenar e proscrever o PT [ler aqui] não por supostas irregularidades, mas por ter governado o Brasil e retirado da miséria quase 40 milhões de pessoas e oportunizado o ingresso do povo pobre e negro na Universidade;

[2] em 26/11, a falange paulista da Lava Jato transformou uma doação recebida pelo Instituto Lula em 2012 em “tráfico internacional de influência” [sic]. Na época, Lula já não exercia cargo público, mas era o palestrante mais requisitado e mais bem pago em todo o planeta. No processo, Lula sequer foi convidado a prestar esclarecimento;

[3] em 30/11, juiz da 15ª Vara do DF aceitou denúncia da PGR contra vários petistas em relação às pedaladas fiscais – aquela farsa fabricada sob medida no TCU pelo conselheiro Nardes para Cunha e Aécio promoverem o impeachment da Dilma. O irônico é que a denúncia contra Nardes por receber quase R$ 2 milhões de propina do Grupo RBS/Globo [Operação Zelotes], continua engavetada por Raquel Dodge, a chefe da PGR;

[4] em 30/11 Raquel Dodge pediu ao TSE a instauração de procedimento para cobrar do PT a devolução de R$ 19,4 milhão do fundo partidário usado na campanha do Lula antes da cassação ilegal do registro. A chefe da PGR teria coisa mais importante a fazer, como pedir o impeachment de Luiz Fux/STF pela manobra que manteve o pagamento ilegal de auxílio-moradia a juízes e procuradores desde 2014 e causou prejuízo de mais de R$ 6 bilhões. Mas Dodge agiu como líder corporativa e pediu a manutenção do privilégio para os procuradores que, mesmo proprietários de imóvel próprio, como é o caso de Deltan Dallagnol, recebem auxílio-moradia [Dallagnol adquiriu também imóvel no programa Minha Casa Minha Vida].

A lógica indica que o habeas corpus será indeferido, e Lula continuará em cárcere político. A lógica das escolhas feitas pela elite até aqui autorizam conjecturar-se essa possibilidade.

Lá atrás, pouca gente acreditava que Lula poderia ser processado, mas seus perseguidores não somente o processaram a primeira vez como abriram outras frentes de acusação sem provas.

Ninguém acreditava que Lula poderia ser condenado com acusações farsescas; mas a Lava Jato não só o condenou, como os tribunais superiores endossaram a tese do direito penal do inimigo aplicada por Moro e pelos procuradores para condená-lo com base em convicções, sem uma única prova.

Enquanto o mundo inteiro duvidava da prisão infame do Lula, Moro nem esperou o acórdão da sentença do TRF4, o julgamento dos embargos declaratórios ou o trânsito em julgado da sentença condenatória e mandou a PF encarcerar o ex-presidente em 5 de abril passado. Tudo com a complacência do STF.

No julgamento do habeas corpus do Lula, o STF, emparedado pelo bolsonarismo, não terá a menor chance de decidir contra Moro para fazer justiça com Lula – mesmo que isso ofenda os princípios da justiça e o Estado de Direito, a Constituição, a Lei Orgânica e o Código de Ética da Magistratura.

Na guerra de extermínio do PT, o establishment mostra-se disposto a esgarçar todas as regras, indiferente ao risco concreto que esta aposta comporta, de morte do Lula no cárcere político.

Para a oligarquia, é preferível Lula morto na prisão a vê-lo com um mínimo de liberdade para fazer o que ele sabe fazer com maestria: animar a resistência democrática e popular.

A luta pela libertação do Lula da prisão ilegal, inumana e hipócrita a que foi submetido pelo Estado de Exceção é o elemento central da luta antifascista e pela restauração da democracia e do Estado de Direito.

Jeferson Miola
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E o “Caos” pariu Bolsonaro: Trunfos da “Guerra Híbrida” no Brasil

Junho de 2013. São Paulo.
Todos que analisamos com rigor as pesquisas de intenção de voto tínhamos alertado que Bolsonaro havia ocupado importante espaço eleitoral à direita no espectro político. Posto que a um mês das eleições presidenciais a intenção de voto no candidato do até então inexpressivo PSL (Partido Social Liberal), não baixava de 21 a 24%, em conformidade com a média revelada por mais de um instituto de pesquisa. Outrossim, as “circunstâncias” que levaram um deputado desqualificado como Bolsonaro a se tornar eleitoralmente competitivo – e posteriormente eleito – retiraram de Alckmin, do PSDB, ou, de Marina, qualquer possibilidade de liderar o campo conservador nas eleições de 2018. Desse modo o beneficiário do “caos” gerado pelo golpe parlamentar de 2016, não foram os tucanos, ou, a “terceira via” imaginada por Marina. O caos devidamente gerenciado e impulsionado por setores da mídia e do judiciário através da operação “lava à jato”, resultou numa degradação político-eleitoral, “magnificamente expressa” na figura de Bolsonaro.

Contudo, a grande maioria dos analistas (dentre os quais me incluo) predisseram que a rejeição (justificada) a Bolsonaro (em torno de 38/41%, fora a margem de erro) o levaria a uma provável derrota no segundo turno. Além da alta rejeição, Bolsonaro poderia ser prejudicado pela tendência “racional” do voto majoritário, sobretudo no segundo turno. Isto é, boa parte da literatura sobre comportamento eleitoral assume que a definição do voto majoritário tende a produção de uma decisão de conteúdo mais “estratégica” por parte dos eleitores. Sendo assim uma boa parte, ou, a maioria dos eleitores tomariam uma decisão “atenta”, retrospectiva e prospectiva acerca do seu voto. Se interessariam em analisar o passado do candidato, e avaliar as propostas de governo (o futuro). Sendo assim uma breve consulta sobre o desempenho pífio de Bolsonaro na Câmara, ou, suas inomináveis manifestações preconceituosas contra as mulheres e minorias poderiam aquilatar o candidato retrospectivamente. Em termos de futuro, ou, considerando uma avaliação prospectiva do eleitor foi divulgado às vésperas das eleições uma interessante pesquisa do BTG Pactual. A pesquisa revelava que 83% dos brasileiros eram favoráveis a manutenção dos programas sociais, 61% se diziam contrários à liberação do porte de arma, 51% não queriam o Ensino Fundamental à distância e 79% rechaçavam o aumento da idade mínima para a aposentadoria para 65 anos. Desse modo num contexto de decisão racional e estratégica do voto, a pesquisa do BTG demonstrava que a maioria dos eleitores se opunha a agenda neoliberal de Bolsonaro, e, menos por predileção, mais por futuro, ou, se quisermos por afinidade “programática”, poderiam decidir votar em Haddad, que defendia a manutenção dos programas sociais, que era contrário a liberação do porte de armas, que era contra o ensino fundamental à distância, contra o aumento da idade mínima para 65 anos, etc.

Entretanto a rejeição a Bolsonaro e o “voto estratégico” não incidiram no segundo turno. Assim o “candidato do caos” foi legitimado eleitoralmente. É verdade que os votos brancos e nulos dobraram, mas não ao ponto de explicarem a vitória de Bolsonaro. Vejamos, pois, que nas eleições de 2014, brancos e nulos somaram 4,63% do total de votos. Em 2018, somaram 9,57% do total. Ademais as abstenções de 21,3% praticamente se mantiveram no mesmo patamar das eleições de 2014 (21,1%). Sendo assim o que precisa ser compreendido é como se produziu a diferença de quase 10 milhões de votos de Bolsonaro para Haddad.

Um observador distante das eleições brasileiras poderia atribuir o resultado de Bolsonaro ao seu desempenho nos debates contra Haddad no segundo turno. Mas não houve debates! Talvez a linha política da campanha de Bolsonaro expressa nos horários da propaganda eleitoral veiculadas na televisão e rádio. Isso também é duvidoso, posto que às vésperas das eleições os principais institutos apontavam para uma situação de empate técnico entre as candidaturas. A pesquisa divulgada pela Vox Populi, que encerrou o campo pala manhã e tabulou os resultados na tarde de sábado do dia 27/10, véspera da eleição, corroborou a situação de empate técnico, e a expectativa era por uma vitória “apertada” de um, ou, de outro. Mas por que isto não ocorreu? Por que Bolsonaro obteve uma vitória contundente? A resposta é simples. As eleições foram duplamente fraudadas, pois os interesses geopolíticos e as forças políticas que conduziram o golpe parlamentar de 2016, não poderiam ser contrariados!

Em primeiro lugar, pela – já esperada – interdição ilegal do líder nas pesquisas de intenção, o ex-presidente Lula, em concorrer, em flagrante contradição com as normas jurídicas internacionais das quais o Brasil é signatário, e que assegurariam a Lula o direito de concorrer, posto que seu processo não foi julgado pelas cortes superiores. Mas o elemento qualitativo da fraude foram os ciberataques à candidatura de Haddad, configurando mais uma operação de guerra, e menos um processo eleitoral “normal”. Nos detenhamos nesse ponto.

O sociólogo Marcos Coimbra, diretor do instituto Vox Populli, cogitou de forma taxativa a hipótese de fraude eleitoral. Segundo Coimbra, a campanha de Bolsonaro se valeu de recursos milionários e supostamente oriundos de “caixa 2” de empresas. Com os recursos do “caixa 2” foram contratados serviços de “empresas” especializadas na mineração de dados nas redes sociais e no disparo e impulsionamento de milhões de falsas notícias. Sobretudo, através da empresa que mantém a plataforma de serviços de troca de mensagens conhecida como “WhatsApp”. Sendo assim, foram formatados grupos de apoio a Bolsonaro no WhatsApp a partir da reunião de milhões de perfis rastreados principalmente no Facebook. A rigor o mecanismo descrito guarda semelhança com a tática eleitoral de Donald Trump. No caso das eleições norte-americanas de 2016, o recurso empregado consistiu na segmentação de perfis e no disparo massivo de posts através do Facebook. No Brasil a plataforma utilizada foi o WhatsApp. Portanto, no caso brasileiro, a fraude consistiu na utilização do “caixa 2”, e no abuso de notícias falsas como o notório caso do “Kit Gay” e de absurdas acusações contra Haddad de estupro de uma menina de 12 anos. Registre-se que o mecanismo de disparo massivo das “Fake News” não cessou na antevéspera, véspera e no dia das eleições. Um “bombardeio” virtual que não deu trégua a Haddad e fez sua rejeição aumentar e ultrapassar a de Bolsonaro.

Sabemos que sofisticados recursos tecnológicos como softwares e algoritmos que mineram e segmentam dados disponíveis de usuários na Internet, são notavelmente desenvolvidos nos meios militares e pelas agências de inteligência norte-americanas antes de “amadurecerem” e se transformarem em “produtos” para o “mercado”. Para além da utilização das tecnologias digitais nas “guerras psicológicas” travadas pelo império para fins de desestabilização dos governos considerados hostis, tais recursos vêm sendo empregados em monumental escala para fins político-eleitorais através de “empresas” mais do que suspeitas. Nesse último caso há fartas evidências do emprego desses mecanismos de manipulação como foi o caso do plebiscito na Inglaterra que aprovou a saída daquele País da União Europeia, e na eleição de Trump nos EUA. Ambos eventos ocorreram em 2016. As eleições brasileiras acrescentam mais um novo capítulo à guerra por corações e mentes, pois é disso que se trata, de uma guerra!

No contexto das disputas geopolíticas do século XXI, o decadente império anglo-americano desatou a estratégia da Guerra Híbrida para combater as fortes tendências ao multilateralismo expressas pela China, Rússia, Iran e Brasil, principalmente durante os governos Lula. Por conta da paridade militar com a Rússia e indiretamente com a China, a opção preferencial dos estrategistas do Pentágono é pela intervenção indireta. A Guerra Híbrida é a guerra indireta e se vale de operações psicológicas em larga escala contra governos e lideranças hostis aos interesses norte-americanos, do financiamento de manifestações “quintas-colunas” que desestabilizem governos não-alinhados, no armamento de bandos armados como o famigerado Estado Islâmico no Oriente Médio e de todo o recurso disponível que gere o caos e suas oportunidades imprevistas. A Guerra Híbrida não deixa de ser a instrumentalização do caos e de seu gerenciamento.

Portanto, a eleição de Bolsonaro e de sua delinquente narrativa de fomento ao ódio contra a esquerda, os movimentos sociais e as minorias, não deve ser compreendida isoladamente. A eleição de Bolsonaro é um continuum das jornadas de junho de 2013, das manifestações contra a Copa em 2014, das ações midiáticas da operação “Lava à Jato” a partir de 2015, das manifestações “quintas-colunas” coloridas de verde e amarelo, do golpe parlamentar e do impeachment de Dilma em 2016 e da prisão criminosa do ex-presidente Lula nesse ano. Todos estes eventos foram desatados para destruir o Estado Nacional brasileiro se valendo da instrumentalização e gerenciamento do “caos”, ou, da “Guerra Híbrida”. Como se diz: “há um método na loucura”! Talvez não tenhamos sido suficientemente consequentes com a análise do que ocorreu no Brasil a partir da queda do governo Dilma. O fato é que Haddad não poderia ter vencido Bolsonaro, pois não se tratava mais de uma eleição democrática!

Ilton Freitas é Doutor em Ciência Política pela UFRGS, pesquisador associado do Centro de Estudos Internacionais de Governos (CEGOV/UFRGS). Autor do livro “Transparência e Controle na Era Digital – A agenda da democracia brasileira”, editado pela Armazém Digital, Porto Alegre, 2012.
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O PT, a militância e a sociedade


O artigo que publiquei neste espaço na semana passada (Destino de Lula: abandono e solidão), teve duas respostas diretas: uma de Valter Pomar, ex-membro da Executiva Nacional do PT e outro de Gleisi Hoffmann, presidente do partido. Assim, o artigo atingiu um de seus objetivos que consistia em provocar desconforto na direção do PT. O longo artigo de Pomar contesta ponto por ponto o meu artigo e é uma contestação que, de modo geral, se situa no plano político, o que é salutar para o debate progressista e democrático.

Em que pese as  críticas, há vários elementos de avaliação comum entre o que escreve Pomar e o que escrevi em artigos. Por exemplo: a avaliação de que o PT saiu derrotado das eleições, mas não destruído. Poderia fazer retificações no meu artigo, se fosse reescrito, a partir de algumas críticas de Pomar. Mas em outros pontos a divergência se mantém. Gostaria até mesmo que Pomar tivesse razão no seguinte ponto: que Lula não foi abandonado no passado, no presente e não será no futuro. Uma coisa, no entanto são as intenções e as  resoluções formais dos agentes políticos, outra coisa é a realidade. Volto a esse ponto logo adiante, onde pretendo indicar algumas divergências com Pomar.

Quanto ao artigo da Gleisi Hoffmann, ele foi escrito motivado pelo despeito, um impulso que é mau conselheiro em se tratando da atividade política. O artigo começa afirmando que ofendi "gratuitamente o PT, os nossos dirigentes e a nossa militância". O meu artigo não ofende absolutamente ninguém. Trata-se de uma avaliação política que é comungada com milhares de petistas e de ativistas sociais. Só escrevi o artigo sobre o assunto Lula depois de ser instado por vários militantes e eleitores do PT.

Dizer que o meu artigo ofende reflete uma postura arrogante de quem não quer receber e aceitar críticas. O PT, como qualquer outro partido, assim como um parlamentar ou um governante, tem o dever de explicar-se, não só perante a militância, mas também perante a sociedade. Todos recebem dinheiro público, via o fundo partidário, o fundo eleitoral e através dos salários dos parlamentares e dos governantes. Assim, é concernente aos princípios da democracia, da república, da transparência e da moralidade pública que os partidos e os eleitos prestem esclarecimentos à sociedade de seus atos e de suas políticas. Qualquer cidadão, seja ele de direita, de centro ou de esquerda tem o direito de cobrar e criticar publicamente qualquer partido e qualquer político eleito.

Partidos e os políticos que não se explicam, que não esclarecem, que não dialogam estão destinados a perder espaço na sociedade. Vivemos num mundo  em que as informações e as comunicações giram a uma velocidade quase instantânea. Não se pode lidar com esse mundo com categorias da era da Revolução Industrial ou com um modo de ser analógico. Quanto mais se intensifica e se complexifica a informação e comunicação, mais se exige transparência, diálogo, postura ética. O contrário disso são as fake news. Um dos aspectos centrais dos embates do mundo de hoje é essa polaridade: ética e transparência versus fake news. Aqui é preciso escolher.

Um partido político democrático não pode mais se guiar pelos princípios dos arcana imperii, do poder oculto, misterioso. Precisa ser aberto, transparente, acessível, interativo, dialógico. O PT vem falhando nestes aspectos, tanto na comunicação com a sociedade, quanto com a militância. No que diz respeito à campanha Lula Livre, muitos militantes e ativistas não sabem o que acontece, sequer sabem que ela existe. Mesmo durante a campanha eleitoral, a militância se ressentiu com a precariedade da comunicação.

Além de existir este grave problema de comunicação, existem também erros políticos, no que diz respeito à campanha Lula Livre. Uma das condições fundamentais do êxito político diz respeito a como saber lidar com o momento, com a ocasião, aproveitando-o. Existiram duas ocasiões, de certa forma contínuas, que eram propícias para exercer o máximo de pressão pela liberdade de Lula: a) no contexto da condenação e da prisão; b) no contexto da sua candidatura à presidência da República. Nesses momentos havia uma sensibilidade social bastante ampla em favor de Lula, em favor de sua candidatura e contra a sua condenação e prisão. Nenhuma mobilização de envergadura, configurada numa campanha sistemática, foi lançada nesses momentos.

Claro que ocorreram atos, como o de Porto Alegre, na véspera da condenação pelo TRF4 ou o do Sindicato dos Metalúrgicos no contexto da prisão de Lula. Depois foram feitos atos menores e o acampamento da vigília e da solidariedade em Curitiba. Mas nada disso seria capaz de criar força suficiente para promover uma pressão para uma virada nos tribunais e nos meios políticos em favor de Lula.

Em política o êxito depende também do respeito, da reputação e do temor. Respeito e reputação se conquistam pelo exemplo da conduta, pela eficiência no agir  e pala realização de feitos significativos. O temor se conquista pela força que um agente dispõe e do saber usá-la. No Brasil, país de capitalismo predatório e de elites predadoras e golpistas, um partido progressista e de esquerda se faz respeitar e temer muito mais pela força do que por outros predicados. É esta força organizada e mobilizada que o PT ficou a dever. O fato é que aquelas ocasiões passaram, com fracas mobilizações e, agora, há uma conjuntura muito mais difícil para se mobilizar em favor de Lula Livre. Um novo momento favorável se colocaria na possibilidade de um fracasso do governo Bolsonaro.

Pomar concorda com o meu artigo quando se argumenta que para mobilizar é necessário "direção, comando e coragem". Mas acrescenta que é preciso que haja cultura de mobilização e disposição de luta em setores sociais. Ele avalia que falta isso. Mas por que falta? Por culpa dos setores sociais, das massas? Afirmo que não. A responsabilidade de gerar cultura de mobilização e disposição de luta é dos partidos, dos sindicatos e dos movimentos sociais. Nas décadas de 1980-90 o PT mobilizava. O fato é que nos treze anos de governo do PT, o partido não se mobilizou e se afastou das bases, das periferias. Os sindicatos e alguns movimentos sociais foram viver à sombra do poder. O que explica, por exemplo, que no processo do impeachment que resultou no golpe somente no final de 2015 foi convocada uma manifestação em defesa da democracia e do governo? Já haviam ocorrido várias manifestações, com milhares de pessoas, pedindo a derrubada de Dilma.

A questão de fundo da crítica que o Pomar me dirige é a de que o PT é vítima do golpe etc., etc., etc., e que, por isso, não pode ser culpado. Sim, é vítima, mas isto não exclui sua responsabilidade. Por que só se mobilizou tardiamente em 2015? Por que na véspera da votação do impeachment o partido e o governo avaliavam que venceriam a votação? Por que ministros do governo saíram do ministério três dias antes da votação e foram votar contra a Dilma? O PT e o governo não perceberam que tomavam café, almoçavam e jantavam com os inimigos? E o que dizer dos ministros do STF cuja maioria foi constituída pelos governos petistas? O fato é que o PT tornou-se um partido de gabinetes e de mandatos: perdeu as ruas, perdeu as bases, perdeu a organização e perdeu a mobilização. Tudo isto, em boa medida, a resolução do partido aprovada no final de semana reconhece. E isto é bom se se tornar efetivo.

Cabe perguntar ainda: não foi um erro formar a chapa com Michel Temer? Não foi erro, em 2010, se aliar a Sérgio Cabral no Rio e apoiar Roseana Sarney no Maranhão contra Flávio Dino? Quem nomeou os Procuradores Gerais da República que se voltaram contra o PT? Quem nomeou os comandantes militares, os chefes da Abin, os diretores da PF? O PT é vítima sim dos golpistas, mas é vítima também de seus próprios erros.

Voltando à crítica da Gleisi, ela me intima a sair do gabinete. O problema é que não tenho gabinete e, pelo que consta, quem tem gabinete e verba de gabinete é ela. Ela questiona minha militância sem saber como e onde atuo. Isto não é bom, pois poderia questionar vários fatos de sua militância e de sua atuação política. Poderia questionar, por exemplo, a nota estapafúrdia que ela emitiu em defesa do mandato do notório golpista Aécio Neves. Mas em nome da militância aguerrida e da combatividade da Gleisi não questiono mais nada na esperança de que ela não questione indevidamente a militância de ninguém. Ademais, não preciso ir a Curitiba para defender Lula.

Por fim, Pomar me acusa de ser distópico.  Não sou distópico, mas também não sou utópico. As utopias têm se revelado inefetivas e impotentes. É melhor ser realista. É melhor seguir a recomendação de Antônio Gramsci: otimismo da vontade e pessimismo da razão. Qualquer análise racional do Brasil e do mundo não enseja otimismo. Não podemos esquecer a dimensão trágica do mundo, pois isto conduz a erros graves. É legítimo fazer promessas, mas elas precisam ser precedidas das duras e necessárias advertências acerca das precariedades do mundo. Desde a juventude nunca deixei de exercer uma atividade militante. Não tenho interesse em cargos ou poder. Movido por uma consciência estóica, milito por dever, um dever que se vincula aos fins de um mundo mais igual, mais justo, mais humanizado e mais solidário.

Aldo Fornazieri - Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP)
No GGN
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Bolsonaro precisa da mídia e do ‘neocentrão’. De início, terá


Ninguém fique achando que as dificuldades previstas pela Folha, hoje, ao informar que Jair Bolsonaro não conta nem com a metade dos 513 deputados da nova legislatura e que, portanto, está a léguas de formar maioria para aprovar leis e a anos-luz de poder reformar a Constituição.

Diz levantamento do jornal que, ouvidas lideranças partidárias, conclui-se que o novo governo terá 229 deputados a acompanhá-lo em sua pauta econômica – ainda que não se saiba o que ela inclui, nem mesmo em matéria de privatização.

Terá mais, não apenas porque esta é uma tendência de governos que se instalam – e, por isso, preenchem cargos que rendem apoio parlamentar –  porque o ano legislativo certamente já se iniciará sob a pressão do punitivismo moralista de Sérgio Moro.

É cedo para prever o quão será forte este apoio, embora seja possível imaginar um encolhimento ainda maior dos ex-gigantes PMDB e PSDB e, talvez, rupturas no DEM, onde boa parte não quer nem mesmo a “semi-autonomia” com que sonham figuras como Rodrigo Maia e ACM Neto.

Não se sabe o quanto Bolsonaro, que começa hoje uma série de encontros com os partidos que, até agora, “esnobou”, está disposto a jogar pesado na eleição do presidente da Câmara. A tendência é de que não o faça, pois se sujeita a receber uma derrota como sinal do “queremos mais” dos deputados, inclusive dos da chamada “bancada evangélica”.

Também há problemas na “oposição”, onde é grande a tentação de seguir-se a linha idiota do “o PT precisa fazer autocrítica” como desculpa para o divisionismo e o adesismo à direita. Também não há, no campo da esquerda, lideranças que possam imantar as bancadas.

Minha intuição é de que está aberto o caminho para a formação de um “neocentrão”, mercadoria fluida e capaz de se autovalorizar, de boca aberta a esperar o momento em que o presidente eleito terá de descer do palanque e baixar ao pantanoso terreno da política real que, como se sabe, enlameia gente muito mais “limpinha”.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Qual o sentido de se polemizar com Olavo de Carvalho?


Confesso: nutro inveja baixa, rasteira e mesquinha pelo ócio alheio. Invejo gente como Ruy Fausto e outros que, à falta de coisa melhor para fazer, decidem “polemizar” ou “desconstruir” os pressupostos “teóricos” do grande guru do Bolsonarismo, o primata que atende pelo nome de Olavo de Carvalho.

Nos dias que correm, pouco importa criticar os arrazoados e os vídeos de um sujeito que durante anos pertenceu ao limbo do lumpesinato intelectual, pelo absurdo de suas proposições. Vale mais investigar os motivos que levaram um tipo desse calibre – sem trocadilho – a figurar no proscênio da atividade política, com o poder de indicar nomes para o primeiro escalão do governo entrante.

Aliás, a pergunta vale também para Messias Bolsonaro, que ao longo de quase três décadas não passava de personagem folclórico e mentalmente indigente, a destilar asneiras onde quer que estivesse. Como e por que o ex-capitão chegou lá? Como se fertilizou o terreno no qual viceja a extrema direita pátria?

Fracasso no passado

O radicalismo reacionário nunca teve grande acolhida pelo voto popular. A única vez em que setores assim disputaram de peito aberto uma eleição foi em 1955, com o integralista Plínio Salgado (PRP). Ele chegou em quarto lugar na corrida presidencial, com 8,28% dos votos. O eleito à época foi, como se sabe, Juscelino Kubitschek (PSD), com 35,68% dos sufrágios. A ele, se seguiram Juarez Távora (UDN), com 30, 27% e Adhemar de Barros (PSP), que alcançou 25,77% da decisão dos eleitores. Não havia segundo turno.

Plínio Salgado (1895-1975) estava anos luz à frente de Bolsonaro em termos intelectuais e políticos. Jornalista, romancista e ensaísta, teve participação lateral na Semana de Arte Moderna, em 1922, e arregimentou para o movimento integralista, a partir de 1932, jovens intelectuais como Gustavo Barroso, Miguel Reale, San Tiago Dantas, Câmara Cascudo, Neiva Moreira, Gofredo da Silva Teles, Gerardo Melo Mourão, Vinícius de Morais, Hélder Câmara, Ernâni Silva Bruno, José Lins do Rego, Roland Corbisier, Álvaro Lins, Seabra Fagundes, Abdias do Nascimento e outros. Eram figuras de nível muito mais elevado que Olavo de Carvalho, Janaína Pacchoal ou Joyce Hasselmann.

Cenário conturbado

As eleições presidenciais disputadas por Salgado também se deram em cenário conturbado. Aconteceram logo após a tentativa de golpe por parte da direita, que levou ao suicídio de Getúlio Vargas, em 1954. Não vai aqui nenhum paralelo histórico, arriscado em casos assim. Mas houve uma maré montante de denúncias de corrupção contra um governo progressista, que foi seguido pela desastrada gestão de João Café Filho (1954-55). O ex-jogador de futebol potiguar e conspirador contra Vargas assumiu a cadeira presidencial e chamou Eugenio Gudin, um alucinado liberal, para o ministério da Fazenda.

Gudin promoveu uma política de estabilização econômica baseada no corte das despesas públicas e na contenção da expansão monetária e do crédito, o que provocou uma crise em setores da indústria paulista. O desastre do governo Café Filho está intimamente ligado a essa opção econômica.

O PIB de 1955 para 1956 desabou de um crescimento de 8,8% para 2,9%, segundo o IBGE. Mas “O preço do café, em moeda nacional, cresceu quase cinco vezes entre 1948 e 1956”, assinala Delfim Netto em sua tese de livre docência “O problema do café no Brasil”, defendida em 1959. Entre 1954-55, houve uma queda expressiva nos preços, recuperada em seguida.

Com todas as dianteiras intelectuais e políticas, o resultado do integralismo foi pífio.

Surfando na crise

Apesar de suas limitações, Olavo de Carvalho e Bolsonaro – cada um à sua maneira – souberam surfar em um terreno de depressão aberta, a partir de 2015. Lembremos, o desemprego saltou de 4% em dezembro de 2014 para 11% em março de 2016 e o PIB desabou 8% nesses dois anos. Mais do que estatísticas, abriu-se aí uma fase de queda acentuada dos padrões de vida, da classe média para baixo, e um desencanto com a capacidade da política resolver algum problema objetivo na vida das pessoas.

Esse é o exame e o debate a serem feitos para que possamos compreender como e porque figuras tão desprezíveis em todos os sentidos se transformaram em condestáveis da República.

Não vale a pena – me parece - gastar tempo com a “obra carvalhiana” em si, a não ser que o ócio seja abundante.

(De uma conversa com Artur Araújo)

Gilberto Maringoni
No GGN
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Os erros e os acertos da esquerda na campanha eleitoral

Não creio que a derrota de outubro possa ser creditada a erros na condução da campanha de Haddad.

Erros ocorreram, decerto. Nada no mundo é perfeito – com exceção, talvez, das suítes para violoncelo de Bach e de algumas gravações do quinteto de Miles Davis, com Coltrane no sax, nos anos 1950. Mas a campanha foi a possível para o PT, nas circunstâncias em que ocorreu. Estive com Boulos no primeiro turno, mas avalio que o PT fez as opções certas do ponto de vista das chances eleitorais.

A insistência inicial na candidatura de Lula cumpriu seu papel de marcar a identidade e denunciar o arbítrio. A transferência de votos começou bem, apesar da facada de Adélio, e só não se concretizou como previsto devido à onda de mentiras nas redes sociais. Haddad se mostrou um excelente candidato, com firmeza e serenidade notáveis – e isso digo eu, que sempre o achei um representante do setor menos combativo de seu partido. A mudança do holofote da campanha para ele, sem por isso esconder Lula, no segundo turno, foi correta e bem feita. Tenho dúvidas sobre a solução para a vice-presidência, mas não é tão relevante. Os programas de TV foram, em geral, excelentes.

Sem querer voltar a um assunto vencido, é claro que Ciro Gomes não teria sido melhor opção. Ao se tornar a opção da esquerda, ele teria atraído para si todo o antipetismo. Seu temperamento explosivo o torna alvo ideal para a campanha suja na internet. E ele não teria a seu favor a militância que se mobilizou no segundo turno. Aposto mil reais que ele ficaria bem abaixo dos 47 milhões de votos que Haddad conquistou – quem tiver acesso a uma dimensão paralela depois avisa se ganhei ou perdi a aposta. (E nem estou falando do projeto político ambivalente de Ciro, já que meu ponto aqui não é projeto, mas potencial eleitoral.)

Os erros que fragilizaram a esquerda em geral e o PT em particular vêm de antes. Não creio que pudessem ser resolvidos no espaço de uma campanha eleitoral.

O primeiro deles é de caráter prático: incapacidade de entender as mudanças que as mídias sociais trouxeram para a dinâmica da disputa política. Sim, a campanha de Haddad podia ter se mexido mais nessa área, mas o fato é que a direita investe pesadamente há anos e tem uma vantagem enorme. Como regra, preferimos virar o rosto e não olhar para esse feio mundo de correntes de zap, canais de youtube e “digital influencers” turbinados por dinheiro grosso. Não se trata de mimetizar as táticas da direita – acredito numa esquerda que não tenha nem os recursos nem a falta de escrúpulos necessária para isso – mas de entendê-las para assim encontrar formas de combatê-las.

O segundo é circunstancial: o fraco enfrentamento da narrativa imposta pela direita sobre a política brasileira. O sociólogo Jessé Souza condenou recentemente a fraca crítica à Lava Jato durante a campanha, tanto por Haddad quanto por Ciro, que adotaram o discurso de apontar apenas desvios pontuais. Sem dúvida. Mas, do ponto de vista eleitoral, uma guinada deste tipo dificilmente seria produtiva. Desde o escândalo do mensalão, a parcela majoritária da esquerda brasileira foge de qualquer confronto com a indústria do “combate à corrupção” e busca apenas uma acomodação com ela. A maneira como o governo Lula permitiu o desenrolar da investigação e do julgamento do mensalão, sem esboçar qualquer reação, apontou o padrão que prosseguiu com a Lava Jato.

Trata-se de uma manifestação do terceiro erro, certamente o mais fundamental de todos: a opção por uma política de evasão do enfrentamento, desde sempre. Não se trata de fazer a crítica ritual à “conciliação de classes”, mas de ver que o lulismo, que entendo como a resposta a uma correlação de forças muito negativa para o campo popular, optou por não trabalhar para mudar esta correlação mesmo quando as circunstâncias pareciam mais favoráveis. Não institucionalizou práticas democratizantes, não mexeu no aparelho repressivo do Estado (Judiciário à frente) e nem mesmo no seu comando, não investiu na mobilização de suas bases, não agiu contra o monopólio da informação, não politizou o debate, não disputou as representações dominantes do mundo social.

As vitórias eleitorais do PT caminharam junto com o avanço da ideologia do empreendedorismo e da “meritocracia”, do individualismo e da dessolidariedade, do neopentecostalismo reacionário. O valor da igualdade foi dissolvido na “igualdade de oportunidades” liberal. A identidade de classe trabalhadora foi apagada em favor de uma noção farsante de “classe média”. A ideia de “luta de classes” só existia como acusação na boca de seus adversários. O partido exibia não só para seus aliados de ocasião, mas para o próprio eleitorado, a modéstia de suas ambições transformadoras como demonstração de confiabilidade. Mas sem o enfrentamento das visões de mundo que comandam os afetos políticos, qualquer avanço é incerto.

Luis Felipe Miguel, professor de ciência política da UnB
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