29 de nov de 2018

Lava Jato não criou nenhum mecanismo efetivo de combate a corrupção

Para Jessé Souza, corrupção política é bode expiatório, "enquanto a elite de proprietários rouba de verdade no mercado"

Para o sociólogo, a Lava Jato funcionou desde o início sob a premissa de que o Estado é o principal foco de corrupção do país
A Lava Jato completa, no final de 2018, cinco anos de atuação. Chega ao final dessa meia década com sua principal figura, Sérgio Moro, compondo o ministério do próximo governo do Brasil. Um dos pontos que levanta discussões – e críticas – é a visão de que a operação tratou de forma desigual os supostos casos de corrupção na esfera pública e na privada.

Francisco Fonseca, professor de Ciência Política na Pontifícia Universidade Católica (PUC) e na Fundação Getúlio Vargas (FGV) de São Paulo, considera a Lava Jato o ápice de uma longa tradição na política brasileira: o uso do discurso anti-corrupção para desgastar adversários políticos. Para ele, a operação funciona como "uma cortina de fumaça".

"Podemos fazer um passeio na história, pensar por exemplo o que foi o lacerdismo na UDN. O lacerdismo se notabilizou por fazer denúncias de corrupção - que, diga-se de passagem, eles próprios praticavam. É um discurso eminentemente instrumental", afirma.

Carlos Lacerda, liderança da União Democrática Nacional (UDN), utilizou a corrupção como parte da oposição contra três presidentes: Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart. Do outro lado, dois presidentes até 2018 se elegeram com base no mesmo discurso de limpeza: Jânio Quadros, o candidato da vassoura, e Fernando Collor, "o caçador de marajás".

Para o sociólogo Jessé Souza, a Lava Jato funcionou desde o início sob a premissa (errada segundo ele) de que o Estado é o principal foco de corrupção do país.

“A Lava Jato parte da ideia de que o problema do Brasil é a corrupção política. Era o discurso de que iria mudar o Brasil e passar o país a limpo, pela limpeza da corrupção política. O que eu digo é que a corrupção política é um bode expiatório para chamar a atenção das pessoas enquanto a elite de proprietários rouba de verdade no mercado”, diz.

Um claro indício de que o enfoque da Lava Jato é a punição a agentes públicos e não dos empresários, segundo ele, é o próprio fato de que as delações premiadas, em sua maioria, são feitas pelos agentes privados contra políticos, e não o contrário. 

Sérgio Moro, por exemplo, chegou inclusive a decidir que órgãos públicos que cobravam ressarcimentos de empresas - investigadas na Lava Jato - por conta de contratos irregulares, deveriam interromper as ações de cobrança, pois isto prejudicaria as delações que embasaram a operação. 

O escritor também cita como exemplos de “roubo” os altos juros que determinados setores impõem ao Estado brasileiro, transformando a dívida pública – “uma fraude”, em sua opinião - em fonte de renda permanente aos especuladores financeiros. Souza, obviamente, utiliza a ideia de corrupção em sentido não estritamente jurídico, relacionada ao fato de que o bem público, de alguma forma, está sendo apropriado pelo rentismo, no exemplo dado. De outro lado, sua posição contrasta com o que entende ser a visão “sociológica” dos operadores da Lava Jato: a de patrimonialismo.

Exposta por Raymundo Faoro em “Os Donos do Poder”, a hipótese de Estado patrimonialista propõe, grosso modo, que o Brasil teria herdado das sociedades ibéricas um Estado pré-moderno, atrasado e dominado por uma elite política corrupta, que impediu o pleno desenvolvimento da sociedade capitalista.

Souza aponta que, ainda que obviamente exista corrupção na política, não é possível sustentar que ela subordine a corrupção empresarial. Em sua visão, é necessário apontar que, no mínimo, uma depende da outra e, de forma mais profunda, o que de fato acontece é a imposição do poder econômico sobre o político.

Para ele, a visão de que a corrupção se concentra no Estado é, no fundo, anti-democrática e elitista, pois vê no sistema político, eleito através do voto popular, o grande empecilho para o livre mercado que levaria ao desenvolvimento. Assim, seria necessário que as falhas advindas do exercício da soberania popular fossem corrigidas pela burocracia judicial: “A Lava Jato é a nova máscara desse engodo, que é velho. O alvo é criminalizar a política. Patrimonialismo é uma bobagem, não existe”.

Nesta linha, Fonseca afirma que partes do sistema de Justiça têm funcionado como aparelhos dos interesses das elites econômicas e políticas tradicionais, sendo ele mesmo beneficiário de uma certa confusão entre público e privado através de regalias, como o recentemente revogado auxílio-moradia - após um aumento de 16% para os magistrados do STF e, portanto, do teto constitucional.

"Esse é o pagamento que as elites dão ao conceder um conjunto de privilégios ao Judiciário. Nesse sentido menos rigoroso, significa uma forma de corrupção", afirma.

Leis

Flávio Marques Prol, doutor em Direito pela USP e pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), aponta que há uma dificuldade em mapear de forma categórica as formas de corrupção existentes no país, pelo próprio fato de não serem normalmente publicizadas. Ele estima, por outro lado, que a fórmula tradicional de políticos desviando verbas públicas provavelmente tem diminuído, pela própria existência de controles externos e internos da administração pública.

Assim, as brechas mais utilizadas para a corrupção, segundo ele, são as licitações e contratos públicos.

As empresas podem combinar previamente preços para elevar o valor pago pelo Estado em cada contrato, fazendo um rodízio entre as propostas vencedoras. As empresas ficariam desta maneira, com uma margem de lucro superior ao fraudar as licitações. Nessa modalidade, políticos podem ou não participar do esquema. A formação de um cartel nem sempre é necessária: a administração pública pode favorecer algum dos concorrentes, que garante aos políticos um retorno sob a forma do famoso caixa dois eleitoral.

O jurista destaca que, apesar de existirem cada vez mais elementos para afirmar que a Lava Jato atuou de forma política, é preciso compreender melhor seus métodos em relação às empresas e ao Estado. Segundo ele, a operação tal como se deu foi favorecida por uma legislação existente previamente, e reforçada a partir de 2011.

“A gente ainda vai descobrir muita coisa sobre a Lava Jato e suas relações estranhas com a política. O jeito que a gente desenhou as instituições que permitem o funcionamento da Lava Jato - delação premiada, acordo de leniência - são instrumentos que beneficiam as empresas em detrimento dos partidos”, afirma.

O exemplo mais claro, lembra, é o do segundo formato: o acordo de leniência. O mecanismo é uma espécie de colaboração premiada que ocorre não na esfera criminal - na qual são processadas pessoas físicas e impostas penas restritivas de liberdade -, mas sim no âmbito administrativo - em que pessoas jurídicas podem ser autuadas -  diminuindo, por exemplo, multas. 

Prol sugere que se houvesse um mecanismo parecido para os partidos, talvez o processo de investigações, e a narrativa em torno dele, seria diferente ou até mesmo o oposto do atual.

“As empresas, para se salvarem econômica e financeiramente, começaram a apontar supostos acordos dos quais fizeram parte, começaram a denunciar: outras empresas e políticos. As outras empresas, começaram a entregar. Todas as empresas confessaram seus crimes”, explica.

Nessa dinâmica, ainda em 2016, a Lava Jato havia reduzido 326 anos em penas através de delações premiadas, a maioria de empresários e executivos.

Rafael Tatemoto
No Brasil de Fato
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Organizações Globo... top, top, top


Globo registra menor índice de ibope no país dos últimos três anos


A Globo, TV mais vista do país, está em um momento turbulento. Sua liderança ainda não está ameaçada, mas dados de audiência indicam que seu público definitivamente está caindo.

Novembro termina amanhã, mas já dá para afirmar que será o pior mês da Globo no ibope desde dezembro de 2015 em nível nacional.

A audiência em pontos está caindo também na Grande São Paulo, o coração da publicidade nacional. A emissora da família Marinho fecha o mês com 12,4 pontos de média no Painel Nacional de Televisão (PNT) nas 24 horas do dia.

E deve ficar com 15,1 pontos na faixa entre 7h e 0h (faixa comercial). Este último índice é o mais baixo dos últimos 35 meses. Cada ponto vale por cerca de 240 mil domicílios no PNT.

Mais que isso: em novembro, das 7h à 0h, a Globo vai ficar com o menor share (% de participação no universo de TVs ligadas) no PNT neste século --quiçá em todos os tempos: 33,5% (ou seja, cerca de 3,3 de cada 10 TVs ligadas sintonizando a emissora).

Apenas para efeito de comparação, 16 anos atrás, em junho de 2002 a Globo chegava a registrar quase o dobro: 60% de share. Como disse na abertura do texto, é uma fase turbulenta, mas não é nenhum fim do mundo.

(...) A cúpula da Globo alterou a hierarquia na casa numa evidente prova de que não está parada.

A emissora decidiu entregar a um jornalista (Mariano Boni) alguns programas que estão ou perdendo para a concorrência ou com performance abaixo do esperado.

(...)

No CAf



Receita da Globo impressa cai 72%!!! E editora vai embora!

É uma das vítimas da Lava Jato! Quá, quá, quá!


A jornalista Ruth de Aquino está deixando o cargo de sênior publisher da editora Globo, responsável pelos jornais O GLOBO e Extra e revista Época. Oficialmente, seu desligamento ocorrerá em fins de dezembro, mas ela já informou aos amigos e colegas de redação o pedido de demissão em caráter irrevogável. A saída de Ruth encerra uma desgastante queda de braço travada com o diretor geral da empresa, Frederic Kachar, que tenta de todas as formas ter o absoluto controle editorial das publicações.

Extremamente vaidoso, Kachar não aceita dividir o poder.

Historicamente, o comando da redação se reportava diretamente à família Marinho. Ao substituir Ascânio Saleme , Kachar imaginava que todos os seus problemas estavam resolvidos. E não foi bem assim. Competente e zelosa de sua responsabilidade profissional diante da linha editorial da empresa, Ruth não se dobrava a orientações politicamente estapafúrdias oriundas do diretor geral. Após um processo crescente de confrontos, ela preferiu pedir o boné a continuar a medir forças para garantir seu espaço.

Numa nova tentativa de obter o controle absoluto da redação, Kachar resolveu extinguir o cargo de diretor editorial das empresas. Assim, passa a orientar diretamente os editores responsáveis pelas publicações – Globo, Extra, Valor e Época – sem a mediação de um profissional, hierarquicamente forte, capaz de oferecer ponderações lógicas às suas ordens.

O ego demasiadamente inflado de Kachar veio à mostra em 2016, quando as organizações Globo trouxeram Obama ao Brasil. A despeito de não ser jornalista, Kachar trouxe para si a responsabilidade de entrevistar o ex-presidente americano, trazendo descontentamento no comando da redação.

Ao lado da disputa de egos, as publicações da editora GLOBO atravessam a mais grave crise financeira de sua história. Foi-se o tempo das comemorações e festas para celebrar os desafios superados.

Em 2014, por exemplo, os executivos da área comercial se reuniram num fim de tarde na sala de Agostinho Vieira, à época diretor do jornal, para abrir um Veuve Cloquot em celebração ao atingimento da meta de R$ 1 bilhão de faturamento dos jornais O Globo e Extra. O resultado, somado ao caixa produzido pelo Valor Econômico e pela revista Época, totalizava a espetacular cifra de R$ 1,4 bilhão.

Para se ter idéia da queda abissal dos números da empresa, vejam os resultados mais recentes. Em 2017, O Globo, o Extra, o Expresso, o Valor e a revista Época faturaram pouco mais de R$ 380 milhões. Ou seja: as empresas da editora Globo tiveram redução de receita da ordem de 72%. E o faturamento continua a se desminlinguir. A previsão neste ano é que todos os veículos da editora Globo somados não cheguem a casa dos R$ 300 milhões.

A Lava Jato foi determinante para este tsunami . A Petrobras e a BR distribuidora contribuíam em média com R$ 70 milhões/ano em publicidade. A Friboi, leia-se Joesley Batista, respondia por cerca de 25 milhões. Toda semana eram de três a quatro meias páginas com Toni Ramos garantindo a qualidade das carnes do frigorífico. A prisão de Orlando Diniz, ex-presidente da Fecomércio, trouxe outro baque fenomenal ao orçamento de O Globo. A Fecomércio respondia por R$ 58 milhões em publicidade/ano. A troca de comando na prefeitura do Rio foi também devastadora. Com Eduardo Paes, a Prefeitura do Rio anunciava em média 40 mihões/ano. Com Crivella, zero. Somente este casos – os mais vistosos – importaram numa redução de receita de quase R$ 200 milhões ao Globo. A crise é tão grande que já se fala na descontinuidade das publicações O Extra e O Expresso. A conferir.

Ricardo Bruno

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Eduardo Bolsonaro também atropela Paulo Guedes e Onix Lorenzoni

https://www.blogdokennedy.com.br/eduardo-bolsonaro-atropela-tambem-paulo-guedes-e-onix-lorenzoni/?fbclid=IwAR3DuYIARIezjmPWnOS3KXQtqNNiWK5VBOWJL9hPkDTWH2CEotVJRnXNZOg
Na viagem aos Estados Unidos, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente eleito, atropelou mais dois ministros do futuro governo.

Na terça, ele havia dito que seria apenas questão de tempo a mudança da embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém, atuando como sombra sobre Ernesto Araújo, indicado para comandar o Itamaraty a partir de janeiro.

Ontem, num discurso em Washington no qual disse que seria difícil aprovar a reforma da Previdência, deixando inclusive aberta a possibilidade de fracasso, Eduardo Bolsonaro tratou de tema que está sob a batuta de Paulo Guedes e Onix Lorenzoni, respectivamente, futuros ministros da Economia e da Casa Civil.

Parlamentar, Eduardo Bolsonaro está certo ao dizer que a tarefa de reformar o sistema previdenciário não será fácil. Mas age de modo inábil. Transmite a mensagem errada aos investidores estrangeiros.

Para piorar, o deputado federal tratou a relação Brasil-China como ancorada em questões ideológicas. Afirmou que a aplicação de políticas liberais levará os EUA a voltarem a ser o maior parceiro comercial do Brasil, desbancando os chineses.

Ora, a avaliação é uma mistura de despreparo e desconhecimento sobre o comércio e as relações internacionais. É Donald Trump quem deu início a uma guerra comercial global com medidas protecionistas, inclusive contra o Brasil. A relação entre Brasília e Pequim é predominantemente pragmática e profissional.

A capacidade de dar tiro no pé parece ser um risco para a futura administração Bolsonaro.
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Acordo do açúcar é doce para a indústria e amargo para a sociedade

Acordo amargo

Metas frágeis, ausência dos produtos mais vendidos, enfraquecimento do poder público e risco de troca massiva por adoçantes despontam como consequências da iniciativa

Assinado ontem (26) em Brasília, o acordo para a redução de açúcar em alimentos ultraprocessados é ineficaz do ponto de vista da saúde pública. Perigoso para o poder público. E providencial para a indústria de comida-porcaria.

O ato de assinatura, na sede do Ministério da Saúde, expôs as enormes fragilidades da iniciativa, que parece mais que nada voltada a tirar da reta as corporações do setor, pressionadas pelos elevados índices de obesidade e doenças crônicas.

A ação se dá no momento em que a Anvisa debate a possibilidade de colocar alertas nos rótulos sobre o excesso de sal, açúcar e gorduras saturadas. Não poderia ser mais simbólica a presença do atual diretor-presidente da agência, William Dib. O ex-deputado mais uma vez alinhou-se ao discurso das empresas de que não é preciso promover regulação.

Ou seja, de novo realiza-se aquilo que está previsto na história da atuação corporativa: a autorregulação surge em momentos delicados com o objetivo de evitar, retardar ou deslegitimar a ação do Estado. O acordo para redução do uso de sódio também surgiu na cartola em um contexto complicado. Na época, a Anvisa avaliava impor restrições à publicidade de ultraprocessados.

Transparente, em meio a tergiversações, foi a fala do presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (Abia), Wilson Mello: “A indústria de alimentos está em festa hoje porque conseguimos avançar e assinar um acordo que será benéfico para a população brasileira.”

1. Castelo de açúcar

Anunciado com pompa, o número de 144 mil toneladas de açúcar a ser retirado dos industrializados até 2022 não sobrevive a uma regra de três. Mostramos em nosso texto de estreia no portal UOL que isso corresponde a menos de 2% do açúcar utilizado nesses produtos.

Os homens presentes à mesa, representando o poder público e as empresas, não souberam ou não quiseram explicar quão pequeno era esse número, em uma de muitas lacunas.

2. Metas frágeis

O esforço do Ministério da Saúde em não expor as metas reais durante o lançamento tampouco passou despercebido. O material de divulgação apresentava números proporcionais que pareciam grandiosos, com redução de até 64% no açúcar utilizado em algumas categorias de produtos.

Mas o acordo em si, divulgado horas depois, deixa claro que a maior parte dos produtos líderes de mercado escapa da régua fixada pelas próprias empresas. Nescau, Coca-Cola, Bono. Alguns biscoitos do tipo maisena, bolos, misturas para bolos, bebidas lácteas: quase todas as metas são frágeis.

Nos cálculos do ministério, menos de metade dos produtos terá de passar por uma readequação. Ao longo dos próximos quatro anos. E sem possibilidade de punição.

3. Quem ficou de fora

Cereais matinais ficaram de fora da lista, bem como balas e chicletes, chocolates, gelatinas. Tudo que faz parte da dieta nada saudável de crianças. O Sucrilhos, por exemplo, tem mais de 30% de açúcar. Algumas gelatinas são 90% açúcar.

O ministério diz que os cinco grupos incluídos no acordo representam 87% do mercado. Ou seja, já de cara temos 13% que escaparam. A esses se somam os produtos beneficiados pelas metas frouxas.

4. Quem mais ficou de fora

Assim como se deu no acordo para redução do uso do sódio, a iniciativa do açúcar beneficia as grandes empresas. Como as metas são calculadas a partir de médias, tendem a ser puxadas para cima por produtos horríveis, muitas vezes fabricados pela pequena indústria. E acabam por isentar produtos ruins (pouco menos que horríveis). Além disso, as maiores do setor têm recursos suficientes para investir em engenharia de alimentos voltada a reformular produtos com um pé nas costas.

5. Emenda sai pior que o soneto

O Ministério da Saúde garante haver um combinado com a indústria para que não se troque açúcar por adoçante. O problema é que o acordo é voluntário e não há sinais de que o fio do bigode tenha algum significado para as corporações. A tendência é seguir o que tem sido feito no mundo todo, inclusive aqui, e promover uma troca massiva pelos edulcorantes.

Isso representa um risco para a saúde: as evidências acumuladas até aqui não permitem garantir a segurança no uso de adoçantes, muito menos em grandes quantidades.

6. Acompanhamento impossível

A sociedade terá em mãos poucos instrumentos para acompanhar o cumprimento das metas. Hoje, a declaração de açúcares no rótulo não é obrigatória. Em alguns casos, você pode se virar fazendo cálculos a partir da declaração de carboidratos. Mas dá trabalho e está sujeito a erros. O mais seguro é comer comida de verdade.

7. Sinais trocados

O Ministério da Saúde corre o risco de se lambuzar nesse mel. O Guia Alimentar para a População Brasileira recomenda fazer de alimentos frescos a base da nossa comida diária. E evitar ultraprocessados. Assim como se deu no caso do sódio, esse tipo de acordo pode transmitir a ideia de que esses produtos são saudáveis, quando não são.

Questionados, durante entrevista coletiva, se daqui a quatro anos esses produtos poderão ser considerados saudáveis, os representantes do governo e das empresas não quiseram segurar a batata quente. Coube à coordenadora geral de Alimentação e Nutrição do ministério, Michele Lessa, reafirmar a mensagem do Guia.

8. Reformulação

O acordo comprova também a limitação da estratégia de reformulação de produtos. Fica claro que as empresas não têm como avançar até pontos verdadeiramente saudáveis de uso de sal, açúcar e gorduras. Não enquanto ficarem presas aos ultraprocessados. As melhores pesquisas mostram que é inerente a esses produtos o uso de ingredientes que podem causar danos à saúde.

Isso reforça a ideia de que um verdadeiro freio à epidemia de obesidade só se dará fora do reino dos ultraprocessados, cumprindo as recomendações do Guia.

9. Besta é tu

O tom usado por indústria e ministro da Saúde, Gilberto Occhi, deixa clara a ideia de “comigo não morreu”. A ideia foi enfatizar que “apenas” 36% do açúcar consumido vem de produtos industrializados. Você é que é burro de colocar açúcar no café, no suco, na fruta.

Só que não. De novo, vale olhar para as evidências científicas produzidas de maneira independente. O que mostram é que a obesidade se dá a partir de pequenos acréscimos calóricos diários que, ao final de um longo período, produzem um grande aumento de peso.

Aquilo que mudou nas últimas décadas – e isso também está demonstrado por pesquisas científicas – foi o pequeno acréscimo diário a partir de ultraprocessados. É o refrigerante que se tornou de uso cotidiano. O biscoito que ficou baratíssimo. O chocolate que está disponível a cada esquina.

No O joio e o trigo
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A delação da CCR e o mundo cor de rosa da corrupção em São Paulo


O grupo CCR e o Ministério Público de São Paulo ressignificaram o que ocorreu na Lava Jato: a partir da operação em Curitiba, empresas, agentes políticos e operadores foram condenados e presos por esquema envolvendo propina sobre contratos da Petrobras. A propina, que também teria irrigado campanhas eleitorais, saia do superfaturamento das obras. Mas em São Paulo a propina ou o caixa 2 supostamente sairam do lucro dos empresários, para não causar prejuízos aos cofres públicos. Uma narrativa que convém à redução de danos.

No episódio da chamada "Lista de Janot", vale recordar, não apenas caciques do PSDB como até ministros do Supremo Tribunal Federal passaram a usar o discurso da separação do joio do trigo. Há políticos ou partidos que foram lenientes com o prejuízo aos cofres públicos, por meio de licitações fraudulentas ou superfaturamento de obras e contratos, em troca do caixa 2 ou propina para agentes que enriqueceram ilicitamente. E há políticos e partidos que foram beneficiados pelo caixa 2 mas juram que não teve nada a ver com a relação empresas-obras públicas. É neste mundo que o caso CCR parece querer se encaixar.

O teor da delação premiada e o acordo (o nome técnico é Auto Composição para Ato de Improbidade) que a concessionária fechou com o MP-SP, denunciando caixa 2 para ex-governadores do Estado e outros políticos, foi revelado pelo Estadão nesta quinta (29). A Procuradoria Geral do Estado ficou à margem da negociação, e o motivo ainda não ficou claro. Segundo o jornal, há também delatados com foro no Supremo Tribunal Federal.

Uma das informações que chama atenção é a de que um dos investigadores consultados pelo jornal disse que o "caixa 2 não teria provocado impacto direto ou indireto nas tarifas de pedágio, segundo apuração preliminar. E também não teria dado prejuízo aos cofres públicos. Neste caso, os recursos destinados a deputados e ex-governadores para suas campanhas teriam saído do lucro da CCR", relatou o diário. A CCR, a exemplo da Petrobras, pode vir a ter problemas com seus acionistas.

Para fechar o acordo de leniência, a CCR admitiu ao MP-SP ter pago R$ 30 milhões em caixa 2 para campanhas de deputados e ex-governadores. 

Há mais de 2 décadas, São Paulo está sob o comando central de políticos filiados ao PSDB. Mas, ao contrário do que acontece na Lava Jato em relação a políticos do PT, PP e PMDB, principalmente, os tucanos paulistas beneficiados pelo esquema com a CCR não tiveram seus nomes revelados.

O Estadão informou apenas que não apenas o PSDB estava na lista do caixa 2 do total de R$ 30 milhões, mas também políticos do PT, MDB e PTB, entre outros partidos.

Além disso, o jornal conversou com um "investigador" anônimo e tudo o que a fonte adiantou foi que os políticos "vão de A a Z", sem revelar nomes. "Tudo que tiver de eleição nesse período está no acordo, até eleição de síndico de prédio tem lá."

A Folha de S. Paulo, por outro lado, disse ter apurado que se tratam de políticos do grupo de José Serra, Geraldo Alckmin e Gilberto Kassab.

Quando ao teor do acordo, o que se sabe até o momento é que cinco executivos da CCR teriam relatado aos promotores o "modus operandi" do esquema. Os repasses aos políticos eram feitos por meio de doleiros ou na forma de contratação de "consultorias".

Segundo o Estadão, esta investigação será restrita ao caixa 2, mas a ideia é que outro procedimento, na área criminal (corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa), seja instaurado. 

Pelo acordo de leniência, a CCR se comprometeu a pagar multa de R$ 81 milhões. Uma paRte, de R$ 17 milhões, será destinada à Biblioteca da Faculdade de Direito da USP como forma de doação.

"Um investigador destacou que a origem do acordo são duas recentes ações da Lava Jato no Paraná que pegaram concessionárias de rodovias envolvidas em esquema milionários de propinas. A delação do operador Adir Assad foi o ponto de partida da investigação."

A CCR, defendida pelo escritório do criminalista Celso Vilardi, ainda não se manifestou sobre o caso.

No GGN
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Caça às bruxas


“A caça às bruxas não foi... mera repressão. Foi também – e com igual importância – uma oportunidade, há muito esperada, para que aqueles que se sentiam impelidos a tal pudessem expressar publicamente seu sentimento de culpa e seus pecados, sob o manto de acusações contra as vítimas.”

Essa reflexão, feita por Arthur Miller na introdução da peça O Caldeirão, mais conhecida entre nós como As Feiticeiras de Salem, em razão do roteiro cinematográfico escrito por Jean-Paul Sartre, vem inevitavelmente ao espírito nestes tempos em que toda a espécie de demônios é exorcizada para justificar atitudes que seriam incompreensíveis a partir de padrões de normalidade.

Que culpas e pecados trarão dentro de si os que professam a homofobia, a misoginia, as atitudes racistas (ainda que disfarçadas por conveniência política)?

E que temores explicam a atitude anti-intelectual e obscurantista dos que que defendem interpretações místicas da história, que pregam a volta ao passado e desprezam o progresso social e a construção do futuro.

É muito curioso que afirmações políticas, ainda que metafóricas, sejam rebatidas com recurso a ameaças, que não visam a contrapor argumentos, mas a calar o opositor, valendo-se do pretenso poder que decorre de posições de autoridade.

É como se aqueles que as pronunciam de certa forma admitissem não dispor de argumentos racionais ou mesmo de qualquer poder de persuasão, retórico que seja. Mais fácil é valer-se de mecanismos de intimidação, ainda que sem nenhum fundamento na realidade, como implicitamente admitido por seus autores, que se revelam empenhados em buscar “possíveis” equívocos e irregularidades (para não repetir aqui a expressão totalmente imprópria utilizada em um desse casos).

Esse procedimento é, aliás, o que caracteriza a caça às bruxas, levando a que muitos se tornem cúmplices, por omissão, do barbarismo, movidos pelo temor de não serem eles próprios os próximos candidatos ao “caldeirão”.

Se as “bruxas” apontam, sobretudo, para fantasmas interiores, que assombram a mente dos “caçadores”, nem por isso deixam elas de corporificar-se em seres humanos concretos, que se tornam vítimas inocentes da obsessão do grupo que se apodera dos instrumentos repressivos que o Estado oferece.

Sem dúvida, essa caçada se presta também a outros objetivos, como o de distrair a massa pouco esclarecida de problemas reais que enfrenta, como a fome, a desnutrição, a pobreza e a doença, e para os quais os “donos” ou inquilinos do poder não querem ou não sabem apresentar soluções.

E, quanto mais o sacrifício de inocentes gera novas vítimas, mais cresce o sentimento de culpa dos seus algozes. Este, para ser apaziguado, exige sempre novas arbitrariedades, em um ciclo de terror que já experimentamos em passado não muito distante.

Obviamente, como todo ciclo, este também chegará ao fim, quando a sociedade, exausta do ódio, alimentado por formas de comunicação que impossibilitam o pensamento crítico, buscar descanso em visões mais generosas do ser humano.

A questão é quanto tempo durará o ciclo da caça e quantos serão os sacrificados. Não sabemos. Mas sabemos que o silêncio ‒ forçado ou induzido ‒ é a forma preferida para encobrir as injustiças, as quais, filho do medo, o próprio silêncio alimenta.

Oxalá esses pensamentos vagos que me ocorrem nesta quadra sombria por que passa nosso país sejam meros fantasmas, que o confronto das intenções com a realidade se encarregará de dissipar. Mas nada nos garante que seja assim. E dependerá de cada um de nós não se deixar intimidar pelas ameaças, sucumbindo ao silêncio.

Só dessa forma, o espectro da ditadura, que volta a rondar essas terras – e, na verdade, toda a nossa região –, poderá ser afastado com segurança. A prazo longo, a mentira não pode sobrepor-se aos fatos, nem as ameaças garantirão quietismo e submissão permanentes.

Resta esperar que, contrariamente ao aforisma de Lorde Keynes, quando esse tempo chegar, não estejamos todos mortos, literal ou metaforicamente.

Celso Amorim
No CartaCapital
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Apertem os cintos. O piloto assumiu!

O que os haitianos acham dos generais brasileiros?

Trata-se de Elio Gaspari e não Geisel... Quá, quá,quá!
O Conversa Afiada publica artigo sereno (sempre!) de seu "colUnista" exclusivo Joaquim Xavier:

Nada contra historiadores. Dependendo dos autores, são úteis para resguardar ensinamentos pretéritos, ajudar a entender o presente e tentar projetar o futuro. O problema é quando se metem a posar de analistas políticos e põem-se a prever o passado, sem esboçar opinião sobre como impedir a degradação em andamento onde pessoas de carne e osso vivem no seu dia a dia.

Estamos repletos daquele tipo de gente nos dias atuais. Esparramam chorumelas sobre os motivos que levaram o Brasil a uma situação como a de hoje e, quase invariavelmente, acrescentam o bordão falsamente salvador de suas próprias biografias: “a história vai mostrar que...” Vamos combinar: quando a história mostrar isso ou aquilo, a maioria de nós estará morta. O mal terá sido feito e nem mesmo esses “experts” em contemplação terá saboreado o erro ou acerto de suas previsões – salvo já ter preenchido seus próprios bolsos enquanto respiravam.

Eu, de minha parte, estou angustiado com os vivos de hoje. É com esses que eu entendo as pessoas sérias, adeptas da civilização e da democracia, deveriam se preocupar.

O Brasil acaba de sair de uma eleição fraudada. O candidato líder disparado nas pesquisas foi trancafiado sem provas nem evidências de crimes. O “vencedor” usou de recursos ilícitos, denunciados até pela mídia oficial, para subir ao Planalto a bordo da minoria de votos. Estes são os fatos. Mas dezenas de analistas historiadores passaram a considerar o escândalo como evento natural da “alternância democrática”.

Quando ocorreu justamente o contrário: a democracia foi estuprada, termo bem a gosto do capitão alucinado, para lançar o Brasil no atraso em todos os quadrantes.

Estamos em plena vigência da militarização plena da vida nacional. Mais um general acaba de ser nomeado responsável pela relação com políticos.

Mais grave: sob comando de fardados que possuem em seu currículo, quando não apologias a safadezas e torturas, fracassos retumbantes mesmo quando em sua missão original com tanques e armas em punho. Olhe-se a lista de generais que passam a ter o comando de fato do país: a maior parte deles andou pelo Haiti, a pretexto de pacificar aquele país e instaurar um panorama civilizado.

Veja-se como está o Haiti agora. A instabilidade, a fome e a violência permanecem a regra. Pergunte-se também ao povo haitiano que lembranças guardam da presença brasileira. Homicídios sem solução, humilhações e desrespeito generalizado a direitos humanos. Para quem não se lembra, um dos brasileiros protagonistas da infame operação haitiana matou-se em 2006 em pleno exercício da missão. Nem ele aguentou. Mais ou menos como acontece nos morros cariocas sitiados pelo Exército.

É com base nesse material “humano” que se pretende dirigir o Brasil.

Detalhe: a população do Haiti é inferior à da cidade de São Paulo. Fácil enxergar o barulho do desastre em gestação. Os agravantes são inúmeros. Incompetentes como militares, esses oficiais são chamados agora a bater continência para um capitão desmoralizado, salvo do xadrez por um voto de minerva de um tribunal militar.

Quem conhece um pouco da rotina verde oliva sabe que, na reserva ou na ativa, um general continua general; um capitãozinho, idem. Só colunistas - colonistas, como se diz aqui nessas paginas irresponsáveis ... - como Élio Geisel são capazes de acreditar que o general Heleno ou o patético Mourão, além dos outros, vão prestar obediência a Bolsonaro.

A anarquia administrativa, no sentido inverso, está instalada desde já. Ainda mais porque o capitão enfeitado de presidente está cercado por uma família que trata o Brasil como capitania hereditária. Fossem luminares, quem sabe o mal fosse disfarçado. Mas não. Trata-se de um grupo de beócios assumidos, incultos por opção e que se deslumbram mundo afora humilhando o Brasil com bonés de chefes de torcida de Donald Trump.

Ah, mas há um núcleo “civil” respeitável, insistem os teclados de aluguel. Respeitável? A área econômica está entregue a uma casta de abutres cuja capivara é no mínimo duvidosa. O pensamento ideológico tem como guru Olavo de Carvalho, um astrólogo baseado nos Estados Unidos capaz de proferir frases elegantes e profundas como estas: “Quanto mais educação sexual, mais putaria nas escolas. No fim, está ensinando criancinha a dar a bunda, chupar pica, espremer peitinho da outra em público" (FSP, 28/11). Como ele mesmo diz, sem ser contraditado, já indicou dois ministros. O da Educação e o novo chanceler.

Os historiadores metidos a analistas que me perdoem. O momento não é de colecionar acontecimentos para preencher o interior de lombadas nas estantes de herdeiros. A hora é de agir e rejeitar sem complacência um desastre que não apenas se anuncia. Já está em curso. Colocando em risco, acima de biografias de acadêmicos e políticos timoratos, a vida de dezenas de milhões de brasileiros.

Joaquim Xavier
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O recado sinistro do filho de Bolsonaro


Das três, uma.

Ou Carlos Bolsonaro, filho e conselheiro de Jair, é um poço de ressentimentos por alguma “derrubada” que tenha levado, ou há mistérios e conspirações sinistras no núcleo do governo em montagem ou, ainda, temos um clã de loucos na família imperial que vai ao Planalto.

O recado, no Twitter e no Facebook do “02”, o segundo filho de Bolsonaro, não podia ser mais pavoroso:

“A morte de Jair Bolsonaro não interessa somente aos inimigos declarados, mas também aos que estão muito perto. Principalmente após sua posse! É fácil mapear uma pessoa transparente e voluntariosa. “

Bem, Jair Bolsonaro tem um estado de saúde que, aparentemente estável, preocupa, como o de qualquer pessoa que tenha sofrido uma grave lesão abdominal. Ainda mais que nem mesmo foi liberado para a cirurgia restauradora do seu trato intestinal que, ao menos na previsão atual deverá ocorrer “após sua posse”.

Quanto “aos que estão muito perto” e que herdariam o poder, é evidente que ninguém mais se encaixa na descrição que o vice, general Hamilton Mourão, que é também, não se negue depois das “caneladas” pré e pós campanha, uma pessoa “voluntariosa e transparente”.

Esta morte interessante seria casual, desejada ou não haveria distância entre intenção e gesto, servindo-se alguém de algum “chá da meia-noite”, com que se despachavam os inservíveis para outra melhor?

O fato é que, estranhamente, mais não disse nem lhe foi perguntado pela ativíssima imprensa investigativa. Afinal, até pouco tempo, Carlos era considerado o filho mais próximo do ex-capitão e era apontado até como seu virtual porta-voz.

Agora, se não é com o General Mourão o assunto, espera-se que o General Augusto Heleno, em sua longa passagem no Haiti, não tenha se iniciado nas artes do vudu.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Em WhatsApp de diplomatas, chanceler é chamado de "pastor tarja preta"

Futuro ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo é alvo de severas críticas em mensagem que "circula febrilmente entre membros do Itamaraty"

Ele, o pastor tarja preta
Circula em grupos de WhatsApp de funcionários de carreira do Ministério das Relações Exteriores uma carta aberta e apócrifa ao futuro chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, contendo veementes críticas aos posicionamentos que tem manifestado o ministro indicado em entrevistas e em seu blog pessoal.

A carta foi enviada à reportagem da CartaCapital por um servidor do Itamaraty (leia a íntegra abaixo). Outros três diplomatas do órgão confirmaram que o texto está circulando nos grupos de celulares dos servidores do ministério e que ninguém duvida se tratar de uma carta escrita por um diplomata brasileiro. Temendo represálias, todos os funcionários ouvidos só concordaram em dar declarações sob a condição do anonimato.

A mensagem apócrifa traz respostas a críticas que o futuro chanceler tem feito a seus colegas de Itamaraty, como as de que boa parte dos diplomatas "são pretensiosos e precisam ser reeducados" e que será preciso "libertar o Itamaraty do marxismo cultural".

Também é intenção do autor responder a um artigo publicado pelo escolhido de Bolsonaro em um jornal local do Paraná, que pode ser lido aqui. O texto critica a classe diplomática, o Itamaraty e até as Nações Unidas: "No idioma da ONU, é impossível traduzir palavras como amor, fé e patriotismo."

Então, segundo consta na carta apócrifa, Araújo resume sua atuação a "aparições em blogs e artigos e a tentar desconstruir e desmantelar uma instituição, seus integrantes e sua qualificada atuação internacional. Todos somos marxistas e precisamos ser reeducados. Apenas ele é dono da verdade e ainda usa a expressão 'diplomatas pretensiosos' para tentar desqualificar os demais."

De acordo com os diplomatas ouvidos pela reportagem, a reação à mensagem tem sido variada entre os servidores do órgão. "O texto está circulando febrilmente nos grupos de WhatsApp do Itamaraty. Há os que reagem dizendo que se trata de uma resposta necessária aos excessos do futuro chanceler. Outros tentam especular sobre a autoria da carta. Muitos pensam se tratar de um funcionário experiente, com muito tempo de casa, a julgar pelas referências a diplomatas históricos constantes na mensagem", relatou uma fonte.

Já na opinião de um segundo funcionário que comentou o assunto, a carta serviria como uma espécie de Cavalo de Troia, para justificar uma possível caça às bruxas a ser posta em prática por Ernesto Araújo.

Leia abaixo a íntegra da carta.

Pastor das Relações Exteriores ou será um mero surto psicótico?

O jovem Embaixador alçado à função de Chefia de uma Casa que conta com uma das burocracias mais preparadas do País e cuja capacidade é reconhecida mundialmente volta a apresentar um texto em que ataca mais uma vez o pessoal do mal, aqueles do marxismo cultural, ou seja todos os demais diplomatas, segundo ele. Prega como um pastor: Eu me salvei e dou a vocês a chance de se salvar, se me seguirem. Doutra forma, o fogo do inferno te consumirá (esteja certo de que farei por onde, falta concluir ou não..).

Bem, sou diplomata e me orgulho de sê-lo. Não quero enfrentar esse Senhor, pois ele dispõe dos meios para literalmente infernizar minha vida. Por isso, por proteção especialmente àqueles que dependem de mim, não me identificarei. Entenda se puder essa circunstância e leia mais um pouco antes de abandonar este texto por me ter como covarde.

O futuro Pastor das Relações Exteriores não anunciou qualquer política externa que contenha estratégias, instrumentos e objetivos. Resume suas aparições em blogs e artigos a tentar desconstruir e desmantelar uma instituição, seus integrantes e sua qualificada atuação internacional. Todos somos marxistas e precisamos ser reeducados. Apenas ele é dono da verdade e ainda usa a expressão “diplomatas pretensiosos” para tentar desqualificar os demais. Mas a sua pretensão, senhor Pastor, ... bem, vamos deixar isso de lado..... E voltemos ao texto.

Nunca soube que um Chanceler tivesse saído pelo mundo pedindo desculpas pelo Presidente que o povo brasileiro elegeu ou que apenas estava ali por força militar ou parlamentar. Nem os reconhecidos Azeredo da Silveira e Guerreiro se desculparam da ditadura em que vivíamos. Então, Pastor, pare de escrever bobagem. Sabemos todos que ao Pastor das Relações Exteriores como a todos os que foram Ministro das Relações Exteriores (e das outras pastas) cabe assessorar o Presidente e, sim, obedecer suas orientações, mas também informar, ponderar e debater.

Todos os que sentaram à cadeira de Rio Branco não a ocuparam para “não deixar nada acontecer”. Cuidado para não cair nessa armadilha, especialmente ao se negar ao ouvir e a ver o que se passa no mundo, mesmo que sejam questões divergentes apresentadas por esses comunistas como o Financial Times (que deve ser leitura diária do seu futuro rival Paulo Guedes) e o The Economist (duas bíblias do capitalismo mundial) ou Figaro. Citar The Guardian, Le Monde e New York Times no seu artigo parece querer apagar da história. Os dois veículos que citei acima também são críticos ao Presidente eleito. Mas, prepare-se Pastor, que seus opositores estarão mais perto de Paulo Guedes (ou talvez seja mesmo o próprio Posto Ipiranga que venha a sê-lo) do que dos teclados dos jornalistas ou de seus colegas (ou passaram a ser ex?).

Ouvir seus colegas parece descartado, já que, como diria seu outro guru, o Itamaraty é mais a representação da ONU no Brasil do que o Brasil na ONU. Aliás, esclareço que a política externa brasileira sempre se adaptou aos Presidentes (não é isso que o Senhor apregoa sobre o ocorrido durante os mandatos do Presidente Lula) e, ao fazê-lo, sempre mudou, sempre evoluiu.

Não há registro de um governo brasileiro que, durante um ou dois mandatos, tenha conseguido se indispor com todos os países árabes de uma vez, todos os países da Europa (região é um “ espaço culturalmente vazio” – frase de vossa autoria), Noruega, Argentina, MERCOSUL e China, nosso maior parceiro comercial. Esse governo que integrará obteve a façanha de fazer isso antes mesmo de começar. É essa a mudança que o Pastor estará impondo à política externa? É essa a “voz efetiva” que estão impondo à representação do Brasil?

Pastor, pastor. O Senhor extrapolou a racionalidade ao falar de povo. Quantos Estados brasileiros o senhor “conhece”? Sabe o nome do palácio de governo da capital do Acre (Rio Branco)? Ou sabe melhor o da casa (dica) de governo ocupada por Trump? Conhece Macapá ou Ottawa? Washington ou Curitiba? Palmas ou Bruxelas? Bonn ou Belém? Berlim ou Aracaju? Além de Porto Alegre e Brasília, conhece para valer alguma outra capital brasileira ? Como concluir: Qual é o país que representará: o dos livros ou o que conheceu na suas andanças no exterior? Faço a pergunta para tentar entender a sua conexão (também a do Paulo Guedes e do Presidente eleito, por exemplo) com “a moça que espera o ônibus às 4 horas da manhã para ir trabalhar, com medo de ser assaltada, estuprada” (não vale para aquela que lhe presta serviços domésticos em sua residência, por favor) ou “o rapaz triste que vende panos debaixo do sol.. “.

Não vou repetir todo o seu texto. Mas repito a pergunta, o Pastor Ernesto Araújo teve contato com qualquer uma dessas pessoas para poder se arvorar em seu representante escolhido (por Deus, certamente) ou tomou conhecimento de sua existência em algum segmento do Globo Repórter?

Quero esclarecer, Senhor Pastor, o funcionário público trabalha para todos os brasileiros, T-O-D-OS, os da Avenida Paulista, de Paraisópolis, de Rio Branco (no Acre, tá?), independentemente de sua condição sócio-econômica. Esta é a definição básica de serviço público e é isso que nós diplomatas fazemos pela vertente exterior, identificando os reais interesses nacionais e pensando o Brasil além dos governos. Por isso, nos chamam de funcionários de Estado.

Não somos, nem seremos indiferentes aos interesses do nosso povo. Mas, não é a voz do povo que estamos ouvindo até agora. O que estamos ouvindo são bravatas desqualificadas que justificarão a caça às bruxas sob o manto da verdade eterna para “libertar o Itamaraty”. Mas, para tanto, o primeiro passo seria nos livrar de vossas pregações e nos deixar trabalhar pelo bem do Brasil e do nosso povo, sem querer nos impor falsos clichês, como de idiotas (“não tem os elementos de juízo e o conhecimento necessário”), marxistas. Afinal, não sobra ninguém a não ser Vossa Excelência, senhor Grande Pastor. Ansiamos que tivéssemos uma chefia que soubesse ouvir, dialogar, ponderar, dirigir, mas não nos colocar em forma e nos dar ordem unida.

Não vou entrar nas questões de que ser contra o marxismo não é uma ideologia, nem de que o marxismo está muito presente no Itamaraty (argumento risível - Casa conservadora por natureza; como deve saber ao se olhar no espelho, marxismo e conservadorismo não combinam), menos ainda de que não há aquecimento global.

O novo mote de deixar “o povo brasileiro entrar na política externa” não se aplica ao seu caso, que desconhece o povo, gente das classes baixíssima, baixa e média. Talvez tenha se relacionado com alguns da classe alta e certamente com intelectuais, como o doce e gentil Olavo de Carvalho e com muitos brasilianistas americanos e canadenses.

Enquanto o Pastor usa blogs e artigos para criticar o que esta aí, para acabar com isso aí, sem propor uma linha diretriz construtiva, há gente (seu grande apoiador e um de seus gurus) fazendo o trabalho de política externa que faria um Ministro indicado de estatura: visita a Washington. Ou será que serão eles que mandarão na política externa ou será que eles são o povo (sic) entrando na política externa?

Pastor, o Senhor se diz contra o cerceamento da liberdade de pensar e falar. Entendo que isso se aplica desde que a liberdade exclua o marxismo. É a nova forma de liberdade controlada? E, por ter escrito este texto na solidão da minha tristeza (como a do rapaz que vende panos) serei perseguido? Enviará seus comparsas da ABIN e das agências militares (ou será da CIA) para identificar quem ousou exercer a liberdade de pensar e falar?

Sei que este texto apenas ajudará aos incautos que o apoiam a ter mais certeza de que a sua indicação para o cargo que representa o nosso País no exterior foi a escolha certa. Mas não posso me calar, mesmo que às escondidas, a dizer que sua pregação é exagerada e seu remédio tarja negra precisa ter a dose aumentada.

Senhoras e senhores do Júri, “I rest my case”. SE CHEGOU AQUI, OBRIGADO! Concordando ou não, passe adiante nem que seja apenas pela liberdade de expressão, pelo direito ao debate.

Vinícius Segalla
No CartaCapital
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Carta aberta a Tacla Duran


Caro Rodrigo Tacla Duran, como você e o mundo já sabem, estamos vivendo dias difíceis aqui no Brasil. É que após a vitória questionável do Bolsonaro para a presidência da república, estamos vendo a montagem de um governo que mais parece uma facção criminosa. Tantos são os nomes apresentados para o compor e estão envolvidos em crimes.

Pois deixa eu te falar uma coisa, que você já deve ter sabido por notícias que chegam aí na Espanha. O que está impressionando a todos aqui, além dos políticos profissionais com nomes envolvidos em crimes, são aqueles que o ex-juiz Sérgio Moro está levando para trabalhar com ele. Muitos deles estão diretamente ligados a operação lava jato. Mas não é só isto! Cada um destes desempenhou, de alguma forma, uma ação irregular. Basta que o Sr. ou qualquer pessoa possa dar uma olhada no histórico dessas pessoas. Parece até um tipo de premiação por terem desempenhado a função que lhes foi pedida por Moro. Como já lhe falei, todas já comprovadas irregulares por muitos juristas, nacionais e internacionais.

Nós, a maioria do povo brasileiro que não votou em Bolsonaro, humildemente lhe pedimos que, se tens mesmo as provas contra a “facção criminosa na lava jato”, nos apresente com urgência. O Brasil está precisando de você.

Se é verdade que o amigo do ex-juiz, Carlos Zucolotto Júnior, lhe pediu dinheiro em nome de um procurador da operação para, supostamente, diminuir uma condenação sua, isto preciso ser gritado em alto e bom som. Já que esta não é a única denúncia contra uma parte da equipe envolvida de Curitiba.

Também queremos saber se a esposa do ex-juiz está mesmo envolvida em desvios de dinheiro de crianças com deficiências na Apae - Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais, ou se é só mais uma acusação sem provas. Nós precisamos saber a verdade dessa história.

Bom Duran, eu não acho que devas apresentar qualquer prova via grande imprensa nacional. Você, por favor, use as mídias sócias e a imprensa livre do Brasil. Também, peço, que se utilize dos Jornais New York Times e The Guardian e dos canais de TV, Al Jazeera e CNN. Me parece que eles fazem Jornalismo e estão imunes a qualquer tipo de chantagem. É que os grupos locais estão todos comprometidos com a inverdade. Eles conseguiram transformar a mentira em notícia e são expert em esconderem a verdade dos fatos. Aqui, conseguiram prender um inocente em um processo sem nenhuma prova e soltar criminosos em processos fartos de provas, e pasme, ainda dão a estes, partes de seus roubos para desfrutarem de suas aposentadorias ou, como dizem a boca miúda, cometerem novos delitos.

O Sr. Deve estar se perguntando o porquê desta carta. Bom, é que atualmente no Brasil não há notícia de que a Justiça possa ser feita em qualquer dos tribunais. Até mesmo o STF – Superior Tribunal Federal está “acovardado” e calado diante do que acontece em suas instâncias inferiores e se tornou uma vergonha mundial com a sua omissão em fazer Justiça.

Duran, no dia primeiro de janeiro irá se instalar no Brasil um grupo que até o momento está para ser compreendido, se um governo ou se uma facção criminosa. Tantas são as notícias que circulam dando conta de crimes praticados por alguns das pessoas que vão estar em alguns dos mais altos cargos da nação. Se o Sr. conseguir fazer chegar as provas contra uma parte de bando, nos ajude, por favor. O Brasil lhe será muito grato.

Para terminar, sem mais para o momento, o Sr. Afirmou que existe um “lado obscuro de Moro”. Nos apresente este lado, por favor. E se sabes onde está a cópia da gravação da conversa entre Moro e o amigo Zucolloto que a jornalista Denise Mello teve em mãos e que nunca foi ao ar, nos diga como fazer chegar a todos os brasileiros.

Atenciosamente,

Um Brasileiro.

Dimas Roque
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Qual autocrítica cabe ao PT?

De Giordano Bruno, Galilei e Copérnico, entre outros hereges, a Santa Inquisição não queria extrair apenas a liberdade ou a própria vida. Acima de tudo, buscava abjuração das ideias. Puni-los era insuficiente: a Igreja somente se dava por satisfeita quando beijavam a cruz e reconheciam que a Terra era o centro do universo.

Esse espírito atravessou os tempos. Muitas das vozes que exigem autocrítica do Partido dos Trabalhadores, por exemplo, assim mascaram o desejo de vê-lo renegando sua natureza classista.

Líderes, intelectuais e veículos de comunicação vinculados à combalida centro-direita acenaram com apoio a Fernando Haddad, no segundo turno, desde que o PT aceitasse a supremacia da economia de mercado e a imutabilidade do Estado liberal, desfazendo-se da liderança de Lula e rompendo com aliados internacionais.

A campanha não cedeu a essas pressões, mas claudicou nas primeiras duas semanas do segundo turno, dedicando energias fundamentais à possibilidade de deslocar a centro-direita para um pacto contra o bolsonarismo. Tirou o vermelho de suas cores eleitorais, mudou o jingle, desidratou a presença de Lula, modificou parte do programa, abraçou o algoz do "mensalão" e até flertou com a Operação Lava Jato.

Há um fio condutor entre essa conduta e erros que levaram o petismo a ser presa relativamente fácil do golpe parlamentar de 2016: a ilusão de que possa haver compatibilidade entre neoliberalismo e democracia, com setores relevantes das elites reagindo a mudanças distributivas sem romper com a ordem constitucional e a soberania popular.

Essa percepção fantasiosa, inibindo tanto um projeto radical para a reforma do Estado quanto uma aposta prioritária na mobilização popular, deixou o PT vulnerável à contrarrevolução preventiva que se armou a partir de 2014.

Ficou encurralado por um cerco institucional ao qual não estava preparado para romper de fora para dentro do poder público, recorrendo à organização e ao movimento de suas bases sociais.

As lições da derrubada do governo Dilma Rousseff acabaram por levar à bem-sucedida construção do primeiro turno, iniciada ainda em 2017, marcada pelo enfrentamento ao bloco antidemocrático, a defesa da candidatura do ex-presidente Lula até o limite possível e a transferência de votos para um representante de seu legado.

 O segundo turno, contudo, esteve contaminado pela centralidade da aliança com a ala moderada do neoliberalismo, jamais efetivada e de baixo potencial eleitoral. Pagou-se o preço em tempo perdido, esmaecimento de simbologia junto ao eleitorado mais pobre, perda de combatividade e alheamento da pauta econômico-social.

 Quando essa miragem se desfez, na última semana, e a campanha assumiu a confrontação contra Bolsonaro em todos os terrenos, estimulou-se amplo movimento antifascista, reduzindo pela metade a diferença eleitoral que chegara a 20%. Já era tarde, no entanto.

 Mesmo derrotados, porém, o PT e seu candidato caíram de pé, porque foram capazes de recompor sua identidade, negando-se ao beijo na cruz e reencontrando-se com seu veio histórico. Possivelmente preservarão condições de combate se evitarem a cantilena da autocrítica desejada por seus inimigos e até por alguns potenciais aliados.

Breno Altman, Jornalista e fundador do site Opera Mundi
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“Continência” de Bolsonaro não foi a Bolton, foi a Trump


Quem conhece um pouco das práticas militares, sabe que não se presta continência a uma pessoa, mas a um cargo, uma patente ou a um uniforme. Ou a um símbolo, como a bandeira.

E que ela parte sempre do menos graduado para o mais graduado.

Os 30 anos de afastamento do Exército certamente não fizeram Jair Bolsonaro esquecer estas regras ao prestar  continência ao assessor de Segurança Nacional dos EUA, John Bolton. Que, por sinal, não é militar, mas diplomata.

Bolsonaro, ademais, entende tudo de simbologia de propaganda, tanto que criou, usou e abusou do gesto da “arminha” com as mãos durante e até depois da campanha. A foto do hospital, então, é um achado para o “mártir do combate”.

Conta que o gesto seja visto, entre divertido e significativo, como um aceno que Bolton levará ao chefe Trump, que talvez tenha ainda apenas na conta de “folclórico”, na mesma categoria de Rodrigo Duterte, nas Filipinas, com suas ideias sobre extermínio.

Tudo está em linha com o que escrevi no primeiro post de hoje e nada é fruto de tolice ou acaso, embora o seja de uma estupidez primária.

Se Bolsonaro espera ser erguido à condição de delegado dos EUA na América do Sul e que isso vá graduá-lo diante do mundo, receberá o inverso: em matéria de prestígio, pode tornar-se uma Filipina austral.

Ou nem isso porque, como ficou evidente na 2ª Guerra, as mais de 7 mil ilhas do arquipélago filipino ficam a algumas centenas de quilômetros dos centros de poder asiáticos, antes o Japão e agora a China.

Portanto, nem é preciso um general, feito Douglas MacArthur. Basta um Bolton. Ou nem isso.

Fernando Brito
No Tijolaço


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Em 1 mês de Jair Bolsonaro eleito, ao menos 40 retrocessos e absurdos; veja a lista


Quando tinha se passado apenas uma semaninha desde a eleição de Jair Bolsonaro (PSL) para a Presidência da República, contabilizei aqui no blog ao menos 14 medidas anunciadas que significariam grande retrocesso ou que eram simplesmente absurdas. Continuei computando uma a uma (com as devidas atualizações, já que houve também vários recuos, após a péssima repercussão que alguns anúncios tiveram), e hoje divulgo a lista fechada do primeiro mês de Bolsonaro eleito. Cheguei ao número redondo de ao menos 40 retrocessos e absurdos – embora, vendo os parêntesis com links explicativos, o número possa ser bem maior, porque cada uma das coisas tem vários desdobramentos. Isso significa uma média de mais de um por dia. E olha que o novo presidente nem tomou posse ainda. Boa sorte para nós a partir de janeiro!

Dentre as várias coisas escabrosas da lista, destaco as várias imbecilidades no campo diplomático, a começar pela escolha desastrosa de chanceler para o Itamaraty, mas seguindo com a ideia de trocar a embaixada de Tel Aviv para Jerusalém (comprometendo as relações com os países árabes, sem qualquer vantagem em troca dessa insanidade) e com o colapso do Mais Médicos a partir de fala estabanada do Bolsonaro, colocando em risco o atendimento de milhares de brasileiros.

Mas tem ainda um monte de coisas terríveis, como a investida contra jornais e jornalistas, a perspectiva de rifarem o patrimônio brasileiro para o capital estrangeiro (a começar pelo pré-sal), a escolha de um ministro da Educação que é contra o Enem, é pró-golpe militar e acha que democratizar as universidades é “bobagem”, e a convocação de vários outros nomes esdrúxulos ou corruptos para compor a equipe de transição e os futuros ministérios (que, diga-se de passagem, devem ser 21 ou 22, e não os 15 prometidos em campanha).

Enfim, como muitos de nós temíamos, as perspectivas para o Brasil nos próximos quatro a oito anos não são nada boas.


2. Ministros confirmados incluem Sergio Moro, general Heleno, e o superministro Onyx Lorenzoni, que ocupará a Casa Civil. Onyx foi citado durante a Lava Jato e confessou ter recebido R$ 100 mil de caixa 2 na campanha de 2014.


4. Retirar ensino superior do MEC pode provocar quebra no atual sistema educacional (AQUI, mais sobre as propostas do presidente eleito para a educação, que incluem mensalidades em universidades públicas e ensino à distância desde a infância).


6. Pela primeira vez na História, Congresso veta jornalistas em plenário no primeiro compromisso de Bolsonaro eleito (AQUI, Bolsonaro ameaçou a Folha de S.Paulo; AQUI, ele barrou vários jornais em sua primeira coletiva após eleito; ataques dele à imprensa chegaram a 10 por semana).



9. Bolsonaro não abre mão sobre flexibilização de posse de arma (e AQUI, Eduardo Bolsonaro defende ampliação do acesso a armas por decreto presidencial; lembrando que há mais mortes de crianças por arma de fogo nos EUA em Estados com legislação flexível).



12. Sobre os “guardas da esquina” desde que Bolsonaro foi eleito: além da deputada que quer perseguir professores, temos o estudante que pregou “matar a negraiada“, o homem que foi espancado e morto por oito homens que gritavam o nome de Bolsonaro, os alunos da USP pregando mensagens de ódio às mulheres. Ah, e policial federal manda cinegrafista apagar imagens de Bolsonaro. Não vi nenhuma reação do presidente eleito a esses crimes praticados por apoiadores.





17. Bolsonaro diz que, em seu governo, “vai tomar conhecimento da prova antes” da realização do Enem pelos estudantes, medida que confronta critérios técnicos e de segurança do exame.


19. O superministro Paulo Guedes já gerou crise com o legislativo, o que deve comprometer a governabilidade do novo presidente. (Sem contar o tanto que demonstrou desconhecimento sobre coisas básicas, como a votação do Orçamento)

20. Bolsonaro gera crise com a China, maior parceiro comercial do Brasil.



23. Alberto Fraga (DEM), que tem áudio gravado pedindo propina, foi convidado (e depois desconvidado, tamanha a repercussão negativa) para fazer parte do governo.

24. Bolsonaro repetiu a mentira do “kit gay”, comprovadamente falso, em entrevistas já como presidente eleito. Ou seja, ele não se importa de mentir MESMO, nem quando a campanha eleitoral já acabou.

25. Joaquim Levy, que falhou no ajuste fiscal como ministro da Fazenda do governo Dilma, é anunciado como presidente do BNDES do novo governo.


27. Bolsonaro dá declarações irresponsáveis sobre Cuba, colapsa o Mais Médicos, irrita prefeitos que dependem do programa para manter a saúde funcionando e ainda pode gerar apagão de atendimentos em pequenas cidades do país. Nada menos que 24 milhões de brasileiros foram prejudicados. (Questionado sobre repercussão, ele encerra coletiva. Fujão.)


29. Equipe de transição já tem racha. Imagina como será quando esse povo todo estiver efetivamente no poder, a partir de janeiro!



32. Bolsonaro discute privatização da Petrobras, nosso maior patrimônio. (Depois o futuro presidente da estatal negou privatização… Mas daí Paulo Guedes diz que vai criar Secretaria de Privatizações. E Futuro chefe da Petrobras já disse que privatização da empresa é “urgente”).

33. Ainda na série “adeus, patrimônio brasileiro”: Paulo Guedes escolhe especialista em privatizações para o comando da Caixa


35. Equipe de transição discute retirar Funai do Ministério da Justiça; temor é que vá parar nas mãos do agronegócio, colocando em risco pelo menos 130 demarcações que ainda dependerão do novo governo.

36. Começou o cabide de emprego, que você também pode chamar de nepotismo: Boslonaro vai voltar Comunicação Social ao status de ministério e quer nomear o filhote que é apenas vereador para o cargo de ministro. Motivo: “ele é fera em redes sociais”. (Depois… adivinha? Ele recuou da ideia)


38. Bolsonaro não decepciona em sua ruindade: depois de quase anunciar Mozart Ramos, diretor do Instituto Ayrton Senna e que parecia bastante qualificado para o cargo de ministro da Educação, e depois de o nome de Mozart ter sido vetado pela bancada evangélica (!) por ser, aparentemente, neutro em relação ao Escola Sem Partido, Bolsonaro elege o colombiano Ricardo Vélez Rodríguez para o cargo. Ah sim: Rodríguez foi indicado por Olavo de Carvalho, que já tinha emplacado o chanceler. Impressionante como esse astrólogo e pseudofilósofo tem influência sobre o futuro presidente do país, que horror! O novo ministro da Educação é contra o Enem!!! Ah, e disse que o golpe de 64 tem que ser comemorado!!!

39. Bolsonaro se oferece a Trump como aliado-chave e relança cúpula conservadora latina. Sem comentários. Leiam a reportagem de Afonso Benites no El País e pensem no estrago que isso pode causar ao Brasil.

40. Novo ministro da Educação diz que Bolsonaro poderá ver a prova do Enem antes (o que confronta critérios técnicos e de segurança do exame) e diz ainda que democratização da universidade “é bobagem”. Adeus, alunos mais pobres com ensino superior! Adeus, cotas!

(to be continued… pelos próximos quatro anos!)

Do Kikacastro
No Luíz Müller

Atualizando...

41. Bolsonaro desmente Onyx diante das câmeras e diz que participou de decisão sobre a COP 25



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