18 de nov. de 2018

Como deputado, Bolsonaro propôs retirar direitos de familiares de médicos cubanos

Presidente eleito, que hoje oferece "asilo", tentou impedir que parentes dos intercambistas trabalhassem no Brasil

"A tradição de Cuba é exportar mercenários", disse Jair Bolsonaro em agosto de 2016
Foto Lula Marques
O presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), que na última quarta-feira (14) ofereceu "asilo" a cidadãos cubanos, tentou dificultar a permanência de familiares de médicos da ilha caribenha no Brasil durante seu sétimo mandato como deputado federal. Por meio de uma emenda, apresentada em 5 de maio de 2016, o então parlamentar do Partido Social Cristão (PSC) propôs que os dependentes legais dos médicos intercambistas fossem proibidos de "exercer atividades remuneradas, com emissão de Carteira de Trabalho e Previdência Social pelo Ministério do Trabalho e Emprego".

Na justificativa da emenda, assinada em conjunto com o filho Eduardo Bolsonaro (PSC, hoje PSL), o capitão reformado declarou que o intuito era "limitar o estabelecimento de vínculos permanentes" no Brasil. A proposta não foi acatada, e os familiares dos médicos cubanos mantiveram o direito de trabalhar legalmente – conforme expresso no quarto capítulo da Lei nº 12.871, de outubro de 2013, que institui o Programa Mais Médicos. 

O contexto de apresentação da emenda era a discussão da Medida Provisória 723/2016, que prorrogou por três anos o prazo de atuação dos profissionais do Programa Mais Médicos contratados por meio de intercâmbio. Das 28 emendas ao texto do relator Humberto Costa (PT) apresentadas, três eram de autoria da família Bolsonaro. Além da proibição das atividades remuneradas, a dupla Jair e Eduardo Bolsonaro propunha que os médicos estrangeiros só pudessem "receber valores do Governo brasileiro em conta aberta em instituição bancária nacional, sendo vedado o envio de recursos de qualquer natureza para governos ou instituições oficiais no exterior", e que o prazo de dispensa da revalidação dos diplomas fosse estendido por um, e não três anos.

A MP foi aprovada no plenário do Senado no dia 24 de agosto de 2016. A única emenda acolhida pelo relator, de autoria do deputado Alan Rick (PRB), estabeleceu que médicos brasileiros, formados no Brasil ou com diploma revalidados em território nacional, deveriam ter prioridade no preenchimento das vagas remanescentes dos processos de seleção.

"Mercenários"

Na última quarta-feira (14), o governo cubano anunciou a ruptura do convênio com o governo brasileiro e sua retirada do Programa Mais Médicos, após declarações “ameaçadoras e depreciativas” do presidente eleito. Os profissionais atuavam em 2.857 municípios, dos quais 1.575 contavam apenas com atendimentos de médicos cubanos – a maioria deles, em regiões de difícil acesso.

A Confederação Nacional de Municípios (CNM) estima que 28 milhões de pessoas, de todas as regiões, serão afetadas pela saída dos médicos cubanos do país.

Conforme registrado no Diário da Câmara dos Deputados em 23 de agosto de 2016 – véspera da aprovação da MP no plenário do Senado –, Jair Bolsonaro fez uma série de críticas ao Mais Médicos e levantou suspeitas sobre a intenção dos profissionais cubanos ao emigrar. "Com este programa, V.Exas. [Vossas Excelências] estão botando dentro da sua cozinha uma cascavel. Já foi levantado que há militares e agentes cubanos neste programa. V.Exas. podem ser surpreendidos, mais cedo ou mais tarde, com ações desta gente aqui no Brasil", disse. "V.Exas. estão entregando o Brasil para pouco mais de 12 mil agentes cubanos. Que isso fique bem claro! A tradição de Cuba é exportar mercenários", completou Bolsonaro.

No texto da emenda, Jair e Eduardo Bolsonaro dizem discordar do programa "em sua totalidade".

De acordo com a Organização Panamericana de Saúde (Opas), a maior parte dos municípios brasileiros onde os cubanos atuam têm 20% ou mais da população em condições de extrema pobreza. O Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems) e a Frente Nacional de Prefeitos (FNP) apelaram para a manutenção dos profissionais cubanos no Brasil sob risco de faltar atendimento à população.

Em Cuba, a Atenção Primária à Saúde (APS) cobre 100% do território. No país socialista, um médico de família atende, no máximo, 1,5 mil pessoas, que moram no mesmo bairro que o médico. No Brasil, esse número chegava a 4 mil pessoas.

O orçamento previsto para rede pública de saúde no Brasil este ano foi de R$ 131 bilhões. Jair Bolsonaro tomará posse como presidente da República em 1º de janeiro de 2019 e não prevê ampliação de recursos para o Sistema Único de Saúde (SUS).

No Brasil de Fato
Leia Mais ►

Médico denuncia esquema corrupto de contratação de estudantes de medicina

"Querem saber de onde vem uma parte do ÓDIO ao MAIS MÉDICOS?", indagou Thiago Silva, antes de detalhar esquema de "Plantão Ilegal" feito por secretários de saúde para subcontratar estudantes de medicina.


Após detalhar a participação dos profissionais cubanos no programa Mais Médicos, Thiago Silva, médico recifense radicado em São Paulo, denunciou em uma nova sequência de tuítes, publicados na sexta-feira (16) um esquema corrupto de contratação de estudantes de medicina por secretarias municipais de saúde.

“Alguns secretários de saúde, que eram médicos, forneciam o CARIMBO com o CRM para que estes estudantes dessem o plantão e carimbassem receita. Com o dinheiro que deviam pagar para 1 médico formado, botava uns 2 a 3 estudantes de plantão. As vezes nem isso, colocava apenas um”, tuitou.

Segundo ele, a prática era comum durante sua época de graduação e era chamada de “PI = Plantão Ilegal”. “O cara estava no meio da graduação em medicina (que dura 12 sem.) e começava a trabalhar como “médico” no interior, dando plantões em cidades que – surpresa – não tinham médicos. Absurdo não? Pois é. Como funcionava o esquema?”, indaga ele, antes de detalhar todo o processo.

Leia abaixo a sequência de tuítes, estrutura em texto pela Fórum:

“Querem conhecer uma história desse problema de falta de médicos no Br?

Querem saber o que faziam secretários de saúde e estudantes de medicina igualmente CORRUPTOS para perpetuar o problema? Querem saber de onde vem uma parte do ÓDIO ao MAIS MÉDICOS?

Querem saber o que fizeram parte das lideranças médicas quando souberam o tamanho do problema? Segue aí o fio.

Preventivo: tudo que for falado aqui não é passível de generalizar. Em todo lugar há gente honrada e gente corrupta, não só na política, né? Só que os corruptos fazem um estrago danado, em todo canto. Então, nem me venham acusar de generalizar.

1 – Quando eu era estudante de Medicina, havia uma prática muito comum entre estudantes a partir do 6º-7º sem. do curso que era a prática – chamada no “submundo da faculdade”, de PI = plantão ilegal. É exatamente isso! O cara estava NO MEIO DA GRADUAÇÃO em medicina (que dura 12 sem.) e começava a trabalhar como “médico” no interior, dando plantões em cidades que – SUPRESA – NÃO TINHAM MÉDICOS. Absurdo não? Pois é. Como funcionava o esquema?

Alguns secretários de saúde, que eram médicos, forneciam o CARIMBO com o CRM para que estes estudantes dessem o plantão e carimbassem receita. Com o dinheiro que deviam pagar para 1 médico formado, botava uns 2 a 3 estudantes de plantão. As vezes nem isso, colocava apenas um.

As vezes a turma falsificava número de CRM na cara dura de outros colegas. Daí os colegas eram chamados por problemas, quando via, nunca tinha trabalhado naquele local! É meu velho, o buraco é bem embaixo viu?

Aí a gente começava a ver uns colegas de turma de Roupa chique, comprando carro importado, etc. Você também tá achando tudo isso um Absurdo? Segura que tem mais. Íamos contestar isso com a galera. Sabe o que eles diziam?

“Se não for eu, não ia ser ninguém! Melhor que eu esteja atendendo lá”. Vejam só quanto altruísmo, destes Médicos sem fronteiras nordestinos! #sqn.

Estão percebendo? Olhem o ciclo: por um lado o sec de saúde tinha problemas de fato para contratar médicos, seja pela falta de estrutura, pelo salário não poder ser alto (tinha que respeitar o teto municipal, o salário do prefeito), etc. Os honestos ficavam SEM médico os corruptos contratavam ESTUDANTES! Claro que na época fizemos denúncias ao CRM que originaram fiscalizações. Há relatos de filme policial: colega nosso pulando a janela do consultório e fazendo inveja a USAIN Bolt!

Mas a gente, que é do debate, tentava dialogar e convencer os amigos a não fazerem isso. Na época escrevi um texto chamado “A arte de colocar em risco a vida da mãe… dos outros!”, pra tentar pelo convencimento que não fizessem isso. Não teve jeito.

Até e-mail anônimo pelo e-mail da turma recebi, dizendo que se não parasse ia acordar com a boca cheia de formiga. Pra vocês verem o nivel.

2 – Pois é. Essa historinha de antes foi só pra demonstrar como o problema da falta de médicos era evidente. E há muitos anos. E qual era a saída que muitos municipios achavam?

Contratar estudante, ficar sem médico ou se submeter a chantagem dos poucos colegas que topavam trabalhar lá. E como era essa chantagem? O colega chegava e dizia “ó, eu trabalho, mas só trabalho X horas”.

É logico que essas “X” horas não seriam as 40horas do contrato que ele assinava, né? Pois então. Os caras faziam o mesmo com VÁRIOS municípios, passavam 2 a 4h em cada municipio por SEMANA e recebiam o salário de 40h de TODOS eles.

Em 2011 o Ministério da Saúde decidiu dar um basta nesse negócio. Queriam colocar um limite de 2 vínculos públicos, algo que eu achava bastante razoavel, visto que os contatos em sua maioria eram de 24 a 40 horas por vinculo.

Eu era Presidente da Associação Pernambucana dos Médicos residentes e estive numa reunião onde vi com meus olhos (ninguém me disse) algumas lideranças médicas tentarem dissuadir a equipe do ministério, dizendo que geraria CAOS na SAUDE tirar estes colegas (vejam bem, ESTES colegas) dos postos de trabalho. Ao que o Ministério disse: “Caos já existe, só que os numeros estão mascarados! A gente precisa saber realmente a dimensão do problema pra saber o quer fazer.” Pois bem. Saí abismado.



No Fórum
Leia Mais ►

Escola, Liberdade e República


Comemoramos neste 15 de novembro que passou quase 130 anos de nossa República. Regime que se propagou pelo mundo baseado nas ideias do Iluminismo. No antigo regime, valia a vontade de uma só pessoa, e não havia alternância no poder, na medida em que a sucessão era definida em âmbito familiar. Na República, o poder não se cristaliza na mão da mesma família e até a maioria deve respeitar e conviver com os desejos de outros grupos, num ambiente de pluralidade de ideias.

Aqui no Maranhão, vivemos um nascimento tardio desta República, pois o coronelismo de traços coloniais muito se alongou, adentrando no século 21. Infelizmente, contudo, superamos um desafio e já estamos às voltas com outras ameaças, notadamente esse assustador ressurgimento do fascismo, em vários quadrantes do mundo.

Essa ameaça é muito bem identificada pela ex-chanceler norte-americana Madeleine Albright no recém lançado livro "Fascismo, um alerta". Albright aponta a proliferação no mundo de um novo tipo de líder que "diz falar por uma nação ou grupo, não se preocupa com os direitos dos outros e está sempre disposto a usar de violência ou qualquer outros meios necessários para atingir seus objetivos".

A prevalecer esse tipo de liderança, teremos sistemas políticos apenas formalmente republicanos, mas na prática esvaziados de sentido material. Vemos isso por meio de ameaças à liberdade de opinião, por exemplo com discursos de ódio e medo contra jornalistas ou professores.

Propostas como “Escola Sem Partido” são visceralmente anti-republicanas, na medida em que tolhem a ideia de “governos moderados”. Com efeito, se não há possibilidade de opinião, inexiste pensamento crítico e prevalece a vontade unilateral das instâncias de mando.

Consentâneo com o primado republicano, o artigo 206 da Constituição Federal determina a "liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber;" além de garantir o "pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas" no país. Foi com essa base teórica e normativa que, na semana dedicada à República no Brasil, editei Decreto orientando a rede estadual de ensino a respeitar a livre manifestação de pensamento e opinião, essencial para que a sociedade não seja atropelada por propósitos despóticos.

Como muitas vezes costuma acontecer, uma bandeira se levanta justamente para se encobrir uma batalha por seu revés. Pois o que pregam os arautos da Escola Sem Partido que não determinar politicamente o que devem falar alunos e professores?

Começam tempos em que é preciso estar atentos a riscos colocados à República. Que tenhamos força e coragem, como recomendam as Sagradas Escrituras (Josué, 1).

Flávio Dino é governador do Maranhão
Leia Mais ►

Padrão Bolsonaro de comunicação desorienta a mídia


O jornal O Estado de S.Paulo demite uma cronista por ter criticado as propostas do então candidato de extrema-direita, Jair Bolsonaro. Toma essa decisão depois de vê-lo eleito, numa atitude nítida de subserviência. A TV Gazeta demite quase toda a equipe de jornalismo e amplia o aluguel ilegal de sua grade de programação para a Igreja Universal, apoiadora do próximo governo.

A Folha de S.Paulo, depois da derrota do seu candidato no primeiro turno, parece sem rumo. Chama o gesto repulsivo do presidente eleito, simulando o uso de armas, ao lado do presidente do Tribunal Superior do Trabalho, de simples gesticulação. Quem ele ameaçava? Os juízes ou os trabalhadores? Essa resposta a Folha não deu.

O caso da Veja é ainda mais curioso. Depois de se tornar um panfleto golpista, tentando derrubar o presidente Lula, evitar a eleição de Dilma Rousseff e contribuir para tirá-la da Presidência, sai com uma capa crítica ao projeto que pretende censurar a atuação dos professores em salas de aula, tão a gosto do presidente eleito. Será uma tentativa de recuperar a credibilidade perdida? É difícil acreditar, ainda mais diante da situação econômica da Abril e a dispensa de centenas de funcionários. Um caso para ser acompanhado de perto.

São apenas alguns exemplos da situação dos meios de comunicação tradicionais neste momento pós-eleitoral. Todos eles apostavam numa candidatura palatável para os seus interesses empresariais mas não encontraram quem a encarnasse.

De repente se viram às voltas com uma realidade inesperada. Têm pela frente um governo que os despreza, que assusta muitos dos seus leitores, ouvintes e telespectadores, mas do qual não podem se afastar totalmente, como sempre acontece no Brasil. Afinal a dependência das verbas publicitárias oficiais e de outros favores governamentais é muito grande.

O uso do WhatsApp nas eleições foi decisivo para a definição dos resultados. Sobre isso não há dúvida. Mas esse sistema de mensagens não operou sozinho. Foi apenas o último passo de uma sequência iniciada muito tempo antes e operada pelos meios de comunicação tradicionais.

Criminalizaram a política abrindo espaços para o surgimento de aberrações desde o pleito municipal, há dois anos, ampliando-se agora com as eleições do presidente da República, de alguns governadores e de vários parlamentares.

A corrupção tornou-se um prato cheio. O Jornal Nacional diariamente tinha como imagem de fundo desse noticiário um duto por onde jorrava muito dinheiro. As TVs nos restaurantes, bares, lojas, salas de espera de consultórios e de hospitais, mesmo sem som, inculcavam as imagens da corrupção nas cabeças de quem olhasse para as telas.

Nada de novo. As massas que saíram às ruas insufladas pela TV para apoiar o golpe de 2016 levantavam as mesmas bandeiras, como sempre ocorre em qualquer parte do mundo quando a direita tenta chegar ao poder por vias transversas.

No caso do Brasil, além da corrupção o outro tema sensível explorado eleitoralmente é o da segurança, sobre o qual rádio e TV deitam e rolam. Num país em que morrem assassinadas por ano mais de 60 mil pessoas, o assunto não pode mesmo ser desprezado.

O problema é a forma como ele é abordado. Os programas policialescos que ocupam amplos horários das emissoras em todo o país pregam ainda mais violência como solução. Claro que para as emissoras não interessa acabar com a violência. É ela que dá picos de audiência e garante boas receitas publicitárias. Daí a transformação de dramas do cotidiano em espetáculos mórbidos.

Especialistas nesse tipo de programa, as redes Record e Bandeirantes foram contempladas com entrevistas exclusivas do candidato vencedor antes das eleições. Ele é o representante mais bem acabado da ideologia veiculada pelos programas policialescos.

Com sua retórica limitada, o capitão reformado balbucia chavões repetidos pela TV desde a época em que Jacinto Figueira Junior era o "Homem do Sapato Branco" na TV Cultura de São Paulo, àquela altura propriedade de Assis Chateaubriand. "Direitos humanos para humanos direitos" ou "bandido bom é bandido morto" não são novidade, fazem parte da história da televisão brasileira.

A contribuição da mídia tradicional para o resultado das eleições não fica por ai. A "facada de Juiz de Fora", ainda a espera de uma investigação jornalística mais aprofundada, foi o ponto de virada da campanha eleitoral.

Tanto que um dos filhos do candidato proclamou uma vitória em primeiro turno logo após a agressão e apressou-se em dizer que o ferimento era superficial. Estava estabelecido o álibi para tirar o militar da reserva de todos os debates previstos com os demais candidatos.

Sabia ele e os seus apoiadores mais próximos do desastre que seria um confronto cara-a-cara com seus adversários. No único evento desse tipo em que participou, na Rede TV, foi destruído pela candidata Marina Silva, ao discutir sobre o papel da mulher na sociedade.

No segundo turno as emissoras cancelaram os debates sob a alegação de que não poderiam fazê-lo só com um candidato. Embora a Rede Globo tenha feito exatamente isso no Distrito Federal onde um concorrente se ausentou. Dessa forma criou-se uma situação inédita na história das campanhas presidenciais brasileiras.

O candidato Fernando Haddad, disposto ao debate, foi excluído da TV. O outro candidato escondeu-se do confronto mas falou sem contestação em longas entrevistas para a Record e a Bandeirantes. A justiça eleitoral fez vistas grossas para a ilegalidade e a democracia, nesse momento, sofreu um duro golpe.

Resta saber o que temos pela frente. Os meios tradicionais estão desorientados. O novo governo mostra-se inclinado a desprezá-los, jogando todas as suas fichas nas redes sociais e a eleição não interrompeu esse processo. As mensagens continuam circulando, refutando críticas e exaltando as confusas decisões do "governo de transição".

Os meios convencionais, fragilizados em sua credibilidade e no seu caixa, terão muita dificuldade para se recuperar. A saída mais cômoda é a adaptação à nova ordem, como já mostrou a Rede Globo com uma entrevista apresentada no Fantástico com o candidato eleito.

O que já não era bom em termos de comunicação democrática tende a piorar. Torço para estar errado.

Laurindo Lalo Leal Filho
Leia Mais ►

A personalidade autoritária como base do cotidiano | Flávio Ricardo Vassoler


Leia Mais ►

Silly is beautiful!

A glorificação da idiotice é a tática mais contundente de dominação das massas no novo Brasil. Ser cretino e espírito de porco está na moda. Ou você compartilha esse modo “cool” de ser ou você está fora. Ser petista, por exemplo, é “out”: pensa demais, argumenta demais, tem valores demais – e… chora demais! Mimimi não está na moda!

Esse fenômeno, na verdade, não é novo. A felicidade-dumb já vem de longe, numa classe média consumista que adora mostrar o que tem, mais do que mostrar o que sabe.

Lembro-me de quando estava no ensino médio que, mal Jô Soares apresentava um novo número humorístico em seu “Planeta dos Homens”, estavam muitos, já no dia seguinte, a imitar suas frases feitas: “o macaco tá certo!” Causava-me irritação essa chatice da recorrente reprodução acrítica do programa por um monte de gente homogeneizada pela Rede Globo. Parecia tudo papagaio.

Não se tratava, em absoluto, de um problema de gente inculta, de poucos meios para estudar. Não. Essa idiotice vinha da classe média endinheirada e se espalhava por escolas particulares, como a que eu frequentava como bolsista, clubes, praias de Zona Sul do Rio de Janeiro e sítios na serra de Teresópolis. Era a fina flor que, em plena ditadura militar, se distraía com esse humorzinho televisivo bobo, enquanto nada se falava de torturas e mortes nos porões do Dops e do Doi-Codi.

Afinal, a vida com os Alfa-Romeo Ti4, com a casa de praia em Angra dos Reis e com caríssimas viagens para o exterior era tão bela… “eu te amo meu Brasil, eu te amo… meu coração é verde, amarelo e azul…”.

De lá para cá, a alienação dessa gente só piorou e se disseminou entre os pretendentes a classe emergente. A rede mundial de computadores aprimorou a homogeneização da mentalidade de espírito de porco. As redes sociais, com sua dinâmica de narcisismo virtual, provocam reações impulsivas de muitos que ali “postam”, sem qualquer preocupação dialógica. Buscam apenas resposta rápida para suas imbecilidades impensadas. Quanto mais expedita a reação na rede, maior o deleite ególatra. O sonho desse tipo de cretino é provocar a onda perfeita de “shitstorm” e mensagens politicamente incorretas que causam comoção virtual têm elevado potencial de encapelar os debates. As barbaridades vão se banalizando e acabam por ingressar na cultura política do mundo real.

Existe visível efeito “spill-over” da agressividade das redes sociais no discurso do cotidiano. Parece que muitos não se dão mais conta do tamanho dos absurdos que disseminam mundo afora. Criou-se verdadeira contracultura da imbecilidade em massa. Há quem compete na propensão de escandalizar com assertivas sem pé nem cabeça. Ser racional, nesse contexto, é ser chato, é estragar a brincadeira.

Se tudo não passasse de brincadeira de mau gosto, seria um problema menor. Corrigia-se com uns puxões de orelha próprios para meninos travessos. Mas o caráter epidêmico da idiotice em rede passou a contaminar o discurso oficial, paralisando o diálogo político. Assiste-se a um general de pantufas, agora vice-presidente eleito, a elogiar o fim do trabalho de médicos cubanos no Brasil, pois seu chefe, o capitão de pantufas eleito presidente, vai entrar na história por os ter livrado do trabalho forçado, como a Princesa Isabel, que aboliu a escravidão no Brasil!

No legislativo, vê-se uma deputada com semblante irado – claramente fora de si – propor projeto de lei a proibir educação sexual nas escolas, como se fosse, ela, a secretária de ensino fundamental do Ministério da Educação. Não interessa. O debate precisa de “speed” e levar o assunto a um debate entre especialistas pedagógicos só toma tempo; melhor uma iniciativa impensada que faça marola e irrite os “liberais”. Não há diálogo. Há invectiva, há ofensa e ataque.

Do mesmo modo parlapeteia o prospectivo chanceler indicado pelo presidente eleito que quer fuzilar “toda a petralhada do Acre”: a mudança climática é um mito criado pelo “marxismo cultural” e a Europa é um espaço culturalmente vazio… a esquerda não quer que crianças nasçam – e coisas do gênero. Há pouco tempo atrás, um funcionário público que adotasse esse tipo de discurso na função que exercesse seria candidato certo à aposentadoria compulsória por demência. Mas hoje, na era do non-sense, um sujeito desses tem excelentes perspectivas na carreira diplomática!

Enquanto isso, os verdadeiros problemas do país são postos de lado, como mimimi de “comunistas” que perderam a vez. Vale é surfar nas ondas de “shitstorm”, a movimentarem a sociedade sem rumo, como num frenesi de ódio e ranger de dentes, em marcha na direção do abismo. Políticas públicas? Para quê? Isso é torrar dinheiro para sustentar vagabundo que não quer se virar sozinho! O negócio é acabar com a “corrupção” da esquerda, com a liberdade de ensino e pesquisa, com os direitos humanos, com a igualdade de gêneros, mesmo que morram uns milhares de inocentes… afinal, não se faz omelete sem quebrar ovos!

O besteirol se tornou a arma mais mortal contra a razão e contra a democracia inclusiva. E ele tem método, pois deslegitima de modo brutal o discurso sobre direitos. É hora de reagir se quisermos minimamente conservar o humanismo construído no mundo do pós-guerra e seu senso comum de solidariedade, tolerância e responsabilidade coletiva. Do contrário, iremos em transe, feito lunáticos, para nossa destruição – e achando bom!

Eugênio Aragão, ex-ministro da Justiça
No DCM
Leia Mais ►

Uma igreja, dois papas: a "guerra" entre Bento e Francisco

Ao contrário do previsto, Bento não se enclausurou num convento para nunca mais ser visto ou ouvido, e, de acordo com uma análise publicada na revista Vanity Fair, não se inibe de mandar recados e arregimentar tropas. Mais uma pedra no sapato de Francisco, sem mãos a medir face à tempestade do abuso sexual.


A guerra entre conservadores e liberais no seio da Igreja Católica não é de agora, decerto. Mas é a primeira vez na história da instituição em que cada um dos lados tem um papa - vivo. E se um deles tem o cognome de “emérito”, a verdade é que, se houve quem pensasse que iria passar o resto da vida em recolhimento e oração, “desaparecendo" do mundo dos vivos, enganou-se. Bento nunca saiu do Vaticano e nem sequer se mantém em silêncio.

É isso que evidencia a revista Vanity Fair, num longo artigo publicado nesta terça-feira, no qual o jornalista e escritor britânico John Cornwell, autor de várias obras sobre os meandros da igreja católica e sobre papados – entre elas Hitler's Pope -The secret story of Pius XII (O Papa de Hitler - A História Secreta de Pio XII, 1999), e A Thief in the Night - The Mysterious Death of Pope John Paul I (Um ladrão na noite - A morte misteriosa do Papa João Paulo I, 1989) - descreve vários episódios reveladores de, no mínimo, um mal-estar entre os dois pontífices. “Se Francisco é o papa vivo que reina, Bento é a sua sombra, o papa emérito morto-vivo”, escreve Cornwell.

"Se Francisco é o papa vivo que reina, Bento é a sua sombra, o papa emérito morto-vivo"

E prossegue: “Em 2013, Bento anunciou inesperadamente a sua renúncia. Era o primeiro papa a fazê-lo em quase 600 anos. Mas a seguir, ao contrário do que muitos esperavam, não se enfiou num obscuro mosteiro bávaro. Ficou no mesmo lugar, continuando a aceitar ser tratado por ‘sua santidade’, a usar ao peito a cruz de bispo de Roma, a publicar, a encontrar-se com cardeais, a fazer pronunciamentos. A sua mera existência encoraja os conservadores que querem minar o reinado de Francisco.”

É, considera o jornalista, uma situação para a qual é difícil encontrar precedentes. “Com que podemos comparar esta circunstância de uma igreja com dois papas? Estamos nos domínios dos arquétipos e do mito. Pensemos no Rei Lear, que deu todo o poder mas se manteve perto para controlar, resultando em desastre, ou no fantasma em Hamlet. A mera presença de um ex papa já seria o suficiente para pôr em causa a força de espírito e a independência de Francisco desde o primeiro dia.”

"O meu papa é Bento", diz Salvini

Poderia o simpático João XXIII, pergunta Cornwell, “ter iniciado a reforma do Concílio Vaticano Segundo se Pio XII, o seu autocrático predecessor, estivesse a observar, lugubremente, de uma janela vizinha? E iria João Paulo II abanar a árvore apodrecida da União Soviética se o angustiado e hesitante Paulo VI , que chegou a ponderar uma concordata com Moscou, o estivesse puxando pelo braço?”

"Em 2013, Bento anunciou inesperadamente a sua resignação. Era o primeiro papa a fazê-lo em quase 600 anos. Mas a seguir, ao contrário dos que muitos esperavam, não se enfiou num obscuro mosteiro bávaro. Ficou no mesmo sítio, continuando a aceitar ser tratado por 'sua santidade', a usar ao peito a cruz de bispo de Roma, a publicar, a encontrar-se com cardeais, a fazer pronunciamentos. A sua mera existência encoraja os conservadores que querem minar o reinado de Francisco."

O escritor acha que não: “Qualquer que seja a direção do papado, esquerda ou direita, para o melhor ou o pior, é a iniciativa única e exclusiva de um papa de cada vez que lhe confere suprema autoridade e poder. O segredo da unidade católica é a lealdade, em todas as circunstâncias, ao único supremo pontífice vivo. A briga entre os leais a Francisco e os insurgentes de Bento ameaça provocar a maior divisão na Igreja Católica desde a Reforma do século 16, quando Martinho Lutero e outros reformistas lideraram a revolta protestante contra o Vaticano.” E cita o historiador Diarmaid MacCulloch, da Universidade de Oxford: “Dois papas é a receita para um cisma.”

Ainda por cima, dois papas com visões tão diferentes. Desde que João Paulo II o nomeou Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, ou, nas palavras de Cornwell, “fiscalizador chefe da doutrina, em 1981, o então cardeal Joseph Ratzinger defendeu uma Igreja Católica menor, limpa de imperfeições. A visão de Francisco é diametralmente oposta: quer uma igreja aberta, acolhedora, misericordiosa para com os pecadores, hospitaleira face aos estranhos, respeitosamente tolerante de outras fés. Procura encorajar os que duvidam, consolar os feridos, e trazer de volta os excluídos pela respetiva orientação. Compara a igreja a um hospital de campanha para os espiritualmente doentes.”

"A briga entre os leais a Francisco e os insurgentes de Bento ameaça provocar a maior divisão na Igreja Católica desde a Reforma do século XVI, quando Martinho Lutero e outros reformistas lideraram a revolta protestante contra o Vaticano."

As trincheiras são tão óbvias que se consubstanciam em tshirts: Matteo Salvini, atual ministro da Administração Interna e líder do partido de extrema-direita Liga (antes Liga Norte), que se notabiliza pelas suas posições xenófobas, foi fotografado em setembro de 2016 com uma em que se vê a cara de Francisco com ar horrorizado com o escrito "O meu papa é Bento". É normal: se Francisco passa a vida a apelar ao acolhimento de refugiados, Salvini quer vê-los todos pelas costas. Mas será normal que, estando vivo e a observar, Bento não rechace este tipo de apoio? Tanto mais que, como Cornwell frisa, o papa "reformado" continua a opinar e a fazer-se ouvir - quer diretamente quer através de outros.

Matteo Salvini, atual ministro da Administração Interna de Itália e líder do partido de extrema-direita Liga, em 2016, mostrando uma Tshirt que diz "O meu papa é Bento"

"Um ofício papal alargado" ou "só um papa"?

Um desses outros é o seu secretário, o arcebispo alemão Georg Gänswein. Este, que vive na atual residência do papa emérito - a qual, conta Cornwell, fora um convento para 12 freiras contemplativas no tempo de João Paulo II e que Bento mandou renovar e preparar (luxuosamente, parece) quatro meses antes de anunciar a sua renúncia - declarou em maio de 2016 que Francisco e Bento representam um único ofício papal "alargado", com um membro "ativo" e um "contemplativo". Francisco, terá rejeitado a ideia de imediato: "Só há um papa."

Desde essa altura, diz Cornwell, a relação entre o papa investido e o emérito ter-se-á deteriorado. Em julho de 2017, no enterro do cardeal conservador (e crítico de Francisco) Joachim Meisner, arcebispo emérito de Colónia, Gänswein leu uma carta de Bento. Esta contém, no entender do autor do artigo da Vanity Fair, uma frase que pode ser considerada muito desestabilizadora do pontificado do atual papa. Nesta, Bento diz que Meisner estava convencido de que "o Senhor não abandona a Sua Igreja, mesmo que o barco tenha metido tanta água que esteja à beira de afundar." Para Cornwell, Bento parece estar a dizer que a Igreja Católica comandada por Francisco está a afundar-se.

"O Senhor não abandona a Sua Igreja, mesmo que o barco tenha metido tanta água que esteja à beira de afundar", diz Bento. Está a dizer que a Igreja Católica comandada por Francisco está a afundar-se?

Mas não fica por aqui: em setembro último, Gänswein deu uma palestra na biblioteca do parlamento italiano por ocasião do lançamento da tradução italiana do livro The Benedict Option (A opção de Bento), do escritor americano Rod Dreher, descrito por si mesmo como um "conservador empedernido". O livro defende que a civilização ocidental, nomeadamente os EUA, se encaminham para um tempo de caos e negritude, uma nova idade das trevas, e que o caminho é voltar aos ensinamentos de Bento de Núrsia, o fundador dos monges beneditinos. Gänswein explicou à audiência que a crise de abuso sexual na Igreja Católica é a idade das trevas da instituição, o 11 de setembro católico. Um paralelismo que foi interpretado por Dreher como significando que o salvador atual é o papa emérito.

Cornwell encontra outros sinais de perversidade - não é muito difícil perceber para onde pende o seu coração na disputa que descreve - na conduta de Bento, até antes de renunciar. Refere por exemplo o facto de em 2012, pouco antes de anunciar a sua inesperada decisão, ter nomeado o bispo conservador Gerhard Ludwig Müller para o lugar que fora seu sob João Paulo - ou seja, designando um conservador de linha dura para fiscalizador da doutrina (num ministério que está também encarregado de investigar casos de abuso sexual) do qual o seu sucessor teria dificuldade em retirá-lo sem parecer desrespeitador - de facto, Francisco só o substituiu em 2017. E não só nomeou Gänswein como seu secretário pessoal como também chefe de gabinete do papa - o que significa dirigir a residência papal no palácio apostólico, onde é suposto os papas viverem e trabalharem. Tal, frisa Cornwell, permitiria ao secretário e homem de confiança do papa emérito monitorizar toda a atividade do novo pontífice.

O que significa que a decisão de Francisco de não ocupar as luxuosas instalações que há séculos são a casa dos papas pode ter também tido a ver com dar a volta a Bento e Gänswein - pelo menos na interpretação de Cornwell. Assim, instalou-se na modesta Casa Santa Marta, onde ficam os clérigos que visitam o Vaticano. Permite a Gänswein que organize receções nos aposentos papais para reis e chefes de Estado, mas o resto do tempo está fora do alcance do secretário de Bento.

É possível um cisma?

Frisando que, aos 91 anos, cinco após resignar, Bento parece manter vigor físico e mental, Cornwell interroga-se sobre os motivos da sua resignação. E sobre que estratégia terá em vista. Será que um cisma, ou seja, a divisão da Igreja Católica em duas, é possível?

Certo é que, conclui o jornalista, se assiste a um impasse. Francisco está cada vez mais isolado e acossado por escândalos sucessivos; a presença de Bento e as suas intervenções não ajudam, pelo contrário.

É tentador assacar a culpa deste impasse a Bento, o rígido moralista e o defensor de uma igreja mais pequena e mais pura, mas também há motivo para acreditar que Francisco tem os seus próprios motivos para querer provocar uma crise.

Mas se, argumenta Cornwell, é tentador assacar a culpa deste impasse a Bento, o rígido moralista e o defensor de uma igreja mais pequena e mais pura, aquele que resignou sem deixar o palco, aquele cuja mera existência mina a autoridade de Francisco, também há motivo para acreditar que este último tem os seus próprios motivos para querer provocar uma crise.

E explica: "Desde os primeiro dias do papado, falou de forma a sugerir que procura, que provoca, que pede uma mudança massiva numa autoritária, dogmática teimosamente inamovível Igreja que mostra os seus frutos amargos nos milhares de jovens fiéis abusados em todo o mundo católico. Uma purga drástica dos privilégios obstinados, do secretismo, da riqueza, do tradicionalismo, da falta de transparência e de controlo, pode ser a condição necessária de um novo começo."

Fernanda Câncio
No Diário de Notícias
Leia Mais ►

Mourão será um vice que vai mandar (+ vídeo)

Será ele o presidente em dois anos?


Bolsonaro avalia Mourão como ‘gerente’ do governo

A nova estrutura do Palácio do Planalto, que está sendo desenhada pela equipe do presidente eleito, Jair Bolsonaro, prevê que a pasta da Casa Civil passe a ter uma outra atribuição e deixe de coordenar os ministérios do governo. Esse trabalho passaria a ser feito pelo vice-presidente eleito da República, general Hamilton Mourão. A ideia é liberar o futuro ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, para a articulação política com o Congresso, já que a Secretaria de Governo – que desempenha esse papel atualmente – será extinta.

Na visão do núcleo mais próximo do presidente eleito, a articulação política e a abertura de um canal de ligação de Bolsonaro com os parlamentares vai demandar tempo e esforço em um cenário de votação de projetos considerados fundamentais pela nova gestão.

A estrutura do Planalto no governo Bolsonaro daria mais poderes ao general Mourão – que durante a campanha eleitoral deu declarações polêmicas e, por isso, chegou a ser desautorizado pelo então presidenciável do PSL – e pode acentuar as diferenças entre os grupos político e militar que cercam o presidente eleito.

Na avaliação de aliados, como o governo será comandado por um militar reformado do Exército, que pensa na hierarquia, a visão é de que todos os ministros têm o mesmo nível e não aceitariam cobrança de resultado de outro titular de “igual estatura”. Colocar Mourão à frente da coordenação da Esplanada seria uma forma de dar ao vice-presidente eleito ascendência sobre os demais titulares do primeiro escalão para cobrar resultados. (...)

Em tempo: Lauro Jardim, aquele colonista do Globo que acompanhou passo-a-passo a fulminante carreira do banqueiro André Esteves, diz nesse domingo 18/XI: "Profecia baiana" - valendo-se de décadas no trato de políticos, Emílio Odebrecht tem dito que o general Hamilton Mourão se tornará o Presidente da República em menos de dois anos".

No CAf

Leia Mais ►

Bolsonaro diz no Twitter que a verdade é a arma do crescimento da esquerda

Aroeira
A pretexto de divulgar o vídeo de um puxa-saco, Jair Bolsonaro acaba de postar uma nota no Twitter. Ele queria atacar a esquerda, certamente, mas, pela dificuldade que ele e sua equipe têm com a língua portuguesa, acabaram fazendo um elogio. O texto:

“O presidiário corrupto, Bolsonaro e as mulheres! Infelizmente, a narrativa montada é sempre a oposta! Seguimos adiante para a aplicação de melhores condições de vida aos brasileiros. Jamais esqueçamos a verdade, pois esta é arma do crescimento da esquerda!”

“A verdade é a arma do crescimento da esquerda!”


No DCM
Leia Mais ►

A Internacional da Direita

https://www.jb.com.br/colunistas/coisas_da_politica/2018/11/957868-a-internacional-da-direita.html

A evidência de que o plano de governo só começa a ser elaborado agora, os desatinos em política externa, a negligência parlamentar e até mesmo as dúvidas sobre o êxito do programa econômico ultraliberal (apesar da crença do mercado) despertam dúvidas em alguns (esperança para outros) sobre sua duração. Bola de cristal ninguém tem mas uma coisa é certa: a extrema direita que ele representa é tosca e áspera mas está se organizando para um reinado longo e articulado internacionalmente.

O filho do presidente eleito com mais pretensões ao papel de ideólogo e articulador internacional do clã, Eduardo Bolsonaro, anunciou ontem pelo Twitter que a tal Cúpula Conservadora das Américas vai mesmo acontecer. Será no dia 8 de dezembro em Foz do Iguaçú e terá o patrocínio da Fundação Indigo de Políticas Públicas, do PSL, e do Centro de Estudos de Seguridade, criado por professores liberais da Unifesp. O evento chegou a ser adiado, para que Bolsonaro dele pudesse participar já empossado, mas agora vai acontecer mesmo antes da posse. A mensagem não menciona sua presença, dizendo apenas que o site do evento (www.cupulaconservadora.com.br) em breve divulgará os nomes dos participantes das quatro mesas redondas. “É chegada a hora de organizarmos nossa ideias, as bandeiras e diretrizes para um mundo melhor, onde o indivíduo será o protagonista e não mais o coletivo ou o Estado”, diz o deputado mais votado da história eleitoral do país.

Da cúpula deve surgir um organismo que congregue partidos ultraconservadores de diferentes países das Américas, numa espécie de contraponto ao odiado Foro de São Paulo, associação dos partidos de esquerda latino-americanos criada nos anos 90 por iniciativa de Lula, Fidel Castro e outros líderes regionais.

A ascensão da direita é um fenômeno mundial, que muitos pensadores atribuem ao aumento das desigualdades produzidas pelo capitalismo global financeirizado, gerando legiões de despossuídos que, desiludidos com a democracia, com a falta de soluções para seus problemas, aderem a projetos e líderes autoritários de direita ou extrema-direita. Bolsonaro tem sido apontado como um imitador de Trump ou comparado a Duterte, das Filipinas, e ainda ao húngaro Viktor Orban, mas é fato que nenhum deles fez carreira política, por anos a fio, defendendo a ditadura, a tortura, a discriminação de negros e gays e, já eleito, a prisão e exílio de seus adversários políticos. A negligência foi dos líderes dos partidos de esquerda, do centro e da direita democrática, que poderiam ter lhe imposto limites com bases nas leis de defesa do Estado Democrático de Direito, hoje tão anêmico. Não poderia ter havido indulgência, por exemplo, com a apologia à tortura, inclusive na sessão de votação do impeachment de Dilma.

E há outras diferenças em relação aos dois. Duterte, um torcionário, move uma sangrenta guerra às drogas e aos criminosos comuns em geral. Trump tem inimigos externos: a China, o globalismo, os imigrantes, e dá caneladas até nos aliados históricos europeus. O bolsonarismo elegeu como inimigo essencial o PT e a esquerda, e tudo o que a ela for vinculado, como os médicos cubanos. Criou fantasmas morais-culturais, como um comunismo fora de tempo e lugar e a “ideologia de gênero”, além de índios, negros e gays. Essa guerra cultural, que tira o foco do essencial e coloca no acessório, continua sendo alimentada pelas redes sociais.

A extrema-direita tupiniquim é intelectualmente rudimentar e alguns quadros do futuro governo exibem um despreparo gritante para os cargos que ocuparão. O superministro Guedes pode ser doutor em economia, mas desconhece procedimentos básicos da gestão pública (em que nunca atuou), como o fato de ser o orçamento aprovado na legislatura anterior ao ano fiscal. O futuro chanceler espanta o mundo ao escrever que a mudança climática é uma trama marxista. Mas aguardemos, pois Deus pode ser ainda brasileiro e propiciar ao país um governo exitoso e longo.

É acreditando que extrema-direita veio para ficar que Eduardo Bolsonaro prepara a Cúpula Conservadora das Américas e pensa na I Internacional Reacionária.
Leia Mais ►

Já se vê que Bolsonaro faz o que se pode esperar dele

O governo Bolsonaro já começou. Para o mundo, foi assim reconhecido quando o Egito cancelou a visita de um ministro brasileiro, não em represália ao governo Temer, mas à hostilidade de Bolsonaro ao mundo muçulmano.

No plano interno, a ruptura do acordo com Cuba e com a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), para médicos cubanos suprirem a carência médica pelo Brasil afora, não foi motivada pelo governo Temer. Deu-se por exigências de Bolsonaro contrárias à continuidade do convênio e hostis a Cuba e à Opas.

Por esses primeiros passos de governante, já se vê que Bolsonaro tem uma qualidade: não decepciona. Faz o que se pode esperar dele. No caso, para autenticidade ainda maior, foi uma providência que castiga "o lombo" (no dizer de Bolsonaro) dos mais necessitados.

São os 24 milhões que contam com médicos cubanos. Entre eles, as populações de numerosos municípios que dispuseram de um médico pela primeira vez. Não o terão por muito tempo.

Se há em torno de 2.000 vagas no Mais Médicos, que jamais conseguiu contratar o esperado número de brasileiros, é vazio o anúncio de concurso para 9.000 substitutos dos médicos cubanos.

A única possibilidade estaria em aumento substancial dos quase R$ 12 mil de salário, o que não entra no orçamento de 2019 nem na cabeça de Paulo Guedes.

E a saúde pública não figurou na campanha de Bolsonaro, como não há conhecedores da área no pessoal que faz a alegada montagem de um governo.

O aumento é outro. Substancial, sim, 16% para os juízes. Dele beneficiário, assim como sua filha, o ministro Luiz Fux espera que Temer o assine, em vez do veto por muitos cobrado, para afinal dar fim ao auxílio-moradia também dos juízes. Ou, sem o aumento, nada extinguirá. Se as aparências não traem, há uma imoralidade imortal nesse dá cá, toma lá. Outra vez, sem que se possa falar em decepção.

Com moradia própria e recebedor do auxílio para aluguel, Sergio Moro perde isso que não é só privilégio e não receberá o aumento que é. Antecipou, de janeiro para amanhã, a troca de poderes para tê-los maiores e sobre mais gente. A antecipação explicada: "Houve quem reclamasse que eu (...) não poderia sequer participar do planejamento de ações do futuro governo", mesmo em férias.

A suscetibilidade a uma crítica fica mais interessante se lembrado que Moro estava sob avaliação do Conselho Nacional de Justiça, pela divulgação, seis dias antes das eleições, de um velho depoimento de Antonio Palloci prejudicial a Fernando Haddad.

Há a expectativa de que Moro venha a ter cedo, no Ministério da Justiça, papel semelhante ao que adotou na Lava Jato. Por ora, está só com o ministro Luís Roberto Barroso o exame do uso empresarial das redes sociais na campanha, em favor de Bolsonaro.

O assunto é grave, não só por causa de Bolsonaro. As respostas artificiosas dos aplicativos a Barroso sugerem a existência de problemas. E WhatsApp, Facebook, Google, Twitter e Instagram já se envolvem com tentativa de obstrução da Justiça, levando Barroso a exigir respostas sérias.

Se o ministro do Supremo e do Superior Eleitoral der ao caso a importância comprovada nos EUA, é provável que a Polícia Federal entre nas investigações. Sob a orientação ministerial de Moro. O risco de decepção poderia ser apenas com Barroso.

Janio de Freitas
No fAlha
Leia Mais ►

Crime de guerra


Em uma sociedade racional e sob o signo da Justiça, o presidente Bolsonaro e seus auxiliares deveriam ser julgados, condenados e presos por “crime de guerra”. O que fizeram, ao romper unilateralmente o contrato do programa Mais Médicos, não tem outro nome, senão um criminoso atentado contra a saúde pública do Brasil. Em surto, e de forma irresponsável, ele voltou a “explodir quartéis” em nome de seus interesses, agora políticos.

O rompimento com a solidária mas também altiva Cuba, motivado por um deformado caráter ideológico, tem a intenção de avançar no servil alinhamento aos EUA. Objetivo reforçado, no mesmo dia, com o anúncio do novo ministro de Relações Exteriores, um “servo” confesso de Trump e suas ideias. Não por acaso, a principal funcionária do Departamento de Estado dos EUA para a América Latina, Kimberly Breier, elogiou a decisão de Bolsonaro.

Hoje, não resta mais dúvida que o Brasil está sob severo bombardeio de uma “guerra híbrida” imperialista desde, pelo menos, 2013. Um ataque motivado por interesses econômicos e geopolíticos dos EUA, ao qual se somaram as agências de fake news e os lacaios internos. As manifestações “coloridas”, a operação Lava Jato, o impeachment de Dilma, a prisão de Lula e a última eleição, manipulada desde fora, são provas disso.

Os crimes de guerra acontecem quando ocorrem violações dos direitos humanos em épocas de guerras ou conflitos. Além de contrários ao programa desde seu início, os novos governantes sabem das dificuldades corporativas para deslocar médicos brasileiros ao interior. Assim, não existe razão objetiva, racional, que justifique tal atitude, a não ser a traição à Pátria e o desprezo ao seu povo, inclusive àqueles que o elegeram.

Fernando Rosa
No Senhor X
Leia Mais ►