17 de nov de 2018

E o Exército? Onde está o Exército?

https://segundaopiniao.jor.br/

A locução “militar na ou da reserva” situa-o em posição especial na estrutura das ocupações. Um jogador de futebol estar na reserva significa manter-se na ativa, à disposição dos superiores técnicos e administrativos quando convocado à titularidade. Mas ao final da carreira não vai ocupar uma reserva permanente; ele passa à condição de ex-jogador de futebol.

Professores, dentistas, engenheiros e outras tantas profissões liberais estão sempre na ativa, nunca na reserva, mas, ao final da carreira, não se tornam reserva (é bastante rara a convocatória de um médico que “já não exerce a profissão”, como se diz) nem tampouco se tornam algum “ex”. Estão aposentados. Não existem ex-advogados, ex-arquitetos, ex-farmacêuticos e dezenas de outros profissionais. Continuam com a identificação profissional preservada, mas inabilitados para retornar à ativa.

Militares são profissionais exóticos. Enquanto na ativa, preenchem posição clara na estrutura ocupacional: responsáveis pela eficácia dos dispositivos constitucionalmente atribuídos; essencialmente, o resguardo, em última instância, das instituições civis, e a defesa da segurança e soberania nacionais. Segurança e soberania nacionais são bens públicos clássicos, ou seja, não podem ser usufruídos ou capturados por grupos ou segmentos sociais privados, são parte indissociável da dieta de todo cidadão, independente de credo, ideologia, status social ou renda pessoal.

Ao passar para a reserva, os militares não perdem a condição de militar, tal como os profissionais liberais, mas não se aposentam, como estes. Não existe a ocupação de militar aposentado. Os militares permanecem como futebolistas ativos, embora na reserva, prontos a retornar à vida produtiva, se requeridos. Só que, ao contrário de jogadores reservas, não lhes é permitido voltar como militares propriamente ditos, de coturno e armas na cintura. Não havendo outra ocupação designada, reaparecem como avatares civis.

Ilusão. Não existem ex-militares. Por baixo dos ternos e gravatas protocolares permanecem os blusões verde oliva, ornamentados com os galões de tempos vividos, mas não idos. Com a psicologia reptiliana de militar, o presidente eleito resiste a aceitar o equilíbrio e a solenidade litúrgica do cargo, mantendo o linguajar belicoso, o gestual rude e a distribuição de poderes entre delegados de um governo de ocupação. Resta por decifrar se o Exército está ciente do jogo para o qual está sendo gradativamente arrastado.
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Sobre o Mais Médicos


Pequeno guia para não falar bobagem sobre o Mais Médicos

Ponto 1 – O PMM não é um programa de contratação de médicos. É um programa global de fortalecimento da atenção básica no país e, para isso, conta com três eixos: infraestrutura (requalificação das unidades básicas para que tenham a estrutura necessária para o atendimento); readequação e expansão da formação médica (revisão dos currículos das universidades visando focar na medicina preventiva e não curativa, além de ampliar e descentralizar a oferta de vagas em cursos de medicina, prioritariamente pela rede pública) e, finalmente, o provimento emergencial de médicos (ou seja, “contratação” de médicos).

Ponto 2 – Os médicos do programa, todos eles, saem, depois de dois anos, com um título de especialização. Assim sendo, o médico do PMM não tem vínculo empregatício, pois integra um programa de formação em serviço. Logo, não faz sentido falar em CLT.

Ponto 3 – Os médicos cubanos atuam, em sua maioria, em locais em que brasileiros não querem atuar. Quando as vagas do programa são abertas, os primeiros a ser chamados nos editais são os médicos brasileiros formados no Brasil (com CRM); depois, os chamados intercambistas individuais, médicos brasileiros formados no exterior (importante notar aqui que são médicos que não têm CRM. Logo, não passaram pelo revalida que o presidente eleito quer forçar os cubanos a passarem). Só em caso de não preenchimento das vagas anteriores é que os médicos cooperados (no caso, os cubanos) são convocados.

Ponto 4 – Os médicos estrangeiros chegam não apenas para ocupar vagas que os brasileiros não querem ocupar (o que também é verdade), mas porque a formação médica atual não consegue atender à demanda de médicos no país.

Ponto 5 – A formação cubana em saúde é referência no mundo. Durante o governo Obama até os EUA tinham desenvolvido parcerias na área. A ELAM, escola de medicina da ilha, forma profissionais do mundo inteiro, incluindo brasileiros. Ainda assim, quando chegam ao Brasil, os médicos passam por um período de acolhimento, no qual são capacitados sobre o funcionamento do SUS, temas de saúde e português. Ao final desse período ainda passam por uma prova de admissão final. Logo, a revalidação demandada é surreal.

Ponto 6 (e talvez um dos mais importantes) – Os termos da cooperação são pactuados entre a Organização Pan-Americana da Saúde e o Ministério da Saúde de Cuba. Ninguém é “escravo” ou “obrigado a trabalhar” no Brasil. Os médicos recrutados são, em sua maioria, profissionais que já tiveram atuação humanitária em diversos países do mundo (como a crise do ebola na África ou países centro-americanos. Cerca de 25 mil profissionais atuam fora do país atualmente.

16 de novembro de 2018

Lara Stahlberg é Mestre em Brasil em Perspectiva Global pelo King’s College London. Tema da dissertação: International cooperation and health policy: An analysis on the design and implementation of the Mais Médicos Programme in Brazil.



Médico cubano responde a Bolsonaro

Bolsonaro Diz:

“Atualmente, Cuba fica com a maior parte do salário dos médicos cubanos e restringe a liberdade desses profissionais e de seus familiares. Eles estão se retirando do Mais Médicos por não aceitarem rever esta situação absurda que viola direitos humanos. Lamentável!”, escreveu o presidente.

Eu respondo: Bolsonaro meu filho, quando o Sr diz que Cuba fica com meu salário eu só penso nas siguente questões:

1-Eu aceitei os términos de um contrato por livre y pessoal determinação.

2-Ciente de que com esse dinheiro minha mãe, irmãos, sobrinhos, primos, tios , vizinhos ,famílias todas tem garantido o cuidado de sua saude. Sem pagar nada .

3-Ciente que minha formação como médico e graças a criação de Universidades públicas em todo o território Nacional. Onde filhos de Pedreiros, Advogados, Fazendeiros, Faxineiras, empregados dos Correios, médicos , etc... compartilham a misma sala de aulas sem discriminação por sexo, cor, ideologia, ou riqueza. Isso Bolsonaro chama-se igualdade. Ciosa que Sr não conhece Porque não existe num país onde a corrupção e os privilégios políticos acabam com a riqueza do Brasil.

3-Eu tenho o coragem de trabalhar para o povo brasileiro ainda sem perceber esse salário que o Sr fala. Porque eu não trabalho só por uma questão economica. Eu trabalho porque gosto da minha profissão , por que jamais vou ficar rico a costas dos pobres. Porque jamais vou usar a política como médio de vida. Porque jamais vou enganar os pobres com falsas promessas. Porque jamais vou plantar o ódio e discriminação no coração de ninguém. Porque vou pensar bem as coisas antes de falar para não ter que fazer como você (pedir desculpas todos o dias pelas loucuras que fala)

4-Eu posso sim trazer alguém de minha familia. Não trouxe porque Sr Bolsonaro o pobre tem que ter prioridades na vida e para mim a prioridade e ajudar minha família mas que comprar um passagem aérea sabendo que em casa temos outras necessidades e prioridades.

5- Sei também que o Sr conta com o apoio de uma pequena parte de meus colegas que por motivaçãoes políticas e economicas acham melhor se enriquecer de dinheiro e não de amor, experiência, valores morais , patriotismo, dignidade. Porque eu posso não concordar com meu salário lá em Cuba. Eu posso até não concordar com o sistema político da cuba. Mas também não tenho porque difamar de meu país , eu vi isso também nos brasileiros pobres que é a maioria no brasil. Eles gostam de seu Brasil, daquele povinho onde eles nasceram, só que com certeza gostam que esse mesmo Brasil que eles tem no coração tenha igualdade, pobreza 0 , fome 0, discriminação 0, violência 0, corrupção 0, saúde e educação de qualidade. Mas ainda assim no Brasil imperfeito eles gostam de seu país .

6- O Sr diz que os cubanos "estão se retirando do Mais Médicos por não aceitarem rever esta situação absurda que viola direitos humanos. Não Bolsonaro, o que realmente viola os direitos humanos e privar aos pobres do Brasil do acesso a Saúde por não concordar com outras ideologias polícias. Porque o Sr quer mudar as regras sem perguntar aos beneficiários do programa se realmente os cubanos fazem o trabalho do jeito que tem que ser. Porque aqui no Brasil a gente tem preceptores Brasileiros, a gente está fazendo um curso em Medicina familiar , tudo baixo a supervisão de excelentes profissionais brasileiro. A gente não está lá em qualquer canto fazendo as coisas a capricho não. Agora vem você a dizer que nós estamos fantasiados de médicos. Aqui o único fantasiado é o Sr é todos os que apoian sua absurda visão da realidade. O Sr só está lutando pelos privilégios das minorias. Lamentável! Sim. Sr Bolsonaro o que resulta lamentável e ver como um cara sem conhecimentos de nada apenas só de armas consegue se eleguir presidente . E ainda assim mais lamentável ainda foi ver alguns pobres elegir você. Deus tome conta dos pobres. Deus tome conta do Brasil.

7-Quem estudou na época dos livros, quem estudou na época que as pesquisas eram feitas nos livros e não no Google ou na internet merece respeito.

Quem lutou pela vida e chorou pela morte de uma pessoa ou de uma criança merece respeito.

Quem foi lá onde para muitos e o Fim do mundo para cuidar dos doentes merece respeito.

Quem ficou longe da família para devolver o sorriso de um idosso ou uma criança merece respeito.

aie e para tirar o chapéu viu

Absurdo que 66 países no mundo estão se beneficiando de nossa labor e vem você a chamar de fantasiados. Pior ainda duvidar de que alguém queria ser atendido por cubanos.

Peço respeito pelos meus colegas.

Peço respeito a livre escolhia de meu povo.

Peço respeito para os pobres.

Peço respeito para a Medicina Pública.

Peço também o Sr estudar o que significa amor ao próximo.

O que significa Pátria.

O que significa dignidade.

O que significa diplomacia.

O que significa Medicina familiar.

O que significa igualdade

O que significa respeito de pensamento

O que significa ser o presidente dos brasileiros pobres também é não só dos ricos e poderosos.

Saúde é longa vida para O Sr. Você pode passar a História do Brasil como um bom presidente. Isso vai depender muito de você. A história vai lhe cobrar.

Deus abençoe você é seu povo.

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Facebook censura blogueira cubana por causa do Mais Médicos

Facebook censura publicaciones sobre Mais Médicos en Brasil

Facebook ha censurado mi perfil https://www.facebook.com/norelys.ma.3 por la siguiente publicación:
"Llamar esclavos a gente libre es perverso, pero de ahí se monta una feroz campaña mediática. Los millones de marginados brasileños no importan y #MaisMedicos les parece ofensivo a sus eminencias ricas de #Brasil. Ofrecer a los galenos cubanos una relación monetaria capitalista para atacar a #Cuba es el verdadero interés político de #Bolsonaro y así complacer a #USA y a sus amigotes como #MarcoRubio Hoy los medios y redes atacan con el salario de los cubanos, que ninguno de ellos o ellas fue obligado."
 Aquí inserto el código de la publicación que dice que solo yo puedo verla porque ¡incumple las normas de Facebook!

Da risa que atribuyan a desnudos o actividad sexual. Ver para creer.

Esta censura de Facebook porque hablo de médicos cubanos, del programa #MaisMedicos y de la actitud de Jair Bolsonaro, me permite explicar que los ataques al salario de los médicos cubanos se inscribe en la lógica capitalista en que el estado salva a los bancos, mientras los deudores hasta se suicidan.

Mientras, en Cuba, a lo antedicho, es de añadir que el socialismo cubano redistribuye la riqueza par asegurar la mayor justicia social posible. De eso son conscientes los hombres y mujeres cubanas que salvan vidas en la noble profesión de médicos del cuerpo y el alma.

Estas son las capturas de pantalla del proceso censurador de Facebook.




Norelys Morales
No Isla Mía
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Esta mulher tem o poder de anular toda a Lava Jato


Ela é Meire Poza, contadora do doleiro Alberto Youssef. Poza apresentou à Justiça documentos que comprovam sua participação extraoficial (portanto, ilegal) nos primórdios da Operação Lava Jato, o que pode anular toda a Operação, como aconteceu anteriormente com a Castelo de Areia e a Satiagraha.

Mensagens do celular de Meire Poza
A defesa de Meire juntou aos autos as conversas que ela mantinha no celular com os delegados Márcio Anselmo e Eduardo Mauat, os agentes federais Rodrigo Prado Pereira e outro identificado apenas como "Gabriel PF" e o procurador da República Andrey Borges, todos com atuação na Lava Jato.

Nas mensagens, Anselmo surge como um dos principais interlocutores. Ele solicitava informações sobre empresas e personagens ligados a Youssef. Pelo WhatsApp ela fornecia dados como registros de transferências entre empresas e até o modelo do carro de uma amante do doleiro.

Meire também recebia no celular informações dos bastidores da operação.

Em 1º de julho de 2014, dia em que foi deflagrada a 5ª fase da Lava Jato, a contadora recebeu uma foto de João Procópio Almeida Prado, ex-funcionário de Youssef, cabisbaixo, num gabinete vazio. O lugar é semelhante às salas da Superintendência da PF do Paraná. Procópio foi preso naquela data.

No dia seguinte, ela recebeu uma fotografia tirada de dentro de um carro da PF em que Procópio está no banco traseiro.[Fonte: Folha]
É a famosa tese da maçã podre que contamina todo o processo. Isso aconteceu anteriormente com as Operações Satiagraha e Castelo de Areia, com provas abundantes e robustas de corrupção milionária, mas que foram anuladas, uma pela participação informal de agentes da ABIN, outra porque o início da Operação foi baseado em denúncia anônima. Todas as provas foram anuladas e destruídas.

A Lava Jato pode ir pelo mesmo caminho, como eu denunciei aqui lá atrás, há quase quatro anos. Confira:


Antônio Mello
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O fakenews da privatização da Eletrobras



A economia é a maior fonte geradora de fakenews.

A jogada é simples. Como o cidadão comum não tem muita noção de valores, de proporção, montam-se jogadas em cima de números irrelevantes, visando preparar as grandes tacadas para os espertos.

É o caso da tentativa de privatização da Eletrobras.

Apenas o valor físico da capacidade de geração da Eletrobrás pode chegar a R$ 350 bilhões. Somando-se o custo imaterial das concessões, se chegaria aos R$ 700 bilhões. Empresas elétricas nacionais, de países de parque elétrico muito menor, como Espanha, Portugal e França, valem esse valor, conforme pode-se conferir no Xadrez da venda da Eletrobras.

A Eletrobras é empresa-chave para a segurança energética brasileira, pelo fato de ser grande geradora de energia barata, pois que proveniente de hidrelétricas já amortizadas.

No entanto, seu controle está sendo colocado a venda por R$ 12 bilhões. Chegou-se a esse valor através de uma manipulação, levando em conta apenas o valor contábil da empresa.

Nenhuma empresa é vendida por seu valor contábil, mas pelo seu fluxo futuro de resultados. O fluxo de resultados da Eletrobras é em cima de energia barata, vendida em contratos para as distribuidoras.

O que os espertos pretendem é simples:
  1. Vende o controle por uma ninharia.
  2. No momento seguinte, descontrata-se a energia. Ou seja, em vez de entregar a energia para distribuidoras, em contratos de longo prazo, permite-se que a energia seja colocada no mercado à vista.
  3. Esse movimento produzirá dois desastres no setor. O primeiro, a explosão das tarifas. O segundo, a explosão no mercado de energia livre, já que a Eletrobrás exerce um papel regulador e moderador de tarifas.
  4. Lucros astronômicos não apenas para quem comprar, mas para os sócios privados atuais: grupo Jabbur e 3G, de Jorge Paulo Lehman. Sem investir um centavo, o valor de sua participação se multiplicará por dezenas de vezes.
Explicamos várias vezes que uma das formas mais utilizadas de fakenews são as informações econômicas descontextualizadas.


Incluiu no Projeto de Lei Orçamentária os R$ 12 bilhões da venda do controle da Eletrobras. E, agora, diz que se a Eletrobras não for vendida, o governo terá que retirar o dinheiro de outras áreas. E, portanto, "quem paga é a população", como afirmou o inefável João Amoedo, em seu Twitter.

Vamos, primeiro, às informações sobre valores.

Para o próximo ano, há uma previsão de receita fiscal da ordem de R$ 3,4 trilhões de reais. Vamos comparar os dois valores da maneira correta:


A comparação não está muito clara? Vamos transformá-la em gráfico:


Ou seja, vende-se um patrimônio público dezenas de vezes mais valioso, cria-se um quadro de aumento expressivo das tarifas de energia (bancado por todos os consumidores), em troca de uma receita correspondente a 0,35% do orçamento previsto.

O segundo fakenews é a história de que a União terá que investir na Eletrobras. Trata-se de um sofisma recorrente, que pode ser manifestação de ignorância ou de má-fé. Amoedo não é ignorante em matéria financeira.
  1. O setor privado vai investir se houver retorno do investimento.
  2. Havendo retorno, há várias maneiras da Eletrobras conseguir se financiar no mercado. A forma mais usual de financiamento de investimentos de longo prazo é estimar o fluxo de resultados futuros e converter em títulos que são vendidos no mercado.
  3. Ao sugerir que o investimento na Eletrobras será retirado do orçamento público, Amoedo mostra ter tanto conhecimento do orçamento público quanto seu colega Paulo Guedes. São valores que não se misturam.

Luís Nassif
Agência Xeque
No GGN
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Marginais vermelhos

Jair Bolsonaro bem que poderia plagiar o Fernando Henrique Cardoso que, ao ser eleito presidente, pediu para esquecerem tudo que ele tinha escrito como sociólogo e dito como político, no passado. Fernando Henrique fez uma bem humorada – e mal compreendida – alusão à diferença entre teoria e prática em qualquer governo, mas a piada o perseguiu por toda a sua administração. Bolsonaro pediria para esquecerem suas frases mais explosivas e suas posições mais radicais para poder fazer um governo de união nacional, respeitando a Constituição, os direitos humanos, a pluralidade política, o aleitamento materno etc. Que esquecessem que um dia ele lamentara publicamente que a ditadura (que, segundo ele, nunca existiu) não matara o Fernando Henrique quando tivera a oportunidade, que ele defendia a tortura, que seu ídolo era um torturador notório... Isso sem falar nas suas opiniões conhecidas sobre mulheres e gays e outras minorias.

O problema é que o passado do Bolsonaro é mais recente do que o do Fernando Henrique Cardoso, mais difícil de esquecer. O discurso que ele fez para o telão da Avenida Paulista foi uma semana antes da eleição, e não tinha nada de conciliador ou de contrito. Era ameaçador. Prometia uma faxina no País. Quem não estivesse com o seu governo que se preparasse para deixar o Brasil ou ir para a cadeia. Também seriam banidos da Pátria o que ele chamou de “marginais vermelhos”. Cheguei a ficar preocupado. O que seriam marginais vermelhos? Eu sou um marginal, na medida em que crônicas são notações e comentários na margem das notícias, uma espécie de pichação literária, e eu faço crônicas. E torço pelo Internacional, que é vermelho. Já me vi correndo da polícia para não ser preso e banido da pátria, gritando:

– Eu sou Grêmio! Eu sou Grêmio!

Mas não. Deduzi que “marginais vermelhos” é o nome genérico da esquerda brasileira, dado por Bolsonaro. Imagino que haveria uma graduação de acordo com a periculosidade de cada esquerdista e sua punição. Vermelho: desterro. Roxo: prisão. Rosa (se não for gay): trabalhos forçados. Rosa (se for gay): prisão domiciliar com tornozeleira. A verdade é que a esquerda brasileira está curiosa para saber por quem será tratada daqui pra frente, pelo novo Bolsonaro da união nacional ou pelo velho Bolsonaro do comício da Paulista.

Luís Fernando Veríssimo
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Como o Alzheimer afeta quem vive na periferia?

Demora no diagnóstico e precariedade da infraestrutura das cidades penaliza ainda mais os portadores mais pobres da doença, envolvendo a família inteira

Vanusa do Nascimento largou o emprego como técnica de enfermagem para cuidar da mãe Valderice, diagnosticada com Alzheimer
Valderice do Nascimento ainda trabalhava como empregada doméstica quando começou a se esquecer das coisas. Vez ou outra a patroa reclamava do fogo aceso à toa. Vanusa, uma das filhas de Valderice, assumiu os cuidados da mãe e a levou ao médico. Não deu outra. Valderice estava com Alzheimer. Vanusa abandonou o emprego de auxiliar de enfermagem e se mudou para a casa da mãe na Brasilândia, zona norte de São Paulo.

As histórias de Vanusa e Valderice e de outras quatro famílias estão registradas no documentário “Alzheimer na periferia”, lançado no dia 4 de setembro em São Paulo. E representam um pequeno recorte de um quadro em crescimento no Brasil e no mundo: o dos pacientes com Alzheimer.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, 47 milhões de pessoas acima de 60 anos no mundo tem algum tipo de demência – a maioria delas com Alzheimer. Até 2050, com o envelhecimento da população, esse número deve triplicar. Só no Brasil, a estimativa é que 1 a 1,5 milhão de idosos sofram com a doença.

Não é qualquer enfermidade. O Alzheimer afeta a família toda. Por ser uma doença neurológica de caráter progressivo, aos poucos (num período que pode se estender de dois a 20 anos) a memória do paciente se esvai. E alguém precisa assumir as rédeas da vida dele.

Assim como Vanusa, Paulo Sadex também largou a rotina para cuidar da tia Leonor. “Me mudei para cá e tudo mudou. Já tive uma vida bem ativa. Infelizmente, hoje não dá”. Ele se lembra de uma vez que saiu para comprar cigarro, perto de casa, e quando voltou a tia estava em prantos porque não conseguia encontrá-lo.

Quando se trata de famílias da periferia, os desafios só aumentam. A começar pelo risco de desenvolver Alzheimer. Segundo estudos, além do histórico familiar e idade, outro fator de risco é a baixa escolaridade (perfil da maioria dos idosos de periferia). Como tendem a não praticar trabalhos intelectuais, com poucos estímulos cerebrais, a demência se desenvolve com maior facilidade.

Além disso, não há qualquer infraestrutura que facilite a mobilidade desses pacientes em casa e no bairro onde moram. “No documentário, você percebe que não há qualquer adaptação nas casas nem para um idoso saudável. Cheio de escadas. Imagine, então, para um idoso doente”, conta Jorge Félix, autor do argumento do documentário e especialista em envelhecimento populacional.

E há ainda a dificuldade em chegar ao diagnóstico. Segundo Vera Caovilla, uma das fundadoras da Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz), em alguns cantos do País a primeira consulta pelo SUS demora meses – ou até dois anos. “Um tempo atrás, aqui na capital paulista, o atendimento com o clínico geral demorava de 6 a 8 meses”, explica.

Essa demora toda impede o início rápido do tratamento – e, por vezes, até impossibilita o recebimento de remédios custeados pelo governo. “É um critério deles, se a doença estiver já em estágio avançado, não entregam os medicamentos”, conta Caovilla. O Alzheimer tem três estágios – no mais avançado, o paciente quase não tem mais autonomia, mal consegue se comunicar ou se locomover e pode apresentar incontinência urinária e fecal.

“Normalmente os velhos já são deixados de lado na área da saúde e atendimento. Velho demenciado, então, é pior ainda”, critica Caovilla. Segundo dados do Ministério da Saúde, o Brasil tinha, em 2016, a quinta população mais idosa do mundo. Até 2030 teremos mais idosos do que crianças de zero a 14 anos. Tudo isso tem um custo alto. Segundo dados do IBGE, 75,5% dos idosos têm doenças crônicas e 70% dependem do SUS.

Os pontos altos do SUS

Ainda assim, nem tudo funciona tão mal no sistema público de saúde. Espalhados pelo País, as unidades da Saúde da Família incluem, entre outros projetos, o Programa Acompanhante de Idosos (PAI) e os Centros de Referência em Atenção à Saúde do Idoso.

Em São Paulo, existem os Centros de Referência do Idoso - os CRIs. Foi lá que Vanusa fez cursos para aprender a cuidar melhor da mãe. E onde vai frequentemente para conversar com outras cuidadoras. “Você se sente bem quando conversa com as pessoas que têm as mesmas coisas. É muito bom. Hoje na volta já vim tranquila, estava tão bom que por mim eu tinha ficado mais um pouco”, relata Vanusa, no documentário, após voltar de um desses encontros.

Quase todos os personagens contam unicamente com a assistência do SUS. Maria José Pereira cuidou do marido Daniel durante todas as etapas de desenvolvimento da doença. Buscava fraldas e remédios de alto custo em uma Unidade Básica de Saúde. “Também pego leite do governo e tudo mais que eu tiver direito, vou atrás”, contou. O marido faleceu neste ano.

Serviços básicos que ainda garantem um pouco de cuidado à população mais pobre. “O problema é que, na prática, ainda não funciona para todo mundo, porque nem todos lugares possuem centros com equipes médicas que vão até a casa dos pacientes”, explica Caovilla. E, no fim das contas, cuidadores sofrem tanto quanto os pacientes. “É um impacto econômico que recai na família. É preciso levar mais equipamento e estrutura médica para as periferias”, completa Félix.

Carol Castro
No CartaCapital
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O presidente da bolsosfera


Bolsonaro fez 57,7 milhões de votos mas sua preocupação mesmo é agradar aos seus seguidores no Twitter. Ele tem 2,4 milhões de followers na rede social. Considerando robôs, perfis duplicados e abandonados, gente que segue o homem por dever de ofício ou pra passar raiva, há menos eleitores e fãs de fato do que o número sugere.

Antes de virar o presidente do Brasil, Bolsonaro virou o presidente do Twitter. O que é a indicação desse novo ministro das Relações Exteriores se não uma lacração para as massas de arrobas embriagadas de capitão? Ernesto Henrique Fraga Araújo “quer ajudar o Brasil e o mundo a se libertarem da ideologia globalista”, definiu-se o próprio em um blog que, à primeira, segunda e terceira leitura, tive dificuldades para entender se aquilo tudo era escrito a sério ou se nosso novo ministro é uma versão do Tiririca que cursou faculdade.

Ele escreve em seu blog, por exemplo, que o aquecimento global é predominantemente uma “ideologia da mudança climática, o climatismo”. E garante: “O climatismo diz: ‘Você aí, você vai destruir o planeta. Sua única opção é me entregar tudo, me entregar a condução de sua vida e do seu pensamento, sua liberdade e seus direitos individuais. Eu direi se você pode andar de carro, se você pode acender a luz, se você pode ter filhos, em quem você pode votar, o que pode ser ensinado nas escolas. Somente assim salvaremos o planeta. Se você vier com questionamentos, com dados diferentes dos dados oficiais que eu controlo, eu te chamarei de climate denier e te jogarei na masmorra intelectual. Valeu?”

Então você só estava caminhando com papel de bala no bolso pra jogar na lata de lixo adequada, tentando ser um bom cidadão, e nem sabia que o climatismo queria sua alma. Jogue uma latinha de Coca Cola no chão e liberte-se.

O governo tuiteiro lacrador de Bolsonaro vem sendo construído há muitos anos. Suas sementes estão espalhadas pela rede e podemos buscar cada uma delas diante de cada fato novo gerado pela máquina de memes que é seu gabinete de transição. A última delas foi o caso dos médicos cubanos.

Em 2013, ele tuitou que tinha acionado a justiça contra a importação dos médicos da ilha. Voltou ao assunto de modo crítico em 2014, 2016, 2017 e 2018. Aplaudido e inebriado pela endorfina dos RTs e likes, disse em agosto desse ano que expulsaria os médicos se ganhasse as eleições. Reafirmou que faria isso “com uma canetada”. Depois de eleito, foi ainda mais longe, e ameaçou cortar relações diplomáticas com Cuba. A ilha se antecipou e, antes de ser expulsa, resolveu repatriar seus doutores.

Visivelmente abalado com a decisão cubana, Bolsonaro foi ao Twitter (claro) e tuitou: “Atualmente, Cuba fica com a maior parte do salário dos médicos cubanos e restringe a liberdade desses profissionais e de seus familiares. Eles estão se retirando do Mais Médicos por não aceitarem rever esta situação absurda que viola direitos humanos. Lamentável!”

O uso da expressão abominada pelo bolsonarismo raíz me causou espanto. Abri o TweetDeck e fiz uma busca no perfil oficial @jairbolsonaro: digitei “direitos humanos” entre aspas.

Bolsonaro usou as duas palavras combinadas exatas 53 vezes desde janeiro de 2013, quando falou pela primeira vez sobre o assunto no Twitter. Teve 55 retuítes e dois likes. As palavras associadas a “direitos humanos” em todas as suas manifestações desde então vão de “CANALHADA dos direitos humanos” a “ESTERCO DA VAGABUNDAGEM”, assim mesmo em letras maiúsculas.

Sabem quantas vezes ele usou as palavras em tom positivo? Só uma, justamente quando resolveu madreteresamente defender os direitos humanos dos médicos cubanos. Teve 16 mil retuítes e 89 mil likes. Lacrou para os seus 2 milhões de seguidores, enquanto mais de 20 milhões de pessoas na vida real temem ficar sem médico já em janeiro. Mas tudo bem se vai tudo bem no Twitter da bolsosfera.

Leandro Demori
No The Intercept
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Hannah Arendt: a capacidade de julgar | José Alves de Freitas Neto


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Banestado X Lava Jato


O Caso Banestado

O juiz Sergio Moro arbitra uma operação que investiga um extenso esquema de corrupção e evasão de divisas intermediadas por doleiros que atuam especialmente no Paraná. Uma força-tarefa é montada e procuradores da República propõem ações penais contra 631 acusados. Surgem provas contra grandes construtoras e grupos empresariais, além de políticos.

Delações premiadas e acordos de cooperação internacional são celebrados em série. Lava Jato? Não! Trata-se do escândalo do Banestado, um esquema de evasão de divisas descoberto no fim dos anos 90 e enterrado de forma acintosa na transição do governo Fernando Henrique Cardoso para o de Lula.

Essas constatações tornam-se mais assustadoras quando se relembram as cifras envolvidas. As remessas ilegais para o exterior via Banestado aproximaram-se dos 134 bilhões de dólares. Ou mais de meio trilhão de reais em valor presente. Para ser exato, 520 bilhões.

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Escravos substituem 1/3 do trabalho formal

Folha: empresário adorou a “reforma”



Da fAlha:

Contratos intermitentes avançam e chegam a 1/3 das profissões formais

Um terço das ocupações do mercado formal já usou o emprego intermitente, embora o número de vagas geradas nesse tipo de contrato — criado pela reforma trabalhista aprovada há um ano — seja considerado baixo.

Entre abril e setembro, período para o qual há dados oficiais desagregados, 857 das cerca de 2.500 profissões tiveram movimentação trabalhista na nova modalidade, que é caracterizada pela ausência de jornadas fixas.

Embora a contratação no modelo intermitente envolva o registro na carteira de trabalho, o profissional é convocado quando o empregador precisa de sua mão de obra e pode atender ou não ao chamado.

Se forem considerados os trimestres isoladamente, o número de ocupações com registro de contratação ou demissão usando esses novos contratos saltou de 635 entre abril e junho para 734 entre julho e setembro. Isso indica que a modalidade tem sido mais testada por empregadores.

O número de vagas criadas, no entanto, ainda é modesto na opinião de especialistas, que atribuem isso a fatores como a recuperação lenta da economia e dúvidas jurídicas que permeiam as novas modalidades de contratação na ausência da regulamentação sobre pontos como contribuição previdenciária. (...)

No CAf



Mino Carta: "Trabalhador foi vítima da reforma trabalhista de Temer e será ainda mais de Bolsonaro"

Em seu comentário semanal, o diretor de redação Mino Carta apresenta a capa mais recente da revista, cujo destaque é o trabalhador brasileiro, a principal vítima do governo Jair Bolsonaro, que pretende aprofundar a reforma trabalhista de Temer.

Além disso, Mino também fala sobre seu editorial da semana, que trata sobre o general Villas Bôas, e das diferenças de posicionamento entre as Forças Armadas.

Por fim, o diretor de redação fala ainda sobre o depoimento de Lula no caso do sítio de Atibaia, que aconteceria nesta quarta 14, horas depois da gravação deste vídeo. Ao seu lado, participa da conversa o diretor executivo, Sérgio Lirio.

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Bolsonaro se senta na boleia do fascismo

O novo chanceler parece chefe do Reverendo Moon

Otávio Mangabeira beija o general Eisenhower no Congresso Nacional em 1946, cena que se repetirá no mesmo Congresso em 2019
Créditos: Ibrahim Sued
O Conversa Afiada publica novo artigo de seu "colUnista" exclusivo Joaquim Xavier:

Cada país tem suas características. No Brasil, uma das que mais chamam a atenção é a máxima: o que é ruim sempre pode piorar.

O país caiu nas mãos de um alucinado, que de fato já assumiu o governo. Que Jair Bolsonaro é de extrema-direita, nenhuma novidade. Que é desequilibrado pessoalmente, tampouco. Que é ignorante e despreparado, muito menos.

Mas mesmo tais parâmetros parecem modestos para descrever o momento atual. O Brasil está sendo entregue ao que há de mais rasteiro em todos os campos, sem exceção.

Uma das nomeações mais recentes assemelha-se às decantadas fake news. Só que é de verdade.

O novo chanceler, inclusive nas fotos, lembra chefes de seita como Charles Manson, reverendo Moon, Jim Jones e daí por diante. Nem o senador Joseph McCarthy, ícone do anticomunismo, seria capaz de professar as ideias reacionárias que Ernesto Araújo defende abertamente. Até deus, que ele cita em profusão, deve estar com vergonha alheia. Sobre a infâmia restante, já se discorreu o suficiente. Mourão, Moro e quejandos – só falta o Mourinho ser nomeado técnico da seleção (o que, perto dos outros citados, talvez não fosse má ideia).

Ninguém tinha dúvidas de que o capitão era o representante dos interesses mais mesquinhos do grande capital, tanto o cheiroso quanto aquele que fede. A esse respeito, registre-se o cinismo dos tucanos e suas cercanias, na mídia e fora dela, quando demonstram “estranheza” diante da escolha de Araújo. Como se Bolsonaro não tivesse sido apoiado em bloco por esta gente com o objetivo de pisotear qualquer resquício de conquistas sociais.

Só que a história, embora possua regras próprias – ou então o feudalismo não teria sido suplantado pelo capitalismo em certa época -, é feita por gente de carne e osso. E isso faz diferença, como faz. Estamos diante de mais um exemplo.

Não é necessário bola de cristal para antever o tamanho da tormenta que está por vir. Não somente pela equipe de primitivos montada para dirigir um país com a importância do Brasil. Mas pelo termômetro dos indicadores que regulam a vida do povo. As vendas despencam, o desemprego grassa (o que se tenta disfarçar com termos como “desalentados”, “informalidade” e outras mentiras parecidas), a inadimplência dispara, os serviços públicos apodrecem.

O alinhamento colonial do Brasil com o governo do “deus Trump”, assim chamado pelo novo chanceler, já cobra seu preço. A substituição do programa Mais Médicos pela realidade de Mais Doentes é apenas a ponta do iceberg de uma política de liquidação em regra da soberania nacional. Simbolicamente, só encontra paralelo no beijo subserviente de Otavio Mangabeira, da UDN (o PSDB da época), na mão do general americano Eisenhower em pleno Congresso brasileiro.

Com uma diferença a confirmar que, por aqui, tudo pode piorar. O militar americano, mal ou bem, posava de garoto propaganda da derrota do fascismo. Trump trafega ostensivamente no sentido contrário. Com Bolsonaro na boleia.
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Moro, com sua obsessão por Lula, flerta com a leviandade

Moro, assim como já havia feito na entrevista à Globo, recebeu IstoÉ no gabinete da Justiça Federal, apesar de estar em férias
O dicionário define leviandade como o caráter de quem julga irrefletidamente, sem seriedade. Foi o que fez Sergio Moro, na entrevista à revista IstoÉ desta semana.

“As provas indicam que Lula é o mentor desse esquema criminoso que vitimou a Petrobras. E não se trata só de um triplex. Nós falamos de um rombo de R$ 6 bilhões. O triplex é a ponta do iceberg”, disse, na entrevista conduzida pelo jornalista Germano Oliveira, que assina a fake news publicada em O Globo em dezembro de 2014, que incrementou a investigação que resultou na condenação de Lula.

A reportagem de O Globo é uma cascata de informações comprovadamente falsas, como a de que Lula teria visitado o apartamento três vezes e que o imóvel já estaria pronto para que a família passasse ali o Reveillon daquele ano, e pudesse “ver a queima de fogos, que acontece na orla bem defronte do seu prédio”.

Alguns dias depois, o jornalista voltou a carga, com novas mentiras, como a de que Marisa Letícia havia pegado as chaves do triplex seis meses antes. No processo sobre o triplex, conduzido por Moro, não há depoimento que confirme essa informação nem que Lula tenha visitado o apartamento três vezes.

O fato descrito é que ele esteve ali apenas uma vez, e não aceitou comprar o imóvel. Marisa Letícia esteve uma segunda vez, depois que houve uma reforma conduzida pela OAS, e também não formalizou a aquisição do bem.

Pelo depoimento dos funcionários graduados da OAS, a família de Lula era tratada como potencial compradora — não como proprietária — e a reforma não foi luxuosa, ao contrário do que escreveu Germano. A reforma, com material que não era de primeira, foi feita para tornar o bem mais atrativo.

Um bancário aposentado, Manuel Meneses, de Salvador, incomodado com a notícias na velha imprensa de que o triplex era quase um Taj Mahal, quis conferir.

Na época do leilão ordenado por Moro, inscreveu-se como interessado e o visitou. Tirou fotos para mostrar que o triplex não era nada daquilo que jornalistas como Germano Oliveira apresentavam ao público.

“Eu tive tempo para olhar à vontade e vi que não era nada daquilo que a imprensa escrevia, sem mostrar, apenas dizia o que os procuradores falavam. Uma farsa”, afirmou, em reportagem publicada no DCM.

Para provar o que dizia, fez fotos. O que se vê é um apartamento bem simples

Fora do universo das fake news, o que existia no caso do triplex era a propriedade em nome da OAS, sem que a família de Lula tenha passado uma única noite ali ou levado para o imóvel um bem sequer.

A OAS manteve, inclusive, a propriedade como bem em garantia em duas operações financeiras, uma de recuperação judicial e outra como garantia de empréstimo bancário.

Lula teria que ser o chefe de organização criminosa mais imbecil da história se aceitasse como propina um apartamento de que nem sequer poderia dispor plenamente.

A falta de seriedade presente na declaração de Sergio Moro ao autor da fake news consiste no fato de que Lula foi  alvo de uma intensa investigação conduzida pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal, sem que tenha sido encontrado nada mais consistente além de informações inverídicas publicadas no jornal, que é, inclusive, citado na sentença de Moro.

Se o caso do triplex, usado para a condenação de Lula que o tirou da disputa eleitoral deste ano, é a ponta do iceberg, a investigação conduzida pela Lava Jato deveria ter apontado pelo menos alguns fatos mais contundentes. E não faltou oportunidade para descobri-los.

Lula não teve apenas o sigilo dele quebrado, mas o de seus parentes e até advogados — o que é absurdo e absolutamente ilegal.

Se Lula fosse o grande corrupto que Moro apresenta à IstoÉ, algo comprometedor teria sido revelado. No que diz respeito à escuta telefônica, divulgado em rede nacional, não há nenhuma fala que revele, efetivamente, indício de conduta criminosa.

Na operação de busca e apreensão feita no apartamento de Lula e no sítio de Atibaia, que Lula frequentava, colchão foi revirado, aparelho de TV desmontado, a coifa da cozinha desmontada, e não se achou um número de conta no exterior ou um maço de dinheiro, como se descobre facilmente quando um corrupto de verdade é investigado.

Com Geddel Vieira Lima, foram malas de dinheiro. Em uma ação controlada da Procuradoria da República, foi registrada em vídeo a imagem de malas de dinheiro ligadas direta ou indiretamente a Aécio Neves e Michel Temer.

Com Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados, foram encontrados conta na Suíça e registros detalhados de gastos para a manutenção do padrão luxuoso de vida dele e dos parentes.

E com Lula ou seus parentes? Nada, só fake news.

No entanto, ainda magistrado, Sergio Moro se sentiu à vontade para falar que o triplex — que, efetivamente, não era de Lula —  é só a ponta do iceberg.

Se, depois de quatro anos, Moro não conseguiu nada além disso, é correto imaginar que não existe iceberg, e que Moro se agarrou ao que encontrou pela frente para poder produzir a condenação de Lula.

Quem tiver dúvida sobre a inconsistência da condenação do ex-presidente no caso do triplex deve ler “Comentários a uma sentença anunciada”, livro organizado pela professora Carol Proner.

Na obra,122 juristas, a maioria sem nenhuma ligação com o PT, condenam a sentença de Sergio Moro.

* * *

Germano Oliveira é o jornalista que, após a condenação de Lula em segunda instância, postou foto na rede social com colegas com um auto-elogio, como se fosse uma versão tropical de Bob Woodward (do Watergate). A foto causou constrangimento aos colegas, que pediram que ele apagasse a postagem.

Germano, que parece se achar “Bob Woodward” , é o de bigode.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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