2 de dez de 2018

Jornalista dos EUA que concordou com Eduardo Bolsonaro sobre “socialismo” no Brasil difundiu fake news sobre Obama

Lou Dobbs, que entrevistou Eduardo Bolsonaro, e Trump
Em sua turnê nos Estados Unidos a serviço de seu pai, Eduardo Bolsonaro garantiu que o Brasil não mais viverá sob o tacão do socialismo. 

A declaração foi dada na noite de sexta em entrevista a Lou Dobbs, âncora da Fox News, e foi repercutida por Jair Bolsonaro em suas redes.

“O que eu vim fazer aqui nos Estados Unidos é dar os primeiros passos para o resgate da nossa credibilidade e mandar uma mensagem clara de que nunca mais seremos um país socialista”, papagueou, num inglês moroniano.

Um jornalista medianamente informado que ouvisse uma imbecilidade desse gênero responderia com uma obviedade: “quando o seu país foi socialista?”

Ao invés disso, o ancião comentou qualquer coisa do tipo “nenhum país socialista deu certo” e bola pra frente.

Dobbs é o sujeito que foi para a Fox após sair da CNN na esteira de uma campanha de fake news contra Barack Obama.

Em 2009, promoveu a teoria da conspiração de que Obama não nasceu nos Estados Unidos, chamada “birtherism”.

Os “birthers”, malucos de extrema direita (qualquer coincidência é mera semelhança), espalharam que Obama não veio ao mundo no Havaí, o 50º Estado americano, mas no Quênia, onde nasceu seu pai.

A Constituição americana determina que um presidente deve ter nascido no país.

No bojo da palhaçada embutiam que o nome do meio de Obama era “Muhammad”. A implicação óbvia era de que ele era muçulmano.

Assessores colocaram uma imagem digitalizada do seu certificado de nascimento na internet para dissipar os rumores.

De nada adiantou.

As declarações de Dobbs em apoio a essa fraude causaram enorme embaraço a seu empregador. O comediante Jon Stewart fez uma série sobre o caso em seu Daily Show.

O New York Times apontou que Dobbs havia “se tornado um pesadelo para a CNN e envergonhado seu chefe”.

Lou Dobbs apoia Donald Trump abertamente. Sua entrevista com Trump ficou famosa como um dos maiores exemplos de puxasaquismo na TV mundial.

Ele abriu o papo com “você conquistou tantas coisas” e a alturas tantas dirigiu-se a Trump como “um dos mais amados e respeitados presidentes da história”.

Quando você achar que colunistas chapa branca de direita são exclusividade nacional, lembre-se de Lou Dobbs.

Eduardo Bolsonaro fez propaganda de seu pai com um pau mandado da Casa Branca.



Kiko Nogueira
No DCM
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Olavo de Carvalho diz que aceitaria ser embaixador do Brasil nos EUA


Em sua primeira entrevista à televisão brasileira após as eleições presidenciais, o filósofo, escritor e jornalista Olavo de Carvalho conversa com Moisés Rabinovici no programa Um olhar sobre o Mundo que vai ao ar nesta segunda-feira (3), às 21h45, na TV Brasil. Considerado o mentor intelectual do novo governo e de grande parte do movimento direitista que levou Jair Bolsonaro ao poder, Olavo de Carvalho já indicou dois ministros para o presidente eleito. Na entrevista, ele disse que não quis ocupar nenhum ministério, mas que aceitaria ser embaixador do Brasil nos Estados Unidos, onde já reside.

Carvalho afirmou que essa seria uma missão que poderia assumir para contribuir com o Brasil porque é nos Estados Unidos que estão os recursos que o país precisa para se desenvolver. “O Bolsonaro, em discursos, duas vezes disse que me ofereceu dois ministérios, o da Educação ou da Cultura. Eu informei que não aceitaria nenhum. Então para não dizer que a minha má vontade é total eu disse que, em hipótese, eu aceitaria, a de embaixador nos Estados Unidos. Aceitaria por um motivo muito simples. A coisa que o Brasil mais precisa é dinheiro. E onde está o dinheiro? Está aqui. Então eu posso fazer algo útil para o Brasil. Vou lá e pego os US$ 267 bilhões que o Trump diz que tem para investir no Brasil. Mas isso não quer dizer que eu queira ser embaixador, nunca quis. Não quero mesmo. Acho um horror essa perspectiva. Seria um sacrifício. Se fosse, quero que seja temporário”, assegurou.

Em contrapartida a essa aproximação com os Estados Unidos, ele recomenda que o Brasil deve ser duro com a China. “O que você acha melhor se nós estamos numa posição de dependência? O melhor é depender dos Estados Unidos ou depender da China? A China é um país que tem uma prosperidade enorme em cinco cidades. O resto é uma miséria sem fim. É um país que não sustenta nem a si mesmo. Tudo que tem, ele gasta em armas. É o país que tem o maior exército de terra do mundo. Em segundo lugar, a China é obviamente um país imperialista. Vai ver a situação do Tibet. Você prefere ser vizinho dos Estados Unidos ou da China?”

Segundo Olavo de Carvalho, se concretizada uma ameaça da China de retirar os negócios do Brasil, isso acarretaria um prejuízo temporário, que seria depois compensado pelo dinheiro norte-americano. “Mas não me parece que a ameaça deles seja desse tipo. Essa ameaça me parece francamente belicosa. É uma ameaça para saber com quem nós estamos lidando”, argumentou Carvalho. Segundo ele, a China pratica uma economia fascista com um Estado controlador aliado a grandes grupos econômicos.

Ele também falou sobre filosofia, sobre o crescimento da direita no Brasil e no mundo e comentou o resultado das últimas eleições presidenciais com vitória de Bolsonaro. “Vinte anos atrás eu disse: o primeiro candidato que se apresentar com um programa conservador vencerá. Todo mundo achou que era loucura. Está aí: venceu”, afirmou.

Sobre a perspectiva de crescimento da direita em vários países do mundo ele não quis fazer previsões, mas argumentou que a política é sempre pendular. “Aqui nos Estados Unidos você tem democratas e republicanos. Na Inglaterra, você tem conservadores e trabalhistas. E assim por diante. Às vezes a direita está no poder, às vezes a esquerda. Esse negócio é cíclico. Ninguém pode contar com a hipótese de estar no poder eternamente. Agora, no Brasil, só havia a esquerda. Isso durante 50, 60 anos. Todas as pesquisas de opinião mostram que o povo brasileiro é acentuadamente conservador. No entanto, num país de maioria conservadora, você não tinha um partido conservador, um jornal diário conservador, um canal de TV conservador, uma universidade conservadora, nada. Quer dizer, a maioria não tinha canais de expressão. A maioria estava excluída da política.”
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Filhos de Bolsonaro precisam refletir no cantinho do castigo


Joice Hasselmann, a plagiadora geral da nação, disse durante a eleição que o PT forjaria um falso atentado contra Haddad para criar comoção em seu favor. Era só mais uma das inúmeras mentiras jogadas no ar pelo bolsonarismo para manipular a a opinião pública. Mesmo após a eleição, toda hora cria-se um bicho-papão diferente para manter o clima de medo e a tropa alerta. Sempre há uma força obscura conspirando contra o pobre coitado de Jair Bolsonaro. A nova onda da trupe agora é cobrar nas redes sociais os nomes dos reais mandantes da facada sofrida pelo então candidato.

Segundo as investigações até aqui, Adélio Bispo, o autor da facada em Juiz de Fora, agiu sozinho e não há nada que indique haver outros atores na tentativa de assassinato além das vozes da sua cabeça. Mesmo assim, Joice e os filhotes de Bolsonaro seguem alimentando a conspiração de que há gente muito poderosa empenhada em acabar com a vida desse homem simples que come pão com leite condensado.

Nessa semana, os pescadores de ilusões trouxeram uma novidade fresquinha para o mercado da boataria. Carlos Bolsonaro lançou uma suspeita gravíssima no Twitter, afirmando que há gente no seio do governo eleito que deseja a morte do presidente. Ele insinua que há forças ocultas querendo ver seu pai no caixão, mas dessa vez o inimigo é outro.

Se há alguma suspeita de que se conspira contra a vida do presidente eleito, é obrigação do vereador, que por um acaso é o seu filho, denunciar à Polícia Federal e esclarecer a população. Quem seriam esses inimigos internos que desejam secretamente a morte do presidente? Carlos não dará nome aos bois porque tudo leva a crer que nada disso é verdade. A mentira já virou um cacoete da família Bolsonaro.

O histórico de Carlos confirma a suspeita. Ele, que é considerado o grande estrategista de Bolsonaro na internet e chegou a ser cogitado para o ministério da Comunicação, não usa as redes sociais apenas para fazer seu proselitismo chulé, mas também para espalhar boatos que ajudem a impulsionar as narrativas bolsonaristas. Durante a campanha, ele manipulou o processo eleitoral com pelo menos três grandes mentiras: divulgou um cartaz falso que associava gays à pedofilia; publicou uma notícia falsa que dizia que o TSE enviou os códigos das urnas eletrônicas para a Venezuela; compartilhou a informação falsa de que Haddad escreveu um livro defendendo o incesto. Alertado sobre essas mentiras, Carlos não apagou os tweets imediatamente (alguns não foram apagados até hoje) e não fez qualquer retratação.

A fabricação do novo boato parece ter o objetivo de enviar um recado para aliados que viraram pedras no sapato da família Bolsonaro. Pode ser para o vice Mourão ou pode ser para Bebianno — ambos estão em conflito com os filhos do presidente desde a campanha.

A eleição acabou, mas o filho do mandatário máximo do país continua brincando de teoria da conspiração. Só que dessa vez ele está jogando uma grave suspeita sobre o próprio governo. Não estamos mais falando de mamadeiras de pirocas que prejudicam o adversário, mas da vida de um presidente que acabou de ser democraticamente eleito. A denúncia irresponsável não teve maiores consequências porque Carlos não é levado a sério por ninguém. Mas até onde o vereador será capaz de chegar?

O presidente eleito, em vez de tentar amenizar o estrago, deu asas à irresponsabilidade do filho e confirmou que realmente é um cabra marcado para morrer: “Minha morte interessa a muita gente”.

O outro filho de Bolsonaro, Eduardo, também protagonizou suas presepadas nessa semana, mas com o agravante de serem internacionais. Com muita raça e pouca técnica, Bolso-filho foi aos EUA representar Bolso-pai e se saiu muito mal. Não se portou como o representante da Câmara mais votado da história do país, mas como o filhinho cheio de autoridade para falar sobre tudo o que envolve o governo de papai. Segundo ele, o objetivo da viagem era o de “resgatar a credibilidade do Brasil”, o que certamente ficou longe de acontecer.

Eduardo vestiu o boné da campanha de reeleição de Trump e ainda pediu para ser fotografado, ignorando que o próximo presidente americano com quem Bolsonaro irá tratar pode ser um democrata. Além de cumprir esse papelão de cabo eleitoral, Eduardo confirmou diversas bobagens que o seu pai já tinha desconfirmado, como a transferência da embaixada de Israel para Jerusalém. “A questão não é perguntar se vai, é perguntar quando vai”, decretou Eduardo.

Na prática, a mudança serve apenas para bajular Trump e Israel e colocar a nossa vantajosa relação comercial com os países árabes em risco. O alerta do general Mourão, que havia recomendado cautela sobre esse tema, foi ignorado. É que Eduardo acredita que não teremos nenhum problema com os países árabes. Ele acha que ao se posicionar contra o Irã – para ele, é a maior ameaça à região –, o país deixará claro a sua intenção de manter bom relacionamento com o resto das nações árabes. Essa análise não faz o menor sentido e não passa de mais uma infantilidade puramente ideológica. O Brasil teve um superávit de US$ 4,5 bilhões com Irã neste ano, tendo crescido 77% em relação a 2017. É o maior importador de milho do Brasil. É o nosso sexto maior cliente no mundo e representa o segundo maior superávit, só perdendo para a China.

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Foto: TV Globo/Reprodução

E por falar em China, Eduardo também resolveu criar atrito com nosso principal parceiro comercial, imbuído de uma necessidade canina em demonstrar fidelidade ao governo Trump. Mas latir para a China e abanar o rabo para os EUA é uma estupidez retumbante para um país que pretende se recuperar de uma crise econômica. Mais uma vez, General Mourão, que é, vamos dizer assim, o homem mais sensato do bolsonarismo, havia avisado que “não podemos nos descuidar do relacionamento com a China”. Mas quem segura o ímpeto de Eduardo?

Ele afirmou para os investidores americanos que o país asiático “é o maior parceiro do Brasil não por causas naturais, mas porque nossos ex-presidentes quiseram fazer isso. Se trabalharmos para deixar o mercado livre e com políticas liberais, os EUA estarão de volta como principal parceiro comercial do Brasil” — uma idiotice que fala por si só.

Apesar de ser um importante parceiro comercial, nossa relação comercial com os EUA nos últimos 10 anos tem sido desvantajosa. Os americanos tiveram um superávit neste período de US$ 90 bilhões. Há dois meses, Trump reclamou dos negócios com o Brasil: “Eles cobram de nós o que querem. Se você perguntar a algumas empresas, eles dizem que o Brasil está entre os mais duros do mundo, talvez o mais duro”.  O perfil protecionista de Trump e o histórico recente da balança comercial não deixam dúvidas de que a China é um parceiro comercial muito melhor para o capitalismo brasileiro. Que raio de capitalistas são esses que vão nos governar?

Mas teve mais presepada nessa viagem. Em um almoço com investidores americanos, Eduardo quis bancar o sincerão e disse que seria difícil aprovar a reforma da previdência. Era tudo o que investidores não queriam ouvir. Ele chegou até a se desculpar de antemão por um possível fracasso do governo na aprovação da reforma. Em vez de transmitir otimismo e confiança a quem está disposto a investir seu dinheiro no Brasil, transmitiu desconfiança e pessimismo. A declaração repercutiu na imprensa, e Eduardo correu para as redes sociais para negá-la:

O deputado tentou desmascarar a imprensa, mas saiu desmascarado. Como a declaração foi feita em um encontro fechado, Eduardo nunca imaginou que alguém poderia tê-la registrado. Caiu do cavalo. O Estadão publicou o áudio, que contém exatamente a frase que ele nega ter dito. Mesmo assim, não apagou o tuíte e nem se retratou, como já é um costume de família. Bolso-pai, dessa vez, repreendeu Bolso-filho em público e disse que foi um “equívoco do garoto”. O garotinho de quase 40 anos tomou bronca do papai, apesar de representá-lo no exterior com o seu aval.

Quando é que Bolsonaro irá colocar suas crias dentro dos seus respectivos quadrados? Esse governo vai ser mesmo um projeto de monarquia da família Bolsonaro? São homens, representantes do povo com enormes responsabilidades, mas se comportam como crianças mimadas que tratam o Brasil como se fosse a nova empresa do papai. Está na hora de mandá-los refletir no cantinho do castigo.

João Filho
No The Intercept
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Pastora cotada para o ministério de Bolsonaro é a mãe da farsa do kit gay

Bolsonaro, maior beneficiário da fraude, e uma das maiores divulgadoras da mentira do kit gay nas escolas
A advogada Damares Alves, assessora do senador Magno Malta e da Frente Parlamentar Evangélica, é o que se pode considerar a mãe da farsa do kit gay.

Magno Malta é o pai e Jair Bolsonaro o maior beneficiário da fraude.

Damares, que também ostenta o título de pastora, está sendo cogitada para assumir o Ministério da Cidadania, no governo de Bolsonaro.

Foi vazada a informação de que ela teria sido convidada para o cargo, convite que levou à reação de lideranças evangélicas, como Silas Malafaia.

Essas lideranças entendem que o cargo deve ser destinado ao chefe de Damares.

Como Magno Malta, Damares tem um histórico de divulgação de dados e histórias que não guardam nenhuma relação com a verdade.

Magno Malta, por exemplo, é acusado de imputar uma falsa acusação de pedofilia contra um cobrador de ônibus, torturado pela polícia depois de ser preso.

A prisão teve como base a afirmação de que Malta, presidente da CPI da Pedofilia, endossou a denúncia.

O delegado que defendeu a medida cautelar extrema contra o cobrador considerou que o senador tinha credibilidade para fazer a acusação.

Se Magno Malta falou, é porque deveria ser verdade.

Mais tarde, com o processo criminal, constatou-se que a manifestação de Magno Malta não passava de calúnia.

Damares foi precursora do discurso de que as escolas públicas brasileiras teriam se tornado centros de perversão nos governos do PT.

Em 2013, um ano antes da eleição em que Malta apoiaria Aécio Neves, ela já percorria as igrejas evangélicas de todo o Brasil, para palestras com conteúdo mentiroso.

A professora Magali Nascimento Cunha, que é da Igreja Metodista e doutora em Comunicação, analisou uma dessas palestras, realizada no dia 13 de abril de 2013.

“Ao se assistir integralmente a palestra de 1h13m, percebe-se que a seleção de materiais da qual a advogada faz uso são extratos adaptados artificial e forçosamente à sua pauta de abordagens. Os extratos são apresentados como se fossem a íntegra das cartilhas e livros e a explicação oferecida traz, além de elementos críticos genéricos e imprecisos, inverdades e manipulação explícita de dados para dar veracidade às abordagens”, escreveu ela.

Damares começa sua palestra com uma falsa acusação contra Marta Suplicy, que se elegeu prefeita de São Paulo em 2000 pelo PT.

“Esta mulher, quando era prefeita da cidade de São Paulo, irmãos, ela gastou dois milhões de reais com aquele grupo, o grupo GTPOS, para ensinar sobre ereção e masturbação em bebês nas escolas”, disse.

A palestrante faz biquinho, ajeita os óculos, com ar de indignação, e reforça com o indicador e o dedo médio da mão direita o valor que supostamente teria sido gasto: “Dois milhões de reais”.

E então teoriza sobre esse suposto projeto de erotização das crianças nas escolas:

“Chegou à conclusão (ela omite o sujeito da frase) a um grupo de especialistas, e esse grupo começou lá na Holanda, lá na Europa e já está influenciando que nós precisamos a aprender a masturbar os nossos bebês a partir dos sete meses de idade.”

Em seguida, conta que na Holanda os especialistas defendem a masturbação em bebês, com o objetivo de que, na idade adulta, sejam saudáveis sexualmente.

Damares não apresenta a fonte desta informação, mas o registro que apresenta é fraude pura.

A reportagem a que se refere, publicada no Estadão, não faz nenhuma referência ao ensino de masturbação em crianças.

É, na verdade, a notícia de que Marta teria contratado uma ONG da qual foi presidente para consultoria sobre educação sexual na rede pública, sobre como fazer a abordagem correta sobre o tema, na educação de adolescentes.

No que diz respeito a creches, não há nenhuma referência, mas contratos anteriores da Prefeitura com a mesma ONG indicam que houve, sim, consultoria no ensino infantil, mas com objetivo completamente diverso do que o propalado pela pastora Damares.

O objetivo era esclarecer educadores municipais sobre como “lidar com temas como ereção e masturbação infantil”, tema estudado por Sigmund Freud nos anos 20 do século passado.

A contratação recebeu críticas da imprensa, mas por outro motivo, a contratação da ONG sem licitação.

O “Estadão” abordou o tema em editorial e chegou até destacar como positiva a preocupação da administração com o tema: a crítica do jornal era em relação ao preço da contratação.

“São inúmeras as boas publicações a respeito do assunto (algumas até obrigatórias para qualquer educador), que poderiam tirar as dúvidas dos profissionais das creches a custo bem menor”, escreveu.

Marta respondeu a um processo movido pelo Ministério Público do Estado, mas pela contratação sem licitação. Foi inocentada em 2015.

A história masturbação de bebês só existiu na cabeça de pessoas como Damares.

Na mesma palestra, Damares inventa que na Holanda estavam sendo distribuídas cartilhas para ensinar os pais como massagear sexualmente as crianças.

E emenda?

“Isto está acontecendo no Brasil.”

Ela lança um desafio ao público presente na igreja:

“Pais, quando foi a última vez que vocês abriram a mochila dos seus filhos? Qual foi a última vez que você abriu o livro didático e conferiu o que seu filho está lendo e estudando na escola?”

Em seguida, critica os crentes que apoiaram a escola em tempo integral ou a lei sancionada no governo de Dilma Rousseff, que tornou obrigatório o ensino pré-escolar a partir dos 4 anos na escola.

Na verdade, segundo os especialistas, quanto mais cedo a criança tiver contato com o mundo letrado, melhores condições ela terá de aprender ao longo da vida.

É científico.

Mas, para Damares, a questão era outra: a escola seria um centro de perversão e os pais, culpados por colocar filhos no mundo e depois transferir a responsabilidade pela educação ao Estado.

“Igreja evangélica, Deus está nos chamando para fazer uma revisão de valores, uma revisão de conceitos”, pregou.
A professora Magali, da Universidade Metodista, conferiu um a um os registros apresentados em powerpoint pela pastora Damares.

Na palestra, é apresentado o livro publicado no Brasil pela Companhia das letras com informações sobre educação sexual para adolescente, “Aparelho Sexual e Cia.”.

É aquele livro que Jair Bolsonaro mostrou na entrevista ao vivo no Jornal Nacional, na reprodução da farsa de que faria parte do kit gay — que nunca existiu.

A professora Magali, já em 2013, analisou a informação e escancarou a fraude.

“O livro foi publicado como obra paradidática em 2007 pela editora Companhia das Letras e é dirigido a pré-adolescentes de 9 a 14 anos, diferentemente da faixa apresentada pela palestrante. A obra, na verdade, não consta nas listas do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) e nem do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD)”, esclareceu.

No artigo, a professora publicou os links para o leitor conferir.

O artigo completo de Magali Nascimento Cunha pode ser lido aqui.

Um resumo do artigo também foi publicado no site da Universidade Metodista.

Doutora em comunicação, Magali também é professora da Faculdade de Teologia da Universidade Metodista e, conhecedora das estratégias de comunicação de pastores, explica por que o vídeo havia viralizado, apesar de mentiroso.

“O sucesso do vídeo da palestra entre grupos cristãos (…) pode ser explicado pela linguagem agressiva utilizada e o apelo emocional no discurso, que, ao mesmo tempo em que torna inquestionáveis os argumentos (a palestra é apresentada durante um culto evangélico, colocando-lhe num ambiente de sacralidade e verdade), dá um caráter de credibilidade à palavra de alguém que se apresenta não só como política, mas como mãe, educadora e cristã”, afirmou.

Damares, pelo que demonstra essa palestra, o embrião da farsa do kit gay, não tem nenhuma credibilidade.

Em qualquer lugar civilizado do mundo, estaria descredenciada para altos cargos na administração pública.

No governo Bolsonaro, o descompromisso com a verdade factual parece algo que conta a favor.

* * *

Para quem tem estômago, segue o vídeo da palestra que é o embrião do kit gay:



Joaquim de Carvalho
No DCM
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Obrador negocia com Cuba para levar ao México os médicos saídos do Brasil


O novo presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, está prestes a fechar um acordo para receber pelo menos 3 mil médicos cubanos que vinham trabalhando no Brasil. A negociação entre o primeiro representante da esquerda a chegar à presidência mexicana e o regime cubano começou em setembro, segundo apurou o Estado. Cuba anunciou que retiraria seus médicos do Brasil no dia 14.

As tratativas foram mantidas em sigilo, até agora. Obrador tem um plano de austeridade que pretende reduzir o salário de servidores públicos, entre eles os médicos. Os cubanos que passaram pelo Brasil, portanto, ajudariam a cobrir cortes nos gastos públicos. “É austeridade, não vingança”, repetiu Obrador como um slogan durante sua campanha.

Lázaro Cárdenas Batel, o novo coordenador de assessores da presidência mexicana, tem sido o elo entre os representantes do regime cubano, presidido por Miguel Díaz-Canel, e colaboradores dos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. O objetivo: uma adaptação mexicana do Mais Médicos, um programa que envolveu cerca de 15 mil especialistas cubanos designados para 1,6 mil municípios em algumas das áreas de mais difícil acesso do Brasil.

Cárdenas Batel mantém relação próxima com Cuba. Os laços ficaram em destaque quando ele foi eleito governador de Michoacán em 2002. “Estudei no Instituto Superior de Arte de Havana, minha mulher é cubana e, obviamente, tenho uma relação fraterna e próxima com esse país. Minha relação com Cuba não é a relação do governo ou de qualquer autoridade de Michoacán com Cuba”, disse há 14 anos aquele que é agora um dos colaboradores mais próximos da presidência de Obrador.

Mais de 400 funcionários cubanos atuaram como assessores de Cárdenas Batel do governo michoacano durante seu mandato – assim como o pai, ele comandou o Estado. Cinquenta professores cubanos ocupavam cargos na Secretaria de Educação local para um programa de alfabetização implementado apenas para esse fim. Ele conseguiu que outros fossem recebidos em programas semelhantes em Oaxaca, Veracruz e Tabasco.

A conjuntura produzida em apenas três meses e os cenários políticos no México e no Brasil permitiram que as habilidades diplomáticas de Cárdenas Batel saíssem em resgate do Mais Médicos, um programa que o regime cubano mantém em 67 países, mas poucos tão importantes quanto Venezuela e, até poucos dias, o Brasil. O jornalista de Michoacán Jesús Lemus disse que a mulher de Cárdenas Batel, Mayra Coffigny, tem sido “um fator fundamental” para fortalecer os laços entre o regime de Castro e do governo de seu marido. Coffigny nunca escondeu sua simpatia e admiração por Fidel Castro.
‘Modelo europeu’

Os médicos cubanos que participarem de missões no México devem receber um quarto de seu salário. O restante ficará com o regime cubano. Obrador disse que o esquema atual de saúde pública no México é “insuficiente” e prometeu que sob seu governo, os mexicanos terão acesso a um sistema semelhante ao do “Canadá, Dinamarca, Inglaterra e países nórdicos”.

Os caminhos para um sistema de saúde como os exemplos citados pelo novo presidente mexicano parecem difíceis. Os números do México em relação à saúde são alarmantes: mais da metade dos mexicanos não tem acesso a nenhum tipo de seguridade social, as reclamações entre os médicos contratados pelo Estado se estendem por todo o país e se agravaram depois que o ex-presidente Enrique Peña Nieto anunciou um corte no setor de saúde, que gerou uma onda de protestos em 2016.

As reclamações declinaram, mas não desapareceram. E os problemas crescem. Há poucos dias, o Sindicato dos Trabalhadores da Saúde em Chiapas, Estado onde oito em cada dez habitantes vivem na pobreza, completou um mês em greve por falta de pagamento e escassez de medicamentos e suprimentos médicos.

A evidente contradição entre a mensagem de austeridade de Obrador, que se movimenta em um VW Jetta 2013 valendo menos do que US$ 5 mil e se recusou a viver na residência oficial de Los Pinos por considerá-la “luxuosa”, e a falta urgente de recursos públicos para pagar os serviços mais básicos no México tem sido questionada com frequência.

Em resposta, vários colaboradores de Obrador insistiram repetidas vezes, em público, em particular, nas redes sociais e na frente dos microfones que o governo dele resolverá a falta de médicos nas áreas mais negligenciadas do país, mas até agora ninguém tinha explicado como isso seria feito. Agora se sabe que uma das soluções, segundo membros de seu próprio gabinete, aponta para Havana. Um programa do tamanho de Mais Médicos não tem precedentes no México.
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Emocionante homenagem a Obrador pelos povos originários do México


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Após cinco anos, STF vai julgar pedidos de criminalização da homofobia

Tribunal marcou para o dia 12 de dezembro a análise de duas ações que pedem a equiparação da discriminação contra LGBTIs ao racismo

O Supremo Tribunal Federal (STF) marcou para o dia 12 de dezembro, o julgamento de duas ações que buscam a criminalização dos atos de ódio contra a comunidade LGBTI – sigla para Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Transgêneros e Intersexuais – chamados genericamente de homofobia ou LGBTfobia. Um dos pedidos é um mandado de injunção, impetrado pela Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo (APOLGBT) para que o STF defina o crime de homofobia, garantindo os direitos constitucionais desse segmento da população. No entanto, este pedido é considerado frágil, pois pode ser entendido como ingerência do Supremo sobre o Congresso Nacional, o que já motivou um pedido de adiamento de julgamento.

O outro pedido é uma Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão (ADO), impetrada pela Partido Popular Socialista (PPS), que determinaria ao Legislativo o dever de elaborar uma legislação nesse sentido. “É o tipo de ação que se faz quando o Congresso tem uma ‘mora legislativa’, quando a Constituição estabelece um tipo de garantia e de direito e o Congresso não a concretiza – transforma em lei – em um prazo razoável”, explicou o professor de Direito da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e ativista de direitos humanos, Renan Quinalha.

A ADO foi proposta em 2013. O PPS alega que o Congresso Nacional tem se recusado a votar o projeto de lei que visa efetivar tal criminalização. “O legislador não aprova, mas também não rejeita, deixando este e todos os outros temas relativos à população LGBT em um verdadeiro limbo deliberativo”, diz a petição inicial. Na ação, o partido pede a criminalização específica de todas as formas de homofobia e transfobia, especialmente as ofensas individuais e coletivas, os homicídios, as agressões e as discriminações motivadas pela orientação sexual e/ou identidade de gênero – real ou suposta – da vítima.

Segundo o advogado, a Constituição proíbe qualquer tipo de discriminação, mas não fala expressamente em orientação sexual ou identidade de gênero, que acaba incluída em ‘outras discriminações’. “O que se está pedindo é que o STF declare que a Constituição obriga a proteção da cidadania e dos direitos da população LGBTI. Normalmente para se criminalizar uma conduta é preciso uma lei, no sentido formal. É o Legislativo quem faz isso e não o Judiciário. Então se pede que o STF faça que ele já fez no passado, em um processo conhecido como Caso Ellwanger, no Rio Grande do Sul”, explicou.

O Caso Ellwanger é uma referência ao livreiro que publicava livros com conteúdo antissemita, no Rio Grande do Sul. O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul o condenou por racismo, com base na legislação de 1989, e o STF negou-lhe um pedido de habeas corpus. “O Supremo entendeu que o conceito de racismo é um conceito político social mais amplo, não só para questão de raça, cor de pele, mas que se enquadra em qualquer tipo de inferiorização de um grupo por outro, por um atributo que o grupo tenha. Então foram incluídos judeus nesse grupo. E agora se pede a inclusão da comunidade LGBTI”, explicou Quinalha.

Para o advogado, é muito importante que essa discussão seja ampliada com uma decisão do STF, sobretudo em tempos que se quer proibir qualquer discussão sobre diversidade sexual e gênero em escolas e espaços culturais. “O Brasil é o país que mais mata LGBTIs no mundo, segundo os dados levantado pelo Grupo Gay da Bahia, que é o que a gente tem de monitoramento porque o Estado brasileiro sequer monitora a violência contra a comunidade LGBTI, não temos dados oficiais. Ainda assim, o que temos é uma pessoa LGBTI assassinada a cada 19 horas e isso certamente é subestimado. Alguma coisa precisa ser feita”, ressaltou.

Para a coordenadora nacional do Movimento Mães pela Diversidade, organizado por familiares de LGBTI, a importância desse julgamento é imensa. "A gente só vai inibir o preconceito, a discriminação e a violência com a lei. E todos os preconceitos já estão equiparados ao racismo, inclusive o preconceito religioso. Menos a LGBTfobia. Meu filho já sofreu todo o tipo de violência e eu espero que o STF finalmente faça justiça e livre a população LGBT e suas famílias da políticas persecutórias desse Congresso omisso. E nos retire da condição de cidadãos de segunda categoria", afirmou.

Hoje existem, ao menos, dois projetos que propõem a criminalização da homofobia. O Projeto de Lei da Câmara (PLC) 122, de 2006, proposto pela ex-deputada federal Iara Bernardi (PT - SP) está arquivado no Senado. Em 2014, a deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) apresentou o PL 7582, com a mesma proposta, que está parado na Câmara.

Rodrigo Gomes
No RBA
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Oportunismo — Bozo palmeirense???


Em 1914 fomos fundados por operários imigrantes, o Palestra Itália é filho da classe trabalhadora, foi perseguido em 1942, teve que combater o fascismo internamente e externamente, virou Palmeiras e nasceu campeão.

Do que adianta uma história dessa, se a própria diretoria do clube a ignora, quando Felipe Melo dedicou um gol ao presidente eleito, a SEP soltou uma nota frouxa, para dizer o mínimo, mas clara: não se deve utilizar a imagem do Palmeiras para este tipo de manifestação.

Agora, com a taça nas mãos, a diretoria convida o Presidente eleito à nossa casa, contraditoriamente. Num jogo para comemorarmos a conquista de mais um título nacional, convida-se um racista xenófobo, desrespeitando a história imigrante palmeirense.

Este oportunista que já se vestiu de diversas camisas – Vasco, Flamengo, Sport, entre outras -, quando lhe pareceu conveniente, não merece um lugar em nosso estádio.

A Sociedade Esportiva Palmeiras é muito maior que meia dúzia de engravatados na direção, somos 18 milhões, que tem o espírito e o amor daqueles que fundaram em 1914, somos filhos da classe trabalhadora, somos antifascistas, somos PALMEIRAS! Nenhum diretor vai apagar nossa história, resistimos ao fascismo em 1942, resistiremos hoje também!

A Palmeiras Antifascista – P16 repudia a presença de Jair Bolsonaro em qualquer evento que traga as cores e o símbolo do Palmeiras!
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Bolsonaro filho com as asneiras que disse na Fox, prejudica o Brasil


A entrevista que Eduardo Bolsonaro concedeu à Fox News, tem várias impropriedades, além da declaração dele de que o Brasil já foi uma república socialismo alguma vez na história.

“Estamos realmente otimistas porque o Brasil está mudando de uma gestão bem socialista para uma economia muito mais liberal. Portanto, o que vim fazer aqui nos Estados Unidos é dar os primeiros passos no resgate da nossa credibilidade. E mandar uma mensagem clara de que não seremos mais um país socialista”, disse.

O âncora Lou Dobbs poderia ter objetado, já que é um jornalista experiente  e até 2009 trabalhou na CNN, que não é uma emissora de direita como a Fox, mas esta é uma impropriedade (ou inépcia) que diz respeito à audiência dele.

Na relação econômica entre os países, a credibilidade é verificada por agências especializadas, que, durante os governos de Lula e Dilma, recomendaram investimentos no Brasil.

Para o público americano mais qualificado — entre os quais, os investidores —, deve causar estranheza que o portador da mensagem de resgate da credibilidade seja o filho do presidente eleito.

Em países com democracia consolidada, os assuntos de estado não são tratados como negócios de família.

Como lembrou Kiko Nogueira, em artigo neste site, esse comportamento é comum em ditaduras na África ou nos países árabes.

Um dos filhos do ditador Muamar Kadafi, Saif al-Islam Kadafi, por exemplo, costumava se movimentar fora das fronteiras da Líbia como primeiro-ministro do pai.

Deu no que deu.

Para quem pensa em investir no Brasil, ver o filho falar como será o governo do pai não gera segurança. Pelo contrário.

O que passa credibilidade é a força das instituições democráticas. Governos passam, elas ficam. E investidores pensam na estabilidade.

Além disso, a beligerância contida na mensagem de Eduardo Bolsonaro não ajuda em nada o Brasil.

Na mesma entrevista, ele disse que o governo de seu pai estuda não reconhecer as eleições da Venezuela — uma hostilidade gratuita.

Também voltou a falar de um tema que o pai foi aconselhado a manter em banho-maria.

“Adoraríamos mudar a embaixada do Brasil em Tel Aviv para Jerusalém, em Israel”, disse, para justificar a suposta semelhança entre seu pai e Donald Trump.

“Estamos bem animados de estarmos tão próximos dos Estados Unidos”, afirmou.

Bolsonaro sendo entrevistado pela Fox, num programa comandado por um jornalista experiente, que já foi até cogitado para disputar eleições presidenciais, lembra a fábula do jabuti em cima da árvore.

Jabutis, como se sabe, não sobem em árvore.

Na fábula, a cena incomoda um único animal, o cão, que, com seu instinto, achava que aquele jabuti fora de lugar, sem função alguma, desequilibrava o ecossistema. Bicho errado no lugar errado, sem nada para fazer, é um perigo. Cedo ou tarde, dá confusão.

Com latidos insistentes, chama a atenção do rei da Floresta, o leão, que acaba revelando que foi ele quem colocou o jabuti lá.

“Tenho meus motivos”, disse, depois de dar uma patada no cão e expulsá-lo da mata.

A fábula termina com a frase:

“Jabutis não sobem em árvores. Se ele está lá, alguém com esse poder o colocou lá.”

A família Bolsonaro é um jabuti bem pesado que ameaça derrubar o galho.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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Onde estão os governadores da "oposição"?

Eleitos por Lula, agora não veem a hora de enterrar o caixão do patrono


O Conversa Afiada publica sereno (sempre!) artigo de seu "colUnista exclusivo", Joaquim Xavier, que, se tiver juízo (provável que não tenha...), não pisa em Pernambuco tão cedo...:

Excrescências de covardes, sátrapas, aproveitadores e cínicos é o que não faltam na história. De Judas a Brutus, Fernando Henriques a Serras, de Léo Santos a Pallocis, de Kruels a Delfins Netto, para ficar em apenas alguns.

A lista é infinita; renova-se com incrível velocidade e atualidade. Como hoje, por exemplo.

Pelo menos 12 governadores foram eleitos ou reeleitos pendurados no prestígio e progressos, mesmo tímidos, derivados da aura do ex-presidente Lula. Quase metade do país, considerando votos oficiais, e mais que a metade de sufrágios tendo em vista a soma de votos de oposição, nulos e brancos e abstenções. A maioria, portanto.

Encerrada a apuração, onde se encontram estes senhores? Sumiram, evaporaram de fato. Contentam-se com discursos preguiçosos, às vezes iletrados, piedosos, mas sem nada de prático a oferecer ao povo. Afinal, já esperam ter garantido a si próprios mais 4 anos de benesses particulares e alguns trocados (e que trocados!) para suas bancadas e turmas de acólitos.

Sim, há um ou outro mais saliente. Mas são tão escassos que nem sequer merecem ser citados.

No atacado, contudo, o que se escuta é o barulho do silêncio. Poder-se-ia-argumentar (para usar mesóclises esdrúxulas em voga) que ainda não tomaram posse. Infames. Muitos deles permanecem e permanecerão nos cargos. Estão praticamente em pleno exercício de seus postos.

Para não citar outros exemplos, a família Beocionária ainda não assumiu, mas já manda e afunda ainda mais o país. E acelera a passos largos o estado de exceção em que o Brasil está metido desde o golpe de 2016. Já a “oposição”... (e aqui nem falo de PT, PCdoB, Ciros etc. Estes merecem um post à parte).

Ninguém pede que governadores recentemente “combativos” em palanques arquivem suas responsabilidades provincianas com contas a pagar, compromissos com eleitores locais, plataformas eleitorais. O INADMISSÍVEL é que se furtem a assumir a seu papel POLÍTICO de dirigentes que prometiam restaurar os resquícios de democracia e salvar a nação da ditadura militar-policial-econômica-colonial-mediática que se aprofunda no Brasil.

Fossem outros os tempos (a esse respeito, recomendo o post imperdível no Conversa Afiada com a fala de Leonel Brizola), no dia seguinte à eleição teríamos algo como a criação de uma frente de governadores pela DEMOCRACIA, em DEFESA DOS DIREITOS DO POVO, DOS MAIS DE 40 MILHÕES DE DESEMPREGADOS DE FATO, DA CIVILIZAÇÃO DE COSTUMES, DA DEFESA DA SOBERANIA NACIONAL. TUDO RESUMIDO NA DEFESA DA LIBERDADE IMEDIATA DE LULA, CONDENADO SEM PROVAS PARA ELIMINÁ-LO DAS ELEIÇÕES EM QUE ERA LÍDER ICONTESTE.

Lula será julgado de nova na terça-feira. Alguém ouve falar em alguma mobilização para tirá-lo da cadeia? Será que os governadores e parlamentares eleitos graças a Lula não poderiam organizar manifestações em defesa do maior líder popular da história do país?

O Brasil está mergulhado num poço de exceção. Pode-se dizer que este tipo de frente sai fora do script de regimes democráticos tradicionais. Mas não é isso que vivemos. Há mais militares em cargos-chave no poder hoje do que no próprio regime de 1964!

Já se disse que a crise da humanidade é a crise de seus dirigentes. Mais uma vez é ao que assistimos. A saída derradeira é apostar que o povo, por sua própria conta, passe por cima desses políticos oportunistas para repor as coisas em seu devido lugar.

Joaquim Xavier
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Fraude com CPF viabilizou disparo de mensagens de WhatsApp na eleição

Documentos na Justiça do Trabalho e relato de ex-funcionário da empresa Yacows mostram irregularidade em serviço na campanha


Relato e documentos apresentados à Justiça do Trabalho e obtidos pela Folha detalham o submundo do envio de mensagens em massa pelo WhatsApp que se instalou no Brasil durante as eleições deste ano.Uma rede de empresas recorreu ao uso fraudulento de nome e CPF de idosos para registrar chips de celular e garantir o disparo de lotes de mensagens em benefício de políticos.

Entre as agências envolvidas no esquema está a Yacows. Especializada em marketing digital, ela prestou serviços a vários políticos e foi subcontratada pela AM4, produtora que trabalhou para a campanha do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL).

A Folha falou diversas vezes com o autor da ação, Hans River do Rio Nascimento, ex-funcionário de uma dessas empresas. Nas primeiras conversas, ocorridas a partir de 19 de novembro e sempre gravadas, ele disse que não sabia quais campanhas se valeram da fraude, mas reafirmou o conteúdo dos autos e respondeu a perguntas feitas pela reportagem.

Chips usados em empresa para enviar mensagens de WhatsApp em massa 
Chips usados em empresa para enviar mensagens de WhatsApp em massa
Reprodução

No dia 25, ele mudou de ideia após fazer acordo com a antiga empregadora, registrado no processo. "Pensei melhor, estou pedindo pra você retirar tudo que falei até agora, não contem mais comigo", disse, em mensagem de texto. Três dias antes, a Folha havia procurado a Yacows para solicitar esclarecimentos.

As conversas gravadas e a ação que Nascimento move acrescentam detalhes ao esquema revelado pela Folha em outubro, quando reportagem mostrou que empresários pagaram para impulsionar mensagens anti-PT na disputa eleitoral.

Após a publicação da reportagem, o WhatsApp bloqueou as contas ligadas às quatro agências de mídia citadas pela Folha por fazerem disparos em massa: Quickmobile, Croc Services, SMS Market e Yacows.

Nascimento descreve a atuação de três agências coligadas: Yacows, Deep Marketing e Kiplix, que funcionam no mesmo endereço em Santana (zona norte de São Paulo) e pertencem aos irmãos Lindolfo Alves Neto e Flávia Alves. Nascimento esteve empregado pela Kiplix de 9 de agosto a 29 de setembro com salário de R$ 1.500.

Segundo seu relato, as empresas cadastraram celulares com nomes, CPFs e datas de nascimento de pessoas que ignoravam o uso de seus dados. Ele enviou à reportagem uma relação de 10 mil nomes de pessoas nascidas de 1932 a 1953 (de 65 a 86 anos) que, afirma, era distribuída pela Yacows aos operadores de disparos de mensagens.

Nascimento afirma que os dados utilizados sem autorização eram parte importante do esquema.

A lei exige o cadastro de CPFs existentes para liberar o uso de um chip. Como o WhatsApp trava números que enviam grande volume de mensagens para barrar spam, as agências precisavam de chips suficientes para substituir os que fossem bloqueados e manter a operação.

Ainda segundo Nascimento, a linha de produção de mensagens funcionou ininterruptamente na campanha.

As condições a que alega ter sido submetido — ele diz não ter sido registrado, não ter feito pausa para almoço e não ter recebido horas extras — levaram-no a ajuizar ação trabalhista contra a Kiplix.

Ele anexou ao processo fotos e trocas de mensagens entre funcionários e os donos das empresas nas quais discutem a operação antes do primeiro turno.

Em uma das mensagens compartilhadas com a Folha por Nascimento, um supervisor diz a todos os funcionários que eles devem trabalhar no final de semana: "Campanha de GOV iniciando!". Nenhum candidato a governador declarou ao Tribunal Superior Eleitoral despesas com essas agências.

Print de tela com mensagens sobre a campanha eleitoral trocadas em grupo de WhatsApp da empresa Yacows 
Mensagens sobre a campanha eleitoral trocadas em grupo de WhatsApp da empresa Yacows
Reprodução

Nascimento apresentou à Folha fotos de salas cheias de computadores ligados a diversos celulares e chipeiras — equipamento que usa o chip de celular para emular o WhatsApp e fazer os disparos — além de caixas com chips.

Uma vez ativados com os dados usurpados, os chips eram usados em plataformas de disparos em massa no WhatsApp. "Cerca de 99% do que fazíamos eram campanhas políticas e 1% era para a Jequiti [marca de cosméticos]", disse Nascimento.

A Deep Marketing prestou serviços, entre outros candidatos, para Henrique Meirelles (MDB), que disputou a Presidência e declarou pagamento de R$ 2 milhões à empresa por "criação e inclusão de páginas da internet". A Kiplix trabalhou para a AM4, agência à qual Jair Bolsonaro declarou ao TSE pagamento de R$ 650 mil.

Em trocas de mensagens, funcionários e donos das agências discutem o aumento do volume de trabalho na campanha eleitoral.

"Daqui até o primeiro turno das eleições teremos trabalho nos finais de semana. E extra de madrugada liberado", diz a pessoa identificada como Lindolfo Alves em uma mensagem.

"Inclusive os que folgariam na segunda também devem vir", diz um número identificado como de Flávia Alves, irmã e sócia de Lindolfo, em uma das conversas anexada no processo.

Outra mensagem em nome de Flávia, de 5 de outubro, antevéspera do primeiro turno, diz: "Pessoas, reta final final das eleições, amanhã trabalhamos cada turno em seu horário, liberado hora extra, principalmente de sábado para domingo."

Segundo Nascimento, ele e vários de seus colegas chegaram a trabalhar 16 horas seguidas para dar conta dos disparos encomendados pelas campanhas. "Muita gente dormia lá, na escada, sofá, hall. Descansava um pouco, ia lá e fazia mais um turno", disse.

Uma mensagem em nome de Flávia explica aos funcionários que a empresa cresceu "desordenadamente nos últimos meses com a operação da bulk services [disparos em massa]" e que o prédio usado não comportava mais seus quase 200 funcionários.

Outra irregularidade aparece nas mensagens enviadas por um supervisor que descreve o uso de robôs para disparar as mensagens em massa, algo que a legislação eleitoral veda: "Entre um envio e outro do robô, haverá uma pausa de 2 a 6 segundos. A cada 50 mensagens, uma pausa de 10 segundos."

Proposta de disparo de mensagens enviada a políticos
O professor de direito eleitoral Diogo Rais, da Universidade Mackenzie, afirma que o uso de robô pode ser enquadrado pela lei como pagamento indevido. "Se o conteúdo das mensagens for falando mal de alguém, poderia até configurar crime eleitoral."

Ao menos outros 15 candidatos a deputado estadual, federal e senador declararam ao TSE ter usado os serviços da Deep Marketing e da Kiplix.

A candidata ao senado Maurren Maggi (PSB) declarou ter pago R$ 60 mil à mesma empresa sob a rubrica "serviços prestados por terceiros", sem alusão a disparos. A descrição também é usada pelo candidato a deputado estadual Edmir Chedid (DEM-SP) ao declarar R$ 9.000 pagos à Kiplix .

João Leite (PSDB-MG), candidato a deputado estadual, foi um dos poucos a especificar em declaração ao TSE que seu gasto de R$ 44 mil foi com impulsionamento de conteúdo.

Outro lado

A empresa Yacows, que segundo documentos exibidos pelo ex-funcionário Hans River do Rio Nascimento mantinha um esquema de disparos em massa de propaganda política por celular, afirmou à Folha que não há evidências de atos ilícitos no processo trabalhista aberto por Nascimento e que não compactua com práticas ilegais.

"A Yacows reafirma que não foi contratada em nenhum momento pela equipe da campanha do candidato Jair Bolsonaro para distribuir conteúdo eleitoral e pode dizer o mesmo das demais empresas que possuem sócios em comum, citadas pelas reportagens", diz, aludindo à Deep Marketing e à Kiplix.

O TSE afirmou que a Yacows integra o polo passivo de uma ação cautelar e é investigada em outro processo. Mas "o TSE não se pronuncia a respeito de casos sub judice", diz nota.

A Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) afirmou que "casos de clonagem de linhas e utilização indevida de dados pessoais podem configurar eventual fraude junto às prestadoras, que devem, dentre suas obrigações, adotar medidas de combate a essas práticas".

"Há que se observar, ainda, que, nos termos do artigo 307 do Código Penal Brasileiro, constitui crime atribuir-se ou atribuir a terceiro falsa identidade para obter vantagem, em proveito próprio ou alheio, ou para causar dano a outrem, conduta que deve ser apreciada pelos órgãos competentes", diz a nota.

A Claro, operadora da maioria dos chips de celular usados no esquema, afirma repudiar o uso não autorizado de dados. "A Claro informa que vende e habilita milhares de chips e linhas móveis mensalmente e esclarece que não detectou nenhum comportamento atípico nas vendas", diz a operadora, que afirma estar "à disposição das autoridades à frente do caso".

Celulares usados em empresa para enviar mensagens de WhatsApp em massa Celulares usados em empresa para enviar mensagens de WhatsApp em massa durante a eleição
Reprodução

A AM4, fornecedora da campanha de Jair Bolsonaro, afirmou que durante as eleições fez um único envio de mensagem com ferramenta contratada, no dia 13 de setembro, pelo site www.bulkservices.com.br. Segundo a empresa, a mensagem foi para uma lista de 8.000 telefones previamente cadastrados pela campanha, dentro portanto da legislação eleitoral.

"A AM4 desconhecia que a plataforma Bulkservices pertencesse a Kiplix/Yacows/Deep Marketing e que eles faziam também venda de cadastros", disse a empresa.

A assessoria de Henrique Meirelles, candidato à Presidência pelo MDB, afirmou que a Deep Marketing foi contratada para organizar envio de mensagens exclusivo para base de dados do partido ou voluntariamente cedidos por eleitores.

"A campanha nunca contratou ou autorizou o envio de mensagens para bases compradas e não teve conhecimento de qualquer prática irregular pelos prestadores de serviços", afirma a nota.

O deputado Edmir Chedid afirmou, por meio de sua assessoria, que usou pela internet a plataforma de serviços Bulk Services, "a qual disponibilizou à campanha apenas o acesso à sua plataforma de serviços via internet, visando a transmissão de vídeos de propaganda".

À época da reportagem da Folha que mostrou que empresários pagaram para impulsionar mensagens anti-PT, Bolsonaro negou qualquer irregularidade. Disse que sua campanha era feita de apoio voluntário e que não tinha controle nem como tomar providências contra empresários que estivessem agindo dessa maneira.

Artur Rodrigues | Patrícia Campos Mello
No fAlha
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Um delírio de sexopata

O encontro de procuradores de extrema-direita, que aconteceu anteontem aqui em Brasília, foi um circo de horrores, como previsto.

O que mais me chamou a atenção foi a proposta de Guilherme Schelb, aquele fundamentalista que chegou a ser cotado para o MEC: obrigar as professoras a usar jalecos, para esconder os seios e não distrair os meninos.

Uma burca não seria mais efetiva? E por que só os meninos? O kit gay do PT não estaria fazendo as meninas se interessarem também?

Parece só um delírio de sexopata e uma ofensa às professoras (e aos estudantes), mas é mais grave do que isso. Tem uma ideologia de gênero embutida na ideia. O menino que precisa ser poupado do decote da professora para não se distrair cresce e se torna o adulto que julga que pode estuprar se a vítima está usando “roupas provocantes”.

Discussão sobre gênero e educação sexual nas escolas combatem também a cultura do estupro. Mas o projeto do Escola Sem Partido (sic), que tem em Schelb um destacado arauto, não é combatê-la: é perpetuá-la.

Luis Felipe Miguel
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Esse nunca abriu um livro de História


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Um dia se saberá

O lema do governo Trump deveria bastar a Jair Bolsonaro para poupar o Brasil dos arreganhos e do espírito típico de colônia adotados nas relações do futuro governo com os EUA. "America first" transmite, entre outras coisas, uma mensagem imperiosa aos governantes atuais e vindouros, no sentido de que em tudo, nas relações com a "America", o ganho americano há de prevalecer sobre o equilíbrio das vantagens mútuas.

A política externa que se antecipa não será do Brasil. Mais do que caudatária dos Estados Unidos por ideologia, será uma ação a serviço dos Estados Unidos e praticada por imitações. Não e nunca a política internacional de um país soberano, ainda que em frangalhos.

O que se pode esperar do futuro ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, é uma figuração, ocupada com o desempenho burocrático do Itamaraty. A orientação de Bolsonaro em assuntos de política externa vem e virá do seu filho Eduardo. Mesmo o nome do futuro ministro pôde surgir de ou de mais colaboradores, mas a escolha coube ao filho. Já que apressada a ida de um representante do futuro governo a Washington, o indicado a fazê-lo seria o ministro escolhido. Não um deputado, que nem integra os quadros da nova administração. O deputado, porém, foi Eduardo Bolsonaro.

Nada disso é muito original. Eleito por meios duvidosos, Fernando Collor viajou a Washington. "Foi agradecer" ao presidente Bush pai, como explicado na ocasião. Agradecer o que, Collor jamais contou. Está subentendido. Depois dos minutos de encontro para fotografia, Bush fez para os circunstantes umas piadas gozativas de Collor, com ostensiva superioridade.

Bill Clinton mandou ao Brasil o seu marqueteiro para ajudar Fernando Henrique. Não é preciso lembrar como foi a política externa nos oito anos seguintes. A sobremesa é melhor: o Sistema de Vigilância da Amazônia, Sivam, foi entregue à americana Raytheon, em uma "licitação" que incluiu até o roubo dos projetos da francesa Thomson, forte concorrente. Bom de gafe até contra ele mesmo, foi o próprio Fernando Henrique a divulgar que, "vencedora" a Raytheon, telefonou para Clinton. Por quê? Fernando Henrique se entregou: porque Clinton pediu pela Raytheon. E então o Brasil pagou uma fortuna para dar aos Estados Unidos o conhecimento em tempo real da Amazônia brasileira.

O marqueteiro de Trump, Steve Bannon, foi na campanha aqui e é ainda um dos contatos de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Autor da manipulação eleitoral via internet em favor de Trump, Bannon foi o inspirador do uso da internet tido como decisivo para Bolsonaro.

As referências à participação dos Estados Unidos no golpe de 64 foram refutadas, aqui, por bastante tempo. Provocavam aquelas acusações de teoria da conspiração, comunismo, desconhecimento do patriotismo dos militares. Acusações reforçadas quando o embaixador Lincoln Gordon, convocado pelo Senado americano, cometeu a dupla indignidade, como professor de história e como cidadão, de mentir deslavadamente contra a participação americana. O primeiro documento comprovando-a abriu há 40 anos uma série ainda distante do final.

Além de mais revelações do lado americano, faltam as brasileiras. A Marinha, por exemplo, detém as fitas gravadas pelo embaixador Elbrick em seu sequestro, nas quais deu a identidade de agentes da CIA no Brasil, inclusive com nomes de militares. Democrata e diplomata digno, Elbrick negou-se a dar qualquer indicação sobre seus sequestradores, mesmo quando a ditadura valeu-se do dono de uma rede de comunicação, então amigo do embaixador, para pedir-lhe alguma colaboração.

Identificação ideológica não se confunde, necessariamente, com servilismo. Apesar disso, Jair Bolsonaro diz sobre a "grande aproximação" que quer de Brasil e Estados Unidos - diz aqui ao conselheiro de segurança nacional de Trump, e seu filho Eduardo diz a autoridades em Washington - coisas que submetem o Brasil ao lema "America first". Por que isso, não se sabe.

Se for o caso, um dia se saberá.

Janio de Freitas
No fAlha
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Xadrez do golpe derradeiro contra o estado de direito


Peça 1 – sobre o conceito de democracia

Um dos pressupostos básicos de uma democracia é o espaço que se confere à oposição. A compreensão de que o partido de oposição tem o direito de existir, lançar candidatos, defender propostas e se revezar no poder é o pressuposto básico de qualquer democracia que se pretenda séria.

Quando se trata a oposição como inimigo, quando é submetida ao chamado direito penal do inimigo, criminalizada e impedida de competir politicamente, tem-se, objetivamente, uma ditadura.

Vamos tentar, primeiro, entender como o jogo político brasileiro cedeu à mais completa e ampla selvageria. E, depois, avaliar se o regime atual é de democracia ou de ditadura.

Peça 2 – o efeito Orloff no Brasil

No já clássico “Como as democracias morrem” (Steven Levistky), há um histórico sobre o processo político, nos Estados Unidos, que resultou na disputa política selvagem levando ao fator Donald Trump. É, em tudo, similar ao que está ocorrendo no Brasil. É um efeito Orloff.

A emancipação do eleitor de baixa renda

Durante quase todo o período da história política norte-americana, houve uma convivência civilizada entre os Partidos Democrata e Republicano. Esse pacto se dava à custa da supressão dos direitos políticos dos negros e latinos do sul, garantindo uma ala conservadora do Partido Democrata no sul convivendo com a ala conservadora do Partido Republicano.

Essa paz de brancos começou a ruir com a emancipação negra e a imigração. Os novos eleitores passaram a apoiar desproporcionalmente o Partido Democrata. Os democratas não-brancos representavam 7% do partido em 1950. Em 2012 já eram 44%, enquanto os eleitores brancos representavam quase 90% do Partido Republicano.

Foi um dos motivos da quebra de regras de civilidade na política, com a radicalização cada vez maior da maioria branca.

Os evangélicos e a questão moral

Enquanto os democratas se tornavam cada vez mais um partido das minorias étnicas, o Partido Republicano ia radicalizando, como o partido do americano branco. A radicalização aumentou com a crescente participação das igrejas evangélicas na política a partir dos anos 70, em reação à decisão da Suprema Corte no caso Roe contra Wade, legalizando o aborto.

A partir da eleição de Ronald Reagan, em 1980, o Partido Republicano adotou posições crescentemente pró-evangélicas, com oposição do aborto, apoio ao direito de oração nas escolas públicas, oposição ao casamento gay.

Em 2016, 76% dos evangélicos brancos se identificavam com os republicanos, enquanto os eleitores democratas se tornavam mais seculares. A porcentagem de democratas brancos que frequentavam igrejas caiu de 59% nos anos 1960 para menos de 30% nos anos 2.000.

A questão social e a perda de status

Um dos pontos que abordei bastante, para tentar explicar a radicalização da mídia brasileira pós-2005 - e que incluí em O Caso de Veja - era a perda de status social da classe média, com a ascensão das classes de menor renda.

O livro descreve o mesmo fenômeno nos Estados Unidos, citando o ensaio do historiador Richard Hofstadter em 1964, em “The Paranoid Style in American Politics”. Ele denominava de “ansiedade de status”:  quando o status, a identidade e o sentido de pertencimento de grupos sociais são percebidos como estando sob ameaça, induz a um estilo de política que é “excitável demais, desconfiado demais, agressivo, pretensioso e apocalíptico demais”. A luta contra o status declinante da maioria foi o combustível que passou a abastecer a animosidade da direita americana até resultar no Tea Party e na direita branca. Nada diferente do que ocorreria depois no Brasil.

Diz o livro: “Políticos republicanos de Newt Gingrich a Donald Trump aprenderam que, numa sociedade polarizada, tratar rivais como inimigos pode ser útil – e que promover a política como guerra pode apelar àqueles que receiam ter muito a perder”.

Nos Estados Unidos e no Brasil, a consequência foi a erosão da confiança e das grades de proteção que garantiam a democracia contra lutas sectárias mortais.

A ascensão da mídia de direita

No Brasil, de 2005 até no pós-impeachment, a mídia brasileira foi majoritariamente de direita, explorando o novo mercado que se abria e atacando todos que não concordassem com suas teses, repetindo o padrão Rupert Murdoch e sua Fox News.

Segundo o livro, “a ascensão da mídia de direita (nos Estados Unidos) também afetou os mandatários republicanos. Durante a administração Obama, os comentaristas da Fox News e personalidades radiofônicas de direita adotaram quase todos uma posição “sem concessões”, atacando maliciosamente qualquer político republicano que rompesse com a linha do partido. E, com isso, jogando o partido cada vez mais para a direita, em um fenômeno que, no Brasil, produziu os mesmos efeitos sobre o PSDB.

Todos esses fatores explicam a radicalização política brasileira que resultou no bolsonarismo – um fenômeno muito mais duradouro e independente de líderes do que a figura pública de Bolsonaro.

Mas o que explicaria a arrancada final, de aniquilamento de um partido político relevante, conduzido por pessoas com histórico democrata e de respeito aos direitos humanos?

Peça 3 – os atores no golpe final na democracia

Há sinais cada vez mais nítidos de que está a caminho uma tentativa de inviabilização do PT como partido político. Esses sinais já chegaram a Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Seria o golpe final na etapa de democracia mitigada no país.

As instituições brasileiras padecem, hoje em dia, da síndrome da ordem unida.

Percebendo como inevitável o advento do poder militar, tratam de se antecipar ao que julgam que os militares pensam. Pagam o óbolo para a travessia do Egeu rumo ao novo inferno que se avizinha.

Hoje em dia, todas as instituições – do STF (Supremo Tribunal Federal) à PGR (Procuradoria Geral da República) – praticam as arbitrariedades que julgam ser do gosto do poder militar. Não precisa nem ordenar.

No caso do STF, houve a decisão estapafúrdia do presidente Dias Toffolli, de colocar um militar como assessor, para orientá-lo sobre as suscetibilidades do poder militar.

No caso da PGR, a atuação recente da Procuradora Raquel Dodge transforma seu antecessor, Rodrigo Janot, em um mero aprendiz no desmonte das garantias jurídicas. As demagogias punitivistas de Luis Roberto Barroso e Luiz Edson Fachin seguem essa receita do seguro pessoal.

As três peças centrais atuais desse golpe final contra a democracia são a Procuradora Geral da República Raquel Dodge, o vice procurador e subprocurador eleitoral Humberto Jacques de Medeiros, e, como representante da Lava Jato, o juiz brasiliense Vallisney de Souza Oliveira.


Dodge, Humberto e o TSE

Raquel Dodge tem avançado em duas frentes: as ações espetaculosas contra políticos e as investidas no âmbito do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) – essa última frente sob a responsabilidade de Humberto Medeiros.

Medeiros considerou normal a movimentação no WhastApp – dois dias antes da própria empresa admitir as manipulações. Depois, revelou tardiamente as medidas sugeridas pelo próprio WhatsApp para combater as fakenews. Recentemente, instruiu a PGR a dar parecer favorável às contas de Bolsonaro.

Ao mesmo tempo, ambos – Dodge e Medeiros – denunciaram Lula pela campanha eleitoral, exigindo a restituição de R$ 14,5 milhões gastos no período em que Lula era candidato.

O MPF (Ministério Público Federal) é o maior defensor da cooperação internacional. Tem sido o órgão de fato na gestão das parcerias, atropelando o próprio Ministério da Justiça. Tem se manifestado em inúmeras ocasiões em defesa dos tribunais internacionais.

Dodge preferiu atropelar todo esse histórico, inclusive sua própria história, de egressa da área dos direitos dos cidadão, minimizar o parecer da missão especial da ONU – considerando o direito de Lula se candidatar -, a expectativa que cercou, até o último momento, a autorização para Lula se candidatar ou não, e tratar toda uma estratégia eminentemente política como burla, exigindo a devolução dos gastos de campanha, tudo com uma retórica típica de comentarista da Jovem Pan.

A Lava Jato e a organização criminosa

Na outra frente, há o fator Antonio Palocci. Os procuradores da Lava Jato não aceitaram a delação de Palocci - coincidentemente logo após ele sugerir que poderia incluir instituições financeiras e órgãos de mídia. Alegou-se que não apresentara provas.

De repente, a delação ressurge pelas mãos da Polícia Federal, focando exclusivamente os governos Lula e Dilma. E serve de base para o juiz Vallisney de Souza Oliveira aceitar a acusação de organização criminosa formulado pelo procurador, com base na delação não aceita pelo MPF.

O que está por trás desse jogo de sombras? Por que a Lava Jato não aceita uma delação que traz para a primeira cena novos personagens – mercado e mídia – e, logo depois, a delação ressurge pelas mãos da PF em cima exclusivamente da receita usual da Lava Jato?

Uma das narrativas possíveis é a seguinte.
  1. Provavelmente Palocci apresentou um documento inicial sobre os termos da delação oferecida, incluindo mercado financeiro e mídia.
  2. Por razões políticas, questões táticas ou motivações obscuras, a Lava Jato não quis mexer com mercado e mídia. Ao mesmo tempo, não poderia ignorar os termos iniciais propostos por Palocci. Ou seja, qualquer delação de Palocci para o MPF teria que necessariamente incluir as propostas iniciais apresentadas.
  3. A saída dos procuradores, então, foi recusar a delação proposta por Palocci, zerar os seus termos e refazê-la via Polícia Federal, em cima do mesmo conteúdo de todos os demais delatores.
Quando se sair desse período de ilegalidades e lusco-fuscos, será possível saber as razões objetivas desse jogo Palocci-MPF-PF.

Peça 4 – o estado policial

Hoje, o filho mais extravagante de Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, afirmou no Twitter que as políticas de atenção aos viciados em crack – da gestão Fernando Haddad – apenas ajudaram a aumentar os preços do crack no mercado paulista. A afirmação estapafúrdia foi “curtida” pelo general Alberto Heleno.

Episódios desse tipo vão consolidando o que se espera do governo Bolsonaro no plano moral e ideológico. Será o tema exclusivo da prole Bolsonaro, o game para ele se divertir e fingir que governa.

Por outro lado, a indicação do almirante-de-esquadra Bento Costa Lima Leite de Albuquerque Júnior para Ministro das Minas e Energia mostra a consolidação dos militares como eixo racional do governo Bolsonaro. Albuquerque Junior é diretor geral de desenvolvimento nuclear e tecnológico da Marinha, faz parte do conselho de administração da Nuclebrás, e participou de um dos maiores feitos tecnológicos brasileiros: o desenvolvimento nuclear, especialmente o enriquecimento do urânio.

Como se viu no artigo “Xadrez da nova corte e as fragilidades de Bolsonaro”, o núcleo dos financiadores de campanha - o advogado Gustavo Bebiano, o dono do PSL, Luciano Bivar, e o lobista carioca Paulo Marinho – planejavam controlar os principais contratos do governo. Um dos campos mais visados era justamente nas Minas e Energia, onde pretendiam emplacar Paulo Pedrosa, executivo controvertido, ex-Secretário Executivo do Ministério de Minas e Energia.

Além da intenção de privatizar a Eletrobras por uma ninharia, o nome de Pedrosa despertou desconfianças em vários setores empresariais, dos distribuidores de gás aos de combustíveis.

A indicação de Albuquerque Júnior mostra que o grupo militar está conseguindo estender redes de proteção para impedir as grandes tacadas contra ativos públicos.

Por outro lado, o vazamento de uma operação da Polícia Federal contra o futuro superministro Paulo Guedes, demonstra claramente que o estamento jurídico-militar – representado pelo futuro Ministro da Justiça Sérgio Moro – tentará manter todo o Ministério Bolsonaro sob rédea curta.

Fica-se assim, então:
  1. O núcleo militar se consolidando nas áreas críticas e ligadas à infraestrutura, conferindo a racionalidade capaz de dar sobrevida ao governo, mesmo com o besteirol do núcleo presidencial, e criando blindagem contra os grandes negócios que estavam sendo planejados.
  2. Ao grupo bolsonariano – família, mais ministros medievais – será entregue o playground das disputas morais e ideológicas.
  3. O núcleo jurídico-militar se consolidará em torno de Sérgio Moro, instituindo de forma profissional a república policialesca e se tornando um poder autônomo, acima de Bolsonaro. Sob os holofotes, é capaz que a mística de Moro se esfumace rapidamente.
  4. STF, PGR, os Barroso, Dodge e assemelhados antecipando-se às ordens militares, radicalizando para se credenciarem sob as asas de Sérgio Moro e, com seus maus exemplos, escancarando as portas do arbítrio na ponta.

Luís Nassif
No GGN
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