19 de nov de 2018

MPF faz recomendação a UFRGS e outras instituições para garantir liberdade de ensinar a professores


O Ministério Público Federal (MPF/RS), por meio da Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão, expediu recomendação à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ao Colégio de Aplicação da UFRGS, ao Colégio Militar de Porto Alegre, à Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), ao Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) e ao Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul Rio-grandense para que “se abstenham de qualquer atuação ou sanção arbitrária em relação a professores, com fundamento que represente violação aos princípios constitucionais e demais normas que regem a educação nacional, em especial quanto à liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber e ao pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas”.

Além disso, o MPF recomenda que as instituições adotem as medidas cabíveis e necessárias para que não haja qualquer forma de assédio moral em face desses profissionais, por parte de servidores, professores, estudantes, familiares ou responsáveis. Essa medida integra uma ação coordenada pela Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC) com abrangência em todo território nacional. Leia abaixo a íntegra da recomendação:


No Sul21

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Ação contra Haddad é vingança política


O Partido dos Trabalhadores denuncia a perseguição movida pelo Ministério Público de São Paulo e pelo juízo da 5a. Vara Criminal da Barra Funda contra o ex-ministro Fernando Haddad, candidato do PT à presidência da República que recebeu 47 milhões de votos no segundo turno das eleições.

Com base apenas na palavra de um réu confesso, Ricardo Pessoa, que foi descartada pelo Supremo Tribunal Federal por ausência de provas e de credibilidade, o MP-SP fez uma denúncia infundada que não poderia ter sido aceita por um juízo imparcial.

Este episódio caracteriza a partidarização do sistema judicial do estado de São Paulo, controlado por notórios adversários do Partido dos Trabalhadores. Tem cheiro de vingança e retaliação pelo grande desempenho de Haddad e do PT nas eleições presidenciais.

O Brasil precisa de mais Justiça e menos perseguição política. Mais democracia e nenhum tipo de manipulação das instituições. O Brasil precisa resistir a esse tipo de ataque, que não fere apenas o cidadão Fernando Haddad, fere a própria democracia.

Comissão Executiva Nacional do PT
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Itamaraty escatológico


A decisão do presidente eleito de indicar para seu ministro das relações exteriores o diplomata Ernesto Araújo é assombrosa. A Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados de 1969, promulgada pelo Decreto 7.030/09, prescreve no art. 7.2.a, que “Em virtude de suas funções e independentemente da apresentação de plenos poderes, são considerados representantes do seu Estado: a) os Chefes de Estado, os Chefes de Governo e os Ministros das Relações Exteriores, para a realização de todos os atos relativos à conclusão de um tratado”. Portanto, para efeitos de relações internacionais, a sociedade internacional equipara o chanceler ao próprio chefe de Estado.

Não obstante, o indicado para a função não parece possuir quaisquer condições emocionais de responder pelo importante posto. Nem tanto por suas posições políticas exóticas, como, por exemplo, afirmar que o PT é o partido do terror, o partido totalitário, o partido da tirania; ou afirmar que o acordo climático de Paris, endossado por 175 nações, quase todas capitalistas, é uma trama marxista; tampouco por sustentar que o nazismo seja uma ideologia de esquerda. Mas, simplesmente, porque não será reconhecido como alguém sério, capaz de negociar em nome de sua nação em mesas internacionais.

O amor incondicional pela política de Trump (a indisposição com o Mercosul já anunciada por outro ministro) pode ser um tiro no pé. Negociar não pressupõe divergência, mas também não pode significar convergência incondicional. A compreensão do interlocutor como alguém de posições coerentes é elementar para a obtenção do respeito no debate. Está no livro do diplomata Eugênio Vargas Garcia, O Brasil e a criação da ONU (p. 300), que o país só não conseguiu uma cadeira permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas pelo receio das demais nações de que os Estados Unidos lograssem voto duplo com a participação nacional. Ou seja, a história é impiedosa com os vassalos. Dizer, como o próximo chanceler brasileiro disse, que a Europa é um espaço cultural vazio só demonstra o quão vazia de cultura é a sua mente. Não por outra razão o ex-ministro da Justiça, Educação, Relações Institucionais da presidência, do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social, ex-governador do Rio Grande do Sul e prefeito de Porto Alegre, Tarso Genro, acusou-lhe de mentalmente débil.

Marcelo Uchôa, Advogado e Professor Doutor de Direito Internacional
No GGN
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Jornal dos Trabalhadores e Trabalhadoras


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Bolsonaro: Um Monstro criado pelo PIG


Com a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais do Brasil , os fatalistas das elites ocidentais estão de novo em cena. O seu sucesso, como o de Donald Trump, confirmou um preconceito de longa data: que não se pode confiar nas pessoas; que, quando têm poder, estas comportam-se como uma multidão impulsionada por desejos primitivos; que as massas encardidas ameaçam agora derrubar os pilares da civilização que foram cuidadosamente levantados.

Os guardiões do status quo recusaram aprender a lição com a eleição de Trump, e assim acontecerá com Bolsonaro. Em vez de empregarem as faculdades intelectuais que eles reivindicam como sendo exclusivamente suas, os “analistas” e “especialistas” ocidentais, estão novamente a desviar o olhar daquilo que pudesse ajudá-los a entender o que levou as nossas supostas democracias aos lugares sombrios habitados pelos novos demagogos. Em vez disso, como sempre, a culpa está a ser diretamente enfocada nas redes sociais.

As redes sociais e as notícias falsas são aparentemente as razões pelas quais Bolsonaro ganhou nas urnas. Sem os guardiões no local para limitar o acesso à “imprensa livre” – em si o brinquedo de bilionários e corporações globais, com marcas e resultados para proteger – a plebe supostamente foi liberada para dar expressão ao seu fanatismo inato.

Aqui está Simon Jenkins, um veterano guardião britânico – ex-editor do The Times de Londres que agora escreve uma coluna no The Guardian – pontificando a Bolsonaro:

“A lição para os defensores da democracia aberta é manifesta. Os seus valores não podem ser tomados como garantidos. Quando o debate não é mais realizado através da mídia regulada, tribunais e instituições, a política reverterá aos padrões da populaça. As redes sociais – outrora aclamada como agente de concórdia global – tornou-se num fornecedor de falsidades, raiva e ódio. Os seus algoritmos polarizam a opinião. Sua pseudo-informação leva os argumentos aos extremos “.

Este é agora o consenso paradigmático da mídia corporativa, seja nas suas encarnações de direita ou no lado liberal-esquerdo do espectro, como no The Guardian. As pessoas são estúpidas e precisamos ser protegidos dos seus instintos básicos. As redes sociais, afirmam, desencadearam o id da humanidade.

Vendendo a plutocracia

Há um elemento de verdade no argumento de Jenkins, mesmo que não seja o pretendido. As redes sociais libertaram de facto as pessoas comuns. Pela primeira vez na história moderna, estas não eram simplesmente os recipientes de informação oficial sancionada. Não eram apenas os ouvintes dos seus superiores, poderiam responder de volta – e nem sempre com tanta deferência quanto a classe da mídia esperaria.

Agarrando-se aos seus antigos privilégios, Jenkins e os seus, estão nervosos e com motivo. Eles têm muito a perder.

Mas isso significa também que eles estão longe de ser observadores desapaixonados da cena política atual. Eles investiram profundamente no status quo, nas estruturas de poder existentes que os mantiveram como cortesãos bem pagos das corporações que dominam o planeta.

Bolsonaro, como Trump, não é uma ruptura da atual ordem neoliberal; ele é uma intensificação ou escalada dos seus piores impulsos. Ele é a sua conclusão lógica.

Os plutocratas que comandam as nossas sociedades precisam de figuras de proa, atrás das quais podem ocultar seu poder incompreensível. Até agora, eles preferiam os vendedores mais astutos, aqueles que podiam vender guerras como uma intervenção humanitária, em vez de exercícios baseados no lucro, na morte e na destruição; o saque insustentável dos recursos naturais como crescimento económico; a enorme acumulação de riqueza, escondida em paraísos fiscais, como o resultado justo de um mercado livre; os resgates financiados pelos contribuintes comuns para conter as crises económicas que eles haviam arquitetado, como austeridade necessária; e assim por diante.

Falinhas mansas como Barack Obama ou Hillary Clinton, eram os vendedores favoritos, especialmente numa época em que as elites haviam nos convencido com recurso a um argumento interesseiro: que identidades baseadas no tom de pele ou género importavam muito mais do que classe. Era o dividir para governar mascarado de empoderamento. A polarização agora lamentada por Jenkins foi, na verdade, alimentada e racionalizada pela própria mídia corporativa a qual ele serve tão fielmente.

Medo do efeito dominó

Está na hora de despertar: a ordem neoliberal está a morrer.

Apesar da sua professada preocupação, os plutocratas e seus porta-vozes da mídia preferem muito mais um populista de extrema direita como Trump ou Bolsonaro a um líder populista da genuína esquerda. Preferem as divisões sociais alimentadas por neo-fascistas como Bolsonaro, divisões que protegem a sua riqueza e privilégio, do que a mensagem unificadora de um socialista que queira restringir o privilégio de classe, a base real do poder da elite.

A verdadeira esquerda – seja no Brasil, na Venezuela, na Grã-Bretanha ou nos EUA – não controla a polícia ou os militares, o setor financeiro, as indústrias de petróleo, os fabricantes de armas ou a mídia corporativa. Foram essas mesmas indústrias e instituições que abriram caminho para o poder de Bolsonaro no Brasil, Viktor Orban na Hungria e Trump nos EUA.

Lula

Ex-líderes socialistas como o brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva ou Hugo Chavez na Venezuela estavam condenados ao fracasso não tanto por causa das suas falhas como indivíduos, mas porque poderosos interesses rejeitavam o seu direito de governar. Esses socialistas nunca tiveram controle sobre as principais alavancas do poder, os recursos-chave. Os seus esforços foram sabotados – de dentro e de fora – desde o primeiro momento em que foram eleitos.

As elites locais da América Latina estão amarradas umbilicalmente às elites americanas, que por sua vez estão determinadas em garantir que qualquer experimento socialista no seu “quintal” fracasse – como uma forma de evitar um temido efeito dominó, que poderia plantar a semente do socialismo perto de casa.

A mídia, as elites financeiras, as forças armadas nunca estiveram ao serviço dos governos socialistas que lutam por reformar a América Latina. O mundo corporativo não tem interesse em construir moradias adequadas no lugar de favelas ou em tirar as massas do tipo de pobreza que alimenta os gangues do narcotráfico que Bolsonaro diz que vai esmagar com mais violência.

Bolsonaro não enfrentará nenhum dos obstáculos institucionais que Lula da Silva ou Chávez precisaram superar. Ninguém no poder ficará no seu caminho quando estabelecer as suas “reformas”. Ninguém vai impedi-lo de sacar a riqueza do Brasil para os seus amigos corporativos. Como no Chile de Pinochet, Bolsonaro pode ter a certeza de que o seu tipo de neofascismo viverá em harmonia com o neoliberalismo.

Sistema Imunológico

Se se quiser entender a profundidade do auto-engano de Jenkins e outros guardiões da mídia, basta contrastar a ascensão política de Bolsonaro à de Jeremy Corbyn, o modesto líder social-democrata do Partido Trabalhista britânico.

Aqueles que tal como Jenkins lamentam o papel das redes sociais – para eles significa que você, o público – ao promover líderes como Bolsonaro representa também o coro da mídia que feriu Corbyn dia após dia, golpe a golpe, por três anos – desde que acidentalmente este conseguiu passar pelas protecções levantadas por burocratas do partido para manter alguém como ele afastado do poder.

O suposto jornal liberal The Guardian tem liderado esse ataque. Tal como a mídia de direita, demonstrou a sua absoluta determinação em deter Corbyn a todo custo, usando qualquer pretexto.

Dias depois da eleição de Corbyn para a liderança do partido trabalhista, o jornal The Times – a voz do establishment britânico – publicou um artigo citando um general, o qual recusou mencionar o nome, alertando para o facto de que os comandantes do exército britânico haviam concordado em sabotar o governo de Corbyn. O general insinuou fortemente que poderia haver de antemão, um golpe militar .

Não é suposto chegarmos ao ponto em que tais ameaças – romper a fachada da democracia ocidental – precisem ser implementadas. As nossas democracias do faz de conta foram criadas com sistemas imunológicos cujas defesas são agrupadas muito antes para eliminar uma ameaça como Corbyn.

Uma vez que Corbyn se aproximou do poder, a mídia corporativa de direita foi forçada a implantar a tropologia padrão usada contra um líder de esquerda: que era incompetente, antipatriótico, até traidor.

Mas, assim como o corpo humano tem células imunes diferentes para aumentar as suas hipóteses de sucesso, a mídia corporativa tem agentes de esquerda faux-liberal como o _The Guardian_ para complementar as defesas da direita. O The Guardian procurou ferir Corbyn através da política de identidade, o Calcanhar de Aquiles da esquerda moderna.

Um fluxo interminável de crises fabricadas sobre o anti-semitismo pretendia corroer a reputação que Corbyn acumulara ao longo de décadas pelo seu trabalho anti-racista.

Política de corte e queima

Por que o Corbyn é tão perigoso? Porque ele apoia o direito dos trabalhadores a uma vida digna, porque se recusa a aceitar o poder das corporações, porque sugere que uma maneira diferente de organizar as nossas sociedades é possível. É um programa modesto, até mesmo tímido, o que articula, mas mesmo assim é radical demais, seja para a classe plutocrática que nos domina, seja para a mídia corporativa que a serve como braço da propaganda.

A verdade ignorada por Jenkins e esses estenógrafos corporativos é que, se se continuar a sabotar os programas de um Chávez, um Lula da Silva, um Corbyn ou um Bernie Sanders, então ganha-se um Bolsonaro, um Trump, um Orban.

Não é que as massas sejam uma ameaça à democracia. É, antes, que uma proporção crescente dos eleitores entende que uma elite corporativa global manipulou o sistema para acumular riquezas cada vez maiores.

Não são as redes sociais que polarizam as nossas sociedades. É, antes, a determinação das elites em saquear o planeta até que este não tenha mais recursos para extrair, que alimentou o ressentimento e destruiu a esperança.

Não são as notícias falsas que estão a soltar os instintos básicos das classes mais baixas. Pelo contrário, é a frustração daqueles que acham que a mudança é impossível, que ninguém no poder está a ouvir ou se importa.

As redes sociais deram poder às pessoas comuns. Mostrou-lhes que não podem confiar nos seus líderes, que o poder supera a justiça, que o enriquecimento da elite precisa da sua pobreza. As pessoas concluíram que, se os ricos podem empreender políticas de corte e queima contra o planeta, nosso único refúgio, as pessoas podem empreender políticas de corte e queima contra a elite global.

Estarão escolhendo sabiamente ao eleger um Trump ou um Bolsonaro? Não. Mas os guardiões liberais do status quo não estão em posição de julgá-las.

Durante décadas, todas as partes da mídia corporativa ajudaram a minar uma esquerda genuína que poderia oferecer soluções reais, que poderia ter assumido e derrotado a direita, que poderia ter oferecido uma bússola moral a um público confuso, desesperado e desiludido.

Jenkins quer dar um sermão às massas sobre suas escolhas depravadas enquanto ele e o seu jornal, as afastam de qualquer político que se preocupa com o seu bem-estar, que luta por uma sociedade mais justa, que prioriza reparar o que se encontra danificado.

As elites ocidentais irão condenar Bolsonaro na esperança desesperada e cínica de reforçar as suas credenciais como guardiões da ordem moral supostamente existente. Mas foram eles que o criaram. Bolsonaro é o monstro deles.

Jonathan Cook ganhou o Prémio Especial Martha Gellhorn de Jornalismo. Seus livros incluem “Israel e o choque de civilizações: Iraque, Irão e o plano para refazer o Oriente Médio” (Pluto Press) e “Palestina Desaparecendo: as experiências de Israel em desespero humano” (Zed Books). Seu site é www.jonathan-cook.net. Ele é um colaborador frequente da Global Research.
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Quem são os youtubers recomendados por Jair Bolsonaro


O presidente eleito já deixou claro que seguirá à risca os passos de Trump na estratégia de enfrentamento da imprensa. Além de vetar a presença de determinados jornalistas em sua primeira entrevista coletiva como presidente eleito, Bolsonaro também tentou proibir a entrada de jornalista no plenário do Congresso para a comemoração dos 30 anos da Constituição Federal.

Além disso, tem ficado claro o uso de uma tática para desmoralizar a imprensa: pessoas ligadas a Bolsonaro vazam informações para jornalistas, que são publicadas. Logo em seguida, bolsonaristas negam tudo, sempre em tom de deboche, colocando dúvidas sobre a confiabilidade da imprensa. Bolsonaro passará o mandato jogando essas cascas de bananas no caminho do jornalismo.

Todas as críticas contra Bolsonaro já estão com um antídoto preparado. A teoria, difundida com sucesso, é a de que a imprensa é formada quase que completamente por esquerdistas que fabricam mentiras para prejudicar o presidente de extrema-direita. A fórmula bem-sucedida da eleição permanecerá nos próximos quatro anos. O bolsonarismo investirá pesado na manipulação da opinião pública, pautando os debates centrais e colocando toda e qualquer crítica ou denúncia no mesmo saco da “mídia esquerdista”.

Mas Bolsonaro tem uma imprensa pra chamar de sua. Nessa semana, ele recomendou nas redes sociais uma lista de canais de informação no YouTube que são de sua confiança.


Escrevi um pouco a respeito de cada uma dessas “excelentes opções de informação”. Tenho certeza que você não vai se surpreender nem um pouco com a credibilidade desses canais.

Embaixada da Resistência e Tradutores de Direita

Esses canais são comandados por pessoas anônimas e basicamente colocam legendas em português em vídeos estrangeiros, a maioria deles com conteúdo reacionário dos EUA. Muitos desses vídeos são programas da Fox News ou produzidos pela militância pró-Trump. Há também alguns vídeos de Bolsonaro legendados em inglês. O canal fornece poucas informações — às vezes, nenhuma — sobre os vídeos e não costuma colocar a fonte.

Em um vídeo publicado pela Embaixada da Resistência, Patrick Moore aparece dizendo que as “alterações climáticas são um embuste”. O canal informa ao visitante apenas que Moore é um “fundador do Greenpeace”, mas omite o fato de que hoje ele trabalha como lobista da indústria dos agrotóxicos, da indústria nuclear e do petróleo. Moore é pago para defender que o aquecimento global é uma farsa.

Ambos os canais traduzem muitos vídeos do Infowars, principalmente os estrelados pelo editor-geral do site, Paul Joseph Watson. O Infowars talvez seja a maior fábrica virtual de fake news do mundo. Seguem algumas das mentiras publicadas por esse veículo: o show de Lady Gaga no Super Bowl foi um ritual satânico disfarçado; Bill Gates tinha um plano secreto para implantar um sistema de eugenia nos EUA aos moldes de Hitler; o furacão Sandy foi fabricado por Obama; Hillary Clinton comandava uma rede de pedofilia que funcionava nos fundos de uma pizzaria; o massacre de Sandy Hook nunca existiu, as 20 crianças assassinadas eram atores mirins.

Diego Rox

Com quase 1 milhão de seguidores no YouTube, o jovem Diego se tornou um dos principais youtubers do conservadorismo de direita. Mas, até quatro anos atrás, Diego buscava a fama como MC de funk ostentação, cujas letras envergonhariam a família tradicional brasileira que hoje ele defende com fervor. Hoje, Diego é um neocon brasileiro que funciona basicamente como um papagaio das ideias de Olavo de Carvalho.

Rox acredita, por exemplo, na existência da Ursal, que ficou famoso nos delírios de Cabo Daciolo, mas que não passa de mais uma teoria da conspiração parida nas profundezas do reacionarismo digital brasileiro.

O youtuber fez campanha ostensiva para Bolsonaro em seu canal durante a eleição. Para ele, a denúncia do #LavaZap feita pela Folha de São Paulo — que originou uma investigação do TSE — foi “criminosa, ridícula, infantil e baseada em nada” e feita por “jornal de extrema-esquerda”. Para ele, quase nenhum jornalista presta, já que “as universidade estão formando doentes esquerdopatas”. Durante a campanha eleitoral, Diego chamou Boulos de “terrorista” e fez com que Boulos conseguisse uma liminar junto ao TSE para retirar o vídeo.

Como todo o bom reacionário, Rox gosta de jogar a carta da pedofilia e travar um falso debate. “Não há limites para os planos satânicos desses monstros”, diz o youtuber sobre os planos dos globalistas para defender a pedofilia em todos os cantos do mundo. Os globalistas seriam um conluio entre “George Soros, Rockfeller, família Gates, Ford e ONU” para implantar a “agenda gayzista, feminista, abortista e pregar racismo onde não há racismo”. Ele chama um estudo da OMS, ligada à ONU, que considera a pedofilia como um transtorno sexual, de “estudo de merda”. Para tentar desacreditar o estudo, Diego cita casos reais de crimes sexuais praticados por soldados e funcionários da ONU e decreta “a ONU é uma organização criminosa”.

O youtuber recomendado pelo presidente eleito acredita também que “o Brasil não é capitalista, mas um país socialista com cartão de crédito” e que “a agenda macabra do PSOL nada mais é do que a agenda da ONU.”

Bernardo Küster

Tem 30 anos e gosta de se apresentar como jornalista católico. Como católico, acredita que o Papa Francisco tem uma “posição permissiva em relação aos papas anteriores”. É um crítico feroz da Teologia da Libertação e está produzindo um documentário sobre o assunto.

Bernardo costuma reproduzir notícias de canais neocons americanos, como a que afirma categoricamente que “o parlamento francês legalizou oficialmente a pedofilia”. Ele inicia um dos seus vídeos dizendo que há um grande complô da imprensa nacional para abafar o assunto: “A notícia que eu tenho pra dar pra você nesse vídeo é bastante triste. Você não viu na Globo, na Record, na Band, em nenhum grande site de notícia. Depois da França legalizar o aborto, ser tomada por uma migração sem critério, ter a violência aumentada…agora é a vez da pedofilia ser legalizada”, afirma o youtuber indignado.

Desnecessário dizer que se trata de mais uma retumbante mentira.

Reproduzindo o modus operandi eleitoral de Bolsonaro, sempre apontando o dedo para fantasmas imaginários, Küster assusta sua audiência com a possibilidade da legalização da pedofilia chegar ao país: “A gente já sabe que isso tá vindo para o Brasil”.

Em um vídeo em que debocha das opiniões de Drauzio Varella e da ciência, Küster afirmar que “os cientistas de hoje não entendem nada” e fazem as pessoas acreditarem em “mentirinhas” como o evolucionismo e o aquecimento global. Como se vê, não foi à toa que Bolsonaro atestou a confiabilidade desse canal.

Olavo de Carvalho

O arquiteto do bolsonarismo e dispensa maiores apresentações. É hoje o pensador brasileiro mais popular da internet e suas ideias servem de base intelectual para o reacionarismo mais chucro do país. Sem dúvida nenhuma, é a estrela-guia dos demais youtubers recomendados na lista de Bolsonaro. Sem Olavo nada do que está acontecendo no Brasil seria possível. Todas as teorias conspiratórias do reacionarismo nasceram ou se popularizaram no Brasil através dos seus vídeos no YouTube.

Foi Olavo, por exemplo, um dos responsáveis por popularizar o boato da Ursal, que, nas palavras dele, trata-se de um “órgão do Foro de São Paulo”. Só isso já seria motivo para chacota, mas há muito mais.


Olavo acredita que Albert Einstein foi um farsante que inventou a teoria da relatividade só pra não admitir que a Terra é imóvel e “não gira em torno do sol”. Isaac Newton? Seria portador de uma “uma burrice formidável”. Galileu? Não passou de um charlatão protegido pelo Papa.

Ele também afirma com muita convicção que cigarro não faz mal à saúde e que combustíveis fósseis não existem. Todas essas constatações científicas seriam obra dos globalistas para impor sua agenda ao mundo. Para Olavo, a Globo é a grande responsável pela disseminação do marxismo cultural no país.

Ficou famoso o vídeo em que ele reproduz um dos boatos mais esdrúxulos já fabricados na internet. A Pepsi, segundo ele, adoçava seus refrigerantes com células de fetos humanos abortados. “Quem bebe Pepsi é um abortista terceirizado”, afirmou o farol intelectual do bolsonarismo.

Nando Moura

Metaleiro, católico e conservador, Nando é o youtuber mais popular da lista de recomendações de Bolsonaro e conta com quase 3 milhões de seguidores no YouTube. Costuma arranjar tretas com outras estrelas das redes sociais e falar muitos palavrões, mimetizando o seu guru Olavo de Carvalho.

Para Nando Moura, o “conservadorismo não é uma ideologia”, o nazismo foi um sistema de governo de esquerda e o aquecimento global é uma farsa. Ele já entrevistou duas vezes Jair Bolsonaro para seu canal. Entrevistou também o professor de geografia Ricardo Felício, um negacionista do aquecimento global, que se candidatou (e perdeu) a uma vaga na Câmara pelo partido de Bolsonaro.

Quando Dilma sofreu impeachment, Nando publicou um vídeo intitulado “A PUTA VERMELHA CAIU!!! #TCHAUQUERIDA”, em que aparece assistindo à votação e xingando esquerdistas. “Colocaram essa puta lá, agora ela está saindo, seus filhos da puta. Chora, seus filhos da puta”, esperneou Nando Moura.

Bom, são esses os veículos de informação que o nosso presidente eleito recomenda confiáveis. Desejo boa sorte a todos nós a partir de 2019. Mamadeira de piroca vai ser fichinha perto do que está por vir.

João Filho
No The Intercept
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Privateiro vai vender até o prédio da Petrobras

Castello Branco é outro Chicago Boy que ocupa o Brasil

Castello Branco defendeu a privatização da estatal após a greve dos caminhoneiros

Futuro presidente da Petrobras defendeu privatização da estatal

Nesta segunda-feira 9, Paulo Guedes, futuro ministro da Economia, confirmou Roberto Castello Branco como presidente da Petrobras no governo de Jair Bolsonaro (PSL).

Pós-doutorado pela Universidade de Chicago, onde Guedes também se formou, Castello Branco abraça a visão ultraliberal do futuro ministro. Além da dupla, Joaquim Levy, ex-ministro da Fazenda de Dilma Rousseff e indicado por Bolsonaro para a Presidência do BNDES, também formou-se na escola norte-americana de perfil pró-mercado.

(...) Em junho deste ano, Castello Branco mostrou estar afinado com o discurso do futuro governo, ao se declarar a favor da privatização da estatal que assumirá em janeiro de 2019. Em artigo (...), o economista defendeu a competição entra várias empresas privadas no mercado de combustíveis e argumentou que a greve dos caminhoneiros representava "mais uma razão para privatizar a Petrobras".

Segundo ele, a principal razão para a crise que resultou na paralisação é o fato de o "comitê de uma única empresa, uma estatal dona de 99% do refino" ser a responsável por definir o preço dos combustíveis. (...)

"Uma das lições que se tira desta crise é a urgente necessidade de privatizar não só a Petrobras, mas outras estatais", concluiu (...)

No CAf
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Quem é Sérgio Thompson-Flores, o empresário que ameaça matar a ex-mulher, atriz da Globo

Cristiane e Sérgio-Thomson Flores
Sérgio Thompson-Flores não tem apenas o sobrenome sangue azul — igual ao presidente do TRF-4, que manteve Lula encarcerado. Thompson-Flores, o Sérgio, é um empresário muito próximo do poder e ganhou as páginas das colunas sociais em junho deste ano, quando se casou em cerimônia religiosa com a atriz Cristiane Machado, estrela de novelas da Globo e de campanhas publicitárias.

Cinco meses depois de ser apresentado como o príncipe encantado de Cristiane, Sérgio teve outra face revelada, a de de personagem de histórias de terror de Stephen King, como o escritor Jack Torrance, de O Iluminado, na célebre interpretação de Jack Nicholson para o cinema.

Na vida real, imagens gravadas por Cristiane mostram Sérgio com uma machadinha, quebrando a casa e a ameaçando, até que ela consegue chamar a polícia, e ele é levado.  Mas ele voltou, na reconciliação do casal, e as ameaças se concretizaram.

Imagens gravadas por ele, com câmeras escondidas, a mostram apanhando com fio de telefone, cinto e sapato. Tudo contado em reportagem de Renata Ceribelli para o Fantástico, da Rede Globo.

O caso está longe de ser assunto privado e hoje se torna uma notícia em andamento. Com a prisão preventiva decretada, está foragido e pode surpreender Cristiane, que está com medo. Ela contou que mudou seus hábitos para que ele não cumpra a ameaça de matá-la.

Faz tempo que Sérgio Thompson-Flores é uma ameaça, mas antes não era apenas em sua esfera doméstica. Ele se tornou um grande empresário no governo de Fernando Henrique Cardoso, como contou Luís Nassif em um perfil publicado no GGN, a partir de financiamento que conseguiu no BNDES e firmou uma parceria com o empresário Henri Phillipe Reichstul, que presidiu a Petrobras no governo tucano de FHC.

Além de atuar na área de etanol, o negócio que o aproximou de Reichstul, foi CEO da empresa Módulo, que presta serviços de TI e segurança da informação para o TSE desde 2002. É sobre o risco à segurança das urnas eletrônica que Nassif escreve ao jogar foco sobre Thompson-Flores numa reportagem de 2014.

Nassif chamava a atenção para o fato de esse fornecimento de serviços de TI ser feito sem licitação. Na época, a preocupação era com a possibilidade de fraude na eleição, dado que o adversário de Dilma Rousseff era Aécio Neves, do PSDB, com quem Sérgio Thompson-Flores tinha negócios.

Mais tarde, o TSE confirmaria que a Módulo prestava serviços de informática para o TSE, TREs e zonas eleitorais, mas não no sistema de votos.

Ao traças o perfil Sérgio-Thompson Flores, Nassif escreveu:

Recentemente, ela (a Módulo) foi adquirida por Sérgio Thompson Flores. Quem é ele?

Funcionário público de carreira, nos anos 90, ele foi beneficiado pelo BNDES de Fernando Henrique Cardoso com consultoria na área de privatização. Ganhou dinheiro e sede de sangue.

Depois disso, meteu-se em várias embrulhadas sempre buscando a bala de prata, a grande jogada. Jamais se contentou com o trabalho normal de fazer crescer sua empresa.

Aliou-se a Luiz Fernando Levy, da Gazeta Mercantil, e tentou um golpe para assumir a empresa. Depois, meteu-se em rolos com Tanure, que adquiriu a Mercantil. Mais tarde, passou a prestar serviços a Daniel Dantas, do Opportunity, Na auditoria realizada na Brasil Telecom, depois que saiu das mãos de Dantas, Thompson Flores aparece em inúmeras reuniões com Humberto Braz, o executivo operacional junto à mídia.

Quando começou a febre do etanol, montou um fundo de investimento sediado em Londres, captou dinheiro de incautos para um projeto amalucado de comprar usinas antigas em regiões economicamente inviáveis. Quebrou.

Thompson fez carreira no Itamaraty. Em dezembro de 1997, quando era embaixador brasileiro na Arábia Saudita, ofereceu uma feijoada para a Seleção Brasileira, que disputava ali a Copa das Confederações.

Vinte anos depois, ele conheceu a atriz da Globo, num festa no Rio de Janeiro. Engataram um namoro que logo se transformou em casamento.

Ela  dizia que ele era o homem dos sonhos de qualquer mulher, como está registrado nas colunas sociais.

Pouco tempo depois, descobriu que ele foi (e é) o seu pior pesadelo.

Em uma gravação divulgada por ela, Sérgio Thompson-Flores diz, com voz ofegante:

— Eu te mato!. Pode acontecer o que for comigo, mas eu te mato!

Ouvem-se gemidos de pavor dela.

— Morre a sua família inteira! — ela grita.

Cristiana implora, chorando:

— Tira essa faca daqui!

É preciso proteger Cristiana e prender Sérgio Thompson-Flores para evitar uma tragédia.

Sérgio Thompson-Flores, como demonstrou no mundo dos negócios e no relacionamento com Cristiana, acha que pode qualquer coisa.



Daniel Trevisan
No DCM
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Medo: o olhar assustador de Bob Woodward sobre a Casa Branca de Trump

É difícil imaginar um retrato mais perturbador de um presidente do que o feito por Bob Woodward sobre os dias finais de Richard Nixon: paranóico, envenenado pelo poder, a dar pontapés nos tapetes e a falar com os quadros nas paredes. Mas os primeiros tempos da presidência de Donald Trump, tal como são retratados por Woodward no livro Medo (que acaba de ser editado em Portugal, pela D. Quixote), são surpreendentemente parecidos e, de alguma forma, ainda mais desconcertantes.

Então como agora, os Estados Unidos enfrentavam uma crise de liderança, com um presidente incapaz de lidar com a função.

Tanto em Medo como em The Final Days, escrito em conjunto com Carl Bernstein, Woodward mostra como uma investigação federal ensombra e acaba por se tornar uma obsessão, paralisando a Casa Branca. Num momento em que se fala tanto de uma possível destituição, Medo está cheio de ecos de Nixon, incluindo a incapacidade de Trump de se concentrar e a sua recusa em ler os relatórios que lhe fazem sobre os temas. Os assessores de Nixon receberam ordens para não lhe dar para ler nada mais complicado do que um artigo da revista Reader’s Digest.

Medo é um livro importante, não só porque levanta questões sérias sobre a capacidade do Presidente para o cargo, mas também devido ao autor. A investigação obstinada de Woodward levou à demissão de Nixon. Escreveu ou foi co-autor de 18 livros, deu notícias em primeira mão enquanto jornalista e editor do Washington Post e ganhou dois prémios Pulitzer [os mais prestigiados prémios de jornalismo]. O seu trabalho tem sido factual e incontestado. (O seu julgamento não é, certamente, perfeito, e ele próprio tem feito autocrítica em relação a textos escritos antes da guerra no Iraque, onde não foram encontradas armas de destruição maciça.)

Durante o caso Watergate, Woodward e Bernstein estiveram muitas vezes sozinhos. Agora, a torrente de revelações e opiniões diárias é um desafio. Mas o que era importante nos meticulosos textos de Woodward nos anos de 1970 é ainda mais valioso hoje: a sua total devoção à procura “só dos factos”, através de uma pesquisa compulsiva e de entrevistas cujas gravações guardou para o seu livro, tornando-o um narrador fiável. Numa época de “factos alternativos” e de tweets corrosivos sobre notícias falsificadas, Woodward mantém os padrões da verdade.

Num momento em que redes sociais e a televisão por cabo estão cheios de jornalistas que disparam informações sobre a Casa Branca e em que Trump acusa a imprensa de ser “inimiga do povo”, Woodward agarra-se à velha noção de objectividade jornalística. “O meu trabalho não é defender a posição de ninguém”, disse em Março à Vox. “Penso que o nosso trabalho não é gostarmos ou odiarmos as pessoas que estamos a tentar explicar ou compreender. É dizer exactamente o que fizeram, o que pode significar, o que as motiva e quem elas são.”

Em livros sobre oito presidentes, Woodward evitou sempre fazer julgamentos ou acrescentar a sua própria análise. A sua insistência em apoiar-se em diálogos textuais, a partir de entrevistas, motivou críticas, incluindo da jornalista e escritora Joan Didion, que lhe chamou “estenógrafo”. Mas, hoje em dia, o tom sóbrio de Woodward parece ser o antídoto perfeito para os rugidos na Fox ou no Twitter. A autoridade da reportagem obstinada, completamente despida de opinião, é o que dá ao livro a sua credibilidade.

Teste da memória

Tem havido outros relatos sobre a disfunção da Casa Branca de Trump e das insuficiências do Presidente, mas nenhum tão revelador e convincente como Medo, baseado nas recordações de testemunhas oculares, muitas vezes reforçadas com datas e transcrições de conversas.

O livro Fogo e Fúria, de Michael Wolff, foi um best-seller, mas parece basear-se demasiado na sua principal fonte, Steve Bannon. Outro sucesso de vendas recente, Unhinged, foi escrito pela antiga conselheira da Casa Branca e estrela do programa Aprendiz Omarosa Manigault Newman, que tinha sido despedida e possivelmente tinha contas a ajustar.

Mas Medo dá uma imagem mais completa, baseada em entrevistas com alguns dos mais próximos conselheiros do Presidente. Woodward resiste à reportagem em ritmo acelerado que a Internet exige, visitando personagens fora dos seus gabinetes e testando a sua memória.

Woodward abre o livro com uma história assassina sobre dois conselheiros próximos do Presidente a sabotarem as suas instruções. Trump tinha ordenado que fosse escrita uma carta a anunciar a denúncia dos EUA de um acordo comercial com a Coreia do Sul. O seu então principal conselheiro económico, Gary Cohn, e o secretário de gabinete, Rob Porter, ambos fontes importantes no livro, viram que a carta seria um desastre. Por isso, Cohn tirou-a de cima da secretária do Presidente. Com a sua fraca capacidade de concentração, o que Trump não vê não existe. A iniciativa permitiu ganhar tempo e matou uma decisão impulsiva do Presidente que não tinha passado por nenhum dos canais necessários.

“A realidade é que os EUA, em 2017, estavam ligados às palavras e acções de um líder imprevisível e emocionalmente exausto”, escreve Woodward. “Membros do seu gabinete uniram-se para bloquearem os seus impulsos mais perigosos.”

Medo apoia esta avaliação numa trajectória cronológica, da chegada de Bannon à liderança da campanha, em 2016, à demissão, em Março, de John Dowd, o advogado que representava o Presidente na investigação do conselheiro especial Robert Mueller (sobre a alegada interferência russa nas presidenciais). Vezes sem conta, há histórias que ilustram tomadas de decisão irresponsáveis de Trump e uma correria louca a seguir, por parte dos seus conselheiros, para desfazerem os danos.

Anúncios no Twitter

Algumas das histórias mais explosivas, incluindo o chefe de gabinete do Presidente a chamar-lhe “idiota” e o secretário da Defesa, Jim Mattis, a ignorar a ordem para assassinar o líder sírio, Bashar al-Assad, foram reveladas antes da publicação. Rob Porter, o chefe de gabinete, surge sempre a tentar adiar os esforços de Trump para abandonar tratados. Imagens que transmitem a frustração e o pânico dos conselheiros, que se vêem como protectores do povo contra um presidente fora de controle.

Um exemplo bastante vivo envolve a decisão do Presidente de banir as pessoas transgénero do serviço militar. Como é habitual, os seus conselheiros tinham preparado um memorando com quatro opções. Mesmo antes de ter lido o memorando, Trump anunciou no Twitter a sua decisão de banir as pessoas transgénero, apanhando de surpresa o seu secretário da Defesa, James Mattis, e toda a liderança militar.

Joseph Dunfor, o chefe das Forças Armadas, enviou logo uma carta a declarar que a antiga política ficaria em vigor até que Mattis desse mais instruções. Entretanto, os tribunais federais apresentaram os argumentos preliminares contra a decisão de Trump. No dia 1 de Janeiro de 2018, o Pentágono, em cumprimento de uma ordem judicial, começou a aceitar recrutas transgénero. Woodward usa esta história para ilustrar o caos que se segue, invariavelmente, aos caprichos transmitidos no Twitter.

Como perfil de Trump, o livro é devastador. Até os leitores mais fatigados serão abalados pelos vários exemplos da sua infantilidade e crueldade. Ele denuncia os seus generais com uma linguagem tão violenta que deixa atónito o seu secretário de Estado. Goza com um fato que H.R. McMaster (ex-conselheiro) usou numa entrevista dizendo que é o que um vendedor de cervejas vestiria. Saúda o conselheiro de Segurança Nacional (John Bolton) dizendo: “Você outra vez?” Imita o sotaque sulista do procurador-geral (entretanto despedido), Jeff Sessions, e chama-lhe “atrasado mental”. Diz ao seu secretário do Comércio, Wilbur Ross, de 79 anos, que “perdeu as capacidades” e que não deve continuar a fazer negócios.

“O comércio é mau”

Cohn, que é uma das principais personagens, alarma-se com o facto de Trump não compreender as bases da economia. O Presidente acha que é um rasgo de génio chamar à sua proposta de corte de impostos, a única lei substancial aprovada no Congresso durante o seu primeiro ano de mandato, a “Lei Corta. Corta. Corta”. Num rabisco infantil feito na transcrição de um discurso, reproduzido no livro, o Presidente escreve: “O comércio é mau.”

Como explica Woodward, “o Presidente agarra-se a uma visão ultrapassada da América — locomotivas, fábricas como enormes chaminés, trabalhadores atarefados em linhas de montagem”. Quando Cohn pressiona Trump sobre essa ideia, o Presidente responde: “É assim. Tenho estas opiniões há 30 anos.”

Em livros anteriores, Woodward debateu de forma profunda o processo de tomada de decisões e a política externa. Aqui isso foi mais difícil. O Presidente parece completamente desligado e mal informado, não consegue acompanhar reuniões e quando McMaster tenta explicar as políticas para o Afeganistão, Trump explode contra ele, Mattis e os seus generais: “Quero sair de lá. E vocês dizem-me que a resposta é reforçarmos a nossa presença.”

Há detalhes pequenos e fascinantes espalhados aqui e ali: Trump nunca toca num teclado de computador, e ficaram por preencher 16 páginas na resposta a um depoimento à pergunta sobre a sua ocupação. As histórias de fazer cair o queixo são contadas com a assinatura de Woodward, numa narrativa subtil.

A investigação

Outro hábito de Woodward é fazer declarações duras sobre as pessoas que não colaboram com ele. (Trump, por exemplo, não foi entrevistado e numa conversa telefónica com Woodward, em Agosto, disse que ninguém lhe falou sobre qualquer pedido de entrevista e que teria falado com o autor.) Por outro lado, as fontes que colaboram são muito elogiadas. É sem surpresa que se vê Porter descrito como alguém que “tentou ser um mediador honesto que facilitava a discussão”.

Os leitores que queiram saber coisas sobre a investigação de Mueller vão ficar desapontados. O que Woodward revela são as preocupações de Dowd, que tem a certeza que o Presidente vai cometer perjúrio e pode acabar na cadeia, se aceitar testemunhar. Ainda assim, o advogado não acredita que Mueller tenha uma acusação sólida em mãos. O livro foi terminado antes da condenação de Paul Manafort e do acordo de colaboração de Michael Cohen, o antigo advogado de Trump em Nova Iorque.

Medo termina em suspense, com a demissão de Dowd. “No homem e no Presidente Dowd viu a falha trágica. No bate-boca político, nas evasões, nas negações, no Twitter, nos gritos contra as fake news, na indignação. Trump tinha um problema que Dowd reconhecia, mas nunca foi capaz de lhe dizer: ‘És um cabrão de um mentiroso.’”

No fim, as mentiras foram a perdição de Nixon.

Jill Abramson
Do Público
No DCM
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Periculum in Moro! É a lei ou não é? Eis a questão!

Aprendi com o velho Elias Díaz, jurista espanhol: quem colocaria em dúvida que, no Estado Democrático, a legalidade só poderia ser uma legalidade constitucional? Mas, como tudo por aqui no Brasil, há controvérsias. Muitas.

Pedro Serrano e eu escrevemos um texto (ver aqui) denunciando que o juiz Sergio Moro, ao fazer a transição de governo junto com Bolsonaro, aceitar o cargo e montar seu gabinete, infringiu a Constituição, a Loman e o Código de Ética dos juízes. Dias depois, o CNJ abriu procedimento contra Moro, face à representação (ou mais de uma) que lá ingressou. Ou seja, nossa denuncia tinha fumus boni juris.

Para lembrar: em entrevista, Moro já havia dito por que optara por não se exonerar antes de assumir o Ministério da Justiça (razões de salário, segurança e proteção da família). Porém, face ao procedimento aberto pelo CNJ, Moro teve que mudar os planos. No dia 15, Moro pediu exoneração, contada a partir de 19 de novembro. Três deputados ingressaram com pedido de cautelar (aqui), para impedi-lo de se exonerar antes de resolver esta e outras pendências administrativas que contra ele tramitam.

A cautelar procede. Se Moro pode se exonerar depois do cometimento da própria infração que causou o último procedimento, abrirá um perigoso precedente, além de tornar inócua a proibição de os juízes exercerem atividade política. Qual é o busílis? Simples: Um funcionário público comete uma infração (grave) e, como a lei somente impede a aposentadoria ou exoneração se estiver respondendo a processo (PAD), bastará que, aberto o procedimento que poderá levar à posterior abertura do PAD, peça exoneração (ou aposentadoria) para que tudo se extinga. É a lei levando o drible da vaca. Nítido desvio de finalidade da lei.

Claro que não pode ser assim. Uma república na qual todos devem ser tratados igualmente não pode admitir esse discrimen. Um membro do MP ou do Judiciário que entre em férias durante o período eleitoral não pode fazer o que quiser. Nem no período eleitoral e nem nunca. Em férias, o máximo que pode fazer é descansar e viajar. O certo é que não pode fazer atividade política. É o que aconteceu. Observe-se que Moro aceitou o convite para ser ministro mesmo sem estar em férias. Quando viajou ao Rio ainda não estava de férias. Aceitou o convite e depois entrou em férias. Começou a montar o ministério. É juiz e, ao mesmo tempo, presta serviço ao Executivo, violando a separação de Poderes e a CF.

Registre-se: as férias, para o deslinde da controvérsia, são absolutamente irrelevantes. Tanto é verdade que nem Moro acreditou na “tese das férias”, pois dela desistiu ao pedir exoneração no dia 15 último. Se estar de férias legitimava o ato de fazer política, por qual razão então se exonerou antes do tempo? A resposta é óbvia, pois.

Sigo. O certo é que, aberto um procedimento para apurar esse imbróglio – há outros, como sabemos –, Moro pediu exoneração. Não teria o pedido o objetivo de tornar prejudicado um eventual PAD (que, por consequência, impediria a exoneração)? Por isso, não há outro caminho a não ser o CNJ conceder a cautelar para sustar a exoneração. Há evidente periculum in mora, porque, exonerado, não há como o Estado buscar apurar uma infração cometida por um servidor. Não há solução diferente ou intermediária.

De observar que os fatos são ainda mais graves se levarmos em conta que o convite para ser ministro da Justiça foi gestado quando o magistrado ainda exercia sua função, conforme declarado pelo general Hamilton Mourão (e não desmentido). Também reuniu-se, durante a campanha eleitoral, com o anunciado futuro ministro da pasta a ser denominada Ministério da Economia, Paulo Guedes. Esse encontro foi confirmado pelo próprio juiz, tudo conforme demonstrado no pedido de cautelar feito pelos deputados.

Se for negada a cautelar, estará aberto um grave precedente: todo funcionário, sob ameaça de um PAD, pede exoneração e zera tudo. E o Estado nada poderá apurar. Estará criada nova forma de exclusão de responsabilidade de funcionário público: o pedido de exoneração antes do PAD. Lembro ainda das repercussões do precedente no caso de Marcelo Miller. Também estava de licença prêmio ou férias, estão lembrados?

Simples assim. "It is the law", como disse o médico para o staff do presidente norte-americano na série House of Cards. Explico: necessitando de um transplante de fígado, seu médico particular queria furar a fila dos transplantes. A resposta foi negativa. O diretor do hospital agiu por princípio e não por política. Pela lei, a fila de transplantes não pode ser quebrada. Nem se pelo presidente da República. Bingo. Qual é princípio – que sustenta a regra – que seria violado? Simples: uma vida é igual a uma vida. E a do presidente não vale mais. Tudo para dizer que aqui, no caso, Moro não está acima da lei. Juiz não pode exercer atividade política. Nem por um dia. Nem por vários dias. Aliás, ele mesmo sempre disse que ninguém está acima da lei. Pois é. Nem ele.

Vamos ver como o CNJ sai dessa sinuca de bico. Numa palavra final, não se diga que há má vontade na discussão dos assuntos que envolvem Sérgio Moro. Usa-se simplesmente Moro contra Moro. Sua rigidez no uso da lei deve também valer para si.

Daí a questão da licença vernacular e semântica que, com todo o respeito, permiti-me fazer no título deste articulum, usando a expressão latina que trata do perigo da demora em Direito. Trata-se de uma licença poético-republicana.

Lenio Luiz Streck é jurista, professor de Direito Constitucional e pós-doutor em Direito. Sócio do escritório Streck e Trindade Advogados Associados: www.streckadvogados.com.br
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Entrevista com Jessé Souza

Sociólogo, já chamado de 'Olavo de Carvalho da esquerda', defende a popularização da linguagem da esquerda.  
Foto: Gabi Di Bella/The Intercept Brasil
“Duas coisas salvariam o Brasil: interpretação de texto e consciência de classe.”

A frase é de um meme das eleições, mas funciona para resumir o pensamento do sociólogo Jessé Souza, professor titular da Universidade Federal do ABC, em seu novo livro, A Classe Média no Espelho (Estação Brasil, 2018), que chega às livrarias na próxima semana.

Na obra, Souza analisa os movimentos da classe média brasileira nos últimos anos – especialmente aquela que, segundo sua expressão, se mostrou “dócil e manipulável” ao ir às ruas contra a corrupção política e, mais tarde, engrossou as fileiras de apoio a Jair Bolsonaro. “Um tiro no pé”, descreve.

Para o sociólogo, faltou à classe média entender as causas reais da crise econômica. Por não compreender a lógica do capitalismo financeiro e erroneamente se imaginar como parte integrante da elite, a classe média abriu mão do pacto democrático para abraçar a ideia de que a corrupção do estado é a fonte de todos os males no Brasil – e não o assalto “legalizado” promovido por bancos e grandes corporações. “O vínculo orgânico entre empobrecimento e corrupção política é uma mentira. É óbvio que a corrupção política é recriminável, mas não foi ela que deixou a população mais pobre. Esta é a grande questão que ficou fora do quadro. E era o que importava nas eleições”, afirma.

Ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o Ipea, entre 2015 e 2016, e autor de títulos como A Ralé Brasileira (2009), A Tolice da Inteligência Brasileira (2015), A Radiografia do Golpe (2016) e A Elite do Atraso (2017), Souza vem criticando duramente a imprensa e os intelectuais alinhados à elite econômica que, a seu ver, “imbecilizaram” a sociedade. Nesta entrevista ao Intercept, o autor martela: “O país inteiro foi feito de imbecil. Não há melhor palavra”.

Você inicia A Classe Média no Espelho com uma parábola sobre verdade e mentira. Em tempos de discussões sobre pós-verdade, fake news e agora “disputa de narrativas”, qual foi o peso da confusão entre verdade e mentira na ascensão de Bolsonaro?

A elite econômica expropria a maior parte da população em seu benefício, e isso só acontece a partir de uma mentira socialmente aceita, isto é, uma visão distorcida sobre o funcionamento da sociedade. É como dizer: o mundo é assim, ponto. A mentira legitima os interesses da opressão econômica e da dominação moral. E uma das mentiras é “querer é poder”: se você fracassa, a culpa é só sua – e não de um sistema injusto e explorador. Se você não compreende as causas de sua miséria econômica no capitalismo, você está condenado a atribuir seu fracasso pessoal a você mesmo ou, como foi feito, a políticos corruptos. Assim, uma dominação econômica de uma classe só se sustenta ao longo do tempo se é moralizada.

Obviamente, a única forma de combater a mentira social é com a prática da verdade, a arma dos frágeis. É disso que trata a parábola, e que vale para o atual contexto: as pessoas são historicamente acostumadas a ouvir a mentira, pois a verdade muitas vezes pode ser bastante incômoda.

Apesar de esforços (de parte da imprensa, intelectuais e movimentos sociais) para esclarecer fatos nas eleições, como a ideia de que o presidente eleito é antissistema e anticorrupção acabou vingando?

Desde que o Brasil é Brasil, e principalmente a partir de 2013 de modo mais insidioso e perverso, a elite econômica conseguiu consolidar, junto a seus intelectuais e sua imprensa, a ideia de que o empobrecimento da população teria sido causado apenas pela corrupção política, o que é uma mentira.
‘A esquerda foi singularmente incapaz e burra nessas eleições.’
A imprensa e a Lava Jato criminalizaram a Petrobras, deixando-a pronta para vendê-la a preço de banana. O estado deixou de ganhar royalties, o pessoal perdeu emprego. A Lava Jato prendeu meia dúzia e deixou invisível o saque real trilionário de uma elite proprietária e uma alta classe média, que inclusive empobrece a massa da classe média. O foco na corrupção política invisibilizou a continuidade dos juros extorsivos embutidos nos preços, da estarrecedora exploração do rentismo e da corrupção legalizada dos donos do mercado. A boca de fumo da corrupção está no Banco Central, que assalta legalizadamente a população. Mas as classes exploradas economicamente acreditaram na balela: ficamos mais pobres por conta do roubo de políticos. É óbvio que a corrupção política é recriminável, mas não foi ela que deixou a população mais pobre. Esta é a grande questão que ficou fora do quadro. E era o que importava nas eleições.

A esquerda foi singularmente incapaz e burra nessas eleições. Tanto Haddad quanto Ciro Gomes elogiaram a Lava Jato, o bode expiatório da corrupção política. Na minha visão, o país inteiro foi feito de imbecil, não há melhor palavra. Poderia dizer “falsa consciência” e agir contra os próprios interesses, mas, na linguagem do senso comum, isso é simplesmente ser “imbecil”. Dentro da própria esquerda, ninguém problematizou o rentismo, ninguém questionou: nós todos pagamos juros que vão para o bolso de quem? Esse assalto econômico não é visto como corrupção, como o engano de meia dúzia sobre 200 milhões de brasileiros. O principal dispositivo do poder é se tornar invisível. E o poder econômico é ainda mais invisível.

Qual é a sua definição de classe média?

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Souza foi presidente do Ipea até 2016 – saiu com o 
impeachment de Dilma Rousseff.
Foto: Gabi Di Bella/The Intercept Brasil

Classe social não é definida pela renda. Renda é um resultado, considerando a vida adulta. Mas é preciso pensar que diabo acontece na infância e na adolescência de alguém, que faz com que um ganhe mil vezes mais do que o outro? Esta é a questão, que implica a reprodução de privilégios, positivos e negativos. O privilégio da elite econômica é econômico, a propriedade.

O privilégio da classe média, que corresponde a 20% da população brasileira, é principalmente o acesso a capital cultural, isto é, conhecimento, cursos de línguas, universidades etc. Isso explica, por exemplo, a raiva de parte da classe média ao ver pobre entrando na universidade, que era seu “bunker” que garantiria salários melhores, mas também reconhecimento e prestígio.

Você diferencia “alta” (equivalente aos segmentos superiores da classe A) e “massa” da classe média (as chamadas classes A e B). Seguindo esse paralelo, onde estaria a dita classe C?

[A classe C] foi uma bobagem da propaganda do PT. No Brasil, temos quatro grandes classes: uma ínfima elite econômica proprietária, uma classe média de 20%, uma classe trabalhadora majoritariamente precária e uma classe marginalizada que está fora do mercado competitivo. O PT ajudou os marginalizados subirem à classe dos trabalhadores, o que é histórico e extremamente importante. Por miopia política, isso foi interpretado por marketing malfeito como “chegar à classe média”, o que também é uma mentira. E é preciso saber a verdade: seria preciso montar um projeto político de longo prazo e dizer “um dia” vamos chegar a uma sociedade de classe média real. Dizer que renda média é classe média é uma idiotice. Renda média de um país pobre equivale à renda da classe trabalhadora, que é precária.

Se há uma vocação vira-lata da alta classe média, “que considera melhor tudo o que vem de fora”, segundo sua expressão no livro, os alertas de diversos veículos da imprensa internacional, como The Economist, The New York Times e Le Monde, não deveriam ter pesado nas eleições?

Classe não é definida por critérios econômicos. As pessoas procuram se distinguir umas das outras – e se sentir melhores do que as outras. A classe média é moderna, nasce com o capitalismo e começa a ficar realmente importante com o capitalismo industrial. E se cria uma alta classe média, que representa interesses da elite: o CEO de um banco, por exemplo, não é um banqueiro. O primeiro é alta classe média, o segundo é elite.

Mas o CEO tem a ilusão de se considerar parte da elite e, portanto, defende interesses de seus patrões. E assim molda uma distinção diante das outras classes, a partir do alto consumo de bens importados, por exemplo. Ele quer se sentir um pouco europeu, um pouco americano, dentro de seu próprio país. Só que a alta classe média é muito conservadora e faz qualquer negócio para manter seus privilégios. Ela não tem sensibilidade em relação ao restante da sociedade, portando-se como uma elite estranha ao próprio país.
‘O que antes era ódio ao escravo, agora é ódio ao pobre. E parte da classe média tem muito medo de descer à condição de pobre.’
Há ainda divisões dentro da alta classe média: uma fração da indústria mais “democrática”, digamos, que depende e se importa com um mercado interno pujante; e uma fração predominante do agronegócio e mercado financeiro, voltada para o mercado externo, que fica rica independentemente se o país vai bem ou vai mal. Temos, afinal, uma elite de herança escravocrata que pensa a curto prazo: quero o meu agora, não me importa projeto de futuro. Isso amesquinha o país como um todo.

Se antes o escravo era submetido a trabalho desqualificado, agora a maior parte da população brasileira faz trabalho semiqualificado ou desqualificado. E é excluída das benesses do mundo moderno. O que antes era ódio ao escravo, agora é ódio ao pobre. E parte da classe média tem muito medo de descer à condição de pobre. Afinal, classe não é só um cálculo econômico, mas um cálculo moral de distinção social.

No livro, você projetou que muitos se voltariam “ao voto de protesto desesperado e irracional” de apoio a Bolsonaro. Passadas as eleições, pensa a vitória como “voto de protesto”? Ou de uma busca genuína por mudança?

O que está acontecendo hoje faz parte de um processo de luta de classes. Um processo que se estende desde 1930. O que foi que a elite fez? A elite montou, a partir da imprensa e das universidades, o domínio simbólico, moldando a visão de mundo da classe média. Agora, para a alta classe média, esse discurso é racional e pautado pelo interesse econômico: estou ganhando mais. Mas, para a massa da classe média, é irracional: para pensar que está ganhando algo, uma recompensa moral, a massa da classe média protestou e se portou como “ah, sou moralmente superior do que as classes populares, estou escandalizada porque me incomoda e combato a corrupção política”. Foi explorada.

Mas a ideia de que o empobrecimento ou o risco de empobrecimento estaria ligado organicamente à corrupção…

Corrupção política. Desculpe interromper, mas veja que, sem querer, você equalizou corrupção e corrupção política.

Sim, corrupção política. Você diria que a construção desse discurso escapou ao controle de quem o construiu – parte da imprensa, como indica no livro? Se a população brasileira fosse tão “manipulável” por uma imprensa a favor de interesses da elite econômica, como compreender críticas tresloucadas que atribuem à Folha de S.Paulo a alcunha Foice, de referência comunista, e o bordão “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo” capturado por militantes de direita a partir de 2013?

Quando se começa uma coisa, só se sabe como ela começa, mas não sabe como termina. Nossa imprensa é venal, desde o início comprada pelo mercado. Nunca tivemos uma rede pública [de comunicação] como existe na Europa – e às vezes alguns até confundem TV pública com TV estatal. Nunca tivemos uma imprensa confrontando o poder de forma plural.

A imprensa atacou o governo, pois a presidenta, um pouco estabanadamente, atacou o juro, o lucro dessa elite, a partir de 2012. Isso foi usado contra o governo eleito e que era tudo menos corrupto – a presidenta não roubou um lápis que seja. Mas o ataque midiático se voltou a todos os consensos morais de uma democracia. Não é a letra legal de uma Constituição que dá sangue à democracia, mas os consensos morais: não se pode expurgar a presunção de inocência, banalizar vazamentos ilegais, banalizar desrespeito de direitos fundamentais. Isso é a base de uma democracia.
‘A imprensa toda foi muito burra. Ela pisoteou a democracia, e agora vai ter uma vida muito difícil.’
A imprensa ajudou a fazer terra arrasada disso e, depois, veio a eleição de Bolsonaro como uma espécie de vingança das classes médias e parte das classes populares contra esse estado retratado como corrupto. Se você ataca a democracia como um todo, obviamente você ataca a liberdade de expressão. Tecnicamente, a imprensa toda foi muito burra. Entenda-se: burrice é pensar a curto prazo, seja para o bem seja para o mal; inteligência é pensar a longo prazo, seja para o bem seja para o mal. Ela pisoteou a democracia, e agora vai ter uma vida muito difícil. Parte da imprensa e setores da alta classe média deram um tiro no pé. Se isso terminará num banho de sangue, numa tribalização da sociedade ou numa tomada de consciência, ninguém sabe dizer. Mas que será problemático, será.

Nos últimos tempos, o caráter fascista ou não das ideias representadas por Bolsonaro foi muito discutido. Você teme que a expressão “fascismo” se desgaste tal qual “populismo”, que a palavra se torne um coringa para desqualificar adversários?

Não. O principal mecanismo do fascismo é a desumanização, o não reconhecimento do outro. Na minha opinião, obviamente há elementos fascistas nas ideias do presidente eleito: apologia da tortura, assassinato de adversário político etc. Historicamente foi assim que o fascismo se expandiu no entre-guerras: pega a raiva e o ressentimento da classe média e do povo e joga num bode expiatório socialmente aceitável. Logo, estamos num contexto de neofascismo, junto a uma dominação do capitalismo financeiro: na economia, invisibiliza, deixa opacos elementos econômicos; na política, provoca desmobilização popular.

Nos Estados Unidos de Donald Trump e no Brasil de Bolsonaro, o capitalismo financeiro quebra e destrói relações sociais e vida associativa, provocando desorientação e isolamento do indivíduo. E, novamente, é dito a ele que o fracasso é culpa dele – e não de um sistema injusto. É uma estrutura fascista, sim, de novo tipo. Que está se internacionalizando e que vive do mesmo tipo de desrespeito e desumanização que fazia o fascismo anterior. Que quer dizer que o outro, por pensar diferente, merece morrer. E a classe média, que sempre odiou o pobre, agora está se sentindo mais à vontade para expressar, explicitar esse ódio. No fim, o ódio é exatamente o que o fascismo produz.

Você usou muito a palavra “golpe” para tratar do impeachment de Dilma Rousseff. Pensa que a palavra foi desgastada?

Não. Foi um golpe de novo tipo, articulado por uma situação econômica. O dado econômico é incrível, porque é sempre o mais invisível. A causa de tudo foi a tentativa de se apropriar do orçamento público e do mercado interno via juros. Foi um golpe parlamentar, mas qual é a independência que esse parlamento tem? Um parlamento de baixíssimo nível, eleito com dinheiro de bancos e grandes corporações. No ano anterior [ao impeachment], a presidenta tinha feito um enorme esforço para diminuir os juros e usado os bancos públicos para isso. De uma hora para outra, empresas deixaram de investir, e a imprensa inteira passou a atacá-la.

Mas, veja, a elite se apropria do que é público mediante parcerias público-privadas – um exemplo, como as estradas. Entretanto, foi ensinada a imbecilidade de que o Brasil é corrupto por causa da herança de Portugal, uma mentira legitimada com prestígio científico nas universidades. Um povo ladrão por conta da herança portuguesa e, agora, ladrão dentro do estado. Sendo que o estado é a esfera que se pode contrapor a um mercado desregulado.

Dias antes do segundo turno, universidades se tornaram alvo de diversas ações de fiscalização – e justamente faixas contra o fascismo foram censuradas. Dias depois do segundo turno, investidas do Escola Sem Partido avançaram com a convocatória de denúncias contra docentes “doutrinadores”. Ainda há pensamento crítico e resistência nesses espaços?

Como você mantém uma população inteira precarizada? Você pega a escola, um elemento de classificação e acesso a conhecimento que está relegado à classe média. O privilégio positivo específico da classe média é este: estímulo para estudo, domínio de línguas, capacidade de concentração. Você chega aos cinco anos na escola particular como um vencedor, pois é aparelhado psicológica e moralmente: espera bons salários e prestígio. O pobre já é tratado como um perdedor, num abandono secular e cumulativo. Depois, você vê a classe média culpando a classe pobre, dizendo que ela é preguiçosa e indolente – e que o mérito do seu sucesso é só seu. Assim, a sociedade brasileira sacramentou dois caminhos: um, da felicidade; outro, do fracasso.
‘Nenhum povo pode ser senhor do seu próprio destino sem conhecimento. E conhecimento deve ser compreensível.’
Agora, quais são os dois pilares do desenvolvimento de um país? Indústria e educação. Só que a educação está toda montada dentro de um contexto elitista. É Paulo Freire, pensamento crítico e educação libertadora para a classe média; e trevas para a classe trabalhadora. É loucura dizer que essa estrutura de educação classista é de esquerda. E apenas tende a transformar e sacralizar esse caminho perverso que monta a opressão de classes entre nós: duas educações, duas classes, dois tipos de indivíduo.

Você declarou, certa vez, que o “que provoca efetiva dor de cotovelo nos meus detratores é o fato de ter conseguido, com muito esforço, expor questões complexas de modo simples e compreensível para a maioria das pessoas”. No seu novo livro, a atenção à acessibilidade da linguagem também está presente. Para quem você escreve?

Não quero falar para seis pessoas. Nisso está embutida uma crítica ao próprio saber acadêmico. Passei minha vida juntando capital acadêmico, acumulando trabalho. Penso que estou usando um capital acadêmico de vanguarda com uma linguagem acessível. Nenhum povo pode ser senhor do seu próprio destino sem conhecimento. E conhecimento deve ser compreensível.

Tenho tentado fazer um esforço enorme de dizer coisas complexas que, com boa vontade e interesse, qualquer pessoa possa compreender. Não é por falta de conhecimento prévio e formação acadêmica que a pessoa não vai entender o livro. É por falta de coragem. A gente não nasce sabendo, é preciso aprender: aprender é um ato de coragem. A ciência pode ser libertadora; o conhecimento, empoderador. Imagina se o povo brasileiro compreende que está sendo enganado?

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Sociólogo diz que autocrítica em relação à sua própria posição o levou a uma ‘epifania’.
Gabi Di Bella/The Intercept Brasil

No campo da linguagem, destacaram-se autores de direita como Olavo de Carvalho, tido inclusive como intelectual vencedor dessa eleição. Como ele conseguiu arregimentar tantos adeptos?

A sociedade brasileira está em uma esquina em que uma série de aprendizados são necessários. Algumas pessoas estão começando a compreender o tamanho da fera que está a um metro de nós. Algumas pessoas que estavam muito acomodadas no seu mundinho. E, agora, ou a gente reformula esse comportamento, ou nós todos, como país, vamos perder. Esta questão está muito presente agora. Principalmente entre a esquerda colonizada por uma linguagem que só beneficiou a direita.

Você chegou a ser chamado de ‘Olavo de Carvalho da esquerda’. O que pensa da comparação?

A Elite do atraso teve muita repercussão, muito além do que eu imaginava. Retornos de pessoas simples, o público que eu gostaria de atingir, me comoveram muito. A escola de samba Paraíso do Tuituti usou elementos; o presidente Lula leu o livro na prisão. Efetivamente, penso que pude fazer, pela primeira vez, uma interpretação crítica da sociedade brasileira de fio a pavio. Sei que é ambicioso dizer isso, e fico à disposição para quem queira contrapor meus argumentos. [O que propus no livro] compromete toda uma tradição de pensamento, de direita e de esquerda. O núcleo dessa tradição, esse liberalismo chique, aceita a ideia de corrupção política. O que fiz foi articular uma visão crítica, com encadeamento explícito dessas ideias. O novo livro A classe média no espelho é uma continuidade. Trago uma visão mais sofisticada e crítica do que a tradição intelectual brasileira. Estudei todas as classes anos a fio, dediquei uma vida inteira a isso. Logo, interpreto esse tipo de interpelação como inveja.

Por fim, professor, o livro propõe posicionar a classe média brasileira diante do espelho e revelar suas concepções do mundo. Enquanto integrante da classe média, como você afirma no livro, como você se vê diante do espelho?

No fundo, minha atividade é intelectual. E o intelectual, para criticar e inclusive para se autocriticar, precisa conhecer. Eu também tinha esse academicismo antes. Achava que meu público se limitava a uma dezena de pessoas que poderia compreender o que eu estava dizendo, como se “só eu e mais alguns aqui eleitos entendemos como o mundo funciona”. É isso, afinal, que as classes procuram: se distinguir uns dos outros. Isso move o ser humano tanto quanto dinheiro.

Embora eu tenha vindo de estratos mais baixos da classe média, como professor universitário pertenço à massa da classe média. E me questionei: numa sociedade perversa como a nossa, que peso a massa da classe média tem sobre a pobreza dos pobres?

Foi uma epifania quando compreendi que alguns, pensando que estavam à esquerda, estavam montando de uma forma ideológica o poder de meia dúzia de proprietários. Você cria uma distância em relação a você mesmo, uma autocompreensão. A partir da crítica da minha própria posição e dos pressupostos que ela envolve legitimando uma lógica, tentei a começar uma autocrítica e uma crítica da própria sociedade que tinha me marcado essa visão de mundo.

Juliana Sayuri
No The Intercept
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