23 de nov. de 2018

Vem aí a Internacional Progressista

O senador dos EUA Bernie Sanders, idealizador da aliança, almeja reação global ao autoritarismo pró-ricos de inspiração em Trump. Haddad foi convidado

Sanders, Haddad e Varoufakis: aliança global
O avanço da extrema-direita e de líderes autoritários pelo mundo, cujo símbolo maior é o norte-americano Donald Trump, tem feito a festa da turma do 1% mais rico, enquanto os trabalhadores enfrentam condições de vida cada vez difíceis.

Essa é a visão dos idealizadores de uma frente progressista internacional a ser lançada nos próximos dias com a provável presença do petista Fernando Haddad.

Por trás da iniciativa estão o senador dos EUA Bernie Sanders, um autodeclarado socialista ainda ativo em seus 77 anos, e o economista grego Yanis Varoufakis, ministro da Fazenda do governo de esquerda de seu país em 2015 que em vão lutou contra a ortodoxia econômica europeia.

Varoufakis mandou dias atrás uma carta a Haddad, a convidá-lo para o lançamento da frente, em 1o de dezembro, nos Estados Unidos. Outro convidado é o presidente eleito do México, o esquerdista Andrés Manuel López Obrador, mas ele tomará posse em 1o de dezembro, justamente o dia marcado para o evento.

O lançamento acontecerá na sequência de uma conferência com ativistas progressistas dos EUA a ser promovida entre 27 de novembro e 1o de dezembro pelo Instituto Sanders, um think thank criado no ano passado pela esposa do senador, Jane.

O senador lançou a proposta da Internacional Progressista em setembro, em um artigo no jornal britânico The Guardian. No texto, ele aponta o surgimento de um “eixo autoritário internacional” cujo rosto principal é Trump, embora não se limite a este.

Esse eixo, segundo Sanders, caracteriza-se por governos hostis à democracia e à liberdade de imprensa, intolerantes com minorias étnicas e religiosas e a serviço de milionários e grandes corporações.

“Os governos do mundo devem se unir para acabar com o absurdo das empresas ricas e multinacionais que armazenam mais de 21 trilhões de dólares em contas bancárias offshore para evitar pagar sua parcela justa de impostos e exigir que seus respectivos governos imponham uma agenda de austeridade às famílias trabalhadoras”, escreveu o senador.

Parceiro de Sanders, Varoufakis diz que “os financistas há muito tempo formam uma ‘irmandade’ internacional para garantir a si mesmos resgates internacionais quando suas pirâmides de papel caem”. Segundo ele, a frente pode ser o embrião de “um New Deal Internacional, um New Bretton Woods progressivo”.

“Além da hostilidade de Trump em relação às instituições democráticas, temos um presidente bilionário que, de uma maneira sem precedentes, incorporou descaradamente seus próprios interesses econômicos e os de seus comparsas nas políticas do governo”, escreveu Sanders.

Em um relatório de junho, o relator especial da ONU para pobreza extrema e direitos humanos, Philip Alston, classificou a política econômica do governo Trump de anti-pobres.

Entre as medidas trumpistas condenadas por Alston estão “isenções financeiras e ganhos sem precedentes para os ricos e as grandes corporações”, combinados com “redução de benefícios sociais” e com um “programa radical” de desregulamentação financeira, ambiental, de saúde e segurança que “elimina proteções que hoje atendem principalmente as classes médias e os pobres”.

Medidas trumpistas inspiram Jair Bolsonaro e Paulo Guedes, o futuro ministro da Economia. Por exemplo: cortar impostos dos ricos e das empresas. Em 22 de outubro, dias antes de se consagrar nas urnas, Bolsonaro prometeu a industriais que apresentaria um pacote de medidas e que pretendia fazer algo semelhante a Trump para “ampliar a base de emprego”.

“Para combater eficazmente a ascensão do eixo autoritário internacional”, escreveu Sanders no Guardian, “precisamos de um movimento progressista internacional que se mobilize por trás de uma visão de prosperidade compartilhada, segurança e dignidade para todas as pessoas e que atenda à enorme desigualdade global que existe, não apenas em riqueza, mas no poder político”.

“Para efetivamente nos opormos ao autoritarismo de direita, não podemos simplesmente voltar ao status quo fracassado das últimas décadas”, anotou o senador. “Hoje, nos Estados Unidos e em muitas outras partes do mundo, os indivíduos estão trabalhando mais horas para estagnar os salários e temem que seus filhos tenham um padrão de vida mais baixo do que eles.”

Reeleito senador em novembro com 64% dos votos em seu estado, Vermont, Sanders disputou as prévias do Partido Democrata para concorrer a Casa Branca em 2016, mas a burocracia partidária trabalhou por Hillary Clinton e ela levou a vaga, apesar de as pesquisas mostrarem-na com menos chances contra Trump.

Devido à idade, é improvável que Sanders tente a presidência de novo em 2020, mas seu apoio será decisivo na escolha do candidato democrata e empurrará o partido para a esquerda, na avaliação de Mark Langevin, cientista político especializado em Brasil da universidade George Mason.

André Barrocal
No CartaCapital
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Nova ação descabida contra Lula mostra que perseguição continua


O processamento de mais uma ação penal manifestamente descabida contra Lula dá continuidade à perseguição judicial iniciada contra o ex-presidente em 2016, com o objetivo de interditá-lo na política, além de colocar em risco sua saúde. É mais etapa do lawfare contra Lula, que consiste na deturpação das leis e dos procedimentos jurídicos para fins de perseguição política.

Lula não cometeu qualquer crime durante o exercício do cargo de Presidente da República e tampouco participou de qualquer organização criminosa. Ao contrário, seu governo serviu de modelo para outros países e os programas implantados naquele período foram reconhecidos e premiados por entidades internacionais como o ONU.

A acusação também atenta contra padrões jurídicos elementares e contra o Estado de Direito ao pretender atribuir a Lula e a pessoas que participaram de seu governo a prática de crime de organização criminosa em período anterior a 2013, quando o delito sequer tinha previsão legal.

A defesa de Lula será apresentada no prazo legal com a perspectiva de que a decisão que determinou o processamento da ação seja revertida, restabelecendo-se a segurança jurídica e as garantias fundamentais do ex-Presidente.

Cristiano Zanin Martins




A ação iniciada hoje (23/11), pela 10a Vara Federal do Distrito Federal, contra os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, além de ex-dirigentes do PT, não se sustenta em fatos nem provas. É o resultado de um delírio acusatório do ex-procurador-geral Rodrigo Janot, sem qualquer base na lei. Esta ação, que não prosperou no STF, foi desdobrada para a primeira instância em decisão definitiva de 14 de novembro, e o juiz decidiu aceitá-la apenas pouco mais de uma semana.

Diferentemente do que afirma levianamente a acusação e do que foi aceito pelo juiz, o PT é um partido político constituído legalmente há 38 anos; o maior partido do país pela vontade dos eleitores, com uma trajetória de serviços prestados à democracia, ao Brasil e ao nosso povo. Um partido que, no governo, tirou 36 milhões de pessoas da miséria, acabou com a fome, criou 20 milhões de empregos, tornou o Brasil respeitado em todo o mundo e combateu a corrupção como nenhum outro governo.

Quem vem atuando como verdadeira organização fora da lei no país, já há alguns anos, são setores partidarizados do Ministério Público e do sistema judicial, que perseguem o PT e suas lideranças com acusações sem pé nem cabeça, com o objetivo de criminalizar o partido. Trabalham cotidianamente para excluir o PT da vida política brasileira, valendo-se de mentiras e do abuso de poder. Cometem, em conluio organizado e hierarquizado, um crime contra a democracia, contra o direito de livre organização política.

Estes setores, com a cumplicidade da Rede Globo e da grande mídia, repetem contra o PT o que a ditadura fez contra os partidos de oposição. E parecem emulados pelo resultado eleitoral, colocando em prática o ódio ao PT pregado por Jair Bolsonaro. Em apenas três semanas depois das eleições, Dilma Rousseff e nosso candidato Fernando Haddad foram tornados réus em ações esdrúxulas e sem fundamento. O nome do PT foi envolvido sem provas em duas novas operações da Lava Jato. E, além disso, as ações levianas contra Lula foram mantidas sob controle da colega substituta de Sergio Moro, numa escandalosa manobra.

Os novos ataques judiciais ao PT ocorrem ao mesmo tempo em que a Procuradoria-Geral da República propõe o arquivamento de ação contra o atual ministro Moreira Franco, um dos cabeças do golpe do impeachment; o arquivamento de ações contra membros do MDB e do PSDB que estavam no Supremo, e recusa-se a apresentar denúncia contra Michel Temer; todos esses casos fartamente documentados, ao contrário do que ocorre nas ações contra o PT.

Querem fazer na marra o que não conseguiram no voto, pois o PT saiu dessas eleições, mais uma vez, como a maior força política popular do país, apesar das mentiras e da perseguição. Não vão conseguir acabar com o PT, porque nossa força vem do povo, não de decisões judiciais nem de campanhas midiáticas. A arbitrariedade desses setores compromete a imagem do Brasil e, mais grave: solapa a democracia, o estado de direito, o princípio constitucional da presunção da inocência e as próprias bases do Judiciário, que tem a imparcialidade por princípio.

O Partido dos Trabalhadores denunciará por todos os meios mais essa violência. O PT convoca o povo e todos os democratas a resistir a mais uma agressão.

Comissão Executiva Nacional do PT
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Olaf Von Oak, Philosoph und Patriot


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O novo presidente do BB foi vítima dos factoides de Veja


Indicado para a presidência do Banco Central, Rubem Novaes foi personagem de um dos capítulos de O Caso de Veja, a série que publiquei cerca de dez anos atrás na Internet sobre o jornalismo de esgoto da revista.

Falei do caso Chico Lopes e da maneira como a revista – naquilo que seria o ensaio do jornalismo que passaria a praticar na era Carlinhos Cachoeira – trabalhava as ficções que ela chamava de reportagens investigativas.

O caso Chico Lopes

Em janeiro de 1999, quando houve o estouro no câmbio, seguiu-se uma catarse geral na mídia, uma busca de escândalos a qualquer preço. Foram publicados absurdos memoráveis que acabaram se perdendo no tempo – como o de que Fernando Henrique Cardoso se valia do seu Ministro-Chefe da Casa Civil Clóvis Carvalho para informar os banqueiros sobre as mudanças cambiais.

O escândalo refluiu, cada publicação tratou de esquecer as ficções que plantou e a vida prosseguiu.

Na época, Veja publicou uma capa acusando Chico Lopes de ter beneficiado os bancos Marka e FonteCindam com informações privilegiadas. Chegou a afirmar que quatro bancos pagavam US$ 500 mil mensais para ele (clique aqui).

A matéria não respondia à questão central: se os dois bancos recebiam informações privilegiadas de Chico Lopes, se Chico assumiu a presidência do Banco Central com a missão precípua de mudar a política cambial porque, raios!, apenas eles quebraram na mudança? Na época, a explicação de Veja já era absurda. Assoberbado com os problemas da mudança cambial, Chico tinha se esquecido de avisar seus clientes (que lhe pagavam US$ 500 mil mensais apenas para ter aquela informação).

O mistério persistiu até o dia 23 de maio de 2001 quando saiu a capa da Veja “A História Secreta de um Golpe Bilionário” um clássico à altura do “boimate”, de Eurípedes Alcântara (clique aqui).

A abertura nada ficava a dever a um conto de Agatha Christie.

O momento mais dramático do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso ocorreu no dia 13 de janeiro de 1999.(...)  O que ninguém sabia é que, desde aquele dia, um grupo reduzidíssimo de altos membros do governo passou a guardar um segredo de Estado, daqueles que só se revelam vinte anos depois da morte de um presidente. Após quatro meses de investigação e 22 entrevistas com catorze personagens envolvidos, VEJA desvendou peças essenciais para o esclarecimento do mistério, que resultou na inesperada, e até hoje inexplicada, demissão do presidente do Banco Central apenas duas semanas depois da desvalorização.

A demissão de Lopes tinha sido mais que explicada: os erros na condução da mudança da política cambial.

O então presidente do Banco Central, o economista Francisco Lopes, vendia informações privilegiadas sobre juros e câmbio – e uma parte de sua remuneração saía da conta número 000 018, agência 021, do Bank of New York. A conta pertencia a uma empresa do Banco Pactual, a Pactual Overseas Bank and Trust Limited, com sede no paraíso fiscal das Bahamas. Chico Lopes, como é conhecido, repassava as informações para dois parceiros, que se encarregavam de levá-las aos clientes do esquema. Os contatos entre os três eram feitos por meio de aparelhos celulares. A Polícia Federal suspeita que os números sejam os seguintes: 021-99162833, 021-99835650 e 021-99955055

Salvatore Alberto Cacciola, então dono do banco Marka, do Rio de Janeiro, descobriu todo o esquema por meio de um grampo telefônico ilegal e também passou a ter as mesmas informações privilegiadas. As fitas, que registram as conversas grampeadas, estão guardadas num cofre no Brasil – e há cópias depositadas num banco no exterior. Cacciola chegou a custear viagens a Brasília para que seu contato obtivesse, pessoalmente, as informações de Chico Lopes. Numa delas, seu contato voou do Rio a Brasília num jatinho da Líder Táxi Aéreo (o aluguel do jato saiu por 10 500 reais) e hospedou-se no hotel Saint Paul (a conta: 222,83 reais). Quebrado com a mudança cambial, que seu informante não conseguiu avisar-lhe a tempo, Cacciola desembarcou em Brasília no dia seguinte, 14 de janeiro de 1999, com o que chamou de "uma bazuca". Ela estava carregada de chantagem: ou o BC lhe ajudava ou denunciaria ao país a existência do esquema. O BC ajudou. Vendeu dólar abaixo da cotação e, no fim, Cacciola levou o equivalente a 1 bilhão de reais.

Era um furo fantástico! Em vez de pagar US$ 500 mil mensais, Cacciola descobrira o modo mais barato de obter informações privilegiadas: grampeando celulares.

Na mesma abertura se dizia que ele se informava através de um “grampo” e que tinha um informante.

Nem se fale do contrassenso de alguém experiente em mercado jogar todo seu futuro no resultado de um “grampo”. Qualquer decisão de mudança de política cambial seria imprevista, da noite para o dia. Como confiar toda sua vida financeira a um mero “grampo”?

Segundo a matéria, no dia aziago o grampo falhou e Cacciola quebrou. Indignado, foi tirar satisfações com Chico Lopes, que cedeu à chantagem.

Como foi montado esse nonsense?

Depois de “22 entrevistas com 14 personagens” envolvidos, Policarpo havia conseguido – de fato - as seguintes informações:

1. Com Luiz Cezar Fernandes, ex-controlador do Pactual, em briga com seus ex-sócios, o número da suposta conta-corrente do Pactual em Nova York de onde sairiam os supostos pagamentos para Chico Lopes. Na verdade, o número apresentado era o de registro do banco na praça de Nova York, feito junto ao Banco de Nova York – equivale aquele 001 que você confere nos cheques do Banco do Brasil.

2. Na declaração de renda de Luiz Bragança (o suposto intermediário de Chico Lopes no vazamento das informações) algum araponga brasiliense levantou os números dos três celulares. Ou seja, o sujeito montava um esquema supersecreto para transmitir informações, que supostamente renderia US$ 500 mil mensais, valendo-se de telefones celulares – e colocava o numero dos aparelhos na sua declaração de renda.

Como tempero final, um apanhado de fatos e dos boatos mais inverossímeis que circularam por ocasião da mudança cambial.

Bastava isso para se para se ter um enredo que provocou gargalhadas em todos os jornalistas que cobriam a área financeira.

Na época apontei a maluquice; minha colega Mirian Leitão também. E menciono a Mirian por que, anos depois, essa crítica estimularia uma revanche de Veja: ataques continuados contra seu filho Matheus Leitão, repórter da revista Época. Essa história será contada em outro capítulo.

Citado na matéria, o economista Rubem Novaes enviou carta a Veja esclarecendo todos esses pontos. A carta jamais foi publicada. Ele limitou-se a enviar cópias para alguns jornalistas.

Longe de mim afirmar que não houve irregularidade, que Cacciola era inocente, ou mesmo colocar a mão no fogo por Chico Lopes. Na época, mesmo, divulguei indícios fortes de que Cacciola tinha, no mínimo, alguém que lhe passava informações sobre as taxas de juros praticadas pelo Central - e até sugeri a metodologia para identificar essa prática de "insider".

Mas era evidente que toda a matéria de Veja era uma ficção ampla. 

Anote esse exemplo porque, longe de exceção, refletia um padrão de "jornalismo" presente em todas as coberturas bombásticas da revista. 

Na era Eurípedes-Sabino, Policarpo, repórter de escândalos, freqüentador do submundo dos lobbies de Brasília, tornou-se diretor da sucursal da revista. E seria o autor das capas mais rocambolescas da cobertura do “mensalão”.

Coube a ele divulgar o vídeo em que o funcionário dos Correios, Mauricio Marinho, aceitou a propina de R$ 3 mil. E que deflagrou a campanha do “mensalão”.

Luís Nassif
No GGN
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“Nacionalismo de Bolsonaro é de mentira. Sua política vai contra o interesse nacional”

José Dirceu: “Meu objetivo foi contar a minha história e revisitar a história do Brasil nestes 60 anos”.
Foto: Joana Berwanger/Sul21
A cabeça do governo Bolsonaro – Moro, Guedes e os militares – procurará fazer uma reorientação ultraliberal da economia e do Estado brasileiro, mas deverá enfrentar uma oposição crescente a esse projeto, pois ele entra em contradição com os interesses da maioria dos brasileiros e brasileiras. A avaliação é do ex-presidente do PT e ex-chefe da Casa Civil do governo Lula, José Dirceu, que esteve em Porto Alegre esta semana para o lançamento do primeiro volume de suas memórias (Zé Dirceu – Memórias – Volume 1, publicado pela Geração Editorial).

O livro foi escrito inteiramente na prisão, durante aproximadamente um ano. “Sentado numa cama, com uma luz mais pra ruim do que pra boa, sem mesa e sem cadeira. Acabei escrevendo 700 páginas, com o mesmo papel e a mesma caneta…”, conta. O livro foi escrito principalmente aos finais de semana, período marcado pelo que chamou de “depressão pós-visita”. “Escrever esse livro me ajudou também a passar os sábados e domingos que são muito pesados quando você está preso, principalmente porque as visitas ocorrem na sexta”.

José Dirceu foi condenado a 30 anos e 9 meses de prisão em um processo da Operação Lava Jato. Em agosto deste ano, o STF confirmou decisão tomada em junho, pela libertação de Dirceu, sob o argumento de que há probabilidade de sucesso nos recursos apresentados pelo ex-ministro aos tribunais superiores contestando sua condenação. Após ser libertado, ele se dedicou a aprontar os manuscritos escritos na prisão para a publicação do livro. “Meu objetivo foi contar a minha história e revisitar a história do Brasil nestes 60 anos. Procurei, principalmente, deixar uma contribuição para a juventude, para que ela reflita sobre os caminhos e projetos para o país”. Ele já planeja o segundo volume no qual pretende falar do período em que esteve na prisão.

No lançamento do livro em Porto Alegre, José Dirceu reencontrou companheiros de luta contra a ditadura, como Flavio Koutzii. 
Foto: Ronaldo Quadrado | Bancada do PT/RS

Em entrevista ao Sul21, José Dirceu fala sobre o significado do livro de memórias que lança agora, com um olhar sobre o presente e os cenários que se abrem para o Brasil com a eleição de Jair Bolsonaro. “O nacionalismo de Bolsonaro é de mentira. Ele é muito mais retórico, explorando o nacionalismo que existe entre o povo por meio dos símbolos nacionais, do que uma política de defesa dos interesses nacionais”, afirma. Ele acredita que os mais de 47 milhões de votos obtidos por Fernando Haddad no segundo turno indicam que há possibilidade de resistência política e social a esse projeto:

“Acredito que temos força para enfrentá-lo. Estamos vivendo um período histórico onde acumulamos organizações políticas e sociais, programas, ideias e lideranças que não foram destruídas como aconteceu no golpe de 64. Temos uma base política e social para enfrentar e fazer oposição ao governo Bolsonaro. Esse é o mandato que recebemos das urnas”.

Sul21: Em um recente pronunciamento, você chamou a atenção para o fato de Jair Bolsonaro ter conseguido construir uma base social, que pode sustentar o governo dele, e defendeu que a esquerda deve se preparar para disputar essa base social. Qual é, na sua avaliação, o significado da vitória de Bolsonaro e do surgimento dessa base social?

José Dirceu: Muita gente me criticou por causa dessa fala. Alguns fizeram comentários, pelo Whatsapp, dizendo que eu estava desarmando a militância, com um discurso de desânimo e pessimismo.

Não gostaram do que exatamente?

“Bolsonaro quer colocar o Brasil sob o guarda-chuva norte-americano,
alinhando-se com a política dos Estados Unidos”.
Foto: Joana Berwanger/Sul21
Da ideia que pode ser um governo que permaneça, que vença eleições ou que se mantenha por meios autoritários, mesmo com eleições. Não podemos esquecer que na ditadura também tivemos eleições. O que tivemos agora não foi um elemento transitório, não foi mais uma eleição em que alguém da direita ganhou de nós, como o Fernando Henrique ganhou. Bolsonaro quer colocar o Brasil sob o guarda-chuva norte-americano, alinhando-se com a política dos Estados Unidos, um projeto totalmente contrário aos interesses nacionais. Além disso, tem uma visão de Estado mínimo que pretende resolver a crise fiscal e a crise de acumulação de capital via redução dos gastos sociais e não via o enfrentamento dos juros e de uma reforma tributária que fizesse um ajuste patrimonial no país.

A apropriação da renda nacional pelo capital financeiro é uma anomalia gravíssima do capitalismo brasileiro. A estrutura tributária brasileira é concentradora de renda e não distribuidora. O que distribuiu renda no Brasil foi o salário mínimo, o SUS, a educação pública gratuita, a LOAS (Lei Orgânica de Assistência Social), o BPC (Benefício de Prestação Continuada), o Bolsa Família, a Previdência, entre outras políticas. A dívida pública concentra um absurdo de renda. Se você puser R$ 300 bilhões em dez anos, terá R$ 3 trilhões concentrados na mão de uma minoria da população. Duvido que chegue a 5% da população, mas, mesmo que fosse 10%, não diminuiria a gravidade do problema.

A cabeça do governo Bolsonaro – Moro, Guedes e os militares nos ministérios da Infraestrutura, Ciência e Tecnologia, Gabinete de Segurança Institucional e Defesa – procurará fazer uma reorientação da economia e do Estado brasileiro. Haverá uma oposição cada vez maior a esse projeto pois ele entra em contradição com os interesses da maioria dos brasileiros e brasileiras. Isso já começou a se manifestar em temas envolvendo política externa, escola sem partido e outros. Há oposição a essas propostas deles, inclusive em setores das elites, tanto é que ele voltou atrás nas propostas de fusão dos ministérios da Agricultura e Meio Ambiente e da Indústria, Comércio e Desenvolvimento com a Fazenda e o Planejamento.

A reforma da Previdência que querem fazer também enfrentará resistência. Trata-se de uma poupança de quase meio trilhão que hoje tem contribuição repartida entre trabalhador e empresário. Eles querem tirar o máximo possível disso e colocar no mercado, entregar para os bancos. Na verdade, para três bancos: Santander, Bradesco e Itau/Unibanco. Também na Saúde e Educação eles estão visando o mercado. Os grandes grupos de educação estão de olho na educação à distância, que será privatizada. Essa educação à distância será terceirizada. A Saúde representa um filão extraordinário. Basta ver quanto o governo gasta com saúde e quanto as pessoas gastam com planos de saúde. Com todos os seus problemas e deficiências, o Brasil possui o sistema de saúde mais completo do mundo.

Esse é o embate político que haverá no Brasil e acredito que temos força para enfrentá-lo. Nós estamos vivendo um período histórico onde acumulamos organizações políticas e sociais, programas, ideias e lideranças que não foram destruídas como aconteceu no golpe de 64. Temos uma base política e social para enfrentar e fazer oposição ao governo Bolsonaro. Esse é o mandato que recebemos das urnas.

No terreno da política externa, essa ideia de um alinhamento praticamente total com os Estados Unidos vai contra a tradição da diplomacia brasileira e a própria posição das Forças Armadas que, no período da ditadura, adotou medidas como uma política de aproximação com países da África e fez um acordo nuclear com a Alemanha. Na sua avaliação, entre os militares brasileiros hoje há um consenso ou uma posição dominante favorável a esse alinhamento automático com os Estados Unidos?

“Militares foram deslizando para uma posição
liberal extremada pró-mercado”.
Foto: Joana Berwanger/Sul21
Tudo indica que sim. Os militares costearam o alambrado, como dizia o Brizola. Eles foram deslizando para uma posição liberal extremada pró-mercado. Eles querem preservar a Previdência deles, que custa R$ 32 bilhões por ano, e os programas de modernização das Forças Armadas, como o submarino nuclear e a tecnologia de enriquecimento de urânio. Já quanto às propostas de Bolsonaro para temas como Alcântara e Amazônia seguem uma linha de submissão aos Estados Unidos. A política externa de Bolsonaro e de Ernesto Araújo, se é que tem uma, é uma coisa ideológica e fundamentalista religiosa.

Os interesses do Brasil não são compatíveis com os interesses dos Estados Unidos e da Europa em questões fundamentais, especialmente no comércio. Eles querem abrir os nossos mercados, mas não querem abrir os deles. Além disso, nós não apoiamos a política norte-americana que promoveu a guerra no Iraque, a intervenção na Líbia, que estimula o rearmamento, nega o Acordo de Paris e o Acordo de Desarmamento Nuclear, cogita uma intervenção militar na Venezuela. Bolsonaro apoia a política de Trump inclusive naquilo que ela tem de moralista. Na prática, os norte-americanos estão conseguindo o que eles pregavam há 30 anos, ou seja, que os exércitos se transformassem em polícias internas para combater o narcotráfico e o terrorismo, e não para a defesa nacional.

O nacionalismo de Bolsonaro é de mentira. Ele é muito mais retórico, explorando o nacionalismo que existe entre o povo por meio dos símbolos nacionais, do que uma política de defesa dos interesses nacionais. A negação do Mercosul e da Unasul significa recusar o papel de liderança que o Brasil tem na América do Sul. Trump, para defender os interesses dos Estados Unidos, quer desconstituir os blocos, principalmente porque há um bloco nascente liderado pela China. Na geopolítica mundial hoje, além da China, a Rússia, a União Europeia e a Turquia, cada uma com seu grau, atuam, em vários temas, como contraponto à política imperialista dos Estados Unidos.

A política de Bolsonaro vai contra o interesse nacional, principalmente no tema “pré-sal”. O pré-sal é importante pelo tamanho de suas reservas, pela indústria que ele pode desenvolver, mas também pela renda.  Exportar dois milhões de barris de petróleo e investir essa renda na nação é uma coisa. Exportar esse dois milhões de petróleo e a maioria dessa renda ficar com empresas privadas é outra bem diferente. Neste último caso, essa renda é transferida para as elites ou para o exterior. Estamos falando de uma renda que pode significar 50 bilhões de dólares por ano. Em dez anos são 500 bilhões de dólares. Você pode mudar a face do país com esse dinheiro. Todos os países do mundo com grandes reservas de petróleo cobraram royalties e se empoderaram da riqueza do petróleo para poder se desenvolver. A grande revolução que o Chávez fez na Venezuela foi usar a renda do petróleo para combater a pobreza e a miséria. E a situação atual que vive a Venezuela deve-se, em boa medida, à queda do preço do barril de petróleo de 100 para 40 dólares.

Considerando o atual cenário internacional, a vitória de Bolsonaro no Brasil não parece ser um ponto fora da curva. Além da eleição de Trump nos Estados Unidos, a direita e a extrema direita vem crescendo em vários países europeus e também em outras regiões. Como entende esse avanço político da direita e da extrema-direita em vários lugares do mundo?

“Resultado eleitoral deste ano expressa a falência
do PSDB, do DEM e do PMDB, não do PT
nem do PDT, PSB ou PCdoB”.
Foto: Joana Berwanger/Sul21
A única perna que não combina neste cenário é que o Bolsonaro não é nacionalista. Só é na retórica. A direita no Brasil sempre existiu. Ela foi absorvida, de certa maneira, pelo centro. A vitória do PSDB durante seis eleições em São Paulo é explicada, em parte, porque ele absorveu o malufismo e o quercismo. O (Alberto) Goldman era o braço direito o Quércia. O Aloysio (Nunes) foi vice do Fleury. Nos últimos 20 anos, o Brasil sempre teve algo entre 30 e 35% dos votos para o PT e aliados, entre 30 e 35% para o PSDB e aliados. Continuou a ter entre 30 e 40% de votos para o PT e aliados. Mesmo que suas principais lideranças não tenham apoiado Haddad no segundo turno, uma parcela importante do eleitorado do PDT e mesmo do PSDB votou nele.

Considero aqui uma hipótese: se o Dória tivesse sido candidato a presidente no lugar do Alckmin, talvez o Bolsonaro não tivesse 46% de votos. Até poderia ter ido para o segundo turno, mas com uma votação na casa dos 25%. A maior parte do eleitorado do PSDB foi absorvida pelo Bolsonaro com a pauta liberal dele e com a pauta do combate à violência com violência. Desde os tempos do Maluf existe isso.

O resultado eleitoral deste ano expressa a falência do PSDB, do DEM e do PMDB, não do PT nem do PDT, PSB ou PCdoB. Em maior ou menor grau, cada um sofreu a sua derrota e seu fracasso. E há uma força nova representada pelo Bolsonaro, pelo PSL e por grupos políticos como o MBL. O fato de a Janaina (Paschoal) ter feito dois milhões de votos, significa que esses grupos representam uma nova força política. Precisamos reconhecer isso. E eles têm mídia agora, via a Record e as igrejas evangélicas. A pauta liberal e identitária da Globo, defensora de uma visão norte-americana do multiculturalismo, bate de frente com a pauta religiosa do neopentecostalismo da Record e das igrejas evangélicas. A ideia da Escola sem Partido também bate de frente com as elites liberais do país. Os editoriais de veículos como Folha, Veja e Globo são contrários ao Escola sem Partido.

Bolsonaro não só conquistou uma maioria como organizou uma minoria forte, agressiva e violenta, que pode vir a se constituir em milícias inclusive. Não há dúvida de que ele tem um caráter autoritário. Veremos agora se ele é também uma ameaça à democracia. A medida que eles tentaram para entrar nas universidades com força policial foi detida pelo Supremo. Ele pode ter contrapesos no Parlamento, na mídia, no Supremo, nos partidos, nos movimentos sociais e sindicais, bem como na sociedade. Não se aplica uma política como eles pretendem aplicar, sem uma forte oposição na sociedade, a não ser que implantem uma ditadura. E, mesmo assim, houve oposição à ditadura e ela acabou derrotada.

Logo depois da eleição, se espalhou nas redes sociais o tema da necessidade de uma autocrítica dos derrotados, especialmente da parte do PT. Neste momento, a esquerda como um todo parece estar iniciando um debate sobre o que aconteceu, os erros cometidos e os desafios para o futuro. Na sua avaliação, quais foram alguns dos principais erros cometidos neste processo e quais aprendizados eles propiciam?

Em primeiro lugar, creio que precisamos reconhecer que não estávamos à altura dos desafios das redes sociais. E não foi por falta de aviso da própria realidade, desde a eleição do Obama, passando por 2013 e 2016. Em segundo lugar, ficou evidente que estamos sem um pé do nosso tripé que é a presença nos bairros populares. Houve um claro enfraquecimento da nossa presença nestas comunidades. O Whatsapp é importante, sem dúvida, mas nós estávamos lá para responder o que estava sendo enviado pelo Whatsapp? Eles estavam lá para responder.

É evidente que as igrejas evangélicas desequilibraram esse cenário, bem como o apoio econômico empresarial que ele teve. Além disso, se não tivesse ocorrido o impedimento do Lula talvez nós tivéssemos vencido as eleições no primeiro turno. Mas é importante assinalar que o fato de termos feito mais de 47 milhões de votos no segundo turno representa um resultado importante que pode ser considerado uma vitória dentro de uma derrota. Você pode sofrer derrotas de vários graus.

Lançamento do livro de José Dirceu em Porto Alegre.
Foto: Ronaldo Quadrado/Bancada PT-RS
Nós também precisamos repensar nossa linguagem, nossos eixos, as ideias fortes que apresentamos para a sociedade. Se olharmos nossos governos estaduais e municipais é possível perceber uma defasagem entre os objetivos dos nossos programas de governo e a situação real desses governos e do País. Estamos governando em crise orçamentária e fiscal, com recessão e desemprego. Precisamos dar uma repensada no modo petista de governar. E o partido precisa se organizar para essa nova fase de uma nova maneira. Se ele quer enfrentar o trabalho nas redes e a luta política e social na frente de massas, como se falava, vai precisar se reorganizar para isso.

Está na hora também de reanalisar o capitalismo brasileiro, com sua nova tendência de financeirização, estudar o papel do capital financeiro bancário e o tipo de mercado de trabalho que está sendo criado, algo que afeta cada dia mais os sindicatos. A grande maioria dos trabalhadores hoje está no mercado informal ou no mercado não industrial. O PT precisa considerar tudo isso para fazer uma atualização do seu programa e uma avaliação de como a luta política e social está se dando hoje. Bolsonaro ganhou uma parcela importante do nosso eleitorado para as ideias-chave dele, de ordem, autoridade, defesa da família, da religião. Acredito que o PT e a esquerda em geral têm condições de fazer isso, cada um com seus métodos e objetivos.

Outro elemento importante da conjuntura atual é a situação do ex-presidente Lula que segue preso e sofre um novo processo agora, envolvendo o sítio de Atibaia. Considerando o que foi a recente audiência que ele teve na Justiça Federal, em Curitiba, os sinais não são muito animadores do ponto de vista de uma absolvição. Na sua avaliação, qual a dimensão e a importância que o movimento pela libertação de Lula deve adquirir neste período que se abre com a vitória de Bolsonaro? Há algum risco de que esse tema meio que caia em esquecimento?

O PT fará de tudo para que isso não aconteça. Defenderá o direito de Lula à liberdade e a anulação do processo do tríplex, que é escandaloso e teve um julgamento sumário, político e de exceção. Há quem diga que essa não é a pauta, mas sim o governo Bolsonaro e a oposição a ele. Nós não estamos dizendo que o Lula Livre ou a anulação do processo é a pauta das oposições, mas sim que é a pauta daqueles que querem defender o estado de direito no Brasil. O Lula não é o último, mas sim o primeiro. Amanhã pode acontecer com qualquer um. Está ocorrendo agora uma tentativa de criminalizar lideranças de movimentos, sindicatos, associações e grêmios estudantis via processo de improbidade administrativa. Daqui a pouco será via o Imposto de Renda. Nós conhecemos isso.

Quando o país tem uma operação que reúne o Ministério Público, a Polícia Federal e um juiz, e quando o Ministério Público tem procedimentos investigativos sigilosos e a quebra de sigilo – seja bancário, fiscal, telemático ou telefônico – passa a ser uma simples medida administrativa, cada vez menos judicial, você tem as condições para constituir uma polícia política e um Estado policial. Reunir o poder de investigar com o poder de acusar tem consequências. O papel de investigar é da Polícia Federal e o papel de acusar e de ser fiscal do inquérito é do Ministério Público. Isso é o que está na lei, mas virou outra coisa. Foi votado na Constituinte que quem exerceria o papel de polícia judiciária, na União e nos Estados, seria a Polícia Federal e a Polícia Civil, e não o Ministério Público. O Supremo acabou autorizando o MP a investigar. Agora, parece que querem reverter isso.

Não se trata de o PT querer transformar o movimento Lula Livre na principal pauta e, com isso, alavancar a sua liderança. A situação do Lula é uma questão democrática que envolve os direitos e garantias democráticas e o devido processo legal. Quem não quer apoiar essa campanha tem o direito de fazê-lo, mas é um erro, porque amanhã poderá ser ele o alvo. Nós conhecemos como começam as ditaduras. Temos experiência disso no país. O Brasil viveu praticamente metade do seu período republicano sob ditaduras. O movimento pela liberdade de Lula tem esse sentido para nós e creio que ele tem respaldo na sociedade.

Você mencionou as crescentes tentativas de criminalizar lideranças políticas, de sindicatos, movimentos sociais e outras organizações da sociedade. À luz da tua experiência com o que aconteceu pós-64, como avalia o risco de termos uma escalada da repressão e do fechamento político no Brasil? Qual o tamanho dessa ameaça?

“A minha avaliação é que há riscos mas que a sociedade brasileira é capaz de resistir ao avanço do autoritarismo se o Bolsonaro trilhar esse caminho”.
Foto: Joana Berwanger/Sul21
Você sabe que isso é como diz aquele poema do Brecht. Muitos acham que não vai acontecer. Depende da resistência. A minha avaliação é que há riscos mas que a sociedade brasileira é capaz de resistir ao avanço do autoritarismo se o Bolsonaro trilhar esse caminho. Estamos vendo na questão do Escola sem Partido, da invasão das universidades, das ameaças à imprensa, da intenção de aplicar a lei antiterrorismo contra os movimentos sociais o repúdio de setores da sociedade que não são de esquerda. Isso significa que há no país energia e força para resistir ao autoritarismo. Os mais de 47 milhões de votos que o Haddad teve são o maior testemunho disso.

É lógico que há o elemento militar aí. Não sabemos ainda em que grau e intensidade esse elemento vai interferir no processo político democrático. Também é possível encobrir a repressão por meio da luta anti-corrupção e da lei antiterrorismo para impedir a oposição social, parlamentar e política. A democracia estará ou não em risco conforme a nossa capacidade de nos opor a qualquer tentativa de violar a Constituição e os direitos fundamentais.

Gostaria que falasse um pouco sobre o primeiro volume de suas memórias. Como nasceu a ideia e como foi a experiência de contar essa história?

Eu mesmo não me considerava apto e capaz de escrever essas memórias. Isso aconteceu muito pela insistência da Simone, minha esposa, para que a Maria Antonia, minha filha, conhecesse a minha história. E também para que a juventude conhecesse essa história. Na prisão, você tem que ocupar o tempo da maneira mais útil possível, trabalhando, estudando, escrevendo, se exercitando, jogando futebol, xadrez, dominó, rezando, cantando, conversando com a família, com os advogados, com os outros presos. Você convive com dezenas de presos em uma galeria durante três, quatro anos, em um espaço com 32 celas, um pátio embaixo de 10 por 10 metros, um pátio um pouco maior para a visita das famílias. Você vai à biblioteca, ao serviço médico, à assistência social. Você está sem liberdade e tem que manter a liberdade de pensamento, de criação.

Escrever esse livro me ajudou também a passar os sábados e domingos que são muito pesados quando você está preso, principalmente porque as visitas ocorrem na sexta. Eu intitulei esse período de depressão pós-visita. Acabei escrevendo 700 páginas, com o mesmo papel e a mesma caneta…

Todo ele foi escrito na prisão?

Sim, escrevi todo ele na prisão, sentado numa cama, com uma luz mais pra ruim do que pra boa, sem mesa e sem cadeira. Escrevi esse livro durante um ano aproximadamente. Quando saí, trabalhei o texto durante uns seis meses. Depois levou mais seis meses para fazer a revisão e entreguei para alguns amigos lerem. Entre o final de agosto e o começo de setembro o livro ficou pronto.

Meu objetivo foi contar a minha história e revisitar a história do Brasil nestes 60 anos. Participei de alguns dos principais eventos dessa história. Às vezes por decisão minha, outras vezes pelo acaso e pelo imprevisto, fui personagem dela. Fui um dos líderes da resistência de 68 à ditadura, participei da clandestinidade, da resistência armada, da fundação do PT, da campanha das Diretas, do impeachment do Collor, dos nossos governos. Percorri o Brasil centenas de vezes, visitando quatro ou cinco vezes praticamente todas as cidades com mais de 100 mil habitantes. Viajei muito pelo Brasil na clandestinidade, depois como presidente do PT, em várias campanhas. Fiz relações com vários setores da sociedade, de todos os partidos. E fui protagonista da vitória e do governo do Lula. Depois sofri uma perseguição judicial. Eu lutei muito, até ser preso em 2013, contra o caráter da Ação Penal 470 que foi o ensaio primeiro para a Lava Jato.

Procurei também falar da situação internacional, da minha vida em Cuba, dos ciclos econômicos pelos quais o Brasil passou neste período, das crises econômicas, dos governos, da atuação do PT, de outras forças de esquerda, dos movimentos sociais. Pelos retornos que estou recebendo, acredito que fui razoavelmente bem sucedido. Procurei, principalmente, deixar uma contribuição para a juventude, para que ela reflita sobre os caminhos e projetos para o país, sobre a ideia do Brasil como uma nação soberana, como civilização dos trópicos, como uma democracia com participação popular, como um país com igualdade e justiça social. O Brasil é um país nacionalista que busca a justiça e a igualdade, que busca a liberdade e a democracia. Não é este país que o Bolsonaro diz representar.

Pretendo escrever o segundo volume agora, falando sobre o período na prisão. Quero falar um pouco sobre a calamidade que é o sistema penitenciário brasileiro e o absurdo dessas ideias de querer aumentar penas e por fim à progressão penal. O problema do sistema penitenciário é que ele não tem trabalho nem educação. A prisão deve ser para ressocializar e recuperar. A tendência da humanidade é extinguir progressivamente o regime fechado e aplicar mais a perda pecuniária e a perda de direitos, o que já existe inclusive na legislação brasileira, que é uma das mais avançadas do mundo. Se implantada, a reincidência cairia para 10%.

Marco Weissheimer
No Sul21
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Vai tudo ficar como está?

Enquanto não forem esclarecidas as suspeitas que cercam a eleição de Jair Bolsonaro, será cedo para analisá-la.

Os sinais de que alguma coisa estranha aconteceu só aumentam. Tudo indica que houve uma interferência na eleição, centrada na manipulação de redes sociais, semelhante à que ocorreu em outros países, mudando seu rumo e ensejando a vitória de Bolsonaro.

Quem se precipita na busca de grandes explicações sociológicas tende a equivocar-se duas vezes. De um lado, pela pressa em compreender algo cuja dinâmica sequer foi ainda adequadamente descrita. De outro, e mais grave, por tratar as suspeitas de interferência como se fossem descabidas ou irrelevantes.

É possível, ainda que improvável, que, após uma investigação bem conduzida, cheguemos à conclusão de que Bolsonaro venceu limpamente a eleição. Que as evidências de jogo sujo são falsas e que o retrato mais exato do eleitorado brasileiro é esse revelado pelas urnas. Que a vitória de Bolsonaro foi "natural".

Há forças que se aliam no desejo de que essa versão prevaleça. O bolsonarismo, claro está, não admite o questionamento do processo que o levou ao poder. Com ele, a "turma do deixa disso", que defende a tese de que, depois de anos de instabilidade, é preferível fingir que não há motivos para colocar a eleição em discussão.

O Judiciário e o Ministério Público fazem parte dessa turma. Com Sérgio Moro, seu símbolo maior, no lugar de honra do governo bolsonarista, nada melhor que fazer de conta que o resultado é "justo". Não foi por falta de denúncias fundamentadas e documentadas (com detalhes de onde funcionava e quem manejava a máquina de falsificações suspeitas), que a Justiça Eleitoral preferiu se omitir.

Estão de mãos dadas com um parceiro inesperado, as gigantes mundiais de tecnologia, a começar pelo Facebook e seu satélite o WhatsApp. Junto com as outras, Google, Amazon e Twitter, nenhuma quer que seus negócios bilionários sejam analisados pela opinião pública internacional. Também para elas, melhor simular que a eleição brasileira foi "normal".

Dois anos depois da suspeitíssima vitória de Donald Trump, o sentimento progressista nos Estados Unidos mais se dá conta de que essas empresas não são aliadas na busca por uma sociedade democrática. Elas, a menos que sejam pressionadas, preferem oferecer suas plataformas a quem tem dinheiro para usá-las. Nenhum compromisso têm com a transparência.

Os democratas americanos perceberam que as guerras eleitorais mudaram de figura. Como disse recentemente Ro Khanna, um dos principais deputados da bancada da tecnologia e anteriormente um aliado incondicional das gigantes do setor: "2016 expôs o lado negro da tecnologia".

Aqui, ao que tudo indica, isso aconteceu em 2018. E, se preferirmos fazer vista grossa e jogar as evidências para debaixo do tapete, terá sido apenas o primeiro capítulo. De ora em diante, as eleições serão todas disputadas e vencidas com recurso ao lado negro.

E continuaremos a nos perguntar candidamente o que terá acontecido com o eleitorado, em especial o mais pobre e mais vulnerável à influência de manipuladores de todos os tipos, incluindo os empresários da religião. Como fazem analistas respeitáveis, atônitos com o tamanho de sua ignorância a respeito de um Brasil que julgavam conhecer.

É possível que o Brasil que imaginavam seja o real e que esse que saiu das urnas não passe de seu retrato distorcido. Que uma milionária e ilegal campanha de manipulação tenha sido desfechada nos dez dias que antecederam o primeiro turno, para mudar as opiniões de determinados segmentos, ampliando a rejeição a Fernando Haddad e ao que representava.

Com Lula fora do páreo, por ato do futuro ministro da Justiça de Bolsonaro, uma eleição que seria resolvida por margem estreita (como fora a de Dilma Rousseff, em 2104) se desequilibrou em função de trapaças. O eleitorado popular, que mal havia sido apresentado a Haddad, foi atordoado com doses maciças de falsas informações. Face ao demônio que pintaram, até Bolsonaro pareceu melhor.

Há muitas maneiras de vencer. Nos esportes, pode-se ganhar jogando limpo ou tomando anabolizantes às escondidas. No automobilismo, usando o combustível permitido ou misturando aditivos proibidos. Em um concurso, estudando à sério ou colando dos outros. Em uma eleição, fazendo o que a lei permite ou roubando.

O Brasil tem o dever de esclarecer o que ocorreu na última eleição, por razões nossas e porque somos importantes globalmente. Antes de saber o que aconteceu de verdade, é prematura a autocrítica e a lavagem de roupa suja na esquerda (por mais necessária que seja).

Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
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O que é Ideologia na Escola


Prof. Ricardo Vélez Rodriguez

Palestra: O Pensamento Político Brasileiro

Local: Faculdade FACNOPAR - ALACCNP - ACAD. DE LETRAS, ARTES, CIÊNCIAS CENTRO NORTE DO PARANÁ - Apucarana

Data: domingo, 02/09/2018




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RS é Estado com mais municípios sem atendimento na Saúde Básica depois da expulsão dos médicos cubanos

Foto Araquem
Bolsonaro fez 63% dos votos no RS. Em troca ele expulsa médicos cubanos e deixa milhões de gaúchos sem atendimento nenhum e outros milhões com atendimento precário.

Segue artigo da Globo, insuspeita apoiadora de Bolsonaro, sobre a tragédia no RS e no Brasil.

285 municípios ficam sem nenhum médico na atenção básica com saída dos cubanos, diz entidade; veja lista

Por Lara Pinheiro e Tatiana Coelho, G1

Um levantamento feito pelo Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde (Conasems), obtido pelo G1, aponta que pelo menos 285 cidades em 19 estados do Brasil devem ficar sem médicos dedicados à atenção básica em saúde na rede pública com a saída dos cubanos do programa Mais Médicos (veja lista completa no final da reportagem).

Somadas, estas cidades possuem 1,4 milhão de habitantes, segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para 2018. Dentre as cidades afetadas, a que possui o menor número de habitantes é André da Rocha, no Rio Grande do Sul, com 1.324 habitantes. Já a cidade com maior número de habitantes é Araguari, em Minas Gerais, com 116.691 habitantes.

A estimativa do conselho segue os seguintes critérios:
  • Considera municípios que têm apenas uma Equipe de Saúde da Família (ESF)
  • A equipe precisa ser participante do Mais Médicos
  • O médico dessa Equipe de Saúde era cubano
A atenção básica é a rede de atendimento que pode ser apontada como a porta de entrada no Sistema Único de Saúde (SUS). Ela abrange prevenção, diagnóstico, tratamento, reabilitação, redução de danos e manutenção da saúde; e o trabalho é realizado sobretudo em unidades básicas de saúde (UBS) e espaços equivalentes.

Cada equipe de Saúde da Família conta com apenas um médico, mas também tem outros profissionais de saúde — como enfermeiros, técnicos de enfermagem e agentes comunitários de saúde. Os médicos vindos de Cuba atuavam nessas equipes. Elas podem ficar responsáveis por até 4 mil habitantes.

O número de 285 cidades ainda pode ser ampliado, de acordo com o Conasems. A estimativa também não considera, por exemplo, se o município tem — eventualmente — algum médico em estabelecimento da rede privada ou mesmo se a cidade tem parceria com município vizinho para assistência mútua. O levantamento retrata especificamente o total de locais que só tinham uma ESF, sendo a equipe parte do Mais Médicos e com profissional cubano no grupo.

Seleção de novos médicos

Para repor a saída dos cubanos do Mais Médicos, o governo federal seleciona 8.517 profissionais. Mesmo com instabilidade no site, o Ministério da Saúde diz o programa recebeu o cadastro de 6.394 inscritos até a manhã desta quinta-feira (22), sendo que 2.209 profissionais chegaram a concluir a inscrição e escolheram a cidade de atuação. O prazo de inscrição, que terminaria no domingo (25), deve ser prorrogado.
Comentário do Blogueiro: Clique no link a seguir e leia o artigo sobre onde a maioria dos médicos brasileiros quer atuar

Não deu outra: Médicos brasileiros que se inscrevem no Mais Médicos só querem atuar em capitais e grandes centros

Situação por estados

De acordo com o levantamento do Conasems, o Rio Grande do Sul é o estado com mais municípios afetados pela saída dos cubanos — são 92. Em seguida vêm São Paulo, com 49, Paraná, com 27, e Minas Gerais, com 24. O Conasems ainda não tem dados sobre o Amazonas, Amapá, Ceará, e Espírito Santo. O Distrito Federal não foi considerado no levantamento.

Rio de Janeiro e Maranhão são os únicos estados, até agora, sem nenhum município nessa situação.

Cidades afetadas pela saída dos médicos cubanos — Foto: Arte G1
Cidades afetadas pela saída dos médicos cubanos — Foto: Arte G1

Lista das cidades

Confira, abaixo, o levantamento do Conasems:

Acre
Marechal Thaumaturgo

Alagoas
Pindoba

Bahia
Santa Terezinha

Goiás
Adelândia
Apore
Arenópolis
Buriti de Goias
Davinópolis
Diorama
Guaraíta
Israelândia
Ivolândia
Jesupólis
Lagoa Santa
Moiporá
Morro Agudo de Goiás
Palmelo
Portelândia
Sítio D’Abadia
Três Ranchos
Urutaí

Minas Gerais
Albertina
Araguari
Belmiro Braga
Carmésia
Conceição das Pedras
Coronel Xavier Chaves
Fortuna de Minas
Glaucilândia
Itambé do Mato Dentro
Madre de Deus de Minas
Maripá de Minas
Marmelópolis
Monjolos
Passa Vinte
Pedra Dourada
Quartel Geral
Santa Bárbara do Monte Verde
Santa Rosa da Serra
Santo Antônio do Aventureiro
São Sebastião da Vargem Alegre
Sem-Peixe
Senador Cortes
Umburatiba
Wenceslau Braz

Mato Grosso do Sul
Alcinópolis
Figueirão

Mato Grosso
Araguaiana
Figueirópolis D’Oeste
Indiavaí
Luciara
Novo Santo Antônio
Reserva do Cabaçal
Ribeirãozinho
Santo Antônio do Leste
São José do Povo
Tesouro

Pará
Afuá
Cachoeira do Arari
Senador José Porfírio

Paraíba
Amparo
Carrapateira
Frei Martinho
Joca Claudinho
Serra Grande

Pernambuco
Itacuruba

Piauí
João Costa
São Gonçalo do Gurguéia
São Luís do Piauí
Tamboril do Piauí
Vila Nova do Piauí

Paraná
Barra do Jacaré
Boa Esperança do Iguaçu
Cruzmaltina
Diamante D’Oeste
Esperança Nova
Guaporema
Ibema
Iguaraçu
Inajá
Jardim Olinda
Jesuítas
Maripá
Nova Santa Bárbara
Pato Bragado
Porto Amazonas
Porto Rico
Porto Vitória
Quatro Pontes
Rio Branco do Ivaí
Santa Amélia
Santana do Itararé
Santo Inácio
São Jorge do Ivaí
São José das Palmeiras
São Manoel do Paraná
São Pedro do Iguaçu
Sulina

Rio Grande do Norte
Bodó
Coronel João Pessoa
Jardim de Angicos
Lagoa de Velhos
São Francisco do Oeste
Taboleiro Grande
Timbaúba dos Batistas
Venha-Ver
Vila Flor

Rondônia
Pimenteiras do Oeste
Primavera de Rondônia

Rio Grande do Sul
Água Santa
Almirante Tamandaré do Sul
Alto Alegre
Alto Feliz
André da Rocha
Arroio do Padre
Barão do Triunfo
Barra do Rio Azul
Boa Vista das Missões
Boa Vista do Cadeado
Boa Vista do Incra
Cacique Doble
Camargo
Capão Bonito do Sul
Capão do Leão
Carlos Gomes
Caseiros
Cerro Grande
Chuí
Colinas
Coqueiros do Sul
Cotiporã
Cristal do Sul
Cruzaltense
Dilermando de Aguiar
Dois Irmãos das Missões
Dona Francisca
Doutor Ricardo
Entre Rios do Sul
Ernestina
Eugênio de Castro
Fagundes Varela
Glorinha
Gramado Xavier
Guabiju
Herveiras
Imbé
Imigrante
Inhacorá
Itacurubi
Jacuizinho
Jaguari
Jari
Lagoa Bonita do Sul
Lajeado do Bugre
Lindolfo Collor
Macambará
Mampituba
Mato Castelhano
Mato Queimado
Monte Belo do Sul
Mormaço
Morrinhos do Sul
Muliterno
Nova Araçá
Nova Ramada
Paraíso do Sul
Pareci Novo
Paulo Bento
Pinhal da Serra
Pirapó
Porto Mauá
Porto Vera Cruz
Pouso Novo
Protásio Alves
Quevedos
Quinze de Novembro
Relvado
Sagrada Família
Santa Bárbara do Sul
Santa Cecília do Sul
Santa Margarida do Sul
Santa Tereza
São João da Urtiga
São João do Polêsine
São Jorge
São José do Hortêncio
São José do Sul
São Martinho da Serra
São Miguel das Missões
São Pedros das Missões
Sentinela do Sul
Sério
Sertão Santana
Severiano de Almeida
Silveira Martins
Tavares
Tio Hugo
Tupandi
Ubiretama
Vale Verde
Vila Nova do Sul

Santa Catarina
Alto Bela Vista
Anitápolis
Arroio Trinta
Bandeirante
Barra Bonita
Belmonte
Bom Jesus
Cunhataí
Ermo
Maracajá
Novo Horizonte
Ouro
Ouro Verde
Painel
Palmeira
Rancho Queimado
Saltinho
Santa Rosa de Lima
São Bernardino
Serra Alta
Sul Brasil

São Paulo
Auriflama
Avaí
Barra Bonita
Buritizal
Cabrália Paulista
Cândido Rodrigues
Canitar
Catiguá
Charqueada
Chavantes
Coronel Macedo
Dumont
Espírito Santo do Turvo
Fernão
Flora Rica
Florínea
Glicério
Guaiçara
Guzolândia
Ipeúna
Iporanga
Irapuã
Itaocá
Jaguariúna
Macedônia
Mariápolis
Mira Estrela
Natividade da Serra
Nova Odessa
Ocauçu
Oscar Bressane
Paulistânia
Pedra Bela
Pedranópolis
Pongaí
Pradópolis
Pratânia
Sabino
Santa Lúcia
Santo Antônio do Aracanguá
Santo Antônio do Jardim
São Francisco
São João de Iracema
São João do Pau d’Alho
Tejupá
Trabiju
Tuiuti
Turiúba
Turmalina

Tocantins
Fortaleza do Tabocão
Ipueiras
Lagoa do Tocantins
Luzinópolis
Maurilândia do Tocantins
Novo Jardim
Rio dos Bois
Sampaio
Santa Maria do Tocantins
São Felix do Tocantins
São Salvador do Tocantins
Taipas do Tocantins

Luíz Müller
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