16 de nov. de 2018

O Conselho Federal de Medicina encontrou a solução para o Mais Médicos


Poucos conselhos federais são mais tacanhos, corporativistas e fora da realidade que o Conselho Federal de Medicina.

Sua "Nota à sociedade brasileira", sobre o fim do programa Mais Médicos, é de uma falta de senso notável.

O programa surgiu como política de saúde pública, para levar atendimento médico a comunidades afastadas, sem estrutura de saúde. Por serem localidades afastadas, pobres, despertam baixo interesse de médicos brasileiros.

O programa mereceu ataques reiterados da classe médica e, em particular, do Conselho Federal de Medicina. Agora, o bravo CRM anuncia que o Brasil tem médicos suficientes para atender às demandas da população. Para tanto, basta que tenham as seguintes condições, que se existissem não haveria a necessidade de programas como o Mais Médicos.

Primeiro, salienta o compromisso social dos médicos brasileiros:

* O Brasil conta com médicos formados no País em número suficiente para atender às demandas da população;

* Historicamente, os médicos brasileiros têm atuado, mesmo sob condições adversas, sempre em respeito ao seu compromisso com a sociedade;

Então, qual o problema que levou à convocação de médicos cubanos? Pequenos detalhes que são pré-condição para os associados do CFM cumprirem seu compromisso com a sociedade:

* O governo, nos diferentes níveis de gestão, oferecer infraestrutura de trabalho, apoio de equipe multidisciplinar, acesso a exames e a uma rede de referência para encaminhamento de casos mais graves;

* Para estimular a fixação dos médicos brasileiros em áreas distantes e de difícil provimento, o Governo deve prever a criação de uma carreira de Estado para o médico, com a obrigação dos gestores de oferecerem o suporte para sua atuação, assim como remuneração adequada.

E termina com um oferecimento campeão:

Comprometido com a Nação, a ser construída com base na ética e na justiça, o CFM se coloca a disposição do Governo para contribuir com a construção de soluções para os problemas que afetam o sistema de saúde brasileiro. 

A contribuição proposta pelo CFM é a famosa "suponhamos que". "Suponhamos que" houvesse uma rede de referência em todo o Brasil, uma equipe multidisciplinar em cada cidade, infraestrutura de trabalho em cada canto do país, remuneração adequada para uma nova carreira de Estado...

Como não existe, não haverá médico brasileiro para atender a essas demandas.

Ou seja, temos um conselho federal que atende perfeitamente aos padrões de qualidade e racionalidade do governo Bolsonaro.

Luís Nassif
No GGN
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Votar em consulta pública no Senado não serve para nada; veja o que funciona

Enquetes do Senado são ilusão de participação política, explica ativista; há formas mais efetivas de ação, como ligar para os gabinetes de parlamentares e fazer sugestões após estudar os projetos.


Fui soterrada de pedidos para contribuir com consultas públicas do Senado e tenho visto muita gente bastante mobilizada nesse sentido. Eu queria falar uma coisa para vocês: a consulta pública do Senado é inócua.

A consulta pública é um recurso de participação popular, mas quando é levada a sério. Especialmente a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), a ANP (Agência Nacional do Petróleo), a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), a ANS (Agência Nacional de Saúde) têm o hábito de fazer esse tipo de consulta pública, que é levada em consideração no processo de formulação da norma. O órgão público apresenta uma minuta da proposta e as pessoas podem dizer a opinião a respeito disso: com que trechos concordam, com que trechos discordam, o que faltou incluir, o que deve ser retirado.

Do jeito que é colocado hoje no Senado, a consulta é um simulacro de participação popular, porque só existe a possibilidade do “sim” ou “não”. A proposta como um todo não é colocada na íntegra, tem que clicar para ler e ninguém lê. Então, é colocado um apelido do projeto que está sendo votado. Não é valorizado que você leia a íntegra, é valorizado que você vote por impulso para o que está escrito ali. Não há possibilidade de comentar os pontos e a consulta não é levada em consideração no processo legislativo.

A consulta pública no site do Senado foi aprovada pelo presidente Renan Calheiros em 2013. É a resolução 26/2013, que criou um mecanismo de “participação popular”, com muitas aspas, porque é igual a enquete do Uol. Esse mecanismo é para o cidadão manifestar sua opinião, sua postura sobre a proposta legislativa e dizer se vai apoiar ou recusar. E o que vai ser feito com isso? Parágrafo único do artigo 2º: “no acompanhamento da tramitação legislativa constará, em cada passo, o número de manifestações contrárias e favoráveis à matéria”. É só isso que vai acontecer: o contra e o a favor vão constar na tramitação para informação ao senador no caso, mas isso não tem obrigatoriedade nenhuma de ser levada em consideração e a gente acaba gastando uma energia enorme mobilizando pessoas.

Um milhão de pessoas vota numa proposta e acham que fizeram alguma coisa, acham que participaram do processo político, do processo democrático quando, na verdade, é completamente inócuo. É uma forma de nos anular, de nos silenciar, fazendo nos acreditar que isso tem valor em alguma escala.

O que tem valor? É muito importante que vocês expressem opinião em espaços com mais peso.
  • Escrever artigo de opinião no jornal do seu bairro, da sua cidade, da sua categoria profissional; buscar formar a opinião das pessoas através desses espaços consolidados e respeitados.
  • Ligar para os gabinetes e pedir a opinião do parlamentar, não só do seu, mas de vários, criando um certo constrangimento para que exponham a sua posição e como pretendem votar.
  • Ler o projeto de lei e apresentar, eventualmente, sugestões de emendas, trechos que você concorda ou não e enviar essas análises para os e-mails dos parlamentares.
  • Escrever para os veículos de comunicação dizendo que você quer que eles façam uma matéria explorando como deputados e senadores querem votar determinada matéria.
Isso, sim, causa uma certa pressão popular. Se um milhão de pessoas tivessem de fato se engajado a produzir informação, opinião, ligar para os gabinetes e pedir posicionamento para os seus representantes, nós teríamos um cenário de mais participação popular de fato. E isso é todo o dia, o tempo todo.

Raquel Marques
No Desacato
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Torturado processa Magno da Malta por circo da pedofilia

Folha: senador e futuro ministro da “Família” associou cobrador a pedofilia



Inocentado, homem torturado na prisão processa Malta por associá-lo a pedofilia

Luiz Alves de Lima, 45, quase não consegue ler o processo que move contra o senador Magno Malta (PR-ES). Perdeu toda a vista no olho direito, e na do esquerdo lhe restou uns 25%. Usa uma lupa.

Ele conta que a visão se foi de tanto apanhar na prisão, em 2009. Mostra os dentes: um deles é só um cotoco, pois, diz, "pegaram o alicate e foram apertando até estourar".

Luiz era cobrador de ônibus. Numa tarde de abril, Cleonice Conceição, 32, a mulher por quem se apaixonou num terminal, levou a filha deles de dois anos ao médico. Ele foi ficando preocupado, pois já era noite e nada delas.

"Aí chegou a polícia e pensei o pior, que tinha acontecido um acidente", conta. Mas não: colocaram-no numa viatura, sob acusação de estuprar a filha, com a esposa cúmplice do crime.

No terceiro dia de detenção, o senador chegou "com um batalhão de gente", imprensa inclusa, e assumiu o papel de "juiz, promotor, delegado", diz Lima. Em seu relatório, o delegado do caso atestou: Malta "manifestou-me que, por sentimento pessoal e experiência profissional, entende ser o pai da criança o autor do delito".

Ele passou nove meses no CDPC (Centro de Detenção Provisória de Cariacica), que usava contêineres como cela, situação anos depois classificada como desumana pelo Superior Tribunal de Justiça.

Diz ter sido torturado por mascarados que se revezavam no "quadrado com banheirinho" onde ficava. "Passei o aniversário num tonel cheio de gelo, botaram minha mão pra trás."

Uma notícia-crime assinada por Luiz e recebida em setembro de 2018 pelo Ministério Público Federal capixaba responsabiliza agentes do CDPC por sessões de tortura que teriam incluído "sacola na cabeça e choques".

À Folha, no escritório de seu advogado, ele afirma que não saberia identificar os algozes. O que diz com confiança é que talvez nada daquilo tivesse acontecido se não fosse pelo "circo" montado por Malta, um dos principais aliados do presidente eleito, Jair Bolsonaro, e cotado para um ministério na área social.

No mesmo mês em que Luiz foi preso, o senador prometeu no plenário que "os pedófilos desgraçados" estavam com "os dias contados".

Inocentado em todas as instâncias da Justiça, o ex-cobrador de ônibus, que ficou incapacitado após a cegueira parcial, processa o senador, o estado e o médico responsável pelo laudo que o colocou na posição de suspeito. (...)
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Símbolos

No Brasil, nestes últimos tempos, temos acumulado símbolos. Símbolos demais, infelizmente: símbolos de nosso fracasso como projeto de nação, da barbárie em que nos lançamos, da violência que não é mais apenas exercida mas também exaltada.

O maior símbolo de todos é, penso eu, Marielle Franco.

Seu assassinato foi a representação brutal do fechamento de horizontes que vivemos no país. Uma mulher negra, da periferia, combatente por uma sociedade mais justa e solidária: não há lugar para gente assim no “novo Brasil” que se está construindo.

A comoção nacional que a morte de Marielle e de seu motorista Anderson Gomes causou não foi capaz de produzir justiça nem de incendiar a resistência. Lemos aqui a insensibilidade profunda dos donos do poder e também nossa própria incapacidade de organização efetiva.

Vilipendiar a memória de Marielle tornou-se um dos esportes favoritos da extrema-direita. Logo após o crime, as fabricações do MBL e de outros grupos da mesma laia deram a todos um vislumbre do que é a sórdida indústria das “fake news”. E a imagem dos dois brutamontes triunfantes quebrando a placa em homenagem à vereadora, durante a campanha do candidato vitorioso ao governo do Rio, ilustra com perfeição o Brasil em que estamos vivendo.

Quando Marielle foi morta, já começávamos a intuir. Com o passar das semanas, o descaso e a cumplicidade cada vez mais evidentes da autoridade policial reforçaram a impressão. E hoje não há mais margem para dúvida: aquele crime sintetizou com perfeição o momento que vivemos, o momento da travessia do golpe para o fascismo.

E, para completar, no final de outubro, sagrou-se vencedor das eleições presidenciais o único político de expressão nacional que não foi capaz de um gesto mínimo de humanidade: lamentar e condenar a execução de Marielle.

Mas símbolos são cheios de facetas, permitem múltiplas apropriações. Eles querem fazer do descaso e da desumanidade um emblema da própria vitória. Mais de oito meses se passaram e a esperança de que a justiça será feita se dissipa. Eles jogam isso na nossa cara, eles mostram que não ligam para a justiça, nem para as aparências, nem para nada. A morte de Marielle e a impunidade dos assassinos compõem seu símbolo.

Já a Marielle que nos serve de símbolo não é a mártir que tombou pela mão covarde de bandidos, mas a pessoa que manteve a espinha ereta, que cresceu sem jamais esquecer quem era, que mostrou que era possível lutar, resistir e construir coletivamente um futuro diferente, que se multiplica por inspirar com sua vida uma nova geração de ativistas. A Marielle que está “presente!”, como nos acostumamos a responder em tantas manifestações pelo Brasil afora.

Pensei tudo isso ao esbarrar, por acaso, num poema triste e poderoso da grande Renata Pallottini:
OS MORTOS

Os mortos estão deitados
mas os seus nomes tremulam sobre as campinas como flâmulas,
voam sobre as campinas a memória de suas faces
e a brancura de seus ossos perduráveis;

dizei, dizei dos mortos o que vos parecer,
eles estão deitados sob o limo com os olhos fechados,
com fibras e raízes onde estavam os olhos,
e com sumos e chuvas no lugar que era a boca;

Só a nossa lembrança os reúne e os congrega,
somos nós nossos mortos e estamos enterrados
e jazemos nós mesmos misturados às flores.
Dizei portanto as sentenças e os crimes,
já não podeis condenar-nos à morte.
Já pouco importa.

Porque estamos deitados,
vitoriosos e sós, imaculados, livres,
com as mãos cheias de terra e de silêncio.
Luís Felipe Miguel
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Queima de confiança


Entre a eleição e a posse, presidentes eleitos transpiram legitimidade e nadam num mar de confiança e boa vontade. Nos primeiros cem dias de governo, vivem a lua de mel com o eleitorado e com as instituições. Jair Bolsonaro está conseguindo dilapidar seu crédito de confiança com o acúmulo de erros e precipitações na fase preliminar: com decisões erráticas sobre a estrutura administrativa, com o trato negligente das relações com o Congresso e com anúncios impetuosos que geram consequências nocivas, seja para grupos econômicos ou para a população, a exemplo do atrito com os países árabes e agora com a decisão de Cuba, de sair do programa Mais Médicos em resposta às suas declarações ameaçadoras e depreciativas.

A escolha do embaixador Ernesto Araújo para chefiar o Itamaraty, um diplomata militante, portador de um discurso místico-religioso e alinhado ao trumpismo, desconcertou meio mundo e obscureceu as reações à saída de Cuba do Mais Médicos, medida que vai prejudicar milhões de brasileiros pobres nos grotões do país. Foi muita pretensão achar que Cuba, um país que nunca se curvou sequer aos Estados Unidos, ficaria engolindo humilhações de Bolsonaro para manter um programa de cooperação com o qual o Brasil ganha muito mais.

A Associação Brasileira de Municípios – AMB, a mais antiga entidade municipalista, presidida por Ary Vanazzi, divulgou carta aberta a Bolsonaro pedindo que ele tente reverter a decisão cubana, o que ele naturalmente não fará. Foi a AMB, diz a nota, que pediu socorro à ex-presidente Dilma e ao então ministro da Saúde, Alexandre Padilha, pois mesmo oferecendo salários maiores, não conseguiam contratar médicos para o interior. Hoje são os 8.500 cubanos que atuam nos “burgos podres”, como dizia Tancredo, cidades com menos de 20 mil habitantes, viajam de canoa pelos rios amazônicos, visitam tribos indígenas e aldeias perdidas. “São lugares, senhor presidente eleito, que viram, muitas vezes pela primeira vez, um médico”.

Dados da carta: mais de 700 municípios tiveram um médico pela primeira vez graças ao programa. Em 1.100 deles, toda cobertura de saúde vem do Mais Médicos. Em 1.575, só atuam médicos cubanos, que estão presentes em 2.885 municípios, a maioria no Norte e semiárido nordestino. Todos estes postos foram recusados por médicos brasileiros. Segundo pesquisas, 95% dos brasileiros aprovam o programa. Relativamente à proposta de Bolsonaro, de que médicos estrangeiros prestem o exame Revalida para atuarem no país, a AMB lembra que isso lhes dará o direito de atuar nacionalmente. Logo, irão optar pelos grandes centros. A Frente Nacional de Prefeitos, presidida por Jonas Donizete, também protestou. Assim, Bolsonaro queimou confiança e azedou de saída sua relação com os prefeitos.

A escolha do chanceler reacendeu a luz vermelha em setores diversos, do Congresso aos exportadores. Ela foi coerente com o que Bolsonaro chamou de “momento de regeneração que o Brasil vive hoje”, se isso significar a negação de tudo o que estava em curso e a adoção do contrário absoluto. Se assim for, podem ser dinamitadas pontes construídas com anos de trabalho pela diplomacia brasileira, reconhecida como uma das melhores do mundo, pela qualidade de seus negociadores e agentes.

O que houve nos governos petistas não foi a esquerdização do Itamaraty, mas a legítima orientação da política externa para as prioridades governamentais: integração latino-americana, relações Sul-Sul e busca de novos mercados, como o do mundo árabe. Foram as cúpulas realizadas por Lula-Celso Amorim que abriram ao Brasil aquele mercado. Será também legítimo que Bolsonaro imprima sua orientação, conferindo prioridade às relações com os Estados Unidos, por exemplo, mas com profissionalismo, não com militância ideológica.

A dimensão de Araújo diante do cargo foi dada pela nota em que ele promete dirigir o Itamaraty com “amor e coragem” e proclamando que “a mão firme do presidente Bolsonaro nos guiará”. Oh, tempos!
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O Brasil vai ser destruído. Vamos voltar à Idade Média

O BRASIL VAI SER DESTRUÍDO. VAMOS VOLTAR À IDADE MÉDIA.

HOMENS TOSCOS, INCULTOS E TRUCULENTOS IRÃO TENTAR GOVERNAR UMA JOVEM NAÇÃO, QUE TINHA TUDO PARA SER DESTAQUE EM NÍVEL INTERNACIONAL.

Parte do nosso povo escolheu a ignorância e vai sofrer pela absurda escolha. A infelicidade vai contagiar todos nós…

Até hoje não consigo entender como isto pode acontecer. Até hoje não consegui “absorver o golpe”.

Coisa estranha: já não me sinto “em casa” … Parece que não mais estou em meu país …

A minha inadaptação a este modelo de sociedade está se acentuando de forma absurda !!!

Vejo as pessoas andando nas ruas e penso que são meus inimigos, que eles elegeram o “terror” para todos nós que sempre cultivamos o pensamento de esquerda, que sempre lutamos por justiça social.

Vamos ser perseguidos em nosso país por esta onda de obscurantismo. Fico atormentado por este incômodo sentimento de impotência.

Sinceramente, não sei o que fazer … Sinceramente, não sei onde isto vai parar, como poderemos sobreviver com um governo tão tosco e de extrema direita.

Como conviver com um fundamentalismo religioso e com um nacionalismo irracional?

Como aceitar o fim do pensamento crítico e do fomento à atividade cultural?

Como aceitar que a ciência seja substituída por ideias e crenças medievais?

Vai ser doloroso ver novamente o nosso povo andando de cabeça baixa, angustiado e calado por um governo autoritário e repressivo.

Vamos sentir saudades da época em que tínhamos esperanças e éramos otimistas.

Continuo culpando: a nossa mídia empresarial, o nosso sistema de justiça (Poder Judiciário e Ministério Público), muitos pastores de igrejas evangélicas e esta nossa elite empresarial, egoísta, hipócrita e reacionária, dentre outras forças sociais espúrias.

O texto abaixo é um alerta para o que vem por aí, para a tragédia que se avizinha.

De qualquer forma, vamos resistir. Vamos resistir de qualquer forma !!!

PS: o professor Afrânio recomendou o artigo do ex-ministro Eugênio Aragão publicado no DCM.

Afrânio Silva Jardim, professor de Direito da UERJ
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“Somos todos Zaire”, um filme de guerrilha realizado contra a censura e o autoritarismo.


Antes de tudo, Somos Todos Zaire, independentemente de sua tragédia de pano de fundo, que vem a macular o que restava da inocência do mundo, é um filme de resistência, que se faz urgente, uma peça contra o atual estado de coisas no qual mergulhou o Brasil.

Não se trata de um panfleto, absolutamente. Aliás, vendo e revendo o filme nos seus 20 minutos, não seria exagero afirmar que ele é capaz de revelar o quanto os estados ditatoriais podem produzir tragédias invisíveis e muitas vezes inomináveis, sem falar das calamidades socioeconômicas.

Mais do que aqueles quatrocentos e tantos mortos vítimas da ditadura militar que maltratou o Brasil (1964-1985), o preço que se paga ainda hoje é imenso. Sim, não é exagero creditar ao Estado de Exceção que durou mais de duas décadas os mais de 60 mil assassinatos registados anualmente nestas terras, entre outras mazelas.

Fundamental, também, se faz alertar a respeito dos impactos negativos que poderiam causar numa sociedade classista e concentradora de renda, como a nossa, a afirmação da extrema-direita. Além do mais, seria um retrocesso brutal, levando-se em conta que, mesmo com alguns equívocos, os recentes governos de centro-esquerda elevaram e melhoram as condições socioeconômicos da população brasileira.

Voltando ao filme, o título, naturalmente, não deixa de ser sugestivo, para não dizer emblemático. Ainda que muitos das novas gerações não saibam ou sequer tenham ouvido falar no Zaire, atual República do Congo, na África Central, tal país ganhou as manchetes nos anos 1960 e 1970. E isso se deu, entre outras coisas, por conta da excentricidade do ditador Joseph-Desiré Mobutu (1930-1997), conhecido por usar um barrete de pele de leopardo e uma bengala.

Apoiado por boa parte dos países ocidentais, o que o ajudou a se manter no poder de 1965 a 1997, quando fugiu do Congo, ostentando a condição de bilionário, em 1974 o Zaire de Mobutu disputou a Copa do Mundo, na então Alemanha Ocidental. Jornalista e apaixonado por esportes, tanto que promoveu naquele mesmo ano a luta de boxe do século entre Mohammad Ali e George Foreman, disputada em Kinshasa, o ditador prometeu aos seus jogadores mundos e fundos caso eles se destacassem na competição.

No entanto, depois da classificação heroica nas eliminatórias – até então, a última equipe africana a disputar uma Copa do Mundo havia sido o Egito, em 1934 –, o Zaire decepcionou e perdeu para a Escócia por 2 a 0 e, depois, foi goleado pela então Iugoslávia por inacreditáveis 9 a 0. Mobutu não aceitou a derrota e, naturalmente, ameaçou os seus jogadores caso eles perdessem por mais de três gols de diferença para o blasonado Brasil.

Por sua vez, o Brasil de Zagallo e Rivelino fazia até então uma campanha acanhada, vindo de empates em 0 a 0 contra Iugoslávia e Escócia, e precisava vencer o Zaire por no mínimo três gols de diferença para se classificar. Caso o escrete canarinho caísse na primeira fase, seria um desastre para a ditadura, que soube muito bem capitalizar o tricampeonato da Seleção Brasileira no México, em 1970.

O filme “Somos Todos Zaire” se passa no dia 22 de junho de 1974, justamente na manhã que antecede ao jogo e durante o início da tarde, quando o embate acontece. As cenas principais se dão em um bordel decadente frequentado por militares de alta patente, os quais são saudosistas de Médici, que naquele ano passou o bastão para Geisel; a outra cena, um plano sequência de mais de dez minutos, se passa na sala de um apartamento no qual mãe dialoga com o filho a respeito do sumiço do marido, um professor universitário, obra da ditadura militar.

Com cenografia e figurinos de época, realçados por uma luz apurada, o filme é pontuado em grande parte pela narração do jogo, primeiro no rádio, quando o locutor situa o tempo histórico e exalta a ditadura. Depois, no bordel, com a narração da partida na TV como pano de fundo, sente-se o peso da ditadura, demonstrado na fala das prostitutas e, também, numa foto de Médici, entre outras referências daquele período brutal.

Por fim, é na sala do apartamento, na conversa entre mãe e filho, que se encontraram as chaves para a compreensão de um tempo histórico marcado por tragédias visíveis e invisíveis. Porque, como revela o filme na sua sutileza que beira a perversão, os estados ditatoriais são capazes de gerar feridas difíceis de cicatrizar, algo talvez simbolicamente ainda mais violento e indesejado do que o estupro de uma inteira nação.

Raul Moreira, cineasta

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Globo: Aécio recebia propina em caixas de sabão

Dinheiro já chegava lavado. Quá, quá, quá!


Propina foi entregue em caixas de sabão para primo de Aécio

Dono de um supermercado de Belo Horizonte usado pela JBS para pagar propina a políticos, o empresário Waldir Rocha Pena revelou, em depoimento sigiloso obtido pelo GLOBO, que fez entregas de dinheiro vivo a um primo do senador Aécio Neves (PSDB-MG), Frederico Pacheco, e a um ex-assessor do senador Zezé Perrella (MDB-MG), Mendherson Souza. Essas entregas, afirmou o empresário, foram feitas em caixas de sabão em pó. Os citados negam as acusações.

O relato corrobora a delação da JBS e constitui mais uma prova de pagamento de propina aos políticos. O depoimento foi dado por Waldir à Receita Federal e enviado à Procuradoria-Geral da República (PGR), a quem cabe investigar Aécio e Perrella no caso.

As informações prestadas por Waldir também foram compartilhadas com a Polícia Federal de Minas Gerais e usadas na deflagração da Operação Capitu –que apura corrupção no Ministério da Agricultura e prendeu temporariamente o dono da JBS, Joesley Batista, e outros envolvidos no caso.

Em sua delação premiada, o ex-diretor da JBS Ricardo Saud relatou que operacionalizou repasses para Aécio Neves por meio de operações financeiras com um supermercado de Belo Horizonte e a consequente entrega em dinheiro para Frederico. Na delação, Saud revelou ter repassado cerca de R$ 4 milhões para o tucano nessas operações.

Waldir Pena, um dos sócios da empresa Supermercado BH Comércio de Alimentos, confirmou as informações delatadas por Saud e deu novos detalhes ao caso. Embora o empresário não cite valores, a investigação obteve documentos contábeis que apontam que as entregas em dinheiro vivo totalizaram cerca de R$ 6 milhões. As operações foram feitas em 2014, ano eleitoral. (...)

No CAf
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Qual o significado da patética indicação para chefiar o Itamaraty?

https://www.revistaforum.com.br/blogdorovai/2018/11/16/qual-o-significado-da-patetica-indicacao-para-chefiar-o-itamaraty/

Se há um lugar que não era necessário levar a bizarrice ao extremo era o Itamaraty. E se até lá prevaleceu essa lógica, imaginem no resto


O Brasil não é um país para amadores. Essa frase não é nova e nem minha. Você já deve tê-la ouvido por aí milhares de vezes. Esqueça-a. A vitória de Bolsonaro na eleição presidencial e a indicação de Ernesto Araújo para chefiar o Itamaraty desmontam completamente essa ideia que somos mais complexos do que parecemos.

Não há nada mais obtuso para um governo do que escolher um ser patético para comandar as Relações Exteriores.

E isso acaba de acontecer a partir de uma indicação de ninguém menos do que Olavo de Carvalho. Um maluco alucinado que se autodenomina como filósofo e que é o mentor ideológico da família Bolsonaro.

Você também já deve ter lido muita coisa sobre este tal Ernesto Araújo. Mas não é só você. O “The Guardian”, considerado o mais respeitado jornal da Inglaterra e um dos mais respeitados do mundo, publicou reportagem nessa quinta (15) com o título: “Novo ministro das Relações Exteriores do Brasil acredita que mudança climática é uma trama marxista”.

Imaginem a repercussão desta matéria não só na Inglaterra, mas em todos os cantos civilizados do planeta.

Imaginem a vergonha que é para a diplomacia de carreira ter de explicar em cada canto do mundo que o novo chefe do Itamaraty pensa isso, mas que o Brasil é um país legal.

Imaginem o que é para o embaixador da Alemanha ter que explicar que o novo chefe do Itamaraty escreveu um artigo intitulado “Trump e o Ocidente”, no qual afirma que o nazismo é uma ideologia de esquerda.

“E, na crise espiritual dos anos 20, tomou forma um movimento que pioraria ainda mais a situação para o lado nacionalismo: o socialismo se dividiu em duas correntes, uma que permaneceu antinacionalista; e outra que, para chegar ao poder, na Itália e na Alemanha, sequestrou o nacionalismo, deturpou e escravizou o sentimento nacional genuíno para seus fins malévolos, gerando o fascismo e o nazismo (nazismo = nacional socialismo, ou seja, o socialismo nacionalista)”.

Sim, este trecho acima foi extraído deste artigo de Ernesto Araújo. Ele diz que o nazismo e o fascismo são o socialismo nacionalista. Exatamente da forma como você leu, caro amigo.

Enfim, os amadores são melhores que isso. O que temos no governo são vermes que usam a mentira como arma de propaganda. E a escolha de Ernesto Araújo talvez seja simbólica deste novo momento.

Ao escolhê-lo para chefiar o Itamaraty a família Bolsonaro (sim, a família, porque cada vez fica mais claro que os filhos governam tanto quanto o pai) dão um recado claro ao país e ao mundo. Eles não estavam brincando. Tudo que falaram a vida inteira foi a sério. E vão buscar implantar todas as maluquices que defendiam, por mais bizarras que sejam.

Ninguém poderá dizer que eles não tinham avisado. E o Brasil terá um governo da estupidez em estado bruto.

Esse é o recado claro e direto da indicação de Ernesto Araújo. Afinal, se há um lugar que não era necessário levar a bizarrice ao extremo era o Itamaraty. E se até lá prevaleceu essa lógica, imaginem no resto.

Podem “jair” se acostumando para o que vai vir por aí. Serão dias bizarros, movidos a ódio e estupidez.
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“O PT caminhou fortemente para o Nordeste”

Segundo Alberto Carlos de Almeida: “Bancada do PT na Câmara eleita no Nordeste é maior ou próxima da soma das bancadas de SP e MG desde 2006”

A força do PT no Nordeste
Foto: Ricardo Stuckert
Nas últimas eleições presidenciais, Nordeste se consolidou, definitivamente, como o principal reduto do Partido dos Trabalhadores no Brasil. Essa evolução do PT na região não é um fato isolado e nem recente. Segundo informação do cientista político Alberto Carlos de Almeida, “desde 2006 a bancada de deputados federais do PT eleita no Nordeste ou é maior ou é muito próxima da soma das bancadas de São Paulo e Minas. O PT caminhou fortemente para o Nordeste”, tuitou.

Essa realidade da região Nordeste vem muito amparada nas muitas conquistas sociais proporcionadas pelos governos do PT, tanto de Luiz Inácio Lula da Silva quanto de Dilma Rousseff. Um dos destaques é o Bolsa Família, que ajudou a retirar milhões de pessoas da linha da miséria, beneficiando hoje quase 14 milhões de brasileiros.

Vale ressaltar que o PT obteve importantes vitórias nas últimas eleições. Além de ter conquistado a maior bancada da Câmara dos Deputados, com 56 parlamentares, o partido elegeu o maior número de governadores.

Serão, a partir de 2019, quatro estados da federação comandados pelo partido do ex-presidente Lula: Bahia, com Rui Costa; Piauí, com Wellington Dias; Ceará, com Camilo Santana e Rio Grande do Norte, com Fátima Bezerra – a única mulher eleita governadora em 2018.

Acompanhem a evolução:



No Fórum
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A perigosa maluquice ideológica de Bolsonaro


Uma das definições de ideologia no dicionário Michaelis é: “maneira de pensar que caracteriza um indivíduo ou um grupo de pessoas, um governo, um partido etc.” Decorre daí que cada indivíduo, grupo ou etc., por ter sua própria maneira de pensar, tem sua ideologia.

Pois a direita brasileira passou, faz algum tempo, a usar o termo ideologia como palavrão. Os porta-vozes do conservadorismo costumam definir tudo que não se alinha ao seu modo de pensar como “ideológico”.

Esse truque argumentativo tem como pressuposto lógico a existência de indivíduos ou grupos que não possuem ideologia alguma.

Isso é, além de obviamente falso, extremamente autoritário.

Se somente os adversários são motivados por sua ideologia, enquanto o nosso lado atua apenas tecnicamente, a “verdade” – vinda sabe-se lá de onde – só pode estar ao nosso lado, o lado onde não há interesses ideológicos por trás das ideias e ações.

Parece uma estratégia um tanto quanto rudimentar, mas, nesse período de trevas, acaba funcionando.

O tal “Escola Sem Partido” é um belo exemplo do forte “viés ideológico” que anima as movimentações da direita. A pretexto de impedir uma delirante doutrinação esquerdista nas escolas, busca-se, na verdade, criar um clima de censura, dedurismo e medo em sala de aula, para que professores sintam-se intimidados e, assim submetam-se à ideologia (tcharam!) dominante.

A história de nomear apenas “técnicos” para os ministérios, tão propalada pela campanha de Bolsonaro, é outro exemplo. Sérgio Moro não é filiado a nenhum partido, mas é evidente que sua escolha é, além de uma indecorosa paga pelos serviços prestados à candidatura Bolsonaro, resultado do alinhamento ideológico de Moro com o projeto de extrema-direita que venceu as eleições. Punitivismo medieval, desprezo pelos direitos humanos, processo penal do inimigo e do espetáculo, além de uma patente ojeriza à esquerda, são todos elementos que unem, umbilical e ideologicamente, Moro a Bolsonaro.

É evidente, dessa forma, que não há indivíduo ou grupo que não tenha suas ações influenciadas pela própria ideologia.

É claro, contudo, que há casos em que a ideologia faz mais do que apenas influenciar as ações e acaba atropelando tudo que encontra pela frente. Inclusive a lógica e o bom senso.

O programa de Bolsonaro pode ser caracterizado, seguramente, como de extrema-direita, como comprova o alinhamento com a direita do partido de direita (perdoem a repetição, é para realçar) dos EUA, o republicano. É a ala de Donald Trump.

Pois Bolsonaro nem bem foi eleito e já conseguiu a proeza de provocar estragos nada desprezíveis na política externa, colocando a ideologia do seu grupo bem à frente dos interesses do país, como veremos.

Antes, analisemos brevemente a política externa dos governos do PT, acusada recorrentemente por Bolsonaro e seu nightmare team de ter “viés ideológico”. O presidente eleito falou, inclusive, que busca um chanceler “sem viés ideológico, nem de direita nem de esquerda”.

A política externa dos governos petistas foi marcada pelo multilateralismo: fortalecimento do Mercosul, aprofundamento das relações com países da África e Ásia, instituição do BRICS como mecanismo internacional. Tudo isso sem, de forma alguma, cortar relações com os EUA ou a União Europeia.

Tratou-se de um movimento bastante inteligente. A ideia de um mundo multilateral é, por óbvio, benéfica para todos que não sejam, atualmente, grandes potências, como é o nosso caso.

O BRICS, por exemplo, tem potencial para ser um bloco de países que faça frente ao poderio econômico dos EUA e da UE. O Novo Banco de Desenvolvimento, conhecido como Banco dos BRICS, nasceu para ser uma audaciosa alternativa de financiamento para os países em desenvolvimento, considerando que quem domina o FMI e o Banco Mundial são os países já desenvolvidos.

O Brasil, fundador do bloco e um dos chamados “cinco grandes”, alçou-se a respeitável player do jogo da geopolítica mundial ao juntar forças com os demais países dos BRICS.

Não se trata, portanto, de “viés ideológico” esquerdista aqui: qualquer análise minimamente sensata concluirá, seguramente, que a política externa foi um dos acertos do período petista na presidência.

O governo Temer deu uma guinada nessa bem-sucedida estratégia, passando a alinhar-se caninamente aos EUA e a ser escanteado dentro dos BRICS.

Bolsonaro não precisou nem ser empossado para demonstrar que o vira-latismo clássico da direita na política externa alcançará, em seu governo, níveis astronômicos – além de potencialmente catastróficos para a economia do país. Senão, vejamos.

Paulo Guedes afirmou recentemente, a uma correspondente do jornal argentino Clarín, o seguinte:

O Mercosul não é prioridade. Não, não é prioridade. Tá certo? É isso que você quer ouvir? Queria ouvir isso? Você tá vendo que tem um estilo que combina com o do presidente, né? Porque a gente fala a verdade, a gente não tá preocupado em te agradar.

As reações à grosseria – travestida de sinceridade – proferida por Guedes não foram nada boas.

O presidente da delegação do Parlamento Europeu para as relações com o Mercosul, deputado Francisco Assis, manifestou preocupação: “Há uma enorme incógnita sobre qual será o futuro do Mercosul e, portanto, sobre como ocorrerá essa relação de negociação com a União Europeia”. O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, em negociação há quase 20 anos e agora na reta final, corre riscos com a chegada de Bolsonaro ao poder.

Juan Pablo Lohlé, ex-embaixador da Argentina no Brasil, disse que as declarações geraram “preocupação e surpresa”.

A justificativa de Paulo Guedes para essa postura é tão furada quanto caricata: o Brasil teria ficado “prisioneiro de alianças ideológicas”. “Você só negocia com quem tiver inclinações bolivarianas. O Mercosul foi feito totalmente ideológico. É uma prisão cognitiva”, disse ele.

A argumentação de Guedes faz tanto sentido quanto a expressão “prisão cognitiva” nesse contexto. Ou seja, nenhum. O embaixador alemão no Brasil, Georg Witschel, foi didático ao comentar a celeuma:

O Brasil tem posição mais forte para negociar tratados de livre comércio, com EUA, UE e outros, a partir do Mercosul. Não é um bom negócio para um país como o Brasil negociar sozinho, sobretudo com a China, o Japão e EUA. Nunca terão pé de igualdade.O mesmo vale para a Alemanha, como membro da UE, ela se encontra em pé de igualdade com a China ou os EUA. Não faz sentido buscar algo de maneira solitária, mas sim unir-se.

Será que a equipe de Bolsonaro não percebe essa obviedade? Tudo indica que sim, percebe, pois é, perdoem a redundância, óbvio demais que, para negociar com gigantes econômicos, faz muito mais sentido unir-se a outros países e formar blocos, como faz a UE.

O que temos aqui é pura maluquice ideológica. Em nome de uma luta quixotesca contra moinhos de vento – comunismo, bolivarianismo, etc. – e do alinhamento com os malucos do partido republicano dos EUA, Bolsonaro aparentemente implodirá bons acordos comerciais alinhavados pelo Brasil.

Bolsonaro conseguiu também a proeza de irritar, com suas declarações e sua visita a Taiwan, a China, apenas o maior parceiro comercial do Brasil. Um editorial publicado no China Daily, jornal que é uma espécie de porta-voz do governo chinês, alertou: as críticas de Bolsonaro a Pequim “podem servir para algum objetivo político específico, mas o custo econômico pode ser duro para a economia brasileira, que acaba de sair de sua pior recessão da história”.

O plano de transferir a embaixada do Brasil em Israel de Tel Aviv para Jerusalém é outra patacoada bolsonarista com potencial explosivo. A questão é delicadíssima, envolvendo uma guerra religiosa histórica entre árabes e israelenses.

A absoluta maioria dos países mantêm suas embaixadas em Tel Aviv, ao menos até que se resolva a questão da divisão de Jerusalém entre judeus e palestinos. Apenas os EUA, sob Trump, seguido pela Guatemala, transferiram suas embaixadas para Jersualém.

Pois o tresloucado furor ideológico de Bolsonaro fez com que ele corresse a anunciar, poucos dias após sua vitória na eleição, que pretende transferir a embaixada brasileira em Israel para Jerusalém. A vantagem dessa medida para o Brasil é exatamente nenhuma, a não ser agradar, de graça, Donald Trump.

O estrago, por sua vez, pode ser enorme.

Pouco tempo depois de Bolsonaro anunciar seu plano, o Egito cancelou uma visita oficial que faria o ministro das Relações Exteriores do Brasil. O cancelamento foi feito em cima da hora e sem sugestão de uma nova data, o que não é comum nas relações diplomáticas. Foi uma evidente retaliação às intenções de Bolsonaro.

O mercado árabe é o segundo maior mercado de exportação de alimentos do Brasil, sendo que nosso país acumulou um superávit de US$ 7,1 bilhões com as 22 nações da Liga Árabe em 2017. Tratou-se de 10% do superávit comercial total do Brasil, enquanto que com Israel foi registrado um déficit comercial de US$ 419 milhões.

Ou seja, a atitude de Bolsonaro não faz sentido algum, seja na área econômica, seja na diplomática. Trata-se, apenas, de maluquice ideológica com potencial explosivo para o país.

Não esqueçamos que todas essas lunáticas movimentações de Bolsonaro ocorreram antes do início do seu mandato. Se já provocaram consideráveis estragos nas nossas relações diplomáticas, imaginem o pontecial de dano a partir de 1° de janeiro de 2019, quando o presidente eleito assume de vez o comando do país.

Assustador, não?

É um padrão no comportamento humano apontar defeitos nos outros os quais o indivíduo carrega em si mesmo.

Bolsonaro e sua trupe extrapolam esse padrão para níveis inimagináveis, tanto na intensidade quanto na escala.

Enquanto gritam que vão acabar com o “viés ideológico”, ameaçam transformar o Brasil num pária econômico e diplomático ao colocar sua estúpida, cega e subserviente ideologia à frente dos interesses nacionais.

Pedro Breier, colunista d'O Cafezinho, é formado em direito mas gosta mesmo é de jornalismo. Nasceu no Rio Grande do Sul e hoje vive em São Paulo.
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Da arte de desaparecer

"A universidade é um locus de debate. Formamos cidadãos." Em outro contexto, essas palavras do reitor da Universidade de São Paulo, Vahan Agopyan, enunciadas em entrevista desta semana, passariam por uma constatação trivial sem maiores consequências. Hoje, ela expressa uma posição corajosa a respeito da pluralidade e da liberdade inerentes à universidade como projeto.

Essa mudança do peso das palavras denuncia como o Brasil conhecerá, a partir de agora, uma batalha ideológica clara capitaneada pelo seu novo desgoverno.

Ela está apresentada desde o início, com incitações para que alunos denunciem "professores doutrinadores", com a escolha de entregar o Ministério das Relações Exteriores a alguém que se julga em uma cruzada santa contra o "marxismo cultural".

Aqueles que acreditaram que a mesma ideia de "ideologia" havia sido mandada para fora da história terão ocasião de rever em profundidade suas análises nos próximos anos.

De fato, teremos um governo que procurará levar as pessoas a acreditar que o verdadeiro responsável pela crise nacional — por essa crise social, política e econômica que marca o país — não é o sistema financeiro nem a classe política e seus movimentos suicidas. O verdadeiro responsável pela crise nacional é o professor de história. O mesmo que teria minado os fundamentos da família, dos valores pátrios e das grandes conquistas da civilização brasileira.

Contra ele, há de se investir as forças sagradas da redenção espiritual dos trópicos.

Por isso, enquanto o desgoverno que virá bate cabeça para saber o que fazer com a máquina do Estado e terceiriza suas decisões econômicas, usa seu tempo para discutir questões do Enem, para prometer que irá velar nossas crianças contra a "ideologia de gênero". Ou seja, há coisas que o desgoverno não sabe, mas há coisas que ele sabe muito bem e começará a colocar em operação já nos primeiros dias.

Nada disso pode ser compreendido sem levar em conta o tipo de violência que caracteriza o Brasil. Pois o Brasil é, acima de tudo, uma forma de violência. Na verdade, uma violência baseada no desaparecimento.

Aqui, não são apenas os corpos que desaparecem sem deixar marcas — corpos vítimas de genocídios e de uma gestão social da brutalidade. São as classes vulneráveis que desaparecem sendo expulsas do espaço público de visibilidade.

Pois o que significa, por exemplo, lutar contra a "ideologia de gênero" a não ser retirar certos corpos do campo social de afecções, impedir que eles me afetem, permitir que eu possa continuar a viver como se eles não existissem? O debate não é sobre "valores". Ele é sobre práticas de desaparecimento.

Mas essa violência da desaparição é ainda mais profunda. Ela tem como seu espaço natural a história. "Quem controla o passado controla o futuro", escreveu George Orwell em "1984". Veremos como se tratará a partir de agora de fazer desaparecer as lutas que compuseram nossa história, as resistências violentas que nos marcam.

Fazer desaparecer até mesmo uma ditadura corrupta que agora será chamada de "movimento militar" será naturalizada como uma outra forma de governo qualquer.

Tudo isso nos mostra como essa regressão que o Brasil vive é o segundo capítulo de uma história que começou na ditadura militar. Um dos setores que a levaram a cabo tinha o diagnóstico de que o grande erro então foi não ter feito a batalha pela hegemonia cultural, foi ter deixado a hegemonia cultura "às esquerdas".

A ironia de tudo isso é que alguém aqui aprendeu claramente a lição de Gramsci, e não foram exatamente as esquerdas. Trata-se, então, de retomar essa dinâmica do ponto no qual ela foi parada. Daí porque todos os discursos parecem remeter a lutas passadas.

Isso é apenas uma prova de que, como dizia Freud, nunca se vive totalmente no presente. As verdadeiras lutas políticas são lutas de inscrição e disposição. Já se disse uma vez que, nessa forma de conflito, nem os mortos estão salvos.

Vladimir Safatle, Professor de filosofia da USP, autor de “O Circuito dos Afetos: Corpos Políticos, Desamparo e o Fim do Indivíduo”.
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Como ser oposição ao governo Bolsonaro pela esquerda e pelas forças democráticas


O terremoto que se abateu sobre as forças democráticas e a esquerda no Brasil com a eleição de Jair Bolsonaro está criando uma névoa em torno das alternativas de oposição democrática ao próximo governo. E elas precisam ser discutidas. Duas alternativas estão sobre a mesa e é necessário analisá-las cuidadosamente. A primeira análise diagnostica o quase fim da democracia no Brasil, a ascensão de um governo fascista e coloca o problema da mobilização contra o governo fora do campo institucional (vide por exemplo a entrevista da historiadora francesa ChirioMaud a Folha de S. Paulo ou a recente entrevista de Paulo Arantes ao Brasil de Fato).Na minha opinião,essa análise tem alguns elementos reais que podem ou não ocorrer nos próximos anos, mas ela renuncia à ação política capaz de evitar que esta configuração política negativa ou a ingovernabilidade absoluta se efetivem. Alternativas para que isso não ocorra estão à mão e têm que ser discutidas pelas forças democráticas no Brasil. É isso que me leva à segunda alternativa, ação concertada das forças democráticas no campo institucional associada à forte mobilização da sociedade civil e dos movimentos sociais. Essa me parece a via para conter o Bolsonarismo e suas propostas mais radicais.

Vale a pena analisar a vitória de Jair Bolsonaro e as forças que o apoiaram para tentar refletir o que seria a oposição ao seu governo e às forças que ele mobiliza fora do campo institucional. Por mais surpreendente que seja a vitória eleitoral de Jair Bolsonaro, ela está diretamente ligada a duas grandes ficções produzidas ad naseum pela grande mídia nos últimos anos: de um lado, a ideia que a corrupção no Brasil está ligada principalmente ao campo de esquerda, em especial ao Partido dos Trabalhadores, e de outro que todos os problemasda economia foram criados pelo governo Dilma, apesar de há quatro anos estarmos passando por uma política de ajuste liberal que penaliza os gastos socais e compromete as finanças da população trabalhadora. Todos os elementos de mediação desta análise foram obscurecidos pelo discurso político, desde o forte envolvimento das forças de dentro com a corrupção, até os limites de uma abordagem ortodoxa da economia que surpreendentemente foi colocada pela primeira vez pelo articulista do New York Times, Paul Krugman. O discurso sem mediações sobre a corrupção e a economia permitiu que as forças do sistema judicial, policial e do mercado acabassem sendo os principais eleitores  em uma campanha despolitizada que não passou por instâncias públicas de discussão. Pelo contrário, ela passou apenas  pelas igrejas e pelas listas privadas de whatasapp. Assim, há um enorme espaço de discussão sobre as políticas de estado como a educação, que estão sob ataque do presidente eleito, ao lado dos direitos garantidos constitucionalmente, dos direitos sociais e do meio-ambiente, que também parecem estar sob fogo cerrado. A questão que se coloca é: como organizar institucionalmente uma oposição que vá além da contestação/reclamação nas redes sociais? Aqui vão algumas ideias.

Me parece bastante inócua a concepção bastante difundida nas últimas semanas, que o STF sozinho poderá ou irá querer fazer oposição a todos esses aspectos do governo Bolsonaro. Em primeiro lugar, ele não poderá fazê-lo porque uma parte da agenda deste governo será determinada no Congresso e não é concebível que o STF declare inconstitucionais todas as matérias que porventura o Congresso venha a aprovar. Assim, é preciso outra estratégia que combine os elementos contra majoritários do poder judiciário com as formas de maioria próprias ao sistema político. Me parece que uma aliança entre o Senado e o STF em questões fundamentais pode surgir como a âncora da democracia brasileira neste momento. O Senado desponta como força relevante por diversos motivos: porque ele está menos exposto aos arroubos da eleição de 2018. Assim, diversas lideranças políticas de centro estão presentes no Senado,como Tasso Jereissati, Antônio Anastasia, Paulo Rocha, Humberto Costa e outros eleitos como Cid Gomes, Jaques Wagner e Renan Calheiros parecem ser os nomes de influência no Senado. Entre os que continuarão os seus mandatos e os recentemente eleitos, o Senado pode exercer um papel moderador em propostas do novo governo como “Escola Sem Partido” ou “Carteira de trabalho verde e amarela”. Na verdade, é possível afirmar que o Senado já desempenhou esse papel no começo da gestão Eduardo Cunha na Câmara e poderá voltar a fazê-lo. Poderá ser uma instância do sistema político que terá que assumir a tentativa de moderação das propostas do governo. 

Cabe perguntar o papel das diferentes forças políticas neste processo.Existe um movimento cujo sucesso parece bastante improvável de isolar o PT do resto da oposição. Evidentemente não existe motivo para isso, dado o desempenho do PT, que elegeu o maior número de governadores e a maior bancada na Câmara. A oposição unida terá uma força relativa e dividida não terá força alguma . Este movimento que dá a impressão de uma renovação do debate do primeiro turno não deve prosperar, mesmo porque não me parece que os irmãos Gomes terão capacidade de ser os únicos propositores de um movimento de oposição devido tanto ao fraco resultado da candidatura Ciro Gomes quanto ao seu isolamento político em um estado, no Ceará. Ainda assim surpreende a ausência auto impostado PT dos debates públicos pós-eleitorais e especialmente a ausência daquele que tem capacidade de ser um dos lideres da oposição a partir de janeiro, Fernando Haddad.Acho que o que pode surgir em janeiro é uma concertação do centro democrático que,tal como fazia a oposição no início dos anos 80, não deve ter apenas um líder. 

Devido  ao amplo trânsito que Haddad adquiriu no segundo turno entre atores políticos, artistas e grupos religiosos justamente ao descentrar a narrativa nós versus eles que caracterizou o PT durante boa parte da crise, ele deve tentar ser parte de uma liderança que deve ter outros atores do PDT, do PSOL e do PSDB se possível. Mas, é preciso que os senadores e a bancada do PT deem a Fernando Haddad o respaldo que ele precisa para articular a oposição em torno principalmente das causas democráticas que estarão sendo disputadas nos próximos meses.

Por último, temos a questão dos movimentos sociais e de atores da sociedade civil. Alguns movimentos sociais que são importantes na disputa política em curso no país serão atacados nos próximos meses. As universidades também serão alvo, ainda que com níveis mais baixos de truculência. O MST e MTST são os candidatos principais a serem fortemente atacados. É importante entender o papel destes movimentos. Eles questionam uma estrutura absurda de organização da propriedade que não é liberal e nem é democrática. São propriedades rurais improdutivas ou propriedades urbanas que segundo o estatuto da cidade não poderiam continuar constituindo um estoque especulativo. Mesmo o agronegócio - suposta vitrine dos atores modernos do campo- usa frequentemente da violência e não segue a lei ambiental. Ainda assim, o estado brasileiro em todas as suas dimensões tem sido leniente com estas formas privadas que associam o pré e o pós moderno no uso da propriedade na cidade e no campo.Os movimentos que tensionam a propriedade agem no interior da ordem liberal democrática que permite sim a desobediência civil. Estes movimentos acatam as decisões judiciais e portanto não constituem óbice ao estado de direito. Atacá-los ou proscrevê-los seria um crime contra a própria democracia que dificilmente passaria pelo STF, cujo papel deverá ser o de arbitrar disputas desta natureza.

A oposição ao governo Bolsonaro terá que ser uma oposição multi nível e multi atores e nela devem caber umconjunto de atores que discordarão entre si sobre diversos temas, mais uma vez como a oposição ao regime autoritário fazia no início dos anos 80. Questões como reformas econômicas e da previdência vão naturalmente dividir o campo oposicionista, como dividiram no ano passado ou até mesmo em 2003 quando a reforma proposta pelo ex-presidente Lula teve votos contrários na própria bancada do PT. Outras questões como meio-ambiente poderão agregar outros atores do campo liberal ou liberal conservador, uma vez que não há incompatibilidade entre liberalismo econômico e meio-ambiente, tal como vemos na França e na Alemanha. O importante é que exista uma oposição unida em relação à pauta democrática.

O que o Brasil e a oposição democrática necessitam hoje é nenhuma transigência emrelação a direitos democráticos e direitos civis.Políticas de forte repressão da população negra nas favelas, de repressão a movimentos como o MST ou a minorias têm que ser respondidas imediatamente.Esse tem que ser o momento no qual os diversos atores políticos com seus projetos distintos digam um alto e sonoro não ao presidente e à sua provável tropa de choque no Câmara. Esses também devem ser os casos em que oposição e STF unam-se não para governar e sim para colocar um basta em possíveis abusos.

Não sei se Bolsonaro, tal como Trump, chorou quando viu que ganhara as eleições, mas acho que ainda mais que Trump, Bolsonaro não está preparado para governar. O nível dos parlamentares que apoiam o seu governo e devem se tornar ministros importantes como OnixLorenzonni e Magno Malta antecipa um bate cabeça político do qual estamos assistindo apenas um trailer, com idas e vindas sobre MEC, universidades públicas, previdência, meio-ambiente entre outros tópicos. O desconhecimento do super ministro da economia em relação ao orçamento também assusta. Por fim, sobram poucos ministros com credibilidade e tudo aponta para um governo que vai buscar o apoio das forças conservadoras tradicionais no Congresso e fora dele. Muitas destas forças eram apenas atores com visibilidade, quando pensamos em Maitê Proença, Alexandra Frota e Kim Kataguiri. Não é possível enxergar capacidade de governabilidade nestes atores que foram relevantes em criar uma oposição ao governo de esquerda e caminham para ocupar postos administrativos relevantes. É difícil saber o que vai ser um governo Bolsonaro, mas a oposição democrática precisa estar atenta aos movimentos dentro e fora das instituições e começar a se organizar desde agora.

Leonardo Avritzer
No GGN
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Hoje, milhões de pessoas ficarão sem médico. Nenhuma é cubana


O povo vai vencer no final, relaxem. O volume de besteiras dessa legião de extremistas é monumental. Eu discordo do Zé Dirceu. Acho que o Bolsonaro não dura. Acho que a base popular dele é frágil. E acho que pensar que isso é “salto-alto” é sofrência-rivotril.

As ondas vão e vêm.

Ao ouvir a música cubana, ontem, no luto pela destruição final do Programa Mais Médicos, fui tomado de uma esperança e tive renovadas as minhas forças de resistência.

Cuba é muito amor. Como o Brasil de Lula e da democracia.

Enseja preocupação, é claro. Cuba sufocou sua elite (foram todos para Miami), o que fez um bem enorme à sua população trabalhadora e a sua sanidade social.

Nós, brasileiros, somos conciliadores. Queremos "ensinar" a classe média limitada a ser gente.

Tarefa hercúlea.

E o que nós assistimos é um poder judiciário parasitado por essa concepção rudimentar de sociedade impregnada na cabecinha minion da playboyzada concurseira.

Eles não suportam o amor e talvez, por isso mesmo, nossa história seja diferente da de Cuba (e vai continuar sendo, ou: não pegaremos em armas para civilizar esses grotões elitistas da população videotizada).

Basta amar e oferecer o amor como elemento desconcertante de luta. Lula fez isso.

Com overdose de democracia, ele venceu a infâmia da nossa elite por 13 longos anos.

O povo trabalhador que se acha classe média, com sua burrice e violência, estancou o processo democrático, uma pena.

Mas, que disse que seria fácil?

A gente constrói de novo.

O ciclo é esse: a esquerda constrói (inclusive a riqueza material e intelectual) e a direita destrói.

A esquerda planta e a direita preda. A esquerda sonha e a direita urra. A esquerda ama e a direita odeia.

A palavra ‘elite’ se tornou pejorativa. A palavra ‘direita’ se tornou anti civilização. A palavra ‘esquerda’ tornou-se sinônimo de democracia. É inexorável e incontornável. É semântico. O massacre truculento que a direita produz no Brasil e no mundo lhe será tóxico linguística e simbolicamente.

Nem sempre foi assim, claro. A esquerda também passou por isso, com deslumbramentos e erros do passado.

Mas quem erra agora é a direta. E assim, caminharemos.

A despedida dos médicos cubanos que deram uma lição de amor e de medicina (a melhor do mundo) ativa essa memória da utopia, necessária, poderosa e revolucionária.

Ela nos faz lembrar que ainda temos brasileiros plenos de amor e de civilidade, prontos para dar uma resposta histórica ao surto de ódio que se alastrou pelo país.

Amar os cubanos, por toda a sua humanidade, nos lembra que é preciso também amar os brasileiros irmãos, aqueles que não se omitiram e nem se esconderam em meio ao ódio purulento de parte da nossa elite.

Somos maioria. Somos 70% do país (avalie-se o resultado eleitoral e a estatística é essa).

Como Cuba, faremos o nosso futuro, mas à nossa maneira: sem armas, mas com ideias poderosas que valem mil obuses.

E dentre todas as luzes que nos inspiram a continuar lutando em todos os sentidos e frentes, fica o meu agradecimento ao povo cubano, o povo mais feliz e orgulhoso das Américas, o povo que ama a si próprio, o povo que ama suas crianças, o povo que ama todas as pessoas do mundo – sentimento que os faz exportar sua excelência médica para todos os confins da civilização e da não civilização.

Hoje, milhões de pessoas ficarão sem médico. Nenhuma é cubana.

Gustavo Conde é linguista, colunista do 247 e apresentador do Programa Pocket Show da Resistência Democrática pela TV 247
Foto: Araquém Alcântara



Primeiros 196 médicos cubanos deixam o Brasil


Depois de três anos de trabalho no Brasil, um grupo de 196 médicos retornou nesta quinta-feira a Cuba, após o anúncio de Havana de sair do programa Mais Médicos devido a críticas do presidente eleito Jair Bolsonaro.

Segundo a Agência Cubana de Notícias (ACN), os médicos chegaram "felizes por terem cumprido sua missão", mas também "preocupados com a sorte do povo brasileiro com o novo presidente eleito".

Cuba anunciou ontem que iria abandonar o programa brasileiro – do qual participa desde a sua criação, em 2013, através da Organização Pan-Americana de Saúde (OPS) – devido a declarações de Bolsonaro, que anunciou mudanças a partir de 1º de janeiro.
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