26 de nov. de 2018

A Insuperável Leveza do governo Bolsonaro

https://www.ocafezinho.com/2018/11/26/wanderley-guilherme-a-insuperavel-leveza-do-governo-bolsonaro/

Estava certo o que se pensava antes da vitória de Jair Bolsonaro: ele não tem ideia do que seja governar um país. Igualmente apropriada era a tese de tratar-se de político periférico, com discurso rotineiro para dois nichos de eleitores: os conservadores brutamontes e os fardados – do Exército, bombeiros, policiais militares – além da polícia civil, delegados e demais autoridades coatoras. Ou seja: franca expressão do aparelho repressivo em suas nuances bélicas. Reacionário em costumes, Bolsonaro ganhou palco adicional com a restrição legal às decisões e liberdades privadas da população sobre o próprio corpo: direitos reprodutivos, orientação sexual, vestuário, hábitos de consumo (álcool e maconha, principalmente), bem como a abordagem médica aos vícios pesados.

A redução do tratamento discriminatório da mulher no mercado de trabalho, algo mal desembarcado no litoral, revelou ao combativo então parlamentar novo contingente de entidades malignas: mulheres ativistas, índios, quilombolas, religiões afroassimiladas. Em sua longa carreira parlamentar não há registro de projetos promovendo algum valor ou ideal. Sempre foi do contra, à exceção do apoio ao impedimento de Dilma Rousseff, ocasião em que homenageou o oficial que a torturara durante a ditadura. Uma atitude que, longe de qualificar a altivez do parlamentar, desqualifica o indivíduo. E não seria o poder obtido na mais estranha das eleições presidenciais brasileiras que o tornaria uma pessoa humanamente mais respeitável.

Percebe-se a inexistência de projeto de governo representado pelo candidato Jair Bolsonaro. Ele não conhecia nada nem círculos de profissionais, afora a família e dois ou três marginais à vida acadêmica e política que a ele se juntaram por falta de opção. Ninguém estava interessado em Paulo Guedes ou Onyx Lorenzoni e o candidato a candidato só obteve legenda à última hora. À medida que o processo eleitoral se mostrava estranho, teve a candidatura transformada em saco de gatos e ratos. A vitória não recompensou senão aos eventos bizarros da história humana a que se procura ficcionalmente creditar estratégias ocultas e movimentos tectônicos da sociedade brasileira.

Por isso o presidente eleito terceiriza o governo e se cerca de militares. Só se pronuncia para desmentir ministros não empossados ou vetar algo. Nada produtivo ou animador. Espera-se que Paulo Guedes, Sergio Moro e os militares saibam o que fazer com o governo terceirizado. E se eles não estiverem de acordo entre sí? Já imaginaram o ex-capitão Jair Bolsonaro arbitrar uma disputa entre o general Hamilton Mourão e Paulo Guedes? Ou entre Sergio Moro e o general Augusto Heleno? Pois, é.
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Revista inglesa afirma que saída dos médicos cubanos pode impactar negativamente na saúde do Brasil

Como deputados Jair e Eduardo Bolsonaro apresentaram projeto para acabar com o Programa Mais Médicos.
Também apresentaram uma emenda para tentar impedir que familiares de médicos cubanos trabalhassem no
Brasil. Cinicamente, hoje, Jair Bolsonaro oferece ''asilo'' a médicos cubanos.
Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil
As entidades médicas brasileiras passaram os últimos 5 anos e 4 meses desqualificando o Programa Mais Médicos, em especial os profissionais cubanos.

A Associação Médica Brasileira (AMB) e o Conselho Federal de Medicina (CFM), por exemplo, bateram na tecla de que não faltavam médicos no País. O que havia era má-distribuição.

Porém, a participação dos cubanos no programa comprovou: há má-distribuição, sim, mas também número insuficiente de médicos.

De tabela, deixou nuas as corporações médicas, historicamente conservadoras.

Escancarou que a saúde pública dos brasileiros e o Sistema Único de Saúde (SUS) não são as reais preocupações delas. Ao contrário.

Na verdade, priorizam a defesa dos interesses da medicina privada e da reserva de mercado em detrimento do SUS.

Com o anúncio da saída dos médicos cubanos não foi diferente.

No momento em que milhões de brasileiros estavam aflitos com perspectiva voltarem a ficar sem médico, dirigentes das entidades, rachadas, basicamente tinham atenção para o próprio umbigo.

Ou seja, a disputa — com direito a golpes abaixo da cintura — pelo cargo de ministro da saúde de Jair Bolsonaro (PSL).

Enquanto seguiam atirando nos cubanos,  The Lancet fez uma reportagem sobre a saída deles do Brasil, mostrando que pode impactar negativamente na saúde do Brasil.

Editada no Reino Unido e fundada em 1823, a Lancet é uma das mais prestigiadas revistas médicas do mundo.

A matéria, assinada por Lise Alves, está na edição publicada nesse sábado, 24 de novembro.

Seguem a tradução em português e o texto original, em inglês.

A SAÍDA DOS MÉDICOS CUBANOS PODE IMPACTAR A SAÚDE DO BRASIL

A decisão de Jair Bolsonaro de proibir os médicos cubanos de praticar no Brasil, a menos que condições estritas sejam atendidas, pode afetar negativamente as comunidades remotas. Lise Alves relata de São Paulo

Milhões de brasileiros, a maioria dos quais vive em áreas remotas e vulneráveis, podem ficar sem assistência médica, disseram especialistas em saúde, após autoridades cubanas anunciarem que o país está retirando seus médicos do Programa Mais Médicos do Brasil.

A decisão foi tomada depois que o presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, declarou que os médicos cubanos só poderiam permanecer no programa se fizessem um exame para validar suas credenciais médicas, começassem a receber salários completos pagos pelo governo brasileiro e permissão para trazer suas famílias para o Brasil.

“É uma catástrofe. Esta retirada dos médicos cubanos impactará negativamente o sistema público de saúde, aumentando as demandas por atendimento nas redes de média e alta complexidade e agravando as desigualdades regionais ”, afirmou Renata Anderson, doutora em gestão socioambiental e saúde da Fundação Getúlio Vargas.

Para Anderson, será muito difícil substituir esses médicos nos municípios mais remotos do norte do Brasil. “Não temos outro [programa de saúde] para levar médicos a esses lugares remotos, exceto o Mais Médicos ”, disse ela.

A participação cubana no Programa Mais Médicos foi criada em 2013 por meio de uma parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).

“Durante esses 5 anos de trabalho, cerca de 20 mil funcionários cubanos ofereceram atendimento médico a 113.335.000 pacientes em mais de 3.600 municípios e conseguiram atender a um universo de até 60 milhões de brasileiros”, disse comunicado do Ministério da Saúde de Cuba, divulgado em 14 de novembro.

Segundo a OPAS, há 8.500 médicos cubanos atuando na Estratégia Saúde da Família e na Estratégia de Saúde Indígena. Esses médicos prestam serviços básicos de saúde para cerca de 8 milhões de famílias brasileiras, que compõem quase 30 milhões de pessoas.

Esses médicos cubanos estão distribuídos em 2.800 municípios, sendo que são os únicos provedores de assistência médica em mais de 1.500 municípios. Esses municípios são geralmente pequenos (menos de 20 mil habitantes) e estão em locais vulneráveis e remotos, com baixo índice de desenvolvimento humano, como a região Amazônica e o semiárido nordestino.

A situação, segundo a OPAS, é ainda mais grave nas indígenas comunidades, já que 300 médicos cubanos prestam cuidados básicos a 75% da população indígena do Brasil.

“As consequências da saída dos médicos cubanos possivelmente aprofundarão a crise que já atravessa a saúde da população brasileira”, afirma análise feita por Renato Tasca, médico e coordenador da Unidade Técnica de Sistemas e Serviços de Saúde da OPAS-Brasil.

Para Anderson, se os médicos substitutos não forem encontrados rapidamente, as doenças que estão sendo monitoradas, como tuberculose, dengue e malária, podem começar a se espalhar indiscriminadamente mais uma vez.

“Os médicos cubanos eram os olhos e ouvidos das comunidades menores e notificavam as autoridades estaduais e federais desses casos”, afirmou.

Os tratamentos para diabetes e pressão arterial elevada, por exemplo, custam mais ao sistema público de saúde quando são interrompidos e reiniciados.

“Os cuidados contínuos na saúde primária têm valor incrível dentro de todo o sistema de saúde”, concluiu Anderson.

O Ministério da Saúde do Brasil anunciou em 16 de novembro que estaria começando a selecionar médicos para preencher esses cargos já no final de novembro.

Dizia o comunicado do ministério:
A ação imediata será um anúncio para convocar nos próximos dias os médicos que querem ocupar as vagas que serão deixadas por profissionais cubanos.
A prioridade será dada a candidatos brasileiros com diplomas brasileiros, seguido de brasileiros com diplomas estrangeiros.
Porém, as autoridades públicas locais não são tão otimistas.

Em uma declaração conjunta, o Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems) e a Frente Nacional de Prefeitos (FNP) afirmam que temem um “cenário desastroso” para a população em mais de 3.000 municípios, a partir de 1º de janeiro de 2019.

Essas entidades alertam o governo recém-eleito sobre os “danos iminentes e irreparáveis à saúde da população”, incluindo proporcionalmente a população que não é atendida pelo Programa Mais Médicos.

Sem assistência médica, afirmam, a população que contou com o programa buscará hospitais e clínicas de maior complexidade e mais caros para seus cuidados primários, sobrecarregando essas instituições e todo o sistema de saúde, tanto público quanto privado.

Lise Alves


Conceição Lemes
No Blog da Saúde
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30 milhões de pessoas vivem em desertos de notícia

Em 30% dos municípios, onde habitam 34 milhões de brasileiros, há só um ou dois veículos de comunicação: são desertos


Mais da metade dos municípios brasileiros são desertos de notícia, ou seja, não contam com meios jornalísticos locais. A conclusão é da segunda etapa do Atlas da Notícia, que contou com uma campanha de crowdsourcing (levantamento de dados colaborativo) e foi divulgada nesta semana. 

O estudo concluiu que não há veículos de comunicação em 51% dos 5570 municípios brasileiros, onde vivem 30 milhões de pessoas. Em 30% dos municípios, onde habitam 34 milhões de brasileiros, há só um ou dois veículos de comunicação. São considerados “quase desertos” e correm o risco de se tornarem “desertos”.

Projeto inédito de mapeamento de veículos de jornalismo — especialmente local — no Brasil, o Atlas da Notícia é uma realização do Projor (Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo) e tem a pesquisa, análise e publicação dos dados desenvolvida pela agência Volt Data Lab. 

Para a presidente do Projor Angela Pimenta, o “direito humano universal de receber informações de interesse público sobre o poder local fica comprometido com a ausência de jornalismo local”, como declarou em entrevista recente

Segundo o Atlas da Notícia, quase 60% dos veículos de comunicação brasileiros são de rádio ou impresso. Foram catalogadas 4007 iniciativas de rádio, 3368 jornais impressos, 2773 veículos de televisão, 2263 iniciativas on-line e 56 revistas. Os desertos de notícia são mais presentes nas regiões Norte (70% dos municípios) e Nordeste (64%). A região Sudeste (38%) é a que menos tem vazios de iniciativas jornalísticas.

Sergio Spagnuolo, editor do Volt Data Lab, considera que ao “se obter conhecimento sobre vazios de notícia e sobre a característica de veículos no interior do Brasil, fora dos grandes centros de mídia, será possível orientar iniciativas, programas e políticas que possam fortalecer o jornalismo local”.

O levantamento também constatou uma correlação entre a presença de veículos jornalísticos e um maior índice de desenvolvimento humano municipal (IDHM). O estudo completo está disponível no site do Atlas da Notícia.

O estudo recém-divulgado não é comparável com os divulgados anteriormente, já que leva em consideração informações pesquisadas em 2017, enquanto os demais utilizam-se do Censo 2010. Além disso, é a primeira vez que o Atlas da Notícia considera veículos de TV, rádio, impresso e on-line conjuntamente.

O Atlas da Notícia se inspira no projeto America's Growing News Deserts, da Columbia Journalism Review. Com apoio do Facebook Brasil, ele conta também com a parceria institucional da Abraji.

No GGN
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Eram esses os critérios técnicos? Bolsonaro e o “aparelhamento do governo” pelos militares

O general Carlos Alberto dos Santos Cruz em ação
Desde que o PT perdeu o poder, algumas palavras caíram em desuso na mídia. Uma delas, invocada para tudo, é “aparelhamento”.

Deveria estar sendo empregada para o que Jair Bolsonaro está fazendo em seu governo com os militares.

Nesta segunda, dia 26, ele anunciou, pelo Twitter, onde mora, o general-de-divisão Carlos Alberto dos Santos Cruz para comandar a Secretaria de Governo.

É o quarto militar nomeado. Com Hamilton Mourão na vice presidência, temos cinco no primeiro escalão, o maior número desde o fim da ditadura.

Os demais são o general Augusto Heleno para o Gabinete de Segurança Institucional, o general Fernando Azevedo e Silva na Defesa e o tenente-coronel Marcos Pontes, o astronauta que vendia “travesseiros da Nasa”, na Ciência e Tecnologia.

Um sexto pode estar a caminho.

Mourão afirmou que o general da reserva Joaquim Maia Brandão Júnior é avaliado para o novo Ministério da Infraestrutura, segundo o Estadão.

“Ele tem grande experiência na área”, garante Mourão.

Por isso entenda-se o trabalho no Departamento de Engenharia e Comunicações da corporação por cinco — cinco — anos.

Em entrevista, Cruz resumiu por que o chefe o escolheu.

“Eu me formei antes dele três anos. Mas, depois, a gente participou de equipes esportivas juntos. A gente vem de um relacionamento muito sadio da área esportiva”, conta.

Maravilha.

Há dois dias, Bolsonaro repetiu que “o critério para preencher (os ministérios) é técnico, não é festa”. Ele não vai “jogar cargo pra cima e quem se jogar na frente pega”.

Ufa. Bolsonaro se reúne regularmente com os companheiros da caserna. No domingo, 25, almoçou na Escola de Educação Física da corporação no bairro da Urca, no Rio.

O convite do evento dizia que o “Encontro do Calção Preto” de 2018 reuniria comandantes, instrutores e professores para “relembrar momentos inesquecíveis passados da unidade”.

Difícil crer que cada rendez-vous desses sirva apenas para recordar dos bons tempos em que Dom & Ravel tocavam na vitrola.

Com passagens no Haiti e no Congo, Cruz falou à Folha que não acha que a interlocução com o Congresso Nacional seja uma “assombração”. Deve pensar que é tudo a mesma selva.

Em sua coluna, Lauro Jardim revelou que, na privacidade, Dias Toffoli, presidente do STF, só chama Bolsonaro de “capitão”.

Se é ironia, deferência ou medo, não ficou claro. Mas, conhecendo o grau de coragem do Supremo, você já imagina.

Kiko Nogueira
No DCM
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MPF, mais uma vez, cumpre seu papel político contra Lula


A nova denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal contra Lula, em São Paulo, é mais um capítulo vergonhoso de perseguição movida por um poder de estado contra um cidadão despido de todos seus direitos. Não um cidadão qualquer, mas uma das personalidades políticas mais respeitadas fora deste país liliputiano.

Trata-se daquelas denúncias que não se sustentam nem sob a ótica da verossimilhança.

Segundo reportagem do Estadão (clique aqui), em 2011 e 2012 – portanto, sem ter nenhum cargo público – Lula teria intercedido por uma empresa brasileira junto ao presidente da Guiné Equatorial. Qual a acusação a Lula? O de ter influenciado o presidente de outro país no exercício de sua função! Não era Lula no exercício da sua função, mas o presidente da Guiné Equatorial. Lula o influenciou como? Não foi com propina, caixa 2, mas com seu prestígio pessoal, na condição de ex-presidente da República, não de um Presidente no gozo de seu mandato.

Em 2016 – ou seja, 4 anos depois! – houve uma doação de R$ 1 milhão da empresa ao Instituto Lula. A única "prova" que une tudo é um e-mail de Miguel Jorge ao Instituto, em 2011, dizendo da intenção da empresa em contribuir com o Instituto.

No final do processo, qualquer juiz isento desqualificará a denúncia. Como a desqualificaria qualquer procurador que colocasse a busca da justiça acima do jogo político.

Mas o objetivo político mais uma vez estará alcançado.

Luís Nassif
No GGN
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Em Içara - SC, 82% dos eleitores escolheram Bolsonaro. A cidade perdeu metade dos doutores do Mais Médicos




Nicolas ficou oito dias internado no hospital de Içara. E nenhum dos médicos sabia explicar o que atacava o garoto de 8 anos. “Depois disso, eu trouxe ele no posto de saúde e conhecemos a doutora Ienni”, me disse a mãe de Nicolas, Renata Reus, moradora da pequena cidade no interior de Santa Catarina.

A doutora Ienni Lopes Camacho, de 27 anos, é um dos nove cubanos que atuavam na cidade de 55 mil habitantes como parte do programa Mais Médicos até a decisão do governo caribenho de retirar seus profissionais do Brasil em resposta ao presidente eleito, Jair Bolsonaro, crítico da importação de médicos. Os cubanos representam metade do força de atendimento básico na cidade.

Nicolas sofria há meses de problemas de saúde não identificados. Quando encontrou o rapaz, Camacho pediu uma série de exames e descobriu que o garoto sofria de múltiplas alergias, incluindo doença celíaca, o que o impede de comer alimentos com glúten, como pão. “Ela foi muito atenciosa e pediu vários exames até descobrir o que ele tinha”, me disse a mãe. “Não quero desmerecer os médicos brasileiros, mas os cubanos têm um cuidado especial com os pacientes. Se eles forem embora, acho que a nossa cidade vai piorar”, completou.

No dia 19 de novembro, Renata Reus saiu lacrimejando da última consulta com a sua médica preferida. Assim como outros 8.555 médicos cubanos no Brasil, Camacho deve deixar o país. “Podemos fazer um abaixo-assinado para a doutora ficar na cidade?”, perguntou.

A mãe de Nicolas votou em Jair Bolsonaro, bem como 82% dos eleitores de Içara. “Eu não tenho como dizer se é culpa dele [Bolsonaro] ou não a saída dos médicos cubanos, pois ele nem assumiu ainda a Presidência. Eu acredito que ele vai ser um bom presidente, mas que esses médicos não deveriam ser retirados por uma avaliação política, mas, sim, pelo seu profissionalismo. É triste isso porque perdemos bons profissionais”, me disse.

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Ienni Lopes Camacho (à esquerda) está entre os nove cubanos que atuavam na cidade de 55 mil habitantes como parte do programa Mais Médicos
Foto: Eduardo Valente
Dos 18 médicos que atuam na atenção básica na cidade, 14 são do programa Mais Médicos.
Nesta semana, uma médica cubana de Içara já retornou para a ilha do Caribe, e todos os médicos estrangeiros já estavam afastados do trabalho desde terça-feira por orientação do governo da ilha. Dos 18 médicos que atuam na atenção básica na cidade, 14 são do programa Mais Médicos, criado em 2013 pela presidente Dilma Rousseff para capilalizar o atendimento ao interior do Brasil, muitas vezes deixado de lado pelos doutores que preferem ficar nas capitais. Além dos nove cubanos, há cinco brasileiros no Mais Médicos de Içara.

Ienni Camacho estava na sua primeira missão humanitária como médica. Com um filho de 2 anos que ficou em Cuba com a avó, ela já definiu que deixa o Brasil em dezembro. “Ela não vai embora. Se o Fidel vier buscar ela vamos colocar ele pra correr daqui”, brincou Waldir Gislon, 77, enquanto aguardava pela consulta.

Camacho também está sofrendo. “É muito doloroso, porque depois de um ano e três meses aqui, já conheço todos os meus pacientes e só de ver eles na porta já sei se é acompanhamento, primeira visita ou retorno por algum exame”, diz a médica.

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Para a médica Esther Carina Abeledo “nenhum cubano é enganado ou explorado”.
Foto: Eduardo Valente

‘Quem assina esse contrato não vem pelo dinheiro’

Flor de Liz Levandoski, 55 anos, também votou em Bolsonaro e está perplexa com a situação. “A gente votou nele [Bolsonaro] pra ele mudar o que estava errado, não o que estava certo. Já não estou gostando disso. Espero que ele melhore quando assumir a Presidência”, reclama.

A médica de Levandoski, Esther Carina Abeledo, é da segunda turma de cubanos do Mais Médicos. Junto com outros 2 mil médicos do país, passou por uma bateria de testes de português, cultura brasileira e de conhecimentos médicos em Havana, Brasília e Florianópolis, até assumir o posto em Içara em maio de 2014. “A doutora Carina é muito boa com todos nós, não tem outra igual. Vai fazer muita falta para toda a nossa família”, me disse a mãe de Flor de Liz, Olga Levandoski, de 78 anos, moradora da zona rural na cidade e que não votou nessas eleições.

Bolsonaro chegou a dizer que os médicos são “escravos de uma ditadura”, mas a médica contesta as declarações, que serviram de justificativa para o rompimento do contrato por parte do governo cubano.

“Muitas pessoas fazem confusão sobre a nossa situação. Eu saí de Cuba sabendo quanto iria ganhar no Brasil. Quem assina esse contrato não vem pelo dinheiro, mas para uma missão médica, para atender uma população que precisa de tratamento adequado. Viajamos, conhecemos outras culturas e ainda temos a oportunidade de ajudar essas pessoas. Nenhum cubano é enganado ou explorado. Em Cuba, há um regime social, não há escravos. Isso é ofensa para nós, a escravidão já acabou há muito tempo”, afirma Abeledo, que atende na unidade de saúde do bairro Jussara.
Em Cuba, há um regime social, não há escravos. Isso é ofensa para nós, a escravidão já acabou há muito tempo.
Com 30 anos de experiência, a médica está na quarta missão e pediu, no começo do ano, renovação do contrato por mais mais três anos. Antes, trabalhou cinco anos em Honduras, depois dois anos na Guatemala e outros cinco anos na Venezuela. Ela esclarece outra polêmica criada por Bolsonaro, que acusou o governo cubano de não permitir que familiares dos médicos venham ao Brasil.

“Me casei em 2017 com um baiano que mora aqui em Içara. Minha filha e meus dois netos vieram de Cuba e moram aqui comigo também. Não existe qualquer impedimento para parentes virem nos visitar ou até mesmo morar no Brasil”, afirma Abeledo, que, por conta da família, agora busca uma forma de permanecer no país.

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Olga Levandoski (segunda à direita), e a família junto à médica Esther Carina Abeledo. “Vai fazer muita falta para toda a nossa família.”
Foto: Eduardo Valente

Ignorada pelos brasileiros

Içara tem um boa qualidade de vida, com alto IDHM, o índice de desenvolvimento humano dos municípios, de 0741 – o mesmo que a mineira Ouro Preto. O acesso é fácil, pela BR-101, a apenas 145 km de Florianópolis. Mesmo assim, em nenhum dos cinco editais de chamadas pelo programa Mais Médicos publicados desde 2013 houve preenchimento total de vagas para brasileiros e estrangeiros formados no Brasil. Quando isso acontece, os médicos cubanos são chamados.

“Até 2012, não tínhamos médicos em todos os postinhos de saúde de manhã e de tarde. Eu tinha que vir até o centro bem cedo se quisesse pegar uma senha e ser atendida no mesmo dia”, conta Doraci Ribeiro, de 66 anos.

Eleitora do candidato derrotado Fernando Haddad, Doraci critica Bolsonaro e alerta que muitos vizinhos bolsonaristas não relacionam a saída dos médicos cubanos como uma consequência do resultado das urnas.

“Muitos não entendem que o Bolsonaro é o responsável pela saída dos médicos, que estão nos atendendo tão bem. Mas também conheço algumas pessoas que já estão arrependidas por terem votado nele só por causa dessa situação dos médicos”, diz a moradora.

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O prefeito de Içara, Murialdo Gastaldon, do MDB, diz que não tem condições de contratar nove médicos e que vai recorrer à Justiça, se for preciso, para ter a reposição dos cubanos.
Foto: Eduardo Valente

25 mil votos e 25 mil moradores sem médicos

Santa Catarina foi o segundo estado a dar a maior vitória percentual a Bolsonaro no segundo turno, com 76% dos votos válidos. Em Içara, o candidato do PSL teve 25 mil votos, o mesmo número de pessoas que a prefeitura calcula que serão afetadas diretamente pela despedida dos cubanos.
Quem criou esse problema terá que resolvê-lo.
Além do 14 profissionais do Mais Médicos, que recebem salário da União e uma ajuda de custo mensal paga pelo município de R$ 2 mil, há outros quatro médicos contratados diretamente pela prefeitura ao custo de R$ 18 mil por mês para cada um. Com as contas municipais no limite, o prefeito de Içara, Murialdo Gastaldon, do MDB, diz que não tem condições de contratar nove médicos e que vai recorrer à Justiça, se for preciso, para ter a reposição dos cubanos.

“O piso constitucional para gastos com saúde é de 15%, e Içara já gasta mais de 27%, então não temos orçamento para contratar nove médicos. Quem criou esse problema terá que resolvê-lo, pois estamos dispostos a cobrar na Justiça que o Ministério da Saúde cumpra com o acordo com o nosso município, que é de ter 14 médicos ajudando no atendimento básico”, afirma o prefeito.

Hyury Potter
No The Intercept
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Nova ação contra Lula é mais um atentado ao estado de Direito


A denúncia oferecida hoje (26) pelos Procuradores da autointitulada “Lava Jato de São Paulo” contra o ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva é mais um duro golpe no Estado de Direito porque subverte a lei e os fatos para fabricar uma acusação e dar continuidade a uma perseguição política sem precedentes pela via judicial. É mais um capítulo do “lawfare” que vem sendo imposto a Lula desde 2016

A denúncia pretendeu, de forma absurda e injurídica, transformar uma doação recebida de uma empresa privada pelo Instituto Lula, devidamente contabilizada e declarada às autoridades, em tráfico internacional de influência (CP, art. 337-C) e lavagem de dinheiro (Lei n. 9.613/98, art 1º. VIII).

A acusação foi construída com base na retórica, sem apoio em qualquer conduta específica praticada pelo ex-Presidente Lula, que sequer teve a oportunidade de prestar qualquer esclarecimento sobre a versão da denúncia antes do espetáculo que mais uma vez acompanha uma iniciativa do Ministério Público – aniquilando as garantias constitucionais da presunção de inocência e do devido processo legal.

Lula foi privado de sua liberdade contra texto expresso da Constituição Federal porque não existe em relação a ele qualquer condenação definitiva; tampouco existe um processo justo. Lula teve, ainda, todos os seus bens bloqueados pela Justiça; busca-se com isso legitimar acusações absurdas pela ausência de meios efetivos de defesa pelo ex-presidente.

Espera-se que a Justiça Federal de São Paulo rejeite a denúncia diante da manifesta ausência de justa causa para a abertura de uma nova ação penal frívola contra Lula.

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A fábrica de acusações a Lula


Como já se antecipara aqui, segue o clima de perseguição a Lula com acusações sem pé nem cabeça, mas com promotores dispostos a colocá-las nas primeiras páginas de jornais e de juízes prontos a aceitá-las, pela oportunidade de brilhar no mesmo palco de Sérgio Moro.

Agora, trata-se de um suposto “tráfico de influência” que Lula teria praticado ao fazer de um empresário portador de uma carta ao presidente da Guiné Equatorial. Lula já havia deixado há tempos de ser presidente e não ocupava nenhum cargo público, e não menciona nenhum negócio, exceto que Rodolfo Geo, era diretor da ARG, Rodolfo dirige “empresa que já desde 2007 se familiarizou com a Guiné Equatorial, destacando-se na construção de estradas”.

Nem uma vírgula a mais no que, no máximo, poderia ser uma “carta de recomendação”.

Como o crime prescreveu, arranja-se um jeito e de denunciar Lula por “lavagem de dinheiro”, uma vez que a ARG, como dezenas de empresas, fez uma doação de R$ 1 milhão ao Instituto Lula, devidamente registrada, declarada e tributada.

Se fosse para dissimular, como alega o MP, qualquer palestra serviria para encobrir a finalidade e, sabendo como Lula gosta de falar, problema algum seria.

Sem entrar no mérito dos fatos, até porque nem há qualquer prova além da carta de apresentação, a denúncia é absurda.

Não há o menor indicio de que Lula tenha interferido nas decisões de um governo estrangeiro e, muito menos, de que tenha sido uma interferência ilegítima.

Mas, contra Lula, não será de se espantar de que venha a ser aceita.

Afinal, algo tão “claro” como se apresenta, com cartas, e-mails e recibos, ficou dormitando no Ministério Público por dois anos e meio por que razão?

Evidente, esperando chegar a hora dos covardes.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Descolonização Cultural


O filósofo argentino Enrique Dussel nos fala sobre a necessidade de nos descolonizarmos mentalmente para promover uma verdadeira revolução cultural na América Latina.

Uma descolonização epistemológica, científica, tecnológica e sobretudo cultural. Para Dussel, mesmo a esquerda da América Latina, pensa com a cabeça colonizada, de forma eurocêntrica e subordinada.

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“Cortar direitos trabalhistas não gera emprego”

Para o chefe do Ministério Público do Trabalho, novas flexibilizações de direitos, como previstas por Bolsonaro, seriam desastrosas


O chefe do Ministério Público do Trabalho (MPT), Ronaldo Fleury, afirmou que, com base na experiência internacional e com os resultados iniciais da reforma trabalhista no Brasil, o problema do desemprego não será solucionado com a flexibilização de direitos dos trabalhadores.

O programa de governo do presidente eleito Jair Bolsonaro prevê medidas para que as normas trabalhistas sejam menos “engessadas”, mantendo, porém, os direitos constitucionais, como férias remuneradas, 13° salário e o Fundo de Garantia (FGTS).

O símbolo dessas propostas é a chamada “Carteira [de Trabalho] Verde e Amarela”, promessa de campanha de Bolsonaro.

“A flexibilização dos direitos trabalhistas não gera empregos, não traz desenvolvimento econômico”, disse Fleury, em entrevista à DW Brasil. “Só com o aumento da demanda vai se gerar empregos.”

A reforma trabalhista aprovada no governo do presidente Michel Temer completou um ano em novembro. Mesmo na base aliada do presidente há críticas a “excessos” da nova legislação.

Grávidas e lactantes, por exemplo, só serão obrigatoriamente afastadas do local de trabalho em casos de grau máximo de insalubridade. Também há regras mais flexíveis para negociar uma jornada de 12 horas de trabalho seguida de 36 horas de descanso.

Temer tentou fazer ajustes na reforma por meio de uma medida provisória, que não foi analisada pelo Congresso Nacional. Nem o atual governo nem a equipe de Bolsonaro falam numa nova tentativa de fazer essas alterações.

Prevalece, portanto, a legislação da Reforma Trabalhista, que, na avaliação do procurador-geral do Trabalho, cria uma “situação absolutamente nefasta para os trabalhadores”.

Procurado, o Ministério do Trabalho afirmou que os ajustes na reforma trabalhista seriam de responsabilidade da Casa Civil. Por sua vez, a Casa Civil afirmou que “a pauta está com o Poder Legislativo”, onde tramita um projeto de lei sobre o assunto.

O programa do novo governo aponta para a continuidade das flexibilizações das leis trabalhistas. Qual a sua avaliação sobre essas propostas, como a carteira verde-amarela?

Ronaldo Fleury: Isso seria uma mudança desastrosa para os trabalhadores em relação à perda de direitos, pois se manteriam apenas aqueles previstos na Constituição.

E isso abriria uma brecha para que não seja aplicada a convenção coletiva [acordo entre sindicatos e empregadores estabelecendo regras para a categoria], o que coloca o trabalhador em condições de risco.

O argumento da equipe de Bolsonaro é que, com regras menos “engessadas”, mais empregos serão criados. O Ministério Público do Trabalho está de acordo?

Os estudos sobre países onde houve flexibilização trabalhista e também o resultado registrado neste um ano de reforma trabalhista no Brasil mostram que a flexibilização dos direitos trabalhistas não gera empregos, não traz desenvolvimento econômico.

Só com o aumento da demanda vai se gerar empregos. Espero que essas propostas já divulgadas sejam revistas. Estamos dispostos a conversar.

Queremos um desenvolvimento sustentável, com garantia dos direitos sociais, direitos humanos, concorrência saudável entre as empresas, e que nossas empresas não percam mercados no exterior, que não sejamos vistos como um país que permite a precarização das normas trabalhistas, o que poderia resultar em embargos econômicos, o que não interessa a ninguém.

Quando o governo de Michel Temer aprovou a Reforma Trabalhista, prometeu fazer ajustes no mesmo ano. Mas a estratégia falhou. Quais as consequências disso para o trabalhador?

Os próprios articuladores da reforma trabalhista apontaram vários trechos a serem corrigidos ou até mesmo excluídos, por exemplo a questão do trabalho insalubre para gestantes e lactantes.

Além disso, há, até hoje, questões pendentes e que carecem de nova regulamentação legal, como é o caso dos trabalhadores intermitentes, cujo tempo de serviço não é contado para a aposentadoria.

Como consequência dessa reforma, a situação atual, em razão de o governo não ter conseguido ajustar alguns pontos da reforma trabalhista, é absolutamente nefasta para os trabalhadores.

Esses ajustes poderiam ser feitos por decreto, como chegou a considerar o governo Temer?

Algumas questões que o governo disse que poderia ajustar por decreto só poderiam, na verdade, serem alteradas por lei, como nesse caso das gestantes.

A reforma trabalhista é danosa aos trabalhadores em diversos pontos. Ela permite que se ganhe abaixo do salário mínimo, e há normas que não encontram paralelo em qualquer outro país.

O Ministério Público do Trabalho já recebeu relatos de grávidas que trabalham em lugares insalubres?

Ainda não temos nenhuma denúncia feita nesse sentido. De qualquer forma, algumas empresas estão procurando e conversando com procuradores para saber qual a melhor opção e o que fazer diante da nova legislação.

Fizemos um material para esclarecer a todos. Falamos, por exemplo, que essa questão das grávidas e outros pontos são inconstitucionais. Isso tem servido para balizar o modo de agir das empresas e evitado que as trabalhadoras e os fetos sejam expostos a condições insalubres.

Quais são outras consequências da reforma trabalhista? Há insegurança jurídica?

A insegurança jurídica é natural porque tivemos mais de 250 dispositivos da CLT [Consolidação das Leis do Trabalho] alterados. Isso já está sendo maturado.

Um dos maiores problemas tem sido o aumento da informalidade, que agrava ainda mais a perda de arrecadação previdenciária.

Além disso, nos casos das novas formas alternativas de contratação, não há segurança sobre a renda, então esses trabalhadores não fazem crediário para compra de apartamento, carro, geladeira, etc.

Não teremos, de fato, um desenvolvimento econômico. E o sistema sindical saiu enfraquecido após a reforma. Isso gera perda de representatividade e até dificuldades para as empresas evitarem greves.

Do DW
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País Estagnado - II


De cada dez brasileiros, três viviam com renda mensal menor que um salário mínimo em 2017. Isso quer dizer que os 30% mais pobres da população brasileira ganhavam, no ano passado, menos de R$ 937 por mês, o valor do salário mínimo em 2017.

É o que aponta relatório da Oxfam Brasil, ONG voltada ao combate à pobreza e à desigualdade, com base nos dados de renda do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O levantamento considera a renda das pessoas maiores de 20 anos. As informações fazem parte do relatório "País estagnado: um retrato das desigualdades brasileiras", divulgado na manhã desta segunda-feira (26) pela entidade.

Segundo o levantamento, no ano passado o Brasil tinha 15 milhões de pessoas pobres, que sobrevivem com uma renda de US$ 1,90 por dia (pouco mais de R$ 7, segundo critério do Banco Mundial). Isso representa 7,2% dos brasileiros. O número de pobres aumentou 11% em relação a 2016, na terceira alta seguida.

O de cima sobe, e o de baixo desce

O estudo mostrou que, em 2017, os pobres ficaram mais pobres e os ricos, mais ricos, o que fez aumentar a diferença de renda entre as duas pontas.

Os 10% mais pobres, que viviam com R$ 217,63 por mês, em média, em 2016, viram esse valor cair para R$ 198,03 em 2017. Isso representa uma redução de 9%.

Na outra ponta, os ganhos dos 10% mais ricos subiram 2,09% de 2016 para 2017, chegando a R$ 9.519,10 ao mês, em média.

As contas consideram o efeito da inflação no período.

"Os 10% mais ricos, contudo, são bastante desiguais entre si", diz o relatório. "Dos mais de 12 milhões de brasileiros que têm renda nessa categoria, 75% ganham até 20 salários mínimos [R$ 17,8 mil em 2017] de renda tributável. Por outro lado, o grupo de cerca de 1,2 milhão de pessoas que compõem o 1% mais rico do país tem rendimentos médios superiores a R$ 55 mil ao mês".

Ainda segundo a Oxfam, a renda mensal média do 1% mais rico era 36,3 vezes maior que a dos 50% mais pobres.

Desigualdade parou de cair

O nível de desigualdade, que vinha caindo havia mais de uma década, ficou estagnado, segundo a Oxfam. Para medir isso, o levantamento considera o índice de Gini de renda per capita, uma medida da concentração de renda que vai de zero a um. Quanto maior o índice, mais concentrada é a renda e mais desigual é o país.

O índice de Gini ficou estável entre 2016 e 2017, estagnado em 0,549. O indicador vinha de uma sequência de quedas anuais ininterruptas que durou de 2002 a 2015.

"O país estagnou em relação à redução das desigualdades, e quem está pagando essa conta são os mesmos de sempre: as pessoas em situação de pobreza, a população negra e as mulheres", disse, em nota, a diretora-executiva da Oxfam Brasil, Katia Maia.

Negros ganham menos

O relatório da Oxfam também aponta a desigualdade de gênero e raça no país, de forma geral e nas diferentes faixas de renda. Em 2017, a renda média dos negros foi de R$ 1.545,30, enquanto a dos brancos alcançou R$ 2.924,31 - quase o dobro.

Considerando apenas os 50% mais pobres, em 2017, a média geral da renda dos brancos era R$ 965,19, enquanto negros dessa faixa recebiam R$ 658,14. Nesse período, negros pobres ficaram ainda mais pobres, com redução de 2,5% de renda, enquanto brancos, pelo contrário, tiveram um aumento de quase 3% de renda.

Entre os 10% mais ricos, brancos ganhavam R$ 13.753,63, enquanto negros desse mesmo grupo, R$ 6.186,01 por mês em média. Nesse grupo, tanto brancos quanto negros viram seus ganhos aumentarem, mas num ritmo maior para os brancos: +17,35% (brancos) contra +8,10% (negros).

Mulheres ganham menos

A Oxfam também apontou aumento da desigualdade de renda entre homens e mulheres nos últimos dois anos.

Segundo dados do IBGE, mulheres ganhavam 72% do que ganhavam homens em 2016, proporção que caiu para 70% em 2017, no primeiro recuo em 23 anos. Em 2017, a renda média de mulheres era de R$ 1.798,72, enquanto a de homens era de R$ 2.578,15.

No grupo dos 50% mais pobres, enquanto houve perda de 2% nos rendimentos dos homens, entre as mulheres desse grupo a perda foi maior, de -3,7%.

Entre os 10% mais ricos, homens tiveram quase 19% de aumento em seus rendimentos entre 2016 e 2017, enquanto mulheres viram seus rendimentos médios aumentarem apenas 3,4%.

'Mais impostos sobre os ricos'

Para retomar os avanços na distribuição de renda, o relatório sugere mudanças na forma como o Estado arrecada e gasta. A Oxfam ressalta que o sistema tributário do país vai na contramão do modelo dos países desenvolvidos ao privilegiar impostos indiretos (sobre produção e consumo) em detrimento daqueles que incidem diretamente sobre renda.

Na prática, isso contribui para a concentração de renda, já que os mais pobres acabam pagando proporcionalmente mais impostos.

A organização defende, então, a volta da tributação sobre lucros e dividendos distribuídos por empresas a acionistas, assim como a criação de novas alíquotas de impostos de renda (IR) mais elevadas para brasileiros com maior renda. Hoje, a alíquota máxima de IR no país é de 27,5%, cobrada sobre todos que ganham acima de R$ 4.664,68.

A proposta vai na direção oposta da prometida pela campanha do presidente eleito Jair Bolsonaro. Durante a corrida eleitoral, o futuro ministro da Fazenda, Paulo Guedes, disse que quer unificar a alíquota de IR em 20% para todos que ganhem acima de R$ 5.000, deixando isentos os brasileiros com renda abaixo desse valor.

Segundo Rafael Georges, coordenador de Campanhas da Oxfam e autor do relatório, é possível distribuir renda sem elevar a carga tributária, mas para isso é preciso tornar o sistema mais progressivo, como prevê a Constituição brasileira.

"Alíquota única (de IR) joga contra a redução da desigualdade. Não faz sentido, não é previsto na Constituição e é excessivamente benevolente com o topo da pirâmide social no Brasil, que já paga pouco imposto de renda. Vamos esperar propostas concretas (do novo governo) para uma posição mais definitiva", afirmou.

'Mais gastos sociais, menos privilégios'

Do ponto de vista de gastos, a Oxfam critica medidas de austeridade (cortes de despesas públicas) que impactam o atendimento aos mais pobres em serviços públicos como saúde e educação, defendendo a revogação da emenda constitucional que congelou os gastos públicos por 20 anos.

Defensores do chamado "teto dos gastos" argumentam que ele é necessário para tirar as contas públicas do vermelho - rombo que vem desde 2014.

O documento reconhece que o equilíbrio fiscal é necessário para dar sustentabilidade à redução das desigualdades, mas considera que o congelamento dos gastos não resolve o problema.

"Não defendemos expansão descontrolada de gastos. O problema é que o teto congela tudo. Os gastos sociais que aumentam a produtividade da economia no médio prazo, como investimento em educação e saúde e em infraestrutura, e não mexe nos privilégios", argumentou Georges.
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País Estagnado

Laerte

O relatório da Oxfam sobre a distribuição de renda no Brasil é muito preocupante. Pela primeira vez, desde 2003, o índice de Gini parou de cair e a proporção da renda dos 40% mais pobres sobre a renda média geral caiu. Como se observa no gráfico, nos governos do PT a proporção da renda dos 40% mais pobres na renda média subiu constantemente, mesmo no ano da crise de 2015, e o índice de Gini estava caindo. Agora, essa tendência se inverte. Além disso, houve aumento da desigualdade entre brancos e pobres e entre homens e mulheres.




A roda da redução de desigualdades parou no Brasil. Entre 2017 e 2018, houve uma conjunção de indicadores negativos que contam a triste história de um grave recuo do progresso social no país. São retratos recentes de um processo que teve início há mais tempo e que não mostra sinais de reversão.

Tendo-se em conta os últimos cinco anos, houve aumento da proporção da população em condição de pobreza, do nível de desigualdade de renda do trabalho e dos índices de mortalidade infantil. O coeficiente de Gini de renda domiciliar per capita, índice que mede a desigualdade de renda no país e que vinha caindo desde 2002, estagnou entre 2016 e 2017.

Considerando o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável – ODS 10, que preconiza a “redução de desigualdades dentro dos países e entre eles”, o Brasil caminha a passos largos para trás. Entre 2016 e 2017, os 40% mais pobres tiveram variação de renda pior do que a média nacional, contrariando a meta 1 do ODS 10. Nesse mesmo período, mulheres e a população negra tiveram pior desempenho de renda do que homens e a população branca, respectivamente, o que significou um recuo na equiparação de renda – na contramão da meta 10.2. Houve recuo também nas metas 10.3 e 10.4, com a aprovação de marcos legais que jogam contra a igualdade de oportunidades para a maioria da população, e prejudicam a capacidade da política fiscal de reduzir desigualdades.

Tal cenário é a marca de uma crise econômica, fiscal e política que vivemos desde fins de 2014. Houve retração geral da renda nacional desde então, produto da recessão que praticamente fez dobrar o desemprego no país, de 6,8% em 2014 para 12,7% em 2017. Tal movimento afetou muito mais os pobres, as mulheres e a população negra.
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Xadrez da nova corte e a fragilidade de Bolsonaro


Peça 1 – as fragilidades de Bolsonaro

Prosseguimos na tentativa de decifrar Jair Bolsonaro, juntando mais fragmentos do homem e do grupo trazidos por pessoas que transitam por lá. Como Bolsonaro é um ator político totalmente não-convencional, esses bastidores são mais reveladores do que a cobertura da mídia brasiliense, espremida por pressões dos veículos ou pela necessidade de construir boas relações com as novas fontes.

Ontem, no Twitter, o jornalista norte-americano Vincent Bevins – que foi correspondente no Brasil do Los Angeles Times – traçou um retrato cruel da cobertura sobre Bolsonaro.

Disse ele:

"Os jornalistas estão tão desesperados para parecer neutros que toda vez que Bolsonaro diz algo que não é uma mentira ou um incitamento ao genocídio, eles praticamente quebram os dedos tentando retwittar (...)

O cara pode falar por uma hora incentivando eliminar uma classe de pessoas, mas se o discurso incluir "2 + 2 = 4" jornalistas aparentemente têm que dizer "Ele pediu por extermínio, o que é controverso, mas, para ser justo, sua matemática passou na checagem (...).

Eu digo que, como um americano confortável que nem vive mais em tempo integral no Brasil, muitos jornalistas brasileiros estão sob séria pressão financeira que os levam a ficar com a cabeça baixa. Mas isso não é verdade para os grandes nomes e vozes que têm a liberdade de serem melhores, mas não são (...)

E o mais engraçado é que os fãs de Bolsonaro ainda pensam que os jornalistas que fazem isso são comunistas que provavelmente não deveriam poder escrever´´

Por isso mesmo, é mais produtivo tentar decifrá-lo através de olhos de terceiros, mais perspicazes, do que pela cobertura tradicional.

Uma primeira impressão, que tem chamado a atenção de pessoas que têm mantido contato com Bolsonaro, é sua fragilidade: física sim, devido à facada recebida; fragilidade intelectual óbvia, mas, principalmente, fragilidade social. Ele não fica à vontade quando confrontado com temas relevantes, se mostra incomodado presidindo reuniões ou se relacionando formalmente com pessoas de fora do círculo.

É significativo de ampla ignorância, o deslumbramento com o encontro agendado com John Bolton, assessor de Segurança Nacional dos Estados Unidos.  Bolton não vem se encontrar com Bolsonaro. Ele vai a um encontro do G20 em Buenos Aires e fará uma parada no Rio para conhecer Bolsonaro. A notícia foi recebida por Bolsonaro com um autêntico êxtase cívico, divulgando seu deslumbramento pelas redes sociais.

Bolton é odiado da portaria à copa do Departamento de Estado. Só existe porque Trump o retirou da lata do lixo. Tornou-se inimigo declarado do Brasil quando fez o diretor geral da Organização contra as Armas Químicas, o diplomata brasileiro José Bustami, ser demitido do cargo porque recusou-se a endossar a informação de existência de armas químicas no Iraque.

Bustami estava certo e Bolton errado, o Itamaraty nunca esqueceu. Em Washington, sua credibilidade é nula. Na Europa é um paria diplomático. Que Bolsonaro de importância a Boulton diz muita coisa sobre seu nível de informação.

Peça 2 – os personagens da trama

Esse personagem socialmente inseguro está no meio de um jogo com vários personagens sem afinidade entre si, disputando espaço e comando de uma das sete maiores economias do planeta.

Personagem 1 – o apoio dos filhos

Bolsonaro demonstra necessitar da proximidade dos filhos. Estes, por sua vez, criam conflitos por todos os cantos com vários personagens da nova corte. Um dos filhos tem bom discernimento em análises de caráter, mas em nada ajudando para entender como trabalhar a lógica do poder.

Personagem 2 – os financiadores vorazes

O núcleo que deu base partidária e recursos para a campanha – o advogado Gustavo Bebiano, o dono do PSL, Luciano Bivar, e o lobista carioca Paulo Marinho – têm-se mostrado voraz, pretendendo controlar todos os grandes contratos do governo.

Personagem 3 – Onix Lorenzoni

O deputado Lorenzoni tem provavelmente a maior unanimidade contrária do Congresso. Ficou do lado da Lava Jato, mesmo tendo sido beneficiado por financiamentos de caixa 2. Hoje em dia é uma alma penada, sem trânsito algum no Congresso. E a ele está sendo conferido o papel de coordenador político.

Personagem 4 – o Imperador Paulo Guedes

Dia desses, houve uma reunião com Bolsonaro. Todos os presentes quedavam em atitude respeitosa normal. De repente, ouviu-se uma agitação. Era Paulo Guedes chegando, como se fosse o Imperador da Alemanha. Entrou, todos se levantaram para cumprimentá-lo, enquanto Bolsonaro permanecia quieto, em sua cadeira, observando. Parecia que Guedes era o presidente. Esses superpoderes sempre acabam se voltando contra quem os utiliza, sem deter o poder originário, a Presidência.

Peça 4 – a arbitragem de Mourão

Todos os personagens acima giram em torno de Bolsonaro. Mas há um componente extra-Bolsonaro na história: o vice-presidente general Hamilton Mourão.

Em sua coluna de hoje, na Folha, Jânio de Freitas traz mais algumas informações relevantes sobre seu papel (clique aqui). Segundo Jânio, há indícios (ainda não confirmados por ele) de que Bolsonaro foi ´´aconselhado´´ na área militar a ceder o lugar de vice para Mourão.

Jânio reparou, corretamente, que Mourão tem uma segurança afirmativa que não se assemelha mais a meros arroubos, como passava a impressão durante a campanha eleitoral.

Por exemplo:

"Tenho certeza absoluta de que nós não vamos brigar" [com a China]. A mudança da embaixada brasileira em Israel, de Tel Aviv para Jerusalém, já reafirmada por Bolsonaro, "é uma decisão que não pode ser tomada de afogadilho, de orelhada". Sobre o fim do Mercosul, também dado como decisão, "antes de pensar em extinguir, derrubar, boicotar, temos que fazer os esforços necessários para que atinja os seus objetivos".

Peça 5 – a lógica do Congresso

Congressos repetem indefinidamente os mesmos vícios e virtudes do Senado romano. Entram os cidadãos mais abonados, muitas vezes comprando os mandatos com campanhas caras e/ou herança política, com o objetivo de negociar com o Imperador os filtros a seus atos.

A lógica política demandaria um acordo com o Centrão, apoiando a eleição de Rodrigo Maia na Câmara e Renan Calheiros no Senado. Seria um acordo de sobrevivência, não de adesão. Mas há convicção de que os círculos íntimos de Bolsonaro farão tudo para impedir e partir para o confronto.

Na hipótese de Bolsonaro ganhar a presidência de uma das casas, os perdedores irão retaliar. Mesmo porque há um clima pesado, por conta da indicação do juiz Sérgio Moro para o Ministério da Justiça, entendida como tentativa do grupo de Moro de intimidar o Congresso.

O resultado da eleição para o Congresso mostrará melhor o rumo do governo. Entre velhas raposas há a convicção de que Bolsonaro sabe que o melhor caminho – para seu governo – seria o acordo de sobrevivência. Mas duvidam que ele tenha força para enfrentar os lobbies internos, constituído de um pessoal primário que acha que poderá domar o Congresso – algo que nem o governo militar de 1964 conseguiu, a ponto de fechar o Congresso pela impossibilidade de controlá-lo.

Peça 6 – os primeiros conflitos

Os primeiros conflitos à vista provavelmente serão entre os filhos, contra a gana dos financiadores e de Onix Lorenzoni.

A eles se somarão os generais Hamilton Mourão e Augusto Heleno, agastados com a fritura a que foi exposta o general Ferreira por Onix e o grupo dos financiadores.

Conforme observamos semanas atrás, as únicas ideias consistentes, sistematizadas, que poderiam ser entendidos como um projeto de governo era o plano integrado de infraestrutura, preparado pelo general Ferreira, contemplando o curto, médio e longo prazo.

E nem houve espaço para falar do novo Ministro da Educação Ricardo Velez Rodrigues e do inacreditável chanceler Ernesto Araújo.

Luís Nassif
No GGN
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Dez razões para deletar suas redes sociais


Dez Argumentos Para Você Deletar Agora Suas Redes Sociais é um livro de Jaron Lanier, pioneiro do Vale do Silício, da realidade virtual e das redes sociais. Lanier vê com preocupação o potencial que as redes sociais têm de moldar os nossos comportamentos.


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